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Monday, April 30, 2018

a grande farsa

estes são os dias selvagens
sem esperança
onde os humildes padecem
e os fracos são covardes

sorrisos de solidão
declarações sobre o vazio
sucessos cheios de ninguém
e grandes amores 
de aparência 

os traidores são a vitória
os mesquinhos falsos, medíocres
celebram a conquista do nada
o desimportante é a celebração

estes são dias terríveis
onde a maldade amedronta
e o egoísmo vil é fascinante: 
a república dos hipócritas

ódio e vingança simulam justiça
prepotência quer dizer sucesso
indiferença se faz de elegância
ordem e progresso: a grande farsa! 

@pauloandel

Saturday, April 21, 2018

noite de meia lua em gotham city

é fim de tarde no coração da 
cidade seviciada 

o outono escurece as ruas 
mais cedo do que há 
pouco 

os carros desapareceram 
e nem os homens sofridos
vivem a morte em vida 
sobre as pedras 
portuguesas nas
calçadas

os bares estão vazios 
e nada garante 
as próximas
horas

nenhum batsinal no céu
onde está o nosso herói? 

o silêncio das vias explica
o óbvio: não temos previsão
para os próximos
dias

os casais adormecem às oito 
da noite 

a boemia faz brindes no whatsapp

existe tristeza e opressão: tudo é
mais do que assassinatos
mas os verdadeiros presidiários
de gotham city não dão uma
palavra
um pio sequer

vazias, as panelas estão 
emudecidas
viva o delivery! 

há solidão em cada ilha m
motorizada
as crianças não jogam
bola na rua 
e quase ninguém conversa

no centro de gotham city
um mendigo em desespero
com o coração ensanguentado
olha a meia lua e pensa
na morte que insiste em
não libertá-lo do 
inferno

enquanto 

raros transeuntes caminham 
apressadamente carregando
a trilha sonora da desolação
em seus fones de
ouvido e nenhuma
atenção

@pauloandel 

Friday, April 20, 2018

Tuesday, April 17, 2018

uma oração para copacabana

estes são dias em que nada supera o cheiro de ruas tristes

enquanto sou um exilado em meu próprio bairro

contando as horas para uma libertação que nunca virá

somos prisioneiros do ódio e da indiferença: o outro é o esgoto! 

copacabana, eu sou autópsia! 

suspirando pela lembrança da boite bolero e suas doces putas tristes
entorpecidas com cocaína

e sonhando com uma libertação que nunca virá

os mendigos e seus olhares derrotados
vazios e tristes demais

copacabana, eu sou teu suicídio
escondido nas cortinas do passado
em teus romances trágicos de fé

as moças em voo da morte
enquanto a bossa nova explodia

éramos futuro, poema e saudade
agora não passamos da desolação

oh, senzalas de marquise, farmácias lotadas, gente chique escondida
e as favelas do metrô - existe o sol! 

estes são dias da indiferença a sangue frio e os derrotados comemoram

a vez é dos nazistas, dos racistas, homofóbicos e principalmente hipócritas: 
quem vai resgatar o morto das pedras do leme? 

somos tão alheios aos outros, não precisamos de ninguém

minha cabeça é um crânio ensanguentado num quitinete de piso frio e branco no coração de cada

onde está o homem queimado que fazia belos desenhos na grande avenida? 

a mão que matou aída curi é a mesma que fuzilou marielle noutro canto da grande cidade 

os filhos de porteiros já não namoram as garotas dos prédios de Garbo
e a orla da praia parece tão triste

o ódio é o óleo queimado da nossa tristeza e já não temos para onde ir 

somos a grande capital da miséria humana, tão superficial 

nunca mais pintaremos as ruas nas copas do mundo

nossos amigos estão mortos e desaparecidos ou trancafiados nas celas dos smartphones 

copacabana eata semana morreu: deixou seus órfãos mas nenhum bem material que não seja a beleza

as mais doces putas nunca foram vistas novamente 

nem o mendigo cadeirante com sonda de urina em berço de morte na rua siqueira campos 

nem os meninos que esmolavam perto das casas da banha

copacabana, meu ventre escravo é tua dor interminável, o rio rumo ao mar infinito até a busca de terra firme e corações abraçados - também órfãos da tempestade

e é preciso chorar pelos irmãos separados, as vidas espatifadas, as vidas em vão feito carne a moer em máquinas do progresso

não é possível crer que todos cantaremos juntos uma grande canção

nunca mais nos encontraremos nos bares, nem beijaremos as belas garotas e nem os rapazes vão se entender

o cirandinha está morto e enterrado
o bonino's está morto e enterrado
e decapitamos nossa classe

sou outono e quero ser inverno, perdição gelada aos pés do atlântico sul, sem minhas tardes de cinema

copacabana pulou da janela e não deu chance de resgate
espatifada na calcada, planeja uma ressurreição alla gotham city
porque fausto fawcett resiste
o bar sniff resiste 
e katia frança voltará da flórida para nós redimir - não, não seremos o inferno! 

esta semana eu sou minha dor solitária e vejo ao longe as areias que beijam o forte

a morte não resiste à minha tristeza infinita - eu posso derrotá-la
nenhuma bala no crânio há de solicitar o meu fracasso, vendo os meus em descaso, perdidos entre as distâncias e o nunca mais 

copacabana, minha eternidade que beija o déjà vu, que abençoa os randez-vous, que amansa e aquece conspirações

se tudo parece perdido, ainda temos nossas ruas e amores, pequenas histórias desimportantes que regamos com risos e lágrimas, nossas pequenas vidas

tudo é efêmero, mas a linda curva de areia está fadada à eternidade - é a beleza que ainda nos serve de resistência enquanto temos forças

copacabana, capital dos sonhos, desilusão dos miseráveis, combustível da imensidão humana, verso e bairro

descanse meu coração em paz

@pauloandel  

Tuesday, April 10, 2018

farsa

enquanto caminho pelas
veias de asfalto sangrentos
vejo os corpos em
decomposição 
na autópsia das calçadas
frias e indiferentes
vejo os escombros
a miséria e a insensatez
eu caminho pela terra
batida com carcaças 
de carros incinerados
e cadáveres insepultos
e meus olhos armazenam 
cenas de terror e solidão
eu caminho sem canto
sem prece nem crença
a indiferença é um bem 
humano da selva de pedra
o desprezo é o bom dia
eu sigo triste e sozinho
pelo calçadão enquanto 
homens e mulheres celebram 
a morte e as mortes
as farsas nas prisões: 
o que foi feito daquele amor 
que trocamos por hipocrisia? 

Sunday, April 08, 2018

Funk do PIB

eu sou PIB mermo/ e explano pra geral/  comemorei o golpe/ e aplaudo os general/  queria o Lula preso porque ele é safado/ o corno Bonner disse pros mané teleguiado/ tem que fuder os preto as piranha e os viado/ isso é que eu penso para o bem do meu Estado/  a minha faculdade já foi feita em Facebook/ os livro é pra otário/ quero meus latão e nude/ os meus latão e nude/ os meus latão e nude/ agora finalmente acabou a corrupção/já tem emprego a rodo e segurança de montão/ saúde e transporte e também evolução/ isso tava escrito nas manchetes de jornal/ eu li e acredito, não me chame de boçal/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ é nesse funk doido que eu canto o batidão/ e mostro para o mundo como eu sou um bobalhão/ se depender de mim nem precisa de eleição/ já tenho minha night meu papel e meu latão/ eu vou pra interméti e sou curtido de montão/ eu só escrevo merda mas me acho um fodão/ eu tenho a soluçao para os pobrema da nassão/ 
sou PIB, sou PIB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro

Wednesday, April 04, 2018

a tempestade em dia solar

a liberdade é utopia quando
os corações estão embebidos em ódio

a liberdade é uma farsa
nunca seremos verdadeiramente livres
não existe vitória no fascismo
nem nas síndromes de Estocolmo
ainda somos tão atrasados 
quanto há cinquenta anos escorridos
torturaram e fingimos não ver
estupraram e fingimos não ver
a indiferença é a nossa cegueira
a estupidez é nossa esperança
- enquanto isso, contamos nossos mortos
nossas mulheres fuziladas
as mãos de esmola que desprezamos 
a nossa ética seletiva
minha voz enternecida só vai gritar palavrões
e frases odiosas
canta a tua última canção, Brasil
até a próxima grande farsa!
em nome de deus, da pátria e da família
espalhamos cólera e ignorância demais
depois contamos nossos mortos 
e preparamos as malas para o feriado
hipócritas, doces hipócritas que somos
fingimos felicidades mentirosas
ou até 
sinceras, dependendo do grau 
de escrotidão
gostamos de gente debaixo das marquises
ou sob escombros dos barracos
estes crimes dão sentido às nossas vidas
fúteis
celebradas no fascismo do jornal nacional
do café da manhã com frutas e frios
e tiros na lataria blindada
nunca seremos livres 
enquanto formos tão boçais
celebrando as mortes, a dor e o caos
até o derradeiro tiro na cabeça 
o grande voo da morte pela janela vazia
até o último voto de confiança no ódio
canta, Brasil! canta, canta! 
ah, república federativa cheia de árvores
derrubadas em vão
e gente dizendo 'eu não tenho bandido de estimação'

@pauloandel 

(contém citações de "Canta Brasil", de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho, e de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade)