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Tuesday, November 29, 2011
GOMES FREIRE
Monday, May 18, 2009
SHORT CUTS - CENAS HUMANAS E UM BESTALHÃO
Sexta-feira, dezenove horas.
Não escuto a “Voz do Brasil”, mas sim a campainha.
Fernando, meu amigo. Vinte e sete anos sem contato visual não-virtual. Os tempos voam longe.
Trinta segundos de um forte abraço, e tudo volta como era antes.
Jogos de futebol no rádio, com Waldyr Amaral e Jorge Curi. Saldanha comentava, os repórteres de campo eram Kleber Leite e Loureiro Neto. No Botafogo, Borrachinha, China, Ademir Lobo e Mendonça. Fluminense? Wendel, Miranda, o velho Moisés, Edinho, Pintinho. E Nunes.
Amigo é amigo, não importa a pausa. Aperte o botão, e a fita cassete continua do ponto onde parou. Tanto faz se havia Muro de Berlin, Jimmy Carter ou Roberta Close. O mundo gira, a Lusitana roda.
Camarão no Bar do Peixe, coisa fina. Pequenos regalos da vida.
Estamos de volta.
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Sábado nublado pela manhã, deixo a casa de Dória, no Méier. Rimos muito por lá. Não direi o assunto.
Preciso chegar em Niterói, onde Gustavo e Irene me esperam para um almoço. Um grande almoço. Na casa deles, qualquer refeição é monumental.
O Méier é terra das meninas lindas. Sempre. Antes, havia Luciene, Sonia Chris e mais outra, que não merece tamanha audiência. Deixe estar.
Desço a Dias da Cruz, movimentada como lhe convém.
Uma senhora na contramão. Quarenta e poucos anos, talvez mais. Nas mãos, uma caixa de doces. Não está vestida humildemente, não parece uma trabalhadora de rua, uma vendedora de balas. Caminha lenta, mas firmemente. E chora.
Por conta das lágrimas, tento lhe falar algo, mas delicadamente ela faz um aparte, mostrando a palma da mão livre, e segue seu caminho. Outra garota tenta, em vão. A senhora parece numa procissão de dor. O resto da turma segue indiferente, fingindo não ver e, conseqüentemente, se omitido. Preocupação com a dor dos outros, para eles, é comunismo.
Em sua recusa de compartilhar a dor, em sua caminhada serena de morte, em sua tristeza infinita, a moça tem uma dignidade
Vem o 247.
A garota senta perto de mim e me pergunta o que tinha acontecido com a senhora.
Nunca saberemos.
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A casa de Irene é para se ouvir sua risada. Talvez seja um dos únicos lugares na Terra onde ainda me sinto em casa, além de não querer vir para minha própria casa quando chega o fim da atividade. Confesso que já deixei mais de uma namorada na mão só para ficar lá. Confesso também que não me arrependi, exceto num dia em que um louco chato defendia a democracia de Armínio Fraga.
Meu casal de amigos é daqueles para você ficar conversando por horas, horas e horas.
Aproveitei o ensejo para fazer uns golaços no futebol de botão.
Antes, fala-se de tudo: programas trash, esportes, gente bizarra, chatos, canções, biscoitos e até o incrível fato de um sexagenário efeminado sedento por manjar meu “bilau”, como saberemos adiante.
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Domingo era dia de Fred.
Dizem que Fred morreu. Eu vi, mas não acredito. Eu acredito, mas não confio.
Fred é meu pensamento, é minha lembrança e meu arsenal de risadas.
Fizemos um almoço-chope-tributo ao amigo querido. De meio-dia até três ou quatro da tarde, talvez. Delícias da Cobal do Humaitá.
Fechamos conta às oito.
Ri muito com Jorge Pinto. Um dia, eu conto.
Fred vive, do jeito dele e nosso.
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Eu prometi que não ia mais falar de meus três detratores, mas priorizar meus cem fãs do Orkut, meus trezentos amigos e todas as pessoas de bem que visitam meu blog. Dos três apedeutas, dois sossegaram o facho, talvez por traço no Ibope. Restou um.
Peço pausa para uma vezinha. A última. A piada é boa demais para ser verdade. Conversei com uma gata-jornalista sobre o tema e ela me incentivou.
Em quinze anos de vida eletrônica, já vi de tudo em e-mails, listas, sáites e blóguis. Mas a surpresa é sempre uma possibilidade.
Recebi uma mensagem dum sujeito por estes dias. Mensagem, não; um número dois, vindo de um número dois com cérebro de número dois. Da natureza dos covardes, assinou como Anomymous. Compreendo: se eu também fosse um covarde e não tivesse sequer vinte reais para pagar uma conta de luz (quanto mais as custas de um processo judicial), por exemplo, faria o mesmo. Pensando bem, não faria.
Não um leitor, propriamente: na verdade, um borra-botas, vociferando contra mim palavras de baixo calão que, por conta de sua frouxidão, jamais serão repetidas em minha frente, na cara – a marca registrada dos covardes. O dito cujo teria idade para ser meu pai – caráter, não. Mas exerceu o direito democrático de escrever tolices como se fosse um pós-adolescente, repetente incessante no segundo grau. Tudo bem, um idiota a mais, um idiota a menos, está na média. Nem todo mundo tem culpa de ter trinta anos a menos de idade mental. Também não terei, caso o encontre na rua e coloque seu focinho na nuca num estalar de dedos: agirei sob forte emoção, à letra fria da lei. Mas não comemoro: quebrar meia-dúzia de dentes podres de um fracote não é nenhuma vantagem para um boxeur – no caso, o oponente é um bunda-mole que não resiste a dois segundos de luta.
Anonymous, na verdade, é um ser(?) vinculado à espécie Desocupadus Caqueticus Durangus, mais precisamente dentro do gênero Sexagenarius Fracassus Artisticus. Não é catalogado como uma criatura em extinção; na verdade, nem catalogado está. Sua crônica incapacidade de atrair fêmeas para um simples bate-papo não permite a propagação dos genes: efeminado, tenta acasalar por meio virtual, sem nenhum sucesso; confuso, usa Viagra como supositório e acha o comprimido “pequeno”.
Em suma, como diria Catalano... um bestalhão – tudo enquanto exerço minha modesta profissão em minha pequena sala refrigerada (sem riscos de corte de luz por inadimplência), com renda e estabilidade; escrevo, converso, brinco, vejo o Fluzão, ouço música, transo bem, beijo bem, como churrascos e leio Hemingway.
Um invejoso porque mulheres lindas e cultas, camaradas de alto nível moral e intelectual me elogiam aqui.
Tenho culpa?
Duas coisas me chamaram a atenção. Nenhuma por importância, mas pelo ridículo.
A enorme fixação redigida que o "remetente" apresentou por meu órgão sexual e minha barriga, demonstrando ser portador de SIVA.* - deixo claro que o ofensivo baitola não me patolou, embora possa ter desejado contemplar minha ereção (ARGH!).
O fato de um sujeito, em 2009, para parecer “descolado” ou “malandro” utilizar a expressão “sacumé” em seu deprimente “texto” fedendo a chorume. Raras vezes vi algo tão cafona, ultrapassado e fora de tom. Merecia um Troféu Abacaxi no Chacrinha. Nem os hippies de barba-suja-de-macarrão sobreviventes de Woodstock aceitariam tamanha breguice. Sinal completo de coma sexual. Decadência.
No fundo, no fundo, estas linhas finais não passam de uma verdadeira boa-ação; trata-se da única chance de Anonymous ser conhecido ou discutido por trezentas pessoas: sendo mencionado em meu blógui.
Pela última vez.
Este é seu trajeto de vida, velório e enterro. Morreu como viveu: sob indiferença e uma ou outra risada.
No mais, Revertere Ad Locum Tuum.
Pá-de-cal.
Gargalhadas. Muitas.
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Trezentos amigos, eu gosto de vocês.
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* SIVA = Síndrome da Viadagem Adquirida.
Paulo-Roberto Andel, 18/05/2009
Wednesday, May 13, 2009
TREZE DE MAIO?
Caros amigos,
Já cantava o genial Caymmi: “Vida de nego é difícil, é difícil como o quê”.
Mais um treze de maio à vista: cento e vinte e um anos da chamada abolição da escravatura no Brasil: gesto digno, importante, tardio e que, por má execução, acabou não abolindo quase ninguém. Um século e a desigualdade social está ao alcance das mãos, exceto para parlapatões como Demétrio Magnoli, Ali Kamel e o (sempre necessário dizer) parajornalista Mainardiota – todos, sempre com dados estatísticos às mãos e um arsenal de manipulações, aplaudidos por ignorantes deslumbrados que imaginam um Brasil que só existe na Avenida Paulista e na antiga Sernambetiba. Abolição?
Pelas tabelas, há os que vociferam contra o sistema de cotas, tema polêmico, rico e necessário. Reconheço falhas gritantes no sistema vigente, que precisam ser discutidas e realinhadas; entretanto, os mesmos que latem não apresentam qualquer alternativa plausível para a inserção sócio-educacional dos pobres – quando muito, as falácias tão seculares quanto o maio da princesa Isabel: é preciso criar uma “revolução” no ensino fundamental, dizem. Não fosse a hipocrisia de quem a profere, haveria validade plena: de modo algum as classes mais favorecidas têm interesse em revolucionar o ensino público e permitir incrementos aos mais pobres – muito pelo contrário, não admitem publicamente, mas defendem o status quo. Qualquer sujeito sabe que o sistema educacional brasileiro está em processo de degeneração; entretanto, se uma ansiada grande mudança acontecesse a partir de hoje, o que se faria por exemplo com os jovens entre 17 e 19 anos, potenciais estudantes acessando o ensino superior? Enquadrá-los na famigerada Lei de Odracir? Nossos homens de mídia parecem “conhecer” muito de ensino e desenvolvimento, mas são completamente ignorantes em termos de direitos subjetivos. Negar a exclusão social histórica dos negros e seus descendentes no Brasil é vestir na cabeça um chapéu de cone. Em contraprova, os cotistas de meu berço, a querida UERJ, mostraram recentemente melhor pontuação média nas disciplinas, contrastados com os não-cotistas. Esforço hercúleo, dedicação? Ou a comprovação de que o fato dum sujeito ser abonado, ter feito cursinho e ter passado num vestibular público não o torna “mais preparado” do que outro sujeito que, sem as mesmas condições, tenha ingressado na universidade pelo sistema de cotas?
Morri de rir estes dias, lendo um conhecido em seu blógui: faz campanha contra o Bolsa-Família e a vergonha do desvio de dinheiro público. Retrato típico da nação: é funcionário público, ganha quinze mil por mês por um trabalho que, no setor privado, teria um terço dessa remuneração, e vem jogar o problema nos pobres? Um gesto altruísta cairia bem: simplesmente pedir exoneração para poupar o Estado. Ah, isso não.
Há vinte e um anos, ingressei na UERJ, com boa pontuação vestibular num curso de procura restrita, o de Estatística. A ciência em questão mostrava e mostra que, no âmbito nacional, os cursos públicos de graduação com menor relação candidato-vaga tendem a ter um maior número de alunos não-louros-de-olhos-azuis, justamente porque a classe loura-abastada direciona seu poder de fogo e seu preparo “intelectual”, em cursinhos que podem até custar dois mil réis por mês, para os cursos de “doutores”: Direito, Medicina, Odontologia, Engenharia et cetera. Quando você vai a um consultório médico particular ou clínica, não há porque se surpreender no fato de que o médico/ médica que te atende nunca é preto/ preta, nunca é pardo/ parda, nunca é mulato/ mulata. O enfermeiro enfermeira, pode ser. Ah, sim, minha graduação. Começamos com cento e vinte alunos. Quatro pretos. O Brasil é plural. Há advogados pretos, muitos. A minoria, nos grandes escritórios. Quem não se lembra da comemoração feita quando da nomeação do Ministro Joaquim Barbosa para o STF, por ser o primeiro preto lá? Um século de hipocrisia no país da democracia.
O Brasil é plural e convive bem com isso, dizem. Ô. Mas depende da questão geográfica. Em Ipanema, por exemplo, e tão-somente exemplo, bairro-paradigma do Brasil, há muitos pretos. Podem fazer o censo: os locais moram, em sua maioria, nas comunidades de Pavão-Pavãozinho e Cruzada São Sebastião. Pretos na Vieira Souto? Flanelinhas, seguranças de terno ou porteiros. Alguém sabe dizer de algum síndico da famosa avenida litorânea, que seja afrodescendente? Pois é. Por que o Leblon tem mais louros-de-olhos-azuis do que o Catumbi? Por que em Madureira os nordestinos estão mais próximos do empresariado do que no centro da cidade? Por que Japeri tem uma infra-estrutura pior do que o Méier? Há várias respostas; todas, de alguma forma, esbarram num mesmo item: renda.
Mudemos de bairro: comunidade do Jacarezinho. Tem algum morador louro-de-olhos-azuis que esteja cursando faculdade de algum dos cursos que enunciei noutro parágrafo? Cartas para esta redação.
São apenas citações. Não estou aqui tratando de parametrização estatística, embora meu diploma me permita tal chatice. Apenas coloco em discussão algumas máximas insistentemente repetidas pela mídia, repercutidas pelas maritacas falastronas sem a menor reflexão. Em suma, a coisa não é bem do jeito que tentam pintar.
Cotas e bolsa-família, reitero, são paliativos. Paliativos. É preciso mais do que isso se querem transformar o país de verdade. Mas têm importância fundamental no Brasil de hoje, que é bem menos pior do que aquele feito pelo desgoverno de Fernando Henrique. Há muito o que fazer: extinguir deputados que se lixam para o povo, prender bandidos engravatados multimilionários, fazer do Brasil um verdadeiro Brasil – o que é impossível através da “livre-iniciativa” (que nunca foi livre) tão propagada pelos jornais, revistas e patetas de plantão.
Hoje é treze de maio. Falam tanto dos feriados. O país para. Lorotas. A Alemanha também tem. Deveria ser um dia de reflexão para tudo o que acontece nesta terra.
Kamel, Magnoli e Mainardiota são lacaios da renda. Não o fossem, direcionariam seus impropérios contra o movimento nazista veiculado nestes dias pelos noticiários, que está ramificado em todo o Sul Brasileiro.
Não deram uma palavra.
Logo eles, que deveriam se considerar também “afrodescendentes”, num país justo, plural, miscigenado, eqüitativo e que, por isso mesmo, deveria abrir mão do sistema de cotas e do Bolsa-Família.
Sou do tempo em que preto tinha medo de nazista. E branco também.
Paulo-Roberto Andel, 13/05/2009