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Sunday, December 27, 2015

o inferno é aqui

o inferno é aqui

lindas praias e montanhas vistosas

mulheres arrebatadoras
esportes, corridas e verão
mas acredite: você está no caldeirão!

a mesma terra de grande beleza
é a que faz suas crianças chorarem
pelos amigos mortos
pelos pais desaparecidos
a terra de paz, amor e carnaval
onde as marquises são cemitérios

a terra das meninas lindas
também sabota, explora, estupra:
abecedário das mutilações

a linda geografia que esconde
o ódio, a violência, a opressão
teu deus, o rio é lindo demais!
o ser humano é que estraga tudo
com seu egoísmo, a ignorância

o inferno é aqui
morando nas crianças abandonadas
nos mortos de uma guerra inútil
exceto para a televisão
que precisa de audiência
bons e maus morrem à toa
grandes empresários sorriem:
- vamos lucrar! vamos sonegar!
chega de sustentar estes vagabundos!

o inferno é aqui
vivendo nas caixinhas de doces
das crianças esfomeados
no delírio enlouquecido
dos corações torturados pelo crack
nas balas perdidas e corpos carbonizados
na prostituição do futebol

nenhum diabo sorri, nem faz propaganda
o marketing é desnecessário
não é preciso identificar o inferno
nos hospitais falidos
nas bocas de fumo
no fascismo odioso à caça
do comunismo que nunca existiu

o inferno é aqui
ou em qualquer lugar dessa terra
mariana, bataclan ou boate Kiss,
tanto faz
a força da grana corrompe e fuzila
querem chico de geni
e a gente suja longe do leblon
daqui a pouco pedem a morte do papa
em nome do senhor
querem o sangue dos refugiados
a plaza de mayo, o dops ou a ss
passam a ser distrações eletrônicas num fim de tarde

o diabo parece tenso
seus súbitos são bem piores do que ele
o pior pode ser bem pior
em vez de dar o peixe ou ensinar a pescar, que tal o arpão na cabeça dos nativos?
que tal uma bomba na favela?
vamos superfaturar as obras em paz, justiça e liberdade!

o inferno é aqui
lúcifer ri das cabeças primitivas
a idade média é agora
mas ela não triunfará impune
os livros não serão destruídos
o fascismo terá seus dias contados
vai haver poesia, poesia!
não vamos escapar das labaredas
nem do calor insuportável
mas até este inferno não precisa
ser tão odioso e excludente
já que não seremos todos bons
que não sejamos monstros cruéis

o mendigo na calçada também é gente
a puta bêbada no banco da praia também é gente
e até onde se sabe, deus não autorizou procuração para matar em seu nome

o inferno é aqui
em cada coração egoísta

@pauloandel

Sunday, December 20, 2015

grã elegância

muito mais 
longe do começo
do que do fim
muito mais 
perto da descrença
do que da fé
muito mais
dores lancinantes
do que alívios
muito mais
vã realidade 
do que esperança 
muito mais
momentos breves
do que vida inteira
muito mais
nacos de saudade 
do que vivência
muito mais
desacerto
do que a grã elegância

@pauloandel

Saturday, December 19, 2015

seis da manhã, feliz natal

quase todos estão surdos, individualistas, indiferentes, alheios ao próximo e ao mundo, feliz natal. brasileiros contra brasileiros, um golpe fajuto, o caos pelo caos, feliz natal. ódio no mundo, ódio na américa, ódio na esquina, feliz natal. violência, estupro e morte, descaso e drama, abismo e carnaval, feliz natal. a imprensa vendida, a lavagem assegurada, a pequenez de espírito, feliz natal. livros que ninguém vai ler, canções que não serão aprendidas, a desatenção consagrada, grandes audiências inúteis, feliz natal. vamos celebrar a estupidez humana, os mortos vivos debaixo das marquises, os zumbis assassinos do crack, os índices da bolsa, o certificado de bom pagador, feliz natal. os shoppings estão cheios, as salas de aula vazias, alunos arrogantes, professores prepotentes, gente boa e má, o brasil entorpecido, feliz natal. madrugadas imsones, amores destruídos, gente filhadaputa oprimindo gente boa, o poder do dinheiro, feliz natal. são seis horas da manhã no inferno, o mundo é moderno, o ser humano é a província, a pátria é o pib, feliz natal. a meritocracia dos filhinhos de papai é a casa grande da marmita dos sem nome, sábado é um lindo dia, ninguém se lembra do filho da puta de ontem, somos todos estatística, feliz natal. o amor está morto, a casa está suja, a bandeira está dobrada, os discos estão empilhados, ordem e progresso, feliz natal. a desagradável sensação de que o novo é começar tudo outra vez com os mesmos defeitos, a sobrevivência é cumprir a pena em liberdade depois das cinco da tarde, de segunda a sexta, feliz natal. a matemática não se entende com nada do que aí está, minha dor é perceber o navio negreiro na calçada à espera da morte ou de remendos, feliz natal. a etimologia do filho da puta contemporâneo no brasil, os versos em vão frente à singeleza da pátria varonil, feliz natal. o fluminense acorrentado, a rádio em silêncio, a tevê desligada, nenhuma alegria no teto do quarto, feliz natal. amanhã vai ser outro dia, talvez o dia em que seremos todos inúteis, feliz natal. a procissão, a garota sozinha, as guerras do mundo, o desamor, feliz natal. deixe seu recado após o sinal. 

@pauloandel

Wednesday, December 16, 2015

cinco mil amores

cinco mil amores para dizer
adeus

cinco suspiros e gozos
em vão

o que é a paixão?
é um poema esculpido em escarlate
enquanto nossa bandeira
é cinza, cinza opaca

celebremos, irmãos! somos inocentes calouros! ninguém
sabia de nada

Monday, December 14, 2015

mundos pares


o fim da musa

estão todos tristes, desgovernados
ao lado da caixa de morte que abriga
o corpo da musa

nunca mais uma palavra, um sorriso
nunca mais beleza à vista
nenhuma poesia comparada

todos murmuram, atônitos

diante do inevitável caminho final:
quem levou a musa embora?


muito antes do justo e razoável
tão em vão diante do imponderável
enquanto cantam o réquiem baixo


                                                       - é inaceitável! - tamanha desgraça não há!
                                                       - onde vai viver o nosso amor dilacerado?

houve quem não viesse e risse
por rancor, inveja, pequenez
a musa dorme para sempre
com sua pele alva, os traços finos
e a imensidão do mistério

a musa que dorme, o amor que morre
a finitude que nos cega - queremos explicações que não existem
enquanto a moça fala de deus
e somos uns inconformados!

a eternidade é negligente com as musas!

@pauloandel

Friday, December 11, 2015

Monday, December 07, 2015

o outono de dezembro


segunda-feira de manhã nublada
tudo é bonito demais
somos um outono!
o ir e vir dos proletários
os jovens e velhos engravatados
a morte e a miséria, a dominação
os garotos só querem escolas
as pessoas passam apressadas
a vida não para, não para
é preciso fazer, correr, trabalhar
mesmo que tudo seja em vão
e que o fim mostre tudo tão inútil
somos o outono de dezembro!
vamos para o shopping!
feliz natal, boas festas e 2016
tudo novo de tão novo e velhas novidades para passar o tempo
tudo é bonito demais
se você conseguir abstrair do mundo
tudo é uma bobagem sem sentido
- o resto é miséria, descaso e indiferença:
ordem e progresso! oh, hipocrisia!
estamos ocupados demais

@pauloandel

Saturday, December 05, 2015

amor estranho

e eu te amo
pelas ausências, o calor do corpo
que não sinto
meu amor pela ausência
é te procurar no silêncio, nos espaços vazios
nos poemas que não te declamei
amar-te é procurar pelas mensagens que não chegam
os encontros que não acontecem
a intimidade de mundo algum
nenhuma voz ao telefone
nenhum e-mail convidativo
torpedo nenhum!
a chama do meu amor é voluntária
e não te pede nada mas cobiça
cobiça loucamente
desejo, tesão e lascívia em vão
por um sentimento permanente

@pauloandel

farrapo humano

eu sou a tristeza
a miséria, a desesperança
e vivo em túmulos
nos olhinhos juvenis da pobreza
debaixo das marquises
ou entorpecidos demais
num arrastão à porta do teatro
eu vivo em túmulos
nas rugas precoces das operárias
em trens fétidos, lotados
também em suas varizes proeminentes
o meu sangue frio jorra em balas perdidas
e crânios inocentes despedaçados
eu sou a tristeza da fome nas ruas
a sujeira sem banho e roupas limpas
a indiferença das almas indignas
encarnadas em ternos finos
e pastas de dólares ilegais
eu sou a sede dos mendigos
o choro da criancinha com sua caixa de chicletes em vão
eu vivo em túmulos
nas canetas inescrupulosas
que assinam as sentenças de morte
nos açougues humanos, nas filas da ilusão
eu sou a tristeza de quem vê
a hipocrisia dos porcos golpistas
o cinismo dos traidores
o preconceito e a exclusão
eu sou o desprezo, a limpeza étnica
num sofisticado hall
sem transeuntes de chinelos
eu sou a decadência
de quem não percebe a dor do outro
de quem desdenha da mais nova vítima
as trapaças combinadas a priori
eu sou a festa da minoria
numa cobertura chique
enquanto a esquina mostra suas cicatrizes
meninas prostitutas, constrangidas
colocando a infância numa câmara de gás - eu sou a monstruosidade do deputado nazista
e o mundo é a república de oswald:
árvores, frutos e gente dizendo adeus - a isso chamam humanidade
pátria madrasta gentil!

@pauloandel

Thursday, December 03, 2015

estrebuchando

ah, o amor
estrebuchando no chão
enquanto os ódios sorriem
felizes
com abraços siameses
o nocaute do amor
é o cinturão de ouro
da raiva
o golpe de sorte da empáfia
- eu não tenho nada com isso!
- sacripanta! sacripanta!
o amor não dorme
em corações reacionários
- ele precisa de peitos abertos
e proletários da paixão
o amor surrado, socado
cheio de equimoses
enquanto o ódio, irmão
há de morrer sozinho
sem velas acesas e sequer compaixão

@pauloandel

Wednesday, November 25, 2015

Cenas de Nova York - últimas palavras

"AH, VAMOS VOLTAR PARA O VILLAGE e parar na esquina da Eighth Street com Sixth Avenue para ver os intelectuais passarem. – Repórteres da AP correndo para seus apartamentos de subsolo na Washington Square, colunistas femininas com grandes cães policiais quase rebentando a corrente, detetives solitários passando como sombras, desconhecidos peritos em Sherlock Holmes com unhas azuis a caminho de seus quartos para tomarem escopolamina, um jovem musculoso de terno alemão cinzento barato explicando algo grotesco para sua namorada gorda, grandes redatores educadamente recostados às bancas de jornal a postos para comprarem a primeira edição do Times, enormes empregados gordos de mudanças saídos de filmes de 1910 de Charlie Chaplin retornando para casa com imensos sacos transbordando de chop-suey (alimentam todo mundo), o melancólico arlequim de Picasso que agora é dono de uma loja de gravuras e molduras pensando na mulher e no filho recém-nascido e levantando um dedo para chamar um táxi, engenheiros de som balofos apressados com seus gorros de pele, gatas artistas da Columbia com seus problemas à D. H. Lawrence caçando homens de cinqüenta anos, velhos no Kettle of Fish, e o espectro melancólico da prisão feminina de Nova York que se ergue no horizonte envolta em silêncio como a própria noite – ao pôr-do-sol suas janelas parecem laranjas – o poeta e. e. cummings comprando um pacote de pastilhas para garganta à sombra daquela monstruosidade. – Se está chovendo, você pode ficar debaixo do toldo do Howard Johnson’s e observar o outro lado da rua.

O beatnik Angel Peter Orlovsky no supermercado cinco portas adiante, comprando biscoitos Uneeda (tarde da noite, sexta-feira), sorvete, caviar, bacon, pretzels, refrigerantes, três escovas de dentes, leite maltado (sonhando com leitão assado recheado), comprando batatas de Idaho, pão de passas de uva, couve com lagartas por engano e tomates frescos e recolhendo selos vermelhos. – Depois vai para casa falido, joga tudo em cima da mesa, pega um enorme livro de poemas de Mayakovsky, liga o televisor de 1949 em um filme de terror e vai dormir.


E essa é a vida beat na noite de Nova York."

Jack Keroauc, 1961

Pink Floyd - Take it back - 1993

Tuesday, November 24, 2015

fragmentos românticos

1

a fé tão sem sossego - um arremedo
a vaidade é vã miséria
- é a pilhéria do desejo

o amor que não mergulha
perde o curso - um desalento

amor covarde
sem pátria livre
nossos corações imperfeitos!

2

a tristeza pelo que não se viveu
é a riqueza do sonho

se os finais nem sempre são felizes
existe história depois da história:

- uma surpresa inesperada
que talvez nem o acaso resista

3

dois corações siameses de pensamento
tão distantes na carne
pensativos  

sedentos dos prazeres proibidos:
românticos de pátrias perdidas
estrangeiros de seu tempo - ainda assim, cobiçam-se


4

a mulher tímida está nua
e linda, provocante:
ousada como isadora duncan
sob o luar de ipanema
inebriando o olhar de quem a deseja
suave como a balada de coleman hawkins

tão linda que entorpece - levita no ar
até sangrar o coração de um poeta
a desejá-la com ardor por entre as estrelas

- romance de carne e afeto

5

a delicada mulher
numa janela do empire state
numa procissão
ou em qualquer condução urbana

tão linda e tímida, desnuda
no pensamento longe
do pobre vagabundo, guardião de seus anseios

- a mulher que faz amar e causa dor
- a história dos fantasmas que andam
a linda mulher num trem da central
ou na amsterdam sauer, tanto faz
o amor sobrevoa as fronteiras, desejos, o lugar


6

aqui jaz uma oração de amor

@pauloandel 






Friday, November 20, 2015

lições do amor em vão

o fundo do coração

ah, se eu soubesse
aonde se esconde
quem nunca aparece
tá sempre tão longe
hoje eu li no céu
o teu nome

eu quero tudo
dessa madrugada
deixa a luz acesa
pra tua chegada
há um carrossel
de todas as cores

nada me espanta
sou quase feliz
eu sempre pergunto
você nunca diz
se é assim o amor
sempre por um triz

(Herbert Vianna)


te ver

te ver e não te querer
é improvável, é impossível
te ter e ter que esquecer
é insuportável, é dor incrível

é como mergulhar num rio
e não se molhar
é como não morrer de frio
no gelo polar
é ter o estômago vazio
e não almoçar
é ver o céu se abrir no estilo
e não se animar

é como esperar o prato
e não salivar
sentir apertar o sapato
e não descalçar
é ver alguém feliz de fato
sem alguém pra amar
é como procurar no mato
estrela do mar

é como não sentir calor
em Cuiabá
ou como no Arpoador
não ver o mar
é como não morrer de raiva
com a política
ignorar que a tarde vai
vadia e mitica
é como ver televisão
e não dormir
ver um bichano pelo chão
e não sorrir
é como não provar o néctar
de um lindo amor
depois que o coração detecta
a mais fina flor

(Samuel Rosa)


a seta e o alvo

eu falo de amor a vida
você de medo da morte
eu falo da força do acaso
e você de azar ou sorte
eu ando num labirinto
e você numa estrada em linha reta
te chamo pra festa mas vocês
só quer atingir sua meta
sua meta é a seta no alvo
mas o alvo na seta não te espera
eu olho pro infinito
e você de óculos escuros
eu digo "eu te amo"
e você só acredita quando eu juro
eu lanço minha alma ao espaço
você pisa os pés na terra
eu experimento o futuro
e você só lamenta não ser o que era
e o que era era a seta no alvo
mas o alvo na seta não te espera

eu grito com liberdade
você deixa a porta se fechar
eu quero saber a verdade
e você se preocupa em não se machucar
eu corro todos os riscos
você diz que não tem mais vontade
eu me ofereço inteiro
e você se satisfaz com metade
é a meta de uma seta no alvo
mas o alvo na seta não te espera
então me diz qual é a graça
de já saber o fim da estrada
quando se parte rumo ao nada

(Paulinho Moska)

@pauloandel

Thursday, November 19, 2015

desavesso


Monday, November 16, 2015

os calhordas são felizes

boas vindas aos detratores da morte
tão sisudos e autossuficientes
pela certeza tão amarrotada
- vamos escolher tragédias!
- quem são os campeões de audiência?
a dor do outro é desimportância
e você, tem culpa do mundo?
corações solitários devastados
miséria de corpo, alma e amor
eles têm a grande solução, a ideia infalível, a genialidade!
resta explicar as águas contaminadas
os fuzis sedentos de ódio
a destruição pela ambição
os hipócritas com suas soluções rasteiras, tacanhas
uma criança chora na calçada
outra dorme podre na lama
e outra espera os pais que não virão
da condução
do bataclan
da esquina de ipanema
eles discutem esquerda e direita
porque perderam o centro
onde os pés no chão seriam lucidez
está chegando um novo verão
com arrastões, balas perdidas e enchentes
eu não me lembro de nada! nada!
boas vindas aos coronéis da morte
trazendo seus exércitos boçais
a fé na conta e deus por um trilho
a dor do outro é menor do que a minha
as esquinas são derrotas
os orgulhos fedem a fracasso
a província é tão vulgar que o homem de bem tem preço e local:
o apagão insano e vigoroso da memória

Wednesday, November 11, 2015

Monday, November 09, 2015

o grande irmão de copacabana

oh, grande irmão de Copacabana!
procuro tua mão estendida
teu abraço de tanto tempo
e não encontro meu caminho
- o mar parece tão longe daqui
nenhum domingo é coisa nossa!
o sangue frio das nossas esquinas
rima com marquises miseráveis
não temos a culpa pelo mundo!
o grande irmão em lágrimas
um desconcerto de saudade à tez
oh, meu amigo, meu irmão
a solidão é a dor deste mundo
nossa descrença lancinante
e ninguém percebe quando te procuro
nos caminhos de pedra portuguesa
há uma canção de sofrimento
ficamos distantes demais
e já não sei das belas da calçada
meu irmão, minha família de Copacabana
viver é olhar para trás e rever
o curso do rio da vida
águas tortuosas e desmedidas
nenhum poema é nossa paz!
as dores do meu corpo cansam
as vontade já não têm sentido
eu sou o cavaleiro das trevas
a se esgueirar pelos sonhos mortos
de um bairro abandonado
ah, copacabana! bela e profana
desregrada canção singela
- ponha teus versos sob perigo
pisemos nos ombros dos gigantes!
vamos resgatar lições de amor!
meu amor tão vazio e triste
alguma esperança pode sangrar

@pauloandel

Thursday, November 05, 2015

Glauber Rocha Glauber!

















@pauloandel



Saturday, October 31, 2015

Fragmentos


1

a mão estendida
em conciliação
pode ser um coração
cheio de dedos:
vamos dar as mãos!
vamos celebrar a poesia
dos nossos corações

2

o inferno é o sentimento ruim
o inferno é o espírito de porco
o inferno da região de oposição
o inferno é o egoísmo, a vaidade
o inferno é a hipocrisia em lá
o inferno: chapa branca caixa preta
o inferno: a intolerância, o rancor
o inferno é o ser humano em vão

3

amor é rever uma palavrinha
sonhar com abraço, colher estrelas
trazer a pessoa amada em mil
lembranças
ler a poesia do cinema
amar é reconstruir
agregar sem restrições
amar é conexão de calor
o resto mora alegre ou triste
tudo debaixo do sol sem pedir
esmola, abrigo, aparato
o resto mora na simplicidade

@pauloandel

Thursday, October 29, 2015

"Uivo", de Allen Ginsberg

Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela
loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada
em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo
contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite,
que pobres esfarrapados e olheiras fundas, viajaram
fumando sentados na sobrenatural escuridão dos
miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando
sobre os tetos das cidades contemplando o jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado
e viram anjos maometanos cambaleando iluminados
nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e
radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz
de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu
dinheiro em cestos de papel escutando o Terror
através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando
por Laredo com um cinturão de marihuana para
Nova Iorque,
Que comeram fogo em hotéis mal pintados ou
Beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou
Flagelaram seus torsos noite após noite com
Som sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília,
Álcool e caralhos em intermináveis orgias,
Incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula,
E clarão na mente pulando nos postes dos pólos de
Canadá & Paterson, iluminando completamente o
Mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peite dos corredores, aurora de fundo de
quintal das verdes árvores do cemitério, porre de vinho
nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio
na luz cintilante de neon do tráfego na
corrida de cabeça feita do pazer, vibrações de
sol e lua e árvore no tronco de crepúsculo de
inverno de Brooklyn, declamações entre latas
de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o
infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx
de benzedrina até que o barulho das rodas e
crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca
arrebentada o despovoado deserto do cérebro
esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do
Zoológico, que afundaram a noite toda na luz submarina
de Bickford´s, voltaram à tona e passaram a tarde
de cerveja choca no desolado Fuggazi´s escutando
o matraquear da catástrofe na vitrola
automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do
parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao
Museu à Ponte do Brooklyn,
Batalhão perdido de debatedores platônicos saltando
Dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos
Das janelas do Empire State da Lua,
Tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos
E lembranças e anedotas e viagens visuais e choques
Nos hospitais e prisões e guerras,
Intelectos inteiros regurgitados em recordação total
Com os olhos brilhando por sete dias e noites,
Carne para a sinagoga jogada à rua,
Que desapareceram no Zen de Nova Jersey de
lugar algum deixando um rastro de postais ambíguos
do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas
de ossos e enxaquecas da China por causa da
falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia noite no pátio da
ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem
deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões
de carga, vagões de carga, que rumavam ruidosamente
pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia
e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente
vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando
anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore
apareceu em estase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma
no impulso da chuva de inverno na luz das ruas
da cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Huston procurando
jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol
brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade,
inútil tarefa, e assim embarcaram
num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México
nada deixando além da sombra das suas calças
rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas
pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI
de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas
e sensuais nas suas peles morenas, distribuindo
folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços
protestando contra o nevoeiro narcótico de
tabaco do Capitalismo,
que distribuiram panfletos supercomunistas em Union
Square, chorando e despindo-se enquanto as
Sinrenes de Los Alamos os afugentavam gemendo
mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e
também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos,
nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de
prazer nos carros de presos por não terem cometido
outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do
telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas
santificados e berraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins
humanos, os marinheiros, carícias de amor
atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em
roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios,
espalhando livremente seu sêmen para
quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar
mas acabaram choramingando atrás de um tabique
de banho turco onde o anjo loiro e nu veio
trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três
megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, megera caolha  que pisca de
dentro do ventre e a megera caolha que só sabe
sentar sobre sua bunda retalhando os dourados
fios intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com um garrafa
de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma
vela, e caíram na cama e continuaram
pelo assoalho e pelo corredor e terminaram
desmaiando contra a parede com uma visão da
boceta final e acabaram sufocando o derradeiro lampejo da
consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas
trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos
no dia seguinte mesmo assim prontos
para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas
nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado num miríade de
carros roubados à noite, N.C., herói secreto destes
poemas, garanhão e Adônis de Denver – prazer
ao lembrar suas incontáveis trepadas com garotas
em terrenos baldios & pátios dos fundos de
restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras
de poltronas de cinema, picos de montanha
cavernas com esquálidas garçonetes no
familiar levantar de saias solitário à beira da
estrada & especialmente secretos solipsismos de
mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram
transportados em sonho, acordaram num
Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma
Impiedosa ressaca de adegas de Tokay e horror
Dos sonhos de ferro da Terceira Avenida &
Cambalearam até as agências de desemprego,
Que caminharam a noite toda com os sapatos cheios
De sangue pelo cais coberto por montões de
Neve, esperando que uma porta se abrisse no
East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
Que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos
De apartamentos do Huston à luz azul de holoforte
Antiaéreo da luta & suas cabeças receberão
Coroas de louro no esquecimento,
Que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação
Ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos
Rios de Bovery,
Que choraram diante do romance das ruas com seus
Carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
Que ficaram sentados em caixotes respirando a
escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir
clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroando de
chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos
caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre
invocações sublimes que ao amanhecer amarelado
revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração
pé rabo borsht & tortilhas sonhando com
o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne
em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu
lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo
& despertadores caíram em suas cabeças por
Todos os dias da década seguinte,
Que cortaram seus pulsos sem resultado três vezes
Seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir
Lojas de antiguidades onde acharam que estavam
Ficando velhos e choraram,
Que foram queimados vivos em seus inocentes
ternos de flanela em Madison Avenue no meio das
rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido
dos batalhões de ferro da moda & os guinchos
de nitroglicerina das bichas da propaganda &
o gás mostarda de sinistros editores inteligentes
ou foram atropelados pelos taxis bêbados
da Realidade Absoluta,
que se jogaram da ponte de Brooklyn, isso realmente
aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos
para dentro da espectral confusão das ruelas
de sopa & carros de bombeiros de Chinatown,
nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se
da janela do metrô saltaram no imundo rio
Paissac, pularam nos braços dos negros, choraram
Pela rua afora, dançaram sobre garrafas
Quebradas de vinho descalços arrebentando
Nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30
Na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram
Gemendo no toalete sangrento, lamentações nos
Ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
Que mandaram brasa pelas rodovias do passado
Viajando pela solidão da vigília da cadeia de
Gólgota de carro envenenado de cada um ou então
A encarnação do Jazz de Birmingham,
Que guiaram atravessando o país durante setenta e duas
Horas para saber se eu tinha tido uma visão ao se ele tinha
Tido uma visão para descobrir a Eternidade,
Que viajaram para Denver, que morreram em Denver,
Que retornaram a Denver & esperaram em vão,
Que espreitaram Denver & ficaram parados pensando
& solitários em Denver e finalmente partiram
para descobrir o Tempo & agora Denver está
saudosa de seus heróis,
 que caíram de joelhos em catedrais sem esperança
rezando por sua salvação e luz e peito até que a
alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentassem nas suas mentes na prisão
aguardando impossíveis criminosos de cabeça
dourada e o encanto da realidade em seus corações
que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um
vício ou às Montanhas Rochosas para o suave
Buda ou Tânger para os garotos do Pacífico Sul
para a locomotiva negra ou Havard para Narciso
para o cemitério de Woodlaw para a coroa
de flores para o túmulo,
que exigiram exames de sanidade mental acusando
o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua
loucura & e mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da
Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo
e em seguida se apresentaram nos degraus de
granito do manicômio com cabeças raspadas e [
fala de arlequim dobre suicídio, exigindo
lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da
insulina metrazol choque elétrico hidroterapia
psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue
& amnésia,
Que num protesto sem humor viraram apenas uma
Mesa simbólica de pingue-pongue mergulhando
logo a seguir na catatonia,
Voltando anos depois, realmente calvos exceto por
Uma peruca de sangue e lágrimas e dedos
Para a visível condenação de louco nas celas da
Cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores
Fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se
E rolando e balançando no banco de solidão à
Meia-noite dos domínios de mausoléu
Druídico do amor, o sonho da vida um
pesadelo , corpos transformados em pedras
tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ***** e o último livro
fantástico atirado pela janela do cortiço e a última
porta fechada às 4 da madrugada e o último
telefone arremessado contra a parede em
resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até
a última peça de mobília mental, uma rosa de papel
amarelo retorcida num cabide de arame do armário
e até mesmo isso imaginário, nada mais
que um bocadinho esperançoso de alucinação –
ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não
estarei a salvo e agora você está inteiramente
mergulhado no caldo animal total do tempo –
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecadas
por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse
do catálogo do metro inviável & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no
Tempo & Espaço através de imagens justapostas
E capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens
Visuais e reuniram os verbos elementares e
Juntaram o substantivo e o choque da consciência
Saltando numa sensação de Pater Omnipotens
Aeterne Deus,
Para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa
Humana e ficaram parados à sua frente, mudos e
Inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados
Todavia expondo a alma para conformar-se ao
Ritmo do pensamento em sua cabeça nua e infinita,
O vagabundo louco e Beat angelical no Tempo,
Desconhecido mas mesmo assim deixando aqui
o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem
fantasmagórica do jazz no espectro de trompa
dourada da banda musical e fizeram soar o
sofrimento da mente nua da América pelo
amor num grito de saxofone de eli eli lama lama
sabactani que fez com que as cidades tremessem
até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado
de seus corpos bom para comer por mais mil anos
 
II
 
Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus
Crânios e devorou seus cérebros e imaginação?
Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de
Lixo o dólares intangíveis! Crianças berrando
sob as escadarias! Garotos soluçando nos
exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o
mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado
juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o
Presidio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso
Dos Sofrimentos! Moloch cujos prédios são
Julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra!
Moloch os governos atônitos!   
Moloch
 Cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo
Sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos
Dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é
Um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é
Um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch
Cujos arranha-céus jazem ao longo de ruas como
Infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham
E grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça
E antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra!
Moloch cuja alma é eletricidade e bancos!
Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio
Sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em que permaneço solitário! Moloch em
Que sonho com anjos! Louco em Moloch!
Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado
E sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch
Em quem sou uma consciência sem corpo!
Moloch que me afugentou do meu êxtase natural!
Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch!
Luz escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! Subúrbios
Invisíveis! Tesouros de esqueletos! Capitais cegas!
Indústrias demoníacas! Nações espectrais! Invencíveis hospícios! Caralhos de granito! Bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas erguendo Moloch ao Céu!
Calçamento, arvores, rádios, toneladas! Levantando
A cidade ao Céu que existe e está em todo lugar
ao nosso redor!
Visões! Professias! Alucinações! Milagres! Êxtases!
Descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! Adorações! Iluminações! Religiões! O
Carregamento todo em bosta sensitiva!
Desabamentos! Sobre o rio! Saltos e crucificações!
 Descendo a correnteza! Ligados! Epifanias!
 Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios!
Mentes! Amores novos! Geração louca! Jogados
Nos rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso no santo rio! Eles viram tudo! O olhar
selvagem! Os berros sagrados! Eles deram adeus!
Pularam do telhado! Rumo à solidão! Acenando! Levando
flores! Rio abaixo! Rua acima!
 
III
 
Cal Solomon! Eu estou com você em Rockland
onde você está mais louco do que eu
Eu estou com você em Rockland
onde você deve sentir-se muito estranho
Eu estou com você em Rockland
onde você imita a sombra da minha mãe
Eu estou com você em Rockland
onde você assassinou suas doze secretárias
Eu estou com você em Rockland
onde você ri desse humor invisível
Eu estou com você em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma
abominável máquina de escrever
Eu estou com você em Rockland
onde seu estado se tornou muito grave e é
noticiado pelo rádio
eu estou com você em Rockland
onde as faculdades do crânio não agüentam
 mais os vermes dos sentidos
Eu estou com você em Rockland
onde você bebe o chá dos seios das solteironas
de Utica
eu estou com você em Rockland
onde você bolina os corpos das suas
enfermeiras as harpias do bronx
Eu estou com você em Rockland
onde você grita de dentro de uma camisa de
força que está perdendo o verdadeiro jogo
de pingue-pongue do abismo
Eu estou com você em Rockland
onde você martela o piano catatônico a alma
é inocente e imortal e nunca poderia morrer
impiamente num hospício armado,
Eu estou com você em Rockland
onde com mais de cinqüenta eletrochoques
sua alma nunca mais retornará a seu corpo de
volta de sua peregrinação rumo a uma cruz
no vazio
Eu estou com você em Rockland
onde você acusa seus médicos de loucura e
prepara a revolução socialista hebraica contra
o Gólgota nacional e fascista
Eu estou com você em Rockland
onde você rasga os céus de Long Island e faz
surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo
sobre-humano
Eu estou com você em Rockland
onde há mais de vinte e cinco mil camaradas
loucos todos juntos cantando os versos finais da
Internacional
Eu estou com você em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos
sob nossas cobertas Estados Unidos que
Tossem a noite toda e não nos deixam dormir
Eu estou com você em Rockland
onde despertamos eletrocutados do coma pelos
nossos próprios aeroplanos da mente roncando
Sobre o telhado eles vieram jogar bombas
angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias
desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora
Ò choque de misericórdia salpicado de estrelas
a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa
de baixo estamos livres
Eu estou com você em Rockland
nos meus sonhos você caminha gotejante de volta
de uma viagem marítima pela grande rodovia que
atravessa a América em lágrimas até a porta do
meu chalé dentro da Noite Ocidental.