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Saturday, March 21, 2020

a vingança da noite dos cristais

pode ser.
pode ser a derrota.
a minha última derrota, logo eu
que venho de tantas.
talvez seja o meu fim.
não sei dizer. ninguém sabe.
eles destruíram o pouco
que eu tinha.
eles debocharam e riram
ao chutar meu rosto.
mas eu ainda estou vivo
e viverei
para ver todos eles, nazistas
em desgraça.
todos os nazistas
humilhados.
toda a minha dor se voltará
contra os inimigos do povo
dos pobres e famintos.
todos eles vão feder
feito merda
e serão humilhados
até a hora da morte.
podem juntar seu dinheiro
roubado.
sua quadrilha de assassinos
cruéis.
hei de ver o fim dos nazistas
e cada um deles há de lembrar
o cuspe na cara de hitler.
o rato de esgoto hitler
com sua cara escarrada.
o escarro escorrendo
o câncer que lhe corrói.
o desprezo e a repulsa
que nenhum dinheiro
jamais compensará.

@pauloandel

Wednesday, March 18, 2020

Friday, March 13, 2020

rotas da boa morte

"depois que morri, pude perceber que dentro do mínimo razoável fui um homem bom.

escutei as pessoas. não roubei. não prejudiquei ninguém seriamente. só fui verbalmente agressivo para me defender de violências.

não fui canalha. não traí. não deixei meus ex-amigos na mão. não fingi desatenção quando precisaram de apoios.

pensei no outro, no próximo, de verdade. não me limitei a esmolas para me livrar de gente sofrida. quem mendiga não merece ser tratado como mendigo. quem trata o mendigo como mendigo não é digno de consideração.

entendi que o mundo só funciona de verdade com solidariedade plena, de coração, sem hipocrisia e oportunismo.

tirei de mim qualquer mágoa dos que me prejudicaram, sabotaram e roubaram. pude ver alguns deles pagando a famosa lei do retorno. não adianta postar fotos felizes e, na calada da noite, olhar o teto do quarto como um espelho que estampa uma pessoa de mau caráter.

praticamente todas as pessoas que me amaram de verdade também estão mortas, salvo raríssimas exceções. mas não lamento. fui um homem bom. amei e fui amado. mesmo morto, sou capaz de amar.

fui um homem bom. agora caminho sozinho por ruas sem nome, entre pessoas sem rosto, olhando por entre os escombros de almas perdidas, solitárias, desmanteladas. pessoas mortas, que insistem em viver com fones de ouvido e smartphones à mão.

escrevi coisas que me dão orgulho. as melhores, quase ninguém leu. as piores foram aplaudidas de pé. as medíocres foram encantadoras. cada um tem os leitores que pode.

dia desses depois da morte, um jovem morto debochou de minhas ideias sem me conhecer ou sequer trocar conversas. usava um tom professoral e anglicismos ocos, típicos dos capachos intelectuais que sonham com dinheiro e poder em deslumbramentos corporativos, ou que acreditam que o próprio talento é inédito no mundo morto. olhei e ri, deixei o cadáver em silêncio. ele morreu muito jovem, perdido em manchetes ocas e pedantismo imaturo. é justo rir dos pedantes e depois deixá-los viver ao longe, longe.

ando numa cidade morta, que perdeu o viço e oferece calçadas vazias, ruas esburacadas, lojas fechadas e mãos estendidas por esmolas que adiem a morte e confirmem a morte em vida.

antes de morrer, minha mãe me disse que eu era um homem bom. foi meu maior orgulho. dei alegria a quem me deu sentido numa terra de dores, egoísmo, sofrimento e indiferença.

o brasil está morto. o rio de janeiro está morto. sou um estrangeiro em minha própria terra. às vezes alguém me dá bom dia no elevador. os funcionários do prédio são sempre solícitos. depois passo por um portão verde, ganho a rua e vejo uma solidão enorme. tenho fome, sede, dívidas, melancolia, cansaço. tenho dores físicas, mesmo morto. meus chinelos sempre me lembram de que fui um homem do povo, desimportante, apenas em busca de migalhas de felicidade, um bem precioso mesmo depois da morte.

caminho por uma rua sem movimento que não vai dar em nada. busco as últimas forças em locais improváveis. passo calmamente enquanto transeuntes celebram um fascista boçal. eles estão muito mais mortos do que eu."

@pauloandel

Wednesday, March 11, 2020

Os subterrâneos do futebol brasileiro

O título desta coluna é uma homenagem adaptada do grande livro de João Saldanha, "Os subterrâneos do futebol", leitura obrigatória para qualquer brasileiro que goste do esporte ou pretenda escrever a respeito dele. Por sua vez, o inesquecível Saldanha quis homenagear Jorge Amado quando batizou o próprio livro. 

Infelizmente as linhas a seguir nada têm a ver com a trajetória destes dois craques da vida brasileira, João e Jorge. Vida que segue, diria o maravilhoso cronista esportivo. 

Vamos lá.

O recente - e triste - episódio envolvendo a prisão de Ronaldinho Gaúcho traz à tona algo muito especulado mas pouco falado no Brasil: a sensação permanente de que o luxuoso apartamento do futebol brasileiro tem, no mínimo, vizinhos de porta e prédio bastante indesejáveis, parecendo até um esquisito condomínio de casas na Barra da Tijuca onde ninguém sabe que o morador ao lado é miliciano, por exemplo. 

Ao lado de dribles, gols, festas e paixões, ainda que nosso futebol não seja sombra do que já foi um dia, caminham fortes interesses que não são do jogo nem dos torcedores. Não é algo de hoje, vem de muito longe, inclusive no exterior, mas o atual cenário brasileiro com todas as vísceras sociais cancerosas à vista, faz pensar. 

Quem se lembra da farra na chegada da Seleção tetracampeã mundial, entrando com bola e tudo pelo Galeão sem passar pela alfândega? Perto do que veio depois, virou fichinha. Este é apenas um exemplo. 

Somas interestelares de valores em transações nem sempre cristalinas. A clara preferência de investimento da televisão, que privilegia poucos clubes e tendencia o principal campeonato do país. Dirigentes de caráter duvidoso, alguns inclusive presos ou citados em escândalos de grandeza nacional. Outros, que se tornaram milionários trabalhando em clubes onde não recebem (ou não deveriam receber) salários, dada a hipocrisia do amadorismo dos cartolas. Negociações astronômicas de jogadores que não vingam no futebol internacional e muitas vezes retornam ao Brasil em pouquíssimo tempo - três ou seis meses. Dívidas impagáveis - algumas, com explosão súbita -, muitas vezes adquiridas por negligência trabalhista ou jurídica, deixando os clubes à míngua mas muitos funcionários e prestadores de serviço com satisfação plena. O VAR que dá muito mais certo para um lado do que outro. Conflitos de interesse a granel por toda parte. Livros e livros que denunciam a corrupção vertical da FIFA de cima para baixo. E o mundo da informação é paralisado porque, claro, a imprensa esportiva depende do futebol para sobreviver, dedicando-se apenas aos casos mais evidentes. Tudo isso embalado por muitas festas e convescotes milionários, alguns deles - sem moralismo - impróprios para menores de 75 anos. 

Claro, o futebol brasileiro é um natural reflexo do país. Por isso, está mais perto de suas mazelas terríveis do que se gostaria. Muito mais. 

Importante pontuar: o que vemos na televisão diariamente é a representação de menos de 10% dos jogadores de futebol profissional do Brasil. Os outros 95% não estão na mídia, jogam muitas vezes por um prato de comida ou até mesmo em condições análogas ao trabalho escravo, disputando partidas vistas por menos de dez torcedores, mas que são acompanhadas atentamente do outro lado do mundo por conta das bolsas de apostas. 

Voltando aos 10% da elite econômica do futebol, há relatos costumeiros de um jogador retornar parte de seus rendimentos mensais para quem o fortaleceu com um excelente contrato, às vezes até acima do que mereceria tecnicamente falando. Qualquer semelhança entre este procedimento e a já famosa suspeita de "rachadinha" parlamentar, com 48 depósitos de 2 mil reais em espécie no caixa eletrônico, é mera evidência. E quando você vê aquele pereba como titular absoluto do seu time, sem entender porque o reserva não o substitui, não tenha dúvidas: não existe coincidência nisso. 

O treinador que indica reforços, o dirigente que contrata vários jogadores de um mesmo empresário, o clube que revela vários jogadores sem retorno esportivo mas com rápidas negociações internacionais. Os clubes que têm uma sequência de negociações de jogadores que, em muitos casos, não vingam esportivamente. E treinadores que vêm e vão com velocidade hipersônica, pendurando e renegociando salários atrasados. 

Bom, até recentemente a CBF tinha dirigentes que não podiam sequer viajar para o estrangeiro, sob risco de entrarem em cana via Interpol. Outros cumprem pena no exterior. Sempre alinhada com a ditadura e, posteriormente, com todos os vícios do corporativismo e da baixa politicagem das federações estaduais, a Confederação é um triste retrato da vida brasileira, salvo raras exceções de dignidade que ocuparam seus quadros. Se pensarmos friamente, tem o mesmo modus operandi da FIESP, da CNI e de outras entidades empresariais que, dentre outras picaretagens, financiaram o golpe de 2016 e prepararam o terreno para o horror que hoje vivemos. A única diferença é que a CBF, direta ou indiretamente, legaliza todo dia uma partida de futebol que, na arquibancada ou na tela da televisão, serve de pequeno bálsamo para milhões de corações torturados pela difícil vida no Brasil, ou de confere para outros corações que não estão nem aí para nada. 

Para quem ama o futebol, só resta uma saída: tapar o nariz e voltar a ser criança por 90 minutos, tal como o jornalista Juca Kfouri receitou certa vez numa entrevista. O jogo de bola ganhou o planeta, é o esporte mais popular do mundo, mas carrega em suas costas bem mais do que jogadas fabulosas e lances inesquecíveis. 

Pode parecer estranho fechar uma coluna sobre o futebol brasileiro e não falar em Neymar. Mas, pensando bem, é melhor assim. Novamente o talento de João Saldanha cai melhor por aqui: vida que segue. 

@pauloandel 

Tuesday, February 25, 2020

para o verão que morre

o que me sobrou foi um par
de chinelos velhos e grandes
com eles, navego às ruas
sem pensar bem no futuro
nem no presente 
aterrorizante
e dou meus passos humildes
sem grandes conquistas
mas também sem falsos 
amigos
com seus discursos vazios
meus pequenos passos que 
não
me levam onde procuro
nenhum rastro de meus pais
meu irmão não dá um pio
de modo que são passos 
tristes
sozinhos, porém necessários
porque a vida é dos andarilhos
dos que atravessam muitas ruas
e colecionam nomes, fatos, sons:
as cores e pedras, a gente 
que passa
meus pequenos passos necessários
sem falsos abraços e risadas 
infelizes
mergulhando feito sangue nas 
veias
e artérias do que sobrou 
dessa cidade
o que me sobrou foi meu amor, que
tenho em hectolitros e toneladas
não existe sobrevivência sem
amor
apreço, bondade, solidariedade: 
o resto não passa de mentira 
oca
arrogância de corações primitivos
o supra sumo da vã verborragia
meu amor é um par de
chinelos grandes
que calço para caminhar rumo ao
outono
sem grandes vitórias, sem hipocrisia
sem trair quem ainda me
considera
dou meus pequenos passos 
confiantes
meus pés me desviam 
do mau caminho
a borracha não me deixa derrapar 
mais:
eu só preciso de um pequeno 
punhado

Saturday, February 22, 2020

Um bandido hot dog

Era fichinha nas noites de Carnaval de Copacabana - em que outro lugar poderia se pensar em alguém parecido, como se poderá entender? Esperava a hora dos grandes blocos e partia para o ataque. Roubava, furtava, mas sem agressividade ou violência, e só lhe interessava um único produto de roubo. Seu diferencial era que usava uma fantasia de cachorro quente, acreditem! 

Rolando nem precisava roubar. Era um psicopata. Tinha renda e trabalhava. Sua obsessão pelo crime vinha apenas nas noites momescas. Em seu inconsciente também havia uma profunda admiração pelo ator Ney Latorraca, que já relatou inúmeras vezes que roubava na feira para comer quando era garoto. Para Rolando, não bastava o fascínio pelo talento de Ney: era preciso também reproduzi-lo no cenário down by law, que misturado à atmosfera kistch de Copacabana, resultaria num cômico vilão de Carnaval. 

Seu maior problema era a atração por celulares  vintage, os da primeira e segunda gerações, longe da era dos smartphones. Então roubar e furtar era algo ainda mais difícil: que vítima ainda usaria um celular sem internet em 2019 ou 2020? Isso lhe fez sair de Copacabana em busca da folia em outros bairros, noutros carnavais, aumentando seu espectro de captação de celulares velhos. Todo o produto do roubo era guardado em casa, numa escrivaninha das antigas, e naturalmente não era lá muita coisa, no máximo uns cinco aparelhos em cinco folias. Meus amigos, o miserê chegou até o mundo dos crimes exóticos, ainda mais para um ladrão que só se interessava por celulares arcaicos.

Também tinha dificuldades para o crime quando estava fantasiado. Afinal, quando o cachorro quente ambulante chegava no pedaço, todxs queriam tirar fotos, abraçar, estar perto de uma picocelebridade instantânea. E Rolando, um psicopata vintage, via naquele mar de fotos e vídeos a negação da própria existência. Contudo, desistir não faz parte dos planos. Ele persistirá!

Copacabana é seu teatro de guerra, mas não mais exclusivo. Já esteve recentemente no Bola Preta, sem sucesso. Navegará pela Banda de Ipanema e pelo Simpatia, também pelo Suvaco de Cristo. Será um desafio ainda maior roubar celulares velhos mas regiões mais endinheiradas da cidade. E quando voltar para sua casa no Bairro Peixoto, só terá o sentimento de prazer cumprido se conseguir um "tijolão", daqueles de 25 anos atrás, que os milionários bregas dos anos 1990 adoravam ostentar. 

Rolando tem um pesadelo. Todo vilão tem um ponto fraco. A psicopatia sempre lhe traz à mente a figura de Robertinha,  uma jovem carioca que tem um belo aparelho celular vintage, mas que diante de seu ataque criminoso reage com um recipiente grandão de catchup na não, deixando-o banhado da saborosa mistura do creme de tomate com açúcar e condimentos diversos. A impetuosa Robertinha apavora Rolando de vez quando, em seus pesadelos, grita na hora do ataque "EU VOU ENCHER VOCÊ DE PURÊ, E SE ENCHER MEU SACO AINDA TE TACO UM MONTE DE PASSAS!". Quase sempre após vivenciar este pesadelo ou delírio, Rolando sai de onde estiver e apressadamente corre para a Sorveteria Bolonha, esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro, cinquenta anos de bons serviços. Pede um eggcheeseburger, um copo grande de mate da casa - delicioso -, lancha, tenta negar sua condição de cachorro quente humano psicopata, pede a Deus para perdoá-lo dos pecados que comete e morde cada pedaço do sanduíche como se fosse o último da vida. 

Pensa no próximo bloco, no próximo crime. E se Robertinha for de verdade? E se ela aparecer com um gigantesco potão de purê, será o fim? E se for um ameaçador tubão de mostarda alemã, o que fazer? A incerteza deixa o esquisito homem-sanduíche de Carnaval em processo de quase pânico. 

O que lhe resta é sair correndo da Bolonha, sorveteria e lanchonete clássica onde bem em frente ficavam a Farmácia Piauí, um clássico de Copacabana, além de uma antiga mercearia cuja calçada elevada servia de dormitório para Mr. Éter, o mais famoso mendigo da história de Copacabana. Desce a Barata Ribeiro, passa em frente ao mitológico endereço da falecida boate Crepúsculo de Cubatão, entra na rua Santa Clara antes de se deparar com as lembranças das eternas lojas de discos Billboard e Modern Sound - o Cine Bruni também -, não olha para trás, sobe a rua cheia de árvores, passa pela porta da Padaria Apolo XI - do outro lado da rua não está mais o porteiro Silério - a velha Casa Mimosa, e ganha os metros finais até chegar à Boca do Lobo, a galeria de passagem para o Bairro Peixoto, onde finalmente se liberta de suas obsessões e volta a ser um cidadão quase normal, em defesa da família brasileira, contra o comunismo e em favor dos smartphones. 

Robertinha é uma permanente ameaça para Rolando, o vilão vintage de ocasião. Tanto faz se é um holograma, uma fantasia ou uma jovem mulher de carne e osso. A possibilidade de ser ultrajado com quilos de purê em sua fantasia de cachorro quente faz Rolando suar frio. Ela é o terror que pode estar em qualquer lugar da cidade, mas que por razões óbvias tem o DNA de Copacabana. 

@pauloandel

(Livremente inspirado na engraçadíssima colaboração de Márcia Abreu do Nascimento)

Thursday, February 20, 2020

os bostas

tratemos todos os egoístas como os bostas que são. os covardes e preconceituosos, os pretensiosos, os pernósticos, todos eles merecem o desprezo supremo e o destino os colocará no cocho de direito. chega de estender a mão para os traidores, afagar os delatores, oferecer ouvidos aos pilantras. nenhum deles escapará de olhar para o teto do quarto numa noite quente e insone, pensando na própria escrotidão, enxergando um espelho turvo imaginário onde encontram a própria mediocridade cristalizada, sonhando com fama e poder mas com os olhos arregalados pela própria miséria d'alma, sabendo que podem enganar a tanta gente mas nunca à própria inconsciência. os ruins morrem sozinhos, pouco importando se estão cercados por uma multidão. todos os vigaristas enxergam a rudeza de seus espíritos diante da solidão. enganam-se os que pensam que o mal compensa: se não forem verdadeiros criminosos, assassinos, estupradores, gente que deixou de ser gente ou nunca foi, o remorso os corroerá víscera após víscera, ardendo no peito como um tiro devastador de fuzil. até para ser o esgoto da humanidade é preciso ter competência e talento - e quem disso não usufrui jamais terá o reconhecimento dos canalhas, apenas pena.

xxxxxxxxxx

toda mediocridade será castigada.

xxxxxxxxxx

os escroques não morrem, porque jamais viveram. apenas desperdiçaram tempo.

xxxxxxxxxx

para que ter medo se o futuro é a morte?

Tuesday, February 11, 2020

humanos

ao defendermos os
pobres os humilhados
e fudidos não somos
heróis não somos porra
nenhuma a não ser
humanos tão somente
humanos e mais nada
seres humanos ainda
respirando ar podre e
bebendo água imunda
mas humanos pensando
em pessoas que sofrem
por toda parte um mundo
a vida é poder ajudar um
outro é poder ser útil e
dizer um não à escrotidão
outra vez: não somos heróis
mas apenas humanos vivos
debaixo de escombros vivos
das respeitáveis corporações
tentando sobreviver ao caos
debaixo da grande explosão
do ódio que há de sucumbir

Saturday, January 25, 2020

sampaulo

todos os corações solitários num vagão do metrô cortando a Sé com as multidões se engalfinhando.

ou o viajante solitário caçando discos nos sebos da avenida São João. jazz e rock progressivo.

garotos loucos indo e vindo da galeria do rock enquanto ali perto os crackers vivem suas últimas horas de vida em invasões prediais. e garotas bonitas de todos os jeitos. homens engravatados e apressados a caminho do progresso de seus patrões milionários.

shows maravilhosos no Sesc. sanduíche de enlouquecer no ponto chic. aquele de mortadela de todos os jeitos, também na São João. onde foi parar a Cinelândia?

morumbi, palestra, Itaquera, Pacaembu.

alguma coisa tem cheiro de bom retiro e vila Madalena. gente correndo para congonhas. gente correndo de Congonhas.

na avenida Luiz Carlos Berrini existe um bar simples com ótima comida e preço justo. a pé, rapidamente se chega ao World Trade Center - é sério. o incrível é que, apesar da vista panorâmica do grande hotel, muitas vezes os hóspedes são incapazes de enxergar logo à frente a aflição dos passageiros dos trens.

São Paulo de muitas veias e artérias, da Pauliceia Desvairada, da Vanguarda Paulistana, do rock, do pop, do teatro, das revoluções, também do conservadorismo que sai na porrada com a liberdade.

São Paulo dos orientais, árabes, persas, judeus, italianos, nordestinos, sulistas tudo com camelôs, industriais, lindas putas, doces travestis ao estilo de Cler, e tem Moema, tem Arouche, tem Armênia. Tem cariocas, muitos.

nada sobrou da luta, miséria e tragédia do edifício São Vito.

O Martinelli e o Itália rugem, o Copan é uma legenda

muita coisa acontece quando um estrangeiro corta o coração da cidade e vê sua admirável mistura de esculhambação com progresso, sua mistura de caos e charme, derrota e glória. O vaivém do mundo.

Marina está lá. Tom Jobim faz aniversário junto. Ah, Geraldo Filme! Artigo Barnabé, Paulo Lepetit, Vange Milliet, Marina Person, nomes que são poemas. Ibirapuera, Canindé, Tietê, Javali, tudo soa bem. é música.

mais corações na Cantareira, no Grajaú, na Penha, nas marginais, nos sinais de trânsito que brilham e são holofotes para os sofridos vendedores de balas.

Otto escreveu: "São Paulo é um peito".

lembro de minha primeira vez por lá, finalizando a Dutra a caminho de Cotia, os grandes prédios ao fundo, grandes nuvens por cima. nunca mais esqueci. voltei muitas vezes, todas foram especiais. meu coração ainda bate forte por isso.

sexo gemini

precisamos transar logo e gozar longamente porque este é o país que odeia o gozo, a felicidade. gozar e gozar, trocar os suores, os líquidos, o tesão das peles, o beijo inebriante que há de nos levar ao mar da tranquilidade. oh, sejamos éticos e sinceros com nossos prazeres e consentimentos: somos animais falantes do século XXI e precisamos descarregar nossas tristezas e angústias. por isso, nada pode ser melhor do que a descarga do tesão. vamos libertar nossos sentimentos e fazer o que realmente nos faz sentido. quer gozar? quer fuder loucamente? quer ir à lua com chupadas e mamadas, dedos e pirocadas, toques de quase nada, bucetas deliciosas, palavras ao pé do ouvido ensandecido? vale. vamos libertar nossos descompasso. gozar loucamente a dois, em ménage, surubas, sozinhos, desimportando o meio e sim a pequena felicidade, que todos temos direito nessa terra de cores e flores lindas, mas cheia de estupidez em corações racionais, em regras morais feitas pelos broxas de alma, que transam mas não gozam de alma, porque seus ódios e primitivismos não rimam com êxtase. vamos transar e gozar porque precisamos de amor, nem que seja por uma tarde ou noite, nem que seja por uma hora e meia, nem que seja no pensamento somente - quem de nós nunca se apaixonou por quem nunca sequer beijou, sequer tocou? esse admirável nada que mexe com o desejo, que nos acorda à madrugada, que sugere nirvanas, o nada que é tudo e se materializa porque está no sonho, e o sonho é o que move o mundo. vamos transar e gozar, efêmera ou definitivamente, porque nossos corpos cheios de água e carnes foram feitos para isso - não daremos ouvidos a fascistas frustrados e megeras encalhadas! não! vamos pensar e agir nessa pequena dádiva de amor que a vida nos oferece. respeitemos as regras previamente combinadas mas sejamos livres. nós merecemos o amor. foda-se o resto, o resto.

Tuesday, December 31, 2019

Misaque

Exatamente hoje, 35 anos. Embora tenha vivido na casa de Fred por 14 anos ininterruptos, poucas vezes passamos o Ano Novo juntos. Ele não gostava de sair, deve ter sido por isso. 

Naquela noite resolvemos ir ao Sorrento, que ficava no Leme. Doce ilusão: abarrotado. Então caminhamos pelo calçadão, vimos os fogos, o ir e vir das gentes, éramos Copacabana o ano inteiro. 

Decidimos ir ao Gordon, sempre um lanche de fé. Estava lotado, tudo bem. Pedimos vários sanduíches sinistros. Se não estiver enganado, Pedro Brito estava conosco. Talvez Coruja, Ricardinho quase com certeza. Lembro que as garotas mal conseguiram comer o primeiro e deixaram pra gente: comemos muito. Muito. 

Era o fim de um ano de glórias: grande temporada escolar, Fluzão bicampeão, campeonatos de botão, muito futebol na praia e na quadra, praia de manhã também. Grandes acampamentos escoteiros. Dinheiro não havia, mas bastava para um garoto de dezesseis anos. 

Com toda a paciência do planeta, um jovem trabalhador negro atendia cinco mil pedidos no balcão do Gordon. Seu nome era Misaque, havia a plaquinha na camiseta. Vinham o Angélico, o Diabólico, o Tudo e lá ia Misaque indo e vindo com uma tropa de sanduíches. Eu lembro de ter olhado pra ele, percebido que não tinha muita idade além da minha e pensado "Como esse rapaz trabalha sem parar". Era uma luta. 

Um dia o Gordon acabou, hoje é McDonald's. Já comi lá algumas vezes. Fred, nunca mais. As garotas eu vejo no Facebook, Ricardinho também. Outro dia almocei com o Coruja e falei com o Pedro perto do Teatro Riachuelo. 

Tomara que o Misaque esteja bem. 

@pauloandel

Friday, December 13, 2019

"Lágrimas", um dos grandes álbuns de 2019


A reunião da maturidade do poeta Paulo César Feital com a juventude do cantor e melodista Lucas Bueno resultou num dos melhores álbuns lançados em 2019 no Brasil, intitulado "Lágrimas" e produzido de forma independente. 

A beleza das canções, aliadas à poesia que carregam e a interpretação vigorosa da dupla, auxiliada por uma seleção de craques instrumentistas e convidados especiais, tornam o álbum uma espécie de procissão contra tudo o que temos visto no Brasil de 2019. A percepção atenta das letras leva a reflexões profundas sobre onde estamos e como chegamos a tal situação. 

Lucas é, desde já, um dos grandes intérpretes de sua geração. Canta e toca como um veterano do melhor cancioneiro da MPB, e não é injusto pensar que representa de alguma forma grandes nomes do passado, que remetem a craques como Silvio Caldas. Mas é bom que se diga: ele soa como um veterano mas tem uma enorme e promissora juventude pela frente. 

Paulo César Feital dispensa apresentações. É um dos maiores poetas da música popular brasileira em qualidade e quantidade. Ao lado de seu xará Paulo Cesar Pinheiro, carrega o estandarte da poesia na música popular. Fez centenas de canções, mas somente uma já serviria para imortalizá-lo: "Saigon", na voz eterna de Emílio Santiago. 

"Lágrimas" tem melancolia e esperança, tristeza e felicidade, angustia e fé. Soa como oratório e passeata. Entre seus convidados, nomes marcantes da nova geração, tais como o sagaz Moyseis Marques e a maravilhosa Nina Wirtti e também os consagrados Cláudio Nucci e Soraya Ravenle. Deve ser ouvido com calma, reservadamente, sorvido como um daqueles LPs que abrem as cortinas do passado, mas que também sugerem que o amanhã vai ser outro dia. 

Em suma: imperdível. Um dos álbuns do ano, dos melhores da década, indispensável em qualquer CDteca que se pretenda séria, além das plataformas digitais. Mas o bom mesmo é com o disquinho de prata tocando e as letras do encarte na mão e no olhar. 

@pauloandel

Friday, October 25, 2019

remorso

era traíra. carregava a canalhice e a traição em suas veias. não poupava ninguém: cônjuge, parentes, amizades, amantes. e vivia serenamente como se nada fizesse de prejudicial aos outros. tropeçava e caía, levantava-se mas nunca perdia a arrogância que lhe conduzia a novas jogadas de risco. 

confundia destemor com irresponsabilidade, e a tudo disfarçava com falsa humildade. o típico traço de gente perversa que se julga superior a tudo e a todos, e que por isso mesmo desvela a própria estampa primitiva. talvez um pouco de recalque junto, quem sabe? com ou sem dinheiro ou bens, a inveja é capaz de revirar cabeças ocas.

de golpe em golpe, a trairagem prevalecia. pequenos ou grandes, todos lhe davam a certeza ilusória de vitória, de prazer na trapaça, de compensação pelo reconhecimento da própria identidade falida, ignorante, alheia ao mundo e aos bons atos. pulava de galho em galho até a próxima falência moral, e não pensava sequer na vergonha que ofereceria aos filhos, caso eles descobrissem sua verdadeira identidade. não se arrependia: a pilantragem era consciente. tudo que lhe soasse como vantagem financeira era aprazível.

a corrupção assumida lhe trouxe uma pequena vitória no jogo da vida. comprou objetos, sentiu alegria em tratar como trouxa quem lhe fortaleceu e pensou nos golpes anteriores. era fácil fugir, não responder as chamadas, ignorar contatos e preparar o terreno para novas jogadas, de acordo com a cartilha oficial do mau caratismo.

contudo, um recente ato de má fé tem lhe custado caro. ao contrário de muitas outras vezes, não recebeu mensagens nem telefonemas, nenhuma cobrança pelo golpe. tinha olhado o celular com apreensão misturada com o tesão pela canalhice e nada, muitas vezes e nada. pela primeira vez o silêncio das vítimas, tão desejado, oferecia um recado que poderia ser tenebroso: e se a mudez na verdade fosse uma sentença de morte anunciada? 

não chorou nem se arrependeu, mas viveu o medo. pela primeira vez, abraçou a lucidez. 

Tuesday, October 22, 2019

necropolitik

os nossos dias tão desgovernados - herdeiros da necropolítica - viva e deixe morrer quem não é rentável - os miseráveis são culpados pela miséria - e fingimos que não vemos os corpos apodrecendo nas calçadas - virar a cara ou até atravessar a rua - em nome do mérito que os pais financiaram - estes são os dias de trevas e torpor - o desamor é a canção das ruas - o que aprendemos nos livros é em vão - que droga poderá nos entorpecer a ponto de fingirmos nada ver? - a miséria mora nas calçadas sofridas - nos vagões oprimidos e noutros cantos vulgares - alguma coisa me queima o peito - morremos em manchetes repetidas - e fones nos trens abarrotados - em mãos que não se apertam e num mar de indiferença - os nossos dias mendigam paz.

Thursday, October 03, 2019

caos

deitado na escuridão do
quarto e olhando para o 
teto desgovernado no breu
distraída pra morte 
e pro caos

o que vai ser de quem
de quem desfalecer?

o que sobrou é o inferno
a podridão e o egoísmo
o que sobrou é o chorume
e quase ninguém repara

o que vai ser de quem tem
muito a perder?



Thursday, September 26, 2019

Tirem o dedo do gatilho (por Jocemar Barros)

Pelas ruas das favelas,
Entre becos e vielas,
Passam bandidos armados,
Policiais assustados
E crianças distraídas,
Que entre balas perdidas,
A toda hora ou minuto,
Nos deixam órfãos, em luto,
Vidas que vão num suspiro!
E de onde vem o tiro?
Da polícia ou do ladrão?
Quem terá explicação?
Quem nos dirá a verdade?
As nossas "autoridades",
Que têm solução pra tudo?
Melhor, é que fiquem mudos,
Em respeito à nossa dor.
Calem a boca, por favor!
E pra cessar o martírio,
Tirem o dedo do gatilho!

Jocemar Barros

Wednesday, September 25, 2019

bichos

Se eu pudesse voltar no tempo, trabalharia com bichos. Não sei se toparia vê-los sofrer, mas cada vez mais o mundo só faz sentido por causa de crianças e bichos.

Durante certo tempo na infância eu tinha medo de cachorro, o bicho oficial de Copacabana. Eu era pequenininho, estava na praia, um cachorrão grandão veio e me derrubou, pulou em cima de mim. Ele era grandão e fiquei com medo. Isso durou até a adolescência e passou.  Bem antes disso, tinha a Diana, cachorrinha pequinesa da minha mãe que ela deu para uma amiga quando nasci. Toda vez que visitávamos a amiga, a Diana vinha correndo e não saía do pé da minha mãe. Que saudade. 

Tive um amigo de escola que há muito não vejo. Ele tinha vários bichos em casa: passarinho, papagaio, cachorro, gato e jabuti. Ri muito no dia em que o papagaio estava tomando banho de gotinha no tanque de roupas. 

Quando fui escoteiro (há quem diga que ninguém deixa de ser), me deparei com vários bichos. A vaca era sempre a mais legal, às vezes micos, às vezes lagartos ou uma cobra sinistra. A vaca fica na dela, vai lá, muge, volta, faz seu rango natural e anda lentamente. Enfim, era uma vida maravilhosa de garoto, natureza, silêncios, paz. Nunca mais acampei, mas lembro como se fosse ontem. 

Meu ex-vizinho tinha um jabuti e um cachorrão bem grandão que gostava de mim. O jabuti às vezes andava no corredor, era um barato. O cachorrão já latia quando o elevador estava no sétimo andar: ele me reconhecia de longe. 

Outro dia fomos em Paquetá, na Casa de José Bonifácio. Tinha outro jabuti, caminhando numa boa, rangando folhas do chão, arrancando com força a cada bocada. Uma alegria. 

Quando minha mãe deu a Diana, tempos depois morreu um papagaio lá em casa: a funcionária o detestava e o deixou no sol. O coitado morreu estorricado. Minha mãe chorou muito e nunca mais quis ter um bicho de estimação para não sofrer. Tempos antes de sua morte, falávamos de ter um passarinho, mas era muito cruel tê-lo numa gaiola. Ela foi embora e fiquei só para sempre. Aqui em casa é tudo bagunçado, não dá pra ter um cachorro ou um gato, e eu não aguento mais perder ninguém. 

Os cachorros da Kátia, o Antônio e o Cesare, eram sensacionais. Gostavam muito de mim. Convivemos bem entre 2007 e 2010. 

Sendo prático, só preciso do dinheiro que me permita sobreviver nessa terra injusta até a hora da partida. Tirando o aluguel, minha vida é muito barata, não tenho bens, não tenho nada. Mas eu gostaria de ser rico se fosse para também ajudar muita gente, planejar algo. E para ter uma fazenda bem grande, onde pudesse ter meu elefante e meu hipopótamo. Acho os dois muito legais. Gosto de ver no programa de TV a solidariedade dos elefantes. E acho muito maneiro quando limpam a orelha deles com um super cotonete de algodão. Peixe também é muito legal. 

Sei lá, trabalhar num pet shop, ter sido veterinário ou feito Zootecnia. Ou até levar os bichos para dar uma volta. Gosto deles. Gosto muito. Até a aranha do banheiro eu evito incomodar quando ela desce pela teia no frio azulejo branco. E a formiga? Pequenininha da Silva. Ser formiga é muito difícil: você pode ser assassinado o tempo inteiro por qualquer coisa. 

Queria poder cuidar dos bichos. 

Eu seria feliz.

Tuesday, September 24, 2019

pessoas pessoas

pessoas perdidas oprimidas 
pessoas humilhadas excluídas
pessoas pessoas tão famintas
pessoas no portão principal
com braços estendidos em vão
e as mãos calejadas enrugadas
pessoas deprimidas perto do fim
pessoas tão enojadas raivosas
neandertais em pleno mandato
e desumanidade em riste à vista
e cólera às vísceras por todo tempo
pessoas desesperadas com razão
vendo tragédias em tempo irreal
pessoas com lágrimas enlutadas
esperando a próxima vítima crua
para enterros modestos e protestos
pessoas em busca da guerra civil
ou chorando seus mortos de fome
gente sem nome data ou identidade
gente sem pátria caridade ou amor
é o rancor que determina as castas
gente nos trens feito gado ao abate
gente nos trilhos nas janelas ao caos
suicídios a granel delivery iPhone
curtindo a nossa velha idade média
pessoas nas palafitas e papelões
pessoas urrando por desespero e dor
a próxima versão vai reabilitar tudo
resta saber quando ela há de chegar



Friday, September 20, 2019

luar da UERJ

Chet Baker tocando com seu quarteto num especial de televisão belga em 1964. O sex-symbol do jazz disfarçava muito bem sua banguela, deixando fãs loucos e loucas mundo afora. Em certo momento toca "So what" e é claro que aquilo faria Miles Davis dar um soco na parede. Com "Time after time", o jazz vira amor e o ídolo dos anos 1960 canta com sua pequena voz de veludo  - e seu dente ausente em close, mostrando que a beleza também sabe estampar o inusitado. 

Descansando depois de um banho e de um longo dia. 

Acabamos de voltar do aniversário de Anielly, divertidíssimo, num bar do Méier, cheio de gente e de pessoas divertidas. Pequenas histórias ótimas que podem dar em livro. Única coisa triste: ver tantas crianças pedintes. Nunca me acostumarei a isso. 

Quando descemos a Marechal Rondon, eu inevitavelmente pensei em 31 anos atrás, quando subi e desci a rua procurando pela Rádio Transamérica para buscar algum prêmio. Naquele tempo sem internet, google e outros confortos, tudo era mais difícil.  

Depois, a UERJ. Mais de trinta anos depois, ainda me emociono ao ver o grande prédio de luzes acesas, com tantas vidas e sonhos, mas também melancolia e derrotas. Eu era um garoto e sonhava em estudar ali, me formar, conseguir um emprego, sustentar minha família. Tudo passou rápido demais, mas acabou acontecendo. Não fiquei rico nem famoso nem importante nem coisa alguma, mas fui um anônimo digno e tive uma bela história que, espero, ainda esteja longe do fim. 

Jovens estudantes com suas mochilas nas costas sobem a rampa do metrô atrás da linha 2. 

Perto do campo, jovens sem rumo rasgam seus corações com crack.

A lua parece bonita. 

O prédio iluminado da UERJ à noite é uma das coisas mais bonitas do mundo. 

O motorista Uber demonstra certa irritação quando não consigo atualizar os destinos, mas seguimos em frente até deixar Camila e, minutos depois, Elika e Lucimar. 

E fica mais irritado ainda no túnel Santa Bárbara, um de meus percursos favoritos, até que chego minutos depois, a corrida sai pelo dobro do esperado e aí o rapaz não deve se incomodar, porque nesta terra de exceção qualquer trocado dobra qualquer irritação. 

Chet Baker sola vigorosamente enquanto o pequeno conjunto o acompanha. É a trilha perfeita para aquele prédio cheio de luzes, vizinho do meu Maracanã, palco de muitos dos momentos mais divertidos de toda a minha vida - quando se é jovem, quando o futuro ainda é longe e o presente é feliz com um simples pão com ovo e salada mais um copo de refresco. 

@pauloandel

mil lugares

andando por mil lugares e pensando chorando lamentando a vida escorrida nas artérias de asfalto a vida esfomeada nas mãos estendidas rendidas a vida desesperada pelo fim na ponta da bala perdida a vida jogada fora em celas corporativas em troca de salários respeitáveis a vida entupida encardida exaurida por tanto desprezo e indiferença andando por mil lugares e pensando pensando fundo no que resta da vida o beijo o apreço a memória saudosa o tempo o tempo uma velha canção à vitrola uma página virada nenhuma despedida

Sunday, August 25, 2019

as pessoas têm morrido demais

as pessoas têm morrido demais e rápido demais. estão assustadas, ameaçadas, verdadeiramente desesperadas. o ódio vira incêndio e tiroteio conforme a ocasião. as pessoas estão indo embora cedo demais. quem fica vê o horror da necropolítica, o desprezo, a destruição. celebrar o crime virou orgulho, trair e trapacear virou qualidade, humilhar é poder. as pessoas são incapazes de ver a dor do outro e acham tudo normal, esquecendo-se de tanta indiferença ainda vai criar uma nascente de vingança, que crescerá até que nos apedrejemos nas ruas. estamos indiferentes aos inocentes fuzilados, aos corpos desaparecidos, aos estupros e sevícias, ao assédio tosco e vil, aos despejos e leilões, aos suicídios tratados com silêncio, à injustiça. tudo isso só pode ser tratado com naturalidade por cabeças de merda, comandadas por espíritos de merda. é a grande guerra onde quase todo mundo morre no final, para o deleite de uma minoria mesquinha, asquerosa, nazifascista, hipócrita e criminosa. os pequenos bandidos cometendo pequenos crimes e sonhando ocupar o lugar dos grandes falsários, uma ingenuidade estúpida. as pessoas têm morrido demais e rápido, com missões incompletas, enquanto ratos de esgoto travestem-se com roupas de marca e fingem ser lordes, mas não passam de ralé suja de merda.

Thursday, August 15, 2019

luzes da cidade de copacabana

O que sei é que havíamos viajado para Arraial do Cabo por alguns dias, quando podíamos fazer isso sem nenhum dinheiro - exceto para as refeições e um ou outro lanche - não sei como era tão pobre mas conseguia fazer aquilo. Voltamos para Niterói e caminhamos da Rodoviária até às Barcas rumo ao Rio. Lembro que a tarde era um pouco nublada. 

Durante a travessia da Baía, combinamos de lanchar no Bob's mais tarde, só para ver a grande novidade de Copacabana: a iluminação completa da praia. E assim fizemos, entre um Big Bob e um sundae de morango. 

Por volta das seis e meia da tarde, descemos a velha Figueiredo Magalhães até a Atlântica, quando a vista nunca pareceu tão deslumbrante: o céu de azul escurecendo, as luzes fazendo uma grande trilha de ponta a ponta na orla. Dava para ver a areia, a beira, o mar. Bom, os casais safadinhos saíram perdendo seus rompantes idílicos, mas nem sempre se pode ganhar todas. 

Era um sonho. Eu, que passei dez anos consecutivos pisando nas areias sem poder ver direito a bola, enxergava tudo. Ao mesmo tempo, me dava certa melancolia: eu sabia que não ia ser mais como antigamente. Começávamos faculdades, o pessoal trabalhando, os encontros iam ficar mais escassos, não daria tempo para jogar tanta bola. 

Eu me lembro que Ana e Henrique ficaram extremamente contemplativos diante da vista nova de Copacabana. Algo entre o inverno e a primavera. Um dia de semana com pouco movimento, nenhum calor, nenhum vento frio, certo silêncio e mistério que a orla sempre tem de alguma forma. 

Eu olhava para a areia e procurava meus amigos, imaginava lances, via garotas bonitas no pensamento e, por vários instantes, não era apenas um súdito daquela linda terra para onde fui com três dias de vida, mas me sentindo um pequenino rei daquela terra macia, rei das jogadas, olhando o ir e vir das gentes, pensando também que já estava distante dos tempos de menino da praia, onde tudo era futuro. 

Nós, que tanto conversávamos, ali estávamos completamente mudos, docemente entorpecidos pela beleza da geografia que sempre nos abraçou. Ao longe, os outros dois Henriques - um, grande, parceiro da UERJ e o outro, pequenininho e gente boa, faziam barras. O nosso silêncio era um espírito da paz que parecia não ter fim - e talvez não tenha tido mesmo: por anos e anos a fio, sempre que estive em algum pedaço de litoral, pensei nesse dia de paz, dos raros na minha vida. Ano passado, escrevi um livro em três noites na Praia dos Ingleses, em Florianópolis. Eu estava lá, mas sonhava e revia o berço esplêndido das areias de Copacabana, as mesmas onde gostaria que jogassem as minhas cinzas - mas isso não tem a menor importância.

Nunca mais me esqueci das luzes da cidade de Copacabana. Elas não se apagam.

Wednesday, August 07, 2019

copacabana solidão

sozinho na praia deserta de copacabana/ perdi um poema livre inteiro/ que falava da minha dor/ com meus olhos cheios de tristeza/ e incerteza/ enquanto a maresia suaviza a noite em riste/ areias de encanto mas também miséria/ e a solidão sem fim de frente para o atlântico sul/ copacabana minha praia/ minha casa abandonada/ procuro pelos meus amigos mas estão todos mortos/ ou ausentes para sempre/ não vejo meus pais de mãos dadas/ não abraço meu irmão/ não aperto a mão de meus colegas/ os bancos do calçadão hospedam a tragédia/ a cocaína escarra na desesperança dos junkies/ where's my violet femmes?/ o posto seis a bolívar a constante a figueiredo o lido/ parece que estamos em 1936/ os carros não passam para buscar as travestis/ copacabana o meu delírio sem encarnação/ as pessoas estão trancadas em seus apartamentos/ e só berram por justo motivo/ a praia deserta de copacabana é minha liberdade e certeza de condenação/ estou desfigurado/ meu mapa mundi é um horizonte apagado debaixo de um céu nublado e frio/ existe o amor em muitos lugares de copacabana/ noutros ele desacontece/ os tiros na ladeira aleijam a alegria/ meus escoteiros estão sem teto/ por culpa do grande capital da humilhação/ nos arredores da praia mais linda do mundo há o cheiro das ruas tristes/ e os lindos puteiros estão fechados/ eis a cidade reacionária/ quem vai perdoar minhas dívidas como eu perdoei a meus devedores?/ existe o ódio ao longe/ o fracasso da sociedade debaixo das marquises/ a devastação escondida entre coqueiros/ onde foi que enterraram os meus amores?/ não quero amolar ninguém/ apenas choro sozinho olhando o horizonte do mar noturno de copacabana/ minha logotham city/ fausto fawcett meu batman/ quem vai pagar o preço do descaso? há luzes ao longe fracassos corporativos e pequenas ambições/ copacabana é dos humildes/ os oprimidos que se esgueiram nas beliches das quitinetes/ e na favela esperta/ no drible malandro do jogo de praia/ no saudoso zé das medalhas/ há navalhas em muitas carnes/ enquanto outras repousam em berço esplêndido/ eu sou a tristeza e o fracasso o fim da linha/ a artéria entupida em desamparo/ onde vou encontrar meu biscoito chinês da sorte/ por entre as quinquilharias de copacabana?/ o verdadeiro poema foi perdido/ este é apenas um prêmio de consolação de um poeta fudido/ sem futuro nem rastro/ à procura das últimas esmolas de amor de seu aquário natal/ eu procuro o jazz e o blues das profundezas de copacabana/ ainda me lembro do grande mendigo caminhando solene pelas últimas calçadas de carinho em copacabana/ meu amor nunca mais vai responder/ eu digo adeus.

Sunday, August 04, 2019

foco!

estamos juntos, estamos longe
qualquer abraço é memória vã
continuamos imperfeitos de fé
e desperdiçamos tanto tempo
que agora uma hora é um mês
não temos tempo nem conforto
nem oportunidade ou mera rotina
o que nos resta é viver do passado
o que foi, o que não foi, o talvez
o que poderia ter sido duma vez
o que não daria num campeonato
e agora somos outros, multi outros
choramos sozinhos no sofá de casa 
nos arrastamos em nossas sombras
e fisgamos a luz à primeira réstia
não temos mais mesa ou conversa
ninguém vai falar ao telefone, ora!
basta um ok, um olá, um polegar
enquanto ouvimos velhas notícias
de um país contaminado e colérico
ninguém mais vai ter tempo, não!
agora somos masterchefs de família
com o limite da conta estraçalhada
e o cartão cheio de grandes bobagens
uma postagem basta, é o que resta
até que cheguem as péssimas notícias
os velórios, a missa de sétimo dia
para então fazermos vale de lágrimas
em nome da nossa hipocrisia ferina
ah, que pena! não deveria ser assim!
depois de doze dias, quem se lembra?
e achamos que sofremos muito, muito
em camas confortáveis neste domingo
de inverno cruel para os desprezados
nós não temos tempo mas temos likes
e muitos comentários, muitas figurinhas
ah, que pena! força! bora empreender!
foco e mira nas oportunidades! crescer!
nunca fomos tão sinceramente idiotas

Saturday, July 13, 2019

NYC

olhando para a parede
uma parede de uma
exposição no ccbb sobre
new york city e seus junkies
e seus gênios dos anos 1970:
numa foto o jovem velvet
underground, noutra a jovem
patti smith com o fotógrafo
robert mapplethorpe
sob trilha sonora de antony
and the johnstons
as ruas de nyc são tristes

parece copacabana ou estácio
ou pedaços de vida suburbana
carioca, quentinha tão gente!
há ruas tristes e sujas, há dores
e cocaína brindando tristeza
desesperança e rude poesia
as pessoas estão cabisbaixas
ninguém acredita no futuro
mas a doce melodia de antony
and the johnstons é um incenso
doce e profundo, um acalanto
quase uma oração de mendicância
NYC é profundeza das almas

com suas ruas sem futuro e pobres
artistas geniais, a cidade sobreviveu
e repintou sua identidade - agora
é sobreviver e aprender a jogar

@pauloandel


Wednesday, June 05, 2019

o primeiro dia do inverno que não existe

lá fora estava frio, frio como não se viu neste ano. não liguei muito por mim, já que sou gordo e tenho meu próprio aquecimento, mas pensei no monte de gente que está sofrendo nas calçadas, a gente tão desprezada por esse governo filhadaputa, e então senti tristeza. sei que continua frio, pois não é preciso ligar o ventilador turbão que temos no quarto. pedi um sanduíche, o moço da entrega veio de casaco. tudo bem que por aqui todo mundo coloca casaco com vinte graus, mas o vento é frio mesmo. é menos pior do que aquele calor demoníaco que tira todas as forças, mas depois de um certo tempo em que você desenvolveu sua preocupação para com o próximo, fica impossível não torcer para nunca ter chuva - os barracos desabam, os mendigos ficam ainda mais desamparados, a cidade é um choro triste de criança abandonada. acabou o futebol, o fluminense perdeu, na televisão tem um documentário sobre badi assad. pensei no frio, me bateu certa melancolia e, enquanto fui espiar o facebook, vi a foto de um menininho que parecia meu irmão e me deu mais vontade de chorar. estou deitado na mesma cama onde fui um garoto de trinta centímetros de altura e hoje tenho mais de cinquenta anos. onde meus pais viveram e morreram. eles agora estão longe demais e eu sou a pessoa mais sozinha do mundo. felizmente sou covarde, pois já pensei muitas vezes no que significaria um voo de morte à janela, mas a minha covardia repele o pensamento - alguns dizem que é lucidez. acabou mais um dia, ou está acabando - eu já vivi mais de vinte mil dias, talvez em vão, talvez sem nenhuma importância e nem um tiquinho da lembrança de pessoas das quais lembro muito bem. deixando a tristeza de lado e ouvindo ao longe os sofredores lutando na loja de recicláveis, carregando sacos enormes em troca de moedas sofríveis. há um silêncio lá fora e algum frio. as pessoas sofrem muito e isso me corta feito uma facada verdadeira. num instante eu olho para o teto e vejo quarenta anos atrás com enorme facilidade. ou trinta ou vinte, quarenta e cinco às vezes porque tudo foi tão rápido que é fácil ver o ontem em 1973. já não está tão frio, talvez seja bom para um banho, colocar o pescoço debaixo do chuveiro até a tristeza escorrer enquanto os gols não aparecem no noticiário. e pensar que a tristeza não passa nunca, mas ela sempre pode ter intervalos até generosos. 

Tuesday, May 28, 2019

vezes

quantas e quantas vezes os lordes
brindaram felizes enquanto os
miseráveis choraram bem à frente
das tabernas, sem rumo ou futuro?
a indiferença venceu a humanidade
desfilaram as hordas de soldados corporativos com suas vestes sóbrias
de matizes discretas e comprimentos

[e desejos reprimidos

[há melancolia nos peitos nus

a paz está guardada debaixo dos escombros da grande guerra suja
onde poucos têm direito a viver
e a solidariedade é uma fantasia

olhar para o céu de tijolos e entender
que o fim se avizinha tão lentamente
em pequenos tragos e tristezas vãs
em mesas com garrafas vazias 
e corredores vazios abraçando vitrines
de um mundo que poucos conhecem

quem vai cantar uma canção de alívio?

a morte é o exílio da felicidade! 

as pessoas brincam de se divertir e fotografam o que se vê ao longe
esperando um porto seguro à toa: 
ele não existe, o conforto não existe

nossos comerciais, por favor

@pauloandel