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Friday, July 14, 2017

todas as coisas vão passar

todas as coisas vão passar
até o som dos sinos que dobram
pelos que disseram adeus
tudo
todas as ilusões, todas as desesperanças
toda a infâmia vai passar
a miséria também
tudo é breve demais para cogitar eternidade
mas existe uma certeza:
o vazio
o vazio
o vazio da perda, do vão
dos esforços e sentimentos inúteis
dos sofrimentos incalculáveis
todas as coisas vão passar, até a dor
mas o vazio é o mar interminável:
antes dele, corremos para pagar as contas
chorar nossos mortos
e ter direito a pequenos entorpecentes:
a gula, o sexo, o gol, a pequenina alegria
o grão de areia de uma praia sem cor
todas as coisas vão passar
e o vazio é inevitável
o vazio
vazio

Thursday, July 13, 2017

a tempestade

não se trata de um exercício da vida, olhando para o bem e o mal. é o cumprimento de uma pena enrustida. todos os dias você acorda livre, absolutamente livre, e se depara com todos os seus sofrimentos e os daqueles que lhe são próximos, ou mesmo os irmãos que jamais verá ainda que sejam objeto da tua solidariedade. não, não é a vida como ela é, mas como ela foi imposta e você não tem o menor direito de escolha, exceto aceitá-la e sofrer para sempre ou abreviá-la por seus próprios meios, sendo condenado ao vale dos traidores, ao título de louco, de insano, de fraco, como se você fosse quem escreveu todas as desgraças que vemos todo dia. isso não é a vida como ela é, mas a tortura como ela é imposta. você está sozinho, absolutamente sozinho como sempre esteve e, ao olhar de agora para trás, revê um rio interminável com a vida afogada em mágoas, desenganos, falsidades, hipocrisias, egoísmos, invejas e violências. não é a vida como ela é, mas sim a que o sistema maldito reservou para você e os seus, os famintos e os malditos, os mendigos e os perdidos nas noites frias, cruéis e indignas. eis a tempestade, a longa e tenebrosa tempestade, varrendo as misérias do asfalto, traduzindo toda a inutilidade de luta contra o mal porque a vitória pertence aos ruins, aos sujos de alma e aos incapazes de ver o outro senão como um objeto ou saco de lixo conforme a circunstância. não há religião, política ou dialética que justifique a destruição do homem pelo homem, que aceite como normal morrer de fome, de sede e de exaustão do sentimento. 

Tuesday, July 11, 2017

silêncio

no fim, nada pode ser mais cristalino
e preciso na poesia do que o silêncio. 

Saturday, July 08, 2017

irmão

finalmente abracei meu irmão
depois de muitos e muitos anos
ele sofre demais e é triste
eu sofro por nós dois e nossos pais
a história devastada, dolorosa
ele é pobre e triste e sofre
eu me sinto morto
depois de carregar uma cruz de ferro
por quase nove anos
até que ela espatifou minha cabeça
e meu coração apodrece de dor
abracei meu irmão
e senti a mais triste felicidade
eu o queria bem, melhor do que eu
melhor do que a minha morte triste
e perdi todas as certezas
eu me sinto em chamas de um incêndio
eu estou morto em vão
e tudo que eu queria era sua felicidade
finalmente abracei meu irmão
um pequeno conforto diante do mundo
egoísta e pavoroso que sufoca
meus versos inúteis
meu irmão está vivo
o mundo segue com sua indiferença
o futuro não existe


@pauloandel