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Saturday, February 22, 2014

canções de amor (sábado em copacabana)

1

o amor que desacontece
à beira do gran grand prix:
heróis ficam inconsoláveis
poetas versam sob escombros
e a paixão tão noiva e linda
dispensada à beira do altar
o amor que só sugere é frio
esgueirando-se em hipóteses:
e se...? e se...? então poderia?
um amor se faz em fatos nus
e não vestido pelos subjetivos

2

sábado em copacabana para meu
amor ao norte, ao longe, qualquer
praça ou calçada de coração voraz
entre campos de bola entre areias
e mulheres de predicados carnais
meu coração não demora e espia
os espólios de uma cidade oculta
com seus pobres e ricos, liberais
machões, travestis, seus marginais
magnatas, roça e favela, paraíbas
as mulheres de carne esplêndida
louvadas por poetas de botequim:
ah, cervantes! ah, sat's! que fim
levaram o chuva de prata ou o tal
pé-sujo que não lembro o letreiro?
onde está a fachada do coruja bar?
as putas mais lindas, românticas
lado a lado com "mulher-pra-casar" -
e tudo será cedo quando esta noite
cerrar o dia pois o tempo não perdoa:
copacabana é sempre um sábado!

2

meu amor tão longe
num sorriso em foto
hoje à noite vai ter festa
mas não dançarei:
agora sou um longe
agora sou mais raso
e só resta uma promessa
se um amanhã risonho
há de haver em justiça -
resto-me em desejo e sede
alimento meus pecados
enquanto meu amor ri
mas sequer me acena - cor

@pauloandel

Friday, February 21, 2014

porta-retratos e humildes relíquias

1

olhar no céu e encontrar
um desenho de amor
num rosto de mulher
- os traços são os poemas! -
- duas ametistas brilham! -
algum olhar severo enternece
enquanto a beleza é tesão:
desejo incandescente - volúpia
ardor que desmerece desatino
meu amor de cores tão leves -
o céu parece uma bonequinha
uma Audrey, cena de gran luxo
e paixão e vontade noutra cama -
meu amor tem cor! voa rasante
e traz palpitações, ardência atroz
certa alma apaixonada não dorme
a sós, mas namora ao longe: jazz

2

você, meu jazz - você, meu verso
não me satisfaz um amor supérfluo
passatempo sem eira nem beira
você, já não disfarço que te quero
você, meu sonho, meu chão e teto
você, um quadro, a foto e um gesto
a flor que tanto venero, sem tempo
você, meu sexo - gozo e jorro certo
o longe que tanto me corrói às veias
o nunca onde o talvez já é afeto

3

os outros não pensam nosotros
rústicos caiporas com tom inglês
querem ser belos e eternos - truque
a breguice jamais se regenera!
os outros só pensam em si mesmos
e fodem sem brilho!
e morrem sozinhos
os outros são egoístas até demais
e perdem as boas histórias
com seus troféus de carne às mãos -
são rústicos caiporas, capangas
falsos retratos de um mundo falho

@pauloandel


Thursday, February 20, 2014

anagramas

1

esqueça a minha dor
a hipocrisia é uma fé
eu sei do que me dói
- o que corta
- arde e range
- o pesadelo
(sós)
apenas eu mesmo sei
a dor dos meus mortos
o pouco que me resta
a cor da linda noite vã
tudo está perdido no céu
mas uma estrela ao longe
sugere promessas, versos
a vida por um triz tilinta
em brindes à mesa de bar
- vamos à taberna!
- e se a vida tem sentido?
- beberemos até o gole fatal!
- onde está a vida dos que se pouparam?
não há dor ao só
não há dor ao só
apenas o pior: saudade

2

deitado
em tristeza esplêndida
ao verso triste
em mar do sul atlântico
deitado
em jazz de mingus livre
no café bohemia:
- let your soul fix the night!

3

um ateu em procissão
para encontrar um deus
no meio do nada mais
a venezuela é a vila vintém?
onde estão os liberais
elegantes? ou ficar a pátria
livre ou coroar a estupidez!
viva a democracia!
viva a imprensa livre!
mentirosos e podres
nunca fomos tão felizes:
uma salva de palmas
para o village mall!
viva os hipócritas sem deus!

@pauloandel


difícil

tão hipócrita é
o amor que não
ousa, esconde-se
por medo e regras
até desperdiçar-se
por nenhuma razão
tão hipócrita o medo
o fingir de bobagens
pelas tais convenções
tão hipócrita a frieza
a distância, assepsia
já que o sexo é fato
a vontade é um jogo
do país às nossas mãos

 @ pauloandel

Tuesday, February 18, 2014

podres poderes... tão atuais

Caetano, 1984

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...

Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...

Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...

Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...

Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...

Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...

Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...

Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...

Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!

@pauloandel

outra casa

nunca mais encontrei minha casa
desde que entendi drama e morte
os silêncios falam tão alto e vasto
que povoam delírios na memória
o que se perdeu mora no sempre
e o futuro faz-se escasso, tão frágil
sem os que sempre foram a casa
um dia, fechei a porta e vi o mundo
desci um grande corredor, uma rua
as frases repletas de otraspalabras
e gente sem se ligar em gente, feliz
o egoísmo é a sincera decadência
depois olhei para trás, era a porta
tão longe, tão crua, refém superoutra:
eu nunca mais encontrei minha casa

@pauloandel

Sunday, February 16, 2014

todos estão nus

abre um domingo
café, preguiça e jornais
um jogo adiante
e o carnaval, o carnaval
vamos ouvir jorge mautner
porque nenhum tempo espera
exceto o da puta fascista na TV
vamos ouvir mautner
e pedir piedade num abre-alas
ninguém vai resolver o fim
do mundo acorrentando
ninguém
penas de morte, choques de ordem
aves de rapina quebrando a firma
todos estão nus!
a hipocrisia em pêlo
a indiferença crua
o nada a ver com isso: todos estão nus!
a bossa nova é foda
e fingimos que é de fora
coltrane é negro
charlie parker negro
e miles negro demais -
o jazz de fora é foda!
estamos todos nus
distantes de qualquer paraíso
o tesão não é maçã nem pecado
a dor está nos mortos
nos perdidos das marquises
nas cabeças explodidas
com bombas, tiros, sacrifício
nas meninas estupradas
nos garotos desaparecidos
mãos estendidas por uma moeda
estamos todos nus
não precisamos de nazistas tupiniquins
o febeapá é nosso
falta a carta de alforria

@pauloandel

Thursday, February 13, 2014

ruas do mundo


o verão e suas bombas de calor
escritórios refrigerados
mas também as telhas de amianto no supermercado popular
o engravatado sempre mereceu o que tem e terá
o camelô e o mendigo também
foi assim que deus fez ou alguém preferiu acreditar
é bem mais confortável
do que perder tempo em raciocinar
somos todos medíocres
fazendo de nossos olhares
a real fotografia do mundo
a crônica sincera das ruas do mundo
e nada vai reparar
o cinegrafista assassinado
o jovem negro de joelhos assassinado
a bela jovem negra policial
o perigoso ladrão de moedas acorrentado como velho escravo
a menina estuprada dois meses na cadeia do maranhão
o menino joão helio arrastado pelas ruas fúteis do mundo
somos todos medíocres
ao escolhermos as injustiças que devem ser reparadas
bem como as esquecidas
somos todos medíocres
quando pensamos em bandidos fazendo justiça pelo bem
somos todos medíocres
somos todos medíocres
a violência ainda é tão fascinante aos olhares medíocres
e lá vêm o carnaval, o feriadão, a copa do mundo
a quem interessa lembrar da passarela?
as ruas do mundo são fúteis
quando há racismo, exclusão, indiferença
gente que faz de gente passatempo
videogame imperfeito
vã distração que se descarta
os livros nem sempre são lidos como devido - na verdade nunca! -
as dialéticas não são estabelecidas
somos todos medíocres a juntar na mesma panela o cozido
de riqueza, sucesso e desprezo alheio
ridicularizamos os comunistas
e a inflação nos irrita - somos hipócritas demais, incoerentes vorazes
precisamos de mais tempo perto do fogo *como faziam os hippies*
mas ninguém liga
ninguém liga
o amor virou mercadoria - só serve em perfeitas condições

@pauloandel

* "Perto do fogo", Cazuza e Rita Lee, 1989.

Monday, February 10, 2014

cães de aluguel, jards e cazuza

cães de aluguel

precisa-se de cães de aluguel
fortes, densos, mortíferos e vis
ideais para uma sociedade de fé
- não precisamos de leis - a lei é o caralho - leve o coitadinho para você
- isso tem mais que morrer
precisa-se de cães de aluguel
fiéis às desumanidades, sempre alertas para morder, ceifar, matar
o que fazer com nossa hipocrisia?
eis ipanema que precisa brilhar à noite e as manchetes do flamengo precisam ser reluzentes
foda-se a lei quando o dinheiro é poder - deixem-nos usar nossos smartphones em pax - glória a deus nas alturas - cada um por si e que o outro si foda-se 
- não fui eu quem fez o mundo assim
vamos prender nossos escravos nus - tragam o açoite - enfiem no rabo 
- eles têm que morrer sofrendo, há justiça
nossos cachorros mais agressivos
casa, comida e ódio nos peitos fortes
cores de mussolini, cenas de médici, risos debochados
tortura, pau-de-arara, choques elétricos, estupro e agonia
que tal aplaudir uma piranha fascista vociferando na televisão? 
o crime virou apenas exercício da liberdade de expressão
o aparelho mora numa calçada
o inimigo é negro e pobre, analfabeto
os punhos cerrados são ordem e progresso, tradição, família e propriedade
os foguetes têm religião e explodem sem dó a cabeça de inocentes
crianças das marquises já nasceram delinquentes
e a estupidez à vista é a revista do egoísmo ao caos
os comunistas são os imbecis
espertos liberais com sorrisos de luar, pasta de dólares, sonegação
e todo são domingo deus irá nos perdoar
a ironia do destino dá-nos nojo de dois ratos enquanto matamos por prazer, superioridade e empáfia num mundo com leis - só para os miseráveis

@pauloandel



só morto - jards macalé
Nessa manhã de louco/ O olho do morto/ Reflete o fogo/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Pedras rolam pro mar/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco/ Espuma de sangue a brilhar/ Nessa manhã de louco/ Todo mistério é pouco

Esse sol tão forte/ É um sol de morte/ Esse sol tão forte/ De mil mortes/ Esse sol/ Há quanto tempo/ Eu não via/ Um dia.../ Um dia.../ Tão bonito, tão.../ Tão maldito, tão.../ Um dia.../ Um dia.../ Oh, see the city lights/ I never seen you so bright/ Let this burning/ Let this burning/ Burning night


burguesia - cazuza

A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia
A burguesia não tem charme nem é discreta  com suas perucas de cabelos de boneca 
A burguesia quer ser sócia do Country 
A burguesia quer ir a New York fazer compras 
Pobre de mim que vim do seio da burguesia 
Sou rico mas não sou mesquinho 
Eu também cheiro mal 
Eu também cheiro mal 
A burguesia tá acabando com a Barra 
Afunda barcos cheios de crianças 
E dormem tranqüilos 
E dormem tranqüilos 
Os guardanapos estão sempre limpos 
As empregadas, uniformizadas 
São caboclos querendo ser ingleses 
São caboclos querendo ser ingleses 
A burguesia fede 
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia 
A burguesia não repara na dor  da vendedora de chicletes 
A burguesia só olha pra si  A burguesia só olha pra si 
A burguesia é a direita, é a guerra 
A burguesia fede 
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia 
As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução  ao contrário da de 64 
O Brasil é medroso 
Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia 
Vamos pra rua  Vamos pra rua  Vamos pra rua  Vamos pra rua  Pra rua, pra rua 
Vamos acabar com a burguesia 
Vamos dinamitar a burguesia 
Vamos pôr a burguesia na cadeia numa fazenda de trabalhos forçados 
Eu sou burguês, mas eu sou artista - estou do lado do povo, do povo 
A burguesia fede - fede, fede, fede 
A burguesia quer ficar rica 
Enquanto houver burguesia 
Não vai haver poesia 
Porcos num chiqueiro 
São mais dignos que um burguês
Mas também existe o bom burguês 
Que vive do seu trabalho honestamente 
Mas este quer construir um país  e não abandoná-lo com uma pasta de dólares 
O bom burguês é como o operário 
É o médico que cobra menos pra quem não tem  e se interessa por seu povo 
Em seres humanos vivendo como bichos 
Tentando te enforcar na janela do carro  No sinal, no sinal  No sinal, no sinal 
Enquanto houver burguesia  não vai haver poesia

Sunday, February 09, 2014

Saturday, February 08, 2014

dois cifrões...


os fragmentos da manhã vazia

1
tudo que me disser a canção
precisa rugir feito uma poesia:
sorver, tragar
ruminar, reter
precisa suar feito poesia
gozar, acontecer
refestelar-se numa sala
com memórias à mobília

2
sempre dar prioridade
a quem dela é seu vigia
a quem zela por todo dia
sem medo ou a distância
fria, vazia, que desameniza
o lado mais doce da vida

3
o estrangeiro
alheio
ser de outro planeta
homem fora dessas ruas
cansado e apressado
buscando a riqueza
de ser tão diferente
pela riqueza do jeito
ou as emoções tortas, cruas
que vivem os poetas de calçada

4
amor que não se rega
é pedra que não rola:
cria musgo
perde o sentido
namora o vazio
faz-se lágrima
de quem não chora

@pauloandel

Thursday, February 06, 2014

o amor 2 - Maiakovski

o amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Vladimir Maiakovski (1893-1930)



a flauta vértebra

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)


blusa fátua

Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

(tradução: Augusto de Campos)


amo

COMUMENTE É ASSIM
Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração
levamos o corpo,
sobre o corpo
a camisa
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica pelo sistema Mulher.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce
floresce,
e depois desfolha.


adolescente

A juventude de mil ocupações.
Estudamos gramática até ficar zonzos.
A mim me expulsaram do quinto ano e fui entupir os cárceres de Moscou
Em nosso pequeno mundo caseiro
brotam pelos divãs poetas de melenas fartas.
Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, aprendi a amar no cárcere.
Que vale comparado com isto a tristeza dos bosques de Boulogne?
Que valem comparados com isto
suspirosante a paisagem do mar?
Eu, pois, me enamorei da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres
Há gente que vê o sol todos os dias e se enche de presunção.
Não valem muito esses raiozinhos dizem.
Eu, então, por um raiozinho de sol amarelo dançando em minha parede teria dado todo um mundo.


Sobre Maiakovski

Em 1906, após a morte de seu pai, muda-se com a família para Moscou. Aos 15 anos ingressa no Partido Bolchevique e é preso duas vezes, sendo que na última permanece onze meses encarcerado, quando aproveita para leitura de todas as obras clássicas. Em 1910, ingressa na Escola de Belas Artes, de onde é expulso quatro anos depois, quando já se encontra ligado ao movimento futurista. Era o expoente de uma geração em busca de uma estética que captasse a profundidade daquelas inquietações russas. A partir da Revolução de 1917 sua atividade literária se intensifica unido a atividade política. Participa das comissões de literatura, pintura e cinema. Começa a ser tachado pelos burocratas do Partido de "incompreensível para as massas". Maiakóvski busca demonstrar seu engajamento fazendo cartazes e poemas de exaltação ao Regime Soviético. Nos últimos três anos de vida, levou seus versos a mais de 180 mil pessoas, em conferências e recitais por várias cidades. Nunca aceitou a imposição de escrever o vazio óbvio como os poetas proletários insistiam. Dizia "vangloriam-se alguns do fato de a nossa leitura ser florida como um jardim".

Suicidou-se talvez pela falta de perspectivas que via para a sua arte, talvez pelos problemas de saúde, estava com a garganta abalada e percebia que não poderia recitar mais, talvez pelos relacionamentos amorosos infelizes. Além das poesias e roteiros dos filmes escreveu as peças teatrais Mistério Bufo (1918 e 1920) e O Percevejo (1929) dirigidas por Meyerhold, Eu, Vladimir Maiakóvski (1913) e Os Banhos (1930).

@pauloandel

Wednesday, February 05, 2014

jazz!


Jazz é aquilo: ama-se ou não se compreende. Você está numa noite do Costa Brava com o mar infinito por todos os lados e espera Tatiana para um drink. Ou o Atlântico Sul beija o Imbuí enquanto Eliane, linda de morrer, olha como se buscasse o horizonte para si, amenizando o coração.

Tenho escutado jazz desde os tempos da faculdade. Minha primeira influência firme foi Jô Soares em seu programa de rádio que eu escutava num walkman vermelho, comprado no Camelódromo. Ao Jô devo o mergulho profundo; entretanto, antes dele eu já conhecia alguns nomes como Wayne Shorter e, claro, Miles Davis. E no programa, logo percebi que o meu jazz não era o de Jô, dos anos 30 com Gene Krupa, mas o avant-garde do fim dos anos 50, Ornette Coleman. Mas também Charles Mingus, Thelonious Monk, Sonny Rollins, McCoy Tyner, Miles, Chet, Coltrane, Blakey, outros.

Perto dos vinte e poucos anos, outro porto importante foi a livraria Berinjela, coração do Rio, avenida Rio Branco. Era amigo dos donos, ouvia muito jazz por lá quase diariamente entre os maravilhosos livros enquanto Carlito Azevedo falava do Chaves, Rubens Figueiredo sorria e Maurício dava sonoras gargalhadas à la Flipper quando Alvaro O Marechal fazia a performance da dança do Siri Patola. Kamille também ria e eu adorava. Tínhamos nosso divertido Café Bohemia imaginário e particular. Ou jogos de botão narrados por Jimmy Scott ou Julie London, belíssima.

Mergulhei para sempre nas vertentes, nas resenhas, buscando novos discos e artistas, tentando captar aquela atmosfera musical que um dia me fisgou para sempre. O jazz sempre esteve perto da poesia que pratiquei, das mulheres que amei e das pessoas queridas que já se foram para sempre.

Jazz não é só pra se ouvir, mas pra se sentir. Sonhar. Fugir. Experimentar momentos de sonho e liberdade num mundo cada vez mais reacionário e agressivo. Apague a luz, abra a janela, ligue o som e voe longe. Você pode dançar, ficar estático, deitar, procurar estrelas no teto do quarto, pensar na mulher desejada, um grupo de amigos rindo e brindando com o chope dourado da felicidade.

Tanto faz se são artistas consagrados ou iniciantes. Se o repertório é de standarts ou novidades. E daí que não estamos no Five Spot mas na Cruz Vermelha? Maravilhosas Jane Monheit e Diana Krall!

O jazz nascendo, toda liberdade para dentro da cabeça é pouca. O que sinto há vinte e tantos anos.

Chego a pensar em Zoot Sims atravessando a Figueiredo Magalhães em Copacabana enquanto meu velho amigo Fred arregala os olhos.

@pauloandel

o amor

Caetano Veloso
(sobre um poema de Vladimir Maiakovski) 

Talvez quem sabe um dia 
Por uma alameda do zoológico 
Ela também chegará 
Ela que também amava os animais 
Entrará sorridente assim como está 
Na foto sobre a mesa 
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão 
O século trinta vencerá 
O coração destroçado já 
Pelas mesquinharias 
Agora vamos alcançar 
Tudo o que não podemos amar na vida 
Com o estelar das noites inumeráveis 
Ressuscita-me ainda que mais não seja 
Porque sou poeta 
E ansiava o futuro 
Ressuscita-me 
Lutando contra as misérias do cotidiano 
Ressuscita-me por isso 
Ressuscita-me 
Quero acabar de viver o que me cabe 
Minha vida para que não mais existam amores servis 
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se 
por uma casa, um buraco 
Ressuscita-me 
Para que a partir de hoje 
A partir de hoje 
A família se transforme 
E o pai 
Seja pelo menos o Universo 
E a mãe 
Seja no mínimo a Terra 
A Terra 
A Terra 

@pauloandel

Tuesday, February 04, 2014

a hipocrisia

Qual rua não a adota? Casa, paço, alameda, ciudad, calle? Acordamos, vivemos, dormimos e lá está a danada da hipocrisia. Nos discursos de ordem e progresso em defesa da grande pátria, escoram-se rastros de hipocrisia. Ou então os falsos moralistas que adoram criticar o comportamento alheio enquanto escondem toda sua podridão, lá está a fortalecida hipocrisia. O caso de agora vivido nas manchetes pelo Fluminense é um exercício completo de hipocrisia plena: jornalistas cínicos omitem a verdade, distorcem, subvertem e entorpecem a opinião pública, muito menos do fizeram diante do inacreditável caso Bruno. Quando Cuba constrói seu porto, os hipócritas vociferam e apregoam o fim do comunismo com ridicularização incompatível; são os mesmos que defendem o liberalismo e incomodam-se com a alta dos preços em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo – liberalismo pleno, desde que tenham seus bolsos cheios e o resto-que-se-foda - o nome disso é hipocrisia. Eduardo Coutinho, brilhante cineasta assassinado domingo passado, era comunista: alguém teria condições morais de apontá-lo como idiota por isso? A hipocrisia quer a fogueira para Woody Allen a respeito de um crime que jamais foi comprovado, mas não move uma palha sobre a garota que acabou de ser estuprada no Alto da Boa Vista, as garotas que são seviciadas diariamente em comunidades ainda dominadas pelo tráfico carioca, as garotas que fazem programa na avenida Atlântica e espalhadas em todos os puteiros. Quantos jornalistas hipócritas não defenderam com veemência regimes prisionais mais severos, até perpétuos, mas calaram-se diante do caso Pimenta Neves? Empresários hipócritas sempre reclamam dos altos tributos, mas fogem da Receita Federal com dois mil e um artifícios no limite da lei – às vezes, extrapolando-a. A hipocrisia que marcou as discussões a respeito do beijo gay na televisão é um marco da nossa estupidez contemporânea: há décadas, personagens homossexuais estão (devidamente) incorporados ao cotidiano televisivo. Namoram, seduzem, tudo acontece, por que então a celeuma em torno de um beijo? Um provincianismo comovente, da mesma natureza que alimenta os intelectuais de orelha de livro, ávidos pelas mais novas idiotices de Mainardi e Jabor, temperadas com verborragia barata e palavras pinçadas para dar o tom professoral que os arrogantes tanto apreciam. Para a hipocrisia comum, Chico Buarque, Caetano e Gil são defensores da censura, com todo o ridículo daqueles que não têm acompanhado suas trajetórias. A hipocrisia está de mãos dadas com a indiferença diante da miséria, o desinteresse pelo próximo, a patética sede de poder. O amor que não se declara. O ódio que se espalha. O primarismo da vitória que se traduz em bens de consumo e cabeças ocas. O ter mais importante do que o ser. A hipocrisia na intolerância religiosa e até mesmo na ausência de religião. A hipocrisia em ser o que não se é ou não ser o que se realmente é. Ou a hipocrisia da via única: um jornal, um canal de televisão, uma opinião, uma escola de samba, um time. As ruas estão pintadas com a hipocrisia da ostentação idiota, devidamente rejeitada pelos verdadeiros racionais. Cada vez mais temos mais informação, computadores, meios de comunicação, velocidade e tudo se perde no caminho porque não sabemos viver sem hipocrisia. Personagens politicamente corretos sonegando impostos, furando fila, transferindo bens para terceiros, fingindo que André Santos e Heverton são personagens de uma história com Papai Noel. Você que me lê por ora considera-me um hipócrita e, nisso, fica deitada em berço esplêndido a mais fina flor do que aqui propus tratar como simples hipocrisia. A covardia da covardia. Escrotidão e ironia. Que nostalgia fria?

@pauloandel

Saturday, February 01, 2014

a dança dos sonhos

para eu estar em você
e sermos um exato um
que tal desatar os nós
desabrochar más ideias
e jogá-las longe, frígidas?
para eu dançar em você
dançar-te, sobrevoar-te
fazer da nossa noite crua
a delicada Gotham City
nenhum Batsinal à vista
ninguém a cortar clima
a dança dos sonhos, sexo
os desejos fora do eixo
o nexo que nos revitaliza
e tudo vai dar certo no caos
tudo será leve diante do caos

@pauloandel