Friday, November 06, 2009

AS COISAS/ PESSOAS SÃO







Em homenagem a Arnaldo Antunes








AS COISAS

Composição: Arnaldo Antunes e Gilberto Gil

As coisas têm
peso, massa, volume,
tamanho, tempo, forma, cor, posição,
textura, du-ração,
densidade, cheiro, valor,
consistência,
profundidade, contorno, temperatura, função,
aparência,
preço, destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.


PESSOAS SÃO

Paulo-Roberto Andel

pessoas são
rentes
frias
tortas
mornas

pessoas mortas
para serem redivivas

pessoas têm
derme
face
sonho
tato

pessoas no abstrato
para o que empalidece

pessoas não doam muita atenção
por serem ocupadas
pessoas são carros nas estradas
pessoas são preces nas igrejas
pessoas são arranha-céu e a indiferença
pessoas têm doença

pessoas não
são pessoas simplesmente
pessoas poucas
não são números ou traços
não são folhas e retratos somente
pessoas são
o contrário do que se pensa
normalmente
pessoas são gente
mesmo que
inutilmente


PERSUASÃO

Paulo-Roberto Andel

pessoas
são
persuasão

pessoas são
por sua
ação

06/11/2009

Wednesday, November 04, 2009

TEOREMA

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Paulo-Roberto Andel, 04/11/2009

Friday, October 30, 2009

QUASE!

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Paulo-Roberto Andel, 30/10/2009

Wednesday, October 28, 2009

PERGUNTA






















Paulo-Roberto Andel, 28/10/2009


Tuesday, October 20, 2009

LEVE / PROCURO



LEVE


e a palavra
leve
sugere que flana
pelo
breve:
a sutileza na tangente,
o anseio da secante,
o zênite da
r
e
t
a
permanente!
a palavra,
leve,
sugere a graça
dum boneco de neve –
tão leve quanto pluma
que voa ao vento
sem testemunhar
quem a desprendeu
num

momento



PROCURO

o progresso chegou ao meu bairro:
cenas de ordem e progresso
paredes e casas foram
derrubadas
e modificadas;
a rua, esburacada;
a pobreza, removida;
todavia
tudo parece tão longe
do que ainda
procuro

brilham o céu e o inferno
enquanto
o moderno
disputa espaço com
o eterno
e o efêmero manda lembranças
porque também é vida;
austero, ele reúne os outros,
mas todos permanecem
alheios
ao que ainda procuro

de um lado, os mortos;
de outro, os feridos –
em qualquer visada,
a solidão dos miseráveis;
meus olhos não sabem
disfarçar a frustração
de não ter encontrado
o que
procuro

frente ao ventre
que me cobiça,
a fartura dos seios,
a leveza da pele:
a beleza infinita que mora
na jovem ousada
na linda mulher amadurecida –
cada uma delas
traz um cântico
de imagens sedentas
de vida, tesão, desejos
enquanto uma outra vida
me oferta um amargo gracejo:
são todas distantes,
muito distantes
do que almejo
e procuro

bondade não é delírio
e o fascínio
não é bivaque
na mediocridade;
a cidade, rompida,
esconde seus rancores em festas,
folguedos
e armistícios;
não me furto a espiar por uma fresta
o meu temor redivivo:
ainda não estive frente à frente
com o que
ainda
procuro

suspiros de vida e morte,
presságios e agouros,
azar ou sorte;
medos e coragens
roçam faces nas ruas:
são veias abertas,
sofridas,
donde escorre o sangue
límpido,
o sangue bravio
que faz tambor
em meu peito –
e, por isso, reitera
i n t e n s a m e n t e
que ainda moro longe,
muito longe
do que procuro

banhado em mar salgado
de ilusões,
náufrago do real;
colosso sem grandeza nacional,
sem pecados
ou
religiões:
nas vias, as procissões
se agigantam
e saúdam o deus da vida nova,
do além prometido,
onde todos são bons
e tudo é perfeito –
mas tudo me parece
tão suspeito,
tão diferente,
que percebo subitamente
a ausência
do que procuro

e ainda procuro, procuro

p r o c u r o

Paulo-Roberto Andel, 20/10/2009

Friday, October 16, 2009

MAIS DO MESMO - MORE THAN SAME


























































Em homenagem aos versos perenes de Renato Russo, 1987.

Paulo-Roberto Andel, 16/10/2009

Thursday, October 15, 2009

RECORDANDO CACASO

Biscoitos finos de um dos maiores poetas da língua portuguesa.

3 Poemas

Cacaso (Antônio Carlos Ferreira de Brito)

Descartes

Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho


Fatalidade

A mulher madura viceja
nos seios de treze anos de certa menina morena.
Amantes fidelíssimos se matarão em duelo
crepúsculos desfilarão em posição de sentido
o sol será destronado e durante séculos violas plangentes
farão assembléias de emergência.

Tudo isso já vejo nuns seios arrebitados
de primeira comunhão.


Lar doce lar
(para Maurício Maestro)

Minha pátria é minha infância:
por isso vivo no exílio


Cacaso (Antônio Carlos Ferreira de Brito) nasceu em Uberaba (MG), no dia 13 de março de 1944. Com grande talento para o desenho, já aos 12 anos ganhou página inteira de jornal por causa de suas caricaturas de políticos. Antes dos 20 anos veio a poesia, através de letras de sambas que colocava em músicas de amigos como Elton Medeiros e Maurício Tapajós. Seu primeiro livro, "A palavra cerzida", foi lançado em 1967. Seguiram-se "Grupo escolar" (1974), "Beijo na boca" (1975), "Segunda classe" (1975), "Na corda bamba" (1978) e "Mar de mineiro (1982). Seus livros não só o revelaram uma das mais combativas e criativas vozes daqueles anos de ditadura e desbunde, como ajudaram a dar visibilidade e respeitabilidade ao fenômeno da "poesia marginal", em que militavam, direta ou indiretamente, amigos como Francisco Alvim, Helena Buarque de Hollanda, Ana Cristina Cezar, Charles, Chacal, Geraldinho Carneiro, Zuca Sardhan e outros. No campo da música, os amigos/parceiros se multiplicavam na mesma proporção: Edu Lobo, Tom Jobim, Sueli Costa, Cláudio Nucci, Novelli, Nelson Angelo, Joyce, Toninho Horta, Francis Hime, Sivuca, João Donato e muitos mais. Em 1985 veio a antologia publicada pela Editora Brasiliense, "Beijo na boca e outros poemas". Em 1987, no dia 27 de dezembro, o Cacaso é que foi embora. Um jornal escreveu: "Poesia rápida como a vida".

Em 2002 é lançado o livro "Lero-Lero", com suas obras completas.

Os poemas acima foram extraídos da publicação "Inimigo Rumor 8", Viveiro de Castro Editora, Rio de Janeiro – 2000, págs. 06 a 19.

Fonte: http://www.releituras.com

Wednesday, October 07, 2009

TÃO/ TÃO OUTRO

CLIQUE NO POEMA-IMAGEM PARA MELHOR VISUALIZAÇÃO.


TÃO
























TÃO OUTRO

eu nunca fui tão outro/ para que deixasse de me ver no que faço ou penso/ eu nunca fui tão outro/ para trair as verdades que cortejo/ eu nunca fui tão outro/ para exercer seduções mentirosas, cobiça vazia ou desencanto atroz/ eu nunca fui tão nunca quando quase fui tão outro/ e, assim, estou debruçado em meu exagero do mesmo/ entre percalços e enganos/ prestes a mergulhar no infinito mar de fé/ no que ainda existe de compaixão e sinceridade/ no que ainda resiste da fidalguia e da solidariedade/ há um mundo somente/ e vejo a gente descrente/ tão solitária nas multidões/ tão rasa perante a profundidade da vida/ eu nunca fui tão outro/ para rasgar o que um dia escrevi/ e malversar outros corações/ eu nunca fui tão outro/ para desperceber o hoje, o novo, o agora/ eu nunca fui tão outro/ para estar por ora tão longe/ do que pensei na mocidade/ e que, hoje, faz papel de velha senhora


Paulo-Roberto Andel, 07/10/2009

Tuesday, October 06, 2009

A SANGUE-FRIO (UM IMPIEDOSO BLUES PARA A DECADÊNCIA)



CLIQUE EM CIMA DO POEMA-IMAGEM,
PARA MELHOR VISUALIZAÇÃO





























Para Truman Capote e Muddy Waters.

Paulo-Roberto Andel, 06/10/2009

Wednesday, September 30, 2009

PARA OS QUE ESTÃO EM BRASÍLIA

















Rapeize, rola no sábado na Planaltina a já antológica Festa da Maria, com direito a hits roqueiros e dançantes no som do DJ Gu. Quem estiver em Brasília e puder aproveitar, é excelente a oportunidade!

Friday, September 25, 2009

50 GRANDES POEMAS DE PAULO LEMINSKI



01
lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

02
já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo
morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

03
um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

04 e 05

LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito
são suas obras completas.

LÁPIDE 2
epitáfio para a alma
aqui jaz um artista
mestre em disfarces
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces

06
AÇO E FLOR
Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

07
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

08
parem
eu confesso
sou poeta
cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face
parem
eu confesso
sou poeta
só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta

09
desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo

10
para a liberdade e luta
me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu
me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido tocou a pedra da paixão

11
en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
moches
poemas

12
WITH THE MAN
aqui
no oeste
todo homem tem um preço
uma cabeça a prêmio
índio bom é índio morto
sem emprego
referência
ou endereço
tenho toda a liberdade
pra traçar meu enredo
nasci numa cidade pequena
cheia de buracos de balas
porres de uísque
grandes como o grand canyon
tiroteios noturnos
entre pistoleiros brilhantes
como o ouro da califórnia
me segue uma estrela
no peito do xerife de denver

13
manchete
CHUTES DE POETA
NÃO LEVAM PERIGO À META

14
POESIA:
"words set to music"(Dante
via Pound), "uma viagem ao
desconhecido" (Maiakóvski), "cernes
e medulas" (Ezra Pound), "a fala do
infalável" (Goethe), "linguagem
voltada para a sua própria
materialidade" (Jakobson),
"permanente hesitação entre som e
sentido" (Paul Valery), "fundação do
ser mediante a palavra" (Heidegger),
"a religião original da humanidade"
(Novalis), "as melhores palavras na
melhor ordem" (Coleridge), "emoção
relembrada na tranqüilidade"
(Wordsworth), "ciência e paixão"
(Alfred de Vigny), "se faz com
palavras, não com idéias" (Mallarmé),
"música que se faz com
idéias" (Ricardo Reis/Fernando Pessoa),
"um fingimento deveras" (Fernando
Pessoa), "criticismo of life" (Mathew
Arnold), "palavra-coisa" (Sartre),
"linguagem em estado de pureza
selvagem" (Octavio Paz), "poetry is to
inspire" (Bob Dylan), "design de
linguagem" (Décio Pignatari), "lo
impossible hecho possible" (Garcia
Lorca), "aquilo que se perde na
tradução (Robert Frost), "a liberdade
da minha linguagem" (Paulo Leminski)...

15
quero a vitória
do time de várzea
valente
covarde
a derrota
do campeão
5 X 0
em seu próprio chão
circo
dentro
do pão

16
eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

17
podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano
eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

18
quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

19
de ouvido
di vi
di do
entre
o
ver
&
o
vidro
du vi do

20
sim
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas
não quis a prosa
apenas a idéia
uma idéia de prosa
em esperma de trova
um gozo uma gosma
uma poesia porosa

21
coração
PRA CIMA
escrito em baixo
FRÁGIL

22
nada que o sol
não explique
tudo que a lua
mais chique
não tem chuva
que desbote essa flor

23
o novo
não me choca mais
nada de novo
sob o sol
apenas o mesmo
ovo de sempre
choca o mesmo novo

24
quatro dias sem te ver
e não mudaste nada
falta açúcar na limonada
me perdi da minha namorada
nadei nadei e não dei em nada
sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade

25
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

26
moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

27
ver
é dor
ouvir
é dor
ter é dor
perder
é dor
só doer
não é dor
delícia de
experimentador

28
o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

29
CÍRCULO
cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

30
apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

31
ascensão apogeu e queda da vida paixão
e morte
do poeta enquanto
ser que chora enquanto chove lá fora e alguém canta
a última esperança da luz e pegar o primeiro trem
para muito além das serras que azulam no
horizonte
e o separam da aurora da sua vida

32
Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

33
HAI
Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.

34
KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.

35
as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras

36
duas folhas na sandália
o outono
também quer andar

37
nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima

38
BEM NO FUNDO
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

39
EU
eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não segura um olhar
que demora
de dentro de meu centro
este poema me olha

40
INCENSO FOSSE MÚSICA
isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

41
uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais

42
pariso
novayorquizo
moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar

43
HAICAI
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão
cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença

44
NADA ME DEMOVE
nada me demove
ainda vou ser
o pai dos irmãos Karamazov

45
SE
se
nem
for
terra
se
trans
for
mar

46
NÃO DISCUTO
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

47
ROSA RILKE RAIMUNDO CORREIA
Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas

48
ACORDEI BEMOL
acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

49
AMOR BASTANTE
quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

50
um bom poema
leva anos cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Wednesday, September 23, 2009

A SOCIEDADE DOS BURROS VIVOS

Não é de hoje que a burrice cerca o Brasil. Mais ainda, burrice misturada com sectarismo, intolerância e ganância pelo absolutismo: assim não fosse, Lula, com seus erros e acertos, não teria sido o presidente da república mais xingado que já vi – até porque, nos “maravilhosos” tempos das ditaduras militares, defendidas expressamente por delinquentes como Jair Bolsonaro (devidamente surrado em Copacabana) e seus asseclas, xingar o presidente equivalia à pena de morte.

Antigamente, nem tão antigamente, a imprensa política do país ainda tinha um resquício de hipocrisia. Defendia seus candidatos oficiais, lançava “escândalos” contra os opositores mas, apertar o cerco mesmo, só em caso extremo (vide a farsa da edição do debate Lula x Collor). Agora não. Oficializou-se a prostituição. Quando não servem de porta-vozes dos patrões, alguns âncoras da televisão brasileira vomitam exatamente o que carregam em suas mentes perversas. Ou pervertidas.

Domingo à noite, me deparei com o “Canal Livre”, decano televisivo da inteligência brasileira. A mesa do programa sempre manteve a tradição de excelência dos membros; às vezes, vaza água. Joelmir Betting não estava, o comando ficou com a exótica presença de Boris Casoy. E porque exótica? Basta assistir sua atuação no “Jornal da Noite” para constatar: brados, gestos, uma tentativa quase esdrúxula de parecer contido e educado, ressaltada pelo batom róseo que lhe cabe em tela. Praticamente um palanque. É, entendo: menos patético do que o discurso ararazul de William Waack. Menos?

Volto ao “Canal”: à mesa, Ciro Gomes, um dos políticos mais bem-preparados intelectualmente da república. Perda de tempo tentar encurralá-lo com jogos de retórica fútil. A todo instante, entre quase desmunhecadas, Boris tentava “enquadrar” Ciro – e este, com sorriso alvar, falava o que queria. Faz pensar: até hoje, tento entender a fundo o que lhe fez deixar o PSDB (onde era o ponta-de-lança num futuro presidencial) para a labuta pública em partidos menores, onde é difícil se eleger. Tinha a faca e o queijo na mão, mas dispensou; se o fez por absoluta correção moral, é dos mais brilhantes e raros casos na república. Depois de vários rounds, Ciro venceu; um boxeur da argumentação como Boris, afetado e destrambelhado, não poderia ir à frente mesmo. De toda forma, a luta continua: Boris tem um excelente argumento para gastar nesta semana – a “intromissão” do governo brasileiro no golpe de estado praticado em Honduras, cujo presidente legítimo e agora abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, Zelaya, conta com a simpatia de Hugo Chávez e Lula. Prato cheio!

Golpe é golpe. Lugar de golpista é na cadeia. Os chiliques de Boris poderão ser vistos na televisão, democraticamente, por conta de sua velha subserviência à ditadura militar. Quarenta e cinco anos depois, políticos e cidadãos brasileiros desconhecem por completo os princípios básicos do Estado democrático de direito.

@@@@@@@

Causa-me espécie a verdadeira chiliqueira que tomou a televisão e boa parte da imprensa escrita desde ontem, quando Zelaya se abrigou na embaixada brasileira. Gritos e berros, clamando pelo aceite de um presidente legalmente eleito (com apoio da direita hondurenha) em ser um asilado e, portanto, impedido de participar do processo político do país. CHEGA DE IMBECILIDADE! HÁ UM GOLPE DE ESTADO EM HONDURAS. Qualquer cidadão de bem, com um mínimo de informação política, deve saber que não é rasgando a decisão popular que se ajusta qualquer situação política. E, seja onde for, a direita não hesita: se apóia um candidato que se elege e não reza por sua cartilha, o golpe é a solução. Relembrem os últimos cinqüenta anos da América Latina.

Claro que a “grande” imprensa, cooptada pelos grandes interesses econômicos de sempre, só poderia seguir por este caminho: o do apoio velado ao golpe. Em paralelo, os mesmos nomes bizarros do Senado brasileiro, já “livres” dos escândalos recentes, aproveitaram a pauta para as vociferações ridículas de sempre. Arthur Virgílio, aquele que queria surrar Lula, mas se “esqueceu” do “funcionário” de gabinete que manteve por anos no exterior, com dinheiro público. Agripino Maia, velho coronel e lacaio do regime militar. O Demósthenes, que é engraçado até. Todos urrando pelo papel supostamente terrível do governo brasileiro em coadunar com a situação de Zelaya. Ora, papel vergonhoso seria o de apoiar um golpe de estado, jogando o processo eleitoral no lixo! Quem apóia golpe é golpista. E lugar de golpista é na cadeia – aliás, lugar onde Arthur e Agripino já deveriam estar há tempos. O mais incrível nisso tudo é que, por conta das falácias, conseguiram ficar num plano inferior a Zé Sarney: o imperador do Nordeste, afundado até a lama em escândalos, teve lucidez suficiente para ir a público defender a participação brasileira na questão.

Políticos sujos e prostituição da imprensa são temas recorrentes em qualquer república que viva dentro da liberdade dos mercados alimentada pelo desequilibro na concentração de renda. Em qualquer país do mundo. Portanto, não é coisa que me assombre.

Duro mesmo é dar uma espiada nos jornais para ler os comentários dos “leitores” sobre o tema. Não parecem brasileiros, mas sim extraterrestres. Uma enxurrada de gente criticando o Brasil porque há uma clara insatisfação internacional contra o golpe de estado praticado em Honduras. Sim, claro, deveríamos nos “abster” hipocritamente, tal como faz o burguês ao ver o mendigo na calçada e, “distraidamente” atravessa a rua (qualquer semelhança é mera verdade). A mentalidade do “não-tenho-nada-a-ver-com-isso-e-eu-pago-meus-impostos” é uma das coisas mais pavorosas que já se instalou na sociedade brasileira. Cidadania vai além disso. O Estado não é um mero serviçal: todos fazemos parte dele. Sem contar a cegueira da questão esquerda x direita, quando o foco dos acontecimentos está em um GOLPE DE ESTADO REPUDIADO INTERNACIONALMENTE.

Não votaria em Fernando Henrique nem para ser figurante da minha rua, mas, uma vez eleito, que exercesse seu mandato até o fim (como o fez, com Sivam e Daniel Dantas no encalço). Não votarei em Serra nem morto, mas jamais defenderia sua derrubada do eventual poder. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade serviu para assassinar milhares de civis por ano no Brasil. Já era hora dos homens públicos terem um mínimo de decência ao se posicionarem sobre golpes de estado, seja onde forem. De toda forma, defendendo estas sandices, eles não estão no poder por decreto.

A culpa é dos leitores burros, que nunca leram nada além do jornal, aqueles lá de cima noutro parágrafo. A sociedade dos burros vivos.

Se o papel do Brasil na questão hondurenha está equivocado no formato, é uma coisa. No conteúdo, jamais. Não podemos coadunar com golpistas, quanto mais com a insensatez da mídia, de Arthur, de Agripino e outros dignos representantes da elite ignara. A primavera merecia coisa melhor.


Paulo-Roberto Andel, 23/09/2009

Friday, September 18, 2009

E O MUNDO NÃO SE ACABOU...














TRÊS ACTOS

I

Dá pena de ver os “grandes meios de comunicação” brasileiros. Subservientes a poderosos grupos econômicos, verdadeira materialização de vassalagem barata, lá estavam eles a previr o fim do Brasil em 2003 (nove anos antes do apocalipse mundial que vem por aí). Tiros n’água. O Brasil ia acabar por causa de um escândalo denunciado por Roberto Jefferson, o que seria equivalente a um Fernandinho Beira-Mar denunciar a indústria do crime organizado. Tiros n’água. Então, no fim de 2008, a grande-crise-que-ia-varrer-o-Brazyl-do-mapa apareceu; dessa vez, o barco rachava. Lula, eternamente ridicularizado por “articulistas” que desdenham de sua ignorância (na verdade, uma maneira de ocultar o verdadeiro motivo do ódio, que é o mesmo deles quando descem com uma empregada doméstica no elevador social), lançou ao vento mais uma de suas frases bem-humoradas, falando da “marolinha” que seria a gran crise ao chegar aqui. Oito meses e meio depois, vemos que faltou Viagra para a ereção do colapso mundial no Brasil – ele já chegou bem brochadinho por aqui, e pouco fez para saciar sexualmente a turminha do contra (melhor dizendo, a turminha a favor de si mesma). Os bancos não faturam como nunca (quer dizer, SEMPRE faturaram)? Bolsa-família não é choque de capitalismo na miséria? O que querem? Que se tire dinheiro de famintos para investir em rampas eletrônicas dos aeroportos?

Foram atingidos gravemente de morte os dispensáveis "executivos indispensáveis" de grandes companhias. Os desocupados de Ipanema e Leblon, crentes em seu mar verde-arroxeado que a América do Sul termina na subida da Niemeyer. Os falastrões de plantão que acreditam na social-democracia do capitalismo furioso e especulativo. E claro, as ararazuis denominadas parajornalistas que “escrevem” para “milhões” de pessoas (que as “lêem”) em ex-revistas como “Veja” e semijornais como “O Globo”. A turba pobre tomou um susto com a safadeza inicial dos bancos (sempre eles, não é de agora e nem desde 2003); depois, tudo assentou. O que temos de oferta de trabalho ainda é pouco, mas infinitas vezes superior aos governos de Estado mínimo e concentração de renda máxima.

Naturalmente, os dados de emprego divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho não tiveram a mesma repercussão das galhofas de outrora, contra a “marolinha”. O Brasil, com todos os erros (e acertos) de seu governo atual, foi dos primeiros no mundo a dar suculenta banana para a gran crise. E la nave va. Ver o texto dos ararazuis é risível: orgulhosos, prepotentes, vendo suas previsões apocalípticas ruírem como lama na chuva, são “obrigados” a desconversar sobre o tema. Piada.

Assis Valente já debochava desse tipo de comportamento nos anos vinte. Foi muito mal-ouvido. O realismo fantástico que cerca as ruas, as telas e o texto. Vivemos num mundo onde 90% das pessoas passam fome, e essa deve ser uma prioridade supra-religiosa, supra-social, até supra-humana se for o caso. Não adianta tratar a gente pobre do mundo como se fosse lixo. Só existe chance de evolução humana com atendimento a princípios de justiça social. Lembram dos “emergentes” da Barra, buscando conforto entre grades e prédios com nomes franco-ingleses? Pois é, a Linha Amarela chegou e, do outro lado, a Rocinha impera. Na porta do maravilhoso shopping, com sua patética Estátua Cover da Liberdade, dezenas de vendedores de churrasquinho, refrigerantes e vans piratas. Não há como fugir. Perda de tempo. Remoções? Trata-se do nazismo fracassado de Lacerda. A cidade precisa ser integrada. O Estado. O país.

“Pânico” e CQC estão dentre os que mais nos fazem rir no Brasil, por conta de seus diferenciados talentos. No entanto, é preciso reconhecer que os órfãos do frango a um real bateram com a cara na porta. O ventre na roleta. O trem já era.


II

Twitter. Faço parte. Divulgo meus blogs nele. Tentei trabalhar poemas curtos, limitados aos 140 caracteres da brilhante invenção; ainda não deu certo. Recebo recados, a maioria sem qualquer relevância. Envio frases de cronistas e poetas. Tem algum humor. É divertido. Pedi ajuda a meu amigo Ricardo Bolinha para que destrinchasse o que havia de útil ali. O trabalho está em andamento.

Engraçado quando você vê conhecidos com quem, há muito, não tem contato. Conhecer alguém no esplendor dos vinte anos e, agora, lê-lo(a) perto dos quarenta. Em dez chances, nove correspondem ao sujeito(a?) ter se tornado um verdadeiro pateta. Não me perguntem sobre estatísticas.

Tempos atrás, eu flavana nas ruas do Centro, munido de meus sensacionais bermudão e chinelos pelas nove da noite, quando encontrei um ex-chapa dos tempos de faculdade. Usava um terno vulgar, mas ostentava autoridade - o Brasil é uma terra onde um sujeito de terno se sente superior. Cinco minutos de conversa. O cara me olhava de cima a baixo. Perguntou se eu estava trabalhando; devia supor que não. Expliquei que, como meu trabalho é intelectual e plantonista, além de morar perto da labuta, posso tomar meu banho e colocar roupa de brasileiro para voltar às vielas. Convidei-o para um chope com nossos amigos de sempre, recusou; agora está “muito feliz com sua esposa e não tem tempo para atividades que não sejam com ela, exclusivamente”. Entendo a volúpia: anos sem atividade sexual. Não me disse, mas era fácil notar. Quem fala demais tem pouco a mostrar. Ou lembrar dos tempos da academia de ciências: “no kiss, no love, no sex, virgin forever!”. Falava do sucesso do emprego, das maravilhas de se dar aula em cursinhos e de como se impressionava ao rever antigos colegas da faculdade com, digamos, o “mesmo” aspecto de antes. Para mim, seria alívio: dose é encontrá-los humanamente piores do que antes. Não devia, mas falei.

O ônibus suburbano do sujeito demorava, o meu também. Cansado das baboseiras, dei a cartada final para me livrar da M.P.I. (mala pesada inarrastável):

- Vou pegar um táxi. Tem algum lugar onde fique melhor para você pegar tua condução?

Versão otimista:

- Puxa, creio que não. Aqui é o melhor lugar mesmo. Obrigado e boa sorte.

(Ufa! Me livrei.)

Vida real:

- Não tenho dinheiro para dividir a despesa do táxi e minha hipocrisia não me permite admitir isso. Uso terno, mas estou bem mais durango do que o camelô da esquina.

Dez reais para me livrar de um chato insuportável. Muito bem pago!

Na rua, dá para fazer isso. No Twitter, não. O sacripanta leu meia dúzia de crônicas, comprou um Paulo Coelho no encalhe, ouviu Maria Gadú (excelente cantora, aliás) e já sai pelos quatro cantos do mundo ostentando sua, bem, “entelectualidade”. Mantenho meu silêncio. A maravilhosa invenção internauta desfralda as bandeiras e, por isso, qualquer bobalhão se considera um novo Mainardiota (com toda justiça, por sinal, já que o parajornalista esquisitão de Ipanema não acrescenta absolutamente nada de importante à vida literário-acadêmica mundial – é apenas uma ararazul), com tudo de pior que isso possa significar.

O homo sapiens estragou o avião, estragou a camada de ozônio e usa a internet como verdadeira bostalhada. O problema está em nós? Claro.

Por falta de opção, continuo lá.

Twitter: o mais fantástico meio de comunicação mundial entre pessoas que não têm nada de importante a dizer.

Quando piorar, vira televisão!


III

“A televisão me deixou burro/ muito burro demais/ oi! oi! oi!/ agora todas coisas que eu penso/ me parecem iguais/ oi! oi! oi!... / oh! cride, fala prá mãe/ que eu nunca li num livro/ que o espirro fosse um vírus sem cura/ vê se me entende pelo menos uma vez criatura!/ oh! cride, fala prá mãe!... é que a televisão me deixou burro/ muito burro demais/ e agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais...” (Fromer/ Belotto/ Antunes, 1985)


Paulo-Roberto Andel, 18/09/2009


http://tvmiscelanea.blogspot.com

Monday, September 14, 2009

NOITE















noite
me escurece
um novo açoite
me entorpece
enganou quem não
merece
um orixá
mais uma prece
noutra noite
ensandecida
queima na
vela votiva
na fumaça da boate
numa artéria da cidade
cabe a noite
emotiva
corte numa
carne ardida
sangue ao vento
e despedida
outra hora numa prosa
outro choro
outra roupa encardida
numa corda
na varanda
do casebre na viela
na favela
outra mesma noite
outro corpo no asfalto
mais uma vela
mais um plástico preto
e deus perdoa
o morro não tem vez
a miséria atordoa
mar de insensatez
choro do pobre ecoa
noite
não me conforta
noite
mãe minha aflita
noite
meu amor ao longe
noite
meu sentimento num altar:
uma alegria fenece
e o silêncio adormece –
fermenta o tempo
de sonhar!


paulorobertoandel14092009

Tuesday, September 08, 2009

FERIADO



Trata-se de um feriado.

Um esticadão.

A sexta que vai até segunda, num só pacote, ainda que eu tenha de trabalhar “unplugged” no período.

Muitos dizem que nós, brasileiros (com relativa ênfase a cariocas e soteropolitanos), gostamos por demais de um feriado – a maioria dos críticos, na verdade, tem suprema ânsia de cooptar o Posto Nove, a erva-doce e a maresia somente para si. São uns egoistões. Melhor dizendo, uns bobalhões. Permitam-me os superlativos mal-empregados.

Depois de um mês com a coluna em abalo sísmico – o que significa dor até para respirar -, há indícios de que voltei. Sim, eu e o tricolor do Morumbi estamos de volta. Não digo o mesmo do meu amado Fluminense; enquanto isso, ainda rolam os dados. Uma semana de muito trabalhão, o que significa dizer a travessia de quilômetros pela cidade-luz do Brasil, em busca de reuniões nem sempre infrutíferas. Agüentei um blazer arábico no primeiro dia; camisão no segundo. Tênis? Claro. Não desgrudo de minha mania rebelde.

A noite de quinta tinha sido um ufa! Não consegui encontrar Alessandra no meio da Miami carioca: Barra da Tijuca, com suas towers, deliveries, offs e uma só estátua da... Liberdade (entre as grades do condomínio, ou do corredor do prédio). Meu mano Raul. Raras vezes um chope bléqui da Brahma caiu tão bem, a ponto de afugentar a conhecida cafonice do shopping-center. Mais tarde, um delicioso hamburger King. Nestas horas, o império da liberdade americano serve para alguma coisa, e só. Queríamos falar de mil coisas em duas ou três horas, se muito. Assunto não faltava. O que nos atordoava – e continua – era o Fluminense. Sim: a imprensa quer matar o Fluminense, quer usá-lo como mártir para a ressurreição do futebol brasileiro nas mãos do Bispo Ricardo Teixeira. Amém. Não sei a conta corrente para depósito. O abraço de sempre, o tempo escasso de sempre, a solidão do táxi por ruas lindas do Rio, hoje esvaziadas por medo de comboios, fuzis, bombas e outros artefatos de, digamos, “diálogo”. Cidade Maravilhosa!

Sexta-feira era para dar um tempo. O trabalho mais calmo, não fosse ainda a danada da coluna. Cairia bem um chope gelado na beirola do mar. Lanchinho em casa, uma ou outra Skol. O Bola não aparece, por conta de seu realismo fantástico. Taty não me liga e sinto falta. Leo trabalha. Doria some. Bom ver os cadernos de cultura dos jornais: show e filme bom é que não faltam. São Paulo também: fosse uns trezentos quilômetros mais perto, já valeria a visita para navegar nas músicas e nas artes. Gosto de ver os discos novos e os velhos. Há quem ache loucura em tempos de internéti, dáumlôdi: basta baixar a música preferida. Reitero: quem manja de música e literatura sabe que não é bem assim. Sentar-se para devorar um livro, assim como abrir um cedê é um ritual; é mais do que somente o ler ou ouvir.

Sábado com certo sol. Manhã de certa pachorra. A fome pede massas, muitas massas, talvez um pouco. O velho Vulcão da Evaristo da Veiga. Simpático o último dos garçons remanescentes de 1989, quando estive lá pela primeira vez. Boa gente, sempre me cumprimenta e serve bem. Diz para eu não esquecer daquele lá de cima. Juro que tento, mas o céu azul só faz com que eu procure meus pais, o Xuru, o Fred – e tudo com um azedo sabor de fracasso marcial. À frente, uma moça bonita, com voluptuosidades a saber. Na diagonal, duas amigas gordinhas e lindas, do curso preparatório que funciona ao lado. Ficam à minha frente na hora do caixa. São Tricolores: descobri pelos chinelos de uma e do toque de celular da outra. Não digo nada. Por quê?

Poderia ter assistido “Coração Vagabundo”, apoteótico documentário sobre recente turnê de Caetano Veloso, na maravilha do Cine Glória, pertinho. Contudo, gosto de desafios. Pegar o metrô até Vicente de Carvalho, adentrar o Cinemark e faturar “Confissões de uma garota de programa”, com a belíssima (porém, magrinha) pornostar Sasha Grey. Taty me faz falta de novo, mais ainda. Dura a vida. Para conseguir chegar cronometrado, a saída teria que ser feita em um minuto da estação Cinelândia. Deu certo. É Opportrans – leia-se Daniel Dantas. Preciso rir.

Bom o filme. Não era o que eu esperava, ainda mais de Soderbergh. Boa diversão. Em algum momento, me dei conta que não ia ao Cinemark de lá há sete anos. Na última, com um amor que se foi, vi a refilmagem de “Onze homens e um segredo”, na sala sete, George Clooney e tal. Adivinhem qual era a sala de “Confissões”? Sete. Não havia me tocado antes, mas o diretor também era Soderbergh. O que mais me parece sensato? Antes só do que mal-acompanhado. Alguns amores são ótimos de recordar; outros, melhores ainda quando estão banidos de nós.

Há uma lenda lendária que afirma sobre as fracas vendas de discos de rock na zona norte. Bom, hoje em dia as vendas são fracas em qualquer lugar da terra. Menos mal: Dire Straits, “Love over gold” a cinco mangos. James Taylor eu já tinha. Hoje de voltar. Adeus, Vicente de Carvalho; adeus, rua Caroen. Que tal comprar com desconto um bom ingresso para o sensacional show de Itiberê Zwarg, o líder da Orquestra Família e baixo alucinante de ninguém menos do que Hermeto Pascoal? Vambora. Teatro da Caixa na avenida Chile. Meu feriado que começou sexta não descansa.

Rápida espiadinha no jogo do Vasco. Eles vão voltar. E nós não vamos cair.

Sete da noite, que show! Que show. Uma garotada da pesada, só craques. Como pode, ainda se ouve música de altíssima qualidade no centro do Rio a cinco reais! Quem quiser aprender sobre a estupenda qualidade da (boa) música brasileira, precisa ouvir e ver a Itiberê Orquestra Família. Pelas tabelas, um bom Hermeto e seu discípulo Carlos Malta, dos maiores do mundo. E pensar que isso era apenas a preliminar...

Saio em êxtase do Nelson Rodrigues. Encaro o silêncio da avenida Chile. As luzes, as grandes torres do capital. A imponência verde-amarela da Petrobrás.

Dez minutos de caminhada, e lá vem o Brasil subindo a ladeira, atropelando os argentinos com a sutileza de um aríete à porta.

E o domingo, agora que o final de semana já foi bem vivido? Pernas para o ar, Maracanã com os amigos pela frente. Não importa a pontuação, a crise, a tragédia. É uma procissão. Empatamos. Droga! Vai melhorar. Pelo menos vejo Marô e Raul. E Tiba.

E a segunda? Dez cedês para ouvir, um calor do cão lá fora. A Taty longe. O Leo trabalha. O Bola mergulhado no berço esplêndido de seu realismo fantástico. Dória fora. Três poemas esperando feitura.

Comida. Bebida. Nudez respeitosa.

Descansar para compensar a maratona desde quinta.

Contar nos dedos as horas que faltam para o futuro. Procuramos independência.

Amanhã tem cálculos e cálculos desde as oito da manhã. Fisioterapia.

A vida segue. É normal.

E gosto disso.



Paulo-Roberto Andel, 08/09/2009

Friday, September 04, 2009

FLASHBACKS





















O CONCRETO DA FESTA

todos reunidos
todos reunidos
festa da ilusão

solidão

todos estão rindo
debochando e rindo
tudo soa em vão

depreciação

música gritada
corpos seduzidos
inaptidão

desvinculação

copos, tragos, fumos, balas
degeneração

p*tas, trouxas, broncos, vis
representação

festa da ilusão

decadência em vão

alma em contramão


O DEPOIS

depois do turno, o descanso;
depois da sova, o descenso;
depois da lua minguante,
depois do quarto crescente

depois do parto, criança;
depois da morte, esperança;
depois do beijo, a carícia;
depois do afago, a delícia;
depois do júri, a sentença;
depois da pena, o castigo;
depois do amigo, a presença;
depois da crença, o perdido

depois do ardor, brisa fina;
depois da sina, tenência;
depois do gozo, o conforto;
depois do fardo, a leveza.


RAP RETO

tudo no manto reto, completo,
exceto o incerto,
para intervir discreto,
repleto no ato secreto,
retrato do fato incorreto e concreto;
portanto, noves fora nada,
tudo perto e deserto.


DEFERENTE

acende feito água,
refresca feito fogo;
alumia toda noite,
adormece vespertina;
brada em trinta silêncios,
sussurra em cem decibéis.
é mansa de loucura,
vulcânica em poemas;
recusa meus amparos
pelo aparato da carência.
no fim das contas,
no raiar do farto dia,
não foge da minha mente,
tanto em foz quanto nascente:
ela é deferente!
ela é deferente!


COISA

coisa empilhada/ organizada/ restrita?/ há coisa prática, vã temática enrustida/ desenrolada, complicada, arredia/ a coisa mole que escorre pelo ralo da pia/ há piedade numa coisa feita com galhardia/ fidelidade hoje mora numa casa vazia/ enquanto o homem corre e cria muitas coisas por dia/ há coisa plácida, errática, translúcida, vadia/ o tempo é coisa contra a qual lutar é causa perdida/ a vida fútil é uma cousa inútil por analogia/ casa caiada por matizes que não brilham sozinhas/ o caos das ruas é aspecto de coisa encardida/ pelo desdém/ pelo descaso/ rimados com apatia/ a coisa tem mão estendida por miséria de esmola/ a coisa tão dissimulada passa e nunca dá bola.


TRANSAMOR

amar –
verbo intransitivo em transe,
tão indefinido em foco;
ânsia e fôlego por romance,
efeméride a cada facto.


DELÍCIAS DO MUNDO

a fruta nua, sem pêlo;
a casca crua, empilhada;
o prato róseo, um espelho;
a faca rija, afiada.

a boca, o gosto, o anseio;
rodeio lancinante de tes*ão.

a mordida quente, provocante –

maçã despida, empinada;
saborosa musa deflorada.


CALMA!

era um basta! assanhado,
até que um calma! ousado
o assediou

doravante, entenderam-se
sobre inefável caminho
onde havia, claramente,
mortos e feridos –
os pensamentos bruscos.


NUVEM DE NEGRUME

oh, nuvem negra,
és tu a emanar desamparo
aos que vão perder?

há tempestade no teu ventre
e tu flanas tão vadia,
para a dor dos miseráveis,
enquanto os insensíveis
te desprezam em sossego –
e fazem das grandes cortinas
a porta em tua face crua.

és tu, nuvem negra,
a promessa ingênua,
a receita vulgar do novo dia?


AUTO-FLAGELAÇÃO

é certo que não tenho sido um homem bom

minha oferenda aos hipócritas veio servida
numa bandeja de prata e desprezo frio

os egoístas sorvem meu cálice,
mas suas papilas só esbarram em fel;
os que entregam descaso em minhas mãos
têm como réplica minhas frases menores -
todas feitas de cuspe acre, asqueroso

não tenho sido um homem bom

falta-me compaixão para com a vastidão
das imundícies humanas –
e, por conta disso, uma bússola em meu peito
segue astuto norte por discreta coerência


paulorobertoandel

Friday, August 28, 2009

PORTO SEGURO

anseia
pelo imperfeito
e sonha
e sonha
tem na mente um pleito
que não se encerra
e reverbera
e ecoa na cobiça
mais sincera
erótica de pedra, um ponteio
anseia e navega
nas cátedras de sonho
pupilas de maldade fraca
e o coração que não se engana
um túnel de desejos
estrelado em luzes
que parece até
o cós de Copacabana

paulo-robertoandel 28 08 2009

Wednesday, August 26, 2009

MISCELÂNEA X EXU

Friday, August 21, 2009

ENCEFÁLICA I E II (REPRISE)





















I

encefálica
intracraniana
parafernália
de natureza
imprevisível
máquina de medos
sonhos, receio
e volúpia
almanaque
fotográfico
pretobranco
ou sépia –
de onde emana?
duma lobotomia
anatômica?
duma trepanação
programada?
física, fálica
nítida e drástica.


II

encefálica
enciclopédia de mil naturezas
incerteza infinita
entre velas acesas
entre rigor e fé
contra o perverso rancor
encefálica
enfática pirâmide
onde cada pedra
é mistério no deleite de viver
imerso no raciocínio
encefálica
metáfora acoplada
numa caixa miolada
que inventa sete vidas
oito sortes
e um genocídio.


paulo-roberto andel

Thursday, August 13, 2009

POEMAS DO SER - PARTE I


I

é o espelho da sala
em cacos e cacos
são estrelas cadentes
são contos finados
peças pontiagudas
lâminas afiadas
que oferecem
pequenos retratos
de esguelha
do que, um dia,
foi a melhor imagem
ou coisa que a valha –
é o espelho em pedaços
a vida em miúdos
e um auto-retrato



II

dor do inferno?
peixe-pequeno!
meu drible ainda é firme
meu olhar tem sete vistas

basta uma nova droga
um toque de repouso
e a vida
volta à vida
com suas
mentiras
contos
desejos
algum realismo fantástico
e a sodade megulhada
num mar de sal, iludida


III

repara
a brecha na janela

é a terça azul
que vocifera um feriado:
o sol de exigências
a comida rotineira
vitrines de renascença
e o conformismo na tevê

repara a terça, a brecha,
o teto
os urros de amor
num romance avizinhado:
a lascívia, saborosa,
mora na casa ao lado

repara o quente
que lhe aperta
o dorso nu
que se encerra
a secreção que interessa
repousa
namora
sofre e ri



paulorobertoandel140809

Friday, August 07, 2009

UM TEXTO DE FERNANDO DE CASTRO

No fim da fila

JB ONLINE - 23/9/2005

Novo dia, as mesmas filas. De segunda a sexta-feira, as filas de rotina. No banco, para pagar o que é devido. Na padaria, para exigir pães quentinhos. No engarrafamento, em horários de pico. Na lotérica, para nunca ganhar na loteria. Fila quilométrica para virar gari. Nos postos da Previdência, para aposentados e pensionistas. Nos quartéis, para defender a pátria, fazer polichinelos e aprender disciplina. Filas em Brasília, para se maltratar a língua e interrogar asneiras aos depoentes de CPIs. Fila para fazer check-in, pedir autógrafos e comprar eletrodomésticos em promoção nas Casas Bahia. No fim de semana, as filas recreativas.

Para o filme que a crítica elogiou e para um café antes do filme. No teatro, incluindo a fila do camarim, para elogiar a direção e o elenco com frases feitas que contenham ''visceral'' e ''perturbadora'' no meio. Para uma mesa no fim de tarde no Baixo Gávea. Para entrar no estádio e apanhar da outra torcida. E fila na delegacia para reclamar os pertences perdidos, e nos hospitais públicos pra quem não tem alternativa. E no IML, pra reconhecer um defunto encontrado por mais uma bala perdida. E as filas duplas, com a promessa de se voltar rapidinho: da farmácia, da locadora, do caixa-eletrônico, da banca de jornal, do bingo. A fila que anda, que tem que andar, na gíria das meninas e dos meninos. A fila do beijo de língua no maior número possível de estranhos pelo justo prazer de trocar salivas; e os trenzinhos safados nos bailes funk, que acabam em aids ou filhos. Os viciados fazendo fila para as fileiras de cocaína.

Os indigentes enfileirados por um prato de comida. Os pretos e pardos acuados e perfilados contra o muro, com as pernas abertas e as mãos na cabeça durante a revista. Filas religiosas, pra receber o corpo de Cristo ou consertar paralíticos. Fila para subir o Corcovado, pra andar de bondinho. E as filas de supermercado, onde o primeiro é sempre um cretino que espera pacientemente chegar sua vez pra na hora não se decidir entre dinheiro, cartão ou tíquete.

Onde o próximo sempre é uma dona-de-casa em crise que esqueceu de pegar mortadela, cotonete, rabanete, iogurte, um quilo de pá, acém ou patinho, e que leva uma hora pra voltar, com a promessa de que só vai demorar um minutinho. E atrás dela uma senhora antipática ocupada em proteger a bolsa e julgá-lo pelos tênis velhos ou pelo cabelo esquisito; ou um sujeito com cara de homicida disposto a ficar duas horas em pé para pagar por um pé de alface, um punhado de acerolas e um pedaço de gengibre; ou uma gordinha impaciente a um passo de fazer todo mundo refém, motivada pela demora e pela crise de abstinência de bacon e batata-frita.

E aqueles que conversam, que puxam assunto, que começam com um inocente comentário meteorológico e, quando se vê, já estão tentando lhe vender uma propriedade em Mauá, um bagulho do bom ou um seguro de vida. Não deixa de ser irônico. Saímos das cavernas, atravessamos guerras, descobrimos curas, inventamos o avião, a privada, a descarga e o chuveirinho, pisamos na Lua e prorrogamos o tempo de vida pra isso: Pra mofarmos nas filas.

Friday, July 31, 2009

NOITES CARIOCAS














Cabe-me o pensar. As cousas, as gentes.

É uma noite fria, o inverno do Rio que já tinha se tornado incomum, mas que, pelas surpresas da natureza, reapareceu.

Antes, eu gostava mais da chuva, do frio; quando me dei conta de quanta gente sofria por conta disso, abdiquei. Calor arábico não é meu forte, mas me sinto mal em saber dos que padecem – e perecem – nas ruas por falta de roupa, comida e condições minimamente humanas. Certa vez, li em algum jornal vulgar que a preocupação com os outros poderia ser até motivo de cuidado psicológico. Não tenho dúvidas: foi uma das coisas mais idiotas que li em toda a minha vida, talvez só superada pelo bizarro pseudo-mundo literário de Diogo Mainardi, o ex-parajornalista agora alçado a profissional pelas mudanças da lei.

O frio da rua Senador Dantas, e não sei se volto para casa ou se parto para Botafogo. Um garoto descalço, de poucos anos, adolescente, surge à frente. Parece o irmão que não tenho. Não me pede dinheiro, mas que compre para ele uma comida no bar. Lá vamos nós. Merece também uma coca-cola. É o que tenho: dez reais. Ele parece estar diante de um ET; a segunda vez que isso me acontece neste ano. Natural: num planeta onde pessoas quase pisam em mendigos nas calçadas, quando um transeunte oferece dez mangos, pode ser a salvação do dia. Ali, me basto em minha quase incompetência; não posso salvar a vida do garoto, transformá-la para sempre. Não passo de um trabalhador mergulhado na falácia mentirosa do mundo livre, onde o capital promove justiça. Justiça? Garoto de olhos arregalados é para se ler como agradecimento. Sigo em frente. A vida eu não salvei, mas com dez pratas, um belo bife-com-arroz-feijão-e-batata frita mais a suculenta bebida de origem norte-americana, é um bom paliativo.

Lojas Americanas do Passeio Público. Uma cena linda. Uma vez a cada ano, a indústria do entretenimento deixa de lado sua convencional burrice e reedita clássicos, sejam devedês ou cedes. A arte é necessária à vida. Gene Kelly canta seu clássico eterno, “Singing in the rain”. Paro para ver o magistral telão em LCD. Para minha grata surpresa, várias outras pessoas também. O que é bom, prevalece – mesmo que à distância. As pessoas notam Kelly dançando e admiram. Dizer que só gostamos de fânqui e pagódi é mentira da grossa. Imposição.

Táxi a vagar pelo Aterro. Parece um excelente videoclip do Ed Motta. Tudo é tão moderno e, ao mesmo tempo, passado. Vejo o Aterro, a beleza dos prédios cinquentistas, a beleza do preto do céu invadindo o Pão de Açúcar. Nas grandes coberturas, requinte e sofisticação. No chão do jardim monumental, pobreza e dor. Estranha a vida do carioca atento; fitar por todo lado e esbarrar na elegância manchada pelo descaso. Os pobres do Flamengo, os pobres da Praia de Botafogo.

Bonita a Urca como sempre. Bonita e silenciosa. O charme do que parece desconhecido, biscoito fino para poucos. As pessoas estão recolhidas, é o frio. Na Praia Vermelha, basicamente alguns soldados a serviço, mais um ou outro casal corajoso. Continuo tão acompanhado quanto nos tempos em que solidão era necessidade. Mereço uma água de côco, mas não há banheiro por perto. Na cidade, as pessoas não têm direito ao alívio da bexiga sem que paguem por isso, excetuando-se raros casos. Já tomei o Angipress e o Enalapril. Fica para a próxima. Churros cairiam bem. Até hoje não descobri a origem exata: Argentina, Uruguai ou algum outro Mercosur. Seja de onde for, muito gostoso.

O telefone celular toca. Não conheço o número. Não atendo desconhecidos. Aliás, atendo cada vez menos gente. O natural cansaço por tanta ingratidão, desrespeito, falta de consideração. Grandes grupos são para poucos. A sociedade confundiu tudo: amigos não são apenas os que se sentam à mesa de bar ou dividem garotas de aluguel para uma suruba. Ou ainda os que mandam mensagens eletrônicas a cada seis ou doze meses. Amizade é muito mais do que isso. Nada mais mentiroso do que dizer do amigo que é amigo de verdade, que pode ficar longe sempre e continuará amigo. Falácia para justificar omissão e descaso, novamente. Chega de hipocrisia. Sou um velho.

Boteco da Praia, no Flamengo. O caldo verde é delicioso. A carne, também. Estranho que um bar tão qualificado quase sempre esteja com baixa lotação – o que considero ótimo, individualmente falando. Noutra mesa, uma ruiva de arrasar discute com o namorado pelo telefone móvel. Não deixo de notar, com respeito e certa admiração. É que meu amor não dorme, meu amor não sonha e não se fala mais de amor em Gotham City. Um jantar quase silencioso, podemos assim dizer.

Um novo táxi à frente. Não é Leo. Mais uma surpresa: uma motorista. Gosto disso. Abro a porta traseira e cumpro meu papel de cavalheiro com garbo. Voltar a Copacabana, descer a Atlântica em retorno, o Aterro outra vez, o Passeio, a Lapa.

Meu amor não sonha. As pessoas estão recolhidas. A dor do próximo é desimportante. Nossa pátria-mãe gentil é conduzida pela livre iniciativa.

O elevador vermelho, a porta que precisa de reforma.

Ligo a televisão.

Um efeminado âncora da televisão noturna vocifera contra Lula, a quem acusa de proteger José Sarney, o ex-número um, que tem mais de cinqüenta anos de vida pública.

Tornei-me um velho. Não tenho tempo para falácias.


Paulo-Roberto Andel, 31/07/2009

Tuesday, July 28, 2009

PESSOAS



pessoas
tão pessoas
navegam na amenidade
e esperam
o sinal que abre
o trem que pausa
o sol que brilha
até seu fenecer

pessoas
no ir e vir
das grandes ruas
dos velhos bares
tão pessoas
tão felizes e carentes
são avalistas
do sexo vulgaris
da moda cafonália
da amizade banal
sem leme nem pontal*
e fascinam
o turvo da vista
com as vitrines
do centro comercial

pessoas, pessoas
expectadoras
solitárias de tevê
dançarinas
de bate-estaca
e baile funk
esperando
o sucesso acontecer
pessoas, surpresas
com os tropeços
de sarney
saudosas do efeagá
não dá para segurar
pessoas
que pagam impostos
exigem cidadania
mas
parecem tão
impostoras:
escravagistas
pedindo alforria


Paulo-Roberto Andel, 28/07/2009


(contém citação paralela de "Do Leme ao Pontal", Tim Maia)

Friday, July 17, 2009

OUTRA GOTHAM CITY















lá fora, a cena é outra
é muda e provocante

enquanto
meu olhar
se faz contemplação

é o caos e a cidade
com suas vielas
alamedas
uma válvula de escape
a barca, a praça
o paço
um sorriso jogado no chão

alguma aflição

sou turista de minha cidade
meu coração em paixão
tateia sobre o cinza insone
parece que se sente em vão
fustiga um impreciso enorme
num par afável para solidão

cara de cão
açúcar no pão
e um deus de pedra
com o mundo
a seus pés

a cátedra e os quartéis

um cântico de fé
para missionários e fiéis

lá fora, a cena é minha
eu escrevo os personagens
as falas, os papéis
tudo imagina cinema:
o tom e o timbre
a foto e a luz

ninguém me diz o certo
meu estandarte é um porta-retrato
a carregar o que não volta
o que não sente
a imagem que se perdeu

tudo distante do céu de nubla
e a frente que não chega
apenas insinua com seus cúmulos
de prata

um mergulho na noite torta
que desapavora
e se basta
no ir e vir da vida:
ela escorre, sobe
regurgita;
desfaz os planos
da madrugada morta;
acende a vela
para a esperança farta

alguém me lembra martha rocha
num arraial à praia
alguém sussurra alessandra
enquanto não atraco
em meu peito cansado
enquanto o nada
vem me consolar

hoje sou de gotham city
e nenhum sinal no céu
parece digno de me ressuscitar


paulo-roberto andel 17/07/2009

Tuesday, July 14, 2009

O TEMPO NÃO PARA, COM OU SEM ACENTO
















Veio julho, e já chega à sua metade. Os tempos correm.

Dia desses mesmo, eu era um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e naufragado no coração da grande metrópole. O dinheiro continua fugido; os parentes renunciaram. O meu amor virou outro amor, depois outro amor, e agora é outro amor do mesmo nome. Daqueles de um segredo de liquidificador.

Falarei de Cazuza. Um dos grandes poetas de sua geração, que escolheu a música e o canto como forma de expressão. Esqueçam de boemias, homoafetividades e drogas ilícitas – as lícitas, também. A magnitude da obra está acima de tudo, não vê quem não consegue... por conta de alguma grande limitação a ser explicada.

Que prejuízo tê-lo ausente por dezenove anos, completados semana passada. Certamente, teria escrito uma coletânea de canções capazes de reavivar a memória coletiva brasileira, tão perdida para qualquer coisa além de quinze minutos atrás. Quem se lembra do Sivam? Da reeleição de FHC? De Collor? De Marcello Alencar? A chacina da Candelária? Vigário Geral? O caótico tráfego aéreo brasileiro? O apagão? Pois é, cronista urbano que era, Cazuza teria dado conta direitinho do recado. A ponta de sua caneta faz falta.

Meus dez leitores, seis amigos e cem conhecidos bem sabem de minha opinião a respeito da soberba, enorme soberba, exercida por parte da intelligentzia literária brasileira, sempre disposta a exorcizar qualquer poesia que esteja próxima da música. Tamanha barbárie intelectual gera situações patéticas, como a de se analisar a diferença produtiva entre um Vinicius de Moraes “poeta” de um Vinicius “letrista”. Havia um só Vinicius: o gênio. O resto depende de cada manifestação. Rio quando vejo os despautérios propagados por mortos-vivos como Alexei Bueno: desancar a genialidade de Arnaldo Antunes e Caetano Veloso beira o patético. Birra de garoto dono da bola que não é titular na pelada de rua. O principal problema é que os “exclusivamente” literatos morrem de ciúmes da popularidade de alguns poetas da música, e daí vem a indesejável rixa. Uma simples batalha egocêntrica, que nada tem a ver com a qualidade da produção de poesia convencional ou musical.

Como questionar versos de um poeta como “Dias sim, dias não/ Eu vou sobrevivendo sem um arranhão/ Da caridade de quem me detesta”? Ou “Senhoras e senhores/ Trago boas novas/ Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva”? Ou ainda “Porcos num chiqueiro/ São mais dignos que um burguês/ Mas também existe o bom burguês/ Que vive do seu trabalho honestamente/ Mas este quer construir um país/ E não abandoná-lo com uma pasta de dólares”. Cazuza é de uma genialidade agregada a um delicioso deboche, um humor irônico como visto em poucos grandes das nossas letras. Poderia perfeitamente ter publicado seu cancioneiro sob forma poética, exclusivamente – e teria grande sucesso, exceto pelo rancor de meia-dúzia de fanfarrões autoritários, supondo-se alicerces da cultura nacional.

É lamentável ver que deixamos de ter Cazuza vivo em letras há quase vinte anos. Mas é sensacional também ver que, quase duas décadas depois, sua obra permanece com todo o vigor de quando foi lançada: doce, furiosa, provocante e engraçadíssima, entre amores, a cidade e a incontestável pluralidade do ser.


Paulo-Roberto Andel, 14/07/2009

Friday, July 10, 2009

RETICÊNCIAS

I

resto-me
diante do improvável

a incerteza
que se faz tão clara

um retrocesso

exceto pelo sol de fora
tão faroleiro
nave-guia flamejante no vento

o recesso

e um momento

nas horas rudes
onde não caibo
e me afasto

o longe me corteja
por um retrato

o fim já não excita

a mansidão não é pecado

agora sou muito longe
feito o cais que aprecia
a minha vinda –

nenhum murmúrio
ou alarido

apenas o fato


II

nada debaixo do céu
resiste ao pranto

nada debaixo da terra
reveste o conforto

nada no horizonte
é verdadeiro porto,
portanto


paulo-roberto andel 10 07 2009

Thursday, July 09, 2009

ANALFABETO MODERNO (CLIQUE NA FIGURA)

Monday, July 06, 2009

DOIS CORAÇÕES SOLITÁRIOS NO CORAÇÃO DA CIDADE



dois corações solitários
fechados com desplicência
andam com mãos dadas
simetricamente entrelaçadas
sob certa inteligência
no leve da flana rasteira:
parecem numa rua do Village
do SoHo
uma Copacabana de happy hour
qualquer
passam ao largo dos transeuntes –
o mendigo, o travesti
a rapariga, o capataz

dois corações solitários
levianos mas sem mágoa
entusiasmados à toa
deleitam-se com sonhos
e dramas e medos –
posso vê-los na fumaça
a verde névoa da ganja
cobiçando um trago de conhaque
e um prato de tremoços:
alforria que não é samba

dois corações
que não tomam partido
não vestem camisa de time
não deliram por métrica
piedade
ou auto-retrato –
tão vastos em seus calores
seus hormônios
o tesão sem medo
que trafega afoito
enquanto os carros engarrafam
enquanto a morte não hesita
e alguma lágrima deságua
de um sorriso lindo qualquer

não passam de meros
corações solitários
furtivos
índios da mesma oca
navegantes fugidios –
o que lhes vale
é o calor das mãos envoltas:
trazem engano em romance
à noite da cidade
enquanto
falsos brilhantes são luzes e piscam
ofegantes
perante o luxo, a miséria
e um falsete sem alarme


paulo-roberto andel, 06/07/2009

Thursday, July 02, 2009

Serenata

um amuleto
em forma de canção

a primavera
tão longe da ação

meu amor à espreita
cândida ilusão

o mar, a maré cheia
a urca sob refrão

o cadafalso
para um caso contente

a lareira
missão da noite quente

mão dada
macia, envolvente

a noite à toa
o desejo inconsequente



paulo-roberto andel, 01/07/2009

Friday, June 26, 2009

O médico, o Bolinha e Michael


I)

Meu amigo Bolinha já esteve comigo em tantos lugares que, desta vez, nem parecia algo inédito. Foram bares, bares, bares, hall da faculdade, viagens, jogos, locais proibidos pela moral e pelos bons costumes, cemitérios, camelódromos, buracos variados. Agora, definitivamente o tempo passou: combinamos de ir juntos ao cardiologista. Cogitei até um adiamento; afinal tinha o sensacional jogo da seleção...quem? Uma gatinha do meu trabalho me disse que o médico era mais importante do que futebol. Não concordei, mas achei melhor ir. Estranhos os caminhos do ser humano.

Não gosto de médicos. Melhor dizendo, não gosto de certa frieza que contamina a classe médica no atendimento ao próximo. Talvez seja algum trauma de tanto ter acompanhado minha mãe a clínicas. Ou meu pai, que passou um ano internado. Ou o Xuru. Ou o Fred. Não gosto. Ironicamente, comecei minha vida profissional em um hospital: o garboso Philippe Pinel, em Botafogo. Já se foram quase vinte anos. O tempo passou.

Simpática a moça do eletrocardiograma. Tinha algo de kraftwerkiano naquilo. Não posso morrer agora: tenho que pagar dívidas, escrever livros, amar uma mulher linda e voltar a ver o Fluminense campeão do mundo. Hoje é dia vinte e cinco de junho, uma data sempre especial, inesquecível e, até bem pouco tempo, cercada somente de alegria: aniversário de uma das mulheres mais bonitas, charmosas e simpáticas que conheci na Terra, Luciene Magnani. E claro, o dia marcado pela maior conquista da história Tricolor no Maracanã, maior até do que o campeonato mundial de 1952 ou o bi de Assis: o título do Centenário, com o gol de Renato. Não morrerei. Estatística serve para isso: ler gráficos. Há estabilidade no eletro. Ufa.

Simpático o Doutor Mário. Parece com alguém que conheço, mas não lembro. Parece jovem para um médico que cuida da mãe do Bola. O primeiro cardiologista que faço rir. Achou engraçado que Bola tivesse marcado minha consulta. Expliquei: somos amigos há vinte anos; não gostamos de médico; não formamos um casal gay; gostamos de mulher, inclusive feia (Bola, muito mais do que eu); achamos bom que dois gordos fossem se consultar seguidamente – isso poderia aplacar a ira do doutor para com os de peso. Ele riu. Passou os exames chatos de sempre. Pulso normal, coração normal, um remedinho. Meu IMC nem está ruim como se poderia imaginar. Raras vezes me senti tão bem em um ambiente tão hostil. Bola também foi bem. O tempo passou.

Há muito não navegávamos pelos bares do Méier, onde não se bobéier. Tem algo ali de Alexandre Machado. Tem algo da Magnani. Algo de Sonia Chrystina. E, claro, do inusitado Alvaro Doria. Algo de Copacabana na Dias da Cruz, da avenida Copacabana entre Figueiredo de Magalhães e Siqueira Campos, para os que me entendem. Fomos felizes. É bom não estar à beira da morte numa consulta hospitalar.

Cabia uma comemoração.

Somos gordos sem-vergonha, irrereventes e suficientemente desajustados para entrar no rodízio de pizzas da Parmê, minutos após termos sido absolvidos pelo Doutor Mário. Poderíamos ter sido salvos se prevalecesse a pão-durice do Bola, reclamando do preço abusivo para se comer trinta fatias de pizza e beber hectolitros de refrigerante de cola. Rapidamente, o empurrei para dentro do restaurante.

Nossa vida tem sempre algo engraçado.

Antes das fatias, rápida passada pelos cedês das Americanas, no shopping. Não resisti a um Led Zeppelin, mesmo com “Stairway to heaven”. Dez pratas. Bola é meu amigo, mas é pão-duro; Seal estava de grátis, ele pegou... mas refutou. Tio Patinhas! A garota no caixa era uma morena bela; quando tentei pagar, ela falava ao telefone e parecia delicadamente sexy; enquanto isso, Bola se abaixava para pegar um DVD de Michael Jackson que estava no chão e que, involuntariamente, havia pisado em cima:

- Que é isso, mano, quer pisar no Michael?

- Pó, cara, ele tá caidinho.

Risos tolos, feito os dos tempos da faculdade. Nem sabíamos do que acontecia do outro lado da América.

Parmê. Uma morena jovem, linda, fofinha e grávida. Uma turma de adolescentes em festa. Gritos, risos, gente. E falamos da vida, do amor, do passado, de como foi bom rever Dino no Orkut. Nem tudo florido: também dizer sobre os que considerávamos amigos, que se afastaram.

Foi divertido. Bom viver os pequenos prazeres da vida. E descobri algo inédito: ir ao médico com um grande amigo pode ser menos incomodativo. Coisas boas acabam cedo. Hora de voltar para casa. Ouvir Jimmy Page. Pensar no dia seguinte.

Veio um 239, o motorista não parou. Eu estava no ponto errado, de forma que o considero absolvido. Mas esperei outro vir. Cinco minutos, chegou. Vazio. Antes disso, falei com um rapaz que estudou Direito comigo, Guilherme. Coisa rápida, um olá, um abraço. O fiscal libera, o coletivo parte rumo à Marechal Rondon, zona de tensão da vida carioca. E tocou o telefone. Eu queria que fosse a Tati, ou saber notícias do Leo, ou alguma palhaçada do Zé. Era o Bolinha, em tom assustado e impactado:

- Cara, Michael Jackson morreu!

Levei um soco.

II)

Mais à tarde, Leo passou lá em casa. Cansado do trabalho, do desgaste. E triste.

Leo tem pouco mais de vinte anos.

Milhões de jovens têm pouco mais de vinte anos. Não viram “Thriller” no auge, mas acusaram o golpe do mesmo jeito.



III)

Talvez a melhor síntese que se possa fazer a respeito de Michael Jackson seja, de alguma forma, na constatação de milhões de pessoas que estão muito tristes em todo o mundo hoje – num mundo cada vez mais marcado pelo individualismo, a manifestação de luto em todo o planeta é um sinal da importância de Michael Jackson. Preto ou branco, no auge ou no recolhimento, o que Michael deixa é a impressão de que havia um gênio com muito mais coisas ainda a mostrar. Não alinho com os que lhe impingiam a condição de pedófilo – sua trajetória de ações filantrópicas é gigantesca e multimilionária, em total desacordo com as acusações. Com erros e acertos, excentricidades e um talento inigualável, alinha-se com outros gênios desaparecidos precocemente: John Lennon, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain, Renato Russo, Cazuza. Uma perda lastimável, injusta e muito antes do razoável.

O tom da voz do Bolinha no telefone me comoveu.

Não tenho crença, mas aquela situação do DVD no chão me comoveu.

Lembrar da minha mãe dizendo que adorava aquele neguinho me comoveu.

Lembrar de “Rock with you” me comoveu.

Chegar no trabalho hoje e ver as pessoas chateadas com o fato me comoveu.

O tempo passou. Hoje é vinte e seis. Meu desaniversário. Estou triste por hoje. A ponto de não escrever o suficiente sobre o rei do pop. Até mesmo porque não há palavras suficientes para descrevê-lo.

Quem viu, viu. E sabe do que estou falando.


Paulo-Roberto Andel, 26/06/2009