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Thursday, April 06, 2017

um minuto de silêncio em memória dos pobres idiotas da objetividade

1


enquanto nos perdemos com vaidades estúpidas, jogamos o que nos resta de humanidade no lixo - e, por isso, as crianças mortas acabam sendo apenas recheios descartáveis de noticiários. ansiamos por modernidades mas vivemos a apoteose do retrocesso. continuamos racistas, misóginos, excludentes, incapazes de perceber a dor dos inocentes mortos, sufocados em bairros de miséria. os nossos salvadores da pátria não vão salvar coisanenhuma que não seja os próprios pescoços - não passam de curruptos sujos de um pau de galinheiro. o futuro é incerto, mas já sabemos que a tendência é piorar. há muitos discursos, ofensas, bravatas mas as ações dormem em banho maria. os pais abraçam os filhos mortos numa guerra estúpida, os inescrupulosos agora são o exemplo do sucesso, a escrotidão é a grande campeã. vamos celebrar nossos tuítes de merda, vamos cantar e dançar pelo fascismo que inunda nossas ruas. um viva à nossa hipocrisia, combustível​ cotidiano de avaliações seletivas. os bacharéis em ignorância venceram a grande batalha imaginária contra a ameaça comunista. ufa! nunca fomos tão livres, felizmente temos nosso Brasil de volta: che mierda. 



2



a verdade é que somos estúpidos demais enquanto sociedade humana. fala-se de liberdade, mas o dinheiro vem forte com ditadura e guerra. defende-se a competição, mas os grandes vencedores são os que praticam o predatismo sem fronteiras. não existe país na terra que tenha dado certo com ódio e indiferença ao outro, com abandono e desprezo. somos estúpidos com nossos vaidosos peitos de pombo a desfilar em redes antissociais e chopincêntis. perfeitos imbecis quando a retórica agressiva é mais importante do que o argumento. ainda somos a terra onde há gente que acredita na combinação letal de leite com manga. essa nossa mistura de boçalidade com falta de ética e de respeito ao próximo ainda vai nos levar, e muito, para baixo do fundo do poço sem fundo. mas o que nos importa são fofocas, ostentações e status virtual. viva a idade média com esmártifone, viva! viva o nosso túmulo da filosofia! nós somos os melhores do mundo de porranenhuma e vamos para frente, galopando.



@pauloandel 


Tuesday, March 28, 2017

a nossa linda paisagem do inferno

parece tão sedutora e faiscante
esta linda visão do nosso inferno
oh, reparem nos olhinhos brilhantes
em frente à vitrine da loja de luxo:
a riquinha indiferente, a menina de rua
a respeitável executiva - não são
todas absolutamente iguais?

irmãs de um mundo cão, puro sangue
com sua banca de jornais ainda viva
e vendendo manchetes importadas
- o asfalto recebe carros importados
os negros estão empilhados no entorno
da praça, livres pelas grandes verdes
- não são todos iguais demais, senhor?

como é linda e delicada a fina estampa
da nossa visão mais limpa do inferno:
a orla, a gente bonita, o atlântico sul
e as crianças nordestinas entorpecidas
com tíner de morte - não são todas extremamente iguais?
- senhor, tende piedade do nosso majestoso inferno
queremos o nosso rio de volta, mesmo com água turva, cheiro de puro sangue apodrecido, realidades editadas mis
o nosso inferno é tão lindo que sequer percebemos o seu maior problema: nós
diabos chinfrins e indiferentes, com a nossa arrogância escarrada e pútrida
fazendo a pose dos sofisticados servis
- diabos estúpidos, sim, finalmente somos radicalmente iguais - e tão sós


@pauloandel

Friday, March 10, 2017

onde foi parar o grande amor desta nação?

afinal de contas
onde foi parar o grande amor desta nação?
estará nas cútis sofridas
deitadas sobre caixas de papelão
e debaixo de marquises? 
ou nas carnes apodrecidas 
sobre as macas mortuárias
do instituto médico-legal? 
existe amor na terra de crânios dilacerados a bala por motivo fútil?
nas carnes apavoradas e trêmulas
das meninas estupradas 
o suor é o desespero
as lágrimas sangrentas das travestis assassinadas
nos incêndios acidentais em favelas
nos conflitos sangrentos de terra
na devastação da vida nativa
o amor é o egoísmo vil
oh, amor desconjuntado e perdido
nas filas de emprego algum
nas portas dos hospitais públicos
e das pobres mulheres em visita
aos presídios
o amor faleceu no olhar dos meninos
mendigos
perdido no vazio do horizonte
envolto na manta da indiferença
e sobrevive apenas no pequeno pranto
de uma jovem mulher que clama
por justiça
o amor não prevalece numa cidade
vazia
e nem nas revoluções televisivas
onde está o grande amor do nosso país?
será transmitido em cadeia nacional
ou é mero fruto desta ironia
que nos abraça sem afago? 

@pauloandel 

Tuesday, February 28, 2017

meu poema torto

meu poema torto 
é denso, é doce, é temperado
com lagrimalegrias e magoamores
ele não lamenta mas registra
e mora nas entrelinhas
nas vielas das conversas
meu poema torto é freelancer
franco atirador do trôpego romance
e sente as dores das ruas: 
o rancor, a ignorância e o desprezo
o homem que mata o homem e ri
o bobo da corte de camisa amarela
e uma panela vazia de atabaque
meu poema é desencontro: 
o verso que não rima, o jazz fonético
a ida sem vinda, o desapego em cor
o amor que nada espera, o ceticismo
diante das pessoas apressadas 
com suas conversas em smartphones
e desejos inúteis de poder
meu poema torto é uma cidade partida
estraçalhada, tão iludida 
a falsa joia rara de um país fudido
nas mãos de psicopatas analfabetos
é viúvo da valentia ingênua
e reticente diante do caos disfarçado
pelas manchetes de mentira
e novelas de notícias editadas
ah, esse poema que não constrói
não edifica nem serve de exaltação
com exceção dos admiráveis mortos
os miseráveis, os militantes
os batalhadores agora tão mortos
exilados desta escravidão oficial
com tinta fosca de ordem e progresso
o meu poema torto queria outra coisa
outra gente, a de abraços sinceros
tão distantes da dialética corporativa
e dos bares chiques, moderninhos
- o país do futuro é uma pilantragem
- quem vai acreditar nessa merda? 
um garoto é morto a socos e chutes
porque não tem dinheiro para um lanche
uma garota é estuprada à luz do dia
porque um monstro lhe achou oferecida
e os imbecis aplaudem o fascismo
como meio de integração social: 
vamos aplaudir o capitão nascimento
e ignorar a fala de jards macalé
meu poema torto não tem happy end 
- todo mundo vai se fuder no final
nenhum super herói vai nos salvar
meu poema torto é a desilusão
a tristeza em vísceras detalhadas
que nenhum samba comprado lê
- alguma coisa está feito um cochicho
de que aqui jaz a sonora importância
somos a pátria opaca dos banqueiros
dos homens brancos de bem e paz
- os tiros de fuzis são sorrisos cínicos
meu poema torto é a derrota certa
que trago desfraldada num abraço

@pauloandel


Wednesday, February 22, 2017

carne crua II

I

carne crua, trêmula
ofegante
liquefeita
no mar das carícias
em mil predicados 
e um desejo só

carne crua, vadia
namoradeira
instigada pelos gostos
ou os imaginários
deliciantes

carne do gozo
do tesão
um jato, uma lágrima
um coração de alfaia
retumbante 

carne da provocação

um grito, um alívio
o impulso ao chão


II

carne crua, fria
morta
refém da terra má
estirada sem causar
apelo
aos indiferentes

carne vazada, invadida
estraçalhada 
rumo ao inevitável
pedestal
da decomposição

- a carne é nada - é inquilina
do desconhecido

é a primeira página


III

carne ao lado
da carne
as duas estrangeiras
distantes no ofício
perdidas 
enquanto os smartphones
vibram e as músicas 
tocam
as carnes alheias entre si
são saltos e passos
nas próximas estações

@pauloandel 

Friday, February 10, 2017

Meu novo livro - Cenas do Centro do Rio

Paulo-Roberto Andel lança seu primeiro livro de contos, crônicas e poesias, ambientadas em histórias ficcionais - e baseadas em fatos reais - tendo o Centro do Rio de Janeiro como palco, em 98 páginas.

Prefácio de Elika Takimoto, prêmio nacional Saraiva 2015 de literatura infanto-juvenil.

"Sempre que vemos um filme, estamos, na verdade, ouvindo uma história que nos é contada pelo diretor. Este procura os melhores planos, as melhores sequências e coloca a música (ou o silêncio) em um quadro muito bem estudado. Cenas do Centro do Rio de Paulo-Roberto Andel nos dá a sensação de estarmos diante uma tela de cinema. As descrições são precisas a ponto de nos fazerem enxergar o que Andel viu. Mas não falo aqui só de fotografias. Como disse Veríssimo, a principal matéria-prima para uma crônica são as relações humanas e neste livro elas aparecem de forma intensa e diversa."

Direção de Zeh Augusto Catalano.

À venda em www.arlequim.com.br

(Clique para ampliar a imagem)

Tuesday, January 31, 2017

Fuá na casa de Cabral* (ou Eike Batista)

eike batista é o hit parade 
eike batista dá ponto no Ibope
o mundo parou, o rio parou: 
- somos todos cunha! uhu! 
agora temos um detento branco e rico
um salvatore cacciola
garotinho de um dia só
somos doces amebas em frente à TV
vestimos as camisas amarelas
e gritamos, berramos, deixamos fluir
o rio caudaloso da nossa ignorância
eike batista é petista
eike batista é comunista
desde os tempos da rússia pelada
e não tem celular - é um detento comum
no meio da quebrada tem um desafio
fazer um dedo de seta sair redivivo
como se fosse um samba de belo:
paratodos, vale o escrito! o escrito!
se eike pode ser preso, lula também!
vamos acabar com a corrupção 
e os pobres diabos que se matem
nos assaltos e arrastões, nas rebeliões
- essa gente não deveria existir! 
eike batista vai falar toda a verdade
e temos um big brother da realidade: 
todos ao tribunal do paredão! agora! 
o juiz beiçudo precisa defender a lei
só os idiotas estão realmente felizes
nas cadeias as panelas não batem
eike batista é hashtag e pauta pronta
um injustiçado desse maldito esquema
- vai ter fuá na casa de cabral à vera! 
um pobre diabo gritou "tchau, querida!"
sem perceber a primeira-dama recolhida
numa formação de clássica quadrilha
um vão pateta quer ver o couro comer
o mineirinho deita e rola, debocha a valer
eike batista é a nova novela das oito
o juiz zavascki já faz parte do passado
ordem e progresso no país das bestas
eike batista é o vilão da hora
eike batista não vem da senzala
hoje é um lindo dia, o primeiro de todos
onde seremos todos inúteis, inúteis
e nos enxergamos tão importantes
heróis da datilografia militante oca! 
acreditamos na capa da revistinha
- somos todos william bonner! lindo!
nós aprendemos tudo no fantástico
e corremos para as livrarias modernas
atrás de livros e livros de altajuda
com até 130 páginas e letras grandes
- somos todos miami! vá pra cuba!
nossos escroques já foram melhores: 
ditadores, crápulas e elegantes bicheiros
- somos todos selfies e likes! uhu! 
o carnaval está chegando, depois vemos
onde o fim do mundo ainda vai parar 
- somos todos cerveja da boa e caos
(ainda bem que somos ricos demais)
(o mal do homem é a ignorância vilã)
até o próximo crânio de criança vazado
por uma maldita bala perdida e fria
até o próximo trabalhador assassinado
em troca de trinta reais ou um relógio
(ainda bem que só morre gente na TV)
eike batista é branco, é contratador
no meio do navio negreiro da dor em gris
eike batista vai nos libertar um dia
mas o que dói é sermos tão estúpidos
eike batista vai salvar a voz do brasil
em memória de eldorado dos carajás
(só os mais idiotas acreditam firmes)

@pauloandel

*Mestre Ambrósio 

Cenas do centro do Rio - em 10/02

Clique na imagem para ampliá-la. 


Monday, January 30, 2017

o diabo

encafifado numa poltrona
confortável
e navegando nos canais
da TV a cabo
numa casa aprazível
cercada de luxo e posses
está o diabo
o bode expiatório das mazelas
deste mundo admirável
- o grande e único culpado

ouve e vê as notícias
espantado
com a hipótese
de ser responsabilizado
pelas tragédias cotidianas: 
ele inventou o fuzil, o confronto
o acordo de guerra e paz
- as cabeças decapitadas
- os corações arrancados
um atentado, um crime encomendado
ou um superfaturamento qualquer

um pobre diabo, mero estafeta
das meias verdades do mundo
é o inimigo número um da multidão: 
não cabe em igrejas, templos, cultos
ou rituais de ocasião profana 
restam-lhe a poltrona 
e o controle remoto
para espiar todos os males, os males
suas realizações vis e traiçoeiras:
relatos de um homem comum

o diabo, espantado
com as mortes por motivo fútil
as violências pela insanidade 
e os sentimentos mais mesquinhos,
sujos e vergonhosos, abomináveis
- ele não fez nada além de espiar
as notícias de um grande telejornal
sem boas novas nem promessas
apenas a admirável decadência
humana por demais

uma boa noite e o diabo assustado
receoso pela culpa que lhe cabe
desliga a tv, a luz da sala
e refugia-se na velha poltrona
amiga vermelha e também puída:
ali é um mendigo bem remunerado
completamente desapontado
encolhido sob a imaginária marquise
e gritando por dentro: não, não, senhor
eu não tenho culpa de nada!
sou apenas um pobre diabo humilde
e não arquitetei essa guerra!
vós que tirastes os pecados do mundo
escutai a nossa prece
eu não arranco corações
e não decapito pessoas 
eu não planejo atentados 
e nada tenho a ver com estes fuzis!
o que me resta é ser um homem 
desta terra de ódio e incerteza
enquanto cada noite tem horrores
e a insônia santa do caos 


@pauloandel

Saturday, January 28, 2017

tão estranho

é deveras estranho, estranho demais
ver os meus heróis da juventude
tão sisudos e reacionários, integralistas

negando a própria estampa

as minhas garotas foram embora
algumas enricaram, outras nem tanto
muitas faliram as personalidades
e as sãs e salvas agora são silêncio

de saudade ou até desprezo

os homens de sucesso do meu tempo
não passam de ladrões calhordas
reacionários pilantras, hipócritas
foragidos, enjaulados ou sumidos:
nenhuma fala ou foto, nem pista

os formadores de opinião do meu tempo
têm muita opinião e escassa leitura:
sabem tudo sobre o quase nada, grátis
e vivem certezas absolutas da mediocridade

nada disso faz muita diferença ao final
porque poucos entendem o livro escrito
a verdade está nas figurinhas carimbadas
enquanto o sol de verão é a cabeça vazia
enquanto as cores dos dias são tão frias

estamos numa boa esperando, esperando
esperando a pátria passar - ou dar até

@pauloandel


Monday, December 19, 2016

Tuesday, December 13, 2016

e-bostanet


Wednesday, November 30, 2016

o vago, o vazio

no fim há um vazio
um vago
repleto de silêncios barulhentos
perturbadores

um vazio, uma dor
a melancolia
e olhar em busca do que desaconteceu

procurar o que já não há

um vazio, um silêncio
um minuto de réquiem

um sentimento de "e se?"

não, não há. não há.

existe a solidão no meio da multidão
e o contrário ao se ver tão só

mas o vazio é o punhal cravado na alma

o vazio

o vazio

vazio

no fim há um vazio
um vago

não resta o ódio, nem a paixão
nenhum conforto, nada

os melhores versos, as mais belas palavras
não dizem absolutamente nada

enquanto se caminha pela trilha
na mata ilógica chamada vida

@pauloandel

Wednesday, November 23, 2016

Friday, November 11, 2016

minha amiga, meu amor

minha amiga, a quem sempre amei
desde que conversávamos pelos silêncios
e reticências
enquanto sonhávamos com noites de luar e pequenas sacanagens
fraternais sem dúvida
- amar não é pecado

meu coração está em chamas e arde
eu tenho o amor e a solidão
com a multidão à meu lado
e vejo o teu rosto nas pessoas
que passam tão apressadas
pela rua principal da grande cidade
que nos abraça

minha amiga, meu amor, nossa fé
nos mundos que não nos reúnem
nos fogos de conselho que não se apagam
e a alvorada que também liberta
eu vejo teu rosto lindo, sereno e triste
enquanto me deparo com a miséria humana
das empobrecidas esquinas

eu vejo tuas mãos delicadas, teu dorso, teus seios, e navego em promessas
de pecados nos quais desacredito
ainda que a juventude não me pertença

minha amiga, heroína, agora longe
para sempre viva e linda, saborosa
hei de ouvir tua voz de licores e mel
ou de sonhar com tua presença em mim
o amor é uma trilha interminável
enquanto sóis e sóis nos banham
e trazem calores, desejos e felicidade
pois somos os versos de nossos próprios poemas

o meu peito que bate e dói, uma canção
um mundo lá fora e este vazio
enquanto te procuro em lembranças
e pequeninos momentos felizes:
sóis e sóis nos devem uma pátria
enquanto te vejo e tanto amo

minha amiga, minha tradição
eu sou o sopro de um coração
nas mãos
e desejo que tenhas um abraço
um abraço encarnado e quente
do tamanho do meu amor

enquanto o sonho não avança
vamos sobrevivendo e cantando
lutando contra os problemas populares
lutando contra os problemas populares

@pauloandel

em memória de Leonard Cohen

Wednesday, October 26, 2016

o homem falso

diante do espelho, o homem
falso sorri: ele jamais se engana
consigo mesmo

- eu não me minto!

e saboreia sua nobre decadência
a certeza de sua mediocridade
enrustida em poses e sentenças

então gargalha

percebendo toda a inútil farsa
não há rancor que sustente a alma
mas disfarçar é por demais preciso

o homem falso encarando sua mentira
e sabedor de que vive os tais dez anos
em vão e com velocidade descomunal

enojado de si mesmo e de todos
apontado como um deus opaco e só
preparando frases, contando caos
até que tudo vire literatura crua

o autor não importa:
o homem falso é uma pátria de certezas,
todas elas no vão da história.

o homem falso é a sua máquina mortífera
espionanando a mentira que lhe humilha

@pauloandel

Saturday, October 08, 2016

Thursday, October 06, 2016

mátria mãe gentil


e você, você, você de novo
com a sua fala esgarçada
mofada
contando as mesmas piadas
e só fazendo rir
quando se leva a sério

repetindo os versos ruins das revistas
e as manchetes deploráveis
repetindo tudo o que acredita
sem parar para pensar o razoável:

- eu li, eu vi, me contaram, eu sei!

enquanto seus senhores feudais riem
durante coquetéis refinados
e poses planejadas por horas a fio

você repete as manchetes
as notícias fabricadas
as verdades oficiais dos panfletos
e tudo é tão belo e perfeito

quem te entorpeceu para que não visse
o triste fim do mundo?

a praça da apoteose de auschwitz
é o carnaval da desgraça do mundo

as grandes corporações lucram muito
com a lenta decomposição do mundo

e tudo passa rápido como um anúncio
de cinco segundos no youtube:
- o senhor esteja convosco!

até o último segundo da noite
esperei pela salvação do mundo

mas ela não passa na TV, nem no Face
nem perto dos áudios indiscretos
nos nudes, nas putarias, nos batidões -
quem inventou esse lindo novo mundo?

louvado seja o vosso nome!
agência, conta e o senhor no coração!

brincamos de politizados, acadêmicos
gestores preparados, tão destemidos
homens brancos de bem, do povo
do povo o caralho! do povo o caralho!

fascistas de merda, homofóbicos cus
fiquem todos atentos à cadeia nacional:
o ministro fala bonito e elegante ao léu
mas as palavras são vazias, frígidas

somos cachorros com a língua de fora
inebriados com as imagens do sabor
vendo o frango assado girando livre
no espeto da galeteria - é lua cheia!

nós, números de empresas, de listas
e cadastros e zonas e arredores
números contábeis, tributos baratos
números de lápides abandonadas!

o futuro só pertence às carnes podres
nobres decomposições da matéria
e o fim do mundo não existe tão bem -
a dor é o vazio, a nossa desesperança

até quando você vai se entorpecer
com as incomparáveis mentiras
das manchetes, das listas notáveis
dos senhores ocos de retórica vadia?

só o amor constrói a beleza da ilusão

enquanto vivemos entre os tragos
o choro solitário e a melancolia do fim

viva o esquartejamento da falsidade!
saudemos aos céus a nossa ignorância!
somos idiotas fantásticos: temos razão
mas as conclusões são pura inutilidade

os belos fogos do morro são a prova
da nossa indigência intelectual nua:
- achamos muito bonito! bonito demais!

as pessoas estão nas ruas porque gostam

não temos nada a ver com a dor alheia

nós não fizemos o mundo desse jeito:
na verdade, o que não fizemos foi nada!

@pauloandel



Wednesday, October 05, 2016

Saturday, September 17, 2016

solidão

que solidão é maior
do que ser mais um
na voz da multidão?

todos juntos vamos
ao lugar nenhum
nada sobre nada

nenhuma canção
para celebrar o nada
levantamos o pranto

e os gritos de amor se perdem




Friday, September 09, 2016

grande cão

oh, grande cão das orelhas afiadas
e olfato impecável, o que procuras?

farejando a minha alma encardida,
esgarçada, pendurada num varal

o imaginário pau de arara e sua dor
choques elétricos e ratos na vagina

e o que pretende à minha boa morte?
esqueça das minhas assombrações

e veja a morte dos choques de ordem
das ilusões burguesas de camarim

grande cão, não convém latir muito
porque é olho por olho e dentes nus

os velhacos e suas amantes, esperem:
todo mundo tem passado na hora vã

grande cão, tenha um grande coração
porque a tempestade somos nós dois

@pauloandel 

Thursday, September 08, 2016

acontece

acontece: estamos oprimidos demais
pisoteados demais, desprezados demais
temos sido derrotados pela estupidez
somos campeões da casa do caralho
- o descaso é nossa pátria mãe gentil
e queremos o exílio - sorvemos exílio
com as enrugadas mãos estendidas
debaixo de marquises tristes
e belas varandas indiferentes

onde foram parar a ordem e o progresso
que não nos chamam à paz?
navegam em mares desconhecidos
enquanto a esperança é ônibus lotado
cheio de descrentes

o que nos resta é o rancor, a mágoa
um sentimento de culpa coletiva
enquanto o sono também traz lágrimas
de boa morte para um amanhã de nada

e quem há de se importar com a dor?

acontece que rompemos os paradigmas
da estupidez numa grande população
- e os obreiros nos odeiam com força
parecemos involuntários orixás

ainda bem que estamos numa democracia
mesmo que a descarga esteja entupida
e não tenha sobrado uma mísera
canção de amor, oh grande amor!

sejamos as irmãs de caridade funesta
da nossa desgraça
e os velhos sujos, pútridos títeres
com seus choques de ordem
e gente bonita, branca e de bem
dançando na lama esgarçada do caos
a última nota do solo é bênção do caos

somos imortais pela dor que nos une
a nova ordem é uma piada insípida
o tom da cor tem uma estampa torta

@pauloandel

Tuesday, September 06, 2016

urnas eletrônicas e o grito de independência

quando as urnas eletrônicas votaram sozinhas, a república federativa da indigência mental viveu a liberdade

os indivíduos de bem ruminaram mamilos, gritaram flatos e decretaram mediocridade ou morte súbita a sós

um grandioso céu de anil enfeitou a pátria amada - mãe gentil das estúpidas sentenças de peixes e varas de pescar

e todos ficaram apaixonados por seus próprios cus, verdadeiros detentores da grandeza do raciocínio diferenciado

cus, nobres cus, ventres livres do novo iluminismo desta terra, que é o país do futuro porque ninguém lembra o ido

a literatura dos sovacos tornou-se voz
dos exilados das bibliotecas, salas de aula, mesas de bares e seus arredores

foi a libertação dos cérebros inúteis que possibilitou novas descobertas lúcidas sobre o tratado geral da gente ignara

e trouxe riachos de felicidade aos donos da terra, os senhores de engenho novo e seus capitães do mato contemporâneo

lindas manchetes de jornais eram lidas
pelos próceres de calças arriadas e fé
na análise crítica de seus atentos cus

a nova ordem trouxe prosperidade e luz
aos cretinos, sonegadores, traficantes, totalitaristas e demais celenterados

e acabou o comunismo, esse incrível comunismo da livre iniciativa e do grão
dinheiro cada vez mais concentrado

o comunismo foi derrotado pela união dos cus pensadores, os novos reitores da academia das ciências de merda vil

no dia em que as urnas eletrônicas votaram sozinhas, os cabrestos deram adeus aos pescoços nus dos asininos

e fomos felizes demais: gritamos gol, berramos uhus e vimos gente jovem e bonita por todos os lados tão possíveis

o problema foi à noite: sendo os cus novos pensadores, quem iria querer saber daqueles velhos cérebros tristes?

o que fazer dos choques de ordem, das repressões, dos mares do ódio virtual, das certezas dos primitivos da cólera

o comunismo acabou, a barbárie é real:
somos todos campeões do mundo torpe - temos nossa nova meritocracia

estamos no auge da nossa liberdade: comentamos o que não lemos, somos indiferentes aos bons pensamentos

finalmente nos libertamos com méritos:
nossos cus foram voluntários da pátria
e nos resgataram da boçal solidariedade

o papel higiênico arranha os cérebros
a fraternidade é protagonista do féretro
e a hipocrisia é nosso capital inicial

cus, delicados e sacrificados cus, deem
ao povo tudo que não encontramos
nos velhos estudos feitos com a cabeça

a verdade é que somos excrementos
de uma sociedade fedida e contaminada
uma pátria cerrada até a sã guilhotina

somos soldados de revistas ordinárias
e manchetes fajutas, quase artesanais:
eis a bosta nova que cerra a tarde cinza

@pauloandel


Wednesday, August 31, 2016

novos bichos escrotos


clique nesta merda para ampliá-la

Monday, August 29, 2016

golpista pária

o golpista, tão sorridente e certo
dotado de imperecível razão e fé
para julgar e condenar pela pátria
como procurador da palavra de Deus
o patrulheiro da verdade inconteste
e cheio de certezas ameaçadoras
o golpista, ah, o golpista tão ingênuo
fazendo acreditar na sua vã perfeição
construída em palácios de ocaso
feito as ciências curtas e apagadas
vendo nos outros os vícios elementares
que carrega em seu próprio âmago
o golpista a caçar as oportunidades
lambendo os beiços com sua arte:
um golpe quase perfeito, inebriante
não fossem as evidências da alma
o caráter navegando o mar de esgoto
e a consciência entorpecida em fel
o golpista, acima de tudo um canalha
é um porco individualista hipócrita
buscando na justiça o que não terá:
respeito, apreço, consideração, amor
e sempre carregará em si o fartum acre
dos cortiços vadios da própria alma
porque não engana a mais ninguém
o golpista é só um golpista e nada mais
não adiantam os bens ou o dinheiro
o progresso ou o traje impecável
nem a falsa fala educada ou veemente
o golpista tem uma tatuagem a ferro
nas pavorosas entranhas da essência
e não há desmemória que possa apagar
o golpista com seu sorriso de merda
comemorando uma vitória de merda
mas incapaz de enganar a si mesmo
onde armazenará o turbilhão de rancor?
o hipócrita é um derrotado, fracassado
fingindo ser o campeão sem conquista
o futuro da nação é a indiferença mor
cada um por si e boa sorte para todos
rezemos missas num shopping center
façamos grupos de estudos também
sejamos escravos tolos dessa máquina
enquanto escroques debocham de nós
e dormem tranquilos o sono dos deuses
foda-se o futuro, os pobres e fudidos
foda-se a maioria, viva o si mesmo
enquanto refazemos nossa pátria mãe
com nossos currículos tão bosteados
as frases feitas que parecem um pum
e parecemos tão generais da banda!
o comunismo acabou: ele foi derrotado!
mas a nossa estupidez é a grã certeza
temos aeroportos, fizemos faculdade
somos diferenciados, merecemos céu
mas o espelho nunca se engana: somos
o retrocesso, a mesquinharia, a merda
como enganar a nós mesmos,
golpistas que somos, ratos de esgoto
na bela celebração da merda
- SOMOS MERDA
mas o nosso egoísmo nos impede
do brilhante papel de adubo colossal
SOMOS MERDA e o fim da linha é longe
nós, golpistas, somos escravos rústicos
primitivos de corpo, alma e aparências
e rimos do napalm que vai nos cobrir
seremos carne morta a ser escarrada
pelos vermes de bem, lúcidos, lícitos
é só então entenderemos nosso papel:
o de otários deslumbrados, flácidos
párias da sanidade, ácaros desprezíveis
ainda somos os mesmos e vivemos
nas barras das saias de nossas mães
somos fedelhos ignorantes e vazios
sepultados no jazigo da mesadinha
e temos nojo dos pivetes infelizes
temos berço, nome e merecimento
viva as capitanias hereditárias! 

Saturday, August 27, 2016

Tuesday, August 23, 2016

Thursday, August 04, 2016

sex divine



@pauloandel


das ruas sem transeuntes


@pauloandel

Saturday, July 16, 2016

cruz vermelha 22 horas

enquanto sorvia uma tigela de creme de ervilhas no meu bar predileto da cruz vermelha, eu vi o mundo no coração do Rio

os jovens garçons, rapaz e moça, cansados depois de uma jornada extenuante, enquanto espiavam a praça vazia e silenciosa

ao mesmo em que o vento firme levantava as folhas do asfalto e anunciava uma noite mais fria, natural do inverno

jovens negros da rua corriam com seus pertences de mendicância em busca de abrigo numa quadra sem marquises

e uma viatura policial entrava na contramão sem motivo de ocorrência policial, mas apenas para cortar caminho

ao terminar o caldo, me despedi dos amigos de bar e caminhei silenciosa e solitariamente por cem metros

e tive tempo de ver um grupo de adolescentes caminhando para uma festa, com os garotos cortejando a belíssima menina negra que os liderava

depois de ter passado pela portinha do sobrado onde meu pai sempre parava para conversar com meu irmão, a tempo ainda de ajeitar a cadeira de rodas

o posto de gasolina abandonado que serve de abrigo, moradia, estacionamento e muitas outras utilidades da rebeldia

do outro lado da rua, a tia do açaí atende a uma fila de clientes fiéis, alguns advindos de outros bairros, outros da praça

cem metros depois, eu e Maurício, o porteiro chefe do prédio onde moro, fazemos piadas dos moradores reacionários

deixo um abraço e tomo o elevador

no espelho do veículo, não me reconheço e penso no meu amor longe demais, enquanto a noite fria vai aterrorizar gente pobre e sofrida

quando encosto a chave no miolo, num segundo lembro de vizinhos idos, de gente que disse adeus, do que não deveria ter sido o vazio

depois deito, vejo a TV num filme onde Sandy parece tão linda e há silêncio demais, enquanto escrevo versos tristes e desaconteço

foi então quando entendi o que me disseram ainda menino, sobre a vida com brevidades demais, sem tempo para rancores

procurei abrigo nas imagens, na solidão do quarto vazio, nas dores do meu corpo, do tempo que me resta e que espero ser bem grande

e me encontrei sozinho, como sempre fui e estive, porque todos o somos e seremos neste estranho destino denominado vida

@pauloandel