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Friday, September 22, 2017

Wednesday, September 20, 2017

Tuesday, September 19, 2017

Cícero, meu primeiro amigo gay

Em alguns meses de 1975, meu pai ainda era um homem de algumas posses. Morávamos num prédio de quatro andares, sem elevador, na rua Santa Clara (posteriormente demolido para dar vez a um flat), em Copacabana. Até então, sempre tínhamos gente trabalhando em casa (desde criança, detestei a palavra "empregada", que me sugeria aparte social).

Um belo dia, minha mãe inovou e contratou o Cícero. De cara, já era diferente por ser homem numa atividade essencialmente ocupada por mulheres à época. E também por usar aquele chapéu de cozinheiro que eu acho um barato. E, finalmente, por ser homossexual assumido, o que causou verdadeiro horror nos nossos vizinhos.

Uma delas, Dona Mimi, uma senhora portuguesa branca, de bem, em nome de Deus, quis fazer um movimento para que nos mudássemos do prédio - era inaceitável para ela ver um "veado" nos corredores. Mas aí minha mãe, que era baixinha mas não era fácil, a viu num cochicho com outra vizinha e a enquadrou bonito. Nos corredores a palhaçada acabou. Quando eu saía com minha mãe para ir à escola, a idosa lusa e sua amiga ainda cochichavam, mas quase encolhidas. Hoje, sou capaz de supor qual era o teor da conversa baixa: "Essa mulher deixa um veado dentro de casa com uma criança".

Comi pratos sensacionais feitos pelo Cícero. Mais de 40 anos depois, sou capaz de lembrar do bife com arroz e fritas e da panqueca de carne. Foram muitos pratos. Ele sempre falava comigo, ria, me dava tchau, mas eu nunca entendia porque quando a minha mãe sempre insistia para que ele deixasse a cozinha para ficar perto de nós na sala, ele nunca vinha. Só falava comigo de longe, talvez a uns quatro metros de distância. Eu tinha que gritar para que ele escutasse.

Quando meu pai faliu, tivemos que mudar de apartamento, de bairro e de padrão. No dia da despedida, foi a única vez que vi Cícero de perto: ele deu um beijo e um abraço em minha mãe, agradeceu muito a ela, passou a mão na minha cabeça e foi embora. Ainda o vimos na rua, debochando alto das vizinhas fofoqueiras. Poucos dias depois, mudamos por alguns meses para um minúsculo apartamento em Vaz Lobo, para depois voltarmos a Copacabana, ficando dezesseis anos na Siqueira Campos, aí já sem ninguém trabalhando em casa.

Ainda pude viver mais trinta anos com meus pais, com todos os altos e baixos de uma família, mas fomos felizes. Contudo, nunca conversávamos sobre aquela época porque era dolorosa para todos nós: não queríamos ter mudado, passamos muita dificuldade financeira e quase fome, mas superamos tudo. Quando falávamos no Cícero, minha mãe ria e se divertia, tinha saudades dele. Mas só depois de muito tempo é que refleti.

Estávamos num momento de dificuldades. Ela era uma super hiper cozinheira e uma pessoa muito simples. Por que será que teria contratado um cozinheiro num momento em que estávamos tão apertados? E porque ele nunca chegava perto de mim, mesmo com ela insistindo para que viesse conversar conosco?

As respostas talvez não sejam exatas, mas levam à reflexão. Provavelmente minha mãe contratou Cícero porque ele estava com alguma dificuldade profissional, já que estávamos com pouquíssimo dinheiro - de alguma forma, ela o quis protegê-lo. E Cícero nunca chegou perto de mim porque tinha MEDO de ser visto em qualquer ato com uma criança, mesmo com a mãe perto: a ditadura militar-empresarial chegava a todos os lugares, quanto mais na minha casa (meu pai e meu tio foram presos no fim dos anos 1960 por "subversão"). E pior ainda que encontrasse um homossexual brincando com uma criança, não importando qual fosse o motivo.

Cícero é a primeira lembrança que tenho de um homossexual na vida - a segunda é de Serguei, que minha mãe adorava e que hoje tenho a honra de ser seu biógrafo, ao lado de Rodrigo Barros. Cícero sempre me tratou com todo o respeito, a ponto de se auto-mutilar socialmente. A ele devo excelentes pratos de comida deliciosa.

De lá para cá, foram muitos anos e muitos e muitos queridos amigos homossexuais, milhares de álbuns tocados por músicos homossexuais, livros fantásticos escritos por homossexuais. As artes, o cotidiano, o futebol - SiM! -, o trabalho, as faculdades, os bares, tudo. Ex-namoradas e ficantes. Amigas queridas e grandes admirações. Como poderia ousar discriminar o que faz parte da minha vida desde sempre?

Não vivi a orientação homossexual, mas jamais por preconceito e sim porque não é minha essência. Se fosse, creio que eu teria tido apoio de meus pais, teria que enfrentar inúmeros percalços mas, provavelmente, acabaria numa organização LGBT em luta pelos direitos e causas. Mas não preciso ser necessariamente homossexual para abraçar e me solidarizar com todos os homossexuais, amigos meus ou não, diante dessa idiotice agora rebatizada de "liminar da cura gay". Homossexualidade não foi, não é nem nunca será doença, exceto para aqueles que nem sempre são sexualmente seguros de si mesmos.

De alguma forma todos aqueles amigos homoafetivos são aqui representados pelo nome de Cícero, que foi o meu primeiro amigo gay quando eu nem sabia o que era sexo. Penso na dor daquele homem em 1975, temendo ser preso e desaparecido pelo simples fato de conversar com uma criança. Mas o pior é pensar que, 40 anos depois, parte do Brasil é ainda tão primitiva quanto naquele tempo.

Pela cura da ignorância já!

Wednesday, September 13, 2017

enfim, nus

finalmente agora estamos nus
não por causa de picas e bundas
ou de admiráveis bucetas
mas estamos completamente nus

porque temos escarrado nossas ideias
e eatuprado as discordâncias
porque temos sido primitivos vis
e aplaudimos a inconsequência

estupidamente nus

enfiados em roupas tão respeitáveis
guardando nossas vergonhas de pele

falamos com fel nos olhares, tanto fel
que somos capazes de repelir o mundo
a começar pelos imprestáveis mendigos 
e outros degenerados vagabundos

nós somos deus, a pátria, a família
e somos o que somos por merecimento

nosso brasil é outro, limpo e engomado
nós temos modos e sabemos o portar

estamos completamente nus - nossas vísceras estão nuas - o céu espia nossas excreções - somos lindos porcos nus - nós temos berço - e somos pessoas de bem - qual é o teu problema com a gente? - eu mereço o que meu pai me deu - que morram estes comunistas de merda - fizeram pacto com Hitler, eu não

e os navios negreiros nunca mais vão chegar 
ao morro cara de cão
chegou a hora de retomarmos de vez
as capitanias hereditárias

vamos dormir tranquilos no dia em que essa gente 
for varrida do nosso Brasil

finalmente estamos nus, com roupas
o que se vê é a nossa essência morna
podemos melhorar, meu rapaz! 
a pátria ainda não está livre, gavião! 

o Brasil é dos Brasileiros, porra! 

Isso vai desembocar num massacre
num hiato de diálogos e a fé no aparte

entendam: somos gente de bem
só não somos obrigados a ver vocês
pisando numa calçada daqui
Não somos pretos nem gordos nem pobres 
nem burros, ora
e mentir não suscita um pecado

estamos nus, absolutamente nus 
mas felizmente ninguém vê
nossas pirocas flácidas e tímidas
nossos peitos desabados de estrias
não cheguem perto da buceta suja! 
o dinheiro não traz felicidade, rapaz! 
a riqueza não garante dignidade
e nos dói sermos tão imperfeitos

- seus filhos da puta, que julgam pelo corpo ou pela aparência ou ainda pelo dinheiro, que o inferno lhes seja pousada aprazível até a guilhotina beijar vossos pescoços de merda sujos e decadentes - seus cadáveres insepultos, voltem para onde nunca deveriam ter saído - do fundo da terra, o fundo feio da terra - vocês não gozam nem riem de verdade - vocês são um saco de merda que não aduba nada - que as tuas almas sejam estorricadas debaixo do sol 

enfim, nus - e podres, podres, mortos vivos 

Tuesday, September 12, 2017

A ditadura contra Elika Takimoto


Introdução de Ernesto Xavier

Hoje, após denúncia de "haters", a escritora Elika Takimoto foi bloqueada do Facebook, por 24h, após uma postagem em que falava sobre o fechamento da exposição promovida pelo banco Santander, boicotado e denunciado, igualmente, por membros do MBL. Colocarei o mesmo texto aqui e vou esperar ser banido. Aguardemos as consequências, Sr. Mark Zuckerberg.

Eis o texto:

​Com tudo o que aconteceu sobre o episódio-exposição-Santander, além de ter ouvido pérolas que o “banco Santander virou marxista”, “não gostei portanto isso não é arte”, “esquerdistas apoiam pedofilia” e coisas afins, o que me chocou mais foi ver o incômodo causado por um “quadro” de um homem fazendo sexo com um animal e a conclusão de que aquilo era apologia à zoofilia.

Não sou de julgar ninguém, mas achei de uma falta de coerência extrema e, porque não confessar?, uma burrice sem tamanho. (Se registrar artisticamente um crime é apologia ao mesmo o que essa gente vai fazer com os livros de literatura?)

Não tardou para ser chamada de insensível com os bichos. Logo eu, vegetariana tentando virar vegana.

No mais, só provocando, se o bicho tivesse sido desenhado morto em cima de um recipiente com uma maçã na boca cercado de batatas coradas não haveria a mesma comoção pelo animal em questão que possivelmente sofreu horrores durante a vida e na hora da morte como tantos são os bichos que são torturados e vão para o vosso prato.

Voltando ao foco de minha postagem:

Verbalizei o que senti em um tweet: “Fala que quadro mostrando a zoofilia é crime, mas nunca se manifestou contra obras retratando a escravidão. Estamos de olho.”

Ora, se retratar bicho sofrendo abuso é apologia ao crime por que as obras com os negros sendo torturados não causaram a mesma comoção? Que lógica é essa que só se aplica ao animal?

Qual foi a minha surpresa hoje ao ver o quadro completo! O que havia nele? Negros sendo tratados da mesma forma que o bicho! O que foi recortado para falaram que a exposição não prestava? E se a exposição fosse só de negros, e de mulheres negras e brancas sendo abusadas? Será que seria também proibida? Ou viraria produto pornográfico como tantos outros?

Em tempo, apologia ao crime é isso que vocês todos andam fazendo: a famosa indignação seletiva. E fiquem com essa verdade: proibir exposição porque se sentiu ofendido flerta com o fascismo. Não vai assistir, fale mal, mas censurar exposição artística jamais.


Abram os olhos e pensem antes que a fogueira de livros seja acesa porque montada ela já está.






NÃO HÁ ARTE POSSÍVEL PARA A GENTE DE BEM

Daniela Name

O Globo, 12/09/2017


RIO — Uma exposição que inflamou aquela cidade fria. Os cidadãos de bem comentavam, mesmo sem ter visto. As mães protegiam seus filhos daquelas telas, esculturas, fotografias e objetos, consideradas uma ameaça à família, ao espírito nacional, aos altos valores. Cada obra como um ataque premeditado à ordem; cada defensor desse tipo de arte como um pervertido, pedófilo, bandido ou prevaricador — talvez todos os atributos combinados. Uma patrulha civil, milícia da moral, de plantão do lado de fora, abordando e intimidando as pessoas. Afinal de contas, quem não é pelo bem compactua com o mal. Porto Alegre? MBL? Mostra queer? Não. Este texto começou em Munique, onde, há exatos 80 anos, em 1937, um certo Adolf Hitler transformou a mostra "Arte degenerada" em uma de suas principais peças de propaganda ideológica.

Nas paredes e no espaço, obras de Piet Mondrian, Emil Nolde e Oskar Schlemmer, entre outros grandes nomes da arte moderna. Esteticamente, eles representavam a ruptura com a ideia de verossimilhança e com o sistema de representação ordenado e hierárquico vigente desde o Renascimento.Simbolicamente, apontavam para a arte como um horizonte de ambiguidades, de opacidade e de ficção; um campo sem compromisso com o real; um impulso sempre faminto de liberdade e de utopia. E, é claro, um perigo avassalador para a intolerância e o discurso monocórdio de Hitler. A exposição "Arte degenerada" deu ao ditador a chancela para a destruição de obras dos artistas participantes e também de Picasso, Kandinsky e Matisse — todos vistos como vetores "judaico-bolcheviques". O resto da história conhecemos bem — ou ao menos deveríamos: obras de arte queimadas, escondidas, destruídas. Artistas e pensadores fugindo ou morrendo.

Na Porto Alegre do último feriado, uma instituição financeira internacional, o banco Santander, fechou um projeto que se dispôs a patrocinar. Uma exposição apresentada à opinião pública como um libelo a favor da diversidade, inaugurada há menos de um mês. No Rio, não vi a montagem da mostra, embora conheça bem boa parte das obras selecionadas pelo curador Gaudêncio Fidélis.

Ao percorrer os trabalhos reunidos em "Queermuseu — Cartografias da diferença", percebo que o subtítulo sintetiza muito melhor esse projeto do que seu título. Trata-se de um conjunto que procura debater, antes de mais nada, a importância da alteridade, e não apenas através de um filtro das bandeiras LGBT. Há um retrato de Portinari e obras relacionais de Lygia Clark mescladas a trabalhos de forte conteúdo erótico, como as fotos de Alair Gomes. E de outros trabalhos que apresentam cenas de sexo, mas para que elas discutam alto muito além dele, caso do trabalho "Cena interior II", de Adriana Varejão, uma reflexão profunda sobre os estupros e os bastardos produzidos em nosso período colonial. É uma mostra sobre duelos diversos para a conquista da diversidade, propostos por um grupo de obras que não veio ao mundo para nos oferecer paz. A arte e o museu contemporâneos serão sempre mais potentes quanto forem menos apaziguadores — e a reação à mostra gaúcha é apenas uma comprovação disso.

Wednesday, August 23, 2017

urbana

debaixo da sombra fria dos arranha-céus
há corações dilacerados
e mãos estendidas em vão: ninguém quer prestar atenção

homens de bem passam apressados
com suas gravatas importadas
e ternos muito bem cortados:

não há mais tempo a perder
quando se quer o Brasil de volta

- oh, retumbantes panelas!

o Brasil, a terra em transe
aquele outro, lindo e assassinado
com suas malas de dólares
e mortes a sangue-frio

choques de ordem e correção
a pátria amada de manchetes em pé
e mentiras na contramão

a cultuarem as senzalas modernas

os garimpeiros caçam pedras de morte
ao léu

a morte à vista sem constrangimentos

e passamos fingindo não ver

- estamos ocupados demais

ou acreditamos em um porco nazista
e aplaudimos um engomado calhorda

céus! céus! onde mora a vida?

debaixo dos arranha-céus há sempre
uma suntuosa estação de metrô
com seus trens cheios de cabisbaixos

escrevendo o que ninguém lerá

desprezando a vida, o amor, a fé:

- ordem e progresso são indiferença!

desembarque pelo lado direito
o que ainda resta do seu coração
dilacerado

@pauloandel

Friday, August 18, 2017

feliz ano nenhum

a violência aí está para estilhaçar o viço dos dias. ela sempre esteve, ao menos para aqueles que têm mantido seus olhares mais atentos a trezentos e sessenta graus em vez de trinta. ela sempre esteve solta, morando de aluguel no apart hotel dos olhares indiferentes, na opressão infame das comunidades carentes, sobre a mira dos fuzis covardes que estraçalham sonhos e trajetórias. a violência aí está diariamente embarcada na baía de guanabara ou deslizando pela via dutra. hospedada em confortáveis escritórios das grandes corporações, cujos prédios são batizados com nomes estrangeiros, e onde raramente se vê um negro ou nordestino que não seja em funções serviçais. lá está a violência em forma de mãos mendigas estiradas na calçada suja enquanto um executivo só passa perto do pedinte por obrigação. olhares, olhares, olhares de desprezo, de aparte, de afastamento. a violência é fácil de ser entendida quando algum boçal profere a frase “é preciso ensinar a pescar em vez de dar o peixe”, e então todos percebem que o orador nunca pescou uma bola à beira de um lago. a hipocrisia é a mãe de todas as violências. a violência é o egoísmo, o imperialismo financeiro, o racismo, o nazismo, a cólera e tudo que se vê facilmente num telejornal. os mortos pela fome, pela miséria, pelo abandono, enquanto há quem espere o próximo feriado, o recesso de natal e um feliz ano nenhum, feliz ano nenhum, nenhum.

Thursday, August 10, 2017

esmolas d'alma

república federativa infestada
de pátria amada
todos juntos vamos! 
a câmara de gás nos espera

estendemos nossas mãos 
mendigas
e pedimos o que nos resta
porque deus ajuda e muito

o amor não protege o relento
a miséria
a morte lenta nas calçadas
feito o desabrigo que é

que fim levou a nossa compaixão? 

pobres diabos com pentes de balas
garotos loucos no voo das morte

meninas tão entorpecidas, o mal
a exploração e a vã indiferença

onde mora a nossa piedade, senhor? 

estamos todos mortos, mortos
decompostos em vida, fétidos
a carne podre da hipocrisia covarde
ou a verborragia anêmica de luz

estamos imersos no mar do caos
somos corações petrificados, nus
caminhamos pela cidade perdida
aluga-se um punhado de amizade

@pauloandel 

Tuesday, August 08, 2017

poema do otimismo

eu e meu caos
a desgraça, o desabamento
os famintos nunca foram tão sofridos
nunca foram tão humilhados
nós somos a merda, o esgoto
a legião dos desprezados
e há quem ouça falar em futuro
- você conhece matemática?

eu e nossa dor, nossa bosta
no continente dos abandonados
cada um é sua própria sorte
um lance, um tiro, a morte
o voo fascinante do suicídio
será condenado pelos hipócritas
que mandam no povo, céus

nós e nosso ódio esparramado
somos campeões do mundo da cólera
ou merda nenhuma na verdade
afinal, de que vale uma rastejante subcelebridade?

nós somos o povo, a prole, a gang da gare
e podemos vender nosso esforço
nossos corpos, a força física
somos cavalinhos bem comportados
ou cordeiros mansos
a morte não existe, fica o sofrimento
a se arrastar por infernos e céus
nós somos o povo, a bosta desprezível
e os bandidos riem da nossa tristeza
ao mesmo tempo em que nunca fomos
nunca fomos tão estúpidos
e egoístas e desinformados
num dia de sol tão bonito
os velórios também existem
- e são fartos

@pauloandel

Sunday, July 30, 2017

aparência

eu não aparento em nada
a idade que tenho
nem meus sofrimentos
as dores que tenho sentido
não se vê em meu semblante

eu não sou minha tristeza

meu rosto ainda esconde os vincos
as mágoas, a grande melancolia
- nenhum traço lhes denuncia

a minha tragédia vive escondida
e ninguém pode repará-la: 
meu olhar não fala dela

é o amor que ainda me protege
até daqui a pouco
do invencível tempo

Sunday, July 23, 2017

jornada

mais um passo
na estrada agora
bem mais perto do fim
do que do começo
mas ainda há chão, terra
vento e jornada
mais um passo
mais um dia
as imagens não são as mesmas
mas existe um caminho
mais um passo
quem sabe sozinho?
quem sabe rumo ao nada?
ou para viver 
o que precisa ser vivido
ninguém repara as lágrimas
ou prefere a indiferença
ninguém oferece um abraço
a tristeza não se divide
é só um passo
uma estrada
um longo caminho
que já ficou para trás
e outro que se avizinha
sem qualquer previsão

Friday, July 14, 2017

todas as coisas vão passar

todas as coisas vão passar
até o som dos sinos que dobram
pelos que disseram adeus
tudo
todas as ilusões, todas as desesperanças
toda a infâmia vai passar
a miséria também
tudo é breve demais para cogitar eternidade
mas existe uma certeza:
o vazio
o vazio
o vazio da perda, do vão
dos esforços e sentimentos inúteis
dos sofrimentos incalculáveis
todas as coisas vão passar, até a dor
mas o vazio é o mar interminável:
antes dele, corremos para pagar as contas
chorar nossos mortos
e ter direito a pequenos entorpecentes:
a gula, o sexo, o gol, a pequenina alegria
o grão de areia de uma praia sem cor
todas as coisas vão passar
e o vazio é inevitável
o vazio
vazio

Thursday, July 13, 2017

a tempestade

não se trata de um exercício da vida, olhando para o bem e o mal. é o cumprimento de uma pena enrustida. todos os dias você acorda livre, absolutamente livre, e se depara com todos os seus sofrimentos e os daqueles que lhe são próximos, ou mesmo os irmãos que jamais verá ainda que sejam objeto da tua solidariedade. não, não é a vida como ela é, mas como ela foi imposta e você não tem o menor direito de escolha, exceto aceitá-la e sofrer para sempre ou abreviá-la por seus próprios meios, sendo condenado ao vale dos traidores, ao título de louco, de insano, de fraco, como se você fosse quem escreveu todas as desgraças que vemos todo dia. isso não é a vida como ela é, mas a tortura como ela é imposta. você está sozinho, absolutamente sozinho como sempre esteve e, ao olhar de agora para trás, revê um rio interminável com a vida afogada em mágoas, desenganos, falsidades, hipocrisias, egoísmos, invejas e violências. não é a vida como ela é, mas sim a que o sistema maldito reservou para você e os seus, os famintos e os malditos, os mendigos e os perdidos nas noites frias, cruéis e indignas. eis a tempestade, a longa e tenebrosa tempestade, varrendo as misérias do asfalto, traduzindo toda a inutilidade de luta contra o mal porque a vitória pertence aos ruins, aos sujos de alma e aos incapazes de ver o outro senão como um objeto ou saco de lixo conforme a circunstância. não há religião, política ou dialética que justifique a destruição do homem pelo homem, que aceite como normal morrer de fome, de sede e de exaustão do sentimento. 

Tuesday, July 11, 2017

silêncio

no fim, nada pode ser mais cristalino
e preciso na poesia do que o silêncio. 

Saturday, July 08, 2017

irmão

finalmente abracei meu irmão
depois de muitos e muitos anos
ele sofre demais e é triste
eu sofro por nós dois e nossos pais
a história devastada, dolorosa
ele é pobre e triste e sofre
eu me sinto morto
depois de carregar uma cruz de ferro
por quase nove anos
até que ela espatifou minha cabeça
e meu coração apodrece de dor
abracei meu irmão
e senti a mais triste felicidade
eu o queria bem, melhor do que eu
melhor do que a minha morte triste
e perdi todas as certezas
eu me sinto em chamas de um incêndio
eu estou morto em vão
e tudo que eu queria era sua felicidade
finalmente abracei meu irmão
um pequeno conforto diante do mundo
egoísta e pavoroso que sufoca
meus versos inúteis
meu irmão está vivo
o mundo segue com sua indiferença
o futuro não existe


@pauloandel

Monday, June 26, 2017

meu amor, teu deus

meu amor, teu deus
estou debaixo de sombra e água fresca
num domingo no aterro
caçando o que restou da paz
os meninos pobres, redivivos
chutando uma bola encardida
e namorando o sonho do topo do mundo
eu, que não quero ser morna nem prece
procuro os meus amigos em vão
- o tempo é implacável: somos saudade
e não sobrou uma fotografia sequer
ao longe, vejo os mendigos 
ganhando o sonho da sopa na caixa
a cidade está de folga
e todos queríamos ser paz
chutar bola em tempos de abraços
desprezar a ansiosa solidão
namorar a garota mais bonita do mundo
ou o rapaz também
até que o pai nos gritasse: o almoço
e riríamos com o refrigerante
a presença da mãe, a família
o rádio pronto para o jogo das cinco
aos pés da tarde em Copacabana
com seus bares, amigos e papos
estou debaixo dos meus escombros
mendigando um punhado de paz
o jogo é o das quatro - a rádio, desalinho
e meus amigos são plena saudade 
o amor, ah, o amor, das canções e versos
parecem tão esquecidos
até que alguém sorri e chora:
meu amor, teu Deus - a água leve 
da pia branca levou consigo
os grandes amores da nossa infância
os predicados lúdicos do romance
dos nossos começos 
e não sabemos o tempo que resta
a paz que desarma, a fidalguia: 
o que temos é amor e memória

@pauloandel 

Tuesday, June 20, 2017

chuva

a chuva incessante ganha as ruas da cidade com força. ruas que viram riachos, bueiros que são meras lixeiras e todos aguardamos a nova tragédia, numa velha repetição de erros e indiferenças. a chuva, que alegra alguns corações e faz o pavor em muitos outros, seja numa encosta ou debaixo de uma marquise. ah, chuva, que engana e não traz paz. chuva que desnorteia os outros corações, tão mendigos, e que ajuda a girar a roda da notícia - viva os sucessos populares! agora todas as regiões são uma longa noite, agora as calçadas bebem goles de inundação, agora a televisão mostra uma banda quase jovem cantando um hino dos antigos: "não sou brasileiro, não sou estrangeiro, não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum". somos de qualquer lugar. a chuva alaga a cidade. talvez não estejamos nem aí para tudo.

@pauloandel


Monday, June 19, 2017

cinismo song

I

Finalmente chegou o dia em que somos todos inúteis. Seja na condição de cracatoas assanhadas da internet, seja pela indiferença cínica que muitos de nós utilizam para lidar com o mundo, seja pela torcida por este liberalismo escroque, a verdade é que somos todos inúteis. O mundo explode em guerras, atentados, cenas violentas, traições da natureza, desencantos mis e continuamos em nossos papéis de cavaleiros da moral internauta. E do alto dos castelos virtuais, assistimos calados ao desgoverno dos pezões e malafaias, à insana escrotidão da república golpista, à farsa nojenta dos veículos de comunicação. Enquanto o mundo gira, o Brasil se espatifa e todos ficamos orgulhosos de nossos murais, dos kkkkkkk e dos mimimi. Achamos o máximo porque somos/supomos ser subcelebridades de porra nenhuma numa superpopulação eletrônica, isso quando não fazemos de tudo para eliminarmos o sub em vão. Kkkkkkk, mimimi, ahahahahahaha e aí está a certidão de nascimento de toda a nossa inutilidade. Este POST é a prova viva de que nos tornamos a sociedade do dia em que somos todos inúteis. O que mais será preciso para virar essa porra toda de cabeça para baixo, sacudir tudo e varrer a sujeira de vez? Não precisamos ser inúteis para sempre, pois. O resumo é de cada um, a tristeza é de todos nós, a conta também. Pôstis e tuítes são supositórios desconfortáveis. Até quando fingiremos que este mundo real não tem o formato desigual, escroto e fadado ao simplório fracasso? Aleluia!

Friday, June 16, 2017

midnight copacabana II

depois de ter visto a miséria e a prosperidade esmolando no mesmo balcão de botequim

e as doces tristes putas aguardando o carro que lhes sirva de sobrevivência

os garotos negros sentados no chão em posição de ataque em frente à porta das Casas da Banha, ignorados por senhoras respeitáveis e marombeiros com esponjas nas mãos

depois de ter visto e ouvido a esquina mais barulhenta do mundo na janela da casa de Marcelo Conde

os garotos fumando maconha e depois jogando football de praia com os operários da grande obra da Avenida Atlântica

e entender que Copacabana não é simples assim

nosso lorde das ruas é um mendigo com seis metros de altura, duzentos quilos e um cheiro indefectível de éter que atravessava três quadras

e que rivalizava com Ramiro, que picava mil papéis na rua Siqueira Campos e, certa vez, acertou um belo soco num reacionário debochado

os quitinetes estão cheios de dor, de luta, mas luxúria quando for o caso raro

generais de pijamas jogam cartas e cheiram pó na varanda de um grande apartamento do Bairro Peixoto

e garotos moderninhos vestidos de preto com camisetas do The Cult, passam apressados com seus copos de bebida alcoólica 

a caminho do Crepúsculo de Cubatão

o jovem poeta Fausto Fawcett cria rapa e poesias no Cervantes, quartel-general da avenida Prado Júnior

e belas garotas passam de carro a caminho do Leme, na Pizzaria Sorrento, perto da casa do ator e lutador Ted Boy Marino

já no outro lado do bairro, no Forte de Copacabana, impera um silêncio austero, enorme, que até finge imprimir um tom sóbrio aos arredores

mas como, se a Galeria Alaska ferve solta com seu interminável carnaval homoerótico? 

eu vi a calma à beira do mar que precede qualquer assassinato por motivo torpe - eu vi os sóis - eu vi três mundos 

todos eles pensativos na calçada do edifício Ritz

amanhã é um outro dia 

Saturday, June 10, 2017

cruzadas de ódio

até quando seremos mortos vivos
em nossas cruzadas de ódio
atravessando o caminho entre o nada
e o nunca
pelo prazer da humilhação alheia?

desfraldando as bandeiras da estupidez
e gritando gol a cada outro ofendido
somos felizes mortos vivos
a vida é nosso uniforme vestido ao avesso

somos estúpidos, arrogantes e bastante ignorantes: somente assim encontramos nosso lugar ao sol

num dia de céu apodrecido
e o fartum acre das ruas abandonadas

até quando nossa pretensão vai nos guiar até o Olimpo dos idiotas?
onde não temos respostas
para nenhuma das nossas perguntas

quando vamos aprender que não passamos de granadas sem pino
efêmeras por natureza
e que ao menos descuido
nos tornamos grandes bifes podres?

ou orgulhosos seres primitivos
da idade da pedra digital?

será que um dia nos livraremos do consumismo pueril e da indiferença oca?


ou seremos eternas marionetes nas mãos da TV, das grandes corporações, da nossa própria desinformação?

Tuesday, May 30, 2017

o que fode tudo

todos os dias tem uma bala perdida
uma vida destruída
e idiotas com seus impropérios de mural
a vida escorre sem sentido
as pessoas desesperadas vagam por emprego
outras por crack
e a maioria experimenta uma solidão enorme
todos os dias a TV desfralda suas mentiras em forma de notícias
e brilhantes soluções 
que só atendem o brilho nos olhos dos patrões
a gran finesse da burocracia
todos os dias experimentamos o gosto amargo da derrota
a semana jogada fora à espera da sexta-feira
os pequenos momentos de prazer e fé
porque nos dói aceitar
que tudo é uma merda
que a maioria dos nossos semelhantes
caga e anda para o outro
e quer mais que o outro se foda
de verde e amarelo 
ou com a velha e encardida desculpa
do anticomunismo 
no paraíso do capitalismo volátil
o traficante não percebe que é escravo
o policial não percebe que é escravo
e a escola sem partido é a ditadura de ocasião
todos os dias tem assalto, estupro, hipocrisia e indiferença
a sociedade é muito linda
o que fode tudo é o ser humano
o poeta bem disse: somos uns boçais
incapazes de enxergar quem oprime
ou quem realmente semeia amor
ostentando nossa formação de merda
à base de revistas, jornais e programas de merda
com fanfarrões arrogantes em tom blasè
e a grande representação
está nas caçambas cheias de lixo
os papéis de pó jogados na calçada em frente à escola
os rios destruídos, os índios queimados
os corações estuprados
a revolução não será televisionada
porque seus donos são porcos estúpidos
enquanto a maioria ignara
é tão estúpida que não consegue sequer ser individualista
e pensar em si
uhu! eu sou o rei do Facebook
sou bastante tuitado 
e não passo de bosta mole, pastosa
espalhando a apoteose do meu redor
uhu! a globo disse e eu aplaudo
batendo firme as minhas ferraduras
enquanto os caveirões 
são carros alegóricos do carnaval da morte
uhu! eu sou um bosta consumista e minha vida não faz sentido sem um shopping center
uhu! eu sou o prego na balada, o babaca na calçada ostentando bobagens
a cidade amanhece debaixo de mais um nevoeiro
e estamos vigilantes em busca do próximo feriado
o próximo vazio feriado
com nossas piadinhas misóginas, fascistas e totalitárias
porque no fim das contas temos pouco ou nada a dizer
é isso que fode tudo, tudo
sem gozo, deleite e prazer - é pantomina da foda, ilusão tamanha, desfaçatez
é isso que fode tudo
essa mistura de ganância, burrice e egoísmo
essa prepotência idiota
porque é made, made, made
made in Brazil
os mortos viram estatística
os vivos são mera audiência
os votos são o resquício da farsa
e clamamos por Deus, pela família e contra a corrupção dos outros
a nossa é terra debaixo do tapete
somos uns boçais
não entendemos o mínimo necessário
para a sobrevivência
e nada disso será ensinado 

depois do jornal nacional 


Tuesday, May 16, 2017

Saturday, May 13, 2017

brasil cemitério

bem-vindos ao país do caos
absolutamente destruído
bonito pela própria natureza
e apodrecido em suas entranhas

bem-vindos ao oco, ao fútil, ao superficial

a ignorância num jornal nacional

ódio, ignorância e progresso

bem-vindos ao cu do mundo
ao fim da trilha, à troca do homem cordial pelo de neandertal

no fim tem festa, gol roubado
e carnaval - que sensacional

o brasil da alegria numa noite
de finados no cemitério

Wednesday, May 10, 2017

robraco - rap do ódio brasileiro contemporâneo

e agora/ o que vai sobrar depois de todo esse ódio no coração?/ um mar de verborragia em vão/ a felicidade plena da agressão? /"eu matei mais um em nome da limpeza da nação"/ ledo engano, meu irmão/ esse teu reboco não sustenta a construção/ a casa cai e só vai atestar a desilusão/ o que fazer quando um pote de cólera é a orientação?/ o mundo de cabeça para baixo e um homem solitário suicidando a boa intenção/ não se faz justiça com ódio/ no máximo, exacerbação/ você pagando de rei com suas mãos esmolando um punhado de atenção/ está perdido, amigão/ o tiroteio do rancor tem uma bala perdida para cada coração/ a uti do amor está sofrendo de superlotação/ estamos vazios, fudidos, sem humildade para pedir perdão/ buscar uma explicação/ que se foda o outro, comigo não/ e assim atravessamos o pantanal da ingratidão/ vamos matar uns aos outros até sair o grande campeão/ e a constatação/ do vazio de ideias em que nos metemos por presunção/ e agora/ o que vai sobrar deste livro de fel escrito em murais de devastação?/ ódio puro à vista, no débito ou no cartão?/ isso fez de você um grande cidadão?/ um latifundiário da razão?/ não, não, mil vezes não/ apenas uma besta-fera em busca de autopromoção/ no mundo do big brother e da manipulação/ no fim das contas/ apenas um poço de mágoas e putrefação/ há carne podre por todos os lados e viva também/ resultante de tortura e agressão/ manter o teu coração cheio de cólera/ é fazer o jogo do opressor/ o papel do idiota no meio da multidão /o que o amor não constrói/ o rancor não traz solução

@pauloandel

Monday, May 08, 2017

Barão!

Acabei de ler no excelente blog do mestre Jamari França: o Barão Vermelho botou para quebrar em sua volta, jogando em casa - o Circo Voador - e com um novo cantor - Rodrigo Suricato. O poeta não morreu.

Torci como nunca por esta volta: sou fã da banda desde o seu começo, começo mesmo, quando tocavam na antiga boate Holigay da rua do Passeio: voltávamos do Maracanã e lá tinha um quadrinho na porta, escrito com giz. Depois, ficamos como loucos procurando no FM aquela música que até o Ney Matogrosso tinha gravado. O resto todo mundo já sabe: a irresistível pegada rock + blues + MPB vindas de um de seus melhores conjuntos - no coração de todo mundo antes da Legião, dos Paralamas, de geral. De lá para cá já se foram mais de trinta anos, perdas, enganos, vitórias e uma trajetória foda. 

Torci porque sou torcedor do Barão. Vi Cazuza, já conhecido, fazendo loucuras na Ataulfo de Paiva e pouco se importando com a fama. Uma vez conversei com Frejat no ponto de ônibus da rua Figueiredo Magalhães. O poeta Mauro Santa Cecília é de uma simpatia a granel nas redes sociais. Volta e meia eu via o Peninha no supermercado. Podia falar também do meu grande amigo Xuru, da minha amiga Manuela, mas isso tudo seria pequeno diante do principal: o Barão tinha o direito - e até o dever - de prosseguir na carreira musical, sem Cazuza, sem Frejat, com todo o respeito ao gigantismo destes nomes. Quem é que tem que dizer quando uma banda de rock deve acabar? A própria banda e mais ninguém. 

Não conheço o trabalho de Suricato, mas não há nenhuma importância dele ter vindo de outra banda, de um reality show, o que quer que seja - o grande Yes faz isso há anos e todos acham ótimo. A única coisa que importa é a qualidade e mais nada. O show do Circo tem recebido os maiores elogios possíveis.

O Queen não pode nunca mais tocar porque Fred Mercury morreu? Se Jagger ou Richards falecerem, o sobrevivente terá que decretar o fim dos Stones? Façam-me um favor... Deixem os artistas trabalhar! Ouve quem quer, vê quem quer e pronto. Amigos: Maurício Barros, Guto Goffi, Fernando Magalhães e Rodrigo Santos. Em NENHUM lugar do mundo uma banda com tais integrantes seria desestimulada a um retorno, exceto por quem comenta música sem conhecer do assunto. 

Bom demais saber que o Barão Vermelho está de volta. Vivo, feliz, com as pequenas cicatrizes de uma grande história, com toda a vida pela frente - é que o tempo não para, uma pena. Que saudade daqueles 1982/1983.  Mas ainda há muito a fazer. 


Friday, May 05, 2017

Los justiceros virtuales

Eles estão por toda a internet.

São faiscantes.

Coquetéis molotóvi arremessados em moto contínuo. 

Defensores da ordem e da moral. Gente impoluta acima do bem e do mal, inquestionável, senhora da razão, latifundiária da verdade. 

Ai de quem discorde deles. A destruição é fascínio. Ameaças, intimidações e outras expressões típicas do totalitarismo travestido de "opinião". 

Infalíveis, precisos, mortíferos com suas frases de 140 caracteres ou textões que mais parecem tentativas de choques de ordem num grande deserto de ideias. Por ironia este é também um textão. 

A versão tupiniquim de "Social Justice Warriors", SJW, devidamente traduzida para Justiceiros Sociais - JS. Virtuais. Reais. Tanto faz. 

Por trás de algumas eventuais boas intenções, muitas vezes existe a confusão de virulência com convicção e de verborragia com sofisticação argumentativa, características marcantes de quem pretende na verdade oprimir os outros em vez de convidá-los ao papel de leitor, ouvinte, integrante da dialética. "Em defesa da liberdade, eu oprimo". Já dizia o grande artista Enrico Bianco: "A única coisa importante no homem é a sua contradição". Quem se lembra do ditador Figueiredo? "Anistia ampla, geral e irrestrita; quem for contra, eu prendo e arrebento"...

E odeiam, odeiam, odeiam qualquer pessoa que não os aprovem 100% em suas teses nem sempre construídas em momentos de lucidez física, ou nem sempre baseadas em nobres intenções.

Em suas manifestações, em geral o outro é apenas um acessório, um número na grande plateia virtual, cuja disposição deve ser a de ratificar e aplaudir. Um degrau. Caso contrário, morte na fogueira. Racista, fascista, bandido, corrupto et cetera. 

Estão na esquerda, na direita, no centro, no velho, no novo, nas religiões. E explicam muito do que o Brasil se tornou nestes dias de 2017.  Muito mesmo. 

Às vezes parecem militantes políticos, noutras vezes singelos estafetas, noutras apenas suicidas verbais. Mas não se pode negar a coragem - ou a audácia - de expor em público as verdadeiras barbaridades que publicam e/ou compartilham. Em alguns casos, o problema é que não há como não se perceber o tempero que acompanha o prato: a covardia oportunista. 

E quando odeiam a expressão de alguém, o comportamento é padronizado: copiar o dito e escrito para seus semelhantes de virulência, até que seja feita a grande redenção moral por meio de linchamento virtual - Tom Zé, inacreditável vítima deste processo, respondeu com a brilhante canção "Tribunal de Feicebuqui".  

Justiceiros virtuais, a versão cibernética do que já acontece há séculos no Brasil e no mundo, desde os tempos das espingardas até os fuzis de hoje em dia. Os teclados simulam a opressão vista em inúmeras comunidades do país. O que dizer das legítimas áreas indígenas e de tantas outras questões?

Xerifes da opinião. Patrulheiros da manifestação em defesa da pátria, contra a corrupção, contra ou a favor do golpe, contra a ditadura (dos outros). 

Pensando bem, por mais agressivo que seja este cenário de internet - e é -, especialmente nas redes antissociais, ele seria até genuíno se escondesse em alguns casos as verdadeiras intenções dos justiceiros sociais. Em várias ocasiões, elas são bem mais simplórias do que a aparência agressiva da verborragia caudalosa de murais, blogs e outros espaços virtuais. 

Por trás desta cortina de virulência, ódio e verborragia xiita que hoje se espalha pelo Brazil, também batem corações sedentos por láiques, retuites, divulgação da marca pessoal, alívio da carência sentimental, busca de espaço midiático, sensação de poder, inveja, oportunidades profissionais e de outras naturezas. A própria aceitação, ironicamente calcada na negação colérica do outro. Melhor dizendo, recalcada. O desamor em busca do amor.

No fim das contas, um monte de ódio na briga por ser visto/vista, lido/lida, admirado/admirada. Nada muito diferente dos Big Bros da vida. 

O já saudoso Belchior cantava lindamente que o novo sempre vem. Sôfrega e humildemente, aguardamos com alguma esperança. 

Monday, May 01, 2017

Feriado

é difícil demais perceber que não entendemos nada
com nossa nova ordem destrutiva
e a certeza vã da indiferença
o desprezo ao outro, a humilhação
não entendemos o afeto que se encerra
nas mãos estendidas do mendigo
ah, o sucesso que só pode ser dinheiro!
as almas em queda livre e mortal
é difícil demais perceber que não entendemos sequer uma delicada esmola de amor
o egoísmo é a pior forma de solidão
e há quem durma tão tranquilo
desprezamos nossos assassinados
os feridos e mutilados, os inválidos
- o mercado regula, caros amigos!
mas não há existência que resista em ser resumida a uma conta, um número
lá fora, o mundo desaba tão retumbante
e aqui a tristeza é o grande mausoléu
onde iremos guardar tanto ódio, mágoa, arrogância, a pequenez do cotidiano?
os jovens morrem cedo em cassetetes
os velhos morrem sofridos nas macas
e estamos tão tranquilos, indiferentes
que mal existe na dor dos outros, pois?
é difícil demais assumir que pioramos
numa sociedade fascista e tão excludente
copacabana não sorri mais à noite
a avenida são joão é a voz do velório
nunca fomos tão desesperançosos:
Brasil, ame-o ou deixe-o
brasileiro, morra e foda-se
tanto faz pina, ondina, boca maldita, menus
a liberdade é a mesma, meus caros
mais um dia amanhece, enquanto as dores no corpo são entorpecentes
- a solidão é o silêncio de um feriado
você já estendeu tua mão hoje
para quem foi novamente escorraçado?
o que me importa a dor do outro
a felicidade é um tanque de louça à pia
é difícil demais assimilar toda a nossa escrotidão medonha
e o feriado faz cara de pouco ou nada
com seus heróis estúpidos, reacionários
onde foi que erramos a rota e o destino?
a revolução não será televisionada
porque o jornalismo tem hora e preço
na terra esmaecida e fingida, deselegante e insensata por natureza
nunca vamos entender o afeto que se encerra nas mãos enrugadas de um mendigo
na dor do enterro dos meninos
na carne podre que se decompõe diante de sorrisos cínicos e distantes
agora quem abre os braços sou eu
mas não fazemos um país que seja
o brasil é o peito que abriga um coração morto, um cachorro morto na calçada
com seus homens de preto e choques de ordem a gritar
até que a morte nos separe e seja alívio infinito - nem o smartphone é capaz de deter a nova e torpe Idade Média
vamos erguer as mãos para o céu e cantar sobre velhas roupas coloridas
enquanto o mormaço do outono é risco
na pátria mãe dos infelizes fascistas
todos são bem vindos ao velório
e muitos se fazem até de tristes
mas não disfarçam o ódio, a destruição
- mas o que vale é que vai ter sol, uhu!
eu não tenho nada a ver com nada disso
nada, nada, nada, me deixe em absoluta paz!
só o que me interessa é ter o meu país de volta

@pauloandel

Thursday, April 06, 2017

um minuto de silêncio em memória dos pobres idiotas da objetividade

1


enquanto nos perdemos com vaidades estúpidas, jogamos o que nos resta de humanidade no lixo - e, por isso, as crianças mortas acabam sendo apenas recheios descartáveis de noticiários. ansiamos por modernidades mas vivemos a apoteose do retrocesso. continuamos racistas, misóginos, excludentes, incapazes de perceber a dor dos inocentes mortos, sufocados em bairros de miséria. os nossos salvadores da pátria não vão salvar coisanenhuma que não seja os próprios pescoços - não passam de curruptos sujos de um pau de galinheiro. o futuro é incerto, mas já sabemos que a tendência é piorar. há muitos discursos, ofensas, bravatas mas as ações dormem em banho maria. os pais abraçam os filhos mortos numa guerra estúpida, os inescrupulosos agora são o exemplo do sucesso, a escrotidão é a grande campeã. vamos celebrar nossos tuítes de merda, vamos cantar e dançar pelo fascismo que inunda nossas ruas. um viva à nossa hipocrisia, combustível​ cotidiano de avaliações seletivas. os bacharéis em ignorância venceram a grande batalha imaginária contra a ameaça comunista. ufa! nunca fomos tão livres, felizmente temos nosso Brasil de volta: che mierda. 



2



a verdade é que somos estúpidos demais enquanto sociedade humana. fala-se de liberdade, mas o dinheiro vem forte com ditadura e guerra. defende-se a competição, mas os grandes vencedores são os que praticam o predatismo sem fronteiras. não existe país na terra que tenha dado certo com ódio e indiferença ao outro, com abandono e desprezo. somos estúpidos com nossos vaidosos peitos de pombo a desfilar em redes antissociais e chopincêntis. perfeitos imbecis quando a retórica agressiva é mais importante do que o argumento. ainda somos a terra onde há gente que acredita na combinação letal de leite com manga. essa nossa mistura de boçalidade com falta de ética e de respeito ao próximo ainda vai nos levar, e muito, para baixo do fundo do poço sem fundo. mas o que nos importa são fofocas, ostentações e status virtual. viva a idade média com esmártifone, viva! viva o nosso túmulo da filosofia! nós somos os melhores do mundo de porranenhuma e vamos para frente, galopando.



@pauloandel 


Tuesday, March 28, 2017

a nossa linda paisagem do inferno

parece tão sedutora e faiscante
esta linda visão do nosso inferno
oh, reparem nos olhinhos brilhantes
em frente à vitrine da loja de luxo:
a riquinha indiferente, a menina de rua
a respeitável executiva - não são
todas absolutamente iguais?

irmãs de um mundo cão, puro sangue
com sua banca de jornais ainda viva
e vendendo manchetes importadas
- o asfalto recebe carros importados
os negros estão empilhados no entorno
da praça, livres pelas grandes verdes
- não são todos iguais demais, senhor?

como é linda e delicada a fina estampa
da nossa visão mais limpa do inferno:
a orla, a gente bonita, o atlântico sul
e as crianças nordestinas entorpecidas
com tíner de morte - não são todas extremamente iguais?
- senhor, tende piedade do nosso majestoso inferno
queremos o nosso rio de volta, mesmo com água turva, cheiro de puro sangue apodrecido, realidades editadas mis
o nosso inferno é tão lindo que sequer percebemos o seu maior problema: nós
diabos chinfrins e indiferentes, com a nossa arrogância escarrada e pútrida
fazendo a pose dos sofisticados servis
- diabos estúpidos, sim, finalmente somos radicalmente iguais - e tão sós


@pauloandel

Friday, March 10, 2017

onde foi parar o grande amor desta nação?

afinal de contas
onde foi parar o grande amor desta nação?
estará nas cútis sofridas
deitadas sobre caixas de papelão
e debaixo de marquises? 
ou nas carnes apodrecidas 
sobre as macas mortuárias
do instituto médico-legal? 
existe amor na terra de crânios dilacerados a bala por motivo fútil?
nas carnes apavoradas e trêmulas
das meninas estupradas 
o suor é o desespero
as lágrimas sangrentas das travestis assassinadas
nos incêndios acidentais em favelas
nos conflitos sangrentos de terra
na devastação da vida nativa
o amor é o egoísmo vil
oh, amor desconjuntado e perdido
nas filas de emprego algum
nas portas dos hospitais públicos
e das pobres mulheres em visita
aos presídios
o amor faleceu no olhar dos meninos
mendigos
perdido no vazio do horizonte
envolto na manta da indiferença
e sobrevive apenas no pequeno pranto
de uma jovem mulher que clama
por justiça
o amor não prevalece numa cidade
vazia
e nem nas revoluções televisivas
onde está o grande amor do nosso país?
será transmitido em cadeia nacional
ou é mero fruto desta ironia
que nos abraça sem afago? 

@pauloandel