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Saturday, November 18, 2017

simone mazzer's blues

enquanto teu corpo
me falta eu ouço um
rock na tevê miando
versos de amor e voz

a cantora grita afinadamente

e a guitarra me distrai em cor

num quarto escuro em noite
quente enquanto teu dorso
não me vem à boca em sonho
nem a carne fresca em pêlo

somos todos infelizes a granel
com delivery e smartphone

enquanto teu corpo
é lenda insone eu só
penso num jeito de
acabar indiferenças

se o futuro é a morte
e o fim do mundo é logo ali
por que a gente perde tempo
e não transa a vida logo?

ah, solidão insana que ejacula inbox whatsapp instagramático

os corações parecem sedentos
num país debaixo dos escombros

@pauloandel

Wednesday, November 15, 2017

quando o outro é nada

o problema está em
como vemos o outro
o outro

o maldito outro
o mendigo, o negro
o pobre outro
o transviado
o bêbado caído na porta do bar
- então fingimos: 'nada disso
nos pertence' 
é mentira! 

o favelado, o porteiro
que nosso preconceito estúpido
não cogita aceite
- nós somos escrotos covardes!

gente que não nos parece 
gente mas é gente demais

aí está o país dos empregadinhos
gente tratada como números
ou pela nova pérola: 'recursos'
então dizimamos a praça
trocamos de calçada e sonhamos
com a mudança para Miami:
o mais cafona dos sonhos! 

e quando não choramos pela
miséria em veias abertas debaixo
das marquises
e cogitamos uma bomba na favela
aí sim falta o outro
que nos diga sobre a nossa estupidez
que desvele nossa ignorância 
e arrase nosso anseio escravagista:
- não queremos funcionários mas
escravos contemporâneos

os trens lotados são navios negreiros
a praça de lágrimas é a dor
dos miseráveis 
e a empatia escorre por entre os
nossos dedos das mãos
o outro é o problema
o inferno
eu não tenho nada com isso
e não inventei o mundo
mas faço parte dele feito
o transeunte mais idiota

o problema está em
não tratar o outro feito
lixo, mas infelizmente hoje
essa é a voz do Brasil
a voz do Brasil, a pátria estuprada
em nome do vil capital
gente feita de massa podre
num estado que significa 
decomposição

Thursday, November 09, 2017

Thursday, November 02, 2017

Finados?

Então é Dia de Finados.

O dia dos que tiveram fim.

Seria isso mesmo?

Sim, quando penso que é impossível não chorar por causa da ausência de meus pais, que se foram justamente quando estavam tendo algum conforto material. Não há beijo, nem abraço, nem bom dia e fica uma certa impressão do mais ensurdecedor dos silêncios.

Não, quando penso que a ausência física é apenas física, porque os sinto por perto o tempo todo.

Para tentar aliviar a tristeza das perdas, comecei a escrever feito louco, o que me permitiu ser publicado e, com isso, ter ajudado na alegria de milhares de pessoas. Muitas vezes recebo mensagens de pessoas que dizer ter chorado ao ler algo que escrevi, mas não creio que seja por tristeza. É o que elas dizem.

Não aliviou, mesmo com treze livros em pouco menos de sete anos. A tristeza volta toda hora, só que com o passar do tempo ela é combatida com muitas lembranças divertidas e também inspirações. E então continuo escrevendo. Esta foi a principal razão: fazer da tristeza a reflexão.

Meus pais, os escritores que leio, os músicos que ouço, os artistas que vejo, os poetas, os homens de visão social, todos eles estão mortos, mas nem tanto. Todos eles estão aqui perto de alguma forma praticamente todo dia.

Tenho andado há meio século pelas calçadas do mundo, aprendendo, sofrendo, sonhando. Entender todas as injustiças é difícil demais, porém esta mesma dificuldade é também a vida. A vida. Não sei se um dia alguém pensará em mim ou me sentirá por perto, mas sei que eu mesmo sinto isso quase todo dia por muita gente.

Os finados são na verdade continuados.

Existe amor, por mais estranho que pareça dizer isso em meio a uma tempestade de ódios, recalques e pequenez humana, como se pode ver diariamente pelo mundo. Mas o ódio é dos infelizes, dos que têm consciência da própria mediocridade, dos que usam a inveja como ópio, dos pobres egoístas e pernósticos.

Existe amor. Eu sei e sinto isso, até mesmo nas palavras que não foram escritas ou ditas.

Os finados estão vivos demais.

Vivamos também.

@pauloandel

Monday, October 16, 2017

você não engana mais a si mesmo mesma

Você não engana a si próprio. É absolutamente inútil. Pode contar todas as mentiras que quiser, pode falsear, pode até viver uma vida que não é a tua na tela de um computador, mas não vai adiantar: é impossível enganar a si próprio além de um breve momento delirante. Há muitos vocês em você mesmo, mas um deles é insuperável: o real. O você de verdade, que talvez nem mesmo você conheça direito, mas que inevitavelmente aparece a cada vez que você se deita e olha para o teto escuro de luz apagada. E aí você se depara com quem realmente é, com todos os fracassos pessoais que finge não ter experimentado; das drogas ilícitas que não consumiu, não por princípios ou serenidade, mas por cagaço; das mulheres que fingiu ter mas nunca lhe foram nada além de inspiração para masturbar-se; dos homens que desejou mas não teve qualquer coragem de viver seu tesão; dos amigos que não soube fazer porque a arrogância lhe lambe as vísceras; dos portes que não tomou porque lhe faltou coragem para viver uma pequena derrocada noturna. E então o que parecia grande coisa não é porra nenhuma: você se vê num espelho imaginário e encara toda a sua feiúra, toda a sua alma desajeitada, toda a sua futilidade e isso não cabe em nenhuma mulher. E das histórias que você contou mas não viveu? Lá estão no mesmo teto, como se fosse a faixa de torcida organizada onde se lê "mentiroso de merda!". Você nunca esfregou sua buceta em outra, nunca gozou pelo cu como tanto queria, nunca sequer se sentiu beijada de verdade. A avereza do rosto se encontra com a pobreza do caráter numa alma atormentada e, por isso mesmo, você nunca vai enganar a si mesmo. Deitado em berço esplêndido da mediocridade, você olha para a janela baixa e não se ilude: sabe que é um merda, um flácido, um pústula que caga ódio pelas ventas para não defecar a si próprio. Você tem fama, dinheiro, fode com vários caras, faz pose vitoriosa mas sabe não ter nada a comemorar. Você é desimportante e por isso se impõe pela virulência verbal, mas os teus dias vão ficar bem piores, você não engana a si mesma. Acorda, amor: a vida é hoje, somos todos bosta e você  é desimportante. Somos todos formiguinhas em desconstrução, você também está com a sorte de nave mãe. 

Sunday, October 08, 2017

grande cão VI

o me dói é ver em ti
o que não sonhei nem respiro

grande cão, guardião
das cancelas imperfeitas
órfão da tempestade insana
que se faz tão covardia

meu irmão, um santo herói
perdido em tabernas vulgares
estristecido e sofrido, enquanto
morro treze vezes em vão

há uma procissão nas ruas
e nossa fé remove montanhas
se o destino é a tal derrota
que a vivamos com poesia

o que me dói é o amor inerte
despedaçado em inutilidades
os desencontros são silêncio
e a mocidade é o tempo morto

oh, guardião!
meu grande cão de guarda!
se existe algum futuro
empenhemos nossas almas

@pauloandel

Sunday, October 01, 2017

copacabana beat

copacabana beat
copacabana beatnik
eu sinto o cheiro das tuas artérias
as venéreas das noites down by low
copacabana que sangra e ri
nas mãos enrugadas do mendigo
nos papos escroques de bar
onde a poesia é mais lou reed
copacabana beat
eu sou teu filho, teu amigo, o grande irmão
as senhorinhas parecem tão afáveis
as lindas mulheres passeiam gostosuras
e um velho amigo queima fumo à brisa
alguma coisa remexe no centro do mundo

sobre o panaca

Achei graça há pouco. Desabei de sono depois de um sábado cansativo e acordei com uma mensagem até ingênua de um amigo no inbox, indignado com um panaca, que disse a ele num grupo qualquer algo como "Esse cara está dando livro porque ninguém compra. Só quer aparecer"...

Não costumo perder tempo com estas coisas porque tenho mais o que escrever,  mas desta vez vale a pena.

É preciso ser muito recalcado para julgar o caráter e a qualidade de qualquer obra literária com base em sua vendagem. Por esse critério, chegaríamos à conclusão de que, no Brasil, qualquer livro de auto-ajuda seria "mais importante" do que Drummond, Vinicius, Lispector etc. Mas é de cada um. Há os que resolveram seguir caminhos diferentes de pendurar melancia no pescoço no Twitter e FB...

O cara que está "dando livro" tem um modesto curriculum em se tratando do Fluminense.

Primeiro autor no país a registrar em livro o Time de Guerreiros e os campeões de 2010; primeiro autor a publicar no país sobre o título de 1995 com o gol de barriga; coautor do mais importante manifesto literário de defesa do clube em sua história ("Pagar o quê?", 2014); nome presente entre os escritores mais publicados de livros sobre o Flu na história do clube; editor do blog que possui o maior acervo de produção própria sobre o Fluminense na internet (que poderia gerar um livro hoje com mais de DEZ MIL páginas...); debatedor do programa de TV independente mais longevo da história do clube; líder de audiência em todos os sites e blogs onde foi publicado, e que pode distribuir sua obra de graça por conta de suas convicções, o que é bem diferente de bostejar em redes sociais em troca de notoriedade e autopromoção. E sócio diretor do blog de futebol que já reuniu e reúne o maior número de escritores publicados no Brasil por um clube, tudo bem diferente de revista de fofocas ou post de calúnias.

Modestamente, prefiro estar na Wikipedia do meu clube em duas seções.

Caro panaca, o que você já fez pelo Fluminense?

Ou é o Fluminense que faz por você?

Será que sem usar o nome do Fluminense você tem realmente alguma importância?

Panaca, qual é o seu curriculum tricolor?

Por causa do Flu, já tive a oportunidade de debater ao vivo na TV e no rádio com alguns craques da comunicação: José Carlos Araújo, Gerson, Gilson Ricardo, Ricardo Mazella, Jorge Nunes, Ronaldo Castro, Maurício Menezes, Edilson Silva, Walter Salles,  entre outros.

Por causa do Flu, como repórter já pude entrevistar Gilberto Gil, Maria Bethânia, Ítalo Rossi, Sérgio Britto, Ivan Lins, João Donato, João Barone, Fausto Fawcett, Dado Villa-Lobos, Bernard, Oscar Niemeyer, Paulo Casé, Paulo Cezar Saraceni, Raimundo Fagner, Pedro Bial, Bibi Ferreira, Letícia Spiller, Noca da Portela, Wilson Moreira, Délcio Carvalho, Pedro Paulo Rangel e mais uma penca de torcedores ilustríssimos do clube.

Aliás, em reconhecimento aos meus esforços literários, em 2014 o próprio Fluminense homenageou a mim e aos meus colegas de "Pagar o quê?" em sua Sessão Solene do Conselho Deliberativo nos 112 anos de aniversário do clube, oferecendo-nos o simbólico diploma de torcedores ilustres. Já tinha me homenageado antes, quando tive a honra de ser um dos headliners da Bienal do Livro 2013, a primeira na história que contou com um stand exclusivo de um clube de futebol.

E também por causa de vários outros escritores, em sua maioria abnegados, o Fluminense hoje ocupa um cenário de destaque na literatura do Brasil e na América do Sul, por conta de sua extensa bibliografia. Embora já seja uma posição admirável, na pequena parte que me cabe eu não medirei esforços para que esta abrangência venha a ser MUNDIAL. 

Ah, ainda faltou dizer aqui do "2014", único livro publicado no país cobrindo toda a Copa do Mundo, Cenas do Centro do Rio I e II, a biografia oficial do Serguei ao lado do escritor Rodrigo Barros, um livro inédito sobre o Botafogo, dois sobre política e agora produzindo os livros de um poeta talentosíssimo e de uma escritora com 200 mil seguidores. Só... O Fluminense me abriu as portas para ser publicado, no que sou eternamente grato, mas eu nao me limito a escrever sobre futebol (e isso é que faz certa gentinha se doer PRACARAGLIO...). Aliás, para quem não é do ramo, não custa esclarecer: certa parte da intelligentzia literária tem HORROR a livros de futebol. É algo que muitas vezes, de forma estapafúrdia, faz com que o autor seja "menor". Mas entre o Fluminense e a minha "reputação literária", amigo... Por sinal, a minha trajetória como escritor acaba de completar 21 anos, desde que fui orgulhosamente convidado por dois ganhadores de Prêmio Jabuti a colaborar com uma revista de contos.

Mas isso tudo acima diz muito pouco sobre a minha pessoa, senhor panaca.

No mais, minha breve história pode ser contada por vários amigos que andam pelaí: Luizinho, Henrique, Pedro, Ana, Gonzalez, Nelsinho, Azedias, Roger, Beto, Gustavo, Flavão, Tiba, Leo, Fabrício, Claudio, Calder, Zeh, Bola, Josi, Trino, Mantovandel e um monte de gente.

O melhor de mim não está em propagandas da internet, mas no convívio com centenas de pessoas que me adoram, me respeitam e que sabem do meu valor, do meu caráter. Tanto faz o tempo ou a distância.

Deve ser muito duro disseminar o ódio para atenuar os próprios complexos que doem na alma, ou precisar diminuir terceiros para tentar abafar o ridículo que se vê diante do próprio espelho da mente. Tudo na internet, claro, porque ao vivo o agressivo machão do teclado vira uma cadelinha Fifi na coleirinha...

Deve ser muito duro para um detrator a certeza de que, por maior que seja a sua baixeza, ele será sempre menor do que seu detratado.

Em tempo: o e-book (ou dois, ainda a definir) será distribuído em dezembro de 2017. No mês anterior, lançarei "Onde as três cores são nome", que é pago. E no lançamento certamente terá muita gente que vai me prestigiar porque gosta de mim e do meu trabalho, como tem acontecido regularmente nos últimos sete anos. É uma festa, uma celebração, uma noite de amizade. Tudo muito difícil para um panaca vivenciar e sentir. O recalque corrói.

Só para constar: literatura é um hobby para mim, tratado como ofício sério, mas acima de tudo um hobby, uma diversão, um prazer. Se eu realmente quisesse aparecer, falaria publicamente do meu trabalho diário que me sustenta humildemente há 25 anos, de utilidade pública, e que atende a milhares de pessoas mensalmente em todo o Estado do Rio de Janeiro...

Friday, September 22, 2017

Wednesday, September 20, 2017

Tuesday, September 19, 2017

Cícero, meu primeiro amigo gay

Em alguns meses de 1975, meu pai ainda era um homem de algumas posses. Morávamos num prédio de quatro andares, sem elevador, na rua Santa Clara (posteriormente demolido para dar vez a um flat), em Copacabana. Até então, sempre tínhamos gente trabalhando em casa (desde criança, detestei a palavra "empregada", que me sugeria aparte social).

Um belo dia, minha mãe inovou e contratou o Cícero. De cara, já era diferente por ser homem numa atividade essencialmente ocupada por mulheres à época. E também por usar aquele chapéu de cozinheiro que eu acho um barato. E, finalmente, por ser homossexual assumido, o que causou verdadeiro horror nos nossos vizinhos.

Uma delas, Dona Mimi, uma senhora portuguesa branca, de bem, em nome de Deus, quis fazer um movimento para que nos mudássemos do prédio - era inaceitável para ela ver um "veado" nos corredores. Mas aí minha mãe, que era baixinha mas não era fácil, a viu num cochicho com outra vizinha e a enquadrou bonito. Nos corredores a palhaçada acabou. Quando eu saía com minha mãe para ir à escola, a idosa lusa e sua amiga ainda cochichavam, mas quase encolhidas. Hoje, sou capaz de supor qual era o teor da conversa baixa: "Essa mulher deixa um veado dentro de casa com uma criança".

Comi pratos sensacionais feitos pelo Cícero. Mais de 40 anos depois, sou capaz de lembrar do bife com arroz e fritas e da panqueca de carne. Foram muitos pratos. Ele sempre falava comigo, ria, me dava tchau, mas eu nunca entendia porque quando a minha mãe sempre insistia para que ele deixasse a cozinha para ficar perto de nós na sala, ele nunca vinha. Só falava comigo de longe, talvez a uns quatro metros de distância. Eu tinha que gritar para que ele escutasse.

Quando meu pai faliu, tivemos que mudar de apartamento, de bairro e de padrão. No dia da despedida, foi a única vez que vi Cícero de perto: ele deu um beijo e um abraço em minha mãe, agradeceu muito a ela, passou a mão na minha cabeça e foi embora. Ainda o vimos na rua, debochando alto das vizinhas fofoqueiras. Poucos dias depois, mudamos por alguns meses para um minúsculo apartamento em Vaz Lobo, para depois voltarmos a Copacabana, ficando dezesseis anos na Siqueira Campos, aí já sem ninguém trabalhando em casa.

Ainda pude viver mais trinta anos com meus pais, com todos os altos e baixos de uma família, mas fomos felizes. Contudo, nunca conversávamos sobre aquela época porque era dolorosa para todos nós: não queríamos ter mudado, passamos muita dificuldade financeira e quase fome, mas superamos tudo. Quando falávamos no Cícero, minha mãe ria e se divertia, tinha saudades dele. Mas só depois de muito tempo é que refleti.

Estávamos num momento de dificuldades. Ela era uma super hiper cozinheira e uma pessoa muito simples. Por que será que teria contratado um cozinheiro num momento em que estávamos tão apertados? E porque ele nunca chegava perto de mim, mesmo com ela insistindo para que viesse conversar conosco?

As respostas talvez não sejam exatas, mas levam à reflexão. Provavelmente minha mãe contratou Cícero porque ele estava com alguma dificuldade profissional, já que estávamos com pouquíssimo dinheiro - de alguma forma, ela o quis protegê-lo. E Cícero nunca chegou perto de mim porque tinha MEDO de ser visto em qualquer ato com uma criança, mesmo com a mãe perto: a ditadura militar-empresarial chegava a todos os lugares, quanto mais na minha casa (meu pai e meu tio foram presos no fim dos anos 1960 por "subversão"). E pior ainda que encontrasse um homossexual brincando com uma criança, não importando qual fosse o motivo.

Cícero é a primeira lembrança que tenho de um homossexual na vida - a segunda é de Serguei, que minha mãe adorava e que hoje tenho a honra de ser seu biógrafo, ao lado de Rodrigo Barros. Cícero sempre me tratou com todo o respeito, a ponto de se auto-mutilar socialmente. A ele devo excelentes pratos de comida deliciosa.

De lá para cá, foram muitos anos e muitos e muitos queridos amigos homossexuais, milhares de álbuns tocados por músicos homossexuais, livros fantásticos escritos por homossexuais. As artes, o cotidiano, o futebol - SiM! -, o trabalho, as faculdades, os bares, tudo. Ex-namoradas e ficantes. Amigas queridas e grandes admirações. Como poderia ousar discriminar o que faz parte da minha vida desde sempre?

Não vivi a orientação homossexual, mas jamais por preconceito e sim porque não é minha essência. Se fosse, creio que eu teria tido apoio de meus pais, teria que enfrentar inúmeros percalços mas, provavelmente, acabaria numa organização LGBT em luta pelos direitos e causas. Mas não preciso ser necessariamente homossexual para abraçar e me solidarizar com todos os homossexuais, amigos meus ou não, diante dessa idiotice agora rebatizada de "liminar da cura gay". Homossexualidade não foi, não é nem nunca será doença, exceto para aqueles que nem sempre são sexualmente seguros de si mesmos.

De alguma forma todos aqueles amigos homoafetivos são aqui representados pelo nome de Cícero, que foi o meu primeiro amigo gay quando eu nem sabia o que era sexo. Penso na dor daquele homem em 1975, temendo ser preso e desaparecido pelo simples fato de conversar com uma criança. Mas o pior é pensar que, 40 anos depois, parte do Brasil é ainda tão primitiva quanto naquele tempo.

Pela cura da ignorância já!

Wednesday, September 13, 2017

enfim, nus

finalmente agora estamos nus
não por causa de picas e bundas
ou de admiráveis bucetas
mas estamos completamente nus

porque temos escarrado nossas ideias
e eatuprado as discordâncias
porque temos sido primitivos vis
e aplaudimos a inconsequência

estupidamente nus

enfiados em roupas tão respeitáveis
guardando nossas vergonhas de pele

falamos com fel nos olhares, tanto fel
que somos capazes de repelir o mundo
a começar pelos imprestáveis mendigos 
e outros degenerados vagabundos

nós somos deus, a pátria, a família
e somos o que somos por merecimento

nosso brasil é outro, limpo e engomado
nós temos modos e sabemos o portar

estamos completamente nus - nossas vísceras estão nuas - o céu espia nossas excreções - somos lindos porcos nus - nós temos berço - e somos pessoas de bem - qual é o teu problema com a gente? - eu mereço o que meu pai me deu - que morram estes comunistas de merda - fizeram pacto com Hitler, eu não

e os navios negreiros nunca mais vão chegar 
ao morro cara de cão
chegou a hora de retomarmos de vez
as capitanias hereditárias

vamos dormir tranquilos no dia em que essa gente 
for varrida do nosso Brasil

finalmente estamos nus, com roupas
o que se vê é a nossa essência morna
podemos melhorar, meu rapaz! 
a pátria ainda não está livre, gavião! 

o Brasil é dos Brasileiros, porra! 

Isso vai desembocar num massacre
num hiato de diálogos e a fé no aparte

entendam: somos gente de bem
só não somos obrigados a ver vocês
pisando numa calçada daqui
Não somos pretos nem gordos nem pobres 
nem burros, ora
e mentir não suscita um pecado

estamos nus, absolutamente nus 
mas felizmente ninguém vê
nossas pirocas flácidas e tímidas
nossos peitos desabados de estrias
não cheguem perto da buceta suja! 
o dinheiro não traz felicidade, rapaz! 
a riqueza não garante dignidade
e nos dói sermos tão imperfeitos

- seus filhos da puta, que julgam pelo corpo ou pela aparência ou ainda pelo dinheiro, que o inferno lhes seja pousada aprazível até a guilhotina beijar vossos pescoços de merda sujos e decadentes - seus cadáveres insepultos, voltem para onde nunca deveriam ter saído - do fundo da terra, o fundo feio da terra - vocês não gozam nem riem de verdade - vocês são um saco de merda que não aduba nada - que as tuas almas sejam estorricadas debaixo do sol 

enfim, nus - e podres, podres, mortos vivos 

Tuesday, September 12, 2017

A ditadura contra Elika Takimoto


Introdução de Ernesto Xavier

Hoje, após denúncia de "haters", a escritora Elika Takimoto foi bloqueada do Facebook, por 24h, após uma postagem em que falava sobre o fechamento da exposição promovida pelo banco Santander, boicotado e denunciado, igualmente, por membros do MBL. Colocarei o mesmo texto aqui e vou esperar ser banido. Aguardemos as consequências, Sr. Mark Zuckerberg.

Eis o texto:

​Com tudo o que aconteceu sobre o episódio-exposição-Santander, além de ter ouvido pérolas que o “banco Santander virou marxista”, “não gostei portanto isso não é arte”, “esquerdistas apoiam pedofilia” e coisas afins, o que me chocou mais foi ver o incômodo causado por um “quadro” de um homem fazendo sexo com um animal e a conclusão de que aquilo era apologia à zoofilia.

Não sou de julgar ninguém, mas achei de uma falta de coerência extrema e, porque não confessar?, uma burrice sem tamanho. (Se registrar artisticamente um crime é apologia ao mesmo o que essa gente vai fazer com os livros de literatura?)

Não tardou para ser chamada de insensível com os bichos. Logo eu, vegetariana tentando virar vegana.

No mais, só provocando, se o bicho tivesse sido desenhado morto em cima de um recipiente com uma maçã na boca cercado de batatas coradas não haveria a mesma comoção pelo animal em questão que possivelmente sofreu horrores durante a vida e na hora da morte como tantos são os bichos que são torturados e vão para o vosso prato.

Voltando ao foco de minha postagem:

Verbalizei o que senti em um tweet: “Fala que quadro mostrando a zoofilia é crime, mas nunca se manifestou contra obras retratando a escravidão. Estamos de olho.”

Ora, se retratar bicho sofrendo abuso é apologia ao crime por que as obras com os negros sendo torturados não causaram a mesma comoção? Que lógica é essa que só se aplica ao animal?

Qual foi a minha surpresa hoje ao ver o quadro completo! O que havia nele? Negros sendo tratados da mesma forma que o bicho! O que foi recortado para falaram que a exposição não prestava? E se a exposição fosse só de negros, e de mulheres negras e brancas sendo abusadas? Será que seria também proibida? Ou viraria produto pornográfico como tantos outros?

Em tempo, apologia ao crime é isso que vocês todos andam fazendo: a famosa indignação seletiva. E fiquem com essa verdade: proibir exposição porque se sentiu ofendido flerta com o fascismo. Não vai assistir, fale mal, mas censurar exposição artística jamais.


Abram os olhos e pensem antes que a fogueira de livros seja acesa porque montada ela já está.






NÃO HÁ ARTE POSSÍVEL PARA A GENTE DE BEM

Daniela Name

O Globo, 12/09/2017


RIO — Uma exposição que inflamou aquela cidade fria. Os cidadãos de bem comentavam, mesmo sem ter visto. As mães protegiam seus filhos daquelas telas, esculturas, fotografias e objetos, consideradas uma ameaça à família, ao espírito nacional, aos altos valores. Cada obra como um ataque premeditado à ordem; cada defensor desse tipo de arte como um pervertido, pedófilo, bandido ou prevaricador — talvez todos os atributos combinados. Uma patrulha civil, milícia da moral, de plantão do lado de fora, abordando e intimidando as pessoas. Afinal de contas, quem não é pelo bem compactua com o mal. Porto Alegre? MBL? Mostra queer? Não. Este texto começou em Munique, onde, há exatos 80 anos, em 1937, um certo Adolf Hitler transformou a mostra "Arte degenerada" em uma de suas principais peças de propaganda ideológica.

Nas paredes e no espaço, obras de Piet Mondrian, Emil Nolde e Oskar Schlemmer, entre outros grandes nomes da arte moderna. Esteticamente, eles representavam a ruptura com a ideia de verossimilhança e com o sistema de representação ordenado e hierárquico vigente desde o Renascimento.Simbolicamente, apontavam para a arte como um horizonte de ambiguidades, de opacidade e de ficção; um campo sem compromisso com o real; um impulso sempre faminto de liberdade e de utopia. E, é claro, um perigo avassalador para a intolerância e o discurso monocórdio de Hitler. A exposição "Arte degenerada" deu ao ditador a chancela para a destruição de obras dos artistas participantes e também de Picasso, Kandinsky e Matisse — todos vistos como vetores "judaico-bolcheviques". O resto da história conhecemos bem — ou ao menos deveríamos: obras de arte queimadas, escondidas, destruídas. Artistas e pensadores fugindo ou morrendo.

Na Porto Alegre do último feriado, uma instituição financeira internacional, o banco Santander, fechou um projeto que se dispôs a patrocinar. Uma exposição apresentada à opinião pública como um libelo a favor da diversidade, inaugurada há menos de um mês. No Rio, não vi a montagem da mostra, embora conheça bem boa parte das obras selecionadas pelo curador Gaudêncio Fidélis.

Ao percorrer os trabalhos reunidos em "Queermuseu — Cartografias da diferença", percebo que o subtítulo sintetiza muito melhor esse projeto do que seu título. Trata-se de um conjunto que procura debater, antes de mais nada, a importância da alteridade, e não apenas através de um filtro das bandeiras LGBT. Há um retrato de Portinari e obras relacionais de Lygia Clark mescladas a trabalhos de forte conteúdo erótico, como as fotos de Alair Gomes. E de outros trabalhos que apresentam cenas de sexo, mas para que elas discutam alto muito além dele, caso do trabalho "Cena interior II", de Adriana Varejão, uma reflexão profunda sobre os estupros e os bastardos produzidos em nosso período colonial. É uma mostra sobre duelos diversos para a conquista da diversidade, propostos por um grupo de obras que não veio ao mundo para nos oferecer paz. A arte e o museu contemporâneos serão sempre mais potentes quanto forem menos apaziguadores — e a reação à mostra gaúcha é apenas uma comprovação disso.

Wednesday, August 23, 2017

urbana

debaixo da sombra fria dos arranha-céus
há corações dilacerados
e mãos estendidas em vão: ninguém quer prestar atenção

homens de bem passam apressados
com suas gravatas importadas
e ternos muito bem cortados:

não há mais tempo a perder
quando se quer o Brasil de volta

- oh, retumbantes panelas!

o Brasil, a terra em transe
aquele outro, lindo e assassinado
com suas malas de dólares
e mortes a sangue-frio

choques de ordem e correção
a pátria amada de manchetes em pé
e mentiras na contramão

a cultuarem as senzalas modernas

os garimpeiros caçam pedras de morte
ao léu

a morte à vista sem constrangimentos

e passamos fingindo não ver

- estamos ocupados demais

ou acreditamos em um porco nazista
e aplaudimos um engomado calhorda

céus! céus! onde mora a vida?

debaixo dos arranha-céus há sempre
uma suntuosa estação de metrô
com seus trens cheios de cabisbaixos

escrevendo o que ninguém lerá

desprezando a vida, o amor, a fé:

- ordem e progresso são indiferença!

desembarque pelo lado direito
o que ainda resta do seu coração
dilacerado

@pauloandel

Friday, August 18, 2017

feliz ano nenhum

a violência aí está para estilhaçar o viço dos dias. ela sempre esteve, ao menos para aqueles que têm mantido seus olhares mais atentos a trezentos e sessenta graus em vez de trinta. ela sempre esteve solta, morando de aluguel no apart hotel dos olhares indiferentes, na opressão infame das comunidades carentes, sobre a mira dos fuzis covardes que estraçalham sonhos e trajetórias. a violência aí está diariamente embarcada na baía de guanabara ou deslizando pela via dutra. hospedada em confortáveis escritórios das grandes corporações, cujos prédios são batizados com nomes estrangeiros, e onde raramente se vê um negro ou nordestino que não seja em funções serviçais. lá está a violência em forma de mãos mendigas estiradas na calçada suja enquanto um executivo só passa perto do pedinte por obrigação. olhares, olhares, olhares de desprezo, de aparte, de afastamento. a violência é fácil de ser entendida quando algum boçal profere a frase “é preciso ensinar a pescar em vez de dar o peixe”, e então todos percebem que o orador nunca pescou uma bola à beira de um lago. a hipocrisia é a mãe de todas as violências. a violência é o egoísmo, o imperialismo financeiro, o racismo, o nazismo, a cólera e tudo que se vê facilmente num telejornal. os mortos pela fome, pela miséria, pelo abandono, enquanto há quem espere o próximo feriado, o recesso de natal e um feliz ano nenhum, feliz ano nenhum, nenhum.

Thursday, August 10, 2017

esmolas d'alma

república federativa infestada
de pátria amada
todos juntos vamos! 
a câmara de gás nos espera

estendemos nossas mãos 
mendigas
e pedimos o que nos resta
porque deus ajuda e muito

o amor não protege o relento
a miséria
a morte lenta nas calçadas
feito o desabrigo que é

que fim levou a nossa compaixão? 

pobres diabos com pentes de balas
garotos loucos no voo das morte

meninas tão entorpecidas, o mal
a exploração e a vã indiferença

onde mora a nossa piedade, senhor? 

estamos todos mortos, mortos
decompostos em vida, fétidos
a carne podre da hipocrisia covarde
ou a verborragia anêmica de luz

estamos imersos no mar do caos
somos corações petrificados, nus
caminhamos pela cidade perdida
aluga-se um punhado de amizade

@pauloandel 

Tuesday, August 08, 2017

poema do otimismo

eu e meu caos
a desgraça, o desabamento
os famintos nunca foram tão sofridos
nunca foram tão humilhados
nós somos a merda, o esgoto
a legião dos desprezados
e há quem ouça falar em futuro
- você conhece matemática?

eu e nossa dor, nossa bosta
no continente dos abandonados
cada um é sua própria sorte
um lance, um tiro, a morte
o voo fascinante do suicídio
será condenado pelos hipócritas
que mandam no povo, céus

nós e nosso ódio esparramado
somos campeões do mundo da cólera
ou merda nenhuma na verdade
afinal, de que vale uma rastejante subcelebridade?

nós somos o povo, a prole, a gang da gare
e podemos vender nosso esforço
nossos corpos, a força física
somos cavalinhos bem comportados
ou cordeiros mansos
a morte não existe, fica o sofrimento
a se arrastar por infernos e céus
nós somos o povo, a bosta desprezível
e os bandidos riem da nossa tristeza
ao mesmo tempo em que nunca fomos
nunca fomos tão estúpidos
e egoístas e desinformados
num dia de sol tão bonito
os velórios também existem
- e são fartos

@pauloandel

Sunday, July 30, 2017

aparência

eu não aparento em nada
a idade que tenho
nem meus sofrimentos
as dores que tenho sentido
não se vê em meu semblante

eu não sou minha tristeza

meu rosto ainda esconde os vincos
as mágoas, a grande melancolia
- nenhum traço lhes denuncia

a minha tragédia vive escondida
e ninguém pode repará-la: 
meu olhar não fala dela

é o amor que ainda me protege
até daqui a pouco
do invencível tempo

Sunday, July 23, 2017

jornada

mais um passo
na estrada agora
bem mais perto do fim
do que do começo
mas ainda há chão, terra
vento e jornada
mais um passo
mais um dia
as imagens não são as mesmas
mas existe um caminho
mais um passo
quem sabe sozinho?
quem sabe rumo ao nada?
ou para viver 
o que precisa ser vivido
ninguém repara as lágrimas
ou prefere a indiferença
ninguém oferece um abraço
a tristeza não se divide
é só um passo
uma estrada
um longo caminho
que já ficou para trás
e outro que se avizinha
sem qualquer previsão

Friday, July 14, 2017

todas as coisas vão passar

todas as coisas vão passar
até o som dos sinos que dobram
pelos que disseram adeus
tudo
todas as ilusões, todas as desesperanças
toda a infâmia vai passar
a miséria também
tudo é breve demais para cogitar eternidade
mas existe uma certeza:
o vazio
o vazio
o vazio da perda, do vão
dos esforços e sentimentos inúteis
dos sofrimentos incalculáveis
todas as coisas vão passar, até a dor
mas o vazio é o mar interminável:
antes dele, corremos para pagar as contas
chorar nossos mortos
e ter direito a pequenos entorpecentes:
a gula, o sexo, o gol, a pequenina alegria
o grão de areia de uma praia sem cor
todas as coisas vão passar
e o vazio é inevitável
o vazio
vazio

Thursday, July 13, 2017

a tempestade

não se trata de um exercício da vida, olhando para o bem e o mal. é o cumprimento de uma pena enrustida. todos os dias você acorda livre, absolutamente livre, e se depara com todos os seus sofrimentos e os daqueles que lhe são próximos, ou mesmo os irmãos que jamais verá ainda que sejam objeto da tua solidariedade. não, não é a vida como ela é, mas como ela foi imposta e você não tem o menor direito de escolha, exceto aceitá-la e sofrer para sempre ou abreviá-la por seus próprios meios, sendo condenado ao vale dos traidores, ao título de louco, de insano, de fraco, como se você fosse quem escreveu todas as desgraças que vemos todo dia. isso não é a vida como ela é, mas a tortura como ela é imposta. você está sozinho, absolutamente sozinho como sempre esteve e, ao olhar de agora para trás, revê um rio interminável com a vida afogada em mágoas, desenganos, falsidades, hipocrisias, egoísmos, invejas e violências. não é a vida como ela é, mas sim a que o sistema maldito reservou para você e os seus, os famintos e os malditos, os mendigos e os perdidos nas noites frias, cruéis e indignas. eis a tempestade, a longa e tenebrosa tempestade, varrendo as misérias do asfalto, traduzindo toda a inutilidade de luta contra o mal porque a vitória pertence aos ruins, aos sujos de alma e aos incapazes de ver o outro senão como um objeto ou saco de lixo conforme a circunstância. não há religião, política ou dialética que justifique a destruição do homem pelo homem, que aceite como normal morrer de fome, de sede e de exaustão do sentimento. 

Tuesday, July 11, 2017

silêncio

no fim, nada pode ser mais cristalino
e preciso na poesia do que o silêncio. 

Saturday, July 08, 2017

irmão

finalmente abracei meu irmão
depois de muitos e muitos anos
ele sofre demais e é triste
eu sofro por nós dois e nossos pais
a história devastada, dolorosa
ele é pobre e triste e sofre
eu me sinto morto
depois de carregar uma cruz de ferro
por quase nove anos
até que ela espatifou minha cabeça
e meu coração apodrece de dor
abracei meu irmão
e senti a mais triste felicidade
eu o queria bem, melhor do que eu
melhor do que a minha morte triste
e perdi todas as certezas
eu me sinto em chamas de um incêndio
eu estou morto em vão
e tudo que eu queria era sua felicidade
finalmente abracei meu irmão
um pequeno conforto diante do mundo
egoísta e pavoroso que sufoca
meus versos inúteis
meu irmão está vivo
o mundo segue com sua indiferença
o futuro não existe


@pauloandel

Monday, June 26, 2017

meu amor, teu deus

meu amor, teu deus
estou debaixo de sombra e água fresca
num domingo no aterro
caçando o que restou da paz
os meninos pobres, redivivos
chutando uma bola encardida
e namorando o sonho do topo do mundo
eu, que não quero ser morna nem prece
procuro os meus amigos em vão
- o tempo é implacável: somos saudade
e não sobrou uma fotografia sequer
ao longe, vejo os mendigos 
ganhando o sonho da sopa na caixa
a cidade está de folga
e todos queríamos ser paz
chutar bola em tempos de abraços
desprezar a ansiosa solidão
namorar a garota mais bonita do mundo
ou o rapaz também
até que o pai nos gritasse: o almoço
e riríamos com o refrigerante
a presença da mãe, a família
o rádio pronto para o jogo das cinco
aos pés da tarde em Copacabana
com seus bares, amigos e papos
estou debaixo dos meus escombros
mendigando um punhado de paz
o jogo é o das quatro - a rádio, desalinho
e meus amigos são plena saudade 
o amor, ah, o amor, das canções e versos
parecem tão esquecidos
até que alguém sorri e chora:
meu amor, teu Deus - a água leve 
da pia branca levou consigo
os grandes amores da nossa infância
os predicados lúdicos do romance
dos nossos começos 
e não sabemos o tempo que resta
a paz que desarma, a fidalguia: 
o que temos é amor e memória

@pauloandel 

Tuesday, June 20, 2017

chuva

a chuva incessante ganha as ruas da cidade com força. ruas que viram riachos, bueiros que são meras lixeiras e todos aguardamos a nova tragédia, numa velha repetição de erros e indiferenças. a chuva, que alegra alguns corações e faz o pavor em muitos outros, seja numa encosta ou debaixo de uma marquise. ah, chuva, que engana e não traz paz. chuva que desnorteia os outros corações, tão mendigos, e que ajuda a girar a roda da notícia - viva os sucessos populares! agora todas as regiões são uma longa noite, agora as calçadas bebem goles de inundação, agora a televisão mostra uma banda quase jovem cantando um hino dos antigos: "não sou brasileiro, não sou estrangeiro, não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum". somos de qualquer lugar. a chuva alaga a cidade. talvez não estejamos nem aí para tudo.

@pauloandel


Monday, June 19, 2017

cinismo song

I

Finalmente chegou o dia em que somos todos inúteis. Seja na condição de cracatoas assanhadas da internet, seja pela indiferença cínica que muitos de nós utilizam para lidar com o mundo, seja pela torcida por este liberalismo escroque, a verdade é que somos todos inúteis. O mundo explode em guerras, atentados, cenas violentas, traições da natureza, desencantos mis e continuamos em nossos papéis de cavaleiros da moral internauta. E do alto dos castelos virtuais, assistimos calados ao desgoverno dos pezões e malafaias, à insana escrotidão da república golpista, à farsa nojenta dos veículos de comunicação. Enquanto o mundo gira, o Brasil se espatifa e todos ficamos orgulhosos de nossos murais, dos kkkkkkk e dos mimimi. Achamos o máximo porque somos/supomos ser subcelebridades de porra nenhuma numa superpopulação eletrônica, isso quando não fazemos de tudo para eliminarmos o sub em vão. Kkkkkkk, mimimi, ahahahahahaha e aí está a certidão de nascimento de toda a nossa inutilidade. Este POST é a prova viva de que nos tornamos a sociedade do dia em que somos todos inúteis. O que mais será preciso para virar essa porra toda de cabeça para baixo, sacudir tudo e varrer a sujeira de vez? Não precisamos ser inúteis para sempre, pois. O resumo é de cada um, a tristeza é de todos nós, a conta também. Pôstis e tuítes são supositórios desconfortáveis. Até quando fingiremos que este mundo real não tem o formato desigual, escroto e fadado ao simplório fracasso? Aleluia!

Friday, June 16, 2017

midnight copacabana II

depois de ter visto a miséria e a prosperidade esmolando no mesmo balcão de botequim

e as doces tristes putas aguardando o carro que lhes sirva de sobrevivência

os garotos negros sentados no chão em posição de ataque em frente à porta das Casas da Banha, ignorados por senhoras respeitáveis e marombeiros com esponjas nas mãos

depois de ter visto e ouvido a esquina mais barulhenta do mundo na janela da casa de Marcelo Conde

os garotos fumando maconha e depois jogando football de praia com os operários da grande obra da Avenida Atlântica

e entender que Copacabana não é simples assim

nosso lorde das ruas é um mendigo com seis metros de altura, duzentos quilos e um cheiro indefectível de éter que atravessava três quadras

e que rivalizava com Ramiro, que picava mil papéis na rua Siqueira Campos e, certa vez, acertou um belo soco num reacionário debochado

os quitinetes estão cheios de dor, de luta, mas luxúria quando for o caso raro

generais de pijamas jogam cartas e cheiram pó na varanda de um grande apartamento do Bairro Peixoto

e garotos moderninhos vestidos de preto com camisetas do The Cult, passam apressados com seus copos de bebida alcoólica 

a caminho do Crepúsculo de Cubatão

o jovem poeta Fausto Fawcett cria rapa e poesias no Cervantes, quartel-general da avenida Prado Júnior

e belas garotas passam de carro a caminho do Leme, na Pizzaria Sorrento, perto da casa do ator e lutador Ted Boy Marino

já no outro lado do bairro, no Forte de Copacabana, impera um silêncio austero, enorme, que até finge imprimir um tom sóbrio aos arredores

mas como, se a Galeria Alaska ferve solta com seu interminável carnaval homoerótico? 

eu vi a calma à beira do mar que precede qualquer assassinato por motivo torpe - eu vi os sóis - eu vi três mundos 

todos eles pensativos na calçada do edifício Ritz

amanhã é um outro dia 

Saturday, June 10, 2017

cruzadas de ódio

até quando seremos mortos vivos
em nossas cruzadas de ódio
atravessando o caminho entre o nada
e o nunca
pelo prazer da humilhação alheia?

desfraldando as bandeiras da estupidez
e gritando gol a cada outro ofendido
somos felizes mortos vivos
a vida é nosso uniforme vestido ao avesso

somos estúpidos, arrogantes e bastante ignorantes: somente assim encontramos nosso lugar ao sol

num dia de céu apodrecido
e o fartum acre das ruas abandonadas

até quando nossa pretensão vai nos guiar até o Olimpo dos idiotas?
onde não temos respostas
para nenhuma das nossas perguntas

quando vamos aprender que não passamos de granadas sem pino
efêmeras por natureza
e que ao menos descuido
nos tornamos grandes bifes podres?

ou orgulhosos seres primitivos
da idade da pedra digital?

será que um dia nos livraremos do consumismo pueril e da indiferença oca?


ou seremos eternas marionetes nas mãos da TV, das grandes corporações, da nossa própria desinformação?

Tuesday, May 30, 2017

o que fode tudo

todos os dias tem uma bala perdida
uma vida destruída
e idiotas com seus impropérios de mural
a vida escorre sem sentido
as pessoas desesperadas vagam por emprego
outras por crack
e a maioria experimenta uma solidão enorme
todos os dias a TV desfralda suas mentiras em forma de notícias
e brilhantes soluções 
que só atendem o brilho nos olhos dos patrões
a gran finesse da burocracia
todos os dias experimentamos o gosto amargo da derrota
a semana jogada fora à espera da sexta-feira
os pequenos momentos de prazer e fé
porque nos dói aceitar
que tudo é uma merda
que a maioria dos nossos semelhantes
caga e anda para o outro
e quer mais que o outro se foda
de verde e amarelo 
ou com a velha e encardida desculpa
do anticomunismo 
no paraíso do capitalismo volátil
o traficante não percebe que é escravo
o policial não percebe que é escravo
e a escola sem partido é a ditadura de ocasião
todos os dias tem assalto, estupro, hipocrisia e indiferença
a sociedade é muito linda
o que fode tudo é o ser humano
o poeta bem disse: somos uns boçais
incapazes de enxergar quem oprime
ou quem realmente semeia amor
ostentando nossa formação de merda
à base de revistas, jornais e programas de merda
com fanfarrões arrogantes em tom blasè
e a grande representação
está nas caçambas cheias de lixo
os papéis de pó jogados na calçada em frente à escola
os rios destruídos, os índios queimados
os corações estuprados
a revolução não será televisionada
porque seus donos são porcos estúpidos
enquanto a maioria ignara
é tão estúpida que não consegue sequer ser individualista
e pensar em si
uhu! eu sou o rei do Facebook
sou bastante tuitado 
e não passo de bosta mole, pastosa
espalhando a apoteose do meu redor
uhu! a globo disse e eu aplaudo
batendo firme as minhas ferraduras
enquanto os caveirões 
são carros alegóricos do carnaval da morte
uhu! eu sou um bosta consumista e minha vida não faz sentido sem um shopping center
uhu! eu sou o prego na balada, o babaca na calçada ostentando bobagens
a cidade amanhece debaixo de mais um nevoeiro
e estamos vigilantes em busca do próximo feriado
o próximo vazio feriado
com nossas piadinhas misóginas, fascistas e totalitárias
porque no fim das contas temos pouco ou nada a dizer
é isso que fode tudo, tudo
sem gozo, deleite e prazer - é pantomina da foda, ilusão tamanha, desfaçatez
é isso que fode tudo
essa mistura de ganância, burrice e egoísmo
essa prepotência idiota
porque é made, made, made
made in Brazil
os mortos viram estatística
os vivos são mera audiência
os votos são o resquício da farsa
e clamamos por Deus, pela família e contra a corrupção dos outros
a nossa é terra debaixo do tapete
somos uns boçais
não entendemos o mínimo necessário
para a sobrevivência
e nada disso será ensinado 

depois do jornal nacional 


Tuesday, May 16, 2017