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Wednesday, January 03, 2018

onze anos sem minha mãe

Quem se lembra do que estava fazendo há exatos onze anos neste momento? Eu cochilava às nove da noite e não sabia que minha mãe estava morta no quarto. Meu pai só percebeu à meia noite e então passei a pior noite de toda a minha vida. Era cedo demais: ela mal completara 61 anos. Morreu dormindo, como merecem os melhores.

A dor mudou minha vida. Eu já escrevia desde os anos 1990 mas não levava muito a sério - a ponto de ter desperdiçado a oportunidade de colaborar com uma revista dirigida por dois vencedores do Prêmio Jabuti. Mas em 2007 tudo mudou: para ocupar a minha cabeça cheia de tristeza, passei a escrever, escrever, escrever e, quase num golpe de sorte, publiquei meu primeiro livro. De lá para cá, já ganhei muitos abraços na rua e em jogos do Fluminense, emocionei muitas pessoas que me agradecem reservadamente, virei amigo dos meus ídolos e o próprio Flu me homenageou. Ok, isso também atraiu gente falsa, interesseira e oportunista, mas só recebe bajulação e pedradas quem está na moda. Foi mal...

Conheci grandes pessoas, fiz rir e chorar muito, juntei amigos - o que nem todo mundo suporta -, e tenho sido um ótimo escritor, sem falsa modéstia. Para quem acha futebol um assunto menor, os Cenas do Centro do Rio aí estão.

A minha diferença primordial para muita gente deslumbrada por aí está num ponto: não comecei nisso em busca do mundo dos likes, dos compartimentos e da "fama" (quantas pessoas são realmente famosas num mundo com transbilhões de pessoas?). Nada disso: quando saiu meu primeiro livro, há sete anos, eu nem tinha Facebook - e o fiz por sugestão de amigos e da editora, para divulgar o trabalho.

O que me trouxe até aqui, quinze livros depois, entre solos e coautorias, foi a tentativa - em vão - de ocupar a minha cabeça depois de perder minha mãe. Isso nunca mais vai mudar e vale para meu pai, minha família, as pessoas queridas. Às vezes choro, todo dia tenho uma saudade de Madredeus, eu me pego pensando em algum momento e então escrevo.

Foi por isso que, um dia, muitos de vocês me conheceram. A todos, um grande abraço e muito obrigado.

Sunday, December 31, 2017

a mudez

calar-se é falar tudo
nas entrelinhas da imaginação
o silêncio que provoca
sugere e excita
que faz pensar e sonhar
a mudez que tudo diz
ou aguça os pensamentos
os desejos provocantes
calar-se é dizer tudo
para o bem e para o mal
para o gozo e a frustração
não dizer, não comentar
observar, querer
e até mesmo desprezar
com classe
calar-se é oferecer
mil caminhos e também
a dúvida: será, será?

Saturday, December 30, 2017

quinze anos

Eu andava com meu amigo Xuru pela Domingos Ferreira até que chegamos ao prédio onde ficava o grande apartamento de seus padrinhos, falecidos um ano e meio antes - lá fizemos uma grande festa de Réveillon que não deu exatamente certo. Não podíamos mais subir: parentes do Sul, subitamente surgidos, mandaram trocar a fechadura para que não entrássemos mais no apartamento. A missão era apenas pegar as contas na caixa de correio para pagá-las.

Xuru passou a vida inteira frequentando aquele apartamento e, se justiça houvesse, teria herdado o imóvel: era tratado como filho. Foi um pacote duro: além dos padrinhos, ele tinha perdido a mãe e acabara de se recuperar da primeira cirurgia do câncer que o vitimaria menos de três anos depois.

Depois de pegarmos as contas, ficamos olhando para a fachada do luxuoso prédio onde entramos tantas vezes. Segundos depois, ele disse "Paulón, foda-se esse apartamento. Ele só me importava por causa dos meus padrinhos. Se querem ganhar dinheiro com essa merda, que ganhem". E fomos embora, talvez para comer um lanche e tomar um chope.

Esta cena completa exatamente quinze anos hoje.

Xuru foi embora de vez em 2005. Ontem, teria feito 47 anos. Não chegou aos 35. Foi uma luta enorme até o fim. De lá pra cá, muitas coisas mudaram, algumas delas para pior, outras não. Perdi minha família, fiz novos amigos - o Leo hoje é uma espécie de Xuru sem a filosofia, digamos, "bring on the night". De resto, o mundo ficou mais colérico e odioso, o que atinge a tudo: a política, a sociedade, o cotidiano e até mesmo o meu Fluminense, do mesmo jeito que fizeram com o Brasil em 2015.

Este foi um ano de merda. Vi amigos sendo demitidos, pessoas passando mais necessidades, a fome está a olhos nus pelas ruas - só não vê quem não quer - e, no fim das contas, muitas vezes o próximo não está nem aí para você - e depois os outros bichos é que são irracionais. Ok, publiquei três e-books tricolores para download gratuito e, finalmente, dois pocket books sobre o centro desta cidade devastada. Vi grandes shows, namorei, ganhei elogios, involuntariamente também alimentei recalques de gentinha, acontece. Estou vivo, com alguma saúde. Vamos em frente, sem pensar muito. Eu não penso somente em mim e isso é o que me encaminha à infelicidade, mas não me arrependo.

Começarei o ano cheio de problemas, com pouquíssimo apoio e precisando manter a casa em pé, enquanto assisto nas ruas ao sórdido espetáculo diário do sofrimento coletivo. Vida que segue, diria o mestre Saldanha. Vamos para mais uma tentativa. Estou cansado. Muito cansado. Mas é nessa hora em que o sprint é necessário, mesmo sem família, sem Xuru, testemunhando a agonia de um país golpeado, pensando em gente feito meu tio Mendel, que arriscou a vida para defender esta merda e que,  deprimido no exílio, cometeu suicídio. Ou sabendo que meus amigos de hoje vivem a vida muito mais pelo Whatsapp do que por qualquer outro meio.

Sem medo nem esperança, olho para trás e me recordo de uma bela lição do meu amigo: o ser humano é mais importante do que qualquer bem material. E mesmo que pareça uma bobagem, eu vou com ela até o final. Só me resta escrever.

Onde está o Xuru?

Thursday, December 28, 2017

feliz 2018

we won't
get fooled
again

Townshend/Daltrey

impotência

o amigo que sofre
a dor que devasta
o silêncio opressor

nós não somos merda
nenhuma

e perdemos nossos tempos
com tolices em vão

o amor que dorme
o desencontro
a certeza do melhor
que já se foi

o que vai restar dos versos
além das lágrimas?

quando as drogas acabarem
sem lugar para comprar

nós não somos bosta
nenhuma

os cemitérios estão lotados
de likes e compartilhamentos
e visualizações

todos estão mortos

deus seja louvado

vamos aplaudir a queima
dos fogos
e fingir que o novo é novo
é um pé na porta

fingir que não há dor
sofrimento
que o outro não é nada
ah, real estupidez!

vamos aplaudir o ano novo
e o mundo
enquanto somos mortos
vivos mortos
vivos
não há saldo na conta corrente
the time is gone!

hoje a festa é sua
filhadaputa!

niilismo

se os novos críticos musicais atacam a Pablo por homofobia, fodam-se eles todos. se ela, Pablo, é obesofóbica, que se foda muito também. fodam-se todos. fodam-se os paneleiros, os golpistas, os ignorantes, os bandidos, os corruptos, os massademanobra. fodam-se os recalcados, as subcelebridades, a flubabaca. fodam-se todos os opressores, os covardes, os machões de teclado, os bonzinhos que não querem se envolver, os estapafúrdios, os coléricos sem causa. fodam-se o mbl, o pfl, as ditaduras da al, as organizações globo, a folha, o estadão, a casa do caralho. fodam-se todos os que estão silenciados perante o helicoca, as propinas da FIFA, a bodytech. fodam-se cabral e sua gang nos quintos do inferno. fodam-se de verdamarelo ou quaisquer cores e cinquenta estrelas. fodam-se os lobistas e vigaristas. foda-se o bitcoin e seus especuladores. foda-se trump e também o velho ridículo golpista do inferno. fodam-se os idiotas que abanam o rabo com as mentiras sobre os dados de emprego, renda e pib. fodam-se todos os egoístas, os fascistas, os totalitaristas do capital. fodam-se, fodam-se muito, sem sexo e gozo, mas o foder da vida. fodam-se os arrogantes, os indiferentes, os que não têm apreço pelo outro, os traidores da amizade. o concreto já rachou, a destruição é a moda, ninguém quer saber de ninguém e que todos estes se fodam. foda-se o ano novo, o carnaval, a copa do mundo, o próximo feriado. fodam-se as mudanças que não virão. foda-se o futuro: ele é a morte. um minuto de silêncio em memória de todos os oprimidos e desprezados neste mundo injusto de merda. o resto que se foda. fodam-se todas as fake news e breaking news. paz, onde mora a tal paz? o mundo é maravilhoso, a desgraça é o serumano. 

Wednesday, December 27, 2017

um intruso no mundo

eu não quero ser

o grito de ódio
a gota d'água
o suspiro inútil
a despedida

não, não quero!

este dia amargo
não é meu
nem a selvageria
a escrotidão ao léu
este sangue morto
não me pertence
essa cólera fétida
não!

não, mil vezes não!
este cheiro asqueroso

eu só quero vender
meu cachorro quente
e ter um pouco de sombra
sem luxo esdrúxulo
sem gourmetizações
eu só quero olhar o céu
e ter a certeza de que
não feri ninguém

espiando os escoteiros
parados bem perto
do monumento nacional

pensando em música
e cultivando amor
num quartinho

essa rua não é minha
nem o bairro, a cidade
eu só queria não ser
um intruso no mundo

um intruso no mundo

um intruso

@pauloandel



Monday, December 25, 2017

meia noite inteira

o teto é o céu
e o motor do
ventilador é
uma turbina de
avião: vamos
decolar! meia
noite inteira os
versos estão
cansados os
beijos estão
mortos a viagem
é longa meia
noite inteira os
amores silenciados
agora é um novo
dia inútil ninguém
à espera no ponto

@pauloandel

Saturday, December 23, 2017

quando você morre

há muitas maneiras de se estar morto em vida. você morre quando o ódio triunfa, quando a dialética é destruída pela ignorância, quando a ingratidão anda de mãos dadas com a indiferença. você morre quando beija o desamor, quando o abraço é formal, quando a democracia prevê senzalas. você morre quando as crianças são tristes, os idosos têm melancolia e os adultos estão ocupados demais no whatsapp. você morre quando um bandido acerta uma bala na cabeça de um inocente, mas também já morreu quando aquele mesmo bandido era uma criança chorando de fome e batendo na janela do carro. você morre quando o pragmatismo mata o sonho, quando a distância é melhor do que a vizinhança, quando ficar calado é o remédio para não ouvir. você morre com um gol contra ou a favor, a vitória que será derrota, quando a certeza é o desprezo. você morre muitas vezes, exceto quando odeia, porque aí já deitou morto dentro do ventre. você morre com o rancor e o descaso. você morre, morre, morre, mas depois respira e procura a próxima morte.

Friday, December 22, 2017

mérito

o olhar o ouvir o sentir o trocar o pensar
o oferecer apenas para quem os mereça

Saturday, December 16, 2017

Lançamento de "Cenas do Centro do Rio II"

Nesta segunda-feira, 18/12
Casa Vieira Souto
Praça da Cruz Vermelha, 9
Centro-RJ
A partir das 18 h
R$ 25,00


Tuesday, December 12, 2017

45 minutos no Centro

Há semanas e semanas eu não caminhava pelo Centro. Aquela coisa de descer da Cruz Vermelha até a Uruguaiana, por exemplo.

No fim da tarde as ruas estão vazias. As pessoas, cabisbaixas. O Largo de São Francisco, deserto. Antes disso, uma visita à minha amiga Raquel Alves, sempre com CDs fantásticos: só ela podia ter Trey Anastasio no estoque.

Rua da Carioca, as lojas fechando, outras permanentemente fechadas, o trânsito ao contrário, pelo menos se salva a Casa do Choro. O Bar Luiz respira com ajuda de aparelhos. Outro dia mesmo eu saía com meus trocados do IFCS e bebia um chope dourado por lá, vinte anos que escorreram pela pia. O único momento alegre da rua é numa loja com trinta pessoas paradas na porta, resolvo espiar e tem uma TV com o jogo do Grêmio no Mundial - e há quem creia que é só um jogo quando milhões de homens fixam seus olhos à tela e procuram os melhores anos de suas vidas - a infância correndo atrás de uma bola.

Lojas Americanas da Uruguaiana, sinto um enorme aperto no coração porque antigamente sempre comprava coisas para minha família - e ela se foi. As pessoas disputam os presentes de Natal, mas nem de longe com a lotação de outras épocas. Uma vez comprei lá um liquidificador para minha mãe, que ficou felicíssima - eu era um estagiário e tinha a vida pela frente.

Resolvi descer no Metrô Carioca e atravessá-lo até a avenida Chile. Na porta, um morador de rua faminto, sujo, desesperado e uma senhora tentando saber onde estava sua família, provavelmente com a melhor das intenções mas sem perceber a dor do momento. Desci a escada, voltei, ela já tinha ido, ele continuou lá, dei-lhe vinte reais, ele quase chorou e eu também, porque estou cansado de ver tanta gente sofrendo na Terra desde que me entendo por gente - daquele dia em que minha mãe mergulhou em lágrimas ao ver a jovem mendiga com sua pequena filha, dando-lhe uma quantia e entrando em desespero a seguir, logo após termos saído do Metrô Copacabana em 1973 - de lá pra cá, vejo diariamente o sofrimento das pessoas realmente necessitadas e tenho raiva de mim mesmo por não ter condições de transformar suas vidas.

ATRAVESSANDO o metrô você vê o maior exército da solidão do mundo, uma multidão indo e vindo com toda pressa como se estivesse em fuga - as pessoas só têm olhos para os smartphones, o amor ao próximo parece tão escasso. Então vem a escada de degraus e a saída, onde logo se vê a turma da Petrobras descendo do elevado do BNDES.

Passe pela Chile e, logo abaixo da República do Paraguai, lá estão caixas, papelões e gente morrendo sem chance a conta-gotas. Mais à frente, grandes carros pretos corporativos prontos para transportar importantes executivos nessa terra de ninguém, no coração de uma cidade devastada por ladroes de termos bem cortados - e golpistas também.

Quase na esquina com a Lavradio, um garoto muito louco de crack grita uma canção de letra ininteligível e ri, sem a menor noção de onde estamos e, por isso mesmo, talvez até mais feliz diante de sua própria tragédia.

Duzentos metros depois, duas jovens saem do prédio da Nova Petrobras com expressões apreensivas, parecidas com seus colegas de trabalho nos restaurantes da região. Lembro de comprar quatro pães franceses na padaria. Peço queijo minas, não tem.

Paro na esquina da Henrique Valadares. Alguns fregueses conversam no churrasquinho da esquina. O céu gris não traz a chuva prometida. O movimento dos carros é pequeno. Dei uma bela volta no centro da minha cidade, e sou capaz de apostar que ela só esteve mais triste em dezembro de 1964 e 1968 - quando eu tinha cinco meses e era a alegria da minha família. A cidade não para, mas ela está triste demais. Nenhum lugar traduz o Brasil tão bem quanto o Rio, para o melhor e o pior.

Chego em casa, tenho uma boa conversa no fone com o craque Ricardo Mazella, finalmente tenho uma notícia legal. Desligo. Agora são oito da noite, o que resta é tomar banho, comer e descansar, até que nasça o amanhã cedo com tanta gente sofrendo na rua, no que sobrou dos empregos, nas calçadas abandonadas e na certeza de que tudo devia ser diferente, diferente demais.

@pauloandel

politik

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@pauloandel

Monday, December 11, 2017

Cenas do Centro do Rio II



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Saturday, December 02, 2017

cidade zumbi

a cidade dos zumbis
entre idas e vindas
e populares lutando
carregando bugigangas
para vender

mãos carregando caixas de balas
de amendoins, de biscoitos
mochilas baratas

e perto, na porta do necrotério
mãos desesperadas
em cachimbos de crack
- a morte à porta da morte

mãos espalmadas e vazias
mendicantes e enrugadas
ignoradas maltrapilhas

o brasil é uma covardia

Friday, December 01, 2017

o homem ridículo/ hi-lites



era somente um fim 
e nele nada havia 
de fraternidade
respeito, carinho
solidariedade:
nada, nada, nada
a não ser a indiferença
que só os medíocres 
possuem


Ii

o homem ridículo
fala para ninguém 
e acredita fazer sucesso
com a sua escrotidão 

finge-se potente, poderoso
tão importante
mas não a ponto
de enganar a si mesmo
olhando para o teto 
numa noite insone

o homem ridículo é fruto
de sua pequena relevância
e precisa dos outros para
protagonizar delírios fúteis 

porque é tão somente um idiota

nunca viu ashley judd 
ou escutou henri Salvador
o homem ridículo
nunca leu ivan lessa
não entendeu veludo azul
e é homofóbico assumido
é totalitarista em nome de deus
e vomita verdades flácidas
- outros idiotas riem
- alguns se sentem constrangidos 

o homem ridículo não tem paz
mesmo tão sozinho: ele é 
a regra de ódio contra si mesmo
e corta as noites alucinadamente
entre carreiras repartidas
e pequenas trapaças consentidas

o homem ridículo 
não entende a dor do outro
o abraço 
a pátria partida

o homem ridículo
é a certeza da própria
mediocridade em riste

III

a navalha afiada está guardada 
para todo o sempre na imperfeição
de uma cicatriz no rosto


IV 

uma mensagem fria 
às onze da noite da
sexta-feira pacífica: 
o ódio não constrói

@pauloandel 

Wednesday, November 29, 2017

amigo

Diante da miséria, do sofrimento, da dor, da doença, do risco de morte, qual o sentido do ódio na vida? Quanto tempo se desperdiça com inutilidades, com vaidades fúteis, com ruindade? Basta você olhar para o lado, o próximo, o pedinte na esquina, o esfomeado, o zumbi debaixo de crack e toda a empáfia vai ao chão.

É tudo inútil.

Viemos aqui para fazer coisas legais, progredir, ajudar o outro, aprender. Todos nascemos ignorantes, mas o aprendizado é permanente. E quem insiste na ignorância como meio de expressão nunca vai ver direito a tarde de sol, a criança caminhando na rua com seu biscoito à mão, o passarinho pousando na terra batida da praça.

Centenas de milhões de pessoas não podem usufruir dos confortos da Terra. Casa, comida, água, bens essenciais.

A vida escorre nos hospitais, no ódio estúpido, na violência que mata e mata sem sentido, na ganância, na negação da arte, na discriminação, no racismo, na homofobia, na retórica fascista, totalitária. Na ganância, a ganância.

Acabei de olhar para trás e vi 25 anos voarem longe.

Um amigo está em grande dificuldade num hospital.

Torço por ele. Torço, torço, torço.

Horas atrás, vivi uma felicidade estupenda ao me encontrar com Falcão. Agora, um rio de tristeza.

Não contem comigo para o ódio. Tenho mais o que escrever.

O ódio é para os fracos, os mal-amados, os que não veem os outros como amigos, os complexados, os rancorosos que têm certeza da própria mediocridade.

Numa triste manhã de quarta-feira, com trabalhos parados por motivo de força maior, meu tempo é para tristeza e amor.

Saia dessa, meu amigo. De alguma forma que não sei dizer.

@pauloandel

Monday, November 20, 2017

o berço esplêndido da dor

deitados eternamente
em chão de derrotas
a cada lindo dia de sol
ou nublado cheio de uhus!
e batidões e palmas das mãos
enquanto milhões de outras
mãos estendidas só pedem
clemência e até humanidade
um bem tão raro que até parece
valer dinheiro cru a olhos vivos
onde foi que nos perdemos? 
onde aprendemos a estupidez
ao dizermos que essa é 
a vontade de deus quando dele 
só esperamos generosidade e o que 
se vê aqui é avareza miséria 
ódio pelo ódio pelo ódio pelo ódio
tentativas de limpeza étnica 
travestidas de combate ao crime
enquanto nobres lordes brindam
nas milionárias sacadas das orlas:
'viva a escrotidão cosmopolita, viva!
não fomos nós que inventamos isso!
precisamos manter nossas putarias!'
as garotas são escravas dos puteiros
a polícia mata e morre por quem não
precisa dela mas sim de seus favores
mas já estamos perto do Natal e vamos
nos abraçar até chegar o carnaval
e depois a nova copa do mundo, uhu! 
aprender lições não é o nosso forte. 

Foto: Paulo-Roberto Andel




Saturday, November 18, 2017

simone mazzer's blues

enquanto teu corpo
me falta eu ouço um
rock na tevê miando
versos de amor e voz

a cantora grita afinadamente

e a guitarra me distrai em cor

num quarto escuro em noite
quente enquanto teu dorso
não me vem à boca em sonho
nem a carne fresca em pêlo

somos todos infelizes a granel
com delivery e smartphone

enquanto teu corpo
é lenda insone eu só
penso num jeito de
acabar indiferenças

se o futuro é a morte
e o fim do mundo é logo ali
por que a gente perde tempo
e não transa a vida logo?

ah, solidão insana que ejacula inbox whatsapp instagramático

os corações parecem sedentos
num país debaixo dos escombros

@pauloandel

Wednesday, November 15, 2017

quando o outro é nada

o problema está em
como vemos o outro
o outro

o maldito outro
o mendigo, o negro
o pobre outro
o transviado
o bêbado caído na porta do bar
- então fingimos: 'nada disso
nos pertence' 
é mentira! 

o favelado, o porteiro
que nosso preconceito estúpido
não cogita aceite
- nós somos escrotos covardes!

gente que não nos parece 
gente mas é gente demais

aí está o país dos empregadinhos
gente tratada como números
ou pela nova pérola: 'recursos'
então dizimamos a praça
trocamos de calçada e sonhamos
com a mudança para Miami:
o mais cafona dos sonhos! 

e quando não choramos pela
miséria em veias abertas debaixo
das marquises
e cogitamos uma bomba na favela
aí sim falta o outro
que nos diga sobre a nossa estupidez
que desvele nossa ignorância 
e arrase nosso anseio escravagista:
- não queremos funcionários mas
escravos contemporâneos

os trens lotados são navios negreiros
a praça de lágrimas é a dor
dos miseráveis 
e a empatia escorre por entre os
nossos dedos das mãos
o outro é o problema
o inferno
eu não tenho nada com isso
e não inventei o mundo
mas faço parte dele feito
o transeunte mais idiota

o problema está em
não tratar o outro feito
lixo, mas infelizmente hoje
essa é a voz do Brasil
a voz do Brasil, a pátria estuprada
em nome do vil capital
gente feita de massa podre
num estado que significa 
decomposição

Thursday, November 09, 2017

Thursday, November 02, 2017

Finados?

Então é Dia de Finados.

O dia dos que tiveram fim.

Seria isso mesmo?

Sim, quando penso que é impossível não chorar por causa da ausência de meus pais, que se foram justamente quando estavam tendo algum conforto material. Não há beijo, nem abraço, nem bom dia e fica uma certa impressão do mais ensurdecedor dos silêncios.

Não, quando penso que a ausência física é apenas física, porque os sinto por perto o tempo todo.

Para tentar aliviar a tristeza das perdas, comecei a escrever feito louco, o que me permitiu ser publicado e, com isso, ter ajudado na alegria de milhares de pessoas. Muitas vezes recebo mensagens de pessoas que dizer ter chorado ao ler algo que escrevi, mas não creio que seja por tristeza. É o que elas dizem.

Não aliviou, mesmo com treze livros em pouco menos de sete anos. A tristeza volta toda hora, só que com o passar do tempo ela é combatida com muitas lembranças divertidas e também inspirações. E então continuo escrevendo. Esta foi a principal razão: fazer da tristeza a reflexão.

Meus pais, os escritores que leio, os músicos que ouço, os artistas que vejo, os poetas, os homens de visão social, todos eles estão mortos, mas nem tanto. Todos eles estão aqui perto de alguma forma praticamente todo dia.

Tenho andado há meio século pelas calçadas do mundo, aprendendo, sofrendo, sonhando. Entender todas as injustiças é difícil demais, porém esta mesma dificuldade é também a vida. A vida. Não sei se um dia alguém pensará em mim ou me sentirá por perto, mas sei que eu mesmo sinto isso quase todo dia por muita gente.

Os finados são na verdade continuados.

Existe amor, por mais estranho que pareça dizer isso em meio a uma tempestade de ódios, recalques e pequenez humana, como se pode ver diariamente pelo mundo. Mas o ódio é dos infelizes, dos que têm consciência da própria mediocridade, dos que usam a inveja como ópio, dos pobres egoístas e pernósticos.

Existe amor. Eu sei e sinto isso, até mesmo nas palavras que não foram escritas ou ditas.

Os finados estão vivos demais.

Vivamos também.

@pauloandel

Monday, October 16, 2017

você não engana mais a si mesmo mesma

Você não engana a si próprio. É absolutamente inútil. Pode contar todas as mentiras que quiser, pode falsear, pode até viver uma vida que não é a tua na tela de um computador, mas não vai adiantar: é impossível enganar a si próprio além de um breve momento delirante. Há muitos vocês em você mesmo, mas um deles é insuperável: o real. O você de verdade, que talvez nem mesmo você conheça direito, mas que inevitavelmente aparece a cada vez que você se deita e olha para o teto escuro de luz apagada. E aí você se depara com quem realmente é, com todos os fracassos pessoais que finge não ter experimentado; das drogas ilícitas que não consumiu, não por princípios ou serenidade, mas por cagaço; das mulheres que fingiu ter mas nunca lhe foram nada além de inspiração para masturbar-se; dos homens que desejou mas não teve qualquer coragem de viver seu tesão; dos amigos que não soube fazer porque a arrogância lhe lambe as vísceras; dos portes que não tomou porque lhe faltou coragem para viver uma pequena derrocada noturna. E então o que parecia grande coisa não é porra nenhuma: você se vê num espelho imaginário e encara toda a sua feiúra, toda a sua alma desajeitada, toda a sua futilidade e isso não cabe em nenhuma mulher. E das histórias que você contou mas não viveu? Lá estão no mesmo teto, como se fosse a faixa de torcida organizada onde se lê "mentiroso de merda!". Você nunca esfregou sua buceta em outra, nunca gozou pelo cu como tanto queria, nunca sequer se sentiu beijada de verdade. A avereza do rosto se encontra com a pobreza do caráter numa alma atormentada e, por isso mesmo, você nunca vai enganar a si mesmo. Deitado em berço esplêndido da mediocridade, você olha para a janela baixa e não se ilude: sabe que é um merda, um flácido, um pústula que caga ódio pelas ventas para não defecar a si próprio. Você tem fama, dinheiro, fode com vários caras, faz pose vitoriosa mas sabe não ter nada a comemorar. Você é desimportante e por isso se impõe pela virulência verbal, mas os teus dias vão ficar bem piores, você não engana a si mesma. Acorda, amor: a vida é hoje, somos todos bosta e você  é desimportante. Somos todos formiguinhas em desconstrução, você também está com a sorte de nave mãe. 

Sunday, October 08, 2017

grande cão VI

o me dói é ver em ti
o que não sonhei nem respiro

grande cão, guardião
das cancelas imperfeitas
órfão da tempestade insana
que se faz tão covardia

meu irmão, um santo herói
perdido em tabernas vulgares
estristecido e sofrido, enquanto
morro treze vezes em vão

há uma procissão nas ruas
e nossa fé remove montanhas
se o destino é a tal derrota
que a vivamos com poesia

o que me dói é o amor inerte
despedaçado em inutilidades
os desencontros são silêncio
e a mocidade é o tempo morto

oh, guardião!
meu grande cão de guarda!
se existe algum futuro
empenhemos nossas almas

@pauloandel

Sunday, October 01, 2017

copacabana beat

copacabana beat
copacabana beatnik
eu sinto o cheiro das tuas artérias
as venéreas das noites down by low
copacabana que sangra e ri
nas mãos enrugadas do mendigo
nos papos escroques de bar
onde a poesia é mais lou reed
copacabana beat
eu sou teu filho, teu amigo, o grande irmão
as senhorinhas parecem tão afáveis
as lindas mulheres passeiam gostosuras
e um velho amigo queima fumo à brisa
alguma coisa remexe no centro do mundo

sobre o panaca

Achei graça há pouco. Desabei de sono depois de um sábado cansativo e acordei com uma mensagem até ingênua de um amigo no inbox, indignado com um panaca, que disse a ele num grupo qualquer algo como "Esse cara está dando livro porque ninguém compra. Só quer aparecer"...

Não costumo perder tempo com estas coisas porque tenho mais o que escrever,  mas desta vez vale a pena.

É preciso ser muito recalcado para julgar o caráter e a qualidade de qualquer obra literária com base em sua vendagem. Por esse critério, chegaríamos à conclusão de que, no Brasil, qualquer livro de auto-ajuda seria "mais importante" do que Drummond, Vinicius, Lispector etc. Mas é de cada um. Há os que resolveram seguir caminhos diferentes de pendurar melancia no pescoço no Twitter e FB...

O cara que está "dando livro" tem um modesto curriculum em se tratando do Fluminense.

Primeiro autor no país a registrar em livro o Time de Guerreiros e os campeões de 2010; primeiro autor a publicar no país sobre o título de 1995 com o gol de barriga; coautor do mais importante manifesto literário de defesa do clube em sua história ("Pagar o quê?", 2014); nome presente entre os escritores mais publicados de livros sobre o Flu na história do clube; editor do blog que possui o maior acervo de produção própria sobre o Fluminense na internet (que poderia gerar um livro hoje com mais de DEZ MIL páginas...); debatedor do programa de TV independente mais longevo da história do clube; líder de audiência em todos os sites e blogs onde foi publicado, e que pode distribuir sua obra de graça por conta de suas convicções, o que é bem diferente de bostejar em redes sociais em troca de notoriedade e autopromoção. E sócio diretor do blog de futebol que já reuniu e reúne o maior número de escritores publicados no Brasil por um clube, tudo bem diferente de revista de fofocas ou post de calúnias.

Modestamente, prefiro estar na Wikipedia do meu clube em duas seções.

Caro panaca, o que você já fez pelo Fluminense?

Ou é o Fluminense que faz por você?

Será que sem usar o nome do Fluminense você tem realmente alguma importância?

Panaca, qual é o seu curriculum tricolor?

Por causa do Flu, já tive a oportunidade de debater ao vivo na TV e no rádio com alguns craques da comunicação: José Carlos Araújo, Gerson, Gilson Ricardo, Ricardo Mazella, Jorge Nunes, Ronaldo Castro, Maurício Menezes, Edilson Silva, Walter Salles,  entre outros.

Por causa do Flu, como repórter já pude entrevistar Gilberto Gil, Maria Bethânia, Ítalo Rossi, Sérgio Britto, Ivan Lins, João Donato, João Barone, Fausto Fawcett, Dado Villa-Lobos, Bernard, Oscar Niemeyer, Paulo Casé, Paulo Cezar Saraceni, Raimundo Fagner, Pedro Bial, Bibi Ferreira, Letícia Spiller, Noca da Portela, Wilson Moreira, Délcio Carvalho, Pedro Paulo Rangel e mais uma penca de torcedores ilustríssimos do clube.

Aliás, em reconhecimento aos meus esforços literários, em 2014 o próprio Fluminense homenageou a mim e aos meus colegas de "Pagar o quê?" em sua Sessão Solene do Conselho Deliberativo nos 112 anos de aniversário do clube, oferecendo-nos o simbólico diploma de torcedores ilustres. Já tinha me homenageado antes, quando tive a honra de ser um dos headliners da Bienal do Livro 2013, a primeira na história que contou com um stand exclusivo de um clube de futebol.

E também por causa de vários outros escritores, em sua maioria abnegados, o Fluminense hoje ocupa um cenário de destaque na literatura do Brasil e na América do Sul, por conta de sua extensa bibliografia. Embora já seja uma posição admirável, na pequena parte que me cabe eu não medirei esforços para que esta abrangência venha a ser MUNDIAL. 

Ah, ainda faltou dizer aqui do "2014", único livro publicado no país cobrindo toda a Copa do Mundo, Cenas do Centro do Rio I e II, a biografia oficial do Serguei ao lado do escritor Rodrigo Barros, um livro inédito sobre o Botafogo, dois sobre política e agora produzindo os livros de um poeta talentosíssimo e de uma escritora com 200 mil seguidores. Só... O Fluminense me abriu as portas para ser publicado, no que sou eternamente grato, mas eu nao me limito a escrever sobre futebol (e isso é que faz certa gentinha se doer PRACARAGLIO...). Aliás, para quem não é do ramo, não custa esclarecer: certa parte da intelligentzia literária tem HORROR a livros de futebol. É algo que muitas vezes, de forma estapafúrdia, faz com que o autor seja "menor". Mas entre o Fluminense e a minha "reputação literária", amigo... Por sinal, a minha trajetória como escritor acaba de completar 21 anos, desde que fui orgulhosamente convidado por dois ganhadores de Prêmio Jabuti a colaborar com uma revista de contos.

Mas isso tudo acima diz muito pouco sobre a minha pessoa, senhor panaca.

No mais, minha breve história pode ser contada por vários amigos que andam pelaí: Luizinho, Henrique, Pedro, Ana, Gonzalez, Nelsinho, Azedias, Roger, Beto, Gustavo, Flavão, Tiba, Leo, Fabrício, Claudio, Calder, Zeh, Bola, Josi, Trino, Mantovandel e um monte de gente.

O melhor de mim não está em propagandas da internet, mas no convívio com centenas de pessoas que me adoram, me respeitam e que sabem do meu valor, do meu caráter. Tanto faz o tempo ou a distância.

Deve ser muito duro disseminar o ódio para atenuar os próprios complexos que doem na alma, ou precisar diminuir terceiros para tentar abafar o ridículo que se vê diante do próprio espelho da mente. Tudo na internet, claro, porque ao vivo o agressivo machão do teclado vira uma cadelinha Fifi na coleirinha...

Deve ser muito duro para um detrator a certeza de que, por maior que seja a sua baixeza, ele será sempre menor do que seu detratado.

Em tempo: o e-book (ou dois, ainda a definir) será distribuído em dezembro de 2017. No mês anterior, lançarei "Onde as três cores são nome", que é pago. E no lançamento certamente terá muita gente que vai me prestigiar porque gosta de mim e do meu trabalho, como tem acontecido regularmente nos últimos sete anos. É uma festa, uma celebração, uma noite de amizade. Tudo muito difícil para um panaca vivenciar e sentir. O recalque corrói.

Só para constar: literatura é um hobby para mim, tratado como ofício sério, mas acima de tudo um hobby, uma diversão, um prazer. Se eu realmente quisesse aparecer, falaria publicamente do meu trabalho diário que me sustenta humildemente há 25 anos, de utilidade pública, e que atende a milhares de pessoas mensalmente em todo o Estado do Rio de Janeiro...

Friday, September 22, 2017

Wednesday, September 20, 2017

Tuesday, September 19, 2017

Cícero, meu primeiro amigo gay

Em alguns meses de 1975, meu pai ainda era um homem de algumas posses. Morávamos num prédio de quatro andares, sem elevador, na rua Santa Clara (posteriormente demolido para dar vez a um flat), em Copacabana. Até então, sempre tínhamos gente trabalhando em casa (desde criança, detestei a palavra "empregada", que me sugeria aparte social).

Um belo dia, minha mãe inovou e contratou o Cícero. De cara, já era diferente por ser homem numa atividade essencialmente ocupada por mulheres à época. E também por usar aquele chapéu de cozinheiro que eu acho um barato. E, finalmente, por ser homossexual assumido, o que causou verdadeiro horror nos nossos vizinhos.

Uma delas, Dona Mimi, uma senhora portuguesa branca, de bem, em nome de Deus, quis fazer um movimento para que nos mudássemos do prédio - era inaceitável para ela ver um "veado" nos corredores. Mas aí minha mãe, que era baixinha mas não era fácil, a viu num cochicho com outra vizinha e a enquadrou bonito. Nos corredores a palhaçada acabou. Quando eu saía com minha mãe para ir à escola, a idosa lusa e sua amiga ainda cochichavam, mas quase encolhidas. Hoje, sou capaz de supor qual era o teor da conversa baixa: "Essa mulher deixa um veado dentro de casa com uma criança".

Comi pratos sensacionais feitos pelo Cícero. Mais de 40 anos depois, sou capaz de lembrar do bife com arroz e fritas e da panqueca de carne. Foram muitos pratos. Ele sempre falava comigo, ria, me dava tchau, mas eu nunca entendia porque quando a minha mãe sempre insistia para que ele deixasse a cozinha para ficar perto de nós na sala, ele nunca vinha. Só falava comigo de longe, talvez a uns quatro metros de distância. Eu tinha que gritar para que ele escutasse.

Quando meu pai faliu, tivemos que mudar de apartamento, de bairro e de padrão. No dia da despedida, foi a única vez que vi Cícero de perto: ele deu um beijo e um abraço em minha mãe, agradeceu muito a ela, passou a mão na minha cabeça e foi embora. Ainda o vimos na rua, debochando alto das vizinhas fofoqueiras. Poucos dias depois, mudamos por alguns meses para um minúsculo apartamento em Vaz Lobo, para depois voltarmos a Copacabana, ficando dezesseis anos na Siqueira Campos, aí já sem ninguém trabalhando em casa.

Ainda pude viver mais trinta anos com meus pais, com todos os altos e baixos de uma família, mas fomos felizes. Contudo, nunca conversávamos sobre aquela época porque era dolorosa para todos nós: não queríamos ter mudado, passamos muita dificuldade financeira e quase fome, mas superamos tudo. Quando falávamos no Cícero, minha mãe ria e se divertia, tinha saudades dele. Mas só depois de muito tempo é que refleti.

Estávamos num momento de dificuldades. Ela era uma super hiper cozinheira e uma pessoa muito simples. Por que será que teria contratado um cozinheiro num momento em que estávamos tão apertados? E porque ele nunca chegava perto de mim, mesmo com ela insistindo para que viesse conversar conosco?

As respostas talvez não sejam exatas, mas levam à reflexão. Provavelmente minha mãe contratou Cícero porque ele estava com alguma dificuldade profissional, já que estávamos com pouquíssimo dinheiro - de alguma forma, ela o quis protegê-lo. E Cícero nunca chegou perto de mim porque tinha MEDO de ser visto em qualquer ato com uma criança, mesmo com a mãe perto: a ditadura militar-empresarial chegava a todos os lugares, quanto mais na minha casa (meu pai e meu tio foram presos no fim dos anos 1960 por "subversão"). E pior ainda que encontrasse um homossexual brincando com uma criança, não importando qual fosse o motivo.

Cícero é a primeira lembrança que tenho de um homossexual na vida - a segunda é de Serguei, que minha mãe adorava e que hoje tenho a honra de ser seu biógrafo, ao lado de Rodrigo Barros. Cícero sempre me tratou com todo o respeito, a ponto de se auto-mutilar socialmente. A ele devo excelentes pratos de comida deliciosa.

De lá para cá, foram muitos anos e muitos e muitos queridos amigos homossexuais, milhares de álbuns tocados por músicos homossexuais, livros fantásticos escritos por homossexuais. As artes, o cotidiano, o futebol - SiM! -, o trabalho, as faculdades, os bares, tudo. Ex-namoradas e ficantes. Amigas queridas e grandes admirações. Como poderia ousar discriminar o que faz parte da minha vida desde sempre?

Não vivi a orientação homossexual, mas jamais por preconceito e sim porque não é minha essência. Se fosse, creio que eu teria tido apoio de meus pais, teria que enfrentar inúmeros percalços mas, provavelmente, acabaria numa organização LGBT em luta pelos direitos e causas. Mas não preciso ser necessariamente homossexual para abraçar e me solidarizar com todos os homossexuais, amigos meus ou não, diante dessa idiotice agora rebatizada de "liminar da cura gay". Homossexualidade não foi, não é nem nunca será doença, exceto para aqueles que nem sempre são sexualmente seguros de si mesmos.

De alguma forma todos aqueles amigos homoafetivos são aqui representados pelo nome de Cícero, que foi o meu primeiro amigo gay quando eu nem sabia o que era sexo. Penso na dor daquele homem em 1975, temendo ser preso e desaparecido pelo simples fato de conversar com uma criança. Mas o pior é pensar que, 40 anos depois, parte do Brasil é ainda tão primitiva quanto naquele tempo.

Pela cura da ignorância já!