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Wednesday, November 30, 2022

Um cãozinho elegante


Na esquina abandonada da Praça Tiradentes, um cãozinho assume um ar de lorde e flana tranquilamente até sua casa. 

A porta do Teatro Carlos Gomes, fechado e desprezado, um palco tão importante para a arte brasileira. 

O cãozinho elegante mora ali com sua família, que parece ser um senhor e seus dois filhos, um que talvez tenha uns catorze anos e o outro, uns dez.

Estão ali há alguns dias. Nunca ficam muitos dias. Eles precisam circular e escapar dos perigos noturnos. São muitas pessoas sofrendo ali há anos, desde que montei meu pequeno negócio.

Quando passo, vou e volto do trabalho, talvez eles pensem que tenho uma vida muito melhor do que a aparente. Eu tenho certeza de que eles sofrem muito, e isso me rói a alma. Tenho sofrido esta dor há cinquenta anos em vão, porque o mundo pode ter mudado demais, mas não no essencial. E sei que fui derrotado: morrerei sem ver o fim de tanta humilhação. Perto da desgraça que é ver semelhantes sofrendo na rua, ainda mais crianças, nada do que realizei de bom na vida tem importância. 

Um cãozinho elegante não liga para dinheiro, miséria ou sofrimento. A ele basta alguma comida e água, mais a proximidade de sua família, que tanto sofre mas ele não entende. Vai e vem, livre, sozinho, sem regras. Corre até riscos. 

Apressados, os carros da Pedro I passam com velocidade a caminho de casa. É Copa do Mundo, é a saída do trabalho, os churrascos e festejos exigem pressa. Ai de quem atravesse a veterana esquina sem atenção.

Ainda tenho um quilômetro para chegar em casa. Não sei dizer se amanhã a família do cãozinho estará lá. Talvez nunca mais o veja, mas tirei uma fotografia dele para nunca mais me esquecer de sua elegância, a mesma que falta em tanta gente que só tem dinheiro, mas sobra naquele simpático viralata caramelo que perambula pela vida e, por alguns segundos, oferece alegria para cada um de nós, ainda humanos. 

@pauloandel

Wednesday, November 16, 2022

Isabel

Os mais jovens talvez não saibam, mas as garotas do vôlei dos anos 1980 eram de arrepiar. Foi o tempo em que o Brasil descobriu um novo esporte para se apaixonar. E o Rio era vôlei pra todo lado. 

Jogadoras como Dulce, Vera Mossa, Regina Uchôa, Jacqueline, Sandra, Ida, Helga e Heloísa eram o hit esportivo. Claro, Isabel era a líder, a musa, a falante, a garota cheia de atitude mesmo, um símbolo da cidade. 

Jogou demais, até grávida. Foi um ícone da Seleção. Jogou na areia. Treinou. Discutiu com cartolas e treinadores, se rebelou, foi punida, recorreu. Bateu em bandido na rua. A imprensa adorava sua franqueza para todos os assuntos e ela não deixava barato. Aos poucos, formou sua própria família de campeões mundiais, seus filhos. 

Minha última lembrança de Isabel ao vivo foi pouco antes da pandemia, num evento político na ABI. Casa lotada, ela e uma de suas filhas, as duas incrivelmente incógnitas na multidão. Pensei em amolar, não fui. Ligaram um telão, então ela se deitou no chão e colocou a bolsa/mochila como travesseiro. Não tinha jeito: eterno perfil da jogadora descansando em quadra. O Pipo estava comigo, desceu e subiu oito andares pra buscar uma cerveja, me deu e fiquei pensando: "Apesar de toda a tragédia que estamos vivendo, a vida é isso". Isabel deitada de bobeira, Pipo com sua cerveja, as pessoas lutando contra o caos golpista do Brasil. 

Não amolei Isabel, achei que teria muitas outras vezes. Ela era das nossas, sempre na rua, sempre acessível. Saber de sua morte em pleno voo, ainda com muito a fazer, dói na alma. Aos 62 anos, ela ainda tinha aquele ar de garota carioca, com atitude, que Fausto Fawcett escreveu tão bem: "suingue sangue bom". Todo mundo perde: o Brasil, o Rio, o esporte. Aquelas tardes incríveis da zona sul dos anos 1980. A juventude madura ainda com muitas partidas a disputar. 

Ela era do barulho.

@pauloandel

Wednesday, November 09, 2022

Gal Costa

Quando um país perde um de seus patrimônios culturais, o impacto sempre será devastador, mas o tempo fará com que a arte se sobreponha à tristeza. É e será o caso de Gal Costa. 

Uma das maiores cantoras do mundo, louvada e celebrada por gênios como Tom Jobim e Caetano Veloso, Gal atravessou mais de meio século no topo da arte brasileira como uma de suas principais vozes. 

Nada lhe faltou. Foi roqueira, musa, transgressora, romântica, festeira, desafiadora, regional, jazzy, tudo. Começou gigantesca e se manteve em pleno voo. Popular e sofisticada, elegante e certeira. Pergunte a qualquer ouvinte na faixa dos setenta anos sobre o que significavam as Dunas da Gal. 

Depois de uma carreira já enorme, caudalosa, na última década Gal Costa fez o que se espera de um grande artista: o desafio. Gravou um álbum com novas sonoridades feito todo por Caetano, mais outros com novos compositores da cena brasileira. Inovou, surpreendeu, arriscou. Atravessou o século XX e teve sede para as inovações do novo milênio.

Voz única, de extraordinária afinação em todos os tons, adequada tanto para o American Songbook como para hits alucinantes como "Festa do interior", Gal Costa foi cantora e intérprete ímpar. Sua combinação de beleza, elegância e energia são referência na música do Brasil. Uma força da natureza insuperável, que sempre irá servir de farol para todas as cantoras que ainda teremos.

Gal é Tom Jobim, é Chico Buarque, é Caetano e Gil, é Tom Zé, é Dorival Caymmi, é Waly Salomão, é Gerald Thomas e também todos os compositores que recentemente registrou, tendo como exemplos Rodrigo Amarante, Zeca Veloso, Seu Jorge, Zé Ibarra, Rubel, Jorge Drexler, Criolo, Tim Bernardes, António Zambujo e Silva, mais tantos outros. Ela, que foi abraçada ainda jovem por tesouros como Tom e Caymmi, abriu seus braços para o novo e abriu caminhos para muita gente. 

A morte é inevitável, mas há muito tempo Gal Costa já tinha fincado seu lugar na imortalidade artística. Fica uma longa e definitiva estrada. 

Já a dor é indescritível. Há pouco, Zélia Duncan disse "perdemos uma Beatle". Para nós, brasileiros, o tamanho é exatamente esse. 

@pauloandel