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Wednesday, February 21, 2018

a tristeza soberana da guanabara

inevitável é pensar:
soberana, a tristeza

em meio à tempestade

os desprezados e humilhados
ratos humanos em busca
de toca
os corações solitários
oprimidos
em terra de cobiça
e modernas senzalas

a cidade e suas águas
melancólicas
pela própria natureza:
os famintos, desabrigados
o desprezo tão humano
e alheio ao razoável

a opressão em doses cruas
o desamor a indiferença
o sofrimento em peles queimadas
e drogas letalíssimas
à venda numa TV
que nem Paul Simon acode

o amor que delinque
o tesão que não se
cumpre
os sonhos sob
escombros
a cidade afogada em
lágrimas

não há vagas
não há sonhos
não há abraços

e as mãos mendigas
afagam a morte
sob marquises infiéis

e as mãos mendigas
procuram um aperto
um abraço de palmas
mas só encontram
pequenas moedas, se muito

hoje é um novo dia
para os mais ingênuos
os indiferentes
os homens de negócios
chamando as pessoas
por números e valores
e contas desprezíveis

depois do sinal os
recados
são a consagração
da inutilidade
diante de todos os
mortos
os corações dilacerados
em vão:
somos um lindo planeta!
nosso único pecado
reside na colossal
hipocrisia
ninguém há de resgatar
a lama suja da nossa
insana hipocrisia

o sinal caiu



Thursday, February 15, 2018

Download grátis do livro "A essência do FDP contemporâneo brasileiro - uma conversa de botequim"









A Globo é a mesma de sempre

É natural que a Globo passe a mirar seus fuzis para a Tuiuti.

Acostumada a colonizar opiniões, oprimir e apartar brasileiros por meio de castas, ela não toleraria impunemente a verdadeira humilhação que passou na Sapucaí, ao ter pago para transmitir a demolição de suas mentiras em rede internacional. E, como sempre faz, agora busca meios para destruir moralmente sua nova inimiga número um.

A "novidade" é, em nome de sua ética elástica, apontar o terrível acidente que vitimou uma pessoa ano passado na avenida como a "mancha" para o desfile-denúncia que ganhou o mundo no Carnaval 2018. Tudo dentro das perspectivas de cinismo de quem vê o povo brasileiro apenas como mercado consumidor, dócil e submisso.

Quantos crimes contra o povo brasileiro têm sido estimulados, apoiados ou promovidos pela Globo no último meio século?

A mesma Globo que fez tudo para sabotar o Carnaval de 1984. Ou a que apoiou todos os golpes contra a democracia no Brasil, para décadas depois 'pedir desculpas' cinicamente. Ou a que editou criminosamente um debate presidencial para impor seu candidato ao país, elegê-lo a marretadas e depois descartá-lo quando ele contrariou algum de seus interesses.

A Globo que hipocritamente denuncia o 'crime' da Tuiuti é a mesma que sempre apoiou, bajulou e promoveu poderosos homens do Carnaval, todos eles com enorme ficha criminal desde sempre. Nunca se preocupou com crime algum. É uma farsa. O que lhe incomoda é ter sido desafiada perante o povo brasileiro, sem capacidade de reação simultânea, exceto a ridícula supressão de comentários na reprise do dia seguinte.

A mesma Globo que, anualmente, com a força de seu dinheiro (obtido dos pobres que ela tanto odeia), humilha as escolas de samba porque "paga a transmissão". O desfile é transmitido cortado para dezenas de milhões de pessoas há anos. As primeiras escolas a desfilar, excluídas. Trabalhadores de um ano inteiro são condenados à invisibilidade para que ela, Globo, possa exercer os seus caprichos de programação. Quem não aceitar, está fora.

A mesma Globo que 'promove o futebol', impondo-o nos horários mais estapafúrdios, mas paga propina para a FIFA visando unicamente benefício próprio. Ética e moral seletivas.

A mesma Globo que quer triturar o brasileiro com essa farsa da reforma da presidência, mas que não esboça a menor preocupação quando um de seus funcionários, alçado à condição de 'presidenciável' (é a cara da emissora), 'fatura' um jatinho no BNDES para gerar zero emprego. Aliás, falando em dinheiro público, em matéria de calotar tributos a empresa de comunicação (editada) é multicampeã de todos os Carnavais. E depois coloca a culpa nas aposentadorias...

A mesma Globo farsante que, durante anos e anos, tentou destruir a imagem de Leonel Brizola, até que um dia foi humilhada em suas próprias câmeras de transmissão por determinação da Justiça, a mesma que hoje ela faz tudo para manipular, tratando os brasileiros como marionetes ou fantoches.

Qualquer semelhança de reação odiosa contra o desfile da Tuiuti em 2018 e o vídeo abaixo não é mera coincidência.

Nos dois casos, a Globo foi desmascarada em rede nacional, diante de suas próprias barbas.

https://youtu.be/ObW0kYAXh-8

Tuesday, February 13, 2018

todos todos os dias

todos os dias, morre um policial a tiros, disparados por armas que os bandidos compram da própria polícia.

todos os dias, os golpistas tentam convencer os golpeados de que a corrupção deles é legítima.

todos os dias, escravos contemporâneos batem palmas para os maus atos dos senhores de engenho da era moderna - e vibram com as chicotadas que sofrerão

todos os dias, a estupidez comum impede o entendimento das manipulações praticadas pela TV, seus jornais e demais veículos de comunicação

todos os dias a massa de manobra não percebe que é manobrada, enquanto os fantoches se divertem com a própria mediocridade

todos os dias, o ódio tem vencido o amor, a fome tem vencido o conforto, a hipocrisia tem vencido a sensatez, a cobiça tem vencido a paz

todos os dias, a humanidade escorre pelos ralos em troca de nada, a maior parte das vidas é sofrimento em troca de nada, a miséria é a lei magna

todos os dias são a casa grande para poucos, a senzala para uma multidão, mas ficamos felizes com nossos smartphones em plena idade média

todos os dias são mãos mendigas estendidas, gravatas e ternos em correria, ladrões em bando dando porrada e matando, o caos latejando

todos os dias são de cidades esfaceladas, vidas perdidas, ordem e progresso das mentiras e crimes, a banalidade da morte, a opressão

todos os dias são pavor, morte, tristeza, pobreza, exclusão, aparte, insensatez, ignorância, tragédia e muita estupidez

é preciso mudar estes dias, a ferro e fogo, a espuma de sangue a brilhar, acabar com uma escravidão que nunca foi extinta, apenas realinhada, adaptada, marretada

@pauloandel

nem um lugar

nem um lugar
um mísero lugar
nenhum lugar
escreve amor

Monday, February 12, 2018

tempestade

há muitos anos tenho
visto as dores
o sofrimento
dos outros o meu

todos parecem tão
felizes enquanto
choro - ninguém repara
ou finge não perceber

tenho sido testemunha
das misérias infinitas
da indiferença e até
do ódio cru e rijo

já vi de perto os dramas
as tragédias as mortes
o desespero e muitas vezes
não encontrei
outras lágrimas além
das minhas

ah, as pessoas estão
ocupadas
elas têm suas vidas
ou estão desinteressadas:
ninguém tem culpa
deste mundo injusto
e cruel exceto
a raça humana

agora vejo a melancolia
a violência o ódio
o assassinato por nada
ou quase nada ou qualquer
coisa - a selvageria venceu:
ela mora nos discursos
dos homens brancos de bem
e também nos porretes dos
bandidos pretos e brancos
ou de qualquer outra pele

agora vejo o passado em
remake: a idade média tem
smartphone o crime tem
piratas e quadrilhas selvagens
enquanto se mija e caga
nas ruas tão carnavalescas

agora o futuro é ontem
a esperança virou desprezo
e só falta acontecer de vez
a nova guerra dos cem anos
as cruzadas os corpos
estraçalhados por cavalos
as cabeças decapitadas
tudo está aí no jornal nacional
e o contragolpe não será
televisionado o contragolpe
não será televisionado
ainda somos os mesmos
e vivemos chicoteados
por manchetes editadas
por farsas golpistas e mãos
estendidas à espera de
uma esmola em salvação

há muitos anos tenho sido
o menino mais triste
do mundo
não importa quem esteja
ao meu lado a cada passo
eu choro pelas dores de tudo
e sou o menino mais triste
do mundo ainda mais agora
que o fim parece tão mais
perto do que o começo

mas as pessoas estão felizes
ou fingem estar felizes
- o errado sou eu certamente
não sei enganar a mim mesmo
e sei que o tempo é cada vez
mais escasso e rápido, rápido

minha dor reside em testemunhar
a grande ilusão do mundo
e toda a minha impotência
não salvarei nem a minha vida
triste e deprimente vida - não:
eu não tenho mais tempo
nem força nem esperanças
em deixar um pedacinho
de terra melhor do que encontrei:
nem terra eu tenho!
o que me restou foi procurar
beleza em meio a uma
tempestade interminável

minha dor respira, inspira, respira
sem ajuda de aparelhos sem atenção
caridade ou amizade sem mais ninguém
a minha dor é o que me basta

@pauloandel


Sunday, February 11, 2018

um abraço de Carnaval

Dois homens conversando nas imediações da Mem de Sá em plena alvorada do domingo de Carnaval. Podiam estar indo ou vindo, mas ali eram apenas dois confidentes, talvez tentando espantar a tristeza com um dos únicos punhados de celebração destas terras, que é quando as pessoas vão às ruas e cantam, dançam, transam, gozam, vibram e procuram algum sentido numa vida que é, entre sofrimentos, o intervalo para um trago ou um gole.

Falavam baixo para uma festa e alto para a madrugada, quase atrapalhando o sono desesperado dos mendigos nas imediações. Falavam de samba e sociedade, de alguma alegria e afeto, de pequenos brindes e deliciosas ilusões.

Quando se abraçaram, eram mais do que amigos ou irmãos. Dois camaradas, dois sobreviventes da guerrilha urbana, dois trabalhadores humildes celebrando os últimos momentos da primeira grande noite de Carnaval.

Um tomou um ônibus qualquer. O outro tomou o caminho de casa a pé. A noite acabou, o silêncio apareceu, o negrume do céu fica cada vez mais azulado, a Praça da Apoteose estava deitada em seu berço esplêndido. Ainda vai ter festa, mas tudo passa tão rápido que é preciso saborear cada momento.

Duma janela nas imediações, um velho homem testemunhara a despedida dos dois camaradas. Pensando em seu passado, quando acreditava ter amigos e estar longe do fim, ele se calou e chorou.

É Carnaval, mas existe um estranho cheiro de ruas tristes no ar.

Wednesday, February 07, 2018

eu não tenho a menor ideia

se existe alguma verdade
ela é: não sei
não sei da minha vida
não tenho planos
não sei se a minha morte
está logo aqui ou longe

não sei quem me amou ou ama
quem gosta de mim
quem me abraçou de verdade
e sente falta

não sei direito a quem ajudei
se influenciei alguém
quem se emocionou com algo que fiz

eu não sei quem pensa em mim com amor
não tenho a menor ideia de quando fui marcante
ou se fiz chorar por algo bonito
será que lembram de mim no sniff?
no que sobrou do loreninha?
ou da parede de uma casa aos escombros
em arraial do cabo?

quem comprou discos de jazz comigo
em ipanema?
quem me ouviu em mesas de bar?
eu não tenho a menor ideia
se sou importante para uma única pessoa que seja
e realmente não penso nisso:
o que fiz e tenho feito é ser sincero
amar e ajudar o próximo
desde os tempos em que fiz uma promessa
quando era um garoto com o mundo pela frente
quando fred era meu amigo inseparável
e jogávamos botão à tarde numa mesa de tacos

eu não tenho a menor ideia
de quem me lê ou escuta
quem sorri com minhas pequenas trapaças
em versos tortuosos e nada óbvios

quem entende por que vivo numa guerra particular
chorando e vendo os destroços da gente
amontoados debaixo das marquises?

eu não sei
sobre os piores futuros que se avizinham
sobre o meu tempo
que é cada vez mais perto do fim
do que do começo
das coisas que passam velozes
feito a paisagem numa bela janela
do vlt
eu não sei dizer
porque gosto tanto de miles davis
e jorge mautner e carlito azevedo
de rubens figueiredo e cacaso
e também jards macalé - tom zé
como se todos estivessem comigo
a conversar sobre o nada - uma ilusão

eu não sei dizer
porque sempre choro no cinema
e sofro tanto com a dor de um mundo
que não tem solução
nem que eu fosse egoísta
e só pensasse em mim mesmo
eu não sei dizer
se whatsapp é amizade mesmo
se normalidade é distância e frieza
não sei dizer o que é normal
no dito mundo dos adultos
o quê?
                  [aqui padeço a cada dia
                   como se cumprisse uma pena

eu não entendo o mundo e seus rancores
suas vaidades ocas
o pedantismo reinante
se vamos todos um dia
ser carne apodrecida ou cinzas
numa caixinha
é tudo tão inútil

eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia

mas nem isso me liberta
e sigo vivendo até não sei quando
o que virá

a luz no fim do túnel
o desabamento final
ou qualquer coisa muito diferente
de todas as que pensei
e vivi - até aqui quase nada
fez sentido mas talvez
o grande lance seja mesmo este:
ficamos a procurar pela vida inteira
o que não existe
o que faça sentido porque
na verdade a vida e o sentido
devem caminhar em paralelas perfeitas

                             [elas jamais se cruzam

eu não tenho a menor ideia
eu não tenho a menor ideia


@pauloandel 

Monday, February 05, 2018

o suicídio da cidade

há tristeza 
tão sincera por 
todos os poros
da cidade

mergulhada na 
falsa felicidade
do Facebook
nas verdades ocas
do WhatsApp
nas manchetes mentirosas
dos jornais
e suas imitações baratas

a tristeza é vencedora
nos semblantes arrogantes
na indiferença para com 
as mãos de esmola 
no ir e vir das gentes apressadas
no silêncio dos vagões lotados
e cabeças pensantes 
com fones de ouvido

há tristeza na política 
feita por gente de merda
na hipocrisia de generais
e juízes de merda 
tristeza nas grandes avenidas
nas vielas, nas ruas esquecidas
há tristeza nas mãos armadas
de jovens traficantes 
deixando a vida escorrer
em rastilhos de sangue seco 

a tristeza nas portas das lojas
cerradas
nas vagas já preenchidas
na violência primitiva
no desamor que prevalece
e no amor que só existe
nos desencontros 

há tristeza numa banca de revistas
sem leitores
numa carrocinha de açaí
sem compradores
numa linda praia de Copacabana
deserta e fria 
há tristeza nos arredores
da Cinelândia 
e da avenida Rio Branco

é carnaval, e daí? 
a tristeza é a grande vencedora
a campeã do desfile
escondida entre os sorrisos
a cantoria, o tesão 
a tristeza pelo que poderia ter sido
mas nunca será
a geografia permanecerá intocável
mas é impossível esconder 
a tristeza: somos sem dúvida
uma cidade triste
por todos os poros de concreto
em cada gota de sangue 
nas artérias de asfalto 

tanta beleza infinita 
num mar interminável 
de corações tristes
e outros, infames, egoístas
é carnaval, é carnaval
mas muitos de nós carregamos
no peito um funeral
lágrimas contidas 
e a sensação de que já
fizemos o suficiente
o suficiente
o suicídio da cidade é um poema
alguém não para de chorar! 
celebremos o fim do que sequer
começou 

@pauloamdel 

Sunday, February 04, 2018

somos todos ódio

agora temos ordem
e progresso
somos todos
ódio
cólera
desprezo e empáfia
no outro vemos apenas
um escravo
um bosta
um número
odiamos nossos vagabundos
na calçada
mas aplaudimos nossos pilantras
de gravata
parecemos tão antenados
mas somos cópias do discurso
da televisão
as chacinas já não nos importam
não temos nada a ver com isso
e acreditamos com fé, santa fé
em nossa estupidez carnavalesca
adoramos criticar ditadores
mas somos incapazes de enxergar
a tirania que envolve as nossas favelas
as nossas favelas
as ruas e praças e bairros:
viramos reféns da nossa própria indiferença
o que podemos oferecer é ódio
foda-se o outro o pobre o bosta
somos pessoas de bem
quem nunca saiu na mão com uma mulher?
quem nunca recebeu auxílio moradia?
nós somos contra a corrupção
(dos outros)
nós somos em defesa da família
(a nossa)
e assim vivemos em berço esplêndido
da nossa fina hipocrisia
namorando vitrines de shoppings
gritando uhu atrás dos cordões
xingando o show da travesti
e nos calando diante de traficantes morais
um helicóptero de cocaína não nos importa
queremos ser classe pose e presença
mas na essência
não passamos de filhasdasputas
- eis o nosso doutorado!



Wednesday, January 31, 2018

o poema da grande farsa

   Radiohead, The Bends, 1995

  You can force it, but it will not come
  You can taste it, but it will not form
  You can crush it, but it’s always here
  You can crush it, but it’s always near
  Chasing you home
  Saying
  Everything is broken
  Everyone is broken
  You can force it, but it will stay stung
  You can crush it as dry as a boné
  You can walk it home straight from school
  You can kiss it, you can break all the rules
  All the rules
  But still
  Everything is broken
  Everyone is broken
  Everyone is
  Everyone is broken
  Everyone is
  Everything is broken
  Why can’t you forget?
  Why can’t we forget?
  Why can’t you forget?

  xxxxxxxxxx

  Você pode forçá-lo mas isso não virá
  Você pode prová-lo mas isso não vai se consolidar
  Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará aqui
  Você pode pressioná-lo mas isso sempre estará por perto
  Te seguindo até sua casa dizendo
  Tudo está quebrado
  Todo mundo está quebrado
  Você pode forçá-lo mas isso continuará incomodando
  Você pode esmagá-lo tão seco quanto um osso
  Você pode levá-lo à casa direto desde a escola
  Você pode beijá-lo, você pode quebrar todas as regras
  Todas as regras, mas ainda
  Tudo está quebrado
  Todo mundo está quebrado
  Todo mundo está
  Todo mundo está quebrado
  Todo mundo está
  Tudo está quebrado
  Por que você não pode esquecer?
  Por que nós não podemos esquecer?
  Por que você não pode esquecer?

  xxxxxxxxxx

  RAY CHARLES


  duas e meia da manhã
  o sono está morto
  a noite está viva
  ray charles canta na TV
  e parece vivo demais
  cego, enxerga tudo:
  os tons, as matizes
  america the beautiful
  ray charles é cego
  mas enxerga tudo no mundo
  correm os metais de Montreux
  you make me feel so Young
  meu país é um sequestro
  meu povo, perdição
  meu time é a mais alegre
  das tristezas
  meu povo, exílio
  existe ódio nas esquinas
  a plateia bate palmas
  a eterna voz ainda ecoa
  é impossível ser feliz sem música
  meu país acabou
  deixe seu recado no whatsapp
  ray charles me redime
  da dor e tristeza insone

  xxxxxxxxxx

  O POEMA DA GRANDE FARSA

  ATENÇÃO: NÃO RECOMENDADO
  PARA IDIOTAS. PROVOCA EFEITOS
  COLATERAIS. LEIA A BULA.

  todo esse ódio veio de longe e vai dar merda quem ri desse mar de ódio ainda vai lembrar quando   tomar a pedrada nos cornos do ódio um tricolor com ódio do outro e meia dúzia de picaretas   sonhando com a vitória meia dúzia de picaretas sonhando com emprego meia dúzia de picaretas   pensando em si e o resto que se foda o amor tem sempre a porta aberta tem dois fluminenses um é    eterno das lembranças do amor da luta dos abraços até nas horas mais difíceis perdendo ou   ganhando   o outro acabou aquele dos abraços e de uma só torcida acabou parabéns panfleteiros do   ódio parabéns candidatos do ódio parabéns situacionistas do ódio parabéns higienistas da   arquibancada do ódio parabéns irresponsáveis do ódio o Fluminense vai ganhar e perder ruim ou   bom vai sobreviver mas uma coisa acabou morreu já se encontra em adiantado estado de   decomposição o respeito entre os irmãos de arquibancada está tudo morto e podre as vísceras   rachadas as carnes dilaceradas os vermes navegando por entre os restos de músculos o cheiro de   merda lancinante o fedor do ódio o imbecil que sorri do incêndio enquanto a vítima faz seus últimos   acenos da bela janela francesa antes do braço desaparecer no meio da fumaça preta o Fluminense   está vivo vai viver o ódio venceu apenas os idiotas comemoram somente os idiotas semeiam o ódio   todo idiota tem no ódio a sua única fonte de sobrevivência viver o Fluminense sem intermediários   sem filhasdasputas que só pensam em lucro sem filhasdasputas que só pensam em cargos sem   filhasdasputas que só pensem em si só os idiotas se acham superiores com ódio nosso futuro   recomeça o grande cão late na porta do umbral esperando por todas as almas insanas e sementes   ódio mil vezes ódio estúpido eis a grande farsa o ódio é a farsa todos são fluminenses muitos são   cada um por si outros pensam na morte do outro na destruição do outro mas só quem morre é o   Fluminense todos serão infelizes para sempre os sócios estão mortos os torcedores estão mortos as   carnes estão putrefatas O FLUMINENSE vai viver vai sobreviver vai seguir seu caminho o ódio   precisa morrer quem semeia o ódio está morto e não sabe todos devem renunciar todos devem   renunciar a grande farsa todos estão neste mesmo prédio em chamas e uns acham que só os outros   vão morrer o poder está morto a contestação está morta a luta continua amanhã é um novo dia é   preciso protestar contra tudo é preciso tirar o Fluminense da morte mas isso não pode ser a morte de   uma legenda uma torcida um abraço uma arquibancada viva a Young Flu viva a Fôrça Flu viva o   Fluminense dos amores das vitórias improváveis dos timinhos ganhadores morte aos falsos aos   hipócritas às contas mentirosas aos CNPJs morte à sonegação morte aos defensores do ódio ESTÁ   TUDO MORTO ENTERRADO podre burro estúpido ignorante reacionário imbecil há de haver um   jogo há de sempre haver Fluminense resta abortar todos os intermediários interesseiros de merda   resta desprezar todos os bandidos de computador de merda resta refundar um clube uma torcida um   time uma pátria um amor só os idiotas são felizes só os idiotas odeiam só os idiotas não sabem   renunciar FORA TODOS DE DENTRO DE FORA DE CIMA DE BAIXO viva Nelson Rodrigues   morte a todos os seus imitadores de merda morte ao ódio morte ao ódio RENUNCIEM TODOS DE   DENTRO DE FORA DE CIMA DE BAIXO chega de ódio chega de incompetência chega de   internet chega de livros chega de blogs chega de redes imbecis chega de famosos de anônimos de   bizarros vamos celebrar a estupidez humana o Fluminense vive respira luta e é um poema   verdadeiro  não uma farsa de quatro mil quando milhões o esperam chega de empresários de merda   chega de funcionários de merda chega de traição em nome do amor SÓ OS IDIOTAS SÃO   FELIZES venha que o que vem é perfeição Fluminense sem intermediários time stand still time   stand still MANDAR O ÓDIO OS CARGOS A EMPÁFIA A INCOMPETÊNCIA E 2019 À   MERDA o caos é aqui a morte é aqui os inimigos riem de toda a nossa estupidez nós mesmos nos   matamos nós mesmos nos odiamos nós mesmos nos fuzilamos e sequer nos conhecemos o cu do   mundo hora de refundar um clube um time uma torcida sem escola as crianças mortas não existe   salvador da pátria todos são mentirosos ao assumirem esse papel o ódio deve morrer SÓ OS   IDIOTAS SÃO FELIZES OU INSENSÍVEIS não abracei meu pai morto num jogo do Fluminense à   toa só a poesia liberta do ódio e dos ignorantes vamos celebrar nossa destruição só o Fluminense é   importante morra o ódio o hino fala de amor não sejamos estúpidos todos devem renunciar ao ódio   aos cargos às aparências há um prédio em chamas espuma de sangue a brilhar só bandidos podem   comemorar esta dor esta estupidez todos devem renunciar ao que estão fazendo todos devem podem   precisam todas as políticas devem morrer mais do mesmo é a morte na janela incendiada em nome   do ódio somos todos merda terra arrasada a estupidez de quem agride a estupidez de quem não ouve   a estupidez de quem não estende a mão a estupidez de quem ganha dinheiro às custas da desgraça   do Fluminense não vender o amor próprio não vender as próprias palavras não alugar o próprio   caráter oh santa estupidez a estupidez de quem quer conseguir emprego no Fluminense aparecer no   Fluminense botar uma melancia no pescoço enfiar a melancia na cloaca os bilionários podem   chacoalhar suas joias ódio é merda ódio é merda tudo precisa mudar a partir deste momento dentro   fora aqui aí lá aqui aí eu era falso porque tinha ódio e morri então o ódio morreu e morto estou cada   vez mais vivo O FLUMINENSE VIVE viverá um dia tão bonito também pode ser o dia de um   velório triste não precisará da estupidez de quem cantou esta canção oxalá aleluia todos os versos   são         tristes

 (este poema contém trechos de “Perfeição”, Renato Russo, 1994; “O cu do mundo”, Caetano   Veloso, 1989; Jards Macalé, “Só morto”, 1969)

Friday, January 26, 2018

city heartbeat

o coração da cidade
quente, forte, nublado
com seus meninos sem
esperança

os mendigos vivem a morte
em vida


e se tornam invisíveis
a quem os vê como lixo
obra do diabo, chorume
gente que não presta!


os grandes edifícios cheios
de indiferença e rancor
dos pavimentos altos não
se escuta o som do térreo


os transeuntes vêm e vão
muito ocupados com música

as grandes filas têm solidão
pouco se percebe o que está ao redor


o coração da cidade
é um peito vazio, perdido
acabrunhado
e assim vamos todos
juntos escrevendo


o futuro

@pauloandel

Wednesday, January 24, 2018

porque escrevi FDP

a essência
do fdp contemporâneo
brasilêro

"sem textões.
tudo o que eu tinha a dizer sobre o que aí está.
tem estado. vai estar.
jesus não tem dentes no país das panelas.
o estado mínimo é a escrotidão máxima.
o mais incrível de tudo:
apesar de escrever publicamente
há vinte anos, e de ter vendido alguns
poucos milhares de livros sobre football
consegui mil downloads desta obra grátis
em cinco dias não pelo talento que sei ter
não pela ideia de tributar o grande filósofo
Alberto Pimenta, mas
porque escrevi FDP na capa do livro e
ele é muito mais do que isso.
o brasileiro médio da vitrine do shopping
aquele que repete como papagaio
todas as nossas manchetes farsantes
é ou não é um FDP admirável?
o brasileiro médio é o escravo que tem
tesaum pela chicotada do capitão
do mato.
do mato.
mato!
fiz esse livro de graça
para esfregar na cara dos pobres
diabos
é melhor já ir se acostumando
com o quinto dos infernos, a casa do caraio
o ódio, a fome, a merda
os corpos em decomposição da alma
amontoados debaixo das marquises
muito obrigado aos que me inspiraram:
vocês são três letras
do fundo do meu coração.
paredón para quase todos."

Sunday, January 21, 2018

os miseráveis

os miseráveis choram
seus mortos e vivos
estendendo suas mãos
para esmolas de fraternidade
que jamais virão:
os escravos de hoje
são os de ontem, ontem
e muito tempo atrás.
os indiferentes não
têm tempo a perder:
querem apenas viver bem
em nome do tímido deus
não criaram o mundo
e assim explicam as suas
indiferenças
os escravos sentem o açoite
n'alma enquanto vivem
sem uma esmola de paz


Wednesday, January 17, 2018

Wednesday, January 03, 2018

onze anos sem minha mãe

Quem se lembra do que estava fazendo há exatos onze anos neste momento? Eu cochilava às nove da noite e não sabia que minha mãe estava morta no quarto. Meu pai só percebeu à meia noite e então passei a pior noite de toda a minha vida. Era cedo demais: ela mal completara 61 anos. Morreu dormindo, como merecem os melhores.

A dor mudou minha vida. Eu já escrevia desde os anos 1990 mas não levava muito a sério - a ponto de ter desperdiçado a oportunidade de colaborar com uma revista dirigida por dois vencedores do Prêmio Jabuti. Mas em 2007 tudo mudou: para ocupar a minha cabeça cheia de tristeza, passei a escrever, escrever, escrever e, quase num golpe de sorte, publiquei meu primeiro livro. De lá para cá, já ganhei muitos abraços na rua e em jogos do Fluminense, emocionei muitas pessoas que me agradecem reservadamente, virei amigo dos meus ídolos e o próprio Flu me homenageou. Ok, isso também atraiu gente falsa, interesseira e oportunista, mas só recebe bajulação e pedradas quem está na moda. Foi mal...

Conheci grandes pessoas, fiz rir e chorar muito, juntei amigos - o que nem todo mundo suporta -, e tenho sido um ótimo escritor, sem falsa modéstia. Para quem acha futebol um assunto menor, os Cenas do Centro do Rio aí estão.

A minha diferença primordial para muita gente deslumbrada por aí está num ponto: não comecei nisso em busca do mundo dos likes, dos compartimentos e da "fama" (quantas pessoas são realmente famosas num mundo com transbilhões de pessoas?). Nada disso: quando saiu meu primeiro livro, há sete anos, eu nem tinha Facebook - e o fiz por sugestão de amigos e da editora, para divulgar o trabalho.

O que me trouxe até aqui, quinze livros depois, entre solos e coautorias, foi a tentativa - em vão - de ocupar a minha cabeça depois de perder minha mãe. Isso nunca mais vai mudar e vale para meu pai, minha família, as pessoas queridas. Às vezes choro, todo dia tenho uma saudade de Madredeus, eu me pego pensando em algum momento e então escrevo.

Foi por isso que, um dia, muitos de vocês me conheceram. A todos, um grande abraço e muito obrigado.

Sunday, December 31, 2017

a mudez

calar-se é falar tudo
nas entrelinhas da imaginação
o silêncio que provoca
sugere e excita
que faz pensar e sonhar
a mudez que tudo diz
ou aguça os pensamentos
os desejos provocantes
calar-se é dizer tudo
para o bem e para o mal
para o gozo e a frustração
não dizer, não comentar
observar, querer
e até mesmo desprezar
com classe
calar-se é oferecer
mil caminhos e também
a dúvida: será, será?

Saturday, December 30, 2017

quinze anos

Eu andava com meu amigo Xuru pela Domingos Ferreira até que chegamos ao prédio onde ficava o grande apartamento de seus padrinhos, falecidos um ano e meio antes - lá fizemos uma grande festa de Réveillon que não deu exatamente certo. Não podíamos mais subir: parentes do Sul, subitamente surgidos, mandaram trocar a fechadura para que não entrássemos mais no apartamento. A missão era apenas pegar as contas na caixa de correio para pagá-las.

Xuru passou a vida inteira frequentando aquele apartamento e, se justiça houvesse, teria herdado o imóvel: era tratado como filho. Foi um pacote duro: além dos padrinhos, ele tinha perdido a mãe e acabara de se recuperar da primeira cirurgia do câncer que o vitimaria menos de três anos depois.

Depois de pegarmos as contas, ficamos olhando para a fachada do luxuoso prédio onde entramos tantas vezes. Segundos depois, ele disse "Paulón, foda-se esse apartamento. Ele só me importava por causa dos meus padrinhos. Se querem ganhar dinheiro com essa merda, que ganhem". E fomos embora, talvez para comer um lanche e tomar um chope.

Esta cena completa exatamente quinze anos hoje.

Xuru foi embora de vez em 2005. Ontem, teria feito 47 anos. Não chegou aos 35. Foi uma luta enorme até o fim. De lá pra cá, muitas coisas mudaram, algumas delas para pior, outras não. Perdi minha família, fiz novos amigos - o Leo hoje é uma espécie de Xuru sem a filosofia, digamos, "bring on the night". De resto, o mundo ficou mais colérico e odioso, o que atinge a tudo: a política, a sociedade, o cotidiano e até mesmo o meu Fluminense, do mesmo jeito que fizeram com o Brasil em 2015.

Este foi um ano de merda. Vi amigos sendo demitidos, pessoas passando mais necessidades, a fome está a olhos nus pelas ruas - só não vê quem não quer - e, no fim das contas, muitas vezes o próximo não está nem aí para você - e depois os outros bichos é que são irracionais. Ok, publiquei três e-books tricolores para download gratuito e, finalmente, dois pocket books sobre o centro desta cidade devastada. Vi grandes shows, namorei, ganhei elogios, involuntariamente também alimentei recalques de gentinha, acontece. Estou vivo, com alguma saúde. Vamos em frente, sem pensar muito. Eu não penso somente em mim e isso é o que me encaminha à infelicidade, mas não me arrependo.

Começarei o ano cheio de problemas, com pouquíssimo apoio e precisando manter a casa em pé, enquanto assisto nas ruas ao sórdido espetáculo diário do sofrimento coletivo. Vida que segue, diria o mestre Saldanha. Vamos para mais uma tentativa. Estou cansado. Muito cansado. Mas é nessa hora em que o sprint é necessário, mesmo sem família, sem Xuru, testemunhando a agonia de um país golpeado, pensando em gente feito meu tio Mendel, que arriscou a vida para defender esta merda e que,  deprimido no exílio, cometeu suicídio. Ou sabendo que meus amigos de hoje vivem a vida muito mais pelo Whatsapp do que por qualquer outro meio.

Sem medo nem esperança, olho para trás e me recordo de uma bela lição do meu amigo: o ser humano é mais importante do que qualquer bem material. E mesmo que pareça uma bobagem, eu vou com ela até o final. Só me resta escrever.

Onde está o Xuru?

Thursday, December 28, 2017

feliz 2018

we won't
get fooled
again

Townshend/Daltrey

impotência

o amigo que sofre
a dor que devasta
o silêncio opressor

nós não somos merda
nenhuma

e perdemos nossos tempos
com tolices em vão

o amor que dorme
o desencontro
a certeza do melhor
que já se foi

o que vai restar dos versos
além das lágrimas?

quando as drogas acabarem
sem lugar para comprar

nós não somos bosta
nenhuma

os cemitérios estão lotados
de likes e compartilhamentos
e visualizações

todos estão mortos

deus seja louvado

vamos aplaudir a queima
dos fogos
e fingir que o novo é novo
é um pé na porta

fingir que não há dor
sofrimento
que o outro não é nada
ah, real estupidez!

vamos aplaudir o ano novo
e o mundo
enquanto somos mortos
vivos mortos
vivos
não há saldo na conta corrente
the time is gone!

hoje a festa é sua
filhadaputa!

niilismo

se os novos críticos musicais atacam a Pablo por homofobia, fodam-se eles todos. se ela, Pablo, é obesofóbica, que se foda muito também. fodam-se todos. fodam-se os paneleiros, os golpistas, os ignorantes, os bandidos, os corruptos, os massademanobra. fodam-se os recalcados, as subcelebridades, a flubabaca. fodam-se todos os opressores, os covardes, os machões de teclado, os bonzinhos que não querem se envolver, os estapafúrdios, os coléricos sem causa. fodam-se o mbl, o pfl, as ditaduras da al, as organizações globo, a folha, o estadão, a casa do caralho. fodam-se todos os que estão silenciados perante o helicoca, as propinas da FIFA, a bodytech. fodam-se cabral e sua gang nos quintos do inferno. fodam-se de verdamarelo ou quaisquer cores e cinquenta estrelas. fodam-se os lobistas e vigaristas. foda-se o bitcoin e seus especuladores. foda-se trump e também o velho ridículo golpista do inferno. fodam-se os idiotas que abanam o rabo com as mentiras sobre os dados de emprego, renda e pib. fodam-se todos os egoístas, os fascistas, os totalitaristas do capital. fodam-se, fodam-se muito, sem sexo e gozo, mas o foder da vida. fodam-se os arrogantes, os indiferentes, os que não têm apreço pelo outro, os traidores da amizade. o concreto já rachou, a destruição é a moda, ninguém quer saber de ninguém e que todos estes se fodam. foda-se o ano novo, o carnaval, a copa do mundo, o próximo feriado. fodam-se as mudanças que não virão. foda-se o futuro: ele é a morte. um minuto de silêncio em memória de todos os oprimidos e desprezados neste mundo injusto de merda. o resto que se foda. fodam-se todas as fake news e breaking news. paz, onde mora a tal paz? o mundo é maravilhoso, a desgraça é o serumano. 

Wednesday, December 27, 2017

um intruso no mundo

eu não quero ser

o grito de ódio
a gota d'água
o suspiro inútil
a despedida

não, não quero!

este dia amargo
não é meu
nem a selvageria
a escrotidão ao léu
este sangue morto
não me pertence
essa cólera fétida
não!

não, mil vezes não!
este cheiro asqueroso

eu só quero vender
meu cachorro quente
e ter um pouco de sombra
sem luxo esdrúxulo
sem gourmetizações
eu só quero olhar o céu
e ter a certeza de que
não feri ninguém

espiando os escoteiros
parados bem perto
do monumento nacional

pensando em música
e cultivando amor
num quartinho

essa rua não é minha
nem o bairro, a cidade
eu só queria não ser
um intruso no mundo

um intruso no mundo

um intruso

@pauloandel



Monday, December 25, 2017

meia noite inteira

o teto é o céu
e o motor do
ventilador é
uma turbina de
avião: vamos
decolar! meia
noite inteira os
versos estão
cansados os
beijos estão
mortos a viagem
é longa meia
noite inteira os
amores silenciados
agora é um novo
dia inútil ninguém
à espera no ponto

@pauloandel

Saturday, December 23, 2017

quando você morre

há muitas maneiras de se estar morto em vida. você morre quando o ódio triunfa, quando a dialética é destruída pela ignorância, quando a ingratidão anda de mãos dadas com a indiferença. você morre quando beija o desamor, quando o abraço é formal, quando a democracia prevê senzalas. você morre quando as crianças são tristes, os idosos têm melancolia e os adultos estão ocupados demais no whatsapp. você morre quando um bandido acerta uma bala na cabeça de um inocente, mas também já morreu quando aquele mesmo bandido era uma criança chorando de fome e batendo na janela do carro. você morre quando o pragmatismo mata o sonho, quando a distância é melhor do que a vizinhança, quando ficar calado é o remédio para não ouvir. você morre com um gol contra ou a favor, a vitória que será derrota, quando a certeza é o desprezo. você morre muitas vezes, exceto quando odeia, porque aí já deitou morto dentro do ventre. você morre com o rancor e o descaso. você morre, morre, morre, mas depois respira e procura a próxima morte.

Friday, December 22, 2017

mérito

o olhar o ouvir o sentir o trocar o pensar
o oferecer apenas para quem os mereça

Saturday, December 16, 2017

Lançamento de "Cenas do Centro do Rio II"

Nesta segunda-feira, 18/12
Casa Vieira Souto
Praça da Cruz Vermelha, 9
Centro-RJ
A partir das 18 h
R$ 25,00


Tuesday, December 12, 2017

45 minutos no Centro

Há semanas e semanas eu não caminhava pelo Centro. Aquela coisa de descer da Cruz Vermelha até a Uruguaiana, por exemplo.

No fim da tarde as ruas estão vazias. As pessoas, cabisbaixas. O Largo de São Francisco, deserto. Antes disso, uma visita à minha amiga Raquel Alves, sempre com CDs fantásticos: só ela podia ter Trey Anastasio no estoque.

Rua da Carioca, as lojas fechando, outras permanentemente fechadas, o trânsito ao contrário, pelo menos se salva a Casa do Choro. O Bar Luiz respira com ajuda de aparelhos. Outro dia mesmo eu saía com meus trocados do IFCS e bebia um chope dourado por lá, vinte anos que escorreram pela pia. O único momento alegre da rua é numa loja com trinta pessoas paradas na porta, resolvo espiar e tem uma TV com o jogo do Grêmio no Mundial - e há quem creia que é só um jogo quando milhões de homens fixam seus olhos à tela e procuram os melhores anos de suas vidas - a infância correndo atrás de uma bola.

Lojas Americanas da Uruguaiana, sinto um enorme aperto no coração porque antigamente sempre comprava coisas para minha família - e ela se foi. As pessoas disputam os presentes de Natal, mas nem de longe com a lotação de outras épocas. Uma vez comprei lá um liquidificador para minha mãe, que ficou felicíssima - eu era um estagiário e tinha a vida pela frente.

Resolvi descer no Metrô Carioca e atravessá-lo até a avenida Chile. Na porta, um morador de rua faminto, sujo, desesperado e uma senhora tentando saber onde estava sua família, provavelmente com a melhor das intenções mas sem perceber a dor do momento. Desci a escada, voltei, ela já tinha ido, ele continuou lá, dei-lhe vinte reais, ele quase chorou e eu também, porque estou cansado de ver tanta gente sofrendo na Terra desde que me entendo por gente - daquele dia em que minha mãe mergulhou em lágrimas ao ver a jovem mendiga com sua pequena filha, dando-lhe uma quantia e entrando em desespero a seguir, logo após termos saído do Metrô Copacabana em 1973 - de lá pra cá, vejo diariamente o sofrimento das pessoas realmente necessitadas e tenho raiva de mim mesmo por não ter condições de transformar suas vidas.

ATRAVESSANDO o metrô você vê o maior exército da solidão do mundo, uma multidão indo e vindo com toda pressa como se estivesse em fuga - as pessoas só têm olhos para os smartphones, o amor ao próximo parece tão escasso. Então vem a escada de degraus e a saída, onde logo se vê a turma da Petrobras descendo do elevado do BNDES.

Passe pela Chile e, logo abaixo da República do Paraguai, lá estão caixas, papelões e gente morrendo sem chance a conta-gotas. Mais à frente, grandes carros pretos corporativos prontos para transportar importantes executivos nessa terra de ninguém, no coração de uma cidade devastada por ladroes de termos bem cortados - e golpistas também.

Quase na esquina com a Lavradio, um garoto muito louco de crack grita uma canção de letra ininteligível e ri, sem a menor noção de onde estamos e, por isso mesmo, talvez até mais feliz diante de sua própria tragédia.

Duzentos metros depois, duas jovens saem do prédio da Nova Petrobras com expressões apreensivas, parecidas com seus colegas de trabalho nos restaurantes da região. Lembro de comprar quatro pães franceses na padaria. Peço queijo minas, não tem.

Paro na esquina da Henrique Valadares. Alguns fregueses conversam no churrasquinho da esquina. O céu gris não traz a chuva prometida. O movimento dos carros é pequeno. Dei uma bela volta no centro da minha cidade, e sou capaz de apostar que ela só esteve mais triste em dezembro de 1964 e 1968 - quando eu tinha cinco meses e era a alegria da minha família. A cidade não para, mas ela está triste demais. Nenhum lugar traduz o Brasil tão bem quanto o Rio, para o melhor e o pior.

Chego em casa, tenho uma boa conversa no fone com o craque Ricardo Mazella, finalmente tenho uma notícia legal. Desligo. Agora são oito da noite, o que resta é tomar banho, comer e descansar, até que nasça o amanhã cedo com tanta gente sofrendo na rua, no que sobrou dos empregos, nas calçadas abandonadas e na certeza de que tudo devia ser diferente, diferente demais.

@pauloandel

politik

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@pauloandel

Monday, December 11, 2017

Cenas do Centro do Rio II



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Saturday, December 02, 2017

cidade zumbi

a cidade dos zumbis
entre idas e vindas
e populares lutando
carregando bugigangas
para vender

mãos carregando caixas de balas
de amendoins, de biscoitos
mochilas baratas

e perto, na porta do necrotério
mãos desesperadas
em cachimbos de crack
- a morte à porta da morte

mãos espalmadas e vazias
mendicantes e enrugadas
ignoradas maltrapilhas

o brasil é uma covardia