Translate

Tuesday, September 30, 2014

corporativo s.a.

em qualquer horário de almoço num restaurante perto de uma grande corporação econômica, numa grande cidade, uma metrópole, você pode enxergar o mesmo do mesmo. as pessoas com trajes sempre parecidos, falando dos mesmos assuntos, os pratos cuidadosos para não se engordar ou desenvolver câncer ou alguma doença letal. todos com os olhos cravados diante das telas, seja a da televisão com os gols e façanha do maior time da ficção esportiva, sejam as dos smartphones cheios de ois, olás, teadoros e táfazendoquês. os crachás são todos iguais. olhares tensos, de cobiça, desejos. ou conversas masculinas ansiosas pela próxima micareta, pequenas orgias que serão grandes troféus dos campeonatos de nada. uma jovem loura, bonita e delicada destoa de quase tudo, exceto o maldito crachá que não dá carta de alforria. eu, estrangeiro de mim mesmo, olho tudo em volta, sinto-me perdido demais nessa cidade linda e neurótica. alguém deveria ter me mandando uma linda mensagem eletrônica mas prefiro não olhar à mesa porque gostaria de ler outras coisas, ter outras palavras, viver outros pequenos momentos interessantes. o prato chega ao fim. a fila é cheia de pessoas parecidas pelas roupas, tons, perfis. eu queria falar de criatividade, mas tudo é uma inutilidade que beira o enorme. a moça da caixa agradece a preferência. lentamente, os adultos contemporâneos iniciam o caminho que os levará às baias, ao networking e o admirável mundo eletrônico - frio e rude, demais. 

@pauloandel

Friday, September 26, 2014

cruz vermelha

desconcertante o silêncio da fila de mendigos
pontualmente formada
à espera da comida em caixas de leite
ao fim da tarde
enquanto jovens bem empregados, bem criados em famílias de sucesso
sugerem indiferença sem sinceridade:
percebem o que acontece, há os que se comovem mas é melhor
fingir não ver
também desconcertante é ver os três negrinhos descalços expulsos da porta traseira do ônibus
pelo motorista nervoso
na outra esquina transeuntes comem churrasquinhos
cantam sambas, espiam mulheres bonitas
e a sexta feira nasce em forma de alívio
num apartamento humilde e bagunçado, um obscuro poeta redige versos de amor que não serão publicados
e observa tudo da janela de sua sala
ainda que ela esteja fechada:
é preciso ver com alma!

@pauloandel

Thursday, September 25, 2014

américa 1

não quero ser o primeiro lugar em nada - abomino as medalhas e cartilhas de honra ao mérito
não me interessam o salário mais alto
o topo do mundo
o topo do poder
status, fama, relevância
o meu apogeu está descrito nas mais profundas desimportâncias
quero ser noves fora, nada
nenhum troco a mais
nem de longe um contracheque robusto
a minha vida está em pequenas praças e conversas mendigas de amor
fúteis jogos de futebol
e a poesia paupérrima
a vida em discos de música, livros humildes, letras faiscantes
e sentimentos de sexo solene
vistos a olhos claros:
salve oxumaré nagô, todos os tambores e caixas de folia, atabaques, flautas doces
os cânticos ateus
a nova bossa nova e a velha política velha, os bons e maus com dinheiros e miséria
as mulatas alucinantes do samba
a linda bailarina branquinha
meus boêmios de bar, onde morrem?
quero ser paz na cidade - estou condenado a um fracasso retumbante
e isso nem de longe quer deixar
de ser felicidade
eu não quero nenhum primeiro lugar
que não seja o do amor em mim
mesmo

@pauloandel

Friday, September 12, 2014

Thursday, September 11, 2014

ácida lua

eu e meu pequeno mundo
debaixo dos meus chinelões
carregando um corpo cansado
e suas dores, tristezas, uma fé
as procissões
são o longe, o perdido
meu pecado: um beijo de amor
debaixo da ácida lua cheia, livre
eu penso no que perdi
e o que não se materializará
- o trabalho seja nosso ópio
- o calor seja firme esperança
eu e meu pequeno mundo
canções de amor em vão
poemas fracassados e incompreendidos
enquanto a noite crua mora
longe do sol:
amanhã será primavera!

@pauloandel

Tuesday, September 09, 2014

Friday, September 05, 2014

Thursday, September 04, 2014

os dorsos

todos os corações do mundo
e nenhum me atiça
feito o teu

os sonhos, gostos
os dorsos nus
as peles à prova
nada é tão convidativo
como o teu eu

a noite longa e fria
com seus pecados inomináveis
a vida em ritos, práticas
e o pouco do mundo é meu desejo:
ser tão seu, seu
mil vezes meu sabor no teu seu
tão seu

@pauloandel

doçura sexo



1

o beijo de fazer
crescer
                            suar
intumescer
o beijo
                                   de despertar
e provocar
beijo de chupar
                                    enternecer
o beijo
é a recíproca do desejo
onde
o desejo
                        está

2

ACORDOU assustado às três da manhã, num misto de delícia e decepção. O coração disparatado e o pau duro. Sonhara com a mulher que sempre havia desejado, mas jamais possuíra em nada. Ali, no inexplicável e sedutor mundo dos sonhos, tinha mergulhado na ilusão de que fizera o merecido sexo ansiado com sua promessa erótica. Nos segundos seguintes do despertar súbito, olhava para as formas e objetos no escuro do quarto, a luz da televisão, o silêncio de rejeição e ainda via num cadafalso da memória entorpecida pelo cansaço aquela bela mulher em cenas de tesão e foda – e a fudia, fudia, mas em segundos o êxtase virou a má realidade. Era só uma excitação, um sonho, uma vontade. A bela mulher que lhe atiça os instintos mais profundos não estava a seu lado, nem abaixo, nem de quatro ou relaxada depois de uma chupada profunda. Eram só a coberta esverdeada, o lençol laranja novo e aquilo que não se explica, nem precisa ser exercício de beleza ou perfeição: tesão. Ainda bêbado de sono, foi ao banheiro, viu-se no espelho, lamentou a solidão, pensou na desejada e, sem mais delongas, começou a se masturbar; pensou em seus seios pequenos de bicos saltados, seu corpo delicado, morder a nuca, beijar por dentro da calcinha. Não que fosse novidade, pelo contrário: já o fizera centenas de vezes sempre buscando o mesmo alvo. No entanto, diante da madrugada, constituiu-se numa brincadeira diferente – no prazer solitário, viu-se apaixonado por uma personagem que insiste em não se realizar. De toda forma, gozou como sempre e ainda espera. São outros os amores, são outras as fodas, o verdadeiro amor irrompe à madrugada.

3

duas cabeças deitadas perto lado a lado
e os pensamentos que decolam em ventos de sudoeste
                        você do lado de alguém que não é teu alguém
                                                           você do lado de alguém que quer alguém
duas cabeças coladas no escuro do cinema
             alguém pensa no beijo longe de outro alguém
o outro gosto, o outro pêlo, a outra carne
duas cabeças de pensamentos que voam rasantes
nunca foram tão pecadoras
quem puder, as perdoe: densas, sedentas, despudoradas}
elas só pedem breves instantes de felicidade profana

4

queria ser tua
mas não tive o dom da coragem
ainda penso
                        não sei se quero
embora devesse te experimentar
ser tua, tua, completamente tua
até que inundes meu ventre à custa de beijos
                                                 e dedos e passes
penso em ser tua
quando sou solitária e o melhor de ti se faria
dentro de mim
                      queria teus defeitos, tua velhice
mas não sei se posso enfrentar
o mundo que me condena – aqui
apenas me entorpeço de penetra
                                                        penetra
                                                                         penetra
@pauloandel


Tuesday, September 02, 2014

Copacabana 1986 - The darkest side of the moon










O voto de Jorge Furtado

Cineasta explica os motivos que o fizeram apoiar a reeleição de Dilma Rousseff

Se alguém me dissesse, em 2004 – quando o primeiro governo Lula sofria a oposição feroz de toda a mídia brasileira e tinha pouco ou nada para mostrar de resultados – que em dez anos o segundo turno da eleição presidencial seria disputado entre duas ex-ministras do governo Lula, uma pelo Partido dos Trabalhadores e uma pelo Partido Socialista Brasileiro, eu diria ao meu suposto interlocutor que a sua fé na democracia era um comovente delírio. A provável ausência, pela primeira vez no segundo turno das eleições presidenciais, de candidatos da direita autêntica, do PSDB, do DEM e do PTB, é mais uma boa notícia que a democracia nos traz. Imagina-se que, vença quem vença, muitos dos derrotados voltarão correndo para os braços confortáveis do novo governo, esta é a má notícia.

Tenho familiares e bons amigos que vão votar na Marina e também no Aécio. Eu vou votar na Dilma. Acho que foi o Todorov quem disse (mais ou menos assim) que a democracia nos reúne para que a gente resolva qual é a melhor maneira de nos separar. Não sou nem nunca fui filiado a qualquer partido, já votei em vários, tenho amigos em alguns. Neste que é o maior período democrático da nossa história (25 anos, sete eleições consecutivas), o Brasil não parou de melhorar e não há nada que indique que vá parar de melhorar agora.

Votei no Lula, desde sempre até ajudar a elegê-lo em 2002, com o palpite de que um governo popular, o primeiro em 502 anos, talvez pudesse enfrentar com mais vigor o grande problema brasileiro: a desigualdade social. Achei que, talvez, substituindo a ideia de que o bolo deve primeiro crescer para depois ser divido pela ideia de incentivar o crescimento do país com melhor distribuição de farinha, ovos, manteiga, fogões, casas com luz elétrica, empregos e vagas nas escolas e nas universidades, finalmente poderíamos começar a nos livrar da nossa cruel e petrificada divisão entre a casa grande e a senzala. Meu palpite estava certo. A desigualdade brasileira continua grande e cruel mas está, finalmente, diminuindo.

Voto, ainda, primeiro contra a desigualdade social, ainda o maior problema do país, um dos mais injustos do planeta, em poucos lugares há uma diferença tão grande entre pobres e ricos. A elite brasileira (sim, ela existe, esta aí), fundada e perpetuada no escravismo, luta para manter seus privilégios a qualquer custo. Eles são donos dos bancos, das grandes construtoras, fábricas e empresas, das tevês, rádios, jornais e portais da internet e defendem ferozmente sua agradável posição. A única maneira de enfrentar seu enorme poder é no voto.

Voto contra o poder crescente do capital sobre as políticas públicas. Quem vive de rendas pensa sempre mais no centro da meta da inflação e menos nos níveis de emprego, mais na taxa dos juros e menos no poder aquisitivo dos salários. O poder do capital especulativo, rentista, é gigante, mora na casa dos bilhões de dólares. Voto contra, muito contra, a autonomia do Banco Central, que tira do governante, eleito pelo nosso voto, o poder de guiar o desenvolvimento segundo critérios sociais, protegendo o país do ataque de especuladores e garantindo renda e empregos, e entrega este poder ao tal mercado, hereditário e eleito por si mesmo, sempre predador e zeloso em garantir a sua parte antes de lamentar os danos sociais causados por seus lucros. (Ver Espanha, Grécia, EUA, Finlândia, etc.)

Voto contra submeter os critérios de uso dos nossos recursos naturais não renováveis, como o petróleo, ao interesse de grandes empresas estrangeiras. O petróleo brasileiro e seu destino é o grande assunto não mencionado nas campanhas eleitorais. Os ataques contra a Petrobras, que acontecem invariavelmente às vésperas de cada eleição, atendem interesses das grandes empresas petroleiras, especialmente as americanas, que querem a volta do velho e bom sistema de concessões na exploração dos campos de petróleo, sistema que, na opinião delas, deveria ser extensivo às reservas do pré-sal. Aqui o interesse chega na casa do trilhão. Garantir que o uso da riqueza proveniente da exploração de nossos recursos não-renováveis tenha critérios sociais, definidos por governantes eleitos, me parece uma ideia excelente da qual o país não deveria abrir mão.

Voto contra o poder crescente das religiões sobre a vida civil. Respeito inteiramente a fé e a religião de cada um, gosto de muitos aspectos de várias religiões, sei do importante trabalho social de várias igrejas, mas não aceito o uso de argumentos ou critérios religiosos na administração pública. Mesmo para os que professam alguma fé religiosa a divisão entre os poderes da terra e do céu deveria ser clara. Diz a Bíblia, em Eclesiástico, XV, 14: “Deus criou o homem e o entregou ao poder de sua própria decisão”. (Esta é a versão grega, a versão latina fala em “de sua própria inclinação” ou “ao seu próprio juízo”.) Erasmo faz uma boa síntese desta ideia: “Deus criou o livre-arbítrio”. Ele, se nos criou a sua imagem e semelhança e criou também as árvores, haveria de imaginar que, criadores como ele, criaríamos o serrote, e com ele cadeiras, mesas e casas, e ainda, Deus queira!, a ciência que nos permita usar com sabedoria os recursos naturais e viver bem, com saúde. O poder crescente das igrejas, com suas tevês e bancadas no congresso, deve ser contido por um estado laico.

Voto contra o preconceito contra os homossexuais. O estado não tem nada a ver com o desejo dos indivíduos. Ninguém (seriamente) está falando que o sacramento religioso do casamento, em qualquer igreja, deva ser definido por políticas públicas, mas os direitos e deveres sociais devem ser iguais para todos, ponto. Os preconceituosos e mistificadores, que vendem a cura gay ou bradam sua lucrativa intolerância contra os homossexuais, devem ser combatidos sem vacilação ou mensagens dúbias.

Voto contra a criminalização do aborto. A hipocrisia brasileira concede às filhas da elite o direito ao aborto assistido por bons médicos, em boas condições de higiene, e deixa para as filhas dos pobres os métodos cruéis e o risco de vida, milhares de meninas pobres morrem de abortos clandestinos todos os anos. A mulher deve ter direito ao seu corpo, independente de vontades do estado ou de dogmas religiosos.

Voto contra o obscurantismo que impede avanços científicos. Há quem se compadeça com os embriões que serão jogados no lixo das clínicas de fertilização e ignore o sofrimento de milhares de seres humanos, portadores de doenças graves como a distrofia muscular, a diabetes, a esclerose, o infarto, o Alzheimer, o mal de Parkinson e muitas outras, cuja esperança de cura ou melhor qualidade de vida está na pesquisa com as células tronco.

Voto contra palavras vazias. Nossa era da mídia transformou a oralidade num valor em si, esquecendo que há canalhas articulados e bem falantes e pessoas de bem e muito competentes que são de pouca conversa, ou até mesmo mudas. Tzvetan Todorov: “A democracia é constantemente ameaçada pela demagogia, o bem-falante pode obter a convicção (e o voto) da maioria, em detrimento de um conselheiro mais razoável, porém menos eloquente”. (1) Há quem diga de tudo e também o seu oposto, dependendo do público ouvinte a quem se pretende agradar, há quem decore frases feitas repetíveis em qualquer ocasião, há quem não fale coisa com coisa. Prefiro julgar os governantes e aspirantes a cargos públicos menos por suas palavras e mais por seus atos, seus compromissos e sua capacidade de trabalho em equipe, ninguém governa sozinho.

Voto contra os salvadores da pátria. Pelo menos em duas ocasiões o Brasil apostou em candidatos de si mesmos, filiados a partidos nanicos, sem base parlamentar, surfando numa repentina notoriedade inflada pela mídia e alimentada pelo discurso “contra a política”, prometendo varrer a corrupção e as “velhas raposas”. No primeiro caso, a aventura personalista de Jânio Quadros acabou num golpe militar e numa ditadura que durou 25 anos. No segundo, a aventura personalista de Fernando Collor, sem base parlamentar e passada a euforia inicial, terminou em impeachment, bem antes do fim de seu mandato.

Voto na Dilma e contra tudo isso que ainda está aí: a desigualdade social, o poder crescente do capital, a cobiça sobre nossos recursos naturais, o preconceito contra os homossexuais, a criminalização do aborto, o obscurantismo que impede avanços científicos, a criminalização da política, as palavras vazias, os salvadores da pátria. Com a direita autêntica fora do jogo podemos, sem grandes riscos de voltar ao passado, debater o melhor caminho para seguir avançando. Ponto para a democracia.

(1) Tzvetan Todorov, Os inimigos íntimos da democracia, tradução Joana Angelica DÁvila Melo, Companhia das Letras, 2012.