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Saturday, September 26, 2020

REFLEXÃO

Nós somos blocos de água, carne e fezes indo e vindo em busca da felicidade ilusória em conta-gotas num país do futuro, procurando frestas de razão, às vezes desprezando a crueldade que poderíamos evitar bem ao nosso lado ou aos nossos pés. Alimentamos a estupidez da soberba, a vaidade flácida, a prepotência ignorante e seguimos feito impávidos colossos até que, num súbito ou numa longa agonia, chegue a hora de mergulhar no nada, e aí talvez tenhamos a chance de olhar para trás e catar as esmolas do que realmente valeu a pena. Antes disso, andamos por ruas que já foram pisadas por batalhões de gentes que desconhecemos, enquanto normalizamos todas as humilhações que nossos semelhantes sofrem, até que essa mesma humilhação nos atinja diretamente. Afinal, este é um dos países mais injustos do mundo, comandado por fascistas psicopatas loucos para que cinquenta milhões de brasileiros morram sem reposição, por infelizes que odeiam a arte, a conversa, o aprendizado e a liberdade.  A maior parte das pessoas é muito humilde, pobre e sem instrução, mas é digna e boa; por isso, é escravizada sem perceber pelos grupos de forte poder econômico. A outra parte não tem o menor compromisso sequer com a própria vida, imagine a do próximo. 

Saturday, August 22, 2020

chuva, fome e sofrimento

Sábado, oito da manhã, um frio demasiado para o Rio de Janeiro, que frequentemente vê seus habitantes com casacos a quaisquer vinte graus que surjam pelo caminho. 

Depois de um dia inteiro de chuva.

Para as finalidades artísticas, o Rio em gris é bonito, diferente. Historicamente a cidade é vendida mundo afora em azul turquesa, sol de rachar e biquínis minúsculos, mas muitos sabem que não se resume - e nem pode se resumir - a isso. 

Já gostei mais do gris, quando eu era suficientemente imaturo para entender a dor do mundo, embora já sofresse com a dor alheia. Acampei muitas vezes perto de zero graus, corri loucamente por Copacabana em manhãs e tardes de chuva. Ainda menino estúpido, cansei de entrar no mar com chuva e raios - não era a minha hora de morrer. 

Para uma parte das pessoas, o frio tem a ver com chocolate quente, fondue, vinho, drinks, ainda que a cidade vazia e triste persista. Ok, é direito de cada um. 

Mas quem já parou para pensar que, numa tarde-noite como a de ontem, mais a madrugada e esta manhãzinha, teve muita gente que sofreu pra cacete no Rio? 

Quem parou? 

Um frio de cortar a alma, calçadas molhadas, ratos fugindo dos bueiros, ruas desertas, quem poderia ter paz diante disso? E mesmo quem não vive a desgraça das calçadas pode viver sua tragédia em barracos de papelão e madeirite, também com chuva e ratos para todo lado. Nem falei dos terríveis e ameaçadores deslizamentos numa cidade recheada de morros. 

Eu não tenho paz. É minha maior indignação. E por isso dormi mal. E por isso acordei mal. 

É inaceitável que, com tantos recursos, haja cada vez mais gente morando nas ruas, sofrendo, entrando em estágio de decomposição social a céu aberto. 

Tudo culpa de uma brutal desigualdade e distribuição distorcida de renda, que é problema não apenas dos desgovernos federal e estadual, mas municipal também. 

O descaso, a indiferença, o desprezo.

Há quem acredite que tamanha desgraça é produto de questões divinais, ou da vagabundagem que gosta de ficar na rua à espera da morte (um raciocínio que chega a ser engraçado de tão tosco). "Eles gostam de ficar ali, não querem trabalhar". Tosco. Sofrer ao relento exige uma resistência psíquica e física superior à necessária em boa parte dos empregos. 

Dia desses, a crise, falsos amigos e um ladrão quase me levaram a não ter uma casa. Confesso que tive vontade de socar algumas das pessoas que emitiram opiniões a respeito, mas não guardo mágoas. Apenas não esqueço; afinal, não tenho culpa de ainda ter uma ótima memória. Mas eu tive sorte, porque muitas portas foram batidas na minha cara, mas outras se abriram inesperadamente, de modo que se a situação está longe de ser resolvida, já começou a ser contornada.

Depois de uma faculdade concluída, três pela metade, dois mestrados abandonados, trinta livros escritos e quase vinte e cinco anos de carteira assinada, eu quase fui parar na rua. Mas dei sorte. Apesar das decepções, tive alguns amigos de verdade. Se com tal arcabouço eu passei por este risco, imagine quem não o teve? 

No passado, apesar de muito esforço, seria um completo ridículo eu dizer que consegui pequenas vitórias apenas por meus esforços. Ninguém consegue isso, por melhor que seja. Não existe uma pessoa vitoriosa no mundo sem o suporte de terceiros. Uma única que seja. Se escrevi livros, é porque lá atrás meus pais me sustentaram bem, com enorme sacrifício pessoal. Se me formei, idem. Onde eu morava antes de pagar aluguel? Na casa paga por eles, ora. Se consegui montar um microcomércio de novo foi porque tive receitas de um trabalho que, lá atrás, foi subsidiado por eles, financiando casa, comida e estudo. E sinceramente, não conheço uma única pessoa que tenha obtido pequenos e grandes sucessos sem o apoio familiar, ao menos pessoalmente, seja de famílias naturais ou postiças. 

O mundo não é feito só de dualidades. Sem sombra de dúvidas, há casos em que a situação de rua poderia ter sido evitada pela própria vítima, mas são tão poucos em função da realidade da opressão econômica e social que podem ser considerados irrelevantes. A realidade é opressão, humilhação, exclusão e descaso. 

São vinte para as nove. As pessoas sofrem demais nas ruas do Rio de Janeiro. São milhares e milhares e milhares. Só no centro da cidade são centenas e centenas, na Cruz Vermelha, na Lapa, nas imediações do Forum, na Candelária - tão conhecida como palco de tragédia que não se encerra -, na Almirante Barroso, no Largo da Carioca.

Lembro do frio da juventude e a fresta da janela do quarto me dá o gris de hoje. Lembro de quando eu era um corredor, um jogador da praia, um dos garotos que via a praia mais bonita do mundo pintada de prata. Há uma beleza efêmera que sempre guardarei comigo, mas o fato é que nós, cariocas, brasileiros, deveríamos parar de fingir que este problema gravíssimo não está por toda parte e, dentro do possível, agir. 

Moradia digna é direito universal e não um favor. É inaceitável termos milhares de cariocas à espera da morte nas ruas ou parecendo em moradias degradantes. Ter isso em mente não é princípio de assistencialismo ou caridade, mas algo que anda cada vez mais escasso nas cabecinhas do Brasil: senso de justiça. 

Longe de querer estragar o fondue, o vinho e o queijo dos amigos que possam ler estas linhas, trata-se apenas de um convite à reflexão e, se possível, à ação. Mesmo combalido financeiramente, comecei a ajudar um amigo ontem para impedir que se tornasse mais um 'número' em situação de rua. Não somos números. Somos pessoas, temos sentimentos e sofremos. E muitas vezes nossas fortunas, confortos e excelentes salários vieram muito mais de outros fatores do que até da nossa própria competência. 

Há muita gente sofrendo. Não se iluda com falácias meritocráticas. Essa tragédia pode chegar a qualquer família, ainda que haja um desenho óbvio e predominante pelos componentes da desigualdade social, do racismo, da falta de empatia, do desprezo ao próximo, de características que nada têm a ver com a formação natural do povo do Rio de Janeiro. 

Quase nove horas da manhã. Um silêncio enorme nas ruas sem veículos e transeuntes. Calçadas molhadas e mãos estendidas à própria sorte. Ou corpos desmaiados de tanto cansaço e sofrimento. Não basta uma moedinha para aliviar a consciência e tentar uma moral com Deus. É preciso mais, muito mais. 

@pauloandel

Monday, July 13, 2020

Rock, rock, rock!

Em algum lugar de 1977 eu caminhava com meu pai pelas imediações do Cine Vaz Lobo, quando compramos figurinhas para um álbum chamado Multicolor, que ele fazia ou eu, não sei. Estávamos juntos. Ao chegarmos em casa,  fomos abrir os pacotinhos e vi um nome do qual nunca mais me esqueci: Bob Dylan, hoje certamente o maior artista estadunidense vivo.  E muitos anos depois foi Bob Dylan que me deu o caminho para Jack Kerouac, uma longa estrada à qual eu voltaria muitos anos depois até me tornar um escritor publicado. 

No célebre apartamento 1346 de certo prédio na rua Figueiredo Magalhães, ventrículo de Copacabana, Fred me esperava com o álbum "A trick of the tail", do Genesis. Eu tinha medo da capa, acho. Mas gostei do som. 

Entre os dois acontecimentos, lembranças da propaganda na TV do programa Rock Concert.

E não parei nunca mais. Anos depois eu estava com a multidão pra ver o Kiss no Maracanã lotado. Música na rádio todo dia. Namorar os discos na porta da Billboard da Barata Ribeiro. Acompanhar o Fred ao Disco do Dia, que ficava no Centro Comercial de Copacabana, quase esquina de Siqueira Campos com a avenida. Tinha fila para comprar LPs. The Cure e Metallica no Maracanãzinho, Jethro Tull no Canecão; Titãs, Paralamas e Barão por todo lado; Joe Cocker no Maracanã, Prince, Paul McCartney. Oingo Boingo na Gávea. Bob Dylan na Apoteose, Clapton e Bowie também. Mano Negra e Jello Biafra na Lapa. 

Desde o fim dos anos 1980 mergulhei em muitos sons e gêneros. Hoje mesmo comprei um CD de percussão árabe. Fui ao samba, à bossa, ao jazz, cubanos, europeus, África, Ásia, minha coleção tem de tudo. E sou feliz por isso. Ouço música diariamente com a mesma empolgação daquele garoto sonhando na porta da loja com "1984" do Van Halen ou "Brothers in arms" do Dire Straits. Voei meu mundo ouvindo música, mas quem me deu as asas foi o rock. 

Pra contestar, pra protestar, pra namorar, pra se entristecer, para pensar. Pra estudar. Álbuns como os do Clash, do Pink Floyd, do Rage Against The Machine, de Peter Gabriel, todos fazem pensar e buscar outras fontes: livros, filmes, quadros, peças. 

O rock mudou muita coisa no mundo, ainda que nem todos entendam e achem que faz sentido ser roqueiro e reacionário. Não é nada disso: o rock é revolucionário, é desafiador de definições, é demolidor de barreiras. Foi ele quem deu chance às expressões de combate ao racismo e à homofobia: basta pensar no recém-falecido Little Richard, para quem os jovens Rolling Stones abriram shows. E o rebolado incomparável de Elvis Presley? E as loucuras de Jerry Lee Lewis? 

Neste momento a TV mostra um prisma grandioso no palco do show de Roger Waters. É um símbolo que atravessa o mundo há 47 anos: até mesmo quem nunca ouviu o Pink Floyd já viu aquela capa preta extraordinária, uma obra de arte do século XX. 

Rock é postura, atitude, celebração, catarse coletiva. Os grandes barões do gênero são sexagenários, septuagenários e outros já deram adeus. Mas todos, de uma forma ou de outra, ainda encantam e influenciam milhões de pessoas mundo afora. O rock não vai morrer, o rock não vai acabar. Em tempos de ódio e indiferença, no meio de uma pandemia, diariamente alguém passa pela minha lojinha e saca um AC/DC, Deep Purple ou Joelho de Porco. Ou Ira! ou Tortoise. Tanto faz se é Premê ou Replicantes, Fellini ou Autoramas. O rock é pra abalar o óbvio e sacudir comodismos. 

O rock é puro êxtase, se me faço entender. Viva 13 de julho! Viva o rock n' roll!

Friday, June 12, 2020

travessa • dos poetas • de calçada

era só mais um poeta de calçada • estendido à miséria entre ratos e paralelepípedos • um poeta um garoto • sem pai nem mãe • sem irmão nem nome • exausto da vida enquanto o mundo dorme • até que venha o dia e a tragédia permaneça • enquanto correm para os shopping centers mon amour • enquanto correm para as praias • que mal tem quarenta mil mortos • além da dor de quarenta mil famílias • e cinquenta mil amigos? • era só mais um menino cumprindo pena sobre as pedras portuguesas • pelo crime de ser pobre • e não ter amparo • há quem não veja mal nenhum • porque é só um vagabundo • que não arruma um trabalho • mas nunca se viu um pequeno ou grande mendigo • na dinâmica de grupo • num endereço corporativo • por que será? • é só mais um garoto cumprindo uma sentença injusta • numa sociedade patife • cheia de gente louca para dar sua esmolinha • e sair correndo para não se comprometer • pois eles não têm nada com isso • não criaram o mundo • e com a estupidez que lhes é peculiar • não pretendem melhorá-lo • porque precisam correr para o shopping center • e precisam correr para as praias • uhu! • eis o maravilhoso berço esplêndido da meritocracia • onde as pessoas são livres para o suicídio • e para morrer sobre as calçadas • depois de estender os braços por dez mil dias • em troca de moedas e caras de nojo e gente desviando • e gente que nem é gente atravessando a rua • para poder não olhar • a cortina do passado está rasgada e rota • enquanto se lê manchetes estúpidas • sobre cafuzos nazistas • e mamelucos fascistas • mas todos estão muito ocupados para se comprometer • com um menino mendigo • à espera da verdadeira morte sobre a calçada • cumprindo uma pena inaceitável • enquanto dizem que não deveria ter nascido • só porque veio pobre • então chegam quatro da manhã e uma pergunta dá um soco na alma • pow! whow! boom! crash! • quem inventou essa bendita sociedade de merda? 

@pauloandel

Wednesday, June 10, 2020

tempos modernos itaú

No assento do metrô há um livro, mas ninguém mexe nele nem senta ao lado. Diabos, pedir licença? O jeito é ficar em pé, ainda que a luva faça um fric-frac no suporte do vagão. Ninguém reclama.

Roça-roça na hora do rush, nunca mais teve. Se alguém ri, as máscaras não deixam ver: eis a lei marcial. Os rostos, outrora indiferentes, viraram mais do mesmo. Perdemos nosso tom informal. Beijo? Já era. Cotovelo e só.

Próxima estação: Central. A correria para a gare dá saudade. Lentamente, a mão de obra que suporta o Brasil deixa o metrô, sobe as rolantes sem pressa nem vizinhança, até avançar nas roletas em busca do subúrbio.

Perto, um menininho pede esmolas e ri por baixo do pano roto, sobra de uma camiseta do Flamengo. Nem tudo é novo nos tempos modernos.

@pauloandel

(Microconto em 800 caracteres devidamente desclassificado no concurso Itaú Cultural de Emergência, focado no pós pandemia. Não serviu lá, mas serve de post aqui. Talvez não tenham gostado do final, muito agressivo para o mundo neoliberal)

remanescente

tenho morrido muitas 
vezes e foram tantas 
vezes na semana 
passada que não pude 
dormir

e perto da minha cabeceira
um poderoso ventilador ligado
parece a turbina de um avião

[olho para o teto e finjo uma 
viagem

[a janela é a porta principal

uma aeronave rumo a destino 
algum
e minha poltrona esgarçada
enquanto sinto fome
sede, cansaço e o peso da 
morte:
é que tenho morrido vezes 
demais
e isso me tira o sono
- meu teto é um céu sem 
estrelas

ela dorme ao lado e viaja 
tranquila demais
a minha paz é a mão estendida
mendiga
pedindo esmolas num circo
lotado na avenida brasil
e por isso morro sem dormir

em algum lugar do teto tem 
lua
o ronco do motor à rua
denuncia outra morte
[a noite que não dorme, o corpo 
que não sonha, o grande irmão

copacabana, vejo teus brilhos
teus galãs e fêmeas da noite
e boates encerradas 
meu coração na janela
procurando o sentido do fim:
para onde se mudou o amor?

a turbina em meu ouvido
não cessa
minhas fomes e dores
o meu amor que dorme
a dor que me adormece

copacabana, meu abraço
os garotos ficaram distantes
é que o sonho já deu no pé
a luz da janela é a derrota
a saída principal sem voz

@pauloandel

Wednesday, June 03, 2020

Mapa astral no pátio da igreja

Via de regra, o grupo de escoteiros vivia sem grana e precisava se capitalizar. A festa junina da igreja parecia ser uma boa, mas era preciso fazer algo diferente a quinze dias do evento. 

Bom, diferente já era todo o cenário: um grupo de escoteiros que realizava suas atividades no pátio da igreja católica, o mesmo lugar onde a festa iria acontecer. A igreja, cercada por condomínios na altura do terceiro andar de um shopping center. A vizinha de baixo era uma termas com alucinantes GPs de arrepiar - GPs: garotas de programa. Outro vizinho: um teatro de malucos e com espetáculos consagrados na história da MPB e da ribalta brasileira. No térreo, um supermercado, lojas de brinquedos e botequins. Traduzindo: Copacabana. 

Os jovens chefes escoteiros adoravam o mé e batiam ponto toda noite em um dos botecos do shopping, o Sniff's. Aos pés da escada de acesso para o Teatro Teresa Raquel, e também para as Termas L'uomo, o bar era palco de várias reuniões de bate papo entre os tipos mais inusitados, de estudantes a intelectuais, passando por artistas, executivos, vagabundos, maconheiros de praia, jogadores de purrinha e, claro, os escoteiros. Dentre o cast de malucos, um nome reluzia: Eduardo Victor Visconti, o Seu Visconti, presença constante no Sniff's - sem jamais consumir - e multi homem: poeta, escritor, piloto de avião, filósofo, membro de academias de letras e astrólogo.

Entre refrigerantes, sucos de morango ao leite e cervejas, uma das escoteiras teve a ideia: e se o Seu Visconti fizesse voluntariamente mapas astrais durante a festa junina? Em plenos anos 1980, astrologia era a moda, mas era preciso acertar os detalhes com a patronesse do evento junino: a Paróquia de Santa Cruz de Copacabana. Afinal, não convinha ferir suscetibilidades religiosas. O filósofo, conhecido por sua excentricidade, topou ajudar o grupo numa boa.  

Dias depois, uma comissão dos escoteiros reuniu-se com o pároco, Padre Ítalo Coelho, também fundador do próprio grupo no ano de 1963. As coisas se assentaram sem maiores problemas; afinal, a igreja - que tem um maravilhoso formato de base lunar - era conhecida por não ter imagens de santos, afora os cochichos em pleno pós-ditadura sobre o apelido do padre: "Vermelho". Os mais conservadores não engoliam a seco a ideia de irem à missa rezada por um padre comunista, mas em nome de Deus e com o balanço frenético de Copacabana, tudo se resolvia - muitas vezes com abraços entre santos, pecadores e diabos. O fato é que Padre Ítalo deu a benção ao projeto astrológico. 

Duas semanas depois, começou a festa. Gente pelo ladrão, literalmente, subindo e descendo os três andares do shopping center, por meio de uma bela rampa circular. Churrasquinhos, batidas, jogo da lata, pescaria, canjica, tinha de tudo. Gatinhas a valer, marmanjos na azaração, gays alertas. Era o evento de Copacabana em junho. 

Nos fundos da igreja, os escoteiros montaram uma grande barraca de acampamento para o atendimento de Seu Visconti aos clientes. E o que se esperava ser um reforço de caixa acabou se tornando a maior arrecadação da história do grupo em todas as festas. Nos três dias de comemoração, a barraca de mapa astrológico foi um sucesso, com uma fila a valer repleta dos típicos personagens do bairro: dondocas, gatinhas, naturebas, os próprios escoteiros, suas mães, amigas, os atores do Teresa Raquel e até às garotas das Termas L'uomo! Todo mundo em busca dos mistérios do futuro, das alegrias e decepções à frente, dos amores e tudo que pudesse valer a pena. Depois da festa tinha fila de espera para consultar Seu Visconti, que foi o verdadeiro popstar junino. 

Dias depois, os escoteiros comemoravam o sucesso da festa no balcão do Sniff's: a grana dos mapas deu para comprar barracas novas para os acampamentos. No terceiro andar do shopping, Padre Ítalo agradeceu o donativo para as obras sociais da igreja, ainda que nenhuma imagem de santo testemunhasse. Alguém jura que duas garotas das Termas L'uomo largaram a labuta e encontraram os amores milionários de suas vidas, tudo previsto nos mapas astrais de Seu Visconti. Uma dondoca abriu sua cabeça na barraca e depois fundou uma ONG para combater a fome e a miséria.  Um respeitável empresário desbundou, pediu o divórcio e assumiu sua sexualidade com um parceiro trinta anos mais jovem. E tudo começou numa conversa de botequim com a breve ideia de uma adolescente. 

Seu Visconti já era respeitado no balcão do Sniff's, mas depois do sucesso dos mapas astrais ele experimentou a sensação de ser uma celebridade local, o que lhe fez muito bem em termos de humor. Até Paulinho Cana, seu vizinho, bebum e rival histórico nos debates de boteco, o aplaudiu sem rancor.  

@pauloandel

Wednesday, May 27, 2020

William Bonner, um mau ator

A televisão brasileira, este importante veículo que carrega em si uma extensa carga de contradições, para o bem e o mal da vida brasileira, experimentou ontem um de seus mais constrangedores momentos - e isso no Brasil 2020, onde constrangimento é o que não falta.

Começo da madrugada, a entrevista de Pedro Bial com William Bonner na Rede Globo, a mesma que floresceu do golpe de 1964 e apoiou o golpe de 2016, que desaguou no lamaçal onde estamos.

O motivo do constrangimento é simples: Bonner, o todo poderoso editor do Jornal Nacional, que fala para dezenas de milhões de brasileiros de segunda a sábado, protagonizou no programa de entrevistas uma cena digna das novelas do concorrente, o SBT do bolsonarista Silvio Santos, em algum dramalhão romântico numa reprise, choramingando por se sentir oprimido por conta de sua posição profissional. Bial, que há três meses tripudiou publicamente da cineasta Petra Costa, só faltou choramingar com Bonner e depois fazer cuticuticuti como acalanto.

Uma performance absolutamente irreconhecível do jornalista que, por anos, editou suas próprias falas em horário nobre para pregar o ódio à política, ao Partido dos Trabalhadores, às figuras de Dilma Rousseff e Lula. Ela, golpeada covardemente; ele, condenado e preso por meio de uma farsa judicial.

É certo que ninguém deve ser ameaçado ou ter os filhos vitimados por fraudes. Ninguém, e Bonner democraticamente pertence a este mesmo contexto.

É lamentável que o editor esteja em auto isolamento desde as eleições de 2018. E também que tenha tido o drama da doença de seus pais. Infelizmente, é uma situação que pode acontecer, especialmente quando se é adulto e os progenitores têm idade mais avançada.

O problema é quando Bonner, em meio ao seu quase chororô, se diz vítima da "polarização" que existe no Brasil, onde pessoas que o xingavam hoje o aplaudem (?), assim como antigos fãs o têm como atual desafeto.

Mais uma vez, agora fora das lentes do Jornal Nacional, editou a verdade por critérios pessoais.

Não é possível em maio de 2020 que alguém em sã consciência acredite que o que está acontecendo no Brasil é uma disputa entre direita e esquerda, ou entre liberais e "comunistas". Não é aceitável, ainda mais quando se trata de um formador de opinião nacional.

O que o Brasil viveu entre 2013 e 2018 é diferente de hoje. Lá, as disputas eram entre o conservadorismo e o progressismo, e depois entre o golpismo e a legalidade. Agora vivemos uma outra contenda: a do humanismo contra a barbárie, da democracia contra o fascismo.

Não é preciso ser de esquerda, progressista, socialista, comunista ou o que quer que seja para se opor ao governo mais insano, despreparado, maléfico e antirrepublicano da história deste país.

Ao igualar o comportamento dos progressistas aos dos fascistas, Bonner cometeu mais um erro crasso em sua trajetória pública. Não são os progressistas que fazem vista grossa à rachadinha, nem ao livre armamento para talvez insuflar uma guerra civil.

Não são os progressistas que estão nas ruas em plena contramão da humanidade, incentivando e debochando da pandemia que, por baixo, já matou quase 200 mil brasileiros, bem ao gosto de quem já disse que seria preciso matar uns 30 mil para a vida melhorar.

Não são os progressistas que estão dilapidando a Caixa, buscando entregar o Banco do Brasil a troco de banana, e deixando milhares de pequenas e médias empresas à beira da morte por asfixia.

Não são os progressistas que jogaram no lixo milhões de empregos, enquanto prevalece a mentira de que "os investimentos vão mudar tudo". Que investimentos? Basta ler e ouvir todos os grandes veículos jornalísticos do mundo. NENHUM deles dá qualquer crédito ao Brasil de hoje.

Ontem, William Bonner tentou se passar por um brasileiro sofrido, igual a tantos outros, mas fracassou na interpretação. Mais ainda: nas comparações que fez. Ele não manipulou a mão dos brasileiros nas urnas eletrônicas, mas é sim um justo corresponsável por muito do que estamos vendo. Durante anos, foi um eficiente porta-voz do PSDB em rede nacional diária. E sua própria voz está no imaginário do povo brasileiro como a locução do ódio ao PT, queira ou não.

É a voz de Bonner que celebrou o "combate à corrupção" de Sergio Moro, assim como celebrou a ética de Aécio Neves no passado. E celebrou o antipetismo nas eleições de 2018.

Ao insistir em igualar o fascismo ao antifascismo, William Bonner mostrou que, apesar de lidar diariamente com notícias há décadas, tendo ganho muito dinheiro e fama com isso, não foi capaz de entender a dor de milhões de brasileiros. Muitos destes o escutam toda noite em televisões instaladas em biroscas e barracos, capazes de fazer chorar qualquer pessoa.

Tudo bem diferente do dramalhão macarrônico de ontem à noite, completamente alheio ao desastre fascista que ameaça o Brasil.



Thursday, May 14, 2020

Misto quente sem presunto



O Sniff´s era o palco oficial de reuniões 
diárias de muita gente, mas honestamente para a vida líquida: cervejas, refrigerantes, caninha e sucos basicamente. Quando a fome apertava, em geral os jovens corriam para o Sumol, que fica na esquina de Figueiredo Magalhães com Barata Ribeiro – aberto até duas da manhã! Em noites de – rara –caixa alta, aquela pizza na Bella Blú da Siqueira. Para noites mais humildes, o caldo de cana da entrada do Shopping, na Figueiredo, já servia. Em caso de emergência, o máximo que rolava no bar do Seu Manel era ovo cozido ou amendoim. Às vezes uma porção de salaminho. 

Numa bela noite o Xuru, o bardo da turma dos escoteiros, chegou ao bar morrendo de fome. O problema é que o cardápio realmente deixava a desejar. 

Para se ter uma ideia, em meados de 1988 o misto quente da casa era mais barato do que o queijo quente, de tão barra pesada que era o presunto de ocasião. O jovem Russo então teve uma ideia: se pedisse um misto quente sem presunto, ele seria igual ao queijo quente, só que mais barato. 

Estava na cara que não ia dar certo. 

“Seu Manel, faz pra mim um misto quente sem presunto”.

“Ma com assm mninn? Com pód mist quente sem prsunt? 

O merderê estava consolidado. O bar virou o Coliseu de Roma. Xuru e Seu Manel protagonizaram um dos maiores debates da história do Sniff's, digno de eleições presidenciais que, naquela época, 
nem existiam. 

Com o regulamento nas mãos, tendo em vista que o presunto da casa era assustador feito o capeta, o jovem impetuoso que, um dia, faria história nas noites underground de Copacabana - e ganharia a alcunha de Russinho da Atlântica -, partiu com sua retórica para cima do velho comerciante lusitano:

"Seu Manel, eu quero um misto quente sem presunto e pronto. Não sou obrigado a comer esse presunto horrível."

"Ma num pod, mninn. Ond já c viu uma coisa dess? É que nem cazment sem noiva!"



Os dois elevaram o tom, o pessoal de longe começou a olhar, gente que passava na porta do Sniff’s parou e o cenário de alguma forma tinha a ver com a clássica canção de Aldir Blanc e João Bosco, “De frente pro crime”: “O bar mais perto depressa lotou/ malandro junto com trabalhador/ um homem subiu na mesa do bar/ e fez discurso pra vereador...”. 

“Ô, russim, mninn da Atlântica, você foi criad aqui, bom mninn, num pód uma coisa déss rapaiz.”

“Seu Manel, será que eu vou ter que chamar a polícia para atenderem meu pedido? O bar é público, eu estou fazendo meu pedido honestamente, posso ser atendido ou não?”

Silêncio na arquibancada do botequim. O veterano português saiu do balcão, chamou o russinho, os dois se afastaram uns trinta metros do Sniff’s, quase na esquina da portaria do Bloco D. 

Conversaram a sós, todo mundo esperando o resultado do fim do debate. 

O Xuru, baixinho, gesticulando muito. O Seu Manel, grandão, com as mãos para trás, de camiseta Hering branca. Ao longe, os torcedores do bar esperavam pelo capítulo final com grande expectativa. Até Souza, o antipático chefe da segurança do shopping, estava conversando e torcendo pelo misto 
quente. 

Um, dois, cinco minutos deconversa, um falava, o outro se calava. Num súbito, de longe se ouvem as velhas tamancas: Eduardo Victor Visconti, o Seu Visconti, o genial e excêntrico poeta e filósofo, vinha caminhado na direção 
tradicional e viu a dupla. Parou do lado deles, escutou os dois falarem algo rapidamente, começou a mexer os braços de forma alucinante, bateu as tamancas no chão com força e, plim, a conversa acabou.

Apressado, Seu Manel retorna para o balcão, cumprimenta os torcedores do bar e fala em tom baixo para o balconista Zezinho; “Faz lá essa porr desse mist sem prsunt pro Russinho duma vez”. Em seguida chega o triunfante Xuru, sorridente, e Seu Visconti começa a gritar: “SEUS DESOCUPADOS! NUNCA VIRAM 
NINGUÉM REIVINDICAR SEUS DIREITOS NÃO? VÃO ARRUMAR O QUE FAZER!”.

No outro canto do botequim, até Paulinho Cana – adversário histórico de Seu Visconti – balbuciou: “Esse velho é foda!".

(Publicado em "Um botequim de Copacabana", Vilarejo Metaeditora, 2019, página 49)

@pauloandel

Sunday, May 10, 2020

Censurado pelo Facebook


FELIZ DIA DAS MÃES, REGINA DUARTE - CENSURADO PELO FACEBOOK

Paulo-Roberto Andel - 10/05/2020

Neste domingo, provavelmente você está no conforto do seu lar ou da sua casa.

Certamente no mínimo fará chamadas em vídeo com filhos e netos, isso se não seguir as diretrizes do seu chefe, celebrando o Dia das Mães pessoalmente. 

Contudo, essa mesma chance não cabe às milhares de mulheres que têm morrido nos últimos 50 dias por conta da Covid19, muitas vezes acreditando na estupidez também do seu chefe, conclamando as pessoas ao abraço da morte nas ruas em nome da "economia", leia-se o interesse do patronato em não perder um centavo, podendo substituir os CPFs na hora em que bem entender ou precisar. E lá está você a sustentar essa barbárie. 

Não foi a primeira vez nem a segunda. Todos sabem das suas posições fascistas como fazendeira, desejosa da eliminação do MST, com muitas mães sofridas que a sua cólera cega insiste em sabotar, humilhar e invisibilizar. 

E o que dizer de carregar mortos, Regina Duarte? Eu mesmo carrego uma família inteira que foi psicologicamente destroçada pela ditadura, levada à pobreza e ao alcoolismo nos anos de chumbo que, debochadamente, você celebra com musiquinhas toscas. Há um suicida também, meu tio, decorrente do horror que a ditadura militar impôs ao Brasil, usando pessoas como você para dar uma boa imagem a uma tragédia feito agora. 

Lembra do seu medo de Lula, Regina Duarte? Pois é. Ele se transformou no terror que você espalha voluntariamente, de maneira sarcástica, fazendo propaganda de um governo fascista que não representa o povo brasileiro, humilhado e angustiado ainda mais agora, com o total desprezo de seu presidente pela causa popular, enquanto já enterramos pelo menos cem mil mortos pela "gripezinha".

Pois é, Regina Duarte, você pode mentir na TV, mas quando o assunto é ditadura eu não reconheço em você nem como um pedaço de cocô de rato. Com oito dias de vida, a ditadura quebrou toda a minha casa em busca do meu tio, enquanto minha mãe saía correndo comigo no colo pelas ruas de Copacabana. Podíamos ter morrido naquela noite, mas escapamos. Oito anos depois, eu não pude evitar minha expulsão da escola, sabe por quê? Simples: numa excursão à Praia Vermelha com a minha turma do curso de alfabetização, eu cometi o crime de perguntar porque a praia era vermelha. De baixo, eu vi o silêncio, os homens de idade fardados me olhando e o terror no rosto da minha jovem professora. Ninguém falou nada, ninguém expressou nada. Duas semanas depois, a direção da escola me convidou à saída: a ditadura descobriu que o garoto que perguntava sobre o vermelho era sobrinho de um exilado político e filho de um preso pelo regime. Quais foram os crimes? Meu tio carregava panfletos contra a ditadura. Era um panfleteiro. Como não o achavam, prenderam meu pai como isca para que ele se entregasse, o que acabou acontecendo. E como meu tio não desistiu de lutar pela liberdade do Brasil, foi preso outras vezes, perdeu uma audição à base de porrada no DOPS, até ser alertado de que, se não fosse embora, não teria outra chance. Os impactos dessa monstruosidade foram tantos que, dezesseis anos depois de sua expulsão, contribuíram certamente para seu suicídio.

As pessoas com alma e sentimento carregam seus mortos, Regina Duarte. E não é fácil. Nunca é fácil para quem tem apreço pelos seus e pelo próximo. Apreço que você despreza quando, na condição de representante desse governo indigno, se cala diante da morte de artistas notáveis como Aldir Blanc, Moraes Moreira e tantos outros. Ontem morreu o pai da arte cinética, Abraham Palatnik. Você sabe de quem se trata? A julgar pela sua mediocridade, provavelmente não, mas no mundo inteiro a arte dele é celebrada, exceto por fascistas, naturalmente ignorantes. Morreu também há pouco o Sérgio Sant'anna. Você já leu algum livro dele? 

Feliz Dia das Mães, Regina Duarte. A minha mãe não vai poder celebrar, porque morreu há treze anos, vítima psicológica da ditadura, da pobreza, da falta de condições para um melhor antendimento, feito milhões de pessoas neste país que você insiste em desprezar. Ainda me lembro dela vibrar com você em Selva de Pedra e Roque Santeiro (que, se você tivesse entendido 1% da trama, não deveria ter feito). Para minha mãe, as novelas foram muito importantes e uma das únicas distrações. Você nunca parou para pensar que sua carreira foi impulsionada por milhões de brasileiros que acreditavam em você, e que foram enganados por uma namoradinha da tortura e do ódio, da barbárie e do nazismo. Já parou para conversar com seus colegas de governo e as apologias que eles já fizeram a Goebbels, por exemplo? Preciso falar de corrupção e milícia? Não, né?

Feliz Dia das Mães, Regina Duarte. A minha mãe, que tanto te admirou, está morta. Mas é muito mais digno ter morrido pobre, anônima sem trair o próprio povo, do que ter fama e fortuna mas ser um monstro abominável feito você, que louva torturadores e despreza vítimas de uma pandemia. Morta, minha mãe é muito mais importante e digna do que você viva. Eu tenho orgulho de ser filho de quem eu sou, mas teria nojo de ter uma mãe feito você. 

É inútil ficar neste cargo, Regina Duarte. Você já vinha demolindo a sua imagem de décadas (mesmo que fosse fake) com as suas barbaridades mentais que chama de "posição política". Mas nesta semana que passou você a implodiu de vez. Nunca mais escapará da pecha de fascista, escroque, indigna, militante da ditadura e do horror. Nem uma foto com o seu belo rosto do passado será poupada. Sempre que falarmos do fascismo brasileiro, você será uma referência para isso. Desprezada pelos próprios pares, humilhada na própria emissora onde foi estrela por décadas. Nenhum dinheiro ou patrimônio compensará isso. 

Feliz Dia das Mães, Regina Duarte. Aproveite intensamente esta nova fase, porque o último foi ano passado. Infelizmente hoje você não passa de uma morta em vida, um cadáver insepulto, um zumbi que gargalha e escarra rancor vociferando toda a sua falta de humanidade, a sua colossal ignorância, o seu vazio de bem. 

Você não precisa carregar mortos nas costas: basta que encare o espelho, olhe fixamente e, por trás da imagem, tome ciência de quem você realmente é. 

Descanse sem paz.

@pauloandel

Saturday, March 21, 2020

a vingança da noite dos cristais

pode ser.
pode ser a derrota.
a minha última derrota, logo eu
que venho de tantas.
talvez seja o meu fim.
não sei dizer. ninguém sabe.
eles destruíram o pouco
que eu tinha.
eles debocharam e riram
ao chutar meu rosto.
mas eu ainda estou vivo
e viverei
para ver todos eles, nazistas
em desgraça.
todos os nazistas
humilhados.
toda a minha dor se voltará
contra os inimigos do povo
dos pobres e famintos.
todos eles vão feder
feito merda
e serão humilhados
até a hora da morte.
podem juntar seu dinheiro
roubado.
sua quadrilha de assassinos
cruéis.
hei de ver o fim dos nazistas
e cada um deles há de lembrar
o cuspe na cara de hitler.
o rato de esgoto hitler
com sua cara escarrada.
o escarro escorrendo
o câncer que lhe corrói.
o desprezo e a repulsa
que nenhum dinheiro
jamais compensará.

@pauloandel

Wednesday, March 18, 2020

dê o fora, Inepto!


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DÊ O FORA, INEPTO! CLIQUE AQUI.

Friday, March 13, 2020

rotas da boa morte

"depois que morri, pude perceber que dentro do mínimo razoável fui um homem bom.

escutei as pessoas. não roubei. não prejudiquei ninguém seriamente. só fui verbalmente agressivo para me defender de violências.

não fui canalha. não traí. não deixei meus ex-amigos na mão. não fingi desatenção quando precisaram de apoios.

pensei no outro, no próximo, de verdade. não me limitei a esmolas para me livrar de gente sofrida. quem mendiga não merece ser tratado como mendigo. quem trata o mendigo como mendigo não é digno de consideração.

entendi que o mundo só funciona de verdade com solidariedade plena, de coração, sem hipocrisia e oportunismo.

tirei de mim qualquer mágoa dos que me prejudicaram, sabotaram e roubaram. pude ver alguns deles pagando a famosa lei do retorno. não adianta postar fotos felizes e, na calada da noite, olhar o teto do quarto como um espelho que estampa uma pessoa de mau caráter.

praticamente todas as pessoas que me amaram de verdade também estão mortas, salvo raríssimas exceções. mas não lamento. fui um homem bom. amei e fui amado. mesmo morto, sou capaz de amar.

fui um homem bom. agora caminho sozinho por ruas sem nome, entre pessoas sem rosto, olhando por entre os escombros de almas perdidas, solitárias, desmanteladas. pessoas mortas, que insistem em viver com fones de ouvido e smartphones à mão.

escrevi coisas que me dão orgulho. as melhores, quase ninguém leu. as piores foram aplaudidas de pé. as medíocres foram encantadoras. cada um tem os leitores que pode.

dia desses depois da morte, um jovem morto debochou de minhas ideias sem me conhecer ou sequer trocar conversas. usava um tom professoral e anglicismos ocos, típicos dos capachos intelectuais que sonham com dinheiro e poder em deslumbramentos corporativos, ou que acreditam que o próprio talento é inédito no mundo morto. olhei e ri, deixei o cadáver em silêncio. ele morreu muito jovem, perdido em manchetes ocas e pedantismo imaturo. é justo rir dos pedantes e depois deixá-los viver ao longe, longe.

ando numa cidade morta, que perdeu o viço e oferece calçadas vazias, ruas esburacadas, lojas fechadas e mãos estendidas por esmolas que adiem a morte e confirmem a morte em vida.

antes de morrer, minha mãe me disse que eu era um homem bom. foi meu maior orgulho. dei alegria a quem me deu sentido numa terra de dores, egoísmo, sofrimento e indiferença.

o brasil está morto. o rio de janeiro está morto. sou um estrangeiro em minha própria terra. às vezes alguém me dá bom dia no elevador. os funcionários do prédio são sempre solícitos. depois passo por um portão verde, ganho a rua e vejo uma solidão enorme. tenho fome, sede, dívidas, melancolia, cansaço. tenho dores físicas, mesmo morto. meus chinelos sempre me lembram de que fui um homem do povo, desimportante, apenas em busca de migalhas de felicidade, um bem precioso mesmo depois da morte.

caminho por uma rua sem movimento que não vai dar em nada. busco as últimas forças em locais improváveis. passo calmamente enquanto transeuntes celebram um fascista boçal. eles estão muito mais mortos do que eu."

@pauloandel

Wednesday, March 11, 2020

Os subterrâneos do futebol brasileiro

O título desta coluna é uma homenagem adaptada do grande livro de João Saldanha, "Os subterrâneos do futebol", leitura obrigatória para qualquer brasileiro que goste do esporte ou pretenda escrever a respeito dele. Por sua vez, o inesquecível Saldanha quis homenagear Jorge Amado quando batizou o próprio livro. 

Infelizmente as linhas a seguir nada têm a ver com a trajetória destes dois craques da vida brasileira, João e Jorge. Vida que segue, diria o maravilhoso cronista esportivo. 

Vamos lá.

O recente - e triste - episódio envolvendo a prisão de Ronaldinho Gaúcho traz à tona algo muito especulado mas pouco falado no Brasil: a sensação permanente de que o luxuoso apartamento do futebol brasileiro tem, no mínimo, vizinhos de porta e prédio bastante indesejáveis, parecendo até um esquisito condomínio de casas na Barra da Tijuca onde ninguém sabe que o morador ao lado é miliciano, por exemplo. 

Ao lado de dribles, gols, festas e paixões, ainda que nosso futebol não seja sombra do que já foi um dia, caminham fortes interesses que não são do jogo nem dos torcedores. Não é algo de hoje, vem de muito longe, inclusive no exterior, mas o atual cenário brasileiro com todas as vísceras sociais cancerosas à vista, faz pensar. 

Quem se lembra da farra na chegada da Seleção tetracampeã mundial, entrando com bola e tudo pelo Galeão sem passar pela alfândega? Perto do que veio depois, virou fichinha. Este é apenas um exemplo. 

Somas interestelares de valores em transações nem sempre cristalinas. A clara preferência de investimento da televisão, que privilegia poucos clubes e tendencia o principal campeonato do país. Dirigentes de caráter duvidoso, alguns inclusive presos ou citados em escândalos de grandeza nacional. Outros, que se tornaram milionários trabalhando em clubes onde não recebem (ou não deveriam receber) salários, dada a hipocrisia do amadorismo dos cartolas. Negociações astronômicas de jogadores que não vingam no futebol internacional e muitas vezes retornam ao Brasil em pouquíssimo tempo - três ou seis meses. Dívidas impagáveis - algumas, com explosão súbita -, muitas vezes adquiridas por negligência trabalhista ou jurídica, deixando os clubes à míngua mas muitos funcionários e prestadores de serviço com satisfação plena. O VAR que dá muito mais certo para um lado do que outro. Conflitos de interesse a granel por toda parte. Livros e livros que denunciam a corrupção vertical da FIFA de cima para baixo. E o mundo da informação é paralisado porque, claro, a imprensa esportiva depende do futebol para sobreviver, dedicando-se apenas aos casos mais evidentes. Tudo isso embalado por muitas festas e convescotes milionários, alguns deles - sem moralismo - impróprios para menores de 75 anos. 

Claro, o futebol brasileiro é um natural reflexo do país. Por isso, está mais perto de suas mazelas terríveis do que se gostaria. Muito mais. 

Importante pontuar: o que vemos na televisão diariamente é a representação de menos de 10% dos jogadores de futebol profissional do Brasil. Os outros 95% não estão na mídia, jogam muitas vezes por um prato de comida ou até mesmo em condições análogas ao trabalho escravo, disputando partidas vistas por menos de dez torcedores, mas que são acompanhadas atentamente do outro lado do mundo por conta das bolsas de apostas. 

Voltando aos 10% da elite econômica do futebol, há relatos costumeiros de um jogador retornar parte de seus rendimentos mensais para quem o fortaleceu com um excelente contrato, às vezes até acima do que mereceria tecnicamente falando. Qualquer semelhança entre este procedimento e a já famosa suspeita de "rachadinha" parlamentar, com 48 depósitos de 2 mil reais em espécie no caixa eletrônico, é mera evidência. E quando você vê aquele pereba como titular absoluto do seu time, sem entender porque o reserva não o substitui, não tenha dúvidas: não existe coincidência nisso. 

O treinador que indica reforços, o dirigente que contrata vários jogadores de um mesmo empresário, o clube que revela vários jogadores sem retorno esportivo mas com rápidas negociações internacionais. Os clubes que têm uma sequência de negociações de jogadores que, em muitos casos, não vingam esportivamente. E treinadores que vêm e vão com velocidade hipersônica, pendurando e renegociando salários atrasados. 

Bom, até recentemente a CBF tinha dirigentes que não podiam sequer viajar para o estrangeiro, sob risco de entrarem em cana via Interpol. Outros cumprem pena no exterior. Sempre alinhada com a ditadura e, posteriormente, com todos os vícios do corporativismo e da baixa politicagem das federações estaduais, a Confederação é um triste retrato da vida brasileira, salvo raras exceções de dignidade que ocuparam seus quadros. Se pensarmos friamente, tem o mesmo modus operandi da FIESP, da CNI e de outras entidades empresariais que, dentre outras picaretagens, financiaram o golpe de 2016 e prepararam o terreno para o horror que hoje vivemos. A única diferença é que a CBF, direta ou indiretamente, legaliza todo dia uma partida de futebol que, na arquibancada ou na tela da televisão, serve de pequeno bálsamo para milhões de corações torturados pela difícil vida no Brasil, ou de confere para outros corações que não estão nem aí para nada. 

Para quem ama o futebol, só resta uma saída: tapar o nariz e voltar a ser criança por 90 minutos, tal como o jornalista Juca Kfouri receitou certa vez numa entrevista. O jogo de bola ganhou o planeta, é o esporte mais popular do mundo, mas carrega em suas costas bem mais do que jogadas fabulosas e lances inesquecíveis. 

Pode parecer estranho fechar uma coluna sobre o futebol brasileiro e não falar em Neymar. Mas, pensando bem, é melhor assim. Novamente o talento de João Saldanha cai melhor por aqui: vida que segue. 

@pauloandel 

Tuesday, February 25, 2020

para o verão que morre

o que me sobrou foi um par
de chinelos velhos e grandes
com eles, navego às ruas
sem pensar bem no futuro
nem no presente 
aterrorizante
e dou meus passos humildes
sem grandes conquistas
mas também sem falsos 
amigos
com seus discursos vazios
meus pequenos passos que 
não
me levam onde procuro
nenhum rastro de meus pais
meu irmão não dá um pio
de modo que são passos 
tristes
sozinhos, porém necessários
porque a vida é dos andarilhos
dos que atravessam muitas ruas
e colecionam nomes, fatos, sons:
as cores e pedras, a gente 
que passa
meus pequenos passos necessários
sem falsos abraços e risadas 
infelizes
mergulhando feito sangue nas 
veias
e artérias do que sobrou 
dessa cidade
o que me sobrou foi meu amor, que
tenho em hectolitros e toneladas
não existe sobrevivência sem
amor
apreço, bondade, solidariedade: 
o resto não passa de mentira 
oca
arrogância de corações primitivos
o supra sumo da vã verborragia
meu amor é um par de
chinelos grandes
que calço para caminhar rumo ao
outono
sem grandes vitórias, sem hipocrisia
sem trair quem ainda me
considera
dou meus pequenos passos 
confiantes
meus pés me desviam 
do mau caminho
a borracha não me deixa derrapar 
mais:
eu só preciso de um pequeno 
punhado

Saturday, February 22, 2020

Um bandido hot dog

Era fichinha nas noites de Carnaval de Copacabana - em que outro lugar poderia se pensar em alguém parecido, como se poderá entender? Esperava a hora dos grandes blocos e partia para o ataque. Roubava, furtava, mas sem agressividade ou violência, e só lhe interessava um único produto de roubo. Seu diferencial era que usava uma fantasia de cachorro quente, acreditem! 

Rolando nem precisava roubar. Era um psicopata. Tinha renda e trabalhava. Sua obsessão pelo crime vinha apenas nas noites momescas. Em seu inconsciente também havia uma profunda admiração pelo ator Ney Latorraca, que já relatou inúmeras vezes que roubava na feira para comer quando era garoto. Para Rolando, não bastava o fascínio pelo talento de Ney: era preciso também reproduzi-lo no cenário down by law, que misturado à atmosfera kistch de Copacabana, resultaria num cômico vilão de Carnaval. 

Seu maior problema era a atração por celulares  vintage, os da primeira e segunda gerações, longe da era dos smartphones. Então roubar e furtar era algo ainda mais difícil: que vítima ainda usaria um celular sem internet em 2019 ou 2020? Isso lhe fez sair de Copacabana em busca da folia em outros bairros, noutros carnavais, aumentando seu espectro de captação de celulares velhos. Todo o produto do roubo era guardado em casa, numa escrivaninha das antigas, e naturalmente não era lá muita coisa, no máximo uns cinco aparelhos em cinco folias. Meus amigos, o miserê chegou até o mundo dos crimes exóticos, ainda mais para um ladrão que só se interessava por celulares arcaicos.

Também tinha dificuldades para o crime quando estava fantasiado. Afinal, quando o cachorro quente ambulante chegava no pedaço, todxs queriam tirar fotos, abraçar, estar perto de uma picocelebridade instantânea. E Rolando, um psicopata vintage, via naquele mar de fotos e vídeos a negação da própria existência. Contudo, desistir não faz parte dos planos. Ele persistirá!

Copacabana é seu teatro de guerra, mas não mais exclusivo. Já esteve recentemente no Bola Preta, sem sucesso. Navegará pela Banda de Ipanema e pelo Simpatia, também pelo Suvaco de Cristo. Será um desafio ainda maior roubar celulares velhos mas regiões mais endinheiradas da cidade. E quando voltar para sua casa no Bairro Peixoto, só terá o sentimento de prazer cumprido se conseguir um "tijolão", daqueles de 25 anos atrás, que os milionários bregas dos anos 1990 adoravam ostentar. 

Rolando tem um pesadelo. Todo vilão tem um ponto fraco. A psicopatia sempre lhe traz à mente a figura de Robertinha,  uma jovem carioca que tem um belo aparelho celular vintage, mas que diante de seu ataque criminoso reage com um recipiente grandão de catchup na não, deixando-o banhado da saborosa mistura do creme de tomate com açúcar e condimentos diversos. A impetuosa Robertinha apavora Rolando de vez quando, em seus pesadelos, grita na hora do ataque "EU VOU ENCHER VOCÊ DE PURÊ, E SE ENCHER MEU SACO AINDA TE TACO UM MONTE DE PASSAS!". Quase sempre após vivenciar este pesadelo ou delírio, Rolando sai de onde estiver e apressadamente corre para a Sorveteria Bolonha, esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro, cinquenta anos de bons serviços. Pede um eggcheeseburger, um copo grande de mate da casa - delicioso -, lancha, tenta negar sua condição de cachorro quente humano psicopata, pede a Deus para perdoá-lo dos pecados que comete e morde cada pedaço do sanduíche como se fosse o último da vida. 

Pensa no próximo bloco, no próximo crime. E se Robertinha for de verdade? E se ela aparecer com um gigantesco potão de purê, será o fim? E se for um ameaçador tubão de mostarda alemã, o que fazer? A incerteza deixa o esquisito homem-sanduíche de Carnaval em processo de quase pânico. 

O que lhe resta é sair correndo da Bolonha, sorveteria e lanchonete clássica onde bem em frente ficavam a Farmácia Piauí, um clássico de Copacabana, além de uma antiga mercearia cuja calçada elevada servia de dormitório para Mr. Éter, o mais famoso mendigo da história de Copacabana. Desce a Barata Ribeiro, passa em frente ao mitológico endereço da falecida boate Crepúsculo de Cubatão, entra na rua Santa Clara antes de se deparar com as lembranças das eternas lojas de discos Billboard e Modern Sound - o Cine Bruni também -, não olha para trás, sobe a rua cheia de árvores, passa pela porta da Padaria Apolo XI - do outro lado da rua não está mais o porteiro Silério - a velha Casa Mimosa, e ganha os metros finais até chegar à Boca do Lobo, a galeria de passagem para o Bairro Peixoto, onde finalmente se liberta de suas obsessões e volta a ser um cidadão quase normal, em defesa da família brasileira, contra o comunismo e em favor dos smartphones. 

Robertinha é uma permanente ameaça para Rolando, o vilão vintage de ocasião. Tanto faz se é um holograma, uma fantasia ou uma jovem mulher de carne e osso. A possibilidade de ser ultrajado com quilos de purê em sua fantasia de cachorro quente faz Rolando suar frio. Ela é o terror que pode estar em qualquer lugar da cidade, mas que por razões óbvias tem o DNA de Copacabana. 

@pauloandel

(Livremente inspirado na engraçadíssima colaboração de Márcia Abreu do Nascimento)

Thursday, February 20, 2020

os bostas

tratemos todos os egoístas como os bostas que são. os covardes e preconceituosos, os pretensiosos, os pernósticos, todos eles merecem o desprezo supremo e o destino os colocará no cocho de direito. chega de estender a mão para os traidores, afagar os delatores, oferecer ouvidos aos pilantras. nenhum deles escapará de olhar para o teto do quarto numa noite quente e insone, pensando na própria escrotidão, enxergando um espelho turvo imaginário onde encontram a própria mediocridade cristalizada, sonhando com fama e poder mas com os olhos arregalados pela própria miséria d'alma, sabendo que podem enganar a tanta gente mas nunca à própria inconsciência. os ruins morrem sozinhos, pouco importando se estão cercados por uma multidão. todos os vigaristas enxergam a rudeza de seus espíritos diante da solidão. enganam-se os que pensam que o mal compensa: se não forem verdadeiros criminosos, assassinos, estupradores, gente que deixou de ser gente ou nunca foi, o remorso os corroerá víscera após víscera, ardendo no peito como um tiro devastador de fuzil. até para ser o esgoto da humanidade é preciso ter competência e talento - e quem disso não usufrui jamais terá o reconhecimento dos canalhas, apenas pena.

xxxxxxxxxx

toda mediocridade será castigada.

xxxxxxxxxx

os escroques não morrem, porque jamais viveram. apenas desperdiçaram tempo.

xxxxxxxxxx

para que ter medo se o futuro é a morte?

Tuesday, February 11, 2020

humanos

ao defendermos os
pobres os humilhados
e fudidos não somos
heróis não somos porra
nenhuma a não ser
humanos tão somente
humanos e mais nada
seres humanos ainda
respirando ar podre e
bebendo água imunda
mas humanos pensando
em pessoas que sofrem
por toda parte um mundo
a vida é poder ajudar um
outro é poder ser útil e
dizer um não à escrotidão
outra vez: não somos heróis
mas apenas humanos vivos
debaixo de escombros vivos
das respeitáveis corporações
tentando sobreviver ao caos
debaixo da grande explosão
do ódio que há de sucumbir

Saturday, January 25, 2020

sampaulo

todos os corações solitários num vagão do metrô cortando a Sé com as multidões se engalfinhando.

ou o viajante solitário caçando discos nos sebos da avenida São João. jazz e rock progressivo.

garotos loucos indo e vindo da galeria do rock enquanto ali perto os crackers vivem suas últimas horas de vida em invasões prediais. e garotas bonitas de todos os jeitos. homens engravatados e apressados a caminho do progresso de seus patrões milionários.

shows maravilhosos no Sesc. sanduíche de enlouquecer no ponto chic. aquele de mortadela de todos os jeitos, também na São João. onde foi parar a Cinelândia?

morumbi, palestra, Itaquera, Pacaembu.

alguma coisa tem cheiro de bom retiro e vila Madalena. gente correndo para congonhas. gente correndo de Congonhas.

na avenida Luiz Carlos Berrini existe um bar simples com ótima comida e preço justo. a pé, rapidamente se chega ao World Trade Center - é sério. o incrível é que, apesar da vista panorâmica do grande hotel, muitas vezes os hóspedes são incapazes de enxergar logo à frente a aflição dos passageiros dos trens.

São Paulo de muitas veias e artérias, da Pauliceia Desvairada, da Vanguarda Paulistana, do rock, do pop, do teatro, das revoluções, também do conservadorismo que sai na porrada com a liberdade.

São Paulo dos orientais, árabes, persas, judeus, italianos, nordestinos, sulistas tudo com camelôs, industriais, lindas putas, doces travestis ao estilo de Cler, e tem Moema, tem Arouche, tem Armênia. Tem cariocas, muitos.

nada sobrou da luta, miséria e tragédia do edifício São Vito.

O Martinelli e o Itália rugem, o Copan é uma legenda

muita coisa acontece quando um estrangeiro corta o coração da cidade e vê sua admirável mistura de esculhambação com progresso, sua mistura de caos e charme, derrota e glória. O vaivém do mundo.

Marina está lá. Tom Jobim faz aniversário junto. Ah, Geraldo Filme! Artigo Barnabé, Paulo Lepetit, Vange Milliet, Marina Person, nomes que são poemas. Ibirapuera, Canindé, Tietê, Javali, tudo soa bem. é música.

mais corações na Cantareira, no Grajaú, na Penha, nas marginais, nos sinais de trânsito que brilham e são holofotes para os sofridos vendedores de balas.

Otto escreveu: "São Paulo é um peito".

lembro de minha primeira vez por lá, finalizando a Dutra a caminho de Cotia, os grandes prédios ao fundo, grandes nuvens por cima. nunca mais esqueci. voltei muitas vezes, todas foram especiais. meu coração ainda bate forte por isso.

sexo gemini

precisamos transar logo e gozar longamente porque este é o país que odeia o gozo, a felicidade. gozar e gozar, trocar os suores, os líquidos, o tesão das peles, o beijo inebriante que há de nos levar ao mar da tranquilidade. oh, sejamos éticos e sinceros com nossos prazeres e consentimentos: somos animais falantes do século XXI e precisamos descarregar nossas tristezas e angústias. por isso, nada pode ser melhor do que a descarga do tesão. vamos libertar nossos sentimentos e fazer o que realmente nos faz sentido. quer gozar? quer fuder loucamente? quer ir à lua com chupadas e mamadas, dedos e pirocadas, toques de quase nada, bucetas deliciosas, palavras ao pé do ouvido ensandecido? vale. vamos libertar nossos descompasso. gozar loucamente a dois, em ménage, surubas, sozinhos, desimportando o meio e sim a pequena felicidade, que todos temos direito nessa terra de cores e flores lindas, mas cheia de estupidez em corações racionais, em regras morais feitas pelos broxas de alma, que transam mas não gozam de alma, porque seus ódios e primitivismos não rimam com êxtase. vamos transar e gozar porque precisamos de amor, nem que seja por uma tarde ou noite, nem que seja por uma hora e meia, nem que seja no pensamento somente - quem de nós nunca se apaixonou por quem nunca sequer beijou, sequer tocou? esse admirável nada que mexe com o desejo, que nos acorda à madrugada, que sugere nirvanas, o nada que é tudo e se materializa porque está no sonho, e o sonho é o que move o mundo. vamos transar e gozar, efêmera ou definitivamente, porque nossos corpos cheios de água e carnes foram feitos para isso - não daremos ouvidos a fascistas frustrados e megeras encalhadas! não! vamos pensar e agir nessa pequena dádiva de amor que a vida nos oferece. respeitemos as regras previamente combinadas mas sejamos livres. nós merecemos o amor. foda-se o resto, o resto.

Tuesday, December 31, 2019

Misaque

Exatamente hoje, 35 anos. Embora tenha vivido na casa de Fred por 14 anos ininterruptos, poucas vezes passamos o Ano Novo juntos. Ele não gostava de sair, deve ter sido por isso. 

Naquela noite resolvemos ir ao Sorrento, que ficava no Leme. Doce ilusão: abarrotado. Então caminhamos pelo calçadão, vimos os fogos, o ir e vir das gentes, éramos Copacabana o ano inteiro. 

Decidimos ir ao Gordon, sempre um lanche de fé. Estava lotado, tudo bem. Pedimos vários sanduíches sinistros. Se não estiver enganado, Pedro Brito estava conosco. Talvez Coruja, Ricardinho quase com certeza. Lembro que as garotas mal conseguiram comer o primeiro e deixaram pra gente: comemos muito. Muito. 

Era o fim de um ano de glórias: grande temporada escolar, Fluzão bicampeão, campeonatos de botão, muito futebol na praia e na quadra, praia de manhã também. Grandes acampamentos escoteiros. Dinheiro não havia, mas bastava para um garoto de dezesseis anos. 

Com toda a paciência do planeta, um jovem trabalhador negro atendia cinco mil pedidos no balcão do Gordon. Seu nome era Misaque, havia a plaquinha na camiseta. Vinham o Angélico, o Diabólico, o Tudo e lá ia Misaque indo e vindo com uma tropa de sanduíches. Eu lembro de ter olhado pra ele, percebido que não tinha muita idade além da minha e pensado "Como esse rapaz trabalha sem parar". Era uma luta. 

Um dia o Gordon acabou, hoje é McDonald's. Já comi lá algumas vezes. Fred, nunca mais. As garotas eu vejo no Facebook, Ricardinho também. Outro dia almocei com o Coruja e falei com o Pedro perto do Teatro Riachuelo. 

Tomara que o Misaque esteja bem. 

@pauloandel

Friday, December 13, 2019

"Lágrimas", um dos grandes álbuns de 2019


A reunião da maturidade do poeta Paulo César Feital com a juventude do cantor e melodista Lucas Bueno resultou num dos melhores álbuns lançados em 2019 no Brasil, intitulado "Lágrimas" e produzido de forma independente. 

A beleza das canções, aliadas à poesia que carregam e a interpretação vigorosa da dupla, auxiliada por uma seleção de craques instrumentistas e convidados especiais, tornam o álbum uma espécie de procissão contra tudo o que temos visto no Brasil de 2019. A percepção atenta das letras leva a reflexões profundas sobre onde estamos e como chegamos a tal situação. 

Lucas é, desde já, um dos grandes intérpretes de sua geração. Canta e toca como um veterano do melhor cancioneiro da MPB, e não é injusto pensar que representa de alguma forma grandes nomes do passado, que remetem a craques como Silvio Caldas. Mas é bom que se diga: ele soa como um veterano mas tem uma enorme e promissora juventude pela frente. 

Paulo César Feital dispensa apresentações. É um dos maiores poetas da música popular brasileira em qualidade e quantidade. Ao lado de seu xará Paulo Cesar Pinheiro, carrega o estandarte da poesia na música popular. Fez centenas de canções, mas somente uma já serviria para imortalizá-lo: "Saigon", na voz eterna de Emílio Santiago. 

"Lágrimas" tem melancolia e esperança, tristeza e felicidade, angustia e fé. Soa como oratório e passeata. Entre seus convidados, nomes marcantes da nova geração, tais como o sagaz Moyseis Marques e a maravilhosa Nina Wirtti e também os consagrados Cláudio Nucci e Soraya Ravenle. Deve ser ouvido com calma, reservadamente, sorvido como um daqueles LPs que abrem as cortinas do passado, mas que também sugerem que o amanhã vai ser outro dia. 

Em suma: imperdível. Um dos álbuns do ano, dos melhores da década, indispensável em qualquer CDteca que se pretenda séria, além das plataformas digitais. Mas o bom mesmo é com o disquinho de prata tocando e as letras do encarte na mão e no olhar. 

@pauloandel

Friday, October 25, 2019

remorso

era traíra. carregava a canalhice e a traição em suas veias. não poupava ninguém: cônjuge, parentes, amizades, amantes. e vivia serenamente como se nada fizesse de prejudicial aos outros. tropeçava e caía, levantava-se mas nunca perdia a arrogância que lhe conduzia a novas jogadas de risco. 

confundia destemor com irresponsabilidade, e a tudo disfarçava com falsa humildade. o típico traço de gente perversa que se julga superior a tudo e a todos, e que por isso mesmo desvela a própria estampa primitiva. talvez um pouco de recalque junto, quem sabe? com ou sem dinheiro ou bens, a inveja é capaz de revirar cabeças ocas.

de golpe em golpe, a trairagem prevalecia. pequenos ou grandes, todos lhe davam a certeza ilusória de vitória, de prazer na trapaça, de compensação pelo reconhecimento da própria identidade falida, ignorante, alheia ao mundo e aos bons atos. pulava de galho em galho até a próxima falência moral, e não pensava sequer na vergonha que ofereceria aos filhos, caso eles descobrissem sua verdadeira identidade. não se arrependia: a pilantragem era consciente. tudo que lhe soasse como vantagem financeira era aprazível.

a corrupção assumida lhe trouxe uma pequena vitória no jogo da vida. comprou objetos, sentiu alegria em tratar como trouxa quem lhe fortaleceu e pensou nos golpes anteriores. era fácil fugir, não responder as chamadas, ignorar contatos e preparar o terreno para novas jogadas, de acordo com a cartilha oficial do mau caratismo.

contudo, um recente ato de má fé tem lhe custado caro. ao contrário de muitas outras vezes, não recebeu mensagens nem telefonemas, nenhuma cobrança pelo golpe. tinha olhado o celular com apreensão misturada com o tesão pela canalhice e nada, muitas vezes e nada. pela primeira vez o silêncio das vítimas, tão desejado, oferecia um recado que poderia ser tenebroso: e se a mudez na verdade fosse uma sentença de morte anunciada? 

não chorou nem se arrependeu, mas viveu o medo. pela primeira vez, abraçou a lucidez. 

Tuesday, October 22, 2019

necropolitik

os nossos dias tão desgovernados - herdeiros da necropolítica - viva e deixe morrer quem não é rentável - os miseráveis são culpados pela miséria - e fingimos que não vemos os corpos apodrecendo nas calçadas - virar a cara ou até atravessar a rua - em nome do mérito que os pais financiaram - estes são os dias de trevas e torpor - o desamor é a canção das ruas - o que aprendemos nos livros é em vão - que droga poderá nos entorpecer a ponto de fingirmos nada ver? - a miséria mora nas calçadas sofridas - nos vagões oprimidos e noutros cantos vulgares - alguma coisa me queima o peito - morremos em manchetes repetidas - e fones nos trens abarrotados - em mãos que não se apertam e num mar de indiferença - os nossos dias mendigam paz.