Translate

Wednesday, October 26, 2022

um leitor

Por ocasião do lançamento de seu livro, Susana Naspolini foi certeira ao dizer no lançamento que, se a obra tocar uma única pessoa, já cumpriu sua missão. E é isso mesmo. Basta uma.

Já me aconteceu várias vezes. Muitas. Milhares. Gente que chorou (muito), que sorriu, que se identificou. Gente que viu ficção na realidade e o contrário também, às vezes ao mesmo tempo. 

De certa forma é o que trago de melhor comigo sobre isso. Amigos, colegas, conhecidos, gente que nunca vi antes e que me mandou uma mensagem de agradecimento. Já recebi muitas e muitas. Claro, alguns xingamentos também, mas esses são mero fruto de inveja e recalque. 

Já dizia Ivan Lessa: "O cronista fala sozinho diante de todo mundo". O cronista, o poeta, o escritor. 

O cineasta, o teatrólogo, o escultor. O artista em qualquer lugar. 

Você sonha, pensa, produz, coloca o conteúdo numa garrafa e a atira ao mar, esperando que um dia alguém a ache e abra. 

Da pequena parte que me cabe nisso, escrever, penso que precisa ser feita com alma, com garra. O melhor texto não precisa ser perfeito em termos ortográficos - algo muito discutível por sinal -, mas precisa passar sentimento, fazer com que o leitor tenha mergulhos profundos e voos rasantes. A força da mensagem vale mais do que o tecnicismo. Os grandes livros muitas vezes são os mais simples. 

Escrever publicamente já me levou a muitos lugares e pessoas, já me deu muitas alegrias e reflexões. No começo do século XXI, eu sonhava em ser um autor publicado e pensava em como isso seria sensacional. É mesmo, muito. É uma emoção que se repete, tanto faz se com 100, 200 ou 4.000 exemplares - o sentimento é exatamente o mesmo. Abrir a caixa e ver o novo livro é rever o grande amor. Eu recomendo. 

Que Susana esteja bem, onde quer que esteja. Que sua jovem filha tenha todas as forças para seguir em frente. A cidade está triste, não sem motivo. Por ora, joguemos nossas mensagens no mar, esperando retorno algum dia. 


@pauloandel

Saturday, October 22, 2022

noites no campo 1

NOITES NO CAMPO - 1 

DAS DORES

A gente conversou poucas vezes, devido à natural separação entre os escoteiros e os seniores, ao menos naquela época. Mas ele era um bom sujeito, divertido, na dele. Quando sorria, lembrava o Brasil verdadeiro: o menino negro, morador de favela, lutando contra dificuldades mas com uma sinceridade imensa em sua boca cheia de dentes. 

Tinha o apelido de Das Dores, referência a um personagem do programa de humor de Chico Anysio. Lá vem Das Dores, lá vai Das Dores. Ele ria e seguimos em frente. Se não estou enganado, ele tinha uma irmã bonitona que chegou a ser escoteira, mas posso estar me confundindo porque o tempo passou. 

Estávamos acampados no Forte Imbuhy, uma das maravilhas do estado, cravado em Niterói. Pode ter sido a Semana Santa de 1984, um ano em que, para mim, parecia que tudo ia dar certo: beijos numa garota linda, todas as notas acima de 8, o Fluminense atropelando todo mundo. E uma temporada com uns dez acampamentos. Imbuhy é o máximo: silêncio, uma linda praia particular e os mistérios do Atlântico Sul. Lá longe eu via Copacabana e pensava: se tivesse uma lancha, dava para chegar muito mais rápido em casa. 

Talvez na quinta, quase certamente. Os escoteiros iam fazer feijoada e, consequentemente, precisavam de panelas grandes para o arroz. Eu estava de bob na beira d'água com o Fred, curtindo a folga, quando o Das Dores passa pela gente, começa a acontecer um zum-zum-zum, um fuzuê e, a seguir, o caos. 

Areia é um bom componente para tirar gordura de objetos. A gente já sabia, mas a garotada descobriu lá. Virou moda arear as panelas com areia e depois lavá-las lá na bica perto dos banheiros, a uns 500 metros de distância.

O problema é que o Das Dores teve uma ideia falha de economia de escala: em vez de arear a panela com calma, aos poucos, ele a encheu de areia, limpou e... a jogou na água, achando que a natureza faria o resto do serviço. O problema é que, com o peso da areia, a panela imediatamente afundou e, trinta segundos depois, foi tragada pelas águas do Atlântico. Eu mesmo, que era bom nadador, tentei resgatá-la sem sucesso. 

Num acampamento, perder uma panela grande é um desastre. Resultado: a feijoada saiu, mas os seniores só almoçaram no fim da tarde, pois tiveram que emprestar as suas panelas para que os juniores fizessem o almoço primeiro. Cheios de fome, queríamos matar o Das Dores, mas só por dez segundos: ele era gente boa. 

Um raio cai duas vezes no mesmo lugar? Cai. No dia seguinte, sexta, era dia de peixe com arroz e salada. É claro que ninguém esperava que o Das Dores não tivesse entendido a zebra da véspera, mas deveríamos. Impávido, ele foi para a praia lavar a panela, repetiu a mesma besteira e é claro que o recipiente foi morar em Atlântida, o reino perdido do mar. Ao mesmo tempo que os escoteiros ficaram enfurecidos, Das Dores tomou uma suspensão de um dia mas ninguém queria o mal dele, não era a nossa. 

No sábado, o pessoal foi liberado para ir para a praia. Só o Das Dores estava punido, coitado. Eu e Fredão estávamos lavando alguns pratos na bica perto dos banheiros, bem cuidados pelo cabo "Queijo Minas" (depois eu conto essa história), que por sinal era um sujeito engraçadíssimo. Dia ensolarado. 

Lá vem o Das Dores, chega perto, abre o sorriso largo e diz "Pode deixar que não vou perder mais panela não". Rimos, claro. Aí ele pediu um pouco de detergente, passei pra ele. Em cinco segundos que nos distraímos, ao olharmos para o lado Das Dores tinha feito xampu com o ODD azul, e a cabeça celeste espumante.

"Tem problema, pessoal?"

Foi o tempo de Fred se abaixar, encaixar a mangueira na bica e acertar um jatão d'água na cabeça do Das Dores. Ele ria, pedia desculpa. A gente ria e não se tocava que ele não entendia certas coisas porque não era orientado. Éramos garotos. 

Pouco tempo depois, infelizmente ele se afastou. Deu um tempo, ia voltar, esperávamos que ele viesse para os seniores, não veio. Dizem que se meteu com o tráfico e dançou. Fomos derrotados. Ficou a lembrança daquele sorriso imenso debaixo da espuma azul do ODD.

@pauloandel

Saturday, October 15, 2022

ser alguém na vida

Há pouco, falava um garotinho na TV, entrevistado numa sala de aula, algo como "Estou estudando para ser alguém na vida". 

O tempo passa e repetimos isso. Ser alguém na vida. Todos somos alguém, independentemente de bens, títulos e poder. 

Claro que estudar é importante demais, para tentar entender as coisas, o mundo, progredir, pensar, evoluir intelectualmente. Claro que é importante. Mas todo mundo é alguém, rico ou pobre, talentoso ou medíocre.

A gente cresce com medo de não ser ninguém, mas isso é mentira: somos corpos com sonhos, vontades, sentimentos.

Eu sou alguém na vida? Sei lá. Eu sou o Paulo. Acho que sou alguém legal. Eu sou um homem pobre, um camelô que junta pessoas de todas as idades e posses nas situações mais loucas. Sempre foi assim. 

Por ter crescido no bairro mais plural do mundo, nunca fiz contatos e amizades por causa de interesse. Sempre foram situações naturais. Filhos de porteiros, moradores de favelas, de quitinetes, de apartamentos gigantescos e coberturas, às vezes todos no mesmo jogo de bola ou no botequim. Ou na praia. Na praça

Não ser ninguém na vida? Todo mundo é alguém desde que nasceu até o caminho inevitável da morte. Todo mundo. 

Há os que escolhem caminhos tortuosos, arrogantes, tudo porque não sabem lidar com o próprio anonimato e a desimportância, mas até eles são alguém. 

De resto, a morte vencerá a todos. A arrogância chega a ser ridícula. 

@pauloandel

Thursday, October 06, 2022

Ota, sem noção

Há uns doze anos, conheci um cara que achava maneiro, por causa de futebol. Não sei se por causa de algum livro meu. Acho que foi. Vou chamá-lo de Ota. Depois vocês vão entender. 

Enfim, o fato é que eu tenho um site sobre futebol que funciona com trabalho voluntário. Não dá um tostão, mas certamente prestígio por vários motivos. E tem uma equipe grande, divertida. Já fizemos muita coisa juntos e, cá entre nós, eu tenho uma carreira longa em crônicas e livros de futebol. 

Um belo dia, chamei Ota para participar comigo de vídeos que gravávamos regularmente para o site. O resultado foi divertido, ele era engraçado, falava alto e, apesar de certa empáfia que costuma reinar quando o debate é sobre futebol, comentava coisas interessantes. Tudo bem. Logo depois, veio a pandemia e passamos à era do Streamyard.

Meu primeiro erro foi, baseado no bom texto falado, convidar Ota para colaborar como cronista sem ter lido seus escritos. Não foi a primeira vez que cometi esse erro, mas certamente foi a última. Ao receber o primeiro original, caí para trás: o texto era tão ruim, com tantos erros de Português e coesão que a única saída era reescrevê-lo por completo, basicamente usando só o argumento original. Paciência, eu preciso de opiniões diferentes, isso me fazia gastar meia hora a mais a cada coluna publicada, tudo bem. Acrescentava ao site e à equipe. Nada que não aconteça em todos os veículos sérios que possuem revisão de artigos. Errei, acontece. 

Enquanto isso, num trabalho voluntário, nada poderia ser pior do que ter alguém na equipe que frequentemente se indispunha com os companheiros, tratando as opiniões de todos como coisa menor e chegando a ridicularizar os colegas em nosso grupo de Whatsapp. Foi o que começou a acontecer, para minha desagradável surpresa - minha impressão antiga de Ota era muito diferente da que via na labuta diária. As pessoas reclamando em off comigo, eu tentando contemporizar, Ota não ajudava em nada com seu excesso de arrogância que, muitas vezes, parecia uma espécie de defesa contra a própria mediocridade - atenção para o uso respeitoso dessa palavra. Ou contra bullying, que provavelmente sofreu demais na juventude devido a seu estilo aparentemente engraçado. Enfim, o tipo de coisa que pode destruir um trabalho inteiro. E gente no meu ouvido: "eu vou mandar esse cara TNC"...

Depois da vigésima vez, chamei Ota em particular e o alertei dos problemas novamente. Seu pedido foi "Pelo amor de Deus, só não me tira do grupo porque eu gosto muito de estar lá". Bobo, me comovi por isso e deixei passar. 

Ocorrência 21, 22, 23...32... Mais de um ano. Como nada é para sempre, na ocorrência 44 aí eu falei em público que iria puni-lo. Sua resposta foi "Me tira logo dessa merda que eu não aguento mais". 

Depois de tanto falar em vão com alguém que parecia desprezar a tudo e a todos, acabei achando a ideia boa. Tirei. 

Na hora me senti mal, porque é muito chato quando isso acontece e, apesar de tudo, o colaborador deixou um trabalho legal, mesmo que fosse 99% finalizado por mim. De alguma maneira, fizemos juntos. Mesmo longe de ser brilhante, teve sim sua importância. Valem a essência, o argumento, só que não valia o desgaste. Em particular, umas dez pessoas vieram agradecer o desligamento de Ota, num carnaval desagradável que só se repetiu meses depois. 

Meia hora se passou, mensagem no WhatsApp: "Fica aí com seu amiguinho puxa-saco de merda". Eu sou legal, mas também posso não ser e respondi à altura. Acabou, tchau, bloqueei. Vida que segue. Isso foi em 2021. Depois de se indispor com dez pessoas diariamente por quase dois anos, Ota ainda achava que tinha sido injustiçado e preterido por outro colega de equipe. É admirável a vontade que todo sujeito arrogante tem de acreditar nas próprias teses.

Há uns quinze dias, encontrei Ota em Copacabana, no lugar em que morei por quase 20 anos e onde estou frequentemente. Passou com sua empáfia, fingiu que não me viu e, cá entre nós, achei ótimo: qualquer pessoa honesta se sente mal quando pune alguém injustamente. Agora, quando você pune alguém por atitudes Otas e ela comprova que realmente é muito Ota, a justiça se faz presente e você sente alívio.

Ontem tava em casa de madrugada pensando na vida e na morte, na tristeza de tudo que está acontecendo com tanta gente, aí me chega a seguinte mensagem: "Cara, acredita que o Ota tava falando mal de você num grupo e foi esculachado pelas pessoas? Chegaram até a perguntar se ele não entendeu o texto, ahahaha. E o cara ainda disse que você o expulsou do teu grupo. Comédia". 

O meu site possui a maior quantidade de material voluntário com redação própria sobre um clube de futebol no Brasil, com mais de 20 mil páginas. Por ele, já passaram ou estão presentes mais de 90 colaboradores em mais de dez anos. Os integrantes da equipe, ativos e não ativos, reúnem somados quase 60 livros, sendo 40 sobre o nosso time e 21 de minha autoria. Produzimos conteúdo diário publicado e audiovisual nas redes sociais/plataformas. Ah, também temos a maior série de e-books grátis sobre um clube de futebol no país.

Tudo isso faz parte de um tesouro que talvez interesse a pouca gente, mas que já chegou a centenas de milhares de pessoas. Ah, sim, nem tudo são flores: tivemos três integrantes expulsos desde 2012, num universo de quase 100. O primeiro vive elogiando o site e os integrantes publicamente, mostrando que os desentendimentos há muito foram superados. Os números falam por si, neste parágrafo e no anterior.  

Todo dia eu recebo algum print falando mal de mim, me xingando, me elogiando, me agradecendo. É normal. Além do mais, para o desespero de meus poucos detratores, sou invejado. Estou nessa há muito tempo, me exponho publicamente e não escrevo para agradar ninguém além de mim mesmo. É o critério para publicar: eu tenho que gostar. Já joguei milhares de crônicas, artigos e resenhas fora, algumas com 90% prontas. Colaboro noutro site com mais de 250 mil seguidores, já fui correspondente estrangeiro, milhares de coisas que escrevi já foram publicadas em O Globo, O Dia, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Folha de São Paulo, Estado de Minas, PINN, Brasil 247, Museu da Pelada e Correio da Manhã. 

O que não é comum é ser mal falado por alguém que, em mais de uma vez, eu estendi a mão, inclusive integrando com outras pessoas e ambientes legais, interagindo com pessoas que jamais o fariam se não tivesse sido por meu intermédio. Se Ota contasse a história inteira de forma honesta, talvez fosse rejeitado por muitos interlocutores. 

Mas, enfim, esse era apenas um simples post de blog, que só ficou com tamanho grandão para mostrar a distância entre alguém que trabalha em grupo e tem currículo, comparada a um candinho de WhatsApp. Isso não se mede por bens, cargos e ostentação, mas por realizações e currículos. Quem tem currículo e realizações, mostra e produz mais; quem não tem, fala mal dos outros pelos próprios vícios que carrega em si. É uma opção de vida. 

Nenhuma mágoa de Ota, mesmo. É que já encheu o saco. O que tenho é somente pena. 

Há pessoas tão pobres que só possuem dinheiro. 

@pauloandel 



Monday, October 03, 2022

900 metros livres

Desço do trabalho às cinco da tarde. O faturamento de hoje foi bom. Se fosse todo dia, eu não precisava brigar com o suicídio. Vendo coisas muito boas e difíceis, mas todo mundo está pobre. 

Falo com meus amigos porteiros e aviso que Jocemar ainda está na loja. 

Na calçada, pulo duas tampas de esgoto vazando. 

Metros depois, bem em frente ao Teatro Carlos Gomes, fechado, seis pessoas em situação de rua se encolhem de frio. Uma delas brinca com um cãozinho minúsculo. 

Boa parte da quadra seguinte tem as lojas fechadas. Cumprimento o dono da Loteria Regufe, sou cliente há 30 anos. 

Chego à esquina da Lavradio. O bar está fechado e, na porta, está praticamente desmaiada outra pessoa em situação de rua. 

[o primeiro dia útil do mês é gelado, cinza e deserto no fim do expediente. 

[dizem que a economia está melhorando, mas só se vê vazio, silêncio e olhares tristes. paro e penso no que será feito para mudar essa tragédia. 

Todos os bares estão de folga. As calçadas abraçam o silêncio. 

Passam dois garotos humildes, com seus bonés e mochilas, passos apressados a caminho da Central e um pacote de biscoitos rachado. Provavelmente estão almoçando ou jantando. As pessoas fingem não ver, mas no Centro do Rio o prato de comida mais popular é o pacote de biscoitos. Sempre há jovens e adultos indo e vindo com biscoitos para disfarçar a fome. Sempre há pessoas fingindo que não veem nada. 

A rua do Senado, outrora via de tráfego intenso, está completamente vazia. Na esquina com a Gomes Freire não há um único carro no sinal. O Armazém tem seus clientes de sempre. Hoje, poucos. Está frio. 

Quatrocentos e cinquenta metros. 

Na delegacia, o inspetor com a barba bem grande conversa com um colega de trabalho. Alguma coisa sobre games. 

Olho para o prédio da Isys e fico pensando em que apartamento ela mora. Acabou que somos amigos há anos, vizinhos há meses e não sei. Tudo bem, não faz diferença, era só curiosidade. 

Dois garotinhos chutam bola na porta do prédio ocupado. Ah, a bola, o futebol, esse amor torto que salva e destrói vidas. Tudo que eu queria era voltar a ser um garoto e chutar uma bola, nem que fosse as de isopor em Copacabana.

Setecentos metros.

[ontem eu conversava com Abílio bem na porta do prédio do Fred, em Copacabana. Tinha um causo da bola que fica para depois. 

Na Nova Petrobras, descem batalhões de estranhos com suas roupas corporativas de cores neutras, suas mochilas com notebooks e fones de ouvido que ajudam a apagar o cotidiano triste. Todo mundo é muito parecido. Os mais ricos correm para os táxis, os assalariados seguem em comboio na direção do Metrô Carioca.  Salários à parte, todo mundo é muito parecido. Mais à frente, uma turminha sempre se encontra com seus cachorros, é uma alegria. Eles brincam. Eu penso no cãozinho do moço sofrido na porta do Carlos Gomes, fico triste e ninguém se importa com isso - as pessoas têm mais o que fazer. 

Passo na quitandinha recém-aberta, compro pão para depois fazer um queijo quente. Um guaraná também. Gosto da lojinha pequena, acolhedora, com jeito de antigamente. As pessoas são muito educadas lá. Os produtos são um pouco mais caros, mas eu sempre compro pouca coisa, então não tem tanto impacto assim.

Oitocentos e cinquenta metros. 

Está frio. Não há carros na rua. Nem parece o primeiro dia útil do mês. Quais são os dias inúteis? 

Atravesso para chegar à portaria do prédio. Falo com o Maurício, ele é bem legal. Sinto alívio: não é hoje que eu vou ser preso nem despejado ou deportado. Mas penso em todos os meus grandes amigos e quase todos estão definitivamente mortos, portanto sou o solitário repórter de meu tempo.

Novecentos metros livres. 

Sou um artista anônimo, um camelô falido, um estatístico constrangido, um escritor deprimido, um cidadão humilhado num país de merda. 

Pego o elevador e torço para que ele fure o teto e decole em velocidade estelar para o infinito. Dada a impossibilidade, salto no oitavo andar, me tranco na casa que não é minha, penso, choro, me vejo sem saída e então tomo um banho gelado, verdadeiro suicídio nestes tempos. Me deito e ligo a TV para me fazer companhia, pouco importando o que é dito ou exibido. 

Preciso revisar um livro e não consigo me concentrar. Não tenho condições. Meus joelhos doem. Minha coluna dói. Deitado, tento procurar um bem precioso que nunca tive em mais de cinquenta anos: a paz. Isso não me impediu de dizer coisas alegres, escrever poemas, namorar belas mulheres, olhar o horizonte para tentar desvendar os mistérios do mar, nem de me divertir com meus velhos amigos - hoje quase todos mortos -, mas o fato é que eu não sei o que é paz. Chutar bola de garoto é coisa que passa rápido demais. 

@pauloandel

aeroporto

Eu já tive pavor de viajar de avião. Pavor no sentido estrito da palavra, a ponto de fazer todas as viagens profissionais pelo Sudeste de ônibus ou carro. Porém, em certo momento fui obrigado a ir com frequência para Brasília, o que mudou o cenário para sempre.

Quase sempre, por conta do ódio que uma funcionária da empresa tinha por mim, minhas passagens eram invariavelmente marcadas para os horários mais cedo, aumentando a tensão, o medo de perder a hora, a preocupação com o táxi etc. Como se fosse agora: são 4:37h. Para chegar hipoteticamente ao Santos Dumont às 5:30h, teria tempo mais do que de sobra. Só que não era tão fácil arrumar táxi na madrugada, nem existia VLT. 

Por dezenas de vezes ao longo dos anos, acordar antes da hora inutilmente foi uma rotina para mim. Isso sem contar as viagens bate-e-volta, duas num único dia, verdadeira tortura para minha pobre coluna. E tome remédio, cânfora, alongamento, convivência com a dor. Havia quem achasse frescura, por simplesmente ignorar o problema. A velha ignorância que explica muito do que estamos vivendo. 

Era tudo tão pesado que, todas as vezes que a insônia se repete mesmo que por outras razões, a cena me remete àqueles dias. Caso de hoje e das próximas semanas, onde a sobrevivência de milhões de pessoas - inclusive a minha - está em jogo. Mas sempre lembro de um momento de alívio ao fim do dia: quando os pneus do avião tocavam a pista do SDU. Dava uma leveza enorme, e dali até o desembarque a sensação era ótima: o sentimento de missão cumprida, ainda que as dores na coluna fossem prorrogadas por dias. Depois era só pegar o táxi e, na fase final, o VLT, para rapidamente chegar em casa, tomar um banho e descansar. 

Atualmente eu vou para o trabalho a pé em 90% das vezes. As dores na coluna têm outros motivos. A insônia piorou um pouco, mas não é só por mim: há outros componentes. Pensar no próximo custa caro. 

Cinco da manhã. Insônia. Vai começar mais uma semana. Os próximos dias vão ser decisivos para milhões de pessoas no Brasil - e muitos nem se atentaram para isso. A vida cansa. 

Ao longe tem alguém chorando na rua. Certas coisas nunca mudam. 

arp