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Sunday, August 12, 2018

manhãzinha

o silêncio profundo na manhãzinha de domingo. um ônibus corta a cruz vermelha lentamente. os notívagos deixam a boemia da lapa para trás, caminhando lentamente. um ou outro carro passa.

do lado de fora da janela do quarto mora um silêncio. a réstia de luz escapa por dentro da cortina azul.

há mil domingos ou dois mil domingos, eu achava que era mais feliz. pão, presunto, queijo prato, um litro de leite em saco plástico, muitos jornais, a família batendo os talheres no ir e vir da minúscula cozinha. a esperança de um bom jogo no maracanã, de um belo show na praça do arpoador, de uma caminhada pela praia apaixonada de copacabana.

as pessoas sofriam, mas havia uma doce ilusão de futuro, o tal país do futuro, aquele que, ao que tudo indica, jamais chegará. era triste, mas diferente deste silêncio de desalento, de morte em vida. gente que virou número, quadro, objeto a ser descartado, lixo sem reciclagem condenado a morrer sufocado pelo próprio chorume.

onde foram parar os bêbados admiráveis que passavam do lado de fora da janela, cantando e espantando a dor às seis e meia de domingo?

do lado de fora da janela existe uma cidade fantasma, incapaz de impedir a agonia que alimenta seus suicidas miseráveis e tristes. a banca não tem jornais, a padaria não abre, os talheres estão imóveis, existe sofrimento e melancolia. ninguém espera um grande jogo no maracanã, nunca mais o arpoador abrigará um show especial.

ao quase longe, os miseráveis da cruz vermelha começam mais um dia de sofrimento em seus caminhos inevitáveis para a morte. não há nenhuma celebração. não há qualquer motivo para se festejar o que quer que seja. menos mal que, daqui a pouco, crianças vão chutar uma bola velha no asfalto da rua de lazer.

está me faltando coragem física para abrir a caixa do Tom Zé, o duplo do Bob Dylan 1966 e o box do Police. enquanto isso, o sol se torna mais vivo por trás da cortina azul. os filhos vão abraçar os pais, vão chorar por eles ou tentar entender este mundo de incompreensão e tristeza, onde é normal ver as pessoas jogadas na rua feito mascates da vagabundagem - eles estão lá porque querem, diz um comentarista primitivo do cotidiano.

ah, quem me dera pudesse voltar a jogar futebol com meus amigos, sonhar com um domingo feliz, sonhar com um país e um mundo que não são meus e, na verdade, revê-los como eles nunca foram.

às vezes os pais são muito felizes. noutras, eles são abraço e fé. noutras, eles são a lembrança da réstia de sol que penetra pelo meio da cortina azul, fechada. os filhos procuram os pais, o futuro repete o passado por alguns instantes, até que ronca o motor de um ônibus e é o único sinal de oposição numa estranha coalizão de fracassos. o que vem pela frente, ninguém sabe, ninguém.

@pauloandel

Friday, August 10, 2018

cortar cortar

vamos cortar vamos?

vamos cortar as gorduras

as despesas

vamos vamos cortar

as divergências e desacertos

vamos!

que tal cortar na própria

carne?

cortar os outros, os baratos

vamos cortar nossos sonhos!

vamos cortar os números

os empregados, os investimentos

cortar postos, ora!

hora de cortar despesas: são

tudo investimento FODA-SE

vamos nos cortar uns aos outros

com belas balas

cortar o caminho, abreviá-lo

cortar, cortar, cortar

cortar as vidas de merda

até que o nada e a destruição sejam

um só: irmãos siameses

namorados de mãos dadas

celebrando uma guerra que só tem

derrotados

suicidas

e corpos putrefatos:

os pedaços podres no

chão atestam o sumo

da nossa ignorância

@pauloandel

Tuesday, June 19, 2018

sido cão

tenho sido um cão sujo e triste abandonado numa calçada respeitável, enquanto outros cães me desprezam e não oferecem um pedaço de carne sequer. ah, os cães que passam tão indiferentes, ocupados com tardes e noites vazias, procurando a vaidade num espelho sujo. nem as pulgas me abraçam. tenho sido um cão sujo e triste, zumbi desnecessário cumprindo adestramentos inúteis porque sou velho, não tenho planos nem futuro, os outros cães não me oferecem solidariedade porque seus instintos estão pervertidos. hum, grande cão inútil sem osso nem casinha, sem vacinas e tosa, um diploma que seja! sem direitos: não tenho maconha para aliviar minhas noites de frio, nem emprego porque os cães são desimportantes no país dos estrumes, nem renda, nem casa, nem qualquer coisa que passe perto de algum conforto. eu, cão, sem pai nem mãe nem irmão, sou apenas um coração inchado à espera de uma chance, de um osso para roer, de uma mísera mão acima da cabeça por consideração e justificativa para estar onde não posso falar, onde nunca serei escutado além dos poucos latidos que tento - eu cansei de latir em vão, os cães não ligam, os animais irracionais gritam e matam e morrem em vão. eu, cão sujo e triste, querendo um banho que não depende de mim, um pacote de guloseimas que passa na TV para a elite - eu sou excluído por excelência -, um pequeno afago que me faça sentir importante no meio de tantos outros cães, coisas grandes, bichos grandes que vão e vêm sem compromisso com qualquer bicho em volta. tenho sido um cão sem sentido, ando à toa, sou insone em qualquer calçada e tenho certeza de que não faço qualquer sentido frente aos bichos de aço, aos bichos de patas redondas de borracha, aos pequenos bichinhos que esticam suas patas tentando alcançar outros bichos apressados. cão, cão, tenho visto a dor e o sofrimento que não sei latir, mas apenas fitar com meus olhos tristes e irracionais. não aguento mais a coleira, a sujeira, o osso que não encontro, a guloseima do pacote que nunca me dão. por favor, não soltem fogos. @pauloandel

Tuesday, June 12, 2018

um homem comum


eis o homem comum, um cidadão
um número
caminhando sem cantar as dores
tão solitário
no coração de uma grande
cidade

um homem sem nome nem berço
sem ambições e esperança
caminhando sozinho
em silêncio e lágrimas
encolhidas enquanto espera
a hora fatal sem previsão

um homem qualquer, pobre, triste
simples e desprezado
um homem do povo
com seus panfletos ou bugigangas
ou panos de prato ou figurinhas
lutando, lutando
pelo que jamais virá

um homem no chão, sem nome
sem pai nem mãe
sem nenhum amigo
sem o respeito do outro
olhando para o céu e tentando
entender o que faz
no coração do inferno

@pauloandel 

tristessa


eu não caibo mais
aqui
não era minha
a pena que eu
cumpri
eu não tenho
abraço, afago
apoio, perdão
nunca fui nada

eu não pertenço
a este lugar
não tenho a ver
com ninguém
não aguento mais
a minha dor e
a de outrem

eu não tenho
turma, família
casa, pátria
felicidade
eu não faço
a roda girar:
tenho saudade
até do que
não pude ver

eu nunca fui
de caber aqui
não é o meu
lugar
- quem havia
de amparar
a tristeza?

[ninguém mais]

[a morte me cai
tão blue]

um tchau
e voltar do jeito
que vim:
sem rancor
nem vontade:
apenas
a miragem

@pauloandel

Friday, June 08, 2018

O novo single de Mussa: "Eles voltaram de novo"

"Eles voltaram de novo", nova música de trabalho do cantor, compositor e artista Mussa, em parceria com Kiki Marcellos.

FACEBOOK DE MUSSA: CLIQUE AQUI




Thursday, June 07, 2018

você precisa ler o mundo

A gente só vai conseguir dar passos à frente quando você ler o mundo de verdade, muito além do óbvio. Você, a gente, todos nós. É preciso ler o sangue nas veias, ler as lágrimas da saudade, a tristeza, o desalento e também a esperança. Ler, ler, ler os versos tortos, os parágrafos sujos, as crônicas enferrujadas, os velhos e-mails arquivados na pastinha. A gente precisa ler uma noite à beira do Atlântico Sul, uma tarde no Imbuí, um dia de procissão. A gente tem que ler a compreensão, porque a afirmação que depende de escorraçar o outro é natimorta na essência. Você tem que ler o abraço, o carinho, as outras palavras neste mundo de imensidão, injustiças e egoísmo. Vamos ler o amor ao outro, a consideração, ler o querer bem, ler nas entrelinhas do apreço. Que tal ler a imagem do velhinho sentado no banco da praça vendo as crianças brincarem? Ou do moço da carrocinha de picolé? Ler a moça das verduras na esquina perto do bar. A gente tem que ler os sonhos das crianças e não botar tudo a perder. Vamos ler amor e sinceridade? Vamos, é preciso! A gente tem que ler a beleza da Roberta cantando samba na televisão à meia-noite. Respeitar o cansaço do vigia na portaria de madrugada. Vamos ler o passado, quando éramos mais gentis sem a Idade Média com smartphone. Ler, ler, ler, chorar, sorrir, tentar entender um pouco deste mundo injusto e breve, cheio de maldade, mas procurando as pequenas brechas e lê-las, exatamente onde alguém escreveu o espírito da paz. 

(ao fundo, os tiros de sempre no Catumbi) 

@pauloandel

Tuesday, May 22, 2018

Os trechos dos livros que ainda não foram escritos

Participação especial de Amanda Rodrigues.

Prefácio de Marcelo Migliaccio.

Direção de Zeh Augusto Catalano.

“O Sr. Robert, 70, desceu à rua. Veio ao Rio de Janeiro por motivos profissionais, mas já conhecia a cidade de outros tempos. Num domingo nem frio, nem quente, com nuvens em Copacabana, ele caminhou vestindo um casaco talvez jeans, uma touca e óculos escuros. Noutros lugares, talvez a indumentária chamasse a atenção, mas não no bairro da praia mais famosa do mundo, onde andar vestido com um uniforme de super-herói ou com uma fantasia de viking não causa qualquer espécie - desde os anos 1940, alguns moradores da região faziam coisas bem piores (ou melhores, dependendo do ponto de vista)."

"Uma vaca preta e solitária caminhando tranquilamente pelo pasto verde e rente, bem rente, numa espécie de mar da tranquilidade esmeraldina, sem ninguém por perto, nenhum tocador ou fazendeiro, nenhuma outra vaca também, simbolizando o tempero de solidão que se sente quando se está numa ilha - e os Açores são assim, deitados elegantemente nos braços do Atlântico, onde não se vê um barco sequer ao longe e, ao fixar os olhos na linha do horizonte, é inevitável sentir o gosto da melancólica reflexão sobre o mundo.

"Mas afinal, onde foram parar os flamboiantes da cidade? E as amêndoas, cada vez mais raras e sem os minicraques da pelota, loucos para chutá-las e marcar lindos gols imaginários no estilo do falecido Maracanã? As jovens normalistas e os pequenos jornaleiros, cadê? Símbolos de charme e juventude, noves fora nada.

"Ah, Thaís, como eu te quis! Desde a primeira vez que te vi passando tão linda no saguão da faculdade, nunca mais te esqueci. Eu pensei em você quando estive em outras cidades, em outros causos e outras mulheres: todas foram traídas por você involuntariamente. Pensei em você nas noites de luxúria e solidão, nas noites de festa e lazer, no gozo de ocasião. Eu encontrei você nos meus sonhos de putarias mais doidas e também nas cenas mais românticas de uma pracinha do interior. Ah, Thaís, eu te quis o tempo inteiro até que fôssemos uma só carne e um abraço."

"Trinta anos depois, Vaz Lobo estava completamente diferente. A Edgard Romero completamente deserta às sete da noite, mesmo em frente da antiga Nuno Lisboa. Do outro lado da rua, o prédio de quitinetes onde morei com meus pais por alguns meses - os antigos moradores eram jovens estudantes comunistas que fizeram lá dentro um mosaico com fotos de jornal, especialmente a de Mussolini de cabeça para baixo. Cheiro de rua triste. A lanchonete Miguelão estava morta."

Friday, May 11, 2018

breve resumo da vida

a vida
é o exercício
das inutilidades:
nascer, crescer
viver, morrer
sem entender
o ir e vir das coidas
sem entender
o estranho amor
o inconsciente
tudo sob demolidora
velocidade - nos
pequenos intervalos
procuramos a paz

fim


O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? O ódio das ruas, a opressão, olhar para trás e estar bem mais perto do fim do que do começo, nada mudou de verdade exceto o tempo que é cada vez mais exíguo. Temos nossas próprias guerras e o mundo não vai nos escutar ou acudir. Continuamos chorando pelas ruas sem que ninguém dê atenção ou sequer perceba. Somos o desalento. E então nos amontoamos nas cidades em barracos, marquises, três, ônibus e calçadas. Todas as velhas mãos esmolando e esperando a hora da morte continuam lá. Todos os garotos negros, humilhados famintos, continuam com suas caixinhas de engraxate à mão, sentados com os olhos esbugalhados em frente à vitrine da loja de eletrodomésticos, sonhando com um desenho animado, um lanche, uma noite de paz que nunca virá. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Os homens pomposos, cheios de diplomas, mal sabem ler as evidências. E trocamos nossas livrarias por restaurantes, nossos cinemas por igrejas, nossos centros culturais por nada. Estamos muito ocupados com os smartphones tocando canções toscas ou oferecendo joguinhos de passatempo. Ou conversas daquilo que nunca vão chamar de amor ou atenção, sequer afeto. Passatempo. Estamos cheios de armas por todos os lados, mortes por todos os lados, as famílias choram diariamente por alguém que nunca deveria ter ido à toa. As pessoas são honestas, mas os empregos estão acabando e não há vagas para todos: muitos vão ser ainda mais humilhados, oprimidos, tratados como lixo na sociedade onde cada um é um número, um quadro, uma merda qualquer exceto gente. Não somos mais gente, muita gente não nos considera gente e sequer a si mesma. Somos quadros. Números. Códigos numa lista de espera. Somos currículos jogados fora numa agência de empregos. Somos os receptores de “Muito obrigado, a gente te liga”. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Nós seremos sempre amores desencontrados, portas fechadas, endereços por engano, clichês da desilusão. Nenhuma droga vai nos salvar; no máximo, tentar minimizar a dor, até que vem a realidade das próximas horas e tudo volta ao caos de sempre. Ficamos acostumados a anormalidades em forma de mundo corporativo s.a. – e como você não inventou o mundo, não tem culpa dos mortos no prédio implodido da Paissandu, nem do antigo Edifício São Vito – alguém se lembra? NÓS somos o desprezo ao Morro do Bumba, a indiferença diante de quilômetros de miséria, ameaças, estupros e humilhação. Nós somos o gado sem rumo dando porrada uns nos outros para sentar no banco de aço do metrô, porque eles são poucos e o trem é feito para as pessoas irem apertadas em pé mesmo, porque quem trouxe os trens acha que pobre tem mais é que se fuder, apoiados até por alguns pobres que não se consideram pobres, assim como temos os negros que apoiam o racismo, os gays que acham graça da homofobia, os saudosos da ditadura que não se importam com os mortos e estuprados por ela – “estavam fazendo merda” – quem diz isso deveria pagar imposto sobre a própria respiração. A cada dois anos as manchetes se repetem. Não somos capazes de valorizar quem nos valorizou. Este é o mundo moderno de 11 de maio de 2018 e, tirando os iphones e as grandes televisões, o que nos restou foi uma Idade Média com 210 milhões de pessoas, sendo que a metade delas somada tem menos dinheiro do que seis criaturas deste país, e alguém ainda vai dizer que esta matemática tem condições de gerar prosperidade. A verdade é que estamos todos condenados e vamos cumprir penas, alguns com todo o conforto em casa e as manipulações que já se conhece bem, enquanto outros vão se arrastar até o nada: a carne podre, dissolvida em caixas mortuárias, esperando que alguém tenha saudade de seus ossos. As pessoas estão ocupadas demais porque em muitos casos perderam completamente o senso de humanidade. O outro não é nada, é só um móvel ou uma vassoura ou uma caixa empilhada. Aplaudimos os golpes e ficamos em silêncio quando somos empalados por eles. Ainda somos os mesmos patetas que imitam a novela, que repetem as falas dos telejornais sem nenhum senso crítico. Talvez toda essa merda também seja culpa nossa; na verdade, é mesmo. O desencontro, o desprezo, a distância asséptica, nós inventamos isso em nossos tempos modernos e, em breve, chegaremos ao auge da vanguarda, quando nossos apartamentos não passarem de cavernas onde estaremos abrigados por causa do mundo injusto. Tudo que está aí é inaceitável e, por quarenta anos, do meu jeito, com os meus pobres recursos, eu lutei contra isso e não passei de um escravo da dignidade do homem. Continuo sendo, mas agora estou morto, me vejo morto e só assim posso respirar minúsculos segundos de liberdade em sonho. Finalmente chegou o dia em que, no fundo, somos todos infelizes demais – e o pior: nós mesmos construímos os diques que, planejadamente, foram afundados para que todos nos afogássemos sem paz, com exceção daqueles que, debaixo d’água, com os pulmões alagados, ainda riem e debocham dos outros, sem perceber que serão tão chicoteados até à morte como suas vítimas do ódio. O QUE ADIANTA essa luta estúpida que não vai dar em nada? Eu estou morto, não tenho santos, nem paz, e carrego comigo apenas uma sacola cheia de tristeza porque meu povo nunca será livre.

@pauloandel

Tuesday, May 08, 2018

desire days

humm la noche é tão
longa
eu só te peço mais
uma vez
desire days
desire days

cada passo em falso
é onda
um estrondo no
carnaval
velhas cenas que
atordoam
desire days
desire days

amanhã não sei
da vida
o outro irrita e
ignora
eu carrego minha
mochila
e vou embora
e vou à vida:
desire days!

microcausos

I

tudo estava muito claro nas entrelinhas do que eu não disse. 

II

nos silêncios que entrecortavam a amigável conversa, habitavam os desejos mais profundos.

III

era melhor beber uma dose miserável de pinga na manhã decadente do que degustar um copo de cólera num dia de falso sucesso.

IV

nunca seremos tão livres quanto nossos próprios sonhos.

Monday, May 07, 2018

quatro a.m.

São quatro da manhã da madrugada mais chata de se ter insônia em qualquer semana. Despertei, ouvi Herva Doce, Marina e Marillion - pensando nos fãs que discutem as eras H e Fish, quando acho lógico que as duas são muito importantes. Há pouquíssimos ruídos em casa e nas ruas, alguns carros, talvez um caminhão, a madrugada amedronta. O Fluminense venceu, os pela-sacos reclamam, há algo de doentio nisso. Tenho insônia e penso em coisas impublicáveis. Subitamente me recordo de quando eu era um garoto de dezessete anos, e tinha de atravessar Copacabana inteira a pé às cinco da matina para chegar ao quartel - ficar horas e horas em pé à toa, até que fui libertado para sempre. Contas a pagar, contas a fazer, medo, incerteza, reflexão, tudo está insone em cima de uma cama confortável no coração desta cidade linda, mas cruel. Tomo remédios para pressão, falo com minha mulher, dou bom dia e sonho com mais duas horas de sono. Agora um carro buzina perto do aterrorizante prédio abandonado do IML. Agora recebo duas mensagens no computador de mão. Agora tenho dez livros inéditos prontos. Agora penso em mais coisas impublicáveis. Ah, sono, o que te faz tão longe de mim? Eu te queria bem aqui. 

Saturday, May 05, 2018

amor em si

amor, um carrossel 
uma noite de pés 
descalços
aos pés do atlântico sul
azulzinho o amor ou gris
também 

amor de parabenizar
e sorver
amor para conquistar 
sem saber
amor de silêncios 
e discretas entrelinhas

o que não diz seu nome
mas cochicha num verso

ah, o amor enrustido
represado, talvez adiado
ou quem sabe redivivo? 

amor que choca e apraz
amor que trai por amor
fugaz
ou imperial no mar da
tranquilidade na 
lua

o amor que não vai dar 
cris
nem incendiar a tez
o tesão sem chama 
acesa
o filme queimado
o recado no vácuo

o amor na doce voz
de dulce quental
nos versos errantes
de clarisse
por um triz
ou num vértice
cheio de perigos

o amor de bossa nova
também pode ser blues
boy ou quem sabe um
beatnik? 

na estrada
na farsa recatada
no viço lancinante dos
desejos ou
fresado e triste
um amor em contraste
um errrante
um cavalo de corrida
ou águia solitária 
em voo rasante 
sem esperar quase
nada

o amor na foto, na letra
no beijo que desaconteceu
nas flores que inexistem
nos olhares enviesados 
nos vãos da escada
nas memórias
o amor que não se entende
e sequer tem explicações
mas resiste e impregna 
o ar
feito incenso cujo aroma 
não se esquece

amor, um colapso
um beijo em terra 
batida
coração de hiato
o amor numa palavra 
ou até numa frase 
sem sentido 
o gosto que se sente
o sonho que prevalece
corações a mil por qualquer
romance
o grande lance é o amor em si

@pauloandel 

Thursday, May 03, 2018

aranha de vidro

renatinha viu uma aranha - de vidro! - no teto e gritou loucamente enquanto jogávamos mau-mau e e eram servidas duas carreiras de cocaína à mesa - ela não tinha nada a ver com o pó, nem eu -, até que a acudimos e ficou tudo bem entre gargalhadas da pós-adolescência. a casa era muito louca, mas sóbria também. todas as tardes nos encontrávamos e havia turmas diferentes: a do metal, a do pop, a do futebol, a de qualquer coisa. renatinha era muito linda e, por isso, o luiz ficou muito louco por ela também, em todos os sentidos. depois eles saíam no carro em direção a são conrado ou outro bairro com ruas de natureza, conversavam, a paixão não era recíproca e o nosso amigo gordinho voltava um tanto desapontado para o carteado, depois de tê-la deixado em casa, bem perto da gente. luiz fugiu de casa aos oito anos de idade e se escondeu na sala da minha casa, enquanto minha mãe dizia que ele tinha que voltar para não deixar seus pais preocupados. ele a chamava de tia, a adorava e disse que, se pudesse, moraria conosco - não dava. na última vez em que nos encontramos, trocamos um longo abraço e choramos: seu pai havia falecido dias antes. dois anos depois, eu abri a porta de casa e encontrei minha mãe em lágrimas. ela tinha ido a copacabana e soube que o luiz havia sido enterrado na semana anterior. era uma noite de quinta-feira, às sete da noite e eu não consegui dormir até o dia seguinte. às vezes encontro com o luiz em pensamentos, lembranças ou quando escrevo sobre ele. muitas vezes eu penso que aqueles dias da aranha de vidro no teto eram os mais felizes da minha vida e de muitos dos que estavam lá, num velho apartamento que tinha cara de junkie - cuja janela da casa permitia ver a artéria aorta de copacabana -, mas que na verdade exalava amor - nós éramos pobres garotos felizes e sonhávamos com um país completamente diferente de toda essa merda que aí está. queríamos nossos jogos, nossas tardes de conversa, nossos amores que voaram pelo vento, nossas músicas e, sinceramente, ninguém falava de dinheiro: apenas de ingressos e bares. 

@pauloandel

Tuesday, May 01, 2018

primeiro de maio

em speito a todos os trabalhadores
e sua avassaladora maioria
de explorados, oprimidos
massacrados

os que choram todas as noites
por não dispor de um salário
mínimo sequer

os que vagam pelas ruas
entre o torpor e a desesperança

os esmagados, sufocados, ignorados
por um golpe vil e leviano

homens e mulheres, jovens e velhos
veteranos e absolutamente
iniciantes
esmaecidos ou brilhantes

amontoados em senzalas modernas

pelo direito supremo de comer
um lanche modesto
por dia

enquanto senhores de engenho
pensam em viagens, piscinas, iates
e veem o outro como um fardo
uma cena desprezível e torta
uma gentalha que devia realizar
trabalhos forçados e só

em memória de milhões de pessoas
mais maltratadas do que o gado
nas gares, nas vias, nas calçadas
enquanto gira a roda da fortuna
que será de muito poucos

em respeito aos milhões de humildes
que tentam vender seu único bem:
a força de trabalho
em troca de moedinhas e pão
e refrescos baratos
e humilhantes ônibus lotados
e enterros em covas rasas
fora do palco central

e dormem em barracos e casas
improvisadas enquanto o fogo do ódio esvazia todas as almas

e os corpos se decompõem
a céu aberto e pátria livre - o quê?

em respeito e memória a todos
os trabalhadores que vivem a dor
a depressão: vassalos
contemporâneos
desesperados ou até alienados
esperando o divino deus
do mercado
e sua generosidade que nunca se viu:
até quando haverá tanta
criminosa ingenuidade?

até quando o fingimento acortinará
a devastação e o rancor?

até quando a morte será celebrada em troca de terrenos livres, investimentos corporativos e pontos em bolsas?

não se pode esquecer dos bons patrões
que vão além de covardes exploradores:
quando existem, são bem-vindos
- o que lhes sabota é a raridade!

em respeito a apreço a milhões de brasileiros que diariamente entregam suas vidas, esforços e saúde

para sobreviver com mínima
dignidade
e se esgueiram
do desprezo
do ódio de classes
da ruindade em carne viva
da desumanidade
da desumanidade
da indiferença

a sociedade é uma grande senzala
enquanto navios negreiros da morte
correm em rios de asfalto
e janelas gradeadas

não há vagas: apenas
cochos

@pauloandel

Monday, April 30, 2018

a grande farsa

estes são os dias selvagens
sem esperança
onde os humildes padecem
e os fracos são covardes

sorrisos de solidão
declarações sobre o vazio
sucessos cheios de ninguém
e grandes amores 
de aparência 

os traidores são a vitória
os mesquinhos falsos, medíocres
celebram a conquista do nada
o desimportante é a celebração

estes são dias terríveis
onde a maldade amedronta
e o egoísmo vil é fascinante: 
a república dos hipócritas

ódio e vingança simulam justiça
prepotência quer dizer sucesso
indiferença se faz de elegância
ordem e progresso: a grande farsa! 

@pauloandel

Saturday, April 21, 2018

noite de meia lua em gotham city

é fim de tarde no coração da 
cidade seviciada 

o outono escurece as ruas 
mais cedo do que há 
pouco 

os carros desapareceram 
e nem os homens sofridos
vivem a morte em vida 
sobre as pedras 
portuguesas nas
calçadas

os bares estão vazios 
e nada garante 
as próximas
horas

nenhum batsinal no céu
onde está o nosso herói? 

o silêncio das vias explica
o óbvio: não temos previsão
para os próximos
dias

os casais adormecem às oito 
da noite 

a boemia faz brindes no whatsapp

existe tristeza e opressão: tudo é
mais do que assassinatos
mas os verdadeiros presidiários
de gotham city não dão uma
palavra
um pio sequer

vazias, as panelas estão 
emudecidas
viva o delivery! 

há solidão em cada ilha m
motorizada
as crianças não jogam
bola na rua 
e quase ninguém conversa

no centro de gotham city
um mendigo em desespero
com o coração ensanguentado
olha a meia lua e pensa
na morte que insiste em
não libertá-lo do 
inferno

enquanto 

raros transeuntes caminham 
apressadamente carregando
a trilha sonora da desolação
em seus fones de
ouvido e nenhuma
atenção

@pauloandel 

Friday, April 20, 2018

Tuesday, April 17, 2018

uma oração para copacabana

estes são dias em que nada supera o cheiro de ruas tristes

enquanto sou um exilado em meu próprio bairro

contando as horas para uma libertação que nunca virá

somos prisioneiros do ódio e da indiferença: o outro é o esgoto! 

copacabana, eu sou autópsia! 

suspirando pela lembrança da boite bolero e suas doces putas tristes
entorpecidas com cocaína

e sonhando com uma libertação que nunca virá

os mendigos e seus olhares derrotados
vazios e tristes demais

copacabana, eu sou teu suicídio
escondido nas cortinas do passado
em teus romances trágicos de fé

as moças em voo da morte
enquanto a bossa nova explodia

éramos futuro, poema e saudade
agora não passamos da desolação

oh, senzalas de marquise, farmácias lotadas, gente chique escondida
e as favelas do metrô - existe o sol! 

estes são dias da indiferença a sangue frio e os derrotados comemoram

a vez é dos nazistas, dos racistas, homofóbicos e principalmente hipócritas: 
quem vai resgatar o morto das pedras do leme? 

somos tão alheios aos outros, não precisamos de ninguém

minha cabeça é um crânio ensanguentado num quitinete de piso frio e branco no coração de cada

onde está o homem queimado que fazia belos desenhos na grande avenida? 

a mão que matou aída curi é a mesma que fuzilou marielle noutro canto da grande cidade 

os filhos de porteiros já não namoram as garotas dos prédios de Garbo
e a orla da praia parece tão triste

o ódio é o óleo queimado da nossa tristeza e já não temos para onde ir 

somos a grande capital da miséria humana, tão superficial 

nunca mais pintaremos as ruas nas copas do mundo

nossos amigos estão mortos e desaparecidos ou trancafiados nas celas dos smartphones 

copacabana eata semana morreu: deixou seus órfãos mas nenhum bem material que não seja a beleza

as mais doces putas nunca foram vistas novamente 

nem o mendigo cadeirante com sonda de urina em berço de morte na rua siqueira campos 

nem os meninos que esmolavam perto das casas da banha

copacabana, meu ventre escravo é tua dor interminável, o rio rumo ao mar infinito até a busca de terra firme e corações abraçados - também órfãos da tempestade

e é preciso chorar pelos irmãos separados, as vidas espatifadas, as vidas em vão feito carne a moer em máquinas do progresso

não é possível crer que todos cantaremos juntos uma grande canção

nunca mais nos encontraremos nos bares, nem beijaremos as belas garotas e nem os rapazes vão se entender

o cirandinha está morto e enterrado
o bonino's está morto e enterrado
e decapitamos nossa classe

sou outono e quero ser inverno, perdição gelada aos pés do atlântico sul, sem minhas tardes de cinema

copacabana pulou da janela e não deu chance de resgate
espatifada na calcada, planeja uma ressurreição alla gotham city
porque fausto fawcett resiste
o bar sniff resiste 
e katia frança voltará da flórida para nós redimir - não, não seremos o inferno! 

esta semana eu sou minha dor solitária e vejo ao longe as areias que beijam o forte

a morte não resiste à minha tristeza infinita - eu posso derrotá-la
nenhuma bala no crânio há de solicitar o meu fracasso, vendo os meus em descaso, perdidos entre as distâncias e o nunca mais 

copacabana, minha eternidade que beija o déjà vu, que abençoa os randez-vous, que amansa e aquece conspirações

se tudo parece perdido, ainda temos nossas ruas e amores, pequenas histórias desimportantes que regamos com risos e lágrimas, nossas pequenas vidas

tudo é efêmero, mas a linda curva de areia está fadada à eternidade - é a beleza que ainda nos serve de resistência enquanto temos forças

copacabana, capital dos sonhos, desilusão dos miseráveis, combustível da imensidão humana, verso e bairro

descanse meu coração em paz

@pauloandel  

Tuesday, April 10, 2018

farsa

enquanto caminho pelas
veias de asfalto sangrentos
vejo os corpos em
decomposição 
na autópsia das calçadas
frias e indiferentes
vejo os escombros
a miséria e a insensatez
eu caminho pela terra
batida com carcaças 
de carros incinerados
e cadáveres insepultos
e meus olhos armazenam 
cenas de terror e solidão
eu caminho sem canto
sem prece nem crença
a indiferença é um bem 
humano da selva de pedra
o desprezo é o bom dia
eu sigo triste e sozinho
pelo calçadão enquanto 
homens e mulheres celebram 
a morte e as mortes
as farsas nas prisões: 
o que foi feito daquele amor 
que trocamos por hipocrisia? 

Sunday, April 08, 2018

Funk do PIB

eu sou PIB mermo/ e explano pra geral/  comemorei o golpe/ e aplaudo os general/  queria o Lula preso porque ele é safado/ o corno Bonner disse pros mané teleguiado/ tem que fuder os preto as piranha e os viado/ isso é que eu penso para o bem do meu Estado/  a minha faculdade já foi feita em Facebook/ os livro é pra otário/ quero meus latão e nude/ os meus latão e nude/ os meus latão e nude/ agora finalmente acabou a corrupção/já tem emprego a rodo e segurança de montão/ saúde e transporte e também evolução/ isso tava escrito nas manchetes de jornal/ eu li e acredito, não me chame de boçal/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro/ é nesse funk doido que eu canto o batidão/ e mostro para o mundo como eu sou um bobalhão/ se depender de mim nem precisa de eleição/ já tenho minha night meu papel e meu latão/ eu vou pra interméti e sou curtido de montão/ eu só escrevo merda mas me acho um fodão/ eu tenho a soluçao para os pobrema da nassão/ 
sou PIB, sou PIB/ Perfeito Idiota brasileiro/ sou PIB, sou PiB/ Perfeito Idiota brasileiro

Wednesday, April 04, 2018

a tempestade em dia solar

a liberdade é utopia quando
os corações estão embebidos em ódio

a liberdade é uma farsa
nunca seremos verdadeiramente livres
não existe vitória no fascismo
nem nas síndromes de Estocolmo
ainda somos tão atrasados 
quanto há cinquenta anos escorridos
torturaram e fingimos não ver
estupraram e fingimos não ver
a indiferença é a nossa cegueira
a estupidez é nossa esperança
- enquanto isso, contamos nossos mortos
nossas mulheres fuziladas
as mãos de esmola que desprezamos 
a nossa ética seletiva
minha voz enternecida só vai gritar palavrões
e frases odiosas
canta a tua última canção, Brasil
até a próxima grande farsa!
em nome de deus, da pátria e da família
espalhamos cólera e ignorância demais
depois contamos nossos mortos 
e preparamos as malas para o feriado
hipócritas, doces hipócritas que somos
fingimos felicidades mentirosas
ou até 
sinceras, dependendo do grau 
de escrotidão
gostamos de gente debaixo das marquises
ou sob escombros dos barracos
estes crimes dão sentido às nossas vidas
fúteis
celebradas no fascismo do jornal nacional
do café da manhã com frutas e frios
e tiros na lataria blindada
nunca seremos livres 
enquanto formos tão boçais
celebrando as mortes, a dor e o caos
até o derradeiro tiro na cabeça 
o grande voo da morte pela janela vazia
até o último voto de confiança no ódio
canta, Brasil! canta, canta! 
ah, república federativa cheia de árvores
derrubadas em vão
e gente dizendo 'eu não tenho bandido de estimação'

@pauloandel 

(contém citações de "Canta Brasil", de David Nasser e Alcyr Pires Vermelho, e de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade)

Friday, March 30, 2018

hey, amor

hey, amor/ as coisas continuam fora do lugar/ o caos é nossa matriarca gentil/ eu continuo sem você/ e tão sem mim/ o brasil precisa amanhecer/ o que será daquele um só mesmo?/ e das manchetes encardidas/ desta selva de pedra nazifascista/ mas ainda existem restos de amor/ my love said never felt him so good/ longe do mar de lágrimas das entranhas da rua/ longe do ódio e dos fuzilamentos/ um milhão de detentos para justiça alguma/ o sol ainda brilha em abril/ mas temos contado mortos demais/ as veias de asfalto estão sangrando demais/ meu coração ainda espera por ti/ nunca estarás morta no que vejo/ não viveremos para sempre no exílio/ nem pediremos esmolas aos que nos veem com nojo/ não precisamos destes bostas para nada/ hey amor/ hoje é uma noite solitária/ de dia santo e mil diabos pelas ruas/ pobres diabos sem rumo nem preço/ ainda choro por ti/ e me desaconteço/ Brasil/ minha voz enternecida/ calou-se à última canção/hey amor/ se eu não te ver nunca mais/ saiba que te carreguei feito os versos de um poema emblemático/ dos dias sofridos da grande metrópole/ onde todos são todos e cada um é ninguém/ só eu sei das esmolas que peço a mim mesmo/ perdido na solidão das ruas/ despencando do décimo andar da tristeza/ até me estraçalhar no chão/ para viver outra vez sem razão/ hey, amor/ a madrugada tem silêncios moles/ a solidão traz poesias de ironia e cores/ queremos pequena fé enquanto degustamos os rumos da desesperança. @pauloandel

Thursday, March 29, 2018

Tuesday, March 27, 2018

A panfleteira


A GAROTA morena e jovem está na porta da casa de tolerância panfletando a propaganda de serviços sexuais, enquanto espia o smartphone e usa um fone de ouvido. Ela parece jovem, é mais jovem do que se pode supor, mas carrega as marcas do tempo veloz de quem trabalha na prostituição. Ela atende clientes também. Ela às vezes sorri, enquanto na diagonal da Rua do Senado um panfleteiro conversa com transeuntes e veste uma camisa de time de futebol. Ela também é séria e compenetrada em seu trabalho. A Rua do Senado é vazia e quente perto de uma da tarde, quase sem carros, praticamente sem gentes. Mais adiante, ouve-se um poderoso som de funk saído de um cortiço. Mais adiante, uma voz em alto-falante ecoa do Quartel Central do Corpo de Bombeiros. Mais adiante, duas jovens e belas garotas, elegantemente vestidas, saem do palácio corporativo da Petrobras rumo ao almoço ou qualquer outra coisa. Elas são bonitas e jovens, bem jovens, tão jovens quanto a garota morena que panfleta honestamente na porta da casa de tolerância, jovens demais mas com trajes de sobriedade empresarial bem sucedida. As duas garotas cochicham e riem, do mesmo jeito que a garota morena fez cento e cinquenta metros atrás ou adiante - conforme o referencial, mas também conversam seriamente e tudo se resume a uma distância muito pequena quando se pensa em andar, mas imensa quando o caso é entender o Brasil, as desigualdades, as oportunidades e o futuro de jovens mulheres que, por incrível que pareça, andam pela mesma calçada – e nela, podem acontecer os únicos encontros de suas vidas, mas no máximo com um esbarrão e só. 

Saturday, March 24, 2018

carne tesa carne

carne tesa carne
inebriada
de desejos e tesões
- ah, perversões! 

cantos danças corpos
madrugada
e carnavais de pele 
pra quem entende

o sexo em riste
o gozo e o contraste: 
há efêmero e eterno
descartável e permanente

os colos trêmulos 
os líquidos pulsantes
a vida o êxtase - há cor
e mil estrelas à vista

o abraço do prazer 
cumprido e o fim 
do gosto proibido
- existe a paz! 

@pauloandel