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Friday, September 20, 2019

luar da UERJ

Chet Baker tocando com seu quarteto num especial de televisão belga em 1964. O sex-symbol do jazz disfarçava muito bem sua banguela, deixando fãs loucos e loucas mundo afora. Em certo momento toca "So what" e é claro que aquilo faria Miles Davis dar um soco na parede. Com "Time after time", o jazz vira amor e o ídolo dos anos 1960 canta com sua pequena voz de veludo  - e seu dente ausente em close, mostrando que a beleza também sabe estampar o inusitado. 

Descansando depois de um banho e de um longo dia. 

Acabamos de voltar do aniversário de Anielly, divertidíssimo, num bar do Méier, cheio de gente e de pessoas divertidas. Pequenas histórias ótimas que podem dar em livro. Única coisa triste: ver tantas crianças pedintes. Nunca me acostumarei a isso. 

Quando descemos a Marechal Rondon, eu inevitavelmente pensei em 31 anos atrás, quando subi e desci a rua procurando pela Rádio Transamérica para buscar algum prêmio. Naquele tempo sem internet, google e outros confortos, tudo era mais difícil.  

Depois, a UERJ. Mais de trinta anos depois, ainda me emociono ao ver o grande prédio de luzes acesas, com tantas vidas e sonhos, mas também melancolia e derrotas. Eu era um garoto e sonhava em estudar ali, me formar, conseguir um emprego, sustentar minha família. Tudo passou rápido demais, mas acabou acontecendo. Não fiquei rico nem famoso nem importante nem coisa alguma, mas fui um anônimo digno e tive uma bela história que, espero, ainda esteja longe do fim. 

Jovens estudantes com suas mochilas nas costas sobem a rampa do metrô atrás da linha 2. 

Perto do campo, jovens sem rumo rasgam seus corações com crack.

A lua parece bonita. 

O prédio iluminado da UERJ à noite é uma das coisas mais bonitas do mundo. 

O motorista Uber demonstra certa irritação quando não consigo atualizar os destinos, mas seguimos em frente até deixar Camila e, minutos depois, Elika e Lucimar. 

E fica mais irritado ainda no túnel Santa Bárbara, um de meus percursos favoritos, até que chego minutos depois, a corrida sai pelo dobro do esperado e aí o rapaz não deve se incomodar, porque nesta terra de exceção qualquer trocado dobra qualquer irritação. 

Chet Baker sola vigorosamente enquanto o pequeno conjunto o acompanha. É a trilha perfeita para aquele prédio cheio de luzes, vizinho do meu Maracanã, palco de muitos dos momentos mais divertidos de toda a minha vida - quando se é jovem, quando o futuro ainda é longe e o presente é feliz com um simples pão com ovo e salada mais um copo de refresco. 

@pauloandel

mil lugares

andando por mil lugares e pensando chorando lamentando a vida escorrida nas artérias de asfalto a vida esfomeada nas mãos estendidas rendidas a vida desesperada pelo fim na ponta da bala perdida a vida jogada fora em celas corporativas em troca de salários respeitáveis a vida entupida encardida exaurida por tanto desprezo e indiferença andando por mil lugares e pensando pensando fundo no que resta da vida o beijo o apreço a memória saudosa o tempo o tempo uma velha canção à vitrola uma página virada nenhuma despedida

Sunday, August 25, 2019

as pessoas têm morrido demais

as pessoas têm morrido demais e rápido demais. estão assustadas, ameaçadas, verdadeiramente desesperadas. o ódio vira incêndio e tiroteio conforme a ocasião. as pessoas estão indo embora cedo demais. quem fica vê o horror da necropolítica, o desprezo, a destruição. celebrar o crime virou orgulho, trair e trapacear virou qualidade, humilhar é poder. as pessoas são incapazes de ver a dor do outro e acham tudo normal, esquecendo-se de tanta indiferença ainda vai criar uma nascente de vingança, que crescerá até que nos apedrejemos nas ruas. estamos indiferentes aos inocentes fuzilados, aos corpos desaparecidos, aos estupros e sevícias, ao assédio tosco e vil, aos despejos e leilões, aos suicídios tratados com silêncio, à injustiça. tudo isso só pode ser tratado com naturalidade por cabeças de merda, comandadas por espíritos de merda. é a grande guerra onde quase todo mundo morre no final, para o deleite de uma minoria mesquinha, asquerosa, nazifascista, hipócrita e criminosa. os pequenos bandidos cometendo pequenos crimes e sonhando ocupar o lugar dos grandes falsários, uma ingenuidade estúpida. as pessoas têm morrido demais e rápido, com missões incompletas, enquanto ratos de esgoto travestem-se com roupas de marca e fingem ser lordes, mas não passam de ralé suja de merda.

Thursday, August 15, 2019

luzes da cidade de copacabana

O que sei é que havíamos viajado para Arraial do Cabo por alguns dias, quando podíamos fazer isso sem nenhum dinheiro - exceto para as refeições e um ou outro lanche - não sei como era tão pobre mas conseguia fazer aquilo. Voltamos para Niterói e caminhamos da Rodoviária até às Barcas rumo ao Rio. Lembro que a tarde era um pouco nublada. 

Durante a travessia da Baía, combinamos de lanchar no Bob's mais tarde, só para ver a grande novidade de Copacabana: a iluminação completa da praia. E assim fizemos, entre um Big Bob e um sundae de morango. 

Por volta das seis e meia da tarde, descemos a velha Figueiredo Magalhães até a Atlântica, quando a vista nunca pareceu tão deslumbrante: o céu de azul escurecendo, as luzes fazendo uma grande trilha de ponta a ponta na orla. Dava para ver a areia, a beira, o mar. Bom, os casais safadinhos saíram perdendo seus rompantes idílicos, mas nem sempre se pode ganhar todas. 

Era um sonho. Eu, que passei dez anos consecutivos pisando nas areias sem poder ver direito a bola, enxergava tudo. Ao mesmo tempo, me dava certa melancolia: eu sabia que não ia ser mais como antigamente. Começávamos faculdades, o pessoal trabalhando, os encontros iam ficar mais escassos, não daria tempo para jogar tanta bola. 

Eu me lembro que Ana e Henrique ficaram extremamente contemplativos diante da vista nova de Copacabana. Algo entre o inverno e a primavera. Um dia de semana com pouco movimento, nenhum calor, nenhum vento frio, certo silêncio e mistério que a orla sempre tem de alguma forma. 

Eu olhava para a areia e procurava meus amigos, imaginava lances, via garotas bonitas no pensamento e, por vários instantes, não era apenas um súdito daquela linda terra para onde fui com três dias de vida, mas me sentindo um pequenino rei daquela terra macia, rei das jogadas, olhando o ir e vir das gentes, pensando também que já estava distante dos tempos de menino da praia, onde tudo era futuro. 

Nós, que tanto conversávamos, ali estávamos completamente mudos, docemente entorpecidos pela beleza da geografia que sempre nos abraçou. Ao longe, os outros dois Henriques - um, grande, parceiro da UERJ e o outro, pequenininho e gente boa, faziam barras. O nosso silêncio era um espírito da paz que parecia não ter fim - e talvez não tenha tido mesmo: por anos e anos a fio, sempre que estive em algum pedaço de litoral, pensei nesse dia de paz, dos raros na minha vida. Ano passado, escrevi um livro em três noites na Praia dos Ingleses, em Florianópolis. Eu estava lá, mas sonhava e revia o berço esplêndido das areias de Copacabana, as mesmas onde gostaria que jogassem as minhas cinzas - mas isso não tem a menor importância.

Nunca mais me esqueci das luzes da cidade de Copacabana. Elas não se apagam.

Wednesday, August 07, 2019

copacabana solidão

sozinho na praia deserta de copacabana/ perdi um poema livre inteiro/ que falava da minha dor/ com meus olhos cheios de tristeza/ e incerteza/ enquanto a maresia suaviza a noite em riste/ areias de encanto mas também miséria/ e a solidão sem fim de frente para o atlântico sul/ copacabana minha praia/ minha casa abandonada/ procuro pelos meus amigos mas estão todos mortos/ ou ausentes para sempre/ não vejo meus pais de mãos dadas/ não abraço meu irmão/ não aperto a mão de meus colegas/ os bancos do calçadão hospedam a tragédia/ a cocaína escarra na desesperança dos junkies/ where's my violet femmes?/ o posto seis a bolívar a constante a figueiredo o lido/ parece que estamos em 1936/ os carros não passam para buscar as travestis/ copacabana o meu delírio sem encarnação/ as pessoas estão trancadas em seus apartamentos/ e só berram por justo motivo/ a praia deserta de copacabana é minha liberdade e certeza de condenação/ estou desfigurado/ meu mapa mundi é um horizonte apagado debaixo de um céu nublado e frio/ existe o amor em muitos lugares de copacabana/ noutros ele desacontece/ os tiros na ladeira aleijam a alegria/ meus escoteiros estão sem teto/ por culpa do grande capital da humilhação/ nos arredores da praia mais linda do mundo há o cheiro das ruas tristes/ e os lindos puteiros estão fechados/ eis a cidade reacionária/ quem vai perdoar minhas dívidas como eu perdoei a meus devedores?/ existe o ódio ao longe/ o fracasso da sociedade debaixo das marquises/ a devastação escondida entre coqueiros/ onde foi que enterraram os meus amores?/ não quero amolar ninguém/ apenas choro sozinho olhando o horizonte do mar noturno de copacabana/ minha logotham city/ fausto fawcett meu batman/ quem vai pagar o preço do descaso? há luzes ao longe fracassos corporativos e pequenas ambições/ copacabana é dos humildes/ os oprimidos que se esgueiram nas beliches das quitinetes/ e na favela esperta/ no drible malandro do jogo de praia/ no saudoso zé das medalhas/ há navalhas em muitas carnes/ enquanto outras repousam em berço esplêndido/ eu sou a tristeza e o fracasso o fim da linha/ a artéria entupida em desamparo/ onde vou encontrar meu biscoito chinês da sorte/ por entre as quinquilharias de copacabana?/ o verdadeiro poema foi perdido/ este é apenas um prêmio de consolação de um poeta fudido/ sem futuro nem rastro/ à procura das últimas esmolas de amor de seu aquário natal/ eu procuro o jazz e o blues das profundezas de copacabana/ ainda me lembro do grande mendigo caminhando solene pelas últimas calçadas de carinho em copacabana/ meu amor nunca mais vai responder/ eu digo adeus.

Sunday, August 04, 2019

foco!

estamos juntos, estamos longe
qualquer abraço é memória vã
continuamos imperfeitos de fé
e desperdiçamos tanto tempo
que agora uma hora é um mês
não temos tempo nem conforto
nem oportunidade ou mera rotina
o que nos resta é viver do passado
o que foi, o que não foi, o talvez
o que poderia ter sido duma vez
o que não daria num campeonato
e agora somos outros, multi outros
choramos sozinhos no sofá de casa 
nos arrastamos em nossas sombras
e fisgamos a luz à primeira réstia
não temos mais mesa ou conversa
ninguém vai falar ao telefone, ora!
basta um ok, um olá, um polegar
enquanto ouvimos velhas notícias
de um país contaminado e colérico
ninguém mais vai ter tempo, não!
agora somos masterchefs de família
com o limite da conta estraçalhada
e o cartão cheio de grandes bobagens
uma postagem basta, é o que resta
até que cheguem as péssimas notícias
os velórios, a missa de sétimo dia
para então fazermos vale de lágrimas
em nome da nossa hipocrisia ferina
ah, que pena! não deveria ser assim!
depois de doze dias, quem se lembra?
e achamos que sofremos muito, muito
em camas confortáveis neste domingo
de inverno cruel para os desprezados
nós não temos tempo mas temos likes
e muitos comentários, muitas figurinhas
ah, que pena! força! bora empreender!
foco e mira nas oportunidades! crescer!
nunca fomos tão sinceramente idiotas

Saturday, July 13, 2019

NYC

olhando para a parede
uma parede de uma
exposição no ccbb sobre
new york city e seus junkies
e seus gênios dos anos 1970:
numa foto o jovem velvet
underground, noutra a jovem
patti smith com o fotógrafo
robert mapplethorpe
sob trilha sonora de antony
and the johnstons
as ruas de nyc são tristes

parece copacabana ou estácio
ou pedaços de vida suburbana
carioca, quentinha tão gente!
há ruas tristes e sujas, há dores
e cocaína brindando tristeza
desesperança e rude poesia
as pessoas estão cabisbaixas
ninguém acredita no futuro
mas a doce melodia de antony
and the johnstons é um incenso
doce e profundo, um acalanto
quase uma oração de mendicância
NYC é profundeza das almas

com suas ruas sem futuro e pobres
artistas geniais, a cidade sobreviveu
e repintou sua identidade - agora
é sobreviver e aprender a jogar

@pauloandel


Wednesday, June 05, 2019

o primeiro dia do inverno que não existe

lá fora estava frio, frio como não se viu neste ano. não liguei muito por mim, já que sou gordo e tenho meu próprio aquecimento, mas pensei no monte de gente que está sofrendo nas calçadas, a gente tão desprezada por esse governo filhadaputa, e então senti tristeza. sei que continua frio, pois não é preciso ligar o ventilador turbão que temos no quarto. pedi um sanduíche, o moço da entrega veio de casaco. tudo bem que por aqui todo mundo coloca casaco com vinte graus, mas o vento é frio mesmo. é menos pior do que aquele calor demoníaco que tira todas as forças, mas depois de um certo tempo em que você desenvolveu sua preocupação para com o próximo, fica impossível não torcer para nunca ter chuva - os barracos desabam, os mendigos ficam ainda mais desamparados, a cidade é um choro triste de criança abandonada. acabou o futebol, o fluminense perdeu, na televisão tem um documentário sobre badi assad. pensei no frio, me bateu certa melancolia e, enquanto fui espiar o facebook, vi a foto de um menininho que parecia meu irmão e me deu mais vontade de chorar. estou deitado na mesma cama onde fui um garoto de trinta centímetros de altura e hoje tenho mais de cinquenta anos. onde meus pais viveram e morreram. eles agora estão longe demais e eu sou a pessoa mais sozinha do mundo. felizmente sou covarde, pois já pensei muitas vezes no que significaria um voo de morte à janela, mas a minha covardia repele o pensamento - alguns dizem que é lucidez. acabou mais um dia, ou está acabando - eu já vivi mais de vinte mil dias, talvez em vão, talvez sem nenhuma importância e nem um tiquinho da lembrança de pessoas das quais lembro muito bem. deixando a tristeza de lado e ouvindo ao longe os sofredores lutando na loja de recicláveis, carregando sacos enormes em troca de moedas sofríveis. há um silêncio lá fora e algum frio. as pessoas sofrem muito e isso me corta feito uma facada verdadeira. num instante eu olho para o teto e vejo quarenta anos atrás com enorme facilidade. ou trinta ou vinte, quarenta e cinco às vezes porque tudo foi tão rápido que é fácil ver o ontem em 1973. já não está tão frio, talvez seja bom para um banho, colocar o pescoço debaixo do chuveiro até a tristeza escorrer enquanto os gols não aparecem no noticiário. e pensar que a tristeza não passa nunca, mas ela sempre pode ter intervalos até generosos. 

Tuesday, May 28, 2019

vezes

quantas e quantas vezes os lordes
brindaram felizes enquanto os
miseráveis choraram bem à frente
das tabernas, sem rumo ou futuro?
a indiferença venceu a humanidade
desfilaram as hordas de soldados corporativos com suas vestes sóbrias
de matizes discretas e comprimentos

[e desejos reprimidos

[há melancolia nos peitos nus

a paz está guardada debaixo dos escombros da grande guerra suja
onde poucos têm direito a viver
e a solidariedade é uma fantasia

olhar para o céu de tijolos e entender
que o fim se avizinha tão lentamente
em pequenos tragos e tristezas vãs
em mesas com garrafas vazias 
e corredores vazios abraçando vitrines
de um mundo que poucos conhecem

quem vai cantar uma canção de alívio?

a morte é o exílio da felicidade! 

as pessoas brincam de se divertir e fotografam o que se vê ao longe
esperando um porto seguro à toa: 
ele não existe, o conforto não existe

nossos comerciais, por favor

@pauloandel

Sunday, May 26, 2019

manhã de domingos

parece que não está frio nem quente, o verão ainda ameaça em maio mas timidamente. talvez as ruas estejam vazias. em casa tem silêncio e alguma melancolia: o rádio que não toca, as conversas emudecidas, até às pequenas brigas. a televisão mostra filmes reflexivos em curta metragem.

não tem ninguém na sala, no outro quarto, na cozinha, ao lado. pela fresta da cortina percebe-se a réstia de sol que não chega a empolgar.

não tem jornais, revistas, presunto fininho, ovos mexidos e sequer a esperança de jogar futebol com bolinha de isopor em frente de casa.

é o domingo, o silêncio, a tristeza pela distância infinita, o fim mais perto do que o começo, tudo alinhado a uma esperança que sequer se justifica, mas que ajuda a escrever o livro dos dias.

Monday, April 29, 2019

não se espante

então não se espante comigo. estou deitado. lá fora está um lindo dia que não me interessa. pouco me importa uma manhã de solidariedade morta. eu não tenho mais paciência para o óbvio. a estupidez é tão popular que pede bis e tris. moro num país tropical banhado por sangue e mergulhado num copo de cólera com quinze gotas de adoçante.  oh, manhã de segunda-feira, abraço tuas notícias insólitas e cruéis. e repouso minha cabeça no travesseiro como se fosse um popô num sofá de areia. fiquemos eu e meu pensamento feito o músculo adormecido do sexo, a ordinária vanguarda convencional, o quartel-general da escrotidão delicada. suprassumo da inutilidade yo soy, desconocido sou.

Sunday, April 14, 2019

fashion mall


vivem num mundo próprio
à parte onde
o outro não cabe
aquele outro roto, pobre
humilde, abominável
pela própria natureza
louvado seja aquele sangue
derramado
e se pudessem, matariam
mais da metade do mundo
mas lhes falta a danada
da coragem
por isso, aplaudem os nazistas
e seus discursos de merda
aplaudem o rancor e o aparte
são quatro horas da madrugada
e alguém pobre está debaixo
daqueles escombros
jogado naquela calçada
sentado no chão daquele
barraco
enquanto os blasês nem veem
o tamanho do caos que defenderam
o estado novo da morte
o pavor e a indiferença
são quatro horas da madrugada
e as veias de asfalto sangram
lágrimas
é o morro do bumba, a muzema
é o morro de são joão
é a rocinha num incêndio
de balas traçantes
ninguém liga no fashion mall!
vivem num mundo à parte
os nazistas de merda
acreditando mesmo que existe
algum lugar seguro de vez
numa terra onde o outro
é ninguém

@pauloandel

Sunday, March 24, 2019

fim de domingo

hoje meu grande herói beat 
lawrence ferlinghetti 
completou cem anos
e dentro de quinze dias meu amigo
fred completará dez anos de morte
em poucos meses terei cartorze anos
de amizade com meu amigo leo
e trinta e três com henrique
e trinta e três com ana
e trinta e sete com gomes
lá se vão dez anos da façanha
do meu fluminense
e onze anos sem meu pai
e doze anos sem minha mãe
meu irmão não me abraça
há dois anos
a geral acabou há catorze
meus campeonatos de botão há vinte
meus amigos de faculdade morreram
os de colégio também
mas copacabana ainda vive linda
as pessoas sem nome e rosto
continuam a esperar a morte 
nas calçadas frias e sujas
sem tempo ou idade, apenas dor
david gilmour tem setenta e três
e sua guitarra continua cortante
o pink floyd infelizmente faleceu
hoje é noite de domingo
esperamos dias de liberdade
cada vez mais raros e vazios
a liberdade que lawrence ferlinghetti
ensinou ao mundo com seus amigos
e nem todos souberam entender
hoje cada um de nós está mais perto
do fim ou do começo
e ficamos ansiosos pelo dia seguinte
a semana seguinte
a longa estrada cujo fim desconhecemos
o domingo chegou ao fim
a semana exige trabalho e sacrifício
então vivamos!

Friday, March 15, 2019

os últimos passos do verão

os últimos passos do verão irrompem a madrugada feito bala estilhaçada
no peito dos sonhos bons
nem todos dormem
os mendigos certamente não dormem:
temem o crepúsculo da morte
ao primeiro camburão ou carro de sinhô
à primeira chama de um assassino
a cidade está deserta e os bandidos estão livres, eleitos e tão poderosos
até o próximo golpe pútrido.
mas é preciso dizer: nenhum fascista vai calar o nosso amor.
este terror de merda não vai nos demitir da vida - somos diferentes em tudo!
o Brasil vai ser libertado, acreditamos.
pequenos raios de sol esfaqueiam a manhã indefesa.
eu estou em minha cama deitado e penso em todos os que não consegui abraçar, os amores que se foram, o que está por vir. os trabalhos e a grande dúvida. o medo e o medo, o mesmo.
o mesmo sol que abre seus raios na cidade do medo é o que alegrará os banhistas.
nada será como antes, portanto.

@pauloandel

Friday, December 28, 2018

acabou o ano

acabou o ano. contamos, calculamos, renovam-se as esperanças e também as agonias. a maioria apenas sobrevive, a maioria nem percebe que é escravizada. todos ou quase todos vão cantar e celebrar, beber e berrar, extravasar. vem o ano novo, vêm as novas esperanças mesmo que elas não tenham base alguma. vem o escorrer do tempo, o tempo, o inferno disfarçado de vida adulta. todos vão beber e berrar, é preciso entorpecer a alma para aguentar o tranco desta merda toda. não há vagas, não há dinheiro, sobram esperanças. as notícias de repetem, as aberrações andam de mãos dadas com a insensibilidade. vamos ver a bela queima de fogos, vamos nos enganar docemente com o novo tempo enquanto há mortes estúpidas nas esquinas, alamedas e vielas - nenhuma arminha vai resolver nada. alguém fará justiça ao poeta e cantará sobre a estupidez de todas as nações. uns e outros se acham mais importantes do que realmente são, os mais iluminados são os mais humildes. chegou o ano novo, a nova ordem, a nova era, o museu de grandes novidades de outro poeta. entre a obsessão corporativa e a ostentação vulgar, veremos o campeonato de posses entre pessoas jurídicas e físicas. enquanto isso, os trens descem entupidos de corpos vivos, as pessoas estendem seus braços miseráveis implorando por uma moeda e quase são pisoteadas por pessoas superiores em coisa alguma, exceto nas oportunidades. o coração da cidade é uma tristeza, é um velório, é um mar de lágrimas que há de se repetir todas as noites depois da grande queima de fogos, aquela que nos faz sentir que o país pertence ao mundo. tudo é ilusão, aspereza entre irmãos, solidão e dor.

@pauloandel

Saturday, December 22, 2018

exile

exílio

I

no final, tudo é em vão
inútil
efêmero e 
desastradamente
repetido
tudo é perda
exílio
saudade e
distância
no final, tudo é
o tempo 
escorrido
o amor que 
deveria 
ser mais do 
que é
o nunca mais
que atordoa
as reticências do 
que
não foi
o desamparo
o tempo escorrido
o tempo
escorrido
a vida frágil
a saudade inútil
tudo é
exílio

II

Ainda me lembro da noite em que soube da morte de Raul Seixas. Eu estava com Zé Luiz no bar do DCE da UERJ quando alguém na Rádio Fluminense deu a notícia. Por mais que não fosse exatamente uma surpresa, ficamos atônitos. Eu comia um hamburger barato com refresco de cola. O Zé não sabia o que fazer. Nós éramos dois garotos de faculdade, cronicamente pobres, sonhando com migalhas, tudo tão atual. A rádio começou a tocar uma canção de Raul e o bar, quase vazio, ganhou um silêncio profundo que eu nunca mais voltaria a ver por lá. Raul Seixas estava morto, muito mais morto do que hoje, quase trinta anos depois. 

@pauloandel

Tuesday, December 11, 2018

o que nos cabe

três horas da manhã e alguém
ri alto da própria desgraça
enquanto passa ao largo
da praca da cruz vermelha

é apenas uma contestação
sem grandes lamentações
nem palavras de conforto:
ele também ri de todos nós

enquanto as últimas gotas
ou lágrimas deságuam no
ralo da pia de louça branca
- um ano velho escorre ali!

não temos grandes notícias
nem planos ora infalíveis
não há feitos inigualáveis:
resta apenas um sonho em vão

Friday, December 07, 2018

para tom waits

solitário o vagabundo
deitado num colchão de
pedra

dormindo à tarde por medo
de ser incinerado, fuzilado
transformado em sucata
do iml - esquartejado podre

as janelas da vizinhança não
abraçam ninguém

enquanto o cheiro escuro da rua
sobe do asfalto e navega
feito condomínios d'alma

não! ainda não é natal
é só um dezembro de chuva
e triste
eles nos veem como pombos:
merecemos ser exterminados
por causa de migalhas

a fumaça feia e suja entorpece
os pensamentos distraídos:
são tempos modernos, egoístas

e tom waits reza a missa num
radinho velho: estão libertos
todos os miseráveis, bêbados
admiráveis errantes vagando
sem rumo ou justiça rija
sem causa ou obediência
sem amigos falsos também

[espia o céu da Lapa depois
de Jello Biafra
e antes de Mano Negra

[encosta o peito no chão
de pedra e namora
a boa morte sem rancor

[a última dança da bailarina
não guarda aplausos
mas uma paixão tesa

tom waits canta
rói a noite e ladra vil
os mendigos são
romance em pó e vento:
onde mora nick cave?

Thursday, December 06, 2018

o ventre da cidade

debaixo das sombras dos gigantes
do concreto corporativo
driblando um sol de rachar 
lá vou eu: sem grandes ambições
e esperanças modestas 
sem pai nem mãe
sem meu irmão 
meu coração despedaçado
procurando esmolas comerciais
e um lugar bem longe 
do sol de rachar
minhas canções desimportantes
ecoam no imaginário
eu não estou procurando um lugar
ao sol de rachar
o que me basta é abraçar
os que me querem bem
os que cumprem pena de miséria
os esculachados
o meu grande coração machucado
caminha anônimo por entre
os soldados da ditadura industrial
com uniformes beges e neutros
ou tailleurs e conjuntinhos manjados
eu sou uma formiguinha
diante dos grandes prédios
com meus chinelos baratos
uma bermuda esgarçada e rota
e cinco mil poemas
eu não sou nada diante do mundo
talvez um número ou um verso
nada diante da grande fome
e da seca que corrói as vísceras
eu sou a herança do nada 
e com meus passos de formiguinha
em chinelos modestos 
atravesso o ventre da cidade
enquanto homens respeitáveis
com ternos bem cortados vêm e vão
com suas malas importadas
cheias de silenciadores
depois de cinco mil passinhos
eu passo por uma livraria e vejo
de maneira inusitada a mim mesmo
numa capa de papel
depois vou para um restaurante barato
conto histórias e traço planos
sem hora de voltar
eu beijo o ventre da cidade
e penso em versos tortuosos
para o futuro que se avizinha
mas não impede as lágrimas
da saudade desfraldada
onde estão meus mortos? 
meus amigos impossíveis?
onde está o que não foi visto
e o que não se viveu direito? 
eu sou uma formiguinha
e com meus pequenos passos
em chinelos de mocidade
vou atrás de mim mesmo

@pauloandel

Sunday, November 25, 2018

domingo velho

Aquele cheiro da memória permanece. É algo difícil de explicar, mas tem a ver com a manhã de domingo em Copacabana, lá pelo alto da rua Siqueira Campos, geralmente ensolarada. Aliás, o domingo todo.

Sentado num sofá vermelho e confortável, lembrança dos tempos que tínhamos algum dinheiro, eu olhava para o rádio Telefunken grandão, com dial esverdeado, onde eu escutava os jogos do Fluminense e dos outros times também - em 1978, com a cara colada à caixa de som, ouvindo baixinho para não atrapalhar minha mãe vendo TV, torci muito pelo Vasco contra o Flamengo, mas aí Rondinelli fez um golaço de cabeça, o mundo explodiu e até hoje eu não sei como aprendi a "secar o rival" (meu pai nunca eu uma palavra neste sentido, só passando a me levar em torcidas como as de Palmeiras e Campo Grande posteriormente).

Ou escutar o programa de Waldir Vieira. Sempre tinha o sorteio de um queijo. 

Esperar meu pai com os trocados para me dar a missão do café: comprar pão, um saco de leite, ovos, presunto, queijo. Depois, na banca de jornal: O Dia, O Globo, Jornal do Brasil, às vezes o Jornal dos Sports ou a Folha. A banca permanece até hoje na saída do Shopping dos Antiquários. Passando por ela e subindo a Siqueira, a Padaria Santa Margarida. 

Aquele cheiro dos produtos do café da manhã permanece intacto. O pão era maravilhoso. 

Esperar ansiosamente pelo jogo do campeonato paulista na Bandeirantes, era o único que passava ao vivo às onze da manhã, ou pela reprise de uma partida do Carioca disputada na véspera. Certa vez passaram uma goleada do Fluminense sobre o America, 6 a 1, fiquei enlouquecido. 

Perto da hora do almoço, se o pai tivesse dinheiro para a gente comprar lasanha pronta na Trattoria Torna, era uma felicidade imensa. Em tempos de fartura, salpicão também. Era delicioso, ficava na Anita Garibaldi. 

Depois da boa comida, tudo era o jogo. A qualquer momento meu pai poderia dizer "Paulo, toma banho pra gente sair". Quem se lembra da série de bonecos dos Thunderbirds? Quando cada um deles pegava seu veículo para uma missão, era daquele jeito que eu me sentia. Se tivesse Maracanã, a gente via o Conversa de Arquibancada e saía - que viagem dos sonhos no 434, cruzando a cidade. Se não tivesse, tudo bem, não era o melhor cenário do mundo mas tinha o Telefunken: mesa redonda, jogo das três horas, repórteres em todos os campos, esperando chegar o jogo das cinco horas, que ia até às sete e depois mais reportagens. 

Ainda consigo lembrar perfeitamente da voz dos saudosos Jorge Curi, Waldyr Amaral, Mário Vianna, Loureiro Neto e João Saldanha, meu herói. Ainda lembro quando eu e meu pai estávamos num grande clássico e, perto do fim da partida, o Maracanã ecoava as vinhetas das rádios Globo, Tupi e Nacional - dezenas de milhares de radinhos de pilha juntos. O Garotinho e o Apolinho ainda estão por aí fortes, o Penido também. Fiquei amigo do Mazella e vi o Rafael Marques começar, isso quando o domingo já era diferente, na garagem da Rex com os campeonatos de botão. 

Dez e trinta e cinco. Acho que me bateu uma tristeza. É que tudo aquilo ficou para trás. Agora às vezes é bom, mesmo com o fim mais perto do que o começo. Foi tudo outro dia e lá se foram quarenta anos. 

Marina está dormindo. Quando acordar, vamos ao rodízio de massas. O Leo e a Letícia não vão com a gente porque estão viajando.

A banca aqui perto quase não tem jornais. Tenho ouvido pouco rádio, preciso melhorar. 

Amanhã começam os trabalhos, tudo muito diferente de quando o grande perigo era tirar uma nota vermelha. 

Podia ter padarias melhores por perto. 

As televisões são cheias de jogos, mas tudo é de outras palavras. 

Se não tem mais pai, mãe, irmão, O Dia, O Globo, Jornal do Brasil, lasanha, salpicão, o Telefunken e o Conversa de Arquibancada por perto, pelo menos sobraram o Fluzão e o meu amor. Logo mais tem drama diante do Inter, estamos aqui para isso. 

De resto, o Brasil era tão diferente e, ao mesmo tempo, igual, igual demais, pelo que de pior cabe. 

@pauloandel

Tuesday, November 06, 2018

visto

o que tenho visto nestas ruas
tem a ver com as sombras
e os indiferentes silêncios

por mais que a paisagem seja
linda
de morrer
e os prédios sejam tão
belos

o que tenho visto é a dor
o vazio a desesperança
corações famintos solitários
em plena multidão

tenho visto mãos de esmola
a caminho da morte
e risos entorpecidos
e felicidades falsas em fotos
tenho visto rancor
a empáfia que apodrece
a alma tonta

as filas do desespero
a injustiça é a grande compaixão
qualquer outro que se foda cru
de quem é a culpa?

o que tenho visto é a miséria
dos capitais vis e covardes
a miséria das famílias destruídas
pela hipocrisia
a miséria dos amantes
desencontrados
por nada

as luzes dos barracos sugerem
um céu estrelado visto
por quem sobrevoa a cidade
decapitada

manchetes sangrentas
e mentiras de primeira página
a serviço dos párias do amor

o que tenho visto de perto
mora em pequenas lágrimas
pelos irmãos distantes
os desaparecidos
os amigos de abraços sinceros
pequenas lágrimas de saudade
e do que nunca mais será
o exercício das pequenas coisas

silêncios indiferentes no elevador
nos olhares faiscantes pelas
conversas eletrônicas:
o admirável mundo frio
os oprimidos por toda parte
à noite as grandes avenidas
pertencem aos mortos vivos
zumbis de calçada desprezados
e quem não tem nada a ver
com isso
sorve o sono dos tranquilos

o que tenho visto é o fim
mais perto do que o começo
sem medo nem otimismo
que os últimos anos sejam
o contrário de tudo que prometem:
não me levem flores
nem escrevam belos poemas
ou cartas de amor -
nem o pior dos homens merece
uma despedida hipócrita

perto da meia noite tenho visto
o dia que nasce sozinho
as promessas não cumpridas
a tristeza das distâncias
infinitas
relembro um poeta triunfal e sua
pergunta:
como matar o tempo?

o que tenho visto são belos prédios
e corações despedaçados
- a natureza humana

@pauloandel

Tuesday, October 30, 2018

poema para john lydon I



(contém citação de "Bichos Escrotos", 1986)

respeitáveis senhoras e senhores/vocês apoiaram um golpe sujo/rasgaram 50 milhões de votos/destruíram dez milhões de famílias/ajudaram a demitir 30 milhões de pessoas/xingaram/berraram/sambaram com suas patéticas camisas da CBF corrupta/e tão fascista quanto vocês/fingiram que o mineirinho não fez nada/e comemoraram a prisão do pernambucano como se fosse um gol/como se fosse um gozo/cagaram e andaram para o mundo/seguiram firmes no ódio aterrorizante/até elegerem alguém com a cara de vocês/a cara cínica e escrota de vocês/enquanto pobres e gays e crianças foram mortos/para celebrar o mito da podridão com rajadas para o alto/e agora virem com essa conversa fiada/de estarmos no mesmo avião/de estarmos no mesmo barco?/ não não não/ sejam oncinha pintada/zebrinha listada/coelhinho peludo/vão se fuder!/aqui só tem bicho escroto/cuspindo o barco e o avião em cima de vocês/cada caceta uma sentença/o diabo mora em cada um/um dia a conta chega e vamos cobrar de todos vocês/façam do mito um supositório/e usem ao bel prazer/vão se fuder!/junto com suas grandes corporações/e canais de TV/deixa arder que vai ter guerra para todos/não é só pobre que vai morrer/o fascismo late pelos cantos procurando comunismo/não empurrem essa conta para os outros/o garçom atendeu ao pedido de vocês

Saturday, October 20, 2018

amori I

decerto já não me chama
porque há outra estação
mas talvez ainda sonhe
com versos que
posso dizer
e me deseje com ardor
e fé
- favos de lascívia e delicadeza
- belezas da vanguarda e do sexo
nós, tão solitários
dentro de nós
procuramos a imensidão
do amor:
ele está nos sorrisos e lágrimas
nas mãos estendidas
e conversas prazerosas
- os amigos que cativamos
e esperamos o amor por
todas as partes
varrendo desesperanças
e opressões
o amor nas asas dos pequenos
pássaros na praça
e nos brinquedos coloridos
no camelô
o amor num lanche modesto
numa lanchonete modesta
no coração da cidade lunar
as paixões que se namoram
e também se desencontram
- e velórios em dias de puro sol!
precisamos de mais abraços
e saber que o outro sempre sofre
nossa humanidade em risco
no quarto ela pensa
no que eu disse e escrevi
e forja seu grande romance
ah, amor que acorda e cochila
espia a vida na gare
ou numa calçada infiel
os corações são outros
e precisam de cor e afago
não podemos ser
indiferentes
- mãe e filhinho de mãos dadas
- o sol que celebra e mói
- a brincadeira
até que a pátria seja bondade
com suas armas incineradas
a mão do homem não é tristeza
mas saudação e amizade
o amor até que todos os meninos
tenham escolas e calçados
e brinquedos
os trabalhadores com bons dentes
e casas honestas
e comida
os doentes bem tratados
nos hospitais
há amor em todos os actos
precisamos de mais abraços
e camaradagem
e beijos que foram apenas sonho
até aqui
o amor é uma cidade
precisamos de ventres livres
e dignidade
o amor há de nos redimir
nas paixões desveladas
no abraço dos irmãos distantes
pelos pequenos encantos
quando todos forem dignos
absolutamente dignos
sem depender de classes
ou roupas ou carros
- celebremos nossos abraços
enquanto há tempo e os irmãos
estão longe das masmorras
precisamos enxergar o amor:
pátria, novas famílias
e uma velha liberdade que
tanto temos procurado
um dia, ela vai entender
que tudo era amor
e então a pátria será povo
o pobre será beleza
o abraço, a maior de todas
as nossas riquezas
e o outro não será apenas outro
mas nosso amigo, um grande
irmão - meu, teu irmão
nós seremos um abraço
e então a pátria será
verdadeiramente
livre

@pauloandel

poema braziu-ziu-ziu

pátria amada 
gayzista comunista 
neoliberal 
onde negros, homossexuais 
nordestinos e pobres 
vibram e votam em 
quem tem ódio 
de negros
homossexuais
nordestinos e pobres
onde pobres 
e assalariados
acham que são ricos porque 
têm carro e celular 
e por isso apoiam 
quem tem ódio de pobres 
e assalariados 
onde maconheiros votam
em quem quer matar 
maconheiros
onde trabalhador tem
ódio de trabalhador
o paraíso da síndrome
de Estocolmo
o berço esplêndido
dos otários
shangri-la da escrotidão
onde furar fila é maneiro
embolsar troco indevido
é maneiro
e dizer que a novinha
já aguenta é maneiro
paraíso dos filasdasputas
onde a nobre Universidade 
Federal do WhatsApp tem 
mais prestígio do que 
qualquer 
outra instituição de
ensino superior
onde post é mais do que livro 
onde ladrão vira bispo 
onde a TV é maior do que a 
verdade 
onde latinos terceiro mundo
se consideram arianos 
e nem pensam que os arianos
querem lhes fuder de verde
e amarelo, azul e branco:
aplaudem hitler terceiro mundo
onde querer mudança é 
se prestar a servir 
de esparro do fascismo 
a capital da insanidade
onde quem nunca soube 
fritar um ovo ou lavar uma roupa 
acha que pode resolver 
tudo na sociedade 
com uma arma na mão
oh, pátria amada gayzista 
comunista retrô neoliberal 
que repousa nas cabeças vazias
pátria do caralho
com a maior quantidade 
de gente 100% ignorante 
e fã de terra plana
é verdade este bilete rais:
gooooooooooolllllllllllllllll!

@pauloandel

Friday, October 12, 2018

debaixo da cauda urbana I

debaixo da cauda urbana
há o caos: ratos de esgoto
em cadeiras corporativas
sonhando com senzalas
chicotadas e pau de arara
enquanto pobres diabos
esbofeteados pela vida 
trocam seus dias pela fé
no papo torto charlatão
que lhes faz entorpecidos
por procurações de Deus
que nunca existiram aqui. 
debaixo da cauda urbana
há dor, violência e morte
indiferença e estupidez
insensatez tão desumana
há hitler terceiro mundo
e nazistas caboclinhos
- querem ser arianos vis 
mas são apenas latinos.
debaixo da cauda urbana
há mil mãos estendidas
e dois mil rostos virados
torcedores do mercado
e teorias insustentáveis
mas não há só nazistas
também a brava gente 
que não aceita escravidão
nem opressão e rancor
a gente que vai às ruas
sem ódio ou má índole
apenas boa esperança
que passa nas portarias
dos grandes edifícios
no coração das cidades
atrás do espírito da paz. 

@pauloandel

Saturday, September 15, 2018

love sex saturday's feeling

O que você quer de mim? What do you want from me? Já parou pra pensar o que eu quero? Eu parei e pensei há muito tempo. Eu quero te comer, te lamber, te fuder muito até você não aguentar mais e desmaiar de tanto tesão. Até você não aguentar mais e deixar vazar todas as secreções do prazer, nós dois molhados um no outro. Eu pensei que o nosso tesão fosse taquicardia um no outro, o peito batendo forte, os mamilos endurecidos, as carnes roçando uma na outra até fazer fechar os olhos e viajar por mil sensações. What do you want from me? Yo te quiero desnuda, dá me tu amor, teu sexo em rosa flor de botões delicados e tão saborosos. Ah, deixa eu navegar na tua pele como se fosse a descoberta do continente desconhecido, como se fosse a primeira primeira vez, e te beijar e namorar e te derramar meu líquido consciente. Eu quero te fuder muito. Eu te quero de amante. Super outro lua cheia sedenta. Eu quero te beijar até você quase se mijar de tanta vontade de sexo. Meu poema, meu verso torto, meu senhor e puta no down by law numa quitinete de Copacabana ou no motel da Cruz Vermelha ou numa casa emprestada em algum lugar da cidade. Eu quero te venerar. Eu quero te chupar sem fim. O que você quer de mim? Saber exatamente o que você está pensando. Sentindo. Gemendo. Gozando. Gozando. Gozando. Eu quero te ver quicando em cima de mim. Eu quero te penetrar até você gritar. Eu quero ser tua perfeita companhia. Eu quero te melar muito, te deixar no suor mais quente. O que você quer de mim? Por que você não diz o que quer de mim? Vamos ser dois animais a serviço do prazer cumprido do outro - e mais nada. 
@pauloandel 

Friday, August 17, 2018

cão

Eu sou o cão de olhar perdido em noite fria debaixo de uma marquise da Cruz Vermelha, enquanto meu dono desmaia de sofrimento, cansaço e indiferença. Não consigo latir nem brincar, apenas olhar para o nada que chamam de horizonte, enquanto também sou desprezado pelos transeuntes, que me consideram o símbolo de uma derrota. Eu olho para o nada e vejo outros cães noutras calçadas, muitos feito eu e outros tão bem tratados que sequer usam coleira. Eu sou um cão da noite triste e ninguém passa a mão na minha cabeça ou me oferece um nugget. Estou aos pés do sofrimento do meu dono e do meu mesmo, sem latir e pensar, irracional que posso ser. Metros acima, as luzes indicam que as pessoas estão comemorando gols, xingando políticos e rolando em berço esplêndido de cólera. Eu sou um cão sem dono, sem latido, sem futuro e fico tranquilamente apreciando todas as horas do fim, como se coubesse num poema de Torquato Neto. Cão, cachorro, bicho de estimação sem estima, o que me resta é a solidariedade do meu dono desmaiado em cima das frias e cortantes pedras portuguesas. Eu só queria um bife, uma coberta, um dia de vida em busca deste sentimento tão nobre - e vedado aos caninos - chamado de paz. Eu, tão cão da noite e do desalento, posso ser mais humano do que os humanos que me veem com nojo. Eu, cão triste, amigo sincero do homem que passa apressado para fugir da minha miséria. Ele, tão ser gregário, tão hipócrita e eu, contando mais um dia de vida ou de pena cumprida, ou ainda do caminho inevitável para a morte, outro verso de Gil.

@pauloandel

Thursday, August 16, 2018

Por que voto em Elika Takimoto



Por absoluta sorte, tenho acompanhado a trajetória de Elika Takimoto bem de perto desde fins do século XX. Perto daquele tempo e pouco depois, ela se esfalfava para cuidar de duas crianças, seus filhos Hideo e Nara (Yuki, o terceiro, só viria mais tarde), da casa, do marido, dos estudos, do trabalho como professora e mantinha sob absoluto sigilo um talento que o tempo tratou de desvelar para o Brasil: o de uma escritora de mão cheia, uma memorialista de marca maior, digna de Zélia Gattai (com quem manteve contato, aliás).
         
De lá para cá, o que já era ótimo só melhorou: não bastasse se tornar uma autora reconhecida e premiada, Elika avançou em todos os sentidos. Quando o assunto é formação acadêmica, chegou ao doutorado em Filosofia. Como professora de física e coordenadora do Cefet-RJ, percorreu o país como palestrante aclamada e só falta dar autógrafos aos alunos, de tão querida que é. Conhece tudo sobre escola e universidade, seus aquários natais e de ofício. Seu livro “Isaac no mundo das partículas”, sucesso de vendas, baseou uma peça de teatro infantil aclamada por crítica e público.
        
Mãe, mulher, moradora de Madureira na divisa com Cascadura (mais Rio de Janeiro raiz, impossível), fiel escudeira da Educação, filha de japonês, dona de uma risada inconfundível, trabalhadora, nos últimos anos Elika arrebatou uma legião de fãs nas redes sociais por muitos motivos, sendo o principal deles a luta pela democracia que existiu um dia no Brasil, além da sua visão em 360 graus a respeito das mazelas que têm vitimado o povo brasileiro e, em especial, o do Rio de Janeiro: genocídio, violência ostensiva, desemprego a granel, demolição econômica, degradação política, saúde na sarjeta, educação à míngua, desesperança.
         
E tudo isso com uma coragem que se espera dos protagonistas da história: justamente em meio ao caos, no mar de ódio que o golpe de 2016 espalhou pelo Brasil, ela navegou contra o linchamento midiático que foi meticulosamente instaurado contra o Partido dos Trabalhadores e, em especial, a figura de Lula – qualquer pessoa minimamente informada percebe os movimentos das grandes corporações de comunicação quando o assunto é oprimir e alienar o povo brasileiro, sendo que o Rio de Janeiro sentiu o baque da implosão a olhos nus da Petrobras como nenhuma outra unidade da federação. Daí sua indignação contra o golpe, contra o cárcere privado de Lula, contra o sequestro da democracia brasileira, contra a implosão do Rio, contra a destruição das políticas de inclusão social que salvaram a vida de milhões de pessoas desde 2002, contra o entreguismo feroz que só atende aos anseios do capital rentista e mais nada, enquanto os integrantes de três famílias controladoras da holding Itaú-Unibanco receberam 9 bilhões de reais em cinco anos a título de dividendos, sendo três bilhões somente em 2017 com zero imposto de renda. Tudo em meio a uma crise que, organizada pela vilania, fez com que no mesmo período fosse dobrado o número de desempregados no país, sem contar os desalentados (aqueles que desistiram de procurar por uma vaga).

Apesar de seu extremo bom humor, Elika é naturalmente uma cidadã indignada. Ela sabe que o Rio e o Brasil podem ser diferentes do que esse arremedo golpista de agora – e diferentes para muito melhor. É disso que nasce a sua candidatura. E justamente por ela ter vindo “de fora” do ambiente político convencional, tem gás de sobra contra os velhos fisiologismos dos quais estamos todos bastante cansados. Trata-se de uma acadêmica de sucesso, uma intelectual bem-preparada que vai muito além das salas de pesquisa: por sua formação e vivência, ela sabe do riscado quando se fala de trem, de subúrbio alijado de política cultural, da saúde ausente, da segurança esquálida, de colégio abandonado, da cidade tão partida e injusta que é dividida pelo muro invisível (mas presente) entre o balneário e os bairros-alojamentos. Além do mais, quem define sobre quem vem “de dentro” ou “de fora” da política partidária, ou quem “pode” vir ou não? Ela, a política, é para todos!
         
Para finalizar, meu voto não é somente em uma mulher com enorme estofo intelectual, acadêmico, familiar, social e moral, com fartas realizações em sua vida pessoal. Aqui peço licença para falar de ética, de apreço, de honestidade, de sinceridade, de decência. Elika é uma das pessoas em quem mais confio nesta Terra. Eu a vi crescer e se agigantar sem dar um único passo se esquecendo de sua trajetória e de quem a cerca. Posso falar disso de cadeira: generosamente, ela é a prefaciadora dos meus dois livros “Cenas do Centro do Rio”, minha primeira incentivadora literária, minha querida companheira de mesas e lançamentos – e, para qualquer escritor que se preze, o que modestamente é meu caso, prefácio é coisa que só se oferece a quem se confia e se admira muito. Falando em literatura, Elika é novamente um desafio: cansada de ler as negativas mais estapafúrdias das editoras para a publicação de suas obras (ah, editoras, que pisam em seus autores sem dó...), ela pôs a mão na massa e lançou seus títulos de maneira independente, já tendo sido lida por milhares e milhares de pessoas. Convém não dizer a ela que algo de bom não pode ser feito sem um motivo muito justo e comprovado, senão...
         
Elika pensa no próximo e sofre com a dor do outro. E pensa num mundo mais justo, mais humano, um mundo de inclusão e participação, de justiça, de democracia. Embora seja jovem e com o mundo pela frente, ela é uma veterana do ensino e, por isso mesmo, tem a capacidade de dar a aula magna que o Rio de Janeiro anda precisando tanto: a da política participativa, plural e democrática, a da política popular. Eu confio e vou com ela onde estiver. Precisamos de gente com atitude para mudar o mundo, e isso começa pela nossa cidade, pelo nosso estado, pelo nosso país, e essa atitude tem que ser exercida no voto, com realizações em prol da população. Que minha amiga tenha toda a sorte do mundo nesta jornada – e creio plenamente que terá -, porque nela eu tenho a esperança de ver a política do Rio de Janeiro em seu devido lugar: nas manchetes de grandes realizações populares - e não nas de tragédias policiais, como tem sido ultimamente.



#EuVotoElika
#13021
#RioDeJaneiro


Tuesday, August 14, 2018

Retratos de agosto

(ou os corações solitários no ponto de ônibus
em frente ao prédio com pilotis)


a miséria é
livre é
grátis é
democrática:
todos estamos fudidos

mas há quem aplauda
o que está acontecendo
como se estivesse na fila
dos banheiros em auschwitz

e dissesse: há de ser
uma ducha boa!
todos estamos desempregados
humilhados, escorraçados
enquanto as manchetes da tevê
saúdam o lucro dos bancos
os condomínios de gran luxo
e a balança comercial

a miséria está em todas as calçadas
e marquises
nas praças abandonadas
no vinco dos rostos sofridos
que dormem ao relento gelado
ela, miséria, generosa que é, se espalha
e abraça cada vez mais gente
todos somos mendigos:
se não for das ruas, que seja das almas
do nosso vazio indiferente
do nosso foda-se o outro
existe no ar o misterioso sono da eternidade
quee flutua nos corpos
recolhidos na uerj e nos trilhos
do metrô
e nos restos mortais no iml
somos estúpidos demais
demais!