Translate

Thursday, June 04, 2009

SKY BLUE SKY












o inverno,
fora de hora,
que tira o afago
dos corações solitários

é o mesmo

que galanteia
o rigor da roupa
o calor do chocolate
o cobalto no céu
de lua cheia

o inverno
é distraído
enquanto há morte
nos arredores –
o mote da morte
numa chacina miserável

no abandono dos sofridos

na cor do atlântico
a esconder o sangue

da desgraça
sem abono

o inverno
imerso em cinza

algoz da calçada

parente distante do Rio

ilógico, acredito
na promessa
de bom sonho
à madrugada
por um detalhe
arredio na espera:

ele, inverno,
sem mágoa,
é nesga
da primavera


Paulo-Roberto Andel, 04/06/2009

Tuesday, June 02, 2009

GRANDES POETAS



CACASO

então
senti que o resumo
é de cada um
que todo rumo
deságua em lugar comum
então eu monto num cavalo
que me leva a Teerã
e não me perco jamais
quando desespero vejo muito mais
essa canção me rói, feito um mistério
essa tristeza dói
meu fingimento é sério
como aéreo é sempre todo amor


TORQUATO NETO

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


MANOEL DE BARROS

a poesia,
a poesia está guardada nas palavras
é tudo que eu sei
meu fado é não entender quase tudo
sobre o nada eu tenho profundidades
eu não cultivo conexões com o real
para mim poderoso não é aquele
que descobre o ouro
poderoso pra mim é aquele
que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas
por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil
fiquei emocionado e chorei
sou fraco para elogios.


ARNALDO ANTUNES

alta noite já se ia,
ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha,
alta noite já se ia,
ninguém com os pés na água.
nenhuma pessoa sozinha
ia, nenhuma pessoa vinha.
nem a manhãzinha,
nem a madrugada,
alta noite já se ia,
ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha,
alta noite já se ia,
ninguém com os pés na água.
nenhuma pessoa sozinha
ia, nenhuma pessoa vinha.
nem a estrela guia,
nem a estrela d'alva,
alta noite já se ia, ninguém na estrada andava.
no caminho que ninguém caminha,
alta noite já se ia,
ninguém com os pés na água.


CARLITO AZEVEDO

rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes

Friday, May 29, 2009

APOIO AO MOVIMENTO “CADÊ PATRICIA?”
















APOIO AO MOVIMENTO “CADÊ PATRICIA?”

EXISTEM QUESTÕES QUE NÃO PODEM DEIXAR DE SER MENCIONADAS.

SÃO QUESTÕES DE ORDEM PUBLICA E SOCIAIS.

QUESTÕES QUE, QUANDO SE CONSTITUEM EM PREOCUPAÇAO DA SOCIEDADE, QUE COBRA O QUE LHE É DEVIDO, TÊM MUITO MAIS CHANCES DE SER SOLUCIONADAS.

ACREDITAMOS QUE DEVE HAVER SEMPRE RESPEITO DAS AUTORIDADES CONOSCO, CIDADÃOS. POR ISSO, APOIAMOS O ESFORÇO DA FAMILIA AMIEIRO FRANCO EM ESCLARECER O DESAPARECIMENTO DE PATRICIA AMIEIRO FRANCO.

A FAMÍLIA TEM DIREITO A RESPOSTAS.

A SOCIEDADE TEM DIREITO A RESPOSTAS.

CONVIDAMOS A TODOS PARA QUE ACESSEM O SITE WWW.CADEPATRICIA.COM.BR, E VER DE QUE FORMA PODEMOS AJUDAR. SEJA ATRAVES DE E-MAILS, MENSAGENS EM SITES, PARTICIPANDO DA COMUNIDADE NO ORKUT OU COMPARECENDO À MANIFESTAÇÃO QUE SERÁ FEITA NO DIA 07 DE JUNHO, DOMINGO, ÀS 10 HORAS, NA AV. SERNAMBETIBA 4.250, CONDOMINIO VIVENDAS, POSTO SEIS DA BARRA DA TIJUCA.

DIVULGUEM ESSA NOTÍCIA.

ESTAMOS JUNTOS NESSA!

Tuesday, May 26, 2009

A penúltima vox do Brazyl




















Paulo-Roberto Andel, 26/05/2009

Friday, May 22, 2009

SOY LATINO-AMERICANO E NUNCA ME ENGANO
















ZERRODRIX

Era 1976 para 1977. Tempos de horror; minha mãe chorava todo dia por problemas na família. Morávamos em Madureira, ou Vaz Lobo, temporariamente; coisa de uns seis meses, mas não era fácil. Lá fora, a Máquina Tricolor dava shows e ganhava campeonatos, mas eu ainda estava com meus carrinhos e um playmobil.

Perto de casa, uma pequena lanchonete. Uma das melhores coxinhas de galinha que já comi em minha vida. Mãe sempre pedia para buscar um lanche lá. O rádio tocava uma canção:

- Soy latino-americano, e nunca me engano... nunca me engano!

Um dia, até a dor passa. Voltamos para Copacabana.

xxxxxxxxxxxxx


Nos últimos dias, uns quinze, talvez sedento por redescobrir intensamente uma das minhas bandas da juventude, ouvi com intensidade o Joelho de Porco – provavelmente a melhor banda de rock-humor do Brazyl em todos os tempos, ainda que o humor esteja sempre presente em qualquer rock.

No YouTube, as delícias de se rever “A última voz do Brasil”, um dos eternos clássicos pop do nosso cancioneiro. Apresentação antológica no Festival dos Festivais, com direito a orquestra e coro.

David Drew Zingg, um dos pilares da fotografia mundial, com nariz de porco, claro, e seu sotaque inconfundível. Tico Terpins, também antológico. Prospero Albanese aos potentes gritos. E Zé Rodrix, com seu timbre ímpar e seu jeito de compor também (o piano de “A última...” é a cara dele).

xxxxxxxxxxxxx


Parceiro de Sá e Guarabira, bem-sucedido na carreira solo e nos jingles, inevitável artífice do Joelho de Porco, Zé Rodrix é um dos gênios brasileiros que o povo não escutou direito – e a crítica não entendeu direito.

E mesmo que não fosse nada disso, tá lá tatuado na minha infância e na minha adolescência.

xxxxxxxxxxxxx


Ontem, fiquei triste. Aniversário de um ano da morte de meu pai.

Quando nos deparamos com a dor interminável, o jeito é buscar alívio.

Lá estava eu, com obsessão catalânica, diante do computador, para mais uma sessão de “A última voz do Brasil”. Rir é sempre um bom remédio, ainda que o Joelho, sob risos, denunciasse um Brasil bizarro que aí está até hoje.

O vídeo tem quase dez mil acessos no YouTube. Expectadores deixaram seus comentários por lá. Um deles, patético:

- A banda é ótima... pena que o chato do Zé Rodrix apareça o tempo todo.

Perdoai-o, señor; ele não sabe o que diz. Teu Deus do céu, que palpite infeliz.

Último play. Stop. Desativar.

Leo sumiu, Taty estava ocupada, Bola letrou um caô.

Éramos eu, doze pães franceses, queijo cheddar, coca-cola. Hamburgers.

E um pouco de jazz.

xxxxxxxxxxxxx


Acabo de chegar ao trabalho.

Zé Rodrix acabou de morrer, no mesmo dia em que meu pai, um ano depois. Poucas horas depois de tê-lo visto mais uma vez em vídeo. Deveria ter sido proibido o seu falecimento, assim como os de Candeia, Tom Jobim, Sivuca e Blecaute e muitos mais. A única hora em que o autoritarismo poderia ter alguma utilidade.

Minha família foi embora.

E a música do rádio, também.

Eu quero um Joelho de Porco para mim!


Paulo-Roberto Andel, 22/05/2009

Wednesday, May 20, 2009

ÁGATA












maio já está no final*
o atlântico, serenamente,
namora a dorsal;
não são só dois, não só casal
por um instante reticente:
muita lenha há para se queimar
sem par e tal

anseia o pano
que navega aquela pele;
atiça o colo
num pecado carinhoso;
inveja a plebe
que não tem tamanha verve;
invade os sonhos
num olhar de fogo aceso

é a lua, tão nova e indiscreta,
mal-disfarçada numa nesga,
que se revela e desnuda -
quem a bem repara
não alimenta rusga,
apenas uma tátil canção
de pólvora:
todo amor no continente,
meu prazer no horizonte,
tom num jazz latente,
certo tesão sem máscara

por ela, querela é pétala;
por ela, rancor é mingua;
meu coração
é uma escola de samba
e tateita, tateia:
ah, lua cheia,
ágata da minha vida!
jóia pequena do meu desejo,
doce licor da lascívia em sina;
negrume aos olhos, aos cabelos,
ao céu rebento,
sem retrocesso:
lua, não me despeço!
teus versos são fonte
que nunca termina.



Paulo-Roberto Andel, 19/05/2009

(Contém trechos de “Maio”, Paula Toller e George Israel, 1998)

Tuesday, May 19, 2009

VOCÊ, VOCÊ!
















você, que me liberta
você, que me acelera
você, que faz da hora e meia
meu viver noutro planeta
você, castelo de sonhos
que não me trai nem desampara -
você me regenera!

é por você que canto,
é por você que sonho,
é com você que vibro
num carnaval fugaz;
você, minha crença;
você, melhor sentença
do meu coração em paz


Sou Tricolor desde que nasci; talvez, antes disso. Nunca deixarei de ser. Quem conhece as cores, as gentes e as moças da minha arquibancada sabe muito bem do que me orgulho.

Paulo-Roberto Andel, 19/05/2009

Monday, May 18, 2009

SHORT CUTS - CENAS HUMANAS E UM BESTALHÃO



Sexta-feira, dezenove horas.

Não escuto a “Voz do Brasil”, mas sim a campainha.

Fernando, meu amigo. Vinte e sete anos sem contato visual não-virtual. Os tempos voam longe.

Trinta segundos de um forte abraço, e tudo volta como era antes.

Jogos de futebol no rádio, com Waldyr Amaral e Jorge Curi. Saldanha comentava, os repórteres de campo eram Kleber Leite e Loureiro Neto. No Botafogo, Borrachinha, China, Ademir Lobo e Mendonça. Fluminense? Wendel, Miranda, o velho Moisés, Edinho, Pintinho. E Nunes.

Amigo é amigo, não importa a pausa. Aperte o botão, e a fita cassete continua do ponto onde parou. Tanto faz se havia Muro de Berlin, Jimmy Carter ou Roberta Close. O mundo gira, a Lusitana roda.

Camarão no Bar do Peixe, coisa fina. Pequenos regalos da vida.

Estamos de volta.

xxxxxxxxxxxxx


Sábado nublado pela manhã, deixo a casa de Dória, no Méier. Rimos muito por lá. Não direi o assunto.

Preciso chegar em Niterói, onde Gustavo e Irene me esperam para um almoço. Um grande almoço. Na casa deles, qualquer refeição é monumental.

O Méier é terra das meninas lindas. Sempre. Antes, havia Luciene, Sonia Chris e mais outra, que não merece tamanha audiência. Deixe estar.

Desço a Dias da Cruz, movimentada como lhe convém.

Uma senhora na contramão. Quarenta e poucos anos, talvez mais. Nas mãos, uma caixa de doces. Não está vestida humildemente, não parece uma trabalhadora de rua, uma vendedora de balas. Caminha lenta, mas firmemente. E chora.

Por conta das lágrimas, tento lhe falar algo, mas delicadamente ela faz um aparte, mostrando a palma da mão livre, e segue seu caminho. Outra garota tenta, em vão. A senhora parece numa procissão de dor. O resto da turma segue indiferente, fingindo não ver e, conseqüentemente, se omitido. Preocupação com a dor dos outros, para eles, é comunismo.

Em sua recusa de compartilhar a dor, em sua caminhada serena de morte, em sua tristeza infinita, a moça tem uma dignidade

Vem o 247.

A garota senta perto de mim e me pergunta o que tinha acontecido com a senhora.

Nunca saberemos.

xxxxxxxxxxxxx


A casa de Irene é para se ouvir sua risada. Talvez seja um dos únicos lugares na Terra onde ainda me sinto em casa, além de não querer vir para minha própria casa quando chega o fim da atividade. Confesso que já deixei mais de uma namorada na mão só para ficar lá. Confesso também que não me arrependi, exceto num dia em que um louco chato defendia a democracia de Armínio Fraga.

Meu casal de amigos é daqueles para você ficar conversando por horas, horas e horas.

Aproveitei o ensejo para fazer uns golaços no futebol de botão.

Antes, fala-se de tudo: programas trash, esportes, gente bizarra, chatos, canções, biscoitos e até o incrível fato de um sexagenário efeminado sedento por manjar meu “bilau”, como saberemos adiante.

xxxxxxxxxxxxx


Domingo era dia de Fred.

Dizem que Fred morreu. Eu vi, mas não acredito. Eu acredito, mas não confio.

Fred é meu pensamento, é minha lembrança e meu arsenal de risadas.

Fizemos um almoço-chope-tributo ao amigo querido. De meio-dia até três ou quatro da tarde, talvez. Delícias da Cobal do Humaitá.

Fechamos conta às oito.

Ri muito com Jorge Pinto. Um dia, eu conto.

Fred vive, do jeito dele e nosso.

xxxxxxxxxxxxx


Eu prometi que não ia mais falar de meus três detratores, mas priorizar meus cem fãs do Orkut, meus trezentos amigos e todas as pessoas de bem que visitam meu blog. Dos três apedeutas, dois sossegaram o facho, talvez por traço no Ibope. Restou um.

Peço pausa para uma vezinha. A última. A piada é boa demais para ser verdade. Conversei com uma gata-jornalista sobre o tema e ela me incentivou.

Em quinze anos de vida eletrônica, já vi de tudo em e-mails, listas, sáites e blóguis. Mas a surpresa é sempre uma possibilidade.

Recebi uma mensagem dum sujeito por estes dias. Mensagem, não; um número dois, vindo de um número dois com cérebro de número dois. Da natureza dos covardes, assinou como Anomymous. Compreendo: se eu também fosse um covarde e não tivesse sequer vinte reais para pagar uma conta de luz (quanto mais as custas de um processo judicial), por exemplo, faria o mesmo. Pensando bem, não faria.

Não um leitor, propriamente: na verdade, um borra-botas, vociferando contra mim palavras de baixo calão que, por conta de sua frouxidão, jamais serão repetidas em minha frente, na cara – a marca registrada dos covardes. O dito cujo teria idade para ser meu pai – caráter, não. Mas exerceu o direito democrático de escrever tolices como se fosse um pós-adolescente, repetente incessante no segundo grau. Tudo bem, um idiota a mais, um idiota a menos, está na média. Nem todo mundo tem culpa de ter trinta anos a menos de idade mental. Também não terei, caso o encontre na rua e coloque seu focinho na nuca num estalar de dedos: agirei sob forte emoção, à letra fria da lei. Mas não comemoro: quebrar meia-dúzia de dentes podres de um fracote não é nenhuma vantagem para um boxeur – no caso, o oponente é um bunda-mole que não resiste a dois segundos de luta.

Anonymous, na verdade, é um ser(?) vinculado à espécie Desocupadus Caqueticus Durangus, mais precisamente dentro do gênero Sexagenarius Fracassus Artisticus. Não é catalogado como uma criatura em extinção; na verdade, nem catalogado está. Sua crônica incapacidade de atrair fêmeas para um simples bate-papo não permite a propagação dos genes: efeminado, tenta acasalar por meio virtual, sem nenhum sucesso; confuso, usa Viagra como supositório e acha o comprimido “pequeno”.

Em suma, como diria Catalano... um bestalhão – tudo enquanto exerço minha modesta profissão em minha pequena sala refrigerada (sem riscos de corte de luz por inadimplência), com renda e estabilidade; escrevo, converso, brinco, vejo o Fluzão, ouço música, transo bem, beijo bem, como churrascos e leio Hemingway.

Um invejoso porque mulheres lindas e cultas, camaradas de alto nível moral e intelectual me elogiam aqui.

Tenho culpa?

Duas coisas me chamaram a atenção. Nenhuma por importância, mas pelo ridículo.

A enorme fixação redigida que o "remetente" apresentou por meu órgão sexual e minha barriga, demonstrando ser portador de SIVA.* - deixo claro que o ofensivo baitola não me patolou, embora possa ter desejado contemplar minha ereção (ARGH!).

O fato de um sujeito, em 2009, para parecer “descolado” ou “malandro” utilizar a expressão “sacumé” em seu deprimente “texto” fedendo a chorume. Raras vezes vi algo tão cafona, ultrapassado e fora de tom. Merecia um Troféu Abacaxi no Chacrinha. Nem os hippies de barba-suja-de-macarrão sobreviventes de Woodstock aceitariam tamanha breguice. Sinal completo de coma sexual. Decadência.

No fundo, no fundo, estas linhas finais não passam de uma verdadeira boa-ação; trata-se da única chance de Anonymous ser conhecido ou discutido por trezentas pessoas: sendo mencionado em meu blógui.

Pela última vez.

Este é seu trajeto de vida, velório e enterro. Morreu como viveu: sob indiferença e uma ou outra risada.

No mais, Revertere Ad Locum Tuum.

Pá-de-cal.

Gargalhadas. Muitas.

xxxxxxxxxxxx


Trezentos amigos, eu gosto de vocês.

xxxxxxxxxxxxx


* SIVA = Síndrome da Viadagem Adquirida.


Paulo-Roberto Andel, 18/05/2009

Friday, May 15, 2009

RÉQUIEM PARA UM FRACASSADO


Paulo-Roberto Andel, 14/05/2009

Thursday, May 14, 2009

RUAS ESTRANGEIRAS


















nada nestas ruas
ergue os alicerces
das imagens familiares
aos meus sonhos,
nada

esta gente
humílima e sofrida,
de mãos em súplica
e veias saltadas de dor;
essa gente
indiferente e solitária,
com frieza à queima-roupa,
visando vida
com a miopia das vitrines;
aquela gente pusilânime,
hipócrita e covarde,
escória da raça vil e traiçoeira

não tropeço nas banguelas
das pedras portuguesas
que adornam estas calçadas –
elas já não me enganam

não me reconheço
nas praças gradeadas;
nos condomínios de grande luxo
e vida mínima,
entrincheirados,
fazendo vezes de masmorra;
meu rosto não reflete
nos letreiros atônitos
a destrinchar língua importada,
e nem nas esquinas inexistentes.

o toque de recolher,
a mudez do samba
e o sangue derramado
feito leite azedo
não me identificam

estou bem longe destas ruas,
estou farto daquela certa gente
que se proclama decente,
mas carrega um ventre em lodo

não sou daqui

entrevado,
caibo na delícia
de me sentir tão forasteiro;
um estrangeiro bravio,
talvez inútil,
mas nem por isso
menos certeiro
sobre a inércia que nos cerca:
falta pólvora no pavio!


Paulo-Roberto Andel, 26/06/2008

Wednesday, May 13, 2009

TREZE DE MAIO?












Caros amigos,

Já cantava o genial Caymmi: “Vida de nego é difícil, é difícil como o quê”.

Mais um treze de maio à vista: cento e vinte e um anos da chamada abolição da escravatura no Brasil: gesto digno, importante, tardio e que, por má execução, acabou não abolindo quase ninguém. Um século e a desigualdade social está ao alcance das mãos, exceto para parlapatões como Demétrio Magnoli, Ali Kamel e o (sempre necessário dizer) parajornalista Mainardiota – todos, sempre com dados estatísticos às mãos e um arsenal de manipulações, aplaudidos por ignorantes deslumbrados que imaginam um Brasil que só existe na Avenida Paulista e na antiga Sernambetiba. Abolição?

Pelas tabelas, há os que vociferam contra o sistema de cotas, tema polêmico, rico e necessário. Reconheço falhas gritantes no sistema vigente, que precisam ser discutidas e realinhadas; entretanto, os mesmos que latem não apresentam qualquer alternativa plausível para a inserção sócio-educacional dos pobres – quando muito, as falácias tão seculares quanto o maio da princesa Isabel: é preciso criar uma “revolução” no ensino fundamental, dizem. Não fosse a hipocrisia de quem a profere, haveria validade plena: de modo algum as classes mais favorecidas têm interesse em revolucionar o ensino público e permitir incrementos aos mais pobres – muito pelo contrário, não admitem publicamente, mas defendem o status quo. Qualquer sujeito sabe que o sistema educacional brasileiro está em processo de degeneração; entretanto, se uma ansiada grande mudança acontecesse a partir de hoje, o que se faria por exemplo com os jovens entre 17 e 19 anos, potenciais estudantes acessando o ensino superior? Enquadrá-los na famigerada Lei de Odracir? Nossos homens de mídia parecem “conhecer” muito de ensino e desenvolvimento, mas são completamente ignorantes em termos de direitos subjetivos. Negar a exclusão social histórica dos negros e seus descendentes no Brasil é vestir na cabeça um chapéu de cone. Em contraprova, os cotistas de meu berço, a querida UERJ, mostraram recentemente melhor pontuação média nas disciplinas, contrastados com os não-cotistas. Esforço hercúleo, dedicação? Ou a comprovação de que o fato dum sujeito ser abonado, ter feito cursinho e ter passado num vestibular público não o torna “mais preparado” do que outro sujeito que, sem as mesmas condições, tenha ingressado na universidade pelo sistema de cotas?

Morri de rir estes dias, lendo um conhecido em seu blógui: faz campanha contra o Bolsa-Família e a vergonha do desvio de dinheiro público. Retrato típico da nação: é funcionário público, ganha quinze mil por mês por um trabalho que, no setor privado, teria um terço dessa remuneração, e vem jogar o problema nos pobres? Um gesto altruísta cairia bem: simplesmente pedir exoneração para poupar o Estado. Ah, isso não.

Há vinte e um anos, ingressei na UERJ, com boa pontuação vestibular num curso de procura restrita, o de Estatística. A ciência em questão mostrava e mostra que, no âmbito nacional, os cursos públicos de graduação com menor relação candidato-vaga tendem a ter um maior número de alunos não-louros-de-olhos-azuis, justamente porque a classe loura-abastada direciona seu poder de fogo e seu preparo “intelectual”, em cursinhos que podem até custar dois mil réis por mês, para os cursos de “doutores”: Direito, Medicina, Odontologia, Engenharia et cetera. Quando você vai a um consultório médico particular ou clínica, não há porque se surpreender no fato de que o médico/ médica que te atende nunca é preto/ preta, nunca é pardo/ parda, nunca é mulato/ mulata. O enfermeiro enfermeira, pode ser. Ah, sim, minha graduação. Começamos com cento e vinte alunos. Quatro pretos. O Brasil é plural. Há advogados pretos, muitos. A minoria, nos grandes escritórios. Quem não se lembra da comemoração feita quando da nomeação do Ministro Joaquim Barbosa para o STF, por ser o primeiro preto lá? Um século de hipocrisia no país da democracia.

O Brasil é plural e convive bem com isso, dizem. Ô. Mas depende da questão geográfica. Em Ipanema, por exemplo, e tão-somente exemplo, bairro-paradigma do Brasil, há muitos pretos. Podem fazer o censo: os locais moram, em sua maioria, nas comunidades de Pavão-Pavãozinho e Cruzada São Sebastião. Pretos na Vieira Souto? Flanelinhas, seguranças de terno ou porteiros. Alguém sabe dizer de algum síndico da famosa avenida litorânea, que seja afrodescendente? Pois é. Por que o Leblon tem mais louros-de-olhos-azuis do que o Catumbi? Por que em Madureira os nordestinos estão mais próximos do empresariado do que no centro da cidade? Por que Japeri tem uma infra-estrutura pior do que o Méier? Há várias respostas; todas, de alguma forma, esbarram num mesmo item: renda.

Mudemos de bairro: comunidade do Jacarezinho. Tem algum morador louro-de-olhos-azuis que esteja cursando faculdade de algum dos cursos que enunciei noutro parágrafo? Cartas para esta redação.

São apenas citações. Não estou aqui tratando de parametrização estatística, embora meu diploma me permita tal chatice. Apenas coloco em discussão algumas máximas insistentemente repetidas pela mídia, repercutidas pelas maritacas falastronas sem a menor reflexão. Em suma, a coisa não é bem do jeito que tentam pintar.

Cotas e bolsa-família, reitero, são paliativos. Paliativos. É preciso mais do que isso se querem transformar o país de verdade. Mas têm importância fundamental no Brasil de hoje, que é bem menos pior do que aquele feito pelo desgoverno de Fernando Henrique. Há muito o que fazer: extinguir deputados que se lixam para o povo, prender bandidos engravatados multimilionários, fazer do Brasil um verdadeiro Brasil – o que é impossível através da “livre-iniciativa” (que nunca foi livre) tão propagada pelos jornais, revistas e patetas de plantão.

Hoje é treze de maio. Falam tanto dos feriados. O país para. Lorotas. A Alemanha também tem. Deveria ser um dia de reflexão para tudo o que acontece nesta terra.

Kamel, Magnoli e Mainardiota são lacaios da renda. Não o fossem, direcionariam seus impropérios contra o movimento nazista veiculado nestes dias pelos noticiários, que está ramificado em todo o Sul Brasileiro.

Não deram uma palavra.

Logo eles, que deveriam se considerar também “afrodescendentes”, num país justo, plural, miscigenado, eqüitativo e que, por isso mesmo, deveria abrir mão do sistema de cotas e do Bolsa-Família.

Sou do tempo em que preto tinha medo de nazista. E branco também.


Paulo-Roberto Andel, 13/05/2009

Tuesday, May 12, 2009

A ÚLTIMA VOZ DO BRASIL!














São quinze pras sete, tá quase na hora
de ouvir pelo rádio a última voz do Brasil

Calem a boca, cantores do rádio!
Tá quase na hora da última voz do Brasil

Vocês não vão saber de nada mais!

Fechem a porta, apaguem as luzes,
acendam as velas para a última voz do Brasil

Em Brasília, dezenove horas!

Aviso aos navegantes: mar de pequenas praias,
calmaria, bóias de luz!

O preço da soja, o dilúvio no Acre
já foram notícias na última voz do Brasil

Os navegadores perderam o rumo,
sem ter as notícias da última voz do Brasil

Vocês não vão saber de nada mais!

Sete e quarenta, tão todos na sala
ouvindo as notícias da última voz do Brasil

Panela no fogo, ampulheta (barriga) vazia,
e aquela folia da última voz do Brasil

Nunca mais vamos ouvir o Guarani

Já passa das oito, barriga vazia
e aquela folia da última voz do Brasil

De agora em diante, é tudo silêncio
e nós nunca mais ouviremos a voz do Brasil

Nosso consolo é ver a TV
Brazil has no more radio service today

Vamos tentar mais uma vez
a última voz do Brasil

A insensatez que você fez
querer ser burguês no Brasil

Atriz atroz, atrás há três
folias de reis no Brasil

E os carnavais nos hospitais
se ouvem na voz do Brasil


(Prêmio de melhor letra no Festival dos Festivais, 1985)

Monday, May 11, 2009

Fosco



inenarrável
a beleza,
tão sozinha
no fosco da tarde,
tão sozinha
no vazio da fala,
tão sozinha
frente à multidão,
que significa
essencialmente
a própria
consolação

indesculpável
a beleza,
tão formosa
mas tristonha;
tão delicada
mas tenebrosa;
insaciável
medonha,
desamparada,
dadivosa

inconteste
a paixão,
a secura
e a dor –
pois não?
sem par,
nem cor dão


paulo-roberto andel, 11/05/2009

Friday, May 08, 2009

Meu dia de Mainardiota!





















Provei do meu próprio veneno, embora sem as intenções maléficas da maioria.

Não era meu intento, mas cheguei lá.

Tenho inimigos virtuais, tal como Mainardiota, o parajornalista do conhecido e lamentável veículo semanal da Editora Abril. A diferença está nos números, sempre eles: Mdiota tem milhares; eu, três.

Tento analisar as razões. Afinal, meu blógui é desconhecido – embora, sem falsa modéstia, o autor seja de boa cepa. E... não sou capanga de Daniel Dantas ou Gilmar Mendes.

xxxxxxxxxxxxx


Tive alguns inimigos na vida. Poucos.

A maioria deles, até a idade adulta, com vocação para a ignorância atroz.

O chefe de escoteiros do grupo ao qual pertenci; uma besta. Um ex-vizinho, que me acusou de ser homoafetivo quando descobriu que algumas de suas namoradas me fizeram muito carinho. Um chato do quarto andar, que fofocava ruindades entre garranchos e monossilábicos.

A maioria da turba gosta de mim. Amigos, garotas, ex-namoradas até. Meu amor. Minha família. Nunca precisei ostentar isso, tal como se faz hoje em dia: já viram a patetada de redes sociais, blóguis e congêneres com fotos de “casais felizes fazendo juras de amor eternas e emanando felicidade às quatro estações”. Pode escrever; alguém nesta história bate com os chifres no topo da porta. Cada um com sua felicidade. E mentira. Há casos piores, até: o sujeito escrever para si mesmo, fingindo ser um fã ou a pessoa amada. Pode parecer demais, mas tem louco para tudo.

xxxxxxxxxxxxx


Minha vida era tranqüila, até o dia em que entrei para o Centro Acadêmico.

Aí, a corda roeu. Eu era PDT de Brizola – logo, para a extrema-esquerda do PT e para o PSTU, eu era de “direita”. Não riam com o fato de me acusarem de ser direitista, menos ainda pelo fato do PT ter tido, um dia, uma extrema-esquerda.

Os caras da “oposição” eram um saco. Reclamavam todo dia: “O CA é um antro de corrupção. Há evidentes demonstrações de tráfico de influência: eles usam o dinheiro dos alunos para comer coxinha e beber tubaína! E o escândalo das passagens de trem? Pegam todo dia, de graça! Isto tem que acabar! (Nelson Merru, 1986)"

Manter um governo de CA dentro de uma universidade sem pertencer a um partido político é barra. Duramos três anos. Perdemos na quarta. Seis meses depois, o CA acabou.

Minha bolsa de estagiário naqueles tempos de Itamar Franco era de dois salariominimux. Ainda era preciso descontar a compra de cartolina, pincel atômico e o lanche. Não sobrava nada. Éramos felizes de toda forma.

Peguei o diploma, dei o fora e fui viver minha vida profissional, cheia de modelos parabolóides e outras matemáticas.

xxxxxxxxxxxxx

Escrevo para mim e meia-dúzia de amigos, desde a adolescência. Com a modernidade dos blogs, resolvi aderir à causa: expor meu trabalho e minhas opiniões (baseadas em análises de fatos) – não dogmas ou imposições que, vez por outra, algum lunático resolve assumir como senhor da verdade. Aos poucos, fui me aproximando de pessoas simpáticas, intelectualizadas, com talentos em várias áreas do conhecimento. Meu blog na comunidade eletrônica do jornal O Globo passou a receber adeptos. De meia-dúzia, a turba virou cem, duzentos, sei lá. Eu e meu textos, meus poemas e minhas opiniões contra a hipocrisia que reina em Pindorama.

Romário, o filósofo e craque, definiu como ninguém: “Babaca, tem em todo lugar”. Um frasista impecável.

O saldo é positivo até o momento: centenas de mensagens parabenizadoras, vindas de gente que passei a admirar com idolatria – logo eu, um iconoclasta. Os poetas (de verdade) Pedro Du Bois e Ricardo Mainieri estão aí para confirmar, por exemplo.

Gosto do ambiente de blogs. Gosto das trocas.

Você, leitor, perguntará: E os três inimigos?

xxxxxxxxxxxxx


Não é minha vocação dar espaço publicitário para pessoas que, comprovadamente, me prejudicaram inclusive cometendo crimes previstos no Código Penal Brasileiro. Logo, citá-los seria perda de tempo e contra-senso. Três bobalhões. Dois palhaços sem graça e uma Cuca do sítio-do-picapau-amarelo.

Mas, contudo, toadavia (assim mesmo), sou uma pessoa justa: afinal, graças a patetas como estes, até mesmo em função das tolices que já disseram a meu respeito, de certa forma ajudaram a divulgar meu trabalho literário, no que lhes sou grato – embora não valham uma gota de secreção mucosa.

Causam-me curiosidade, pelas características em comum: pessoas da terceira idade rumo à fase final (nicho social ao qual sempre dediquei máximo respeito), com enorme disponibilidade de tempo ocioso (fundamental para malversar pessoas que sequer conhecem em termos pessoais ou de obra); pouco ou nenhum conteúdo respeitável nos diários virtuais que publicam; uma necessidade enorme de auto-afirmação como lideranças virtuais; textos impregnados de citações poéticas (sem o devido crédito dos verdadeiros autores, lamentavelmente) e com altos teores de prepotência, mal-ajambrados com referências do pseudo-realismo místico-fantástico (o que pode ser até o caso de tratamento psiquiátrico); auto-exaltação das personalidades próprias (o que deixa até de ser defeito, devendo ser encarado como humorismo) e mais um calhamaço que não cabe aqui. Em suma, poderiam perfeitamente usar dois pares de tênis, em vez de um, a cada caminhada matinal. E andar de quatro. Lentamente.

Não procurei nenhum dos três para relacionamento virtual. Vieram a meu caminho. Carência? Necessidade de afeto? Transtorno bipolar? Inveja? Desconheço as respostas. Tão logo mostraram má-fé, foram alijados dos contatos de meu ex-blog. Então, preocupados com minha pessoa, mais outros amigos queridos meus, têm perdido o tempo ralo de suas vidas na terra a proferir tolices a meu respeito. Por que não descansam em paz, cremados ou putrefatos dentro da caixa mortuária? Por que não tentam o amor e sexo, tão plausíveis depois dos sessenta? Por que não ler um livro, ouvir um disco, ver um filme? Agregar pessoas, defender boas causas, produzir bons conteúdos blogueiros? Em vez disso, futriquinhas, fofoquinhas, maledicências estúpidas e um enorme sentimento de vazio.

Entender o que meus três detratores têm à mente é tarefa árdua. Não há lógica. Mas é sinal de audiência do meu escrito. E qualidade.

Serei bonzinho.

xxxxxxxxxxxxx


Na Terra, três pessoas não gostam de mim, do que eu escrevo. Falam de esguelha. De araque. Não sabem de nada.

Curtem-se. Identificam-se. Assemelham-se.

Por que não experimentam as delícias do ménage à trois? A idosa, velha maritaca, de lésbica ativa; os dois senis esquisitões, de veadinhos indefesos*? Quac!

xxxxxxxxxxxxx


Assim, me tornei um micro-Mainardiota por um dia. Menos, menos.

Tenho formação superior, formação intelectual e não vendo meu texto para bandidos.

Meu sincero tributo a um dos seres “brasileiros” mais abomináveis.




* Inspirado na crônica "Ano Novo, contas novas", de meu ídolo Ivan Lessa, 2001, JB.

Paulo-Roberto Andel, 08/05/2009

Thursday, May 07, 2009

Cruzadas contemporâneas















paulo-roberto andel, 07/05/2009

Wednesday, May 06, 2009

Ser tão










Paulo-Roberto Andel, 06/05/2009

Monday, May 04, 2009

CAVALA














cavala
cavala
por onde nada?

há isca pontiaguda
no encalço
agudo
da tua trilha

há rivais
que te invejam
terras triviais
que te desprezam
cores
que te amedrontam

cavala
cavala
por onde nada?

não te confundo
com a cor opaca
nem com opala
mesmo que você
fuja para outra raia

cavala
cavala
regata de metonímia
lírica

paulo-roberto andel, 04/05/2009

Thursday, April 30, 2009

ESTRICNINA


ligeira, a moça
com seus firmes passos
de juventude à lida

atravessa o boulevard
enquanto
olhares de lascívia
e doçura
escorrem
pelas pedras portuguesas

alguns denotam-lhe
tesão, prazer, perdão,
mas nenhum tem rima -
tão-somente um clima


outros, rejeitados,
sorvem o gosto amargo
da vã desilusão -
é a contramão,
fel à vista,
estricnina


Paulo-Roberto Andel, 30/04/2009

Wednesday, April 29, 2009

Fronteiras

entre a pétala
e o talo,
entre a força
e o fardo,
entre o incêndio
e o rescaldo;
entre o alvo de cortiça
e a agulha do dardo;
entre a secante
e a tangente;
entre a lâmina
e o corte rente;
entre o horizonte
e o zênite;
entre o planeta
e o satélite;
entre o choro
e o desabafo;
entre as frases
e um hiato;
entre o leme
e o pontal;
entre a
última palavra
e o ponto
final.


http://radinho.ning.com/profiles/blogs/otraspalabras-1

Paulo-Roberto Andel, 29/04/2009

Monday, April 27, 2009

Otrospetiscos

CANTO

canto
porque
meu tanto
é pouco,
o quinhão
que tomo
é
pouco
e a nostalgia
não me
apraz

canto
pelo
sopro,
tênue vento
sem maior
intento
na vida
que não
me
condiz

canto
como verso,
que se
desvela
onde há
segredo,
se desnuda
em meio
ao
pensamento
e não
vulgariza
o amor
que doa
paz


MUDEZ

silêncio,
silêncio:
vocação
lúgubre
da paz


NOT SO LONG

not so long
like a shame
burning
into a wild
heart

down by law
like a trust
shining
on a twisted
mind

not back home,
nor back on top -
just in a breathe,
a squeeze:
handsome love


Paulo-Roberto Andel, 27/04/2009

Monday, April 13, 2009

Permita















que
não me permita
confundir
serenidade
com frieza,
mocidade
com beleza,
felicidade
com riqueza

que
não me permita
proclamar
independência
em covardia,
misturar
indecência
na hipocrisia,
deixar rancor
sem fidalguia

que
não me permita
o óbvio, o flácido,
o histérico
e o desamparado,
o colérico
num amontoado,
um retrocesso
a morar do lado

que
não se habilite
a insensatez;
só a honestidade
pode me servir
por vez -
a estrela-guia,
um azimute
que se inicia

que todo mal
não me permita;
apenas permute
a luz pela luz -
a luz da vida,
todavia

Paulo-Roberto Andel, 13/04/2009

Friday, February 01, 2008

MEU NOVO BLOG

Caro (a) amigo (a),

Esteja convidado (a) a visitar meu novo blog, no endereço:

http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action

Obrigado pela visita!

Paulo.

Wednesday, January 30, 2008

Crônicas Tricolores 5 - Chuva de gols

Caríssimos, em mais um capítulo da maratona de jogos que tem marcado a Taça da Guanabara, nosso Tricolor entrou em campo para mais um compromisso contra o Volta Redonda, o Peñarol do sul Fluminense - com sua garbosa e vistosíssima camisa aurinegra.
Vencemos, não convencemos plenamente, mas o time certamente se recuperou do empate contra a agremiação de Macaé – mais ainda, mesmo que timidamente, fez o que se pode dizer de melhor partida este ano; ao menos, a mais equilibrada em termos de dois tempos, mesmo que a goleada tenha sido desenhada apenas no segundo.
Nem a baixa temperatura de um Maracanã alagado com a chuva ininterrupta atrapalhou o pequeno, mas fiel, contingente dos nossos torcedores. Quase dez mil pessoas em Mário Filho, num dia de águas bravas e trânsito caótico, ainda mais no exótico horário das sete e meia. Com chuva, muita chuva. A sina do Tricolor tem sido a chuva neste 2008.
O time mudou, e para muito melhor, ainda que longe do ideal. Ao contrário dos outros três matches anteriores, facilmente viu-se a mudança de comportamento da equipe. Começamos agredindo, buscando ataque, fazendo pressão na intermediária do Volta Redonda, e tudo isso fez diferença. Mais ainda, compensação pelo nosso ainda precário entrosamento, afora a pouca ênfase de jogadas ensaiadas. Convém ressaltar que, embora a entrada de Júnior pela esquerda, no lugar do indeciso Nery, tenha colaborado para a mudança de atitude do Fluminense, houve uma sacudidela coletiva da meia-cancha para a frente, com todos correndo, brigando e buscando a abertura de resultado. O Volta Redonda, recolhido e respeitoso, não lembrava em quase nada o time de outros tempos – há pouco, decidiu contra nós um título do Rio.
Deixando de lado a nossa paixão, o Tricolor até que demorou para abrir o placar – e, curiosamente, numa das raras jogadas ensaiadas postas em prática, fizemos o tento numa cabeçada de Luiz Alberto, que tinha subido à área em função de um escanteio. Antes, vários chutes tinham sido dados contra a meta dos voltas – e o próprio escanteio que gerou o primeiro gol veio de uma grande defesa do goleiro Edinho, em chute de Dodô. Em suma, poderíamos ali já ter uma vantagem. Percebi evolução, vontade, e a diferença de apenas um gol só era preocupante porque sabemos que, no futebol, o um a zero é um triz – e, ao final da primeira etapa, quase os voltas igualaram o marcador; contudo, Nelson e outros deuses do futebol de Laranjeiras afastaram a bola de nossa meta, o que nos fez vencedores da primeira etapa. Não foi um jogo brilhante do Fluminense, mas raçudo e bem-disposto; parte de nossa torcida vaiou, mas não por uma péssima atuação e sim por saber que o Fluminense pode oferecer muito mais.
O pai-de-santo Tiba não foi visto nas arquibancadas, de modo que não se podia sequer pedir o amparo dos orixás para uma vitória consagradora na fase final. Porém, eu senti o aroma da goleada no vento úmido do Maracanã. Ao meu lado, a amiga Rita parecia cética quanto ao resultado, quando bradei:
“ – Querida, o Fluminense goleará. Espero cinco ou seis gols ao final. Será seis a zero.”
Rita riu da fanfarronice macarrônica que parecia vir das minhas palavras. Contudo, o destino do Tricolor é a vitória, é a conquista. E o que se viu no segundo tempo foi uma goleada retumbante, heróica, digna.
Para desespero daqueles que querem um dos nossos atacantes no banco, todos foram bem na segunda etapa, fazendo do Fluminense um algoz implacável dos voltas. Com dez minutos de segundo tempo, resolvemos a fatura: primeiro, num golaço de Washington em cobrança de falta, bola precisa no ângulo direito, impecável. Os amigos sabem com clareza; há milênios que não temos um finalizador, um centroavante, que tenha o dom da cobrança de falta. Washington tem. Como é importante ver o homem da frente fuzilando o gol adversário com maestria. E, em seguida, com o desespero de Volta Redonda, contra-atacamos e fizemos o terceiro, com o demolidor Leandro tocando rasteiro na saída de Edinho, Leandro que fora municiado por Washington. E, mais uma vez, Washington, em falha no rebote do goleiro, mas mostrando o faro de artilheiro, fez o quarto. Pela primeira vez no ano, ficamos tranqüilos bem antes do jogo terminar. Eu vi Rita e sorri, dizendo-lhe que os dois faltantes viriam para o sexteto retumbante de gols.
Jogávamos em franca velocidade e as jogadas vieram uma atrás da outra. Poderia ter sido mais, e desimporta se disserem que o Volta Redonda está mais fraco, que o Volta Redonda tem menor investimento, que o Volta Redonda já não é o de antes. Vale o que está escrito, e a súmula mostra uma goleada impiedosa, com um Washington esplêndido.
Fomos atrapalhados pelo gol dos voltas, numa desatenção que não pode se repetir. Tomar um gol de bola quicada n’área seria motivo de derrota e crise, se tivéssemos levado primeiro que eles. Falha sim, mas num momento em que podia acontecer. Menos mal.
Eu não destacaria um jogador em especial nesta vitória expressiva, pois acho que o time foi dedicado e aplicado, mesmo com a exuberante partida de Washington. As entradas de Roger e Cícero foram boas. Foi uma vitória de coletivo. Entretanto, cabe a menção um jogador de alto nível técnico que não vinha conseguindo mostrar o que sabe, e que fechou a partida com chave de ouro: Dodô. Sim, amigos, Dodô correu, passou, chutou muito, lutou e foi premiado a dez minutos do fim com um golaço, de artilheiro que sabe matar o goleiro. Um chute fortíssimo, que estufou o ângulo direito do goleiro do Volta Redonda, após dribles na direita da grande área. Um chute para desafogar mágoas. Tenho em mente a bela imagem que foi a do time inteiro vir em volta de Dodô para abraçá-lo; todos esperavam o primeiro grande gol dele com nossa camisa, e aconteceu. E ainda houve tempo para mais uma jogada fantástica dele ao fim do jogo, humilhando o zagueiro da direita e cruzando perigosamente. Agora, sim, vestiu de vez o manto Tricolor. Durante a partida, ao desperdiçar uma oportunidade, Dodô desabafou num rompante que perder aqueles gols tinha a culpa de alguma praga botafoguense, para fartos microfones abertos da imprensa, atrás dos gols - e hoje, alvinegros vociferaram alegando que o artilheiro tinha desrespeitado General Severiano. Para nós, Dodô mostrou, isto sim, um repertório de competência que foi coroado com um golaço – o resto é falácia.
Foi o quarto jogo em dez dias. Não fomos aprovados com honra ao mérito, mas a goleada, as boas jogadas e os vários lampejos de talento, principalmente no segundo tempo, sugerem que um Fluminense forte - mais forte do que nunca - pode estar a caminho. Assim como não jogamos bem com três atacantes no sábado, ontem tivemos excelente jornada no segundo tempo com o trio. E a imprensa esqueceu-se de que ainda temos Dario Conca para estrear.
Veremos o que nos espera pela trilha.
Errei o placar. Atirei no que vi, acertei no que não vi. A goleada é fato.


Paulo-Roberto Andel, 30/01/2008

http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog

Monday, January 28, 2008

Crônicas Tricolores 4 - Um pequeno revés

Caríssimos, a partida de ontem à noite, contra a estreante agremiação auriceleste do Macaé, não foi de boa jornada para o Tricolor, ainda que o resultado final não tenha sido altamente comprometedor para a classificação na Taça da Guanabara. Jogamos mal e, como conseqüência, a partida foi de fraco nível técnico, sem desmerecimento dos valorosos macaenses. Apesar de ser uma peleja limpa, com poucas faltas, foi bastante truncada e com poucos lampejos de criatividade. O empate em dois tentos foi praticamente justo e, se os adversários de Laranjeiras quiserem falar do gol que os estreantes perderam na última finalização do jogo, posso lembrar de dois pênaltis claríssimos a nosso favor – que foram solenemente ignorados pelo rechonchudo árbitro Damásio, bem como sua loura assistente. Voltamos a sofrer dois gols no primeiro tempo e, embora merecidos, eles contaram com um misto de nossa desatenção e o salpicar de sorte.
Tudo começou com a chuva, a mesma chuva que vem nos perseguindo em todas as partidas. Nas arquibancadas, quero destacar a beleza do coletivo intitulado Legião Tricolor, uma torcida que visa exclusivamente apoiar Laranjeiras e, hoje, já repleta de uma multidão como as de torcidas organizadas convencionais. Os legionários, com seus sinalizadores verdes, deram enorme alegria ao estádio. Os quinze mil torcedores viram o Tricolor começando a partida exatamente como das vezes anteriores neste certame: com certa timidez e baixa velocidade. Ontem, um agravante: a má performance de Gabriel, que errou praticamente tudo o que tentou. Doutro lado, Nery foi Nery. Ao contrário do que quer fazer ver a crítica especializada, o problema do Fluminense não está no trio de atacantes. Washington tem voltado para buscar jogo e briga bem como primeiro marcador na intermediária adversária. Leandro, com alguns erros, tem buscado mais a posição de um ponta-direita, com algum resultado. Apagado mesmo, apenas Dodô; porém, é jogador de fartos recursos técnicos e digno de crédito. Creio que o time foi tomado por súbita apatia, sem culpa do ataque, e muitos foram contaminados, de forma que a velocidade não ocorria e o Macaé segurava-se na defesa, com esparsos ataques.

Num momento, quebrando a monotonia do jogo, veio um grande gol, um golaço, daqueles de se pedir bis, daqueles como fez Thiago contra o Caxias: a bola sobrou na entrada da área, mais à esquerda; Neves dominou, viu o experiente Cássio adiantado e colocou a bola no ângulo esquerdo – muitos torcedores, incrédulos, só bradaram o gol quando a bola já estava há muito nas redes. Uma beleza. E tudo indicava que, com o tento sensacional, o Tricolor rumaria para uma grande vitória. Mas não foi o que aconteceu. Logo de cara, os macaés empataram. O camaronês Steve, tal como um ponta-esquerda de verdade, invadiu nossa área após ter dado um drible da vaca no vacilante Ygor. Feita a jogada, fuzilou como se quisesse acertar a esquerda de Diego; contudo, Washington, sim, ele, ao tentar tirar a bola da defesa, resvalou nela – e a pelota beijou violentamente a direita do nosso goleiro, enganando-o por completo. Foi um chutaço, um tirambaço de Jorge Curi, e o empate foi decretado.
Quando tudo indicava que o empate em um seria o ocorrido em Mário Filho na primeira fase, o Macaé virou o jogo, de forma quase inusitada. Num ataque dos amarelados, a bola sobrou dentro da área, à esquerda, para que o mesmo Steve finalizasse, depois de falha inicial de Nery – errando o tempo de bola, o importado acabou cruzando e Jones completou sozinho, diante da atônita defesa. E terminou o primeiro tempo, sob vaias da nossa torcida, com exceção dos admiráveis legionários, sempre a cantar em prol de uma virada no placar. Estamos mal-acostumados por hoje, eu reconheço: a excelência da nossa defesa no ano passado, a segunda melhor no certame nacional, fez com que passássemos a considerar gols adversários como verdadeiro sacrilégio. De qualquer forma, o respeito aos adversários do interior não os credencia a fazer mais de um gol em nossa defesa a cada primeiro tempo. Apesar da má atuação e dos gols sofridos, de toda maneira eu não enxerguei ali um sinal de derrota fragorosa ou de nenhum conserto. O Fluminense pareceu-me desatento até demais, mas capaz de reverter o placar que, ressalte-se, não foi ocasionado pela propalada sobrecarga dos três atacantes, e sim pela falha coletiva.
Voltamos surpreendentemente sem alterações – talvez Renato estivesse convicto de que as orientações de vestiário fossem suficientes. O time, contudo, retornou com a mesma falta de ritmo da primeira fase, incapaz de agredir um Macaé recuado pela vantagem no placar. E então, Renato tentou a diferença ao sacar Gabriel (com justiça) para colocar Cícero mais à frente, passando Marcos Arouca para a direita. Cícero entrou em campo e foi para a área, veio o cruzamento e ele cabeceou para o empate a nosso favor. Pode-se dizer que foi um golpe da sorte Tricolor, uma vez que o jogo já se aproximaria da metade do segundo tempo e reagir nestas circunstâncias, contra um time fechado, é sempre mais complicado. E, por mais sorte ainda, uma vez que o time não se sacudiu, não vibrou, mesmo igualando o marcador – voltamos ao estado original de antes do tento, mesmo entrando Júnior no lugar do apático Nery.
Os vinte minutos finais foram marcados por jogadas inócuas e pelo gol que os macaés perderam, mais os dois pênaltis que não foram marcados a nosso favor. Faltou-nos força para reagir, para traduzir a superioridade do nosso elenco no campo, na peleja. E empatamos, num revés desagradável. Menos mal o empate, a derrota seria injusta e pesada neste momento.
Os mais afoitos poderão enxergar sinais da crise, de que os três ases não podem jogar juntos, de que o time está muito mal. Penso que foi a terceira rodada, o terceiro jogo. Ainda temos tempo. Foi um pequeno revés. Espera-se que alterações sejam feitas, que surjam jogadas ensaiadas, tabelas, triangulações. Grandes gols, já mostramos que somos capazes de fazer.
Temos quatro jogos para chegar às semifinais da Guanabara, e eu acredito nisso. Todos apontam nosso tropeço, nossa falha, e isso é bom: deixemos os louros da glória efêmera para os preferidos da imprensa. Somos a zebra para os desinformados. No momento certo, quando ninguém espera, o Fluminense tornar-se-á o maior favorito de toda a história. Que não duvidem de nossa capacidade. Ela é tão grande quanto os incansáveis e intermináveis gritos de apoio por parte dos legionários.

27/01/2008

http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action

Friday, January 25, 2008

Crônicas Tricolores 3 - O time da virada.

Caros companheiros, ontem foi dia de grande emoção em Mário Filho, dada a vitória garbosa do Tricolor sobre a estreante e qualificada equipe do Duque de Caxias, vinda de uma goleada de cinco contra o América, no inusitado horário de sete e meia da noite. A emoção não se deu propriamente em termos de uma partida eletrizante, embora tenha sido longe da monotonia, mas sim por causa do complicado início de jogo para nós – uma vez que estávamos com o revés de dois gols em vinte e cinco minutos de partida. Falarei disso.
Antes de tudo, a chegada ao estádio. Chamou-me atenção, mais uma vez, a dificuldade enorme que um torcedor tem para adquirir seu ingresso nas bilheterias de Maracanã. Organizaram uma fila para os jovens de meia-entrada, demoradíssima. Testemunhei que bilheteiros estavam exigindo, além da carteira de entidade estudantil, a da escola de origem e, com isso, atestando a inutilidade do primeiro documento, como se garotos de dezesseis anos estivessem ali em sinal de mentira. Outra situação curiosíssima foi a de que as grades das bilheterias estavam abertas por baixo, ao contrário da posição correta e tradicional – o que fazia qualquer sujeito com mais de um metro e sessenta e cinco ter que praticamente ajoelhar-se para falar ao funcionário. No mais, a apoteose dos cambistas, negociando a céu aberto e à frente de um camburão de polícia. Hoje, no Maracanã, é mais fácil pagar a um cambista do que adquirir um ticket em guichê. Havia um público pequeno para um jogo do Fluminense, mas suficiente para uma conturbada compra de ingressos. Passam-se os anos, e a coisa somente piora; seria muito fácil consertar a compra de ingressos, houvesse interesse.
Adentrei Maracanã, e logo deparei-me com dois fatos muito agradáveis: um, ver a seriedade do goleiro Diego em seu aquecimento atrás do gol à esquerda das cabines de rádio. Estava concentrado, firme, dedicado. Nós, como reza a tradição de Laranjeiras, acompanhamos todo o treino em silêncio, sem atrapalhar, como fosse uma reverência à camisa que já foi de São Paulo Victor e São Castilho. Antes de voltar ao vestiário, Diego foi atencioso com os que beiravam o gramado, e gostei disso – o ídolo precisa saber tratar a torcida. Ele sabe. Outro fato bom foi rever em campo meu amigo Rafael Marques, jovem e já veterano repórter esportivo, criado em berço Tricolor apesar das raízes eternas em São Januário. Rafael, também bastante solícito aos fãs, mostrou inconscientemente ali o que é um jogo do Fluminense: uma festa de amigos, de família, onde as pessoas confraternizam.
Quando nosso time entrou em campo, seu líder à frente era o presidente Horcades. Estranhei o fato, por mais que a hierarquia o explique. Trata-se de um senhor, com peso e, ao caminhar lentamente, fez com que o time, respeitosamente, fizesse o mesmo em linha indiana atrás dele. Entendo que a maneira de subir ao gramado deva ser rápida e vibrante. Coincidência ou não, refletiu depois em campo. E o calção grená, pouco afeito à camisa Tricolor, é sempre um fator desconfortável para bons presságios.
O jogo.
Sob chuva leve que, rápida e brevemente apertou, começou o match e os de Caxias mostraram presença. Ataques, dos dois lados; entretanto, os visitantes, de uniforme todo alvo (com mando de campo, neste estranho regulamento) pareciam mais bem-arrumados, com jogadas rápidas e tabelas. Imagino ser um time formado bem antes de janeiro. Logo, Caxias fez um gol, em cima de nosso lado esquerdo, onde estava o titubeante Nery: um cruzamento da direita, rasteiro, forte, e a conclusão do atacante caxiense dentro da pequena área. Era apenas um atacante contra quatro defensores na ocasião, mas a bola veio bem ao feito de um matador. Um a zero para eles.
Apesar da desvantagem, não houve motivo para o temor exacerbado, mesmo que os minutos seguintes tenham mostrado erros em nosso meio-campo e a situação crítica da esquerda de nossa defesa. Conseguimos alguns bons ataques e, em dois deles, o empate esteve iminente: um chute forte de Dodô, por cima da meta, pela direita do ataque; a cabeçada de raspão de Washington, que beijou a trave direita. O ataque, embora bem marcado, parecia movimentar-se bem; Neves chamava o jogo para si e tentava jogadas impetuosas pela esquerda. Mesmo longe do melhor de nossa forma, a confiança na reação era grande.
E então veio uma estocada perigosíssima. Em novo cruzamento nas costas do desorientado Nery, a bola foi escorada na direita de nossa defesa, aconteceu um novo cruzamento e sofremos um golaço, com a finalização de voleio do veteraníssimo Viola em meio à área – um golaço daqueles que merecem aplauso, dignos do canto do cisne de um campeão mundial. Os torcedores de Caxias, trazidos pela prefeitura local e nitidamente disfarçados de sua real origem de coração, a Gávea, vibraram. Tomar um grande gol em qualquer situação pode ser desastroso para um time, ainda mais com uma diferença de dois a zero em menos de meia hora de partida.

O Maracanã foi tomado por um silêncio desconfortável; todavia, o Tricolor não esmoreceu e, ainda que sob certa desordem tática, buscou ataque. Nossa defesa, sempre segura, ali tinha vacilado, também prejudicada pela ausência de Marcos Arouca. Outro fator que atrapalhava, e também junto do nervosismo, era a tentativa nossa de municiar o ataque com chutões, sem a bola no chão e toques. Os de Caxias, bem posicionados, desarmavam os lances sem falta. A meu lado, o amigo Pai Tiba de Oxossi, deliciando-se com o sabor inconfundível de um cachorro-quente, bradava:
“- Viraremos. Será 4 x 2!”
Veio intervalo e a impressão clara de que Renato mexeria na equipe. Os Sussekinds, meus irmãos de fé, estavam num camarote e telefonaram-me, enquanto nos víamos ao longe. Eu avisei que Pai Tiba de Oxossi tinha previsto a virada monumental. Raul, sempre sereno e ponderado, preferiu um pontual realismo ao telefone:
“- Cara, acho que virar é impossível...”
É claro que essa frase veio de um momento de chateação de um grande Tricolor, um instante. Eu, você e todos nós sabemos que, para o Fluminense, nada é impossível. Marcos Caetano, em brilhante texto, certa vez definiu bem que não há buraco nesta terra capaz de tragar o Tricolor. Mesmo que não tão firme em campo, o Tricolor tomou gols mais por falhas pontuais do que por uma má atuação coletiva.
Renato fez as entradas que já se imaginava: vieram novamente Cícero e Júnior César. E o Fluminense tornou-se um titã enfurecido, incontrolável.
Saída do segundo tempo, fizemos ataques e, numa jogada que parecia perdida, o zagueiro craque Thiago roubou magnificamente uma bola à frente da área, e disparou um tiro de canhão na meia-altura direita, indefensável para o goleiro caxiense. Um chute espetacular, violento e preciso, daqueles que fazem qualquer time reagir e vencer qualquer jogo. Um gol antológico, para premiar tudo o que este rapaz tem feito com a camisa do Fluminense e, sem o menor exagero, no mesmo nível de gigantes do nosso passado mais recente, como Ricardo e Edinho. Thiago dificilmente faz faltas, tem um senso de cobertura fantástico, grande posicionamento, carrega bem a bola e finaliza com maestria. É jogador de Seleção Brasileira, para quem entende do assunto. Não reconhecer seu talento só pode ser fruto de cegueira futebolística.
O gol incendiou nossa torcida, a reação no placar era inevitável. E logo empatamos, numa jogada onde Leandro tentou encobrir o goleiro Fernando, mas a bola não ganhou força na direção do gol; de toda forma, serviu como belo lençol e Leandro apenas chegou perto do gol vazio para tocar e decretar o empate.

Ainda tínhamos mais de meia hora para dominar o jogo em números e, ao verem os dois a dois no placar, os caxias certamente sentiram a pressão que havia se estabelecido, bem como a condição física que não era mais a mesma. Ficou claro que vencer a peleja era questão de tempo para nós.
Demoramos um pouco. Houve um gol justamente anulado de Leandro, impedido. Dodô buscava jogo pelos dois lados. Washington vinha marcar na nossa intermediária. Júnior disparava a todo instante pela esquerda. Neves ia e vinha. Em um certo momento, fizemos quatro finalizações em três minutos. O gol não surgia. Contudo, os de Caxias, baqueados, sequer encaixavam um contra-ataque. Era preciso ter paciência, perseverar.
Numa jogada bem parecida com a que gerou a bola na trave, no primeiro tempo, aconteceu o que todos queríamos e precisávamos. Neves cruzou e Washington, definitivo, venceu todos no alto e tocou para o gol, decretando o terceiro tento. Ali, senhores, o jogo encerrou. O Caxias entendeu que, mesmo tendo uma boa performance, não seria páreo para Laranjeiras. E nada mais fez, exceto aceitar sofregamente a derrota de virada.
Renato, prudente, colocou o jovem Maurício para aumentar o poder de marcação, e tirou o aplaudido Washington, nome de hoje e sinônimo de tantas glórias passadas. Ainda perdemos alguns gols, mas a vitória estava selada.
Diverti-me ao final, com o apito do juiz, ao ver os flamengos disfarçados de Caxias, um tanto cabisbaixos, com remorso. Perceberam que, por mais que a Gávea tenha a predileção da imprensa e dos especializados, encarar o Fluminense será uma pedreira de sete mil quedas. Também agradou-me saber da correção profética de Pai Tiba: os gols aconteceram e, se não foram quatro, foi apenas uma questão de validação.
Mostramos força e valentia, mesmo com uma situação de revés na partida. Viramos. Nós somos o time da virada, o time das vitórias no último minuto. E quem duvida de nós na véspera corre o sério risco de engasgar-se ao fim, enquanto bradamos nossa vitória a cada quarta, cada domingo, cada dia onde a nossa centenária e imortal camisa esteja em campo.

Paulo-Roberto Andel, 24/01/2008

http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030

Thursday, January 24, 2008

A respeito de Dora

Falar que Dora era apenas linda pareceria piegas ou diminutivo; para os mais atentos, não deve ter sido muito fácil descrever seu corpo de estátua grega, seu olhar cintilante e o rosto que cairia bem em qualquer passarela. Contudo, não se restringiu em vida apenas à beleza física.

Dora foi uma das grandes atletas brasileiras de todos os tempos, daquelas que um esporte passa a ser comentado por causa da performance dum determinado atleta. Foi assim no passado com Maria Esther Bueno e Aída dos Santos, para deixar dois entre muitos exemplos. Ganhou a América muitas vezes e bateu as ondas gigantes do Hawai. E virou referência de mulher ao mar.

Dora, de beleza infinita e mais que admirável, tinha um jeito de lady européia, tipo de mulher que cai muito bem na virtude de Ipanema com todo o jeito de Mônaco. Falando manso e com muita articulação. Mais ou menos isso. Charme especial, sofisticado.

Passou a vida desafiando as intempéries da natureza, nos mares, solitária em sua realização pessoal no esporte. Não havia alguém para tabelar, trocar passes, não havia nada ao lado - apenas ela e o mar bravio. Terminou a vida ainda jovem, muito aquém do justo e merecido - e, por desagradável coincidência, da mesma forma como sempre viveu: encarando as dificuldades da natureza, sob temporal, e sozinha ao carro onde acidentou-se derradeiramente.

Eu agradeço a Dora pelo que fez pelo esporte do Brasil, sozinha, catando apoios e patrocínios num lugar onde o futebol, nossa apoteose, ainda é tão mal-explorado e vilipendiado por gentes nefastas - e imagine-se dos outros esportes. Mais ainda, em muitas vezes que falou à imprensa, defendendo o direito de mulheres que, por opção, não tivessem se casado, tido filhos e que não fosem homossexuais - assim, combateu de uma vez só o machismo e o "achismo" dos que, em pleno século XX, ainda insistem em ditar comportamentos sobre o que "homem" e "mulher" devem "fazer". Seja o que tenha sido, sozinha que fosse, fãs não lhe faltaram aos pés.

Para os mais próximos, ela deve ter deixado muitas lições.

Para mim, apenas um amador fã à distância, desde minha adolescência, o ensinamento de que a mulher pode - e deve - buscar tanto beleza interior quanto exterior, ter postura, educação, fidalguia, formação intelectual e uma outra qualidade que anda rara no mercado: classe.

Eu adorava ver aquela mulher como numa fotografia, sozinha rumo ao mar, fosse qualquer tempo, carregando sua prancha e trilhando solitariamente o reconhecimento no esporte. Havia algo de atitude, personalidade ali. E linda.

Que esteja bem, tão bem quanto me fez sem nunca ter sabido. Muito bem.

Paulo-Roberto Andel, 24/01/2008

Tuesday, January 22, 2008

Do cansaço

eu, que me mastigo e rumino por vezes
em busca do meu próprio supra sumo,

eu, que me atiro e me estilhaço ao chão,
espalhando-me por dois mil e oito cacos,

eu, que me faço de lenha ao fogo intenso
e viro brasa de alimentar meu incêndio,

eu, que ponho quase tudo a tudo perder
por todo amor e alguma prova d'amizade

eu, tantas e todas vezes eu, tão indivíduo
e tão descrente que todos sejam só um

eu, dilapidado

eu, farto de mim, de meu, dos egoísmos
que se amontoam na gente apressada,
no bom-dia sem qualquer resposta vaga,
no monólogo e no bel prazer dum solo,

canso-me da frieza, da indiferença ao léu,
das pessoas que não sabem mais do Rio,
dos fatalistas que afirmam o fim do jeito,
como se a fidalguia fosse dejeto somente

eu, esgotado, tardo mas quase não falho
e muito há por ainda pastar, regurgitar,
ainda existe uma razão para se espatifar
mesmo que meia-dúzia não seja milhão


Paulo-Roberto Andel, 22/01/2008

http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030

Friday, January 18, 2008

Crônicas Tricolores 1 - Gênese

Hoje, dia dezoito de janeiro, nós, Tricolores, estamos perto de nosso Réveillon, nossa virada de ano. O leitor desatento sabe que, tal como ensinou Nelson Rodrigues, Tricolor só há um, o Fluminense; os outros, com todo o respeito, são times de três cores. Nelson Rodrigues, também somente um.
Depois de quase quarenta dias longe de nossa casa, o Maracanã, é hora de brindarmos o ano novo que surge à frente e muito nos promete. A magia do futebol, que a milhões encanta na Terra, passa pela eterna renovação, a eterna busca e mudança: perde-se numa quarta, quinta é dia de se pensar no clássico de domingo. Contudo, este é um ano especial.
Depois de percalços do passado, nós, que respiramos o ar de Álvaro Chaves, estamos à boca de mais uma temporada, redivivos, firmes como nunca.
Amanhã, começa um desafio vigorosíssimo, que é o de buscar o trigésimo-primeiro título estadual. Porém, se a tradição e alguma superstição possuem força, estamos bem: um poderoso jornal desportivo do Rio realizou um levantamento entre seus analistas de futebol, para que indicassem os quatro primeiros colocados no certame que começará. A grande maioria indicou o Fluminense como vice-campeão do Flamengo, que empataria conosco em títulos regionais. Esse apontado favoritismo da Gávea cai bem.
Nós temos a descrença dos comentaristas como orgulhosa tatuagem no peito.
Não foram poucos nossos times que arrebataram as taças sem que um único analista nos desse o crédito do favoritismo. Relembro 1980, quando diziam ser da Gávea inevitáveis vencedores, ainda mais depois do campeonato brasileiro conquistado à época; contudo, não chegaram sequer à final de um dos dois turnos. Vencedores do segundo, os vascaínos esbanjavam favoritismo e acreditavam que, depois de seguidas derrotas para os flamengos, era chegada a hora da conquista. A chuva e o vento foram prenúncios, e o gol de Edinho foi abençoado por Cartola mais Nelson – assim, Laranjeiras naquele dia venceu mais do que nunca.
Creio que os da Gávea mereçam respeito por manterem o time-base do ano passado, mas nós, Tricolores, bem sabemos que eles não gostam de nos encontrar num jogo final ou decisivo. Há dois anos, quando estivemos perto de ganhar nossa primeira Copa do Brasil, mas perdemos a semifinal para São Januário, minutos após o jogo, houve um foguetório em muitos bairros da Guanabara – ao contrário do que se imaginava, não era a torcida vascaína, mas sim os flamengos, em comemoração de ter o Vasco como adversário em vez do algoz. Não queriam medir forças com o Tricolor, porque o passado os assombra. São fortes as imagens de Benedito de Assis, mesmo depois de vinte e cinco anos, entrando delicadamente pela esquerda d’área, para fuzilar Raul em seu gol de despedida. O golpe mortal de Assis, a cabeçada que pareceu um tiro e fez mágica da geometria ao deslizar no ângulo esquerdo, desnorteando Ubaldo Fillol. A maior vitória de todos os tempos, em todos os mundos, quando Renato encostou sagrada barriga à bola chutada por Aílton e correu de fita na cabeça, risonho, feliz, repetindo um 1950 para o centenário dos flamengos. Em todas, absolutamente todas estas ocasiões, a imprensa e a crítica especializada apontaram o Flamengo como superior, o Flamengo como o grande campeão, mas a glória final teve o destino da nossa casa.
Fizemos um time bom. Voltamos a ter um ataque com poder de fogo, com jogadores de alto nível técnico como Dodô e Leandro, e ainda o nome de Washington - tradicional em posters de campeões Tricolores e, inevitavelmente, um bom presságio. O meio de campo foi reforçado, e creio que Dario Conca possa render bons frutos. Nossa defesa, segura no ano passado, manteve-se íntegra. Para muitos, o gol era nosso sofrimento mais longo, dado que não temos um Paulo Victor há muito. Amanhã, jogará Diego, goleiro que ao ser contratado por nós era tido como o melhor do Brasil, mas que ainda não se firmou. É uma esperança.
Que não se iludam os mais vibrantes, mesmo que tenhamos hoje muita força. Doutro lado, estará o estreante Cardoso Moreira, da simpática e humilde cidade do norte Fluminense. Não virão com a intenção de serem meros coadjuvantes e, mesmo sabedores de tudo o que podemos realizar este ano, o respeito precisa imperar. Teremos o Maracanã como merecemos, nosso, límpido, e cabe-nos a função de abarrotá-lo, de fazer a grande apoteose da gênese, do nosso começo de um ano que pode ser especial.
A semana a seguir vem com mais dois jogos; em caso de boas vitórias, estará selado o passaporte de confiança para a Libertadores de América, que há muito nos espera. Muito falam do “grupo da morte”, que será uma tarefa terrível onde será muito difícil que nos classifiquemos. Para alguns, o futebol é momento, com certa razão; entretanto, basta olhar para nossa trajetória de louros e não será encontrada nenhuma facilidade, nenhuma dádiva. Para o Tricolor, não há títulos de antevéspera, mas sim os de últimos minutos. Nosso costume é o suor, a dificuldade, os olhares reprovadores dos mais sábios; porém, a sala de troféus mais abarrotada fica no vert-blanc-rouge.
Quando o Fluminense está em campo, todo jogo é importante e decisivo, toda taça é fundamental para as nossas mãos. Contudo, este ano é crucial, pois não podemos deixar que os flamengos sequer ameacem um título que trazemos desde a invenção do mundo, que é o de maior campeão desta terra. E há um sonho à vista: o das Américas. Ao contrário da ampla maioria dos especialistas em futebol, temos reais chances de conquistar a Libertadores e arrebatar o único título que nos falta – e o sol da América pode ser também o sol nascente de Tóquio, o sol do nosso bicampeonato do mundo. Sabemos, todos nós, que trata-se de um árduo caminho, tortuoso; entretanto, quando eu entrar amanhã em Mário Filho e subir a rampa, é exatamente neste caminho que estarei imaginando.
Em futebol, muita coisa é tênue, passageira, de modo que previsões têm sempre muita chance de dar em tiros n’água – mas eu acredito no Fluminense, na força do Fluminense, a mesma que nos tirou dos piores momentos e descréditos, a mesma que nos levou a folguedos e festas. Não sei dos títulos que virão, e nem se virão, mas o fato é que hoje, nesse dezoito de janeiro que se encerra, poucos times têm mais potencial de volta olímpica do que o nosso Tricolor de Laranjeiras. O tempo se encarregará do resto.
Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2008
Paulo-Roberto Andel

Monday, January 14, 2008

Gerúndios

minha amena vida não se pauta em pretéritos;
ela é regada num jardim de gerúndios.

digo não ao mais-que-perfeito, ao subjuntivo.

eu quero também o erro, o defeito, e alguns bons indicativos.

basto-me vivendo, vivendo e aprendendo, aprendendo e respirando, solfejando;

fico sonhando, falando, bebendo e cantando, fazendo e desacontecendo.

eu namorando, amando e remando com a maré, num descansando, repetindo ou reiterando.

eu vou brotando e desfolhando, renascendo das cinzas, dos louros e pêsames, das lembranças.

o gerúndio é meu oxigênio, pretérito mais-do que-erro,
meu erro crasso, meu ir e vir das apressadas ruas.

enquanto eu ando, a vida é agora,
é do endo, indo, do ando sem quando;
é água de riacho que vai rumando;

desce o curso em busca da morte,
longe do hoje, lá no além-mar.


Paulo-Roberto Andel, 14/01/2007


http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action

Friday, January 04, 2008

Brevidade

A única coisa realmente importante a dizer no dia de hoje é que eu amo minha mãe.

Muito.

Sempre.

No mínimo, enquanto eu viver.


Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008

A longa noite - partes I e II

I


quando você foi embora
não deixou rastro, nem cheiro
e nem carta de até mais


o que me parecia delírio
tomou ares de eterna mudez,
de silêncio inconveniente,
que ensurdece e apavora


você foi embora e cerrou meu canto,
rachou meu coração em dois,

ficou um para a vida ingrata,
com suas dores e paixões,
cheia de não e porém, ou talvez
e certeza de quase nada

a outra metade é toda tua
sempre tua, a cada momento


hoje eu não quero ver o sol
nem o mar da praiva vermelha,
basta-me cogitar o teu abraço,
o teu beijo de afago e certa graça
que só mora em teu sorriso,
em tuas piadas de sempre



hoje, não posso apertar a tua mão,
e daí?


todo lugar tem o teu rosto

qualquer frase na tua voz é poema

e cada passo que eu dou
exige o respirar do teu ar
do meu amor solene
teu, perene



II



A longa noite
é longa e morna
é longa e mansa
há noite

há um caminho de pedras
e percalços escondidos
no fúnebre silêncio
imerso em negrume

à própria sorte
a morte à noite

alonga-se a noite, feito um açoite
nas costas nuas dos pretos velhos,
dilacerados em vida

há noite ao norte
para cada estrela que brilha,

mesmo há muito morta,
a estrela estende as mãos
em forma de brilho,
na desilusão da esperança
que não se prende,
não espera quem a alcança
afoito, pela noite,
avançando horizonte

há noite, a longa noite,
doce e traidora noite,
que repousa cativa
no mar da tranquilidade,
no afago secreto da lua,
serpente no monte,

há noite,
a longa noite em riste
é tristeza pintada com aquarela.



Em homenagem à pessoa mais importante de minha vida, minha mãe, Maria de Lourdes Andel.



Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008

Diana

Velha amiga, eu volto à nossa casa
Já não te encontro alegre, quase humana
Corpo pintado de branco e marrom
E uma tristeza no olhar
Como se conhecesse dor milenar
Já não te encontro à espera ao pé da porta
Correndo viva e bela ou descansando
Tanto vazio por todo lugar
Tanto silêncio sinto ao chegar
Ao nosso território de brincar
Almoço aos domingos, a velha farra
Todos vão inventando novos segredos
Fica a ausência branca e marrom
Duma tristeza milenar
Mas os meninos voltaram a brincar
Como se ainda sentissem o teu olhar
Diana, Diana, Diana, Dianá, Dianá
Diana, Diana, Diana, Dianá, Diá, Dianá, Dianá


Toninho Horta