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Tuesday, May 22, 2018

Os trechos dos livros que ainda não foram escritos

Participação especial de Amanda Rodrigues.

Prefácio de Marcelo Migliaccio.

Direção de Zeh Augusto Catalano.

“O Sr. Robert, 70, desceu à rua. Veio ao Rio de Janeiro por motivos profissionais, mas já conhecia a cidade de outros tempos. Num domingo nem frio, nem quente, com nuvens em Copacabana, ele caminhou vestindo um casaco talvez jeans, uma touca e óculos escuros. Noutros lugares, talvez a indumentária chamasse a atenção, mas não no bairro da praia mais famosa do mundo, onde andar vestido com um uniforme de super-herói ou com uma fantasia de viking não causa qualquer espécie - desde os anos 1940, alguns moradores da região faziam coisas bem piores (ou melhores, dependendo do ponto de vista)."

"Uma vaca preta e solitária caminhando tranquilamente pelo pasto verde e rente, bem rente, numa espécie de mar da tranquilidade esmeraldina, sem ninguém por perto, nenhum tocador ou fazendeiro, nenhuma outra vaca também, simbolizando o tempero de solidão que se sente quando se está numa ilha - e os Açores são assim, deitados elegantemente nos braços do Pacífico, onde não se vê um barco sequer ao longe e, ao fixar os olhos na linha do horizonte, é inevitável sentir o gosto da melancólica reflexão sobre o mundo.

"Mas afinal, onde foram parar os flamboiantes da cidade? E as amêndoas, cada vez mais raras e sem os minicraques da pelota, loucos para chutá-las e marcar lindos gols imaginários no estilo do falecido Maracanã? As jovens normalistas e os pequenos jornaleiros, cadê? Símbolos de charme e juventude, noves fora nada.

"Ah, Thaís, como eu te quis! Desde a primeira vez que te vi passando tão linda no saguão da faculdade, nunca mais te esqueci. Eu pensei em você quando estive em outras cidades, em outros causos e outras mulheres: todas foram traídas por você involuntariamente. Pensei em você nas noites de luxúria e solidão, nas noites de festa e lazer, no gozo de ocasião. Eu encontrei você nos meus sonhos de putarias mais doidas e também nas cenas mais românticas de uma pracinha do interior. Ah, Thaís, eu te quis o tempo inteiro até que fôssemos uma só carne e um abraço."

"Trinta anos depois, Vaz Lobo estava completamente diferente. A Edgard Romero completamente deserta às sete da noite, mesmo em frente da antiga Nuno Lisboa. Do outro lado da rua, o prédio de quitinetes onde morei com meus pais por alguns meses - os antigos moradores eram jovens estudantes comunistas que fizeram lá dentro um mosaico com fotos de jornal, especialmente a de Mussolini de cabeça para baixo. Cheiro de rua triste. A lanchonete Miguelão estava morta."

Friday, May 11, 2018

breve resumo da vida

a vida
é o exercício
das inutilidades:
nascer, crescer
viver, morrer
sem entender
o ir e vir das coidas
sem entender
o estranho amor
o inconsciente
tudo sob demolidora
velocidade - nos
pequenos intervalos
procuramos a paz

fim


O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? O ódio das ruas, a opressão, olhar para trás e estar bem mais perto do fim do que do começo, nada mudou de verdade exceto o tempo que é cada vez mais exíguo. Temos nossas próprias guerras e o mundo não vai nos escutar ou acudir. Continuamos chorando pelas ruas sem que ninguém dê atenção ou sequer perceba. Somos o desalento. E então nos amontoamos nas cidades em barracos, marquises, três, ônibus e calçadas. Todas as velhas mãos esmolando e esperando a hora da morte continuam lá. Todos os garotos negros, humilhados famintos, continuam com suas caixinhas de engraxate à mão, sentados com os olhos esbugalhados em frente à vitrine da loja de eletrodomésticos, sonhando com um desenho animado, um lanche, uma noite de paz que nunca virá. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Os homens pomposos, cheios de diplomas, mal sabem ler as evidências. E trocamos nossas livrarias por restaurantes, nossos cinemas por igrejas, nossos centros culturais por nada. Estamos muito ocupados com os smartphones tocando canções toscas ou oferecendo joguinhos de passatempo. Ou conversas daquilo que nunca vão chamar de amor ou atenção, sequer afeto. Passatempo. Estamos cheios de armas por todos os lados, mortes por todos os lados, as famílias choram diariamente por alguém que nunca deveria ter ido à toa. As pessoas são honestas, mas os empregos estão acabando e não há vagas para todos: muitos vão ser ainda mais humilhados, oprimidos, tratados como lixo na sociedade onde cada um é um número, um quadro, uma merda qualquer exceto gente. Não somos mais gente, muita gente não nos considera gente e sequer a si mesma. Somos quadros. Números. Códigos numa lista de espera. Somos currículos jogados fora numa agência de empregos. Somos os receptores de “Muito obrigado, a gente te liga”. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Nós seremos sempre amores desencontrados, portas fechadas, endereços por engano, clichês da desilusão. Nenhuma droga vai nos salvar; no máximo, tentar minimizar a dor, até que vem a realidade das próximas horas e tudo volta ao caos de sempre. Ficamos acostumados a anormalidades em forma de mundo corporativo s.a. – e como você não inventou o mundo, não tem culpa dos mortos no prédio implodido da Paissandu, nem do antigo Edifício São Vito – alguém se lembra? NÓS somos o desprezo ao Morro do Bumba, a indiferença diante de quilômetros de miséria, ameaças, estupros e humilhação. Nós somos o gado sem rumo dando porrada uns nos outros para sentar no banco de aço do metrô, porque eles são poucos e o trem é feito para as pessoas irem apertadas em pé mesmo, porque quem trouxe os trens acha que pobre tem mais é que se fuder, apoiados até por alguns pobres que não se consideram pobres, assim como temos os negros que apoiam o racismo, os gays que acham graça da homofobia, os saudosos da ditadura que não se importam com os mortos e estuprados por ela – “estavam fazendo merda” – quem diz isso deveria pagar imposto sobre a própria respiração. A cada dois anos as manchetes se repetem. Não somos capazes de valorizar quem nos valorizou. Este é o mundo moderno de 11 de maio de 2018 e, tirando os iphones e as grandes televisões, o que nos restou foi uma Idade Média com 210 milhões de pessoas, sendo que a metade delas somada tem menos dinheiro do que seis criaturas deste país, e alguém ainda vai dizer que esta matemática tem condições de gerar prosperidade. A verdade é que estamos todos condenados e vamos cumprir penas, alguns com todo o conforto em casa e as manipulações que já se conhece bem, enquanto outros vão se arrastar até o nada: a carne podre, dissolvida em caixas mortuárias, esperando que alguém tenha saudade de seus ossos. As pessoas estão ocupadas demais porque em muitos casos perderam completamente o senso de humanidade. O outro não é nada, é só um móvel ou uma vassoura ou uma caixa empilhada. Aplaudimos os golpes e ficamos em silêncio quando somos empalados por eles. Ainda somos os mesmos patetas que imitam a novela, que repetem as falas dos telejornais sem nenhum senso crítico. Talvez toda essa merda também seja culpa nossa; na verdade, é mesmo. O desencontro, o desprezo, a distância asséptica, nós inventamos isso em nossos tempos modernos e, em breve, chegaremos ao auge da vanguarda, quando nossos apartamentos não passarem de cavernas onde estaremos abrigados por causa do mundo injusto. Tudo que está aí é inaceitável e, por quarenta anos, do meu jeito, com os meus pobres recursos, eu lutei contra isso e não passei de um escravo da dignidade do homem. Continuo sendo, mas agora estou morto, me vejo morto e só assim posso respirar minúsculos segundos de liberdade em sonho. Finalmente chegou o dia em que, no fundo, somos todos infelizes demais – e o pior: nós mesmos construímos os diques que, planejadamente, foram afundados para que todos nos afogássemos sem paz, com exceção daqueles que, debaixo d’água, com os pulmões alagados, ainda riem e debocham dos outros, sem perceber que serão tão chicoteados até à morte como suas vítimas do ódio. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Eu estou morto, não tenho santos, nem paz, e carrego comigo apenas uma sacola cheia de tristeza porque meu povo nunca será livre.

@pauloandel

Tuesday, May 08, 2018

desire days

humm la noche é tão
longa
eu só te peço mais
uma vez
desire days
desire days

cada passo em falso
é onda
um estrondo no
carnaval
velhas cenas que
atordoam
desire days
desire days

amanhã não sei
da vida
o outro irrita e
ignora
eu carrego minha
mochila
e vou embora
e vou à vida:
desire days!

microcausos

I

tudo estava muito claro nas entrelinhas do que eu não disse. 

II

nos silêncios que entrecortavam a amigável conversa, habitavam os desejos mais profundos.

III

era melhor beber uma dose miserável de pinga na manhã decadente do que degustar um copo de cólera num dia de falso sucesso.

IV

nunca seremos tão livres quanto nossos próprios sonhos.

Monday, May 07, 2018

quatro a.m.

São quatro da manhã da madrugada mais chata de se ter insônia em qualquer semana. Despertei, ouvi Herva Doce, Marina e Marillion - pensando nos fãs que discutem as eras H e Fish, quando acho lógico que as duas são muito importantes. Há pouquíssimos ruídos em casa e nas ruas, alguns carros, talvez um caminhão, a madrugada amedronta. O Fluminense venceu, os pela-sacos reclamam, há algo de doentio nisso. Tenho insônia e penso em coisas impublicáveis. Subitamente me recordo de quando eu era um garoto de dezessete anos, e tinha de atravessar Copacabana inteira a pé às cinco da matina para chegar ao quartel - ficar horas e horas em pé à toa, até que fui libertado para sempre. Contas a pagar, contas a fazer, medo, incerteza, reflexão, tudo está insone em cima de uma cama confortável no coração desta cidade linda, mas cruel. Tomo remédios para pressão, falo com minha mulher, dou bom dia e sonho com mais duas horas de sono. Agora um carro buzina perto do aterrorizante prédio abandonado do IML. Agora recebo duas mensagens no computador de mão. Agora tenho dez livros inéditos prontos. Agora penso em mais coisas impublicáveis. Ah, sono, o que te faz tão longe de mim? Eu te queria bem aqui. 

Saturday, May 05, 2018

amor em si

amor, um carrossel 
uma noite de pés 
descalços
aos pés do atlântico sul
azulzinho o amor ou gris
também 

amor de parabenizar
e sorver
amor para conquistar 
sem saber
amor de silêncios 
e discretas entrelinhas

o que não diz seu nome
mas cochicha num verso

ah, o amor enrustido
represado, talvez adiado
ou quem sabe redivivo? 

amor que choca e apraz
amor que trai por amor
fugaz
ou imperial no mar da
tranquilidade na 
lua

o amor que não vai dar 
cris
nem incendiar a tez
o tesão sem chama 
acesa
o filme queimado
o recado no vácuo

o amor na doce voz
de dulce quental
nos versos errantes
de clarisse
por um triz
ou num vértice
cheio de perigos

o amor de bossa nova
também pode ser blues
boy ou quem sabe um
beatnik? 

na estrada
na farsa recatada
no viço lancinante dos
desejos ou
fresado e triste
um amor em contraste
um errrante
um cavalo de corrida
ou águia solitária 
em voo rasante 
sem esperar quase
nada

o amor na foto, na letra
no beijo que desaconteceu
nas flores que inexistem
nos olhares enviesados 
nos vãos da escada
nas memórias
o amor que não se entende
e sequer tem explicações
mas resiste e impregna 
o ar
feito incenso cujo aroma 
não se esquece

amor, um colapso
um beijo em terra 
batida
coração de hiato
o amor numa palavra 
ou até numa frase 
sem sentido 
o gosto que se sente
o sonho que prevalece
corações a mil por qualquer
romance
o grande lance é o amor em si

@pauloandel 

Thursday, May 03, 2018

aranha de vidro

renatinha viu uma aranha - de vidro! - no teto e gritou loucamente enquanto jogávamos mau-mau e e eram servidas duas carreiras de cocaína à mesa - ela não tinha nada a ver com o pó, nem eu -, até que a acudimos e ficou tudo bem entre gargalhadas da pós-adolescência. a casa era muito louca, mas sóbria também. todas as tardes nos encontrávamos e havia turmas diferentes: a do metal, a do pop, a do futebol, a de qualquer coisa. renatinha era muito linda e, por isso, o luiz ficou muito louco por ela também, em todos os sentidos. depois eles saíam no carro em direção a são conrado ou outro bairro com ruas de natureza, conversavam, a paixão não era recíproca e o nosso amigo gordinho voltava um tanto desapontado para o carteado, depois de tê-la deixado em casa, bem perto da gente. luiz fugiu de casa aos oito anos de idade e se escondeu na sala da minha casa, enquanto minha mãe dizia que ele tinha que voltar para não deixar seus pais preocupados. ele a chamava de tia, a adorava e disse que, se pudesse, moraria conosco - não dava. na última vez em que nos encontramos, trocamos um longo abraço e choramos: seu pai havia falecido dias antes. dois anos depois, eu abri a porta de casa e encontrei minha mãe em lágrimas. ela tinha ido a copacabana e soube que o luiz havia sido enterrado na semana anterior. era uma noite de quinta-feira, às sete da noite e eu não consegui dormir até o dia seguinte. às vezes encontro com o luiz em pensamentos, lembranças ou quando escrevo sobre ele. muitas vezes eu penso que aqueles dias da aranha de vidro no teto eram os mais felizes da minha vida e de muitos dos que estavam lá, num velho apartamento que tinha cara de junkie - cuja janela da casa permitia ver a artéria aorta de copacabana -, mas que na verdade exalava amor - nós éramos pobres garotos felizes e sonhávamos com um país completamente diferente de toda essa merda que aí está. queríamos nossos jogos, nossas tardes de conversa, nossos amores que voaram pelo vento, nossas músicas e, sinceramente, ninguém falava de dinheiro: apenas de ingressos e bares. 

@pauloandel

Tuesday, May 01, 2018

primeiro de maio

em speito a todos os trabalhadores
e sua avassaladora maioria
de explorados, oprimidos
massacrados

os que choram todas as noites
por não dispor de um salário
mínimo sequer

os que vagam pelas ruas
entre o torpor e a desesperança

os esmagados, sufocados, ignorados
por um golpe vil e leviano

homens e mulheres, jovens e velhos
veteranos e absolutamente
iniciantes
esmaecidos ou brilhantes

amontoados em senzalas modernas

pelo direito supremo de comer
um lanche modesto
por dia

enquanto senhores de engenho
pensam em viagens, piscinas, iates
e veem o outro como um fardo
uma cena desprezível e torta
uma gentalha que devia realizar
trabalhos forçados e só

em memória de milhões de pessoas
mais maltratadas do que o gado
nas gares, nas vias, nas calçadas
enquanto gira a roda da fortuna
que será de muito poucos

em respeito aos milhões de humildes
que tentam vender seu único bem:
a força de trabalho
em troca de moedinhas e pão
e refrescos baratos
e humilhantes ônibus lotados
e enterros em covas rasas
fora do palco central

e dormem em barracos e casas
improvisadas enquanto o fogo do ódio esvazia todas as almas

e os corpos se decompõem
a céu aberto e pátria livre - o quê?

em respeito e memória a todos
os trabalhadores que vivem a dor
a depressão: vassalos
contemporâneos
desesperados ou até alienados
esperando o divino deus
do mercado
e sua generosidade que nunca se viu:
até quando haverá tanta
criminosa ingenuidade?

até quando o fingimento acortinará
a devastação e o rancor?

até quando a morte será celebrada em troca de terrenos livres, investimentos corporativos e pontos em bolsas?

não se pode esquecer dos bons patrões
que vão além de covardes exploradores:
quando existem, são bem-vindos
- o que lhes sabota é a raridade!

em respeito a apreço a milhões de brasileiros que diariamente entregam suas vidas, esforços e saúde

para sobreviver com mínima
dignidade
e se esgueiram
do desprezo
do ódio de classes
da ruindade em carne viva
da desumanidade
da desumanidade
da indiferença

a sociedade é uma grande senzala
enquanto navios negreiros da morte
correm em rios de asfalto
e janelas gradeadas

não há vagas: apenas
cochos

@pauloandel

Monday, April 30, 2018

a grande farsa

estes são os dias selvagens
sem esperança
onde os humildes padecem
e os fracos são covardes

sorrisos de solidão
declarações sobre o vazio
sucessos cheios de ninguém
e grandes amores 
de aparência 

os traidores são a vitória
os mesquinhos falsos, medíocres
celebram a conquista do nada
o desimportante é a celebração

estes são dias terríveis
onde a maldade amedronta
e o egoísmo vil é fascinante: 
a república dos hipócritas

ódio e vingança simulam justiça
prepotência quer dizer sucesso
indiferença se faz de elegância
ordem e progresso: a grande farsa! 

@pauloandel

Saturday, April 21, 2018

noite de meia lua em gotham city

é fim de tarde no coração da 
cidade seviciada 

o outono escurece as ruas 
mais cedo do que há 
pouco 

os carros desapareceram 
e nem os homens sofridos
vivem a morte em vida 
sobre as pedras 
portuguesas nas
calçadas

os bares estão vazios 
e nada garante 
as próximas
horas

nenhum batsinal no céu
onde está o nosso herói? 

o silêncio das vias explica
o óbvio: não temos previsão
para os próximos
dias

os casais adormecem às oito 
da noite 

a boemia faz brindes no whatsapp

existe tristeza e opressão: tudo é
mais do que assassinatos
mas os verdadeiros presidiários
de gotham city não dão uma
palavra
um pio sequer

vazias, as panelas estão 
emudecidas
viva o delivery! 

há solidão em cada ilha m
motorizada
as crianças não jogam
bola na rua 
e quase ninguém conversa

no centro de gotham city
um mendigo em desespero
com o coração ensanguentado
olha a meia lua e pensa
na morte que insiste em
não libertá-lo do 
inferno

enquanto 

raros transeuntes caminham 
apressadamente carregando
a trilha sonora da desolação
em seus fones de
ouvido e nenhuma
atenção

@pauloandel 

Friday, April 20, 2018

Tuesday, April 17, 2018

uma oração para copacabana

estes são dias em que nada supera o cheiro de ruas tristes

enquanto sou um exilado em meu próprio bairro

contando as horas para uma libertação que nunca virá

somos prisioneiros do ódio e da indiferença: o outro é o esgoto! 

copacabana, eu sou autópsia! 

suspirando pela lembrança da boite bolero e suas doces putas tristes
entorpecidas com cocaína

e sonhando com uma libertação que nunca virá

os mendigos e seus olhares derrotados
vazios e tristes demais

copacabana, eu sou teu suicídio
escondido nas cortinas do passado
em teus romances trágicos de fé

as moças em voo da morte
enquanto a bossa nova explodia

éramos futuro, poema e saudade
agora não passamos da desolação

oh, senzalas de marquise, farmácias lotadas, gente chique escondida
e as favelas do metrô - existe o sol! 

estes são dias da indiferença a sangue frio e os derrotados comemoram

a vez é dos nazistas, dos racistas, homofóbicos e principalmente hipócritas: 
quem vai resgatar o morto das pedras do leme? 

somos tão alheios aos outros, não precisamos de ninguém

minha cabeça é um crânio ensanguentado num quitinete de piso frio e branco no coração de cada

onde está o homem queimado que fazia belos desenhos na grande avenida? 

a mão que matou aída curi é a mesma que fuzilou marielle noutro canto da grande cidade 

os filhos de porteiros já não namoram as garotas dos prédios de Garbo
e a orla da praia parece tão triste

o ódio é o óleo queimado da nossa tristeza e já não temos para onde ir 

somos a grande capital da miséria humana, tão superficial 

nunca mais pintaremos as ruas nas copas do mundo

nossos amigos estão mortos e desaparecidos ou trancafiados nas celas dos smartphones 

copacabana eata semana morreu: deixou seus órfãos mas nenhum bem material que não seja a beleza

as mais doces putas nunca foram vistas novamente 

nem o mendigo cadeirante com sonda de urina em berço de morte na rua siqueira campos 

nem os meninos que esmolavam perto das casas da banha

copacabana, meu ventre escravo é tua dor interminável, o rio rumo ao mar infinito até a busca de terra firme e corações abraçados - também órfãos da tempestade

e é preciso chorar pelos irmãos separados, as vidas espatifadas, as vidas em vão feito carne a moer em máquinas do progresso

não é possível crer que todos cantaremos juntos uma grande canção

nunca mais nos encontraremos nos bares, nem beijaremos as belas garotas e nem os rapazes vão se entender

o cirandinha está morto e enterrado
o bonino's está morto e enterrado
e decapitamos nossa classe

sou outono e quero ser inverno, perdição gelada aos pés do atlântico sul, sem minhas tardes de cinema

copacabana pulou da janela e não deu chance de resgate
espatifada na calcada, planeja uma ressurreição alla gotham city
porque fausto fawcett resiste
o bar sniff resiste 
e katia frança voltará da flórida para nós redimir - não, não seremos o inferno! 

esta semana eu sou minha dor solitária e vejo ao longe as areias que beijam o forte

a morte não resiste à minha tristeza infinita - eu posso derrotá-la
nenhuma bala no crânio há de solicitar o meu fracasso, vendo os meus em descaso, perdidos entre as distâncias e o nunca mais 

copacabana, minha eternidade que beija o déjà vu, que abençoa os randez-vous, que amansa e aquece conspirações

se tudo parece perdido, ainda temos nossas ruas e amores, pequenas histórias desimportantes que regamos com risos e lágrimas, nossas pequenas vidas

tudo é efêmero, mas a linda curva de areia está fadada à eternidade - é a beleza que ainda nos serve de resistência enquanto temos forças

copacabana, capital dos sonhos, desilusão dos miseráveis, combustível da imensidão humana, verso e bairro

descanse meu coração em paz

@pauloandel  

Tuesday, April 10, 2018

farsa

enquanto caminho pelas
veias de asfalto sangrentos
vejo os corpos em
decomposição 
na autópsia das calçadas
frias e indiferentes
vejo os escombros
a miséria e a insensatez
eu caminho pela terra
batida com carcaças 
de carros incinerados
e cadáveres insepultos
e meus olhos armazenam 
cenas de terror e solidão
eu caminho sem canto
sem prece nem crença
a indiferença é um bem 
humano da selva de pedra
o desprezo é o bom dia
eu sigo triste e sozinho
pelo calçadão enquanto 
homens e mulheres celebram 
a morte e as mortes
as farsas nas prisões: 
o que foi feito daquele amor 
que trocamos por hipocrisia? 

Sunday, April 08, 2018

Funk do PIB

eu sou PIB mermo/ e explano pra geral/  comemorei o golpe/ e aplaudo os general/  queria o Lula preso porque ele é safado/ o corno Bonner disse pros mané teleguiado/ tem que fuder os preto as piranha e os viado/ isso é que eu penso para o bem do meu Estado/  a minha faculdade já foi feita em Facebook/ os livro é pra otário/ quero meus latão e nude/ os meus latão e nude/ os meus latão e nude/ agora finalmente acabou a corrupção/já tem emprego a rodo e segurança de montão/ saúde e transporte e também evolução/ isso tava escrito nas manchetes de jornal/ eu li e acredito, não me chame de boçal/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ é nesse funk doido que eu canto o batidão/ e mostro para o mundo como eu sou um bobalhão/ se depender de mim nem precisa de eleição/ já tenho minha night meu papel e meu latão/ eu vou pra interméti e sou curtido de montão/ eu só escrevo merda mas me acho um fodão/ eu tenho a soluçao para os pobrema da nassão/ 
sou PIB, sou PIB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro

Wednesday, April 04, 2018

a tempestade em dia solar

a liberdade é utopia quando
os corações estão embebidos em ódio

a liberdade é uma farsa
nunca seremos verdadeiramente livres
não existe vitória no fascismo
nem nas síndromes de Estocolmo
ainda somos tão atrasados 
quanto há cinquenta anos escorridos
torturaram e fingimos não ver
estupraram e fingimos não ver
a indiferença é a nossa cegueira
a estupidez é nossa esperança
- enquanto isso, contamos nossos mortos
nossas mulheres fuziladas
as mãos de esmola que desprezamos 
a nossa ética seletiva
minha voz enternecida só vai gritar palavrões
e frases odiosas
canta a tua última canção, Brasil
até a próxima grande farsa!
em nome de deus, da pátria e da família
espalhamos cólera e ignorância demais
depois contamos nossos mortos 
e preparamos as malas para o feriado
hipócritas, doces hipócritas que somos
fingimos felicidades mentirosas
ou até 
sinceras, dependendo do grau 
de escrotidão
gostamos de gente debaixo das marquises
ou sob escombros dos barracos
estes crimes dão sentido às nossas vidas
fúteis
celebradas no fascismo do jornal nacional
do café da manhã com frutas e frios
e tiros na lataria blindada
nunca seremos livres 
enquanto formos tão boçais
celebrando as mortes, a dor e o caos
até o derradeiro tiro na cabeça 
o grande voo da morte pela janela vazia
até o último voto de confiança no ódio
canta, Brasil! canta, canta! 
ah, república federativa cheia de árvores
derrubadas em vão
e gente dizendo 'eu não tenho bandido de estimação'

@pauloandel 

(contém citações de "Canta Brasil", de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho, e de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade)

Friday, March 30, 2018

hey, amor

hey, amor/ as coisas continuam fora do lugar/ o caos é nossa matriarca gentil/ eu continuo sem você/ e tão sem mim/ o brasil precisa amanhecer/ o que será daquele um só mesmo?/ e das manchetes encardidas/ desta selva de pedra nazifascista/ mas ainda existem restos de amor/ my love said never felt him so good/ longe do mar de lágrimas das entranhas da rua/ longe do ódio e dos fuzilamentos/ um milhão de detentos para justiça alguma/ o sol ainda brilha em abril/ mas temos contado mortos demais/ as veias de asfalto estão sangrando demais/ meu coração ainda espera por ti/ nunca estarás morta no que vejo/ não viveremos para sempre no exílio/ nem pediremos esmolas aos que nos veem com nojo/ não precisamos destes bostas para nada/ hey amor/ hoje é uma noite solitária/ de dia santo e mil diabos pelas ruas/ pobres diabos sem rumo nem preço/ ainda choro por ti/ e me desaconteço/ Brasil/ minha voz enternecida/ calou-se à última canção/hey amor/ se eu não te ver nunca mais/ saiba que te carreguei feito os versos de um poema emblemático/ dos dias sofridos da grande metrópole/ onde todos são todos e cada um é ninguém/ só eu sei das esmolas que peço a mim mesmo/ perdido na solidão das ruas/ despencando do décimo andar da tristeza/ até me estraçalhar no chão/ para viver outra vez sem razão/ hey, amor/ a madrugada tem silêncios moles/ a solidão traz poesias de ironia e cores/ queremos pequena fé enquanto degustamos os rumos da desesperança. @pauloandel

Thursday, March 29, 2018

Tuesday, March 27, 2018

A panfleteira


A GAROTA morena e jovem está na porta da casa de tolerância panfletando a propaganda de serviços sexuais, enquanto espia o smartphone e usa um fone de ouvido. Ela parece jovem, é mais jovem do que se pode supor, mas carrega as marcas do tempo veloz de quem trabalha na prostituição. Ela atende clientes também. Ela às vezes sorri, enquanto na diagonal da Rua do Senado um panfleteiro conversa com transeuntes e veste uma camisa de time de futebol. Ela também é séria e compenetrada em seu trabalho. A Rua do Senado é vazia e quente perto de uma da tarde, quase sem carros, praticamente sem gentes. Mais adiante, ouve-se um poderoso som de funk saído de um cortiço. Mais adiante, uma voz em alto-falante ecoa do Quartel Central do Corpo de Bombeiros. Mais adiante, duas jovens e belas garotas, elegantemente vestidas, saem do palácio corporativo da Petrobras rumo ao almoço ou qualquer outra coisa. Elas são bonitas e jovens, bem jovens, tão jovens quanto a garota morena que panfleta honestamente na porta da casa de tolerância, jovens demais mas com trajes de sobriedade empresarial bem sucedida. As duas garotas cochicham e riem, do mesmo jeito que a garota morena fez cento e cinquenta metros atrás ou adiante - conforme o referencial, mas também conversam seriamente e tudo se resume a uma distância muito pequena quando se pensa em andar, mas imensa quando o caso é entender o Brasil, as desigualdades, as oportunidades e o futuro de jovens mulheres que, por incrível que pareça, andam pela mesma calçada – e nela, podem acontecer os únicos encontros de suas vidas, mas no máximo com um esbarrão e só. 

Saturday, March 24, 2018

carne tesa carne

carne tesa carne
inebriada
de desejos e tesões
- ah, perversões! 

cantos danças corpos
madrugada
e carnavais de pele 
pra quem entende

o sexo em riste
o gozo e o contraste: 
há efêmero e eterno
descartável e permanente

os colos trêmulos 
os líquidos pulsantes
a vida o êxtase - há cor
e mil estrelas à vista

o abraço do prazer 
cumprido e o fim 
do gosto proibido
- existe a paz! 

@pauloandel

Tuesday, March 20, 2018

bella blú

nenhum poeta escreverá 
os versos na toalha de mesa
na última grande noite 
da pizzaria - não, nenhum! 

copacabana é um peito 
cansado e triste, vazio
perdido em lembranças vãs
e memórias em decomposição

a linda prostituta nunca 
mais cortejará seu 
elegante cafetão na última
grande noite da pizzaria

nunca mais os jovens 
famintos à espera do 
amigo mais velho e rico
para pagar algum prato

os mafiosos italianos 
com elegantes camisas
vermelhas agora são mera
lembrança do longe, longe

copacabana não dorme
e joga fora os armários 
de fatos e fotos - a vida 
em riste e mil faroestes

as ruas são farmácias 
os doentes, empilhados
debaixo da marquises 
e de olhares de nojo

a cólera é a covardia
enrustida

somos hipócritas imorais
em nome de Deus

nunca mais dois amantes
darão as mãos à mesa 
na última grande noite 
da pizzaria

alguém proteja o bar 
sniff e a adega pérola
até mesmo o velho pé sujo 
da anita garibaldi 

antes que o mundo seja
um tarde demais à noite 
mais quente do ano - tão fria
para os corações saudosos

@pauloandel 


Sunday, March 18, 2018

PIB (Perfeito Idiota Brasileiro)

Desprezar, fazer pouco caso ou reduzir o tamanho da monstruosidade cometida contra Marielle não é sinal de politização, consciência ou de "opinião polêmica". 

Na verdade é desumanidade, estupidez, incapacidade de ver o próximo como semelhante e, por fim, desconhecer um palmo à frente do nariz quando o assunto é Brasil. 

É falta de convivência, apreço, respeito, dignidade. 

É ler sem entender, aplaudir sem compreender, olhar sem enxergar. 

É achar que suas deliberadas manifestações de falta de raciocínio são "polêmicas" ou "para abalar". 

Estupidez. Desumanidade. Marcas típicas do PIB, o Perfeito Idiota Brasileiro. 

O fuzilamento foi cometido próximo à Prefeitura, ao Hospital Central da PM, ao Batalhão de Choque e à Acadepol, para que não deixasse dúvidas: os assassinos e seus mandantes deixaram um recado claro de escárnio às instituições. Debocharam de todos os policiais honestos e agentes públicos das mesmas. "Quem manda nessa merda é a gente. Uhu!"

Por sinal, a luta de Marielle também envolvia a defesa de famílias de policiais fuzilados como ela foi. 

O PIB sequer percebe que, para expor gratuitamente a sua falta de visão de mundo e a sua colossal ignorância (que independe de "anos de estudo"), é preciso democracia - e ela inexiste quando qualquer pessoa é fuzilada. 

Quantos livros, quantas aulas, quantas horas, quanta coisa foi jogada fora em favorecimento dessa verdadeira apologia ao primitivismo... 

O PIB é a realidade modal do Brasil, e também a sua maior desgraça.

Saturday, March 17, 2018

eles estão mortos demais

haja o que houver
eles estão mortos demais
afogados na própria cólera
engasgados com fel
na saliva
eles são a verdadeira carne
podre que anda e ri sem
entender as mazelas do mundo
fantoches das manchetes
vassalos da televisão
haja o que houver
eles são os verdadeiros mortos
os suicidas da lucidez
e celebram suas desgraças
sorrindo pela dor dos outros
e comemoram a morte da mártir
a mulher indefesa fuzilada
eles são corpos em decomposição
nas geladeiras mortuárias
quebradas nas redes 
antiasociais
pulhas pilantras medíocres
boçais ignorantes
débeis mentais
que leem mas não entendem
que pensam mas não
raciocinam
que olham mas não enxergam
sim eles estão felizes
a estupidez lhes regenera
mas o fascismo não é para 
sempre quem atira e mata
também morrerá - o ódio
é o mais certeiro fracasso
haja o que houver por aqui
o assassino é um morto 
em vida - que ninguém se
iluda eles sabem da própria
morte infeliz e nojenta 

Tuesday, March 13, 2018

Picaretagem no samba


No mundo do samba, é difícil encontrar alguém que já não tenha ouvido ou visto o Grupo Cultural Exaltação ao Samba de Enredo, que sempre foi conhecido como Grupo Samba Enredo, seu nome original. 

Primeiro, pelo principal: talento. 

Segundo, porque o conjunto já passou por várias quadras das principais Escolas de Samba do Rio em seus dez anos de carreira, além de ter tocado com praticamente todas as Velhas Guardas em suas apresentações.

Há anos, o Exaltação toca na quadra da Mangueira, da Portela, no Bola Preta, no tradicional sábado de samba do Tijuca Tênis Clube e em seu berço, o bar Armazém da Senado, um dos endereços mais tradicionais da cidade, com 111 anos de vida. Aqui falo de cadeira porque vi seus shows em vários desses lugares.

Um dos principais incentivadores do grupo em sua fundação e trajetória é Rubem Confete, que é uma lenda viva do samba carioca, além de compositor, jornalista, roteirista, teatrólogo, radialista, gráfico, cantor, ativista e estudioso das questões afro-brasileiras.

No Tijuca Tênis Clube, o Exaltação é grupo fixo, levando centenas de pessoas às suas apresentações que duram horas em sábados alternados.

Alguém me avisa e fico sabendo de que, no Facebook, foi criada uma página do grupo... “Samba Enredo”, que nada tem a ver com o original, mas é um projeto que, no mínimo, tenta se aproveitar do primeiro, usando um nome parecido.


Ao visitá-la, vejo que o show de “lançamento nacional” do grupo é no dia 21/04... no Tijuca Tênis Clube, o mesmíssimo endereço onde o Exaltação toca há anos.

É quase o mesmo que, se nos anos 1980, tivesse surgido um grupo de pop rock chamado Legião Suburbana, Parabrisas de Bonsucesso ou Barão Verde. Tentativas levianas de driblar acusações de evidente plágio.

No entanto, lançar um grupo quase homônimo no mesmo lugar onde o original toca há anos é, no mínimo, um exercício descarado de má fé.

Indignado, publiquei na página o vídeo de documentário do Exaltação, recebendo uma resposta inacreditável: que se tratava de uma “nova proposta” (sofisma para disfarçar plágio descarado) e, logo abaixo, um emoji que não sei dizer se é de raiva ou vergonha.

Mas a minha indignação naturalmente não foi a única. Afinal, muita gente acompanha o Exaltação há anos e anos. Repare nas respostas da "nova proposta"...




É justo que um grupo tente buscar espaço no mercado da música. Agora, é ABOMINÁVEL a desfaçatez de plagiar e se começar numa carreira usando o trabalho consagrado de outros artistas como “escada”. 

No mínimo, cabe um ajuizamento claro.

É o tipo de coisa que já causa no mínimo mal estar em qualquer área, imagine na arte.

Espero que os responsáveis pelo plágio, a ponto de tentar ocupar o mesmo espaço físico do grupo original, caiam em si a tempo de desfazer este ato claramente lesivo à imagem e trabalho do Exaltação. Contudo, se não o fizerem, já começam dando vários passos para trás, para não dizer um tiro no pé.  

Na arte, a traição não perdoa.

Para seguir o VERDADEIRO Grupo Exaltação ao Samba de Enredo, acesse A PÁGINA DO FACEBOOK.


Sunday, March 04, 2018

breve


Monday, February 26, 2018

uma janela do mundo

o negrume de um
quarto
escuro
e procuro no teto
o mapa mundi
do fim do
mundo

o mês que se despede
a opressão que insiste
em coibir a vida:
a liberdade
é uma farsa
de calças arriadas

debaixo do teto
de um quarto escuro
funciona um bunker
de proteção contra
o fim do mundo

as mensagens estão
mudas
a palestra parece
vazia
ninguém troca
amores
escondido no escuro
do quarto vazio
numa noite do mundo

quem vai nos salvar
de vez?

os corações perfeitos
parecem arredios
demais

@pauloandel


Sunday, February 25, 2018

amor mora

onde mora o meu amor
além dos silêncios
e desencontros 
ou em palavras que
nunca são ditas? 

perdido entre hiatos
náufrago da distância
retrato de natureza 
morta

ah, o meu amor
escondido em prateleiras
e postagens
insignificantes
ou em versos de 
passos tortos
claudicantes de 
um bêbado admirável 

ele estende as mãos 
de paixão
e pede esmolas 
debaixo duma marquise
numa grande avenida 
central

o meu amor anda sozinho
por ruas perigosas
e não dá bom dia 
a estranhos

não dorme mas sonha
e espera o impossível 
na próxima esquina

ele mora longe, longe 
sem palavras

o meu amor está falido
em portas arriadas
cadeados fechados
e placas de aluga-se

há poesia em vão
escorrendo entre corações
de peitos vazios
e memórias desperdiçadas

o meu amor tão sozinho
esperando o VLT
às oito horas na Rio Branco
enquanto famílias
felizes trazem os filhos
de mãos dadas

ou alguém olhando 
o antigo relógio da Mesbla
subindo a escada do metrô
na Cinelândia

o meu amor é um domingo
à noite
silencioso e fugidio
sem bares lotados 
e risos
sem um grito de campeão

o último pouso 
no Santos Dumont
enquanto a linda
comissária parece
tão indiferente ao fim
do expediente

o meu amor é um país 
destruído
é um féretro vazio
é um livro que não
foi lido

e mora tarde, tarde 

ele dá as costas 
e dá de ombros
para caminhar sozinho
na madrugada
na avenida chile
procurando a morte
num assalto covarde
 - ou celebrando a vida
sob escombros
no coração da grande 
cidade 

@pauloandel