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Thursday, September 29, 2022

três historietas

ABÍLIO: FÉ NA LOTO 

Onde foi parar o meu amigo Abílio? Ele era um dos caras mais legais e educados que conheci na vida. Estudamos juntos no Pedro Álvares Cabral em Copacabana, 1983 e 1984, turno da noite. Se eu não estiver enganado, ele trabalhava como almoxarife na Construção Civil. Era irmão da Soninha, que era linda demais. 

O que mais lembro dele é que me remete a um modelo de cidadão carioca que parece ter chegado à extinção: o sujeito que pode até não saber teu nome, mas te cumprimenta com simpatia mesmo que você passe do outro lado da rua. O homem gentil, que por isso mesmo colhe gentileza e bons sentimentos. 

Naquele tempo nem existia a Mega Sena. Era só a Loto, que hoje é chamada de quina. Volta e meia o Abílio tinha uns volantes à mão, ora anotando, ora dando um pulo na loteria antes da aula. Várias vezes eu o cumprimentava com os jogos e ele dizia "É, Paulinho, fé na loto!". Certamente apostei mais por causa dele. 

Nem sempre consegui, mas fiz tudo para imitar o Abílio no trato com as pessoas. Sua educação e gentileza eram supremas. Não nos vemos há quase 40 anos, mas nunca me esqueci dele. Continuo jogando, apostando, tentando. Já ganhei vários prêmios pequenos. Agora mesmo a Mega Sena acumulou em 300 milhões e estou organizando um bolão com amigos, aí me vem à mente aquela sentença inesquecível: fé na loto. 

Na turma da noite, eu era dos mais novos, entrei com 14 anos, era uma criança. Alguns alunos mais velhos ou desprezavam ou caçoavam dos mais jovens - e não é à toa que eu tenho tantos colegas mais jovens. O Abílio não: ele tratava todo mundo bem. Emanava simplicidade. Quarenta anos depois, ele ainda é uma referência para mim. Fé na loto, é o que resta.

[Com 300 milhões eu mudo a vida de muita gente, muita 


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PAMPEIRO, RUA TONELERO, 1990

(repost 2019)

Em algum momento perto de onze da noite, a fome apertava depois que terminávamos o campeonato de botão. Então fazíamos a vaquinha - não era crowdfunding - e dois de nós geralmente eram os responsáveis por descer a Siqueira Campos até a Barata Ribeiro para fazer a compra do lanche nas Casas da Banha. Geralmente pão e frios. Depois da volta, montávamos os sanduíches, mais coca-cola e a festa estava pronta. Quase todo dia, toda noite sempre. 

Num dos quartos, uma poderosa guitarra não parava de tocar riffs. O outro, só usávamos para ver TV à noite ou eventualmente algum jogo. A mesa de botão ficava armada na sala. 

Ríamos, ríamos muito. Muitas vezes o Xuru chegava de ressaca e deitava no sofá, sem condições de jogar. Ao ser perturbado com cosquinhas e cutucões, imediatamente ria e disparava vários palavrões. 

Eram tempos do Hollywood Rock, de Terence Trent D'arby, de Bob Dylan finalmente no Brasil, de Marina encantando os corações cariocas, da apoteose dos Paralamas e da Legião Urbana. No carnaval, espiávamos os bailes até a madrugada. Tinha também Documento Especial. Não, o país não era bom, mas no fim dos anos 1980 a gente era muito jovem, tinha esperança, sonhava com o futuro, a faculdade, o emprego. A Holanda de Gullit e Van Basten, o Brasil incrivelmente derrotado pela Argentina na jogadaça de Maradona que Caniggia finalizou - o Xuru falou muitos palavrões. 

Quando havia mais tempo e gente, jogávamos War. Tinha sobremesa de bolo de chocolate com sorvete de creme. Às vezes o Dória vinha de pijamas do quinto andar.

Somando tudo, não convivemos lá por mais de quatro anos, mas pareceu uma vida inteira. Na verdade, foi. Trinta anos depois, aquele tempo parece mais saboroso: era uma escola de convivência de grandes jovens camaradas, que nunca mais se repetiu.


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COOLIO

Em fins dos anos 1990, a minha curiosidade musical aumentava cada vez mais. Você ouvia muitas coisas legais na MTV. Eu virei habituê da Livraria Berinjela, onde rolavam sons espetaculares: música de Cuba, progressivos italianos, o underground carioca etc. E os novos nomes da cena black norte americana. Um dos primeiros foi Coolio. Ele era divertido, tinha estilo. Atitude. 

Coolio foi trilha sonora de várias viagens que fiz naquele tempo, muitas com Bola a Itatiaia. Levávamos quilos de CDs e ficávamos ouvindo o dia inteiro - era divertido. Sem maconha, sem álcool, só o som. Ríamos. Eram viagens quase que exclusivamente musicais. 

O tempo passou, as coisas ficaram para trás e, nos sons, foi o caso de Coolio. Tudo guardado em local de carinho. Até que chegou esta noite e a notícia de sua morte. Tinha 59 anos, era novo demais. Muito antes da hora.




Sunday, September 25, 2022

um poema sujo...

UM POEMA SUJO A UMA SEMANA DO FIM DO FIM DO MUNDO

Falta uma semana para acabar o fim do mundo e isso me traz algum alívio, pequeno diante de tantas dores e tanta gente falsa, hipócrita, covarde e desumana. Por isso sinto dores e não durmo, e quando desmaio de sono posso ter sonhos loucos como o de ontem, quando tentava tirar minha mãe das montanhas da URSS em plena tempestade, trocando de aeroportos como se fossem baldeações  - é tudo verdade. Minha pobre e amada mãe, morta há quinze anos, parece viva demais em meu sonho confuso. Falta uma semana para acabar o fim do mundo, mas a minha cidade está destroçada, humilhada, caída no meio-fio e será preciso um trabalho descomunal para ressuscitá-la: todo santo dia ela é cheia de pessoas famintas chorando nas ruas, sem casa, nem comida nem futuro. Será preciso reconstruir tudo, excerto para a confortável e acomodada burguesia que, de seus apartamentos esnobes, ou finge solidariedade ou estampa a bandeira da escrotidão repugnante. Minha cidade respira por aparelhos, e é cheia de lojas fechadas, apartamentos e salas vazias, tão apavorantes que nem o fantasma de meu querido pai, um fanático pelo Centro onde cresceu e viveu, dará as caras - e continuarei sozinho porque esse é o destino de todos nós, mesmo que finjamos o contrário - a profunda solidão do ser humano, que nasce e morre sozinho, que chora sozinho nos muitos dias tristes e procura um improvável espírito da paz. 

Falta uma semana para acabar o fim do mundo e na TV Bob Dylan está cantando alto para espantar os escroques e traidores das pátrias, o que ele tem feito ao longo de décadas - ao mesmo passo que FDPS daqui desprezam heróis da cultura como Gil e Chico. Bob Dylan é também um trovador solitário - desde o dia em que leu Jack Kerouac, saiu de casa e nunca mais voltou - vejam, ele ganhou o mundo, ficou milionário, tem fama mundial e prêmios inquestionáveis mas nem isso o libertou da solidão. 

Uma única semana para que voltemos aos leves tempos do golpe parlamentar, com as cidades recheadas de quadrilhas violentas e sedentas de crânios esfacelados, e por incrível que pareça este cenário de horror é bem menos pior do que tudo que temos vivido - nós, os mortais, que ganham moedas e sofrem risco de demissão, despejo e miséria, tudo certamente desprezado por nossos falsos amigos que fazem cara de paisagem, porque o ser humano é realmente assim: oportunista, egoísta e pilantra, salvo honrosas exceções. 

O céu pode esperar, já o inferno é aqui, doloroso, desumano, mas ainda assim temos o que comemorar: falta uma semana para nos livrarmos do fim do mundo, do cheiro do ralo, do esgoto podre que advém do ideário de gente má, perversa e que comemora a dor alheia. Por isso, nosso inferno será menos infernal do que antes. Ainda há muito o que sofrer, mas existe uma luz no fim do túnel e devemos persegui-la. O ódio é a estupidez, ele não é parte natural do nosso corpo - devemos eliminá-lo. Se conseguirmos olhar para o lado e ajudar minimamente o próximo em lágrimas, seremos menos inúteis do que lacradores ou estúpidos fiscais de redes sociais, ansiosos não pelo progresso mas pela opressão covarde, pela humilhação barata do outro - os mesmos que discursam pelo moralismo são os mais escroques, e não estão nem aí para os milhares e milhares de cariocas desesperados, carregando balas de açúcar para vender enquanto não encontram a dor das balas perdidas. 

O certo é que falta uma semana para se festejar o fim do fim do mundo. Ainda virá uma longa e tortuosa estrada pela frente, mas a sensação de se eliminar a máquina de ódio que sequestrou o Brasil é um alento. Não será fácil remover a falsidade e a hipocrisia, porque elas estão consagradas, mas se for possível ter dias menos coléricos, será um alívio imediato. É o que precisamos, na verdade vocês, porque eu já estou morto há muito tempo e, por aqui, apenas cumpro a insuportável pena de lidar diariamente com a indiferença humana. Mas pouco me importa: eu não preciso ser feliz para ser um bom fantasma em carne e osso. O que me move é a minúscula probabilidade de luz no fim do túnel. O que me basta é que, daqui a uma semana, mesmo ferido de tanta morte, eu possa dizer: "Como eu festejei o fim do fim do mundo".

#otraspalabras

#andelbooks

Wednesday, September 21, 2022

palavras outras palavras

Palavras exigem prudência. Prudência.

Favor não confundir com medo. 

Prudência é sempre uma qualidade. O medo, nem sempre. 

Palavras exigem cuidado. Apreço. 

Quem as profere embebidas em fel e cólera tende a depois passar vergonha pelo que disse ou escreveu, claro, se vergonha tiver ou, no mínimo, apreço pela própria imagem.

Palavras são coisa séria quando há gente decente em campo. Merecem ser respeitadas. As pessoas também, em sua maioria. 

Pobre daquele que pensa dominar as palavras apenas com estudo formal. A linguagem popular, além de muito rica, costuma carregar sinceridade e precisão. Duas ou três palavras mal colocadas e o arrogante erudito vira um pateta, um bocó desprezado por todos aqueles que considera inferiores no jogo da palavra. A erudição vira verborragia oca. 

Quantas vezes um pretenso polemista não passa de um anônimo em busca da fama, sem horizontes mais profundos? Não lhe importa a estrada pelas melhores palavras e ideias, o caminho da fraternidade, mas apenas os holofotes de brilho efêmero na plumagem de um pavão. 

As palavras merecem andar de mãos dadas com o carinho e o apreço. Quando saem disso, se o motivo não for deveras justo, podem acabar levando o orador ao seu pior habitat: o da mediocridade.


Sunday, September 11, 2022

Xuru, Russunes, Russ

Parece incrível, mas meu amigo Xuru (Russ, Russunes, Russinho da Atlântica e outros codinomes) completa 17 anos de sua morte hoje. Às vezes, nossa turma de Copacabana fala no WhatsApp como se ele estivesse apenas dando um tempo e vá reaparecer. Não há semana em que não falamos das situações engraçadíssimas que sempre o cercaram. 

Éramos seus colegas, três mais velhos e três mais novos, juntados pelo jogo de botão. Gomão era o "pai" do Raul, Xuru o da Cler e eu do Luiz. Hoje essa configuração está diferente, mas seguimos rindo no WhatsApp, é o que resta. 

Nem sempre é justo falar quem é o melhor amigo, até porque isso muda e nem sempre pra melhor, mas o que eu posso dizer é que o Xuru foi a única pessoa que jamais deixou de me estender a mão na hora da barra pesada e, se ele estiver em algum lugar, deve pensar que a recíproca foi verdadeira. Foi mesmo. Um tirou o outro de cada roubada... Jamais nos omitimos. Sabe aquela coisa de "depois eu te ligo" e a ligação nunca viria? Com a gente isso não existia. 

Ele chamava minha mãe de mãe e só eu vi o que ela sentiu quando soube de sua morte. Eles brincavam no telefone de um passar trote para o outro, telefone fixo, imagina? Ela fingia que era uma ficante grávida e ligava pra ele exigindo o reconhecimento. Resposta: "Rãrãrãrã, você é a décima. Mãe, seu trote não engana ninguém". E riam, riam. 

Fomos em um monte de acampamentos, jogamos muito futebol, muito botão e fomos muitas vezes ao Maracanã, desde os tempos em que chegávamos mais cedo porque tinha um tal de Romário que jogava muito. Engraçado que saímos pouco à noite: ele era da pá virada, eu não. Contudo, isso não nos impediu de beber chopes gloriosos e viver situações engraçadíssimas. 

Fiz um livro sobre ele. Não gostei do resultado final. Parecia triste, nada a ver com um sujeito que vivia rindo. Tive bom senso e joguei fora, depois farei outro bem melhor. 

Quando passamos no vestibular, ele caiu comigo na UERJ, mas com chances de reclassificação na UFRJ. Ficou torcendo para ir: achava que, se ficássemos na mesma universidade, os dois se ferrariam. Ok, tinha razão, mas ele foi pro Fundão e ficou na sacanagem do mesmo jeito. Menos mal que trouxe Pepsi pra gente. 

São muitas e muitas lembranças, mas uma definitiva se deu quando fomos barrados no prédio do apartamento de seus padrinhos, que ele frequentava desde criança. O casal havia morrido há pouco tempo e ele fez um réveillon de arromba por lá. Parentes (que nunca tinham dado sinal de vida) mandaram trocar a fechadura da porta. Olhando pro prédio serenamente, ele disse:

"Quer saber? PhodaC esse apartamento. A única importância disso aí era ter meus padrinhos, e eles não estão mais aí. RAT! Vamos tomar um chope!"

Demos meia volta, fomos para o galeto da Domingos Ferreira e deixamos uns quatro milhões de reais para trás. 

[RAT é uma corruptela que inventamos para o desabafo "ratomanoku". Deve ser pronunciada bem alta, com forte sotaque nordestino. 

Então, falar do meu amigo Xuru é falar do Maracanã, de São Januário que ele tanto amava, de botões Brianezi, da UFRJ, do seu famoso carro apelidado de "travecomóvel", do CAP, do Bernardão, do cheiro da pizza do Caravelle, de Vale do Sol, Serra dos Órgãos, dos escoteiros, do antológico Bar Sniff's (ele é personagem do livro), de Arraial do Cabo, do M Ninn, do Pedro, do ex-Coruja, de uma fila de mulheres, de golaços na quadra do Corpo de Bombeiros na Xavier da Silveira (hoje um estacionamento), de gatas alucinantes da UERJ num torneio de pingue-pongue, do professor Serra Costa, da Sorveteria Bolonha, do Bonino's, da Pepsi, do Sasso, do jogo de War com cartas marcadas, do PCB, da casa do Henrique no Flamengo, do show do A-ha, do James Taylor, da Cássia Eller e de noites quase desertas na Praia de Copacabana, onde bastava uma bola razoavelmente cheia e uma trave livre para nos sentirmos imortais.

Nossa última conversa foi três dias antes de sua morte. Eu ia pra uma rápida viagem maluca, ele não queria que eu fosse, eu prometi que voltaria para vermos o jogo de domingo juntos, ele sorriu. Sabia que não daria, mas não me disse nada. Ingenuamente, eu não percebi que era a despedida - pra mim, aquilo ia durar uns dois ou três anos, não três dias. Quando voltei, ele já estava morto. Percebi na estrada, quando comecei a telefonar para os amigos e ninguém atendia: não queriam me dizer. 

Não podia esquecer: nos dois anos finais do Russo, Zé Capixaba foi muito sinistro no apoio. Respeito eterno. 

Depois do enterro, numa segunda-feira à tarde, fomos almoçar no Cosmopolita. Foi a última vez que estive no tradicional restaurante, hoje desaparecido.

Dezessete anos depois, não há como negar: meu amigo deixou uma lacuna irrecuperável. Irrecuperável. 

@pauloandel 

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#comentecomeducação

Tuesday, September 06, 2022

monstro urbano

Eu sou o monstro urbano, e por isso sou fagocitado por mim mesmo noite e dia, misturando a canção imortalizada por Frank Sinatra ao cheiro de ruas tristes que exala das grandes metrópoles. 

Ninguém abre os braços para me oferecer afago, a revolução continuará não sendo televisionada porque o grande capital não tem interesse em exibir a voz das ruas. 

Eu sou o monstro urbano e minha carne adveio da indiferença alheia. O meu sangue tem os coliformes fecais dos valões das favelas; a minha pele é tatuada pelos estilhaços das balas cruéis; os meus olhos são tristes e tortos de tanto ver a miséria subindo morros, balançando em trens e se arrastando no chão das marquises. 

Eu sou o monstro urbano inerte diante de Soraia, uma jovem e linda menina fuzilada com um tiro na cabeça por causa de um iPhone. Eu sou o monstro urbano nocauteado quando debocham de Marielle, Anderson, Amarildo, dos cinco meninos do Chapadão, do sargento Robert, do soldado e dos batalhões de anônimos tendo suas vidas ceifadas por bosta. 

Eu sou o monstro urbano que se atira dentro de latões de lixo para ter o que comer; sou o monstro urbano tão ameaçador para os ETs quando penduro minhas balas de açúcar no retrovisor do motorista. Monstro, monstro, monstro urbano com minha pele negra, meu cabelo duro, minha cara de paraíba e o nojo que os xenófobos sentem de mim. 

Eu moro numa cidade sem Comissário Gordon, sem Homem-Morcego, sem Menino Prodígio e sem a Mulher-Gato; por isso, Jards Macalé não há de me redimir. 

Eu sou o monstro urbano doidaço de crack debaixo de um plástico da Avenida Brasil. Eu sou o monstro urbano abominável que desce a Automóvel Clube em direção ao Morro do Juramento. Eu sou a selva de pedra e, disfarçado, ando pela Avenida Rio Branco, perto da Livraria Berinjela e do prédio que o BTG tarrou da Caixa, até chegar à Leiteria Mineira, pedir um misto quente com chocolate gelado, observando a rapidez dos garçons e um grupo de advogados reacionários gritando por uma intervenção militar, enquanto espero por Carlito Azevedo e Rubens Figueiredo. 

Sim, eu sou o monstro urbano parido na Baía, indigno das pedras pisadas no cais da Praça XV, mas também poderia ser o horror nas famílias sofridas e abandonadas no Largo do Paissandu quando aconteceu aquele incêndio devastador, calcinando vidas humílimas.

"Os trechos dos livros que ainda não foram escritos", Paulo-Roberto Andel, Vilarejo Metaeditora, 2018, página 35