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Saturday, November 22, 2014

nevermind

de volta ao nunca mais
nunca mais
viva o futuro que não tem
o que eu queria
viva este grande dia da liberdade!
feliz com as minhas inutilidades
os inúteis sonhos infantis
e o que importa na imperfeição?
existe a vida, grande vida
esta que jamais compreendemos
procurando em vão por justiça
alimentando desesperanças
e perdendo tempo em buscar sentido
nas coisas dos homens:
podíamos estar na sala de jantar
deitados em silêncio pleno
mas preferimos o desafio:
amor, tesão, companhia, colo
silêncios da madrugada
e o réquiem para a felicidade -
as vitrines estão cheias de olhares
enquanto arrotamos futuro:
o escuro do quarto é uma lâmina
para não dizer adaga ou lágrima
viva o grande dia da liberdade!

@pauloandel

Wednesday, November 19, 2014

Tuesday, November 11, 2014

quando for futuro

haverá um dia em que os gestos
falarão mais alto do que nossas palavras
a ponto de vencerem a hipocrisia
não se aceitará mais o descaso
o desrespeito será decadente
e se entenderá que só é possível
valorizar a si mesmo
quando se reconhece o valor do outro
então seremos
os superoutros da canção
agora num outro mundo, novo mundo
longe deste que entendemos ser
a catedral do egoísmo e da indiferença
nunca mais será normal
vermos os outros feito mortos vivos

@pauloandel

Friday, November 07, 2014

duzentos metros

Depois de horas numa confortável sala branca quase fechada, refrigerada ao extremo e sem luz natural, então vejo que chegou a hora do almoço.

À RUA, um calor enorme neste verão enrustido de novembro e uma sensação de liberdade: uma hora para fazer o que se quiser, embora nem haja grande variedade de opções assim; caminhar, almoçar e voltar para a sala.

Na esquina da rua do Senado com a Vinte de Abril, um jovem morador de rua em frente à lanchonete coreana, carregando uma bola que deve resumir seus pertences, uma muleta, um pé calçado com bota humilde e o outro, com um chinelo.

O grande muro vermelho do Quartel Central do Corpo de Bombeiros faz pequena sombra. As pessoas caminham pela rua interditada. Poucas.

Dois garotos pequenos, pretinhos, apertam-se no estreito corredor para pedestres em frente à Igreja de Santo Antônio: uma obra nova de tubulação, feita para reparar um problema de meio século, estourou; interditaram a rua e não há indícios de que a recuperação será fácil. Eis o motivo da interdição.

Uma garota bonita com seu crachá da Petrobras passa com quase sorriso no canto da boca, talvez desejando ser desejada, talvez querendo afirmar a obviedade de sua beleza e tudo tem pouco sentido, uma vez que estamos na cidade com as garotas mais bonitas do mundo, também desimportante se isso é apenas um ufanismo carioca.

Cem metros.

O restaurante chinês quase vazio, algumas pessoas fazendo seus pratos na fila, fico agradecido por ter mais um dia de comida, mas, ao mesmo tempo, observo atentamente todas as coisas gostosas que não posso comer porque não tenho mais a saúde de um dia distante. Pego o que dá.

Duas mulheres na faixa de seus quarenta anos, riem, cochicham e especulam um programa noturno com amigos, uma com possível aliança de casamento e a outra não.

A garçonete do restaurante, cujas amigas chamam de “girafa”, geralmente demorada para atender, finalmente escuta minhas preces e peço um Guaravita. Estou sentado sozinho, como quase sempre faço, com enorme velocidade para comer e sei que isso é péssimo, apenas não consigo mudar. Crachás por todos os lados. A televisão dando notícias de futebol, melhores para alguns e reduzidas para outros.

Cumprimento educadamente as moças da caixa, nem tão simpáticas, pago, recebo meu troco, o canhoto deve ser entregue à moça simpática que fica na porta. Ela agradece e me deseja bom final de semana.

O corredor na verdade é um curralzinho que faz vaivém na rua dos Inválidos, volta na Igreja de Santo Antônio – agora cheia por causa de uma missa – e retorna à rua do Senado, onde carros e motos fazem a festa do estacionamento.

Um trabalhador do povo, carregando duas caixas de refrigerante nos ombros, saúda e graceja a passagem de uma mulher pelo caminho, mais por conta de seu short do que pelas formas delicadas. Isso também pouco importa; na verdade, democratiza a cantada e não a torna objeto apenas das ditas mais belas – e o que importa se é beleza o que sentimos com os olhos, às vezes sem a visão, sempre sujeita a modificações com o passar do tempo?

Uma menininha passa com sua mãe a caminho da escola. Logo depois, um menininho é puxado pela mão: sua mãe também o conduz. Por um instante, tenho uma saudade infinita da minha mãe e de quando eu era um garoto em Copacabana caminhando com um biscoito de polvilho na mão, agora, entristecido demais porque tudo isso não vai mais voltar, o futuro inevitável (que espero distante) é a morte, nunca mais minha mãe me abraçará, não terei como satisfação fundamental da vida ver um desenho animado ou ganhar um pequeno carrinho. A isso tudo chamam evolução, crescimento, envelhecimento e o sentido da vida parece algo incompreensível.

Na esquina com a Vinte de Abril, a porta do velho puteiro está lacrada. Um casal homoafetivo apressadamente se direciona para a porta do motel. O restaurante falido agora tem uma placa de “Aluga-se”. O calor continua intenso e há um certo clima de feriado que, todos sabemos, não existe.

Duzentos metros.

Entro na empresa, um ar gelado fulminante no rosto, recomeça um expediente de mais quatro horas numa bela e confortável sala branca, sem luz natural, sem conversas, sem contraditório, números a tratar, contas a pagar.

Logo mais, tenho a missa de sétimo dia da Dona Christina, um personagem fundamental da minha vida. Em sua casa, ao lado de seu filho, meu amigo Luizinho, vivi boa parte da minha vida entre jogos de botão, pizzas, piadas e um sentimento de que a vida seria infinita, talvez a melhor das ilusões.  

Eu e o velho amigo conversaremos à noite, riremos, falaremos de nossas dores e frustrações, tentaremos procurar mais uma vez o que perdemos diariamente em algum momento - ou vários - ou todos.

O sentido da vida.

O sentido.


@pauloandel

Monday, November 03, 2014

a capital dorme

na primeira noite depois do dia dos mortos a capital dorme. as luzes piscam nos morros e parecem estrelas cadentes para abonados usuários de avião, prestes a aterrissar no aeroporto à beira d'água. debaixo de marquises caras, transeuntes sem rumo dormem. usam drogas mortais. fazem sexo. sofrem. e dormem. na avenida litorânea as lindas putas buscam o dinheiro do aluguel - elas ainda não dormem. num leito de morte do hospital público central, o paciente terminal dorme, ao contrário do berçário onde minúsculos bebês choram e nem imaginam a rudeza do caminho que virá. a capital já não tem o asfalto entupido por pneus e ruidosos automóveis. o metrô nem parece uma caixa de carne humana moída, amassada no ir e vir do fim do expediente. na praça sete, o mendigo dorme. no estácio de sá, os meninos malandros magrinhos espiam as jovens de seios fartos, bumbuns e coxas carnavalescas: ninguém dorme. na prado júnior, o caminhante é impisa, o lobo que nunca dorme. nas gares, nos terminais, na central do brasil os trens preparam-se para breve sonho. o vizinho pensa na jovem vizinha nua, ou na mulher eternamente distante. crianças adormecem pensando na manhã de escola. nem é meia noite e a capital, acolhedora e hostil, dá indícios de sono. o amor também adormece. resta a crueza chamada solidão, livre.

@pauloandel