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Thursday, May 14, 2009

RUAS ESTRANGEIRAS


















nada nestas ruas
ergue os alicerces
das imagens familiares
aos meus sonhos,
nada

esta gente
humílima e sofrida,
de mãos em súplica
e veias saltadas de dor;
essa gente
indiferente e solitária,
com frieza à queima-roupa,
visando vida
com a miopia das vitrines;
aquela gente pusilânime,
hipócrita e covarde,
escória da raça vil e traiçoeira

não tropeço nas banguelas
das pedras portuguesas
que adornam estas calçadas –
elas já não me enganam

não me reconheço
nas praças gradeadas;
nos condomínios de grande luxo
e vida mínima,
entrincheirados,
fazendo vezes de masmorra;
meu rosto não reflete
nos letreiros atônitos
a destrinchar língua importada,
e nem nas esquinas inexistentes.

o toque de recolher,
a mudez do samba
e o sangue derramado
feito leite azedo
não me identificam

estou bem longe destas ruas,
estou farto daquela certa gente
que se proclama decente,
mas carrega um ventre em lodo

não sou daqui

entrevado,
caibo na delícia
de me sentir tão forasteiro;
um estrangeiro bravio,
talvez inútil,
mas nem por isso
menos certeiro
sobre a inércia que nos cerca:
falta pólvora no pavio!


Paulo-Roberto Andel, 26/06/2008

10 comments:

Bernardo Miranda said...

Paulão...
dessa vez, admito...
tocou lá dentro!!
me sinto EXATAMENTE ASSIM, QUERIDO, AMIGO!!!

LINDA POESIA!!!
TALVEZ, UMA DAS MAIS LINDAS QUE EU JÁ PUDE TE LER.

FORTE ABRAÇO!

Mariano P. Sousa said...

Cumpade paulo!
E o resultado disso tudo, é uma prisão na qual estamos todos detidos pagando não sei o que!?
Abraço!

Antonio Paulo said...

Grande mestre Paulo tricolor. Esse sentimento carrega-se em todos os lugares hoje. Vivemos sob a égide das grades. E você o diz com uma maestria dos grandes poetas.

Antonio Paulo said...

Paulo grande professor tricolor. Todos nos sentimos assim meio prisioneiros. Vivemos na verdade sob a égide das grades nessas nossas cidades.Só você para relatar poéticamente essa fase.

Dalton França said...

Maravilha querido amigo Paulo!

Outras terras, outras gentes, outras ruas... Um estrangeiro em seus próprios domínios adquire poder para inflamar todos os pavios da poesia.

Grande abraço!

UM BRASILEIRO said...

Prezado Andel,

Você se superou, nesta.

Bela reflexão...

Abraço,

CríticoBR

Ralph Guichard said...

Olá Paulo,

Essa é a típica literatura que tem uma realidade e tanto dentro dela. Boa abordagem!

Abraços!

Pedro Du Bois said...

Caríssimo Andel,
pois é... e la nave va.
nunca estivemos tão presos em nós mesmos.
texto abrangente: excelente.
abraços,
Pedro.

Carlos Ricardo Soares said...

Paulo,

vocÊ torna sensível um fenómeno que ocorre e se sente em todas as latitudes e longitudes. Será manifestação e consequência de uma cultura de egoísmos e de competições? A competição acaba por ditar regras aparentemente justas para o vencedor e para o vencido, mas a realidade não é como no futebol e mesmo no futebol a vitória muitas vezes não depende do jogo jogado.
Continua a ser preciso desencarcerar a humanidade dos seus pecados e dos seus vícios.
Excelente!
Abraço

Lau said...

Querido amigo, vc não existe.

Que coisa linda!!!

Emocionante

Beijos