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Wednesday, November 25, 2015

Cenas de Nova York - últimas palavras

"AH, VAMOS VOLTAR PARA O VILLAGE e parar na esquina da Eighth Street com Sixth Avenue para ver os intelectuais passarem. – Repórteres da AP correndo para seus apartamentos de subsolo na Washington Square, colunistas femininas com grandes cães policiais quase rebentando a corrente, detetives solitários passando como sombras, desconhecidos peritos em Sherlock Holmes com unhas azuis a caminho de seus quartos para tomarem escopolamina, um jovem musculoso de terno alemão cinzento barato explicando algo grotesco para sua namorada gorda, grandes redatores educadamente recostados às bancas de jornal a postos para comprarem a primeira edição do Times, enormes empregados gordos de mudanças saídos de filmes de 1910 de Charlie Chaplin retornando para casa com imensos sacos transbordando de chop-suey (alimentam todo mundo), o melancólico arlequim de Picasso que agora é dono de uma loja de gravuras e molduras pensando na mulher e no filho recém-nascido e levantando um dedo para chamar um táxi, engenheiros de som balofos apressados com seus gorros de pele, gatas artistas da Columbia com seus problemas à D. H. Lawrence caçando homens de cinqüenta anos, velhos no Kettle of Fish, e o espectro melancólico da prisão feminina de Nova York que se ergue no horizonte envolta em silêncio como a própria noite – ao pôr-do-sol suas janelas parecem laranjas – o poeta e. e. cummings comprando um pacote de pastilhas para garganta à sombra daquela monstruosidade. – Se está chovendo, você pode ficar debaixo do toldo do Howard Johnson’s e observar o outro lado da rua.

O beatnik Angel Peter Orlovsky no supermercado cinco portas adiante, comprando biscoitos Uneeda (tarde da noite, sexta-feira), sorvete, caviar, bacon, pretzels, refrigerantes, três escovas de dentes, leite maltado (sonhando com leitão assado recheado), comprando batatas de Idaho, pão de passas de uva, couve com lagartas por engano e tomates frescos e recolhendo selos vermelhos. – Depois vai para casa falido, joga tudo em cima da mesa, pega um enorme livro de poemas de Mayakovsky, liga o televisor de 1949 em um filme de terror e vai dormir.


E essa é a vida beat na noite de Nova York."

Jack Keroauc, 1961

Pink Floyd - Take it back - 1993

Tuesday, November 24, 2015

fragmentos românticos

1

a fé tão sem sossego - um arremedo
a vaidade é vã miséria
- é a pilhéria do desejo

o amor que não mergulha
perde o curso - um desalento

amor covarde
sem pátria livre
nossos corações imperfeitos!

2

a tristeza pelo que não se viveu
é a riqueza do sonho

se os finais nem sempre são felizes
existe história depois da história:

- uma surpresa inesperada
que talvez nem o acaso resista

3

dois corações siameses de pensamento
tão distantes na carne
pensativos  

sedentos dos prazeres proibidos:
românticos de pátrias perdidas
estrangeiros de seu tempo - ainda assim, cobiçam-se


4

a mulher tímida está nua
e linda, provocante:
ousada como isadora duncan
sob o luar de ipanema
inebriando o olhar de quem a deseja
suave como a balada de coleman hawkins

tão linda que entorpece - levita no ar
até sangrar o coração de um poeta
a desejá-la com ardor por entre as estrelas

- romance de carne e afeto

5

a delicada mulher
numa janela do empire state
numa procissão
ou em qualquer condução urbana

tão linda e tímida, desnuda
no pensamento longe
do pobre vagabundo, guardião de seus anseios

- a mulher que faz amar e causa dor
- a história dos fantasmas que andam
a linda mulher num trem da central
ou na amsterdam sauer, tanto faz
o amor sobrevoa as fronteiras, desejos, o lugar


6

aqui jaz uma oração de amor

@pauloandel 






Friday, November 20, 2015

lições do amor em vão

o fundo do coração

ah, se eu soubesse
aonde se esconde
quem nunca aparece
tá sempre tão longe
hoje eu li no céu
o teu nome

eu quero tudo
dessa madrugada
deixa a luz acesa
pra tua chegada
há um carrossel
de todas as cores

nada me espanta
sou quase feliz
eu sempre pergunto
você nunca diz
se é assim o amor
sempre por um triz

(Herbert Vianna)


te ver

te ver e não te querer
é improvável, é impossível
te ter e ter que esquecer
é insuportável, é dor incrível

é como mergulhar num rio
e não se molhar
é como não morrer de frio
no gelo polar
é ter o estômago vazio
e não almoçar
é ver o céu se abrir no estilo
e não se animar

é como esperar o prato
e não salivar
sentir apertar o sapato
e não descalçar
é ver alguém feliz de fato
sem alguém pra amar
é como procurar no mato
estrela do mar

é como não sentir calor
em Cuiabá
ou como no Arpoador
não ver o mar
é como não morrer de raiva
com a política
ignorar que a tarde vai
vadia e mitica
é como ver televisão
e não dormir
ver um bichano pelo chão
e não sorrir
é como não provar o néctar
de um lindo amor
depois que o coração detecta
a mais fina flor

(Samuel Rosa)


a seta e o alvo

eu falo de amor a vida
você de medo da morte
eu falo da força do acaso
e você de azar ou sorte
eu ando num labirinto
e você numa estrada em linha reta
te chamo pra festa mas vocês
só quer atingir sua meta
sua meta é a seta no alvo
mas o alvo na seta não te espera
eu olho pro infinito
e você de óculos escuros
eu digo "eu te amo"
e você só acredita quando eu juro
eu lanço minha alma ao espaço
você pisa os pés na terra
eu experimento o futuro
e você só lamenta não ser o que era
e o que era era a seta no alvo
mas o alvo na seta não te espera

eu grito com liberdade
você deixa a porta se fechar
eu quero saber a verdade
e você se preocupa em não se machucar
eu corro todos os riscos
você diz que não tem mais vontade
eu me ofereço inteiro
e você se satisfaz com metade
é a meta de uma seta no alvo
mas o alvo na seta não te espera
então me diz qual é a graça
de já saber o fim da estrada
quando se parte rumo ao nada

(Paulinho Moska)

@pauloandel

Thursday, November 19, 2015

desavesso


Monday, November 16, 2015

os calhordas são felizes

boas vindas aos detratores da morte
tão sisudos e autossuficientes
pela certeza tão amarrotada
- vamos escolher tragédias!
- quem são os campeões de audiência?
a dor do outro é desimportância
e você, tem culpa do mundo?
corações solitários devastados
miséria de corpo, alma e amor
eles têm a grande solução, a ideia infalível, a genialidade!
resta explicar as águas contaminadas
os fuzis sedentos de ódio
a destruição pela ambição
os hipócritas com suas soluções rasteiras, tacanhas
uma criança chora na calçada
outra dorme podre na lama
e outra espera os pais que não virão
da condução
do bataclan
da esquina de ipanema
eles discutem esquerda e direita
porque perderam o centro
onde os pés no chão seriam lucidez
está chegando um novo verão
com arrastões, balas perdidas e enchentes
eu não me lembro de nada! nada!
boas vindas aos coronéis da morte
trazendo seus exércitos boçais
a fé na conta e deus por um trilho
a dor do outro é menor do que a minha
as esquinas são derrotas
os orgulhos fedem a fracasso
a província é tão vulgar que o homem de bem tem preço e local:
o apagão insano e vigoroso da memória

Wednesday, November 11, 2015

Monday, November 09, 2015

o grande irmão de copacabana

oh, grande irmão de Copacabana!
procuro tua mão estendida
teu abraço de tanto tempo
e não encontro meu caminho
- o mar parece tão longe daqui
nenhum domingo é coisa nossa!
o sangue frio das nossas esquinas
rima com marquises miseráveis
não temos a culpa pelo mundo!
o grande irmão em lágrimas
um desconcerto de saudade à tez
oh, meu amigo, meu irmão
a solidão é a dor deste mundo
nossa descrença lancinante
e ninguém percebe quando te procuro
nos caminhos de pedra portuguesa
há uma canção de sofrimento
ficamos distantes demais
e já não sei das belas da calçada
meu irmão, minha família de Copacabana
viver é olhar para trás e rever
o curso do rio da vida
águas tortuosas e desmedidas
nenhum poema é nossa paz!
as dores do meu corpo cansam
as vontade já não têm sentido
eu sou o cavaleiro das trevas
a se esgueirar pelos sonhos mortos
de um bairro abandonado
ah, copacabana! bela e profana
desregrada canção singela
- ponha teus versos sob perigo
pisemos nos ombros dos gigantes!
vamos resgatar lições de amor!
meu amor tão vazio e triste
alguma esperança pode sangrar

@pauloandel

Thursday, November 05, 2015

Glauber Rocha Glauber!

















@pauloandel