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Thursday, July 25, 2013

amor esquina

1

street song

era amor
porque não dependia
de corpo e rosto
e sexo mas sim
desejo de ter
perto
líquido e certo
era amor
porque vale
quanto versa
vale cada verso
e valerá

 2

mãe

cada passo
dessa estrada
sem você ao lado
faz-se pena
perpétua
o passo
e pensar em você
cada passo
e a vida deságua
num vão

 3

gata mansa

só sei do que te amo
porque qualquer
bobagem tua
me incendeia -
enxergo ouro
em terra
e tesão em sina
só pra te pensar
por perto

@pauloandel

bomba

meu coração e uma
bomba
estilhaçada
explodida
as ruas tão frias
eis julho vivo e triste
em fotografias
para adornar jornais
e dizer da dor
dizer tanta dor
o frio vivo do Rio
peregrinos seguem Deus
nossa grande capital
mora em festa e flor
os mendigos e as frestas
nos viadutos e vãos
forças ocultas
e mãos dadas
enquanto o fracasso
faz sua aquarela
em branco e gris -
somos capital
somos capital
e ninguém sabe o nome
do próximo corpo
recolhido
na esquina

Wednesday, July 24, 2013

deuses

no fim das contas
somos todos religiões
queremos fazer crer
a nossa crença
mesmo que ela seja nada
e não vamos convencer
nem a nós mesmos
da certeza do que é certo
somos todos esperança
enquanto começo e meio
não viram fim nem sim
e o resto é só o resto:
vagas nuvens de sonho
muitas procissões
e um nó de aço no peito

@pauloandel

as ruas



ah, que dor me corta o peito
uma aflição pelas horas do vir
agora que não somos nada
as ruas e seu gris inesgotável
uma dor que não cessa
faz-se viva sem o menor rancor
é que eu falo sobre o nada
é que eu falo sobre o nada
as ruas tão vivas e meu vazio
eis-me um punhado de nada
nunca mais voltei para casa
não revi meus amigos felizes
meu amor escorreu à pia
eu falo sobre o nada, o nada
minha poesia é torta e fria
um pesadelo me atordoa
e não sei dizer do que virá
mas o que importa nisso?
é que eu falo sobre o nada
é que eu falo sobre o nada
e as lágrimas num lençol
não oferecem arrepio
nossa avenida iluminada
e os mendigos sofrem tanto
eles se escondem em vãos
eles se escondem em vão
a dor é um tiro certeiro
que atravessa meu coração -
alguma coisa acontece
no pulmão da grande cidade
e ninguém vai perder tempo
se estou trucidado ao chão

@pauloandel


Tuesday, July 23, 2013

Long




Festa

uau
que legal
parabéns para você
hoje é teu aniversário
e estás cada vez mais e mais
perto da morte oca
longe dos amores
estrangeiro em si mesmo
alienígena vil
mais um ano se passou
e quantos virão?

parabéns para você
que não aceita o caos
e sai no tapa com a injustiça
a vida é tão inútil
que diferença faz?
o ser humano é cobiça
e a tua burrice jamais
te permitirá entender
porque a vida tem que ter dor

um minuto de alegria?
onde fica?
onde moram os pais mortos?
onde estão os amigos desaparecidos?
a casa devastada?
quem mais caberá
em teu coração inchado?
um minuto de alegria
em plena solidão
um mar de gente grita
e ninguém percebe nada -
somos tão ocupados
que não temos gente a perder!

parabéns para você
que trocou a vida pela poesia
a crueldade pelo sonho
e se perdeu para sempre -
isso, se o sempre existir -
isso de se perder mesmo -
a gente nunca sabe direito
o que é ganhar ou perder
apenas gasta os dias
em busca de incertezas
inutilidades e pedaços
do que consideramos vida

parabéns para você
que é granada estilhada
satélite sem sistema
longe de tudo o que quis
e por isso mesmo
tão diferente dos mil
há muitas estrelas no céu
qual seria a diferença de mais uma?
só faz sentido se tivesse
a cor de uma estrela
que ninguém ainda viu

parabéns para você
não há sorte alguma
esteja vivo e inútil
chore todo dia
diga o que tiver de dizer
ame e goze à toa
siga em frente rumo ao nada
e simplesmente não pense:
melhor viver
para ver
onde isso tudo
não vai dar


@pauloandel

The soul stations

we’re
the deep soul stations
and haven’t a fear
about any madness
sadness, sweetness -
we’re living
our feelings like
they said it so much -
they call love
to our lovely brains
they’re storms
and rest-in-pain
we’re
the mad soul stations
and july is saying bye
a strange kind
of disappearing


@pauloandel

Monday, July 22, 2013

Uma canção para Copacabana

minha terra
fica onde o céu
e o inferno
beijam-se na boca
sem hora
para terminar

são ricos e pobres
mendigos e príncipes
gente a nascer
e outros que apenas
dizem adeus
mas ainda vivem

minha terra
tem dramas e risos
túneis e mares
afora uma beleza
de estrelas no céu -
e como brilham

se as estrelas
já morreram
o que importa?
só agora é que vemos
o grande espetáculo
das luzes

minha terra tem livros
flores, caprichos e luxúria
fantasia, religião
bichos-soltos, junkies
amigos e a impecável
maré de solidão

ela é meu norte
meu leme

e ainda me encanta:
quero teu amo
dá-me teu colo
Copacabana

@pauloandel




Intransferível

a fascinante solidão
dos últimos dias de julho
introspecção
uma triste canção
e as pessoas ocupadas
atabalhoadas
na sala de conversar

então falam e fazem
trocam textos e dígitos

provocações?
nada disso!
é o mar da frivolidade


quando o horário
esgotar-se
vão correr com sobras
para um bar bonitinho
e vamos escutar bem
a voracidade do nada
mil tons e dicas
que vão significar nada
e viveremos bem assim


a fascinante solidão
dos dias de julho
é a mesma, mesma
de um ano inteiro:

apenas se protege
na melancolia
dos dias frios, cinzas
damos tanto valor
ao nada que sempre

fomos

@pauloandel

Saturday, July 20, 2013

dor

meu braço dói
e tem algo errado:
cuidado!
cuidado!
será morte ou cansaço?
ou a solidão
estúpida
meu sonho dói
o amor corrói
mas também conquista
e a dor tem pouca dor
por um instante chorei
sou desimportante
minha dor pequena
reflexo de pensamentos
inevitáveis e nenhuma
cor

democracia...

querem me falar 
de democracia

e democracia

deixar as pessoas
morrendo faz parte
da democracia

as garotas estupradas
por bandidos
de comandos ou
batalhões

os mendigos nas
marquises e os
meninos de cola
os errantes
sem rumo

os cruéis os burros
os falsos doutores
os patrões pilantras
e maus empregados

são também
democracia

os grandes jornais
as corporações
a copa do mundo
a copa do nada

fingem ser
democracia

e o que você vê
no meu autoritarismo
faz-se a tua miopia:
meu negócio vem
derrubar hipocrisias

@pauloandel

Tati


Algo em torno de seis e meia da tarde e Sônia me ligou, apenas para avisar que estamos a caminho. Jovem, louca, mansa, delicada e deliciosa em seus vinte e poucos anos, eu tento entender o que ela quer de mim além de sexo intenso de cortar feito adaga. Temos vivido assim há alguns meses e é naturalmente divertido: quando você tem cinquenta anos, não tem o direito de ser hipócrita em negar o prazer que sente de um jovem com a metade da tua idade em qualquer cama que se preze. Ou no banco de ônibus numa viagem. Ou na escada do prédio, feito fosse um adolescente. Tudo seria perfeito se não existisse na minha vida um problema chamado Tati, que ficará claro adiante. Ninguém da Tijuca precisa saber.

Sete da noite, o interfone toca, o porteiro com português de difícil compreensão acena e avisa que dona Sônia está subindo. Acho graça dos tratamentos que as convenções exigem: é Sônia e ponto. Abro a porta, trocamos um beijo de boas vindas, momento de trocar o inferno pelo céu e virá-lo do avesso várias vezes. E nem dá tanto tempo para esperamos qualquer coisa além de tirar roupas e trocar carinhos diversos – afinal, esse era o objetivo mesmo. Agora que posso ter horas mais longas, longe da confusão da delegacia e do transtorno de anos, o que mais tenho pensado é em tudo o que não havia por lá: livros, discos, versos, mar, futebol, sexo. Mas tudo isso tem um ponto e vírgula: Tati. Tudo o que penso dela desafia o conservadorismo tijucano.

Rapidamente Sônia está nua, nos abraçamos, fazemos sexo enlouquecedor – sejamos claros: é fuder loucamente, ora! O telefone toca uma ou duas vezes, ela ri, eu lembro dos tempos da polícia onde o tilintar do aparelho poderia ser a diferença entre a vida e a morte de alguém, resolvo atender, ela ri da paralisação. Para minha surpresa, um ponto e vírgula do outro lado da linha: Tati. Todo Superman tem a kriptonita que merece.

Conhecemo-nos anos atrás, eu e Tati, aqui Tatiana, por intermédio de uma amiga num tempo breve de faculdade e, na primeira noite que a vi, fiquei louco por ela: soube que dançava e lia, que gostava de versos e parecia tão delicada que tudo lhe dava ares de tesão e charme. Estava acompanhada na primeira noite, respeitosamente admirei de longe. Não sei como, mais tarde trocamos telefones, e-mails, passamos a nos corresponder, fomos amigos ao longe, continuamos sendo, ela tem um romance, eu tenho outros, mas sempre a desejei e penso nela a todo instante nua em todas as possibilidades que minha boca permite. Nunca lhe falei sobre o tesão imenso que ela me desperta. Alguém me disse que quando eu casasse isso passaria, mas casei duas vezes, desfiz, contratei garotas de programa, chamei garotas de bate-papo virtual, comi cem mulheres e nada faz cessar o tesão oceânico que tenho pela Tati – e não é só tesão em sexo, é tesão de tudo: brincar, namorar, conversar, dividir espaços, silêncios, tudo o que for. E beijo. E beijo e beijo e beijos até os lábios incharem e se avermelharem de vez – alguém fará piada comigo seu eu sair à rua, dizendo que pareço Boris Casoy de batom. O que dizer dos dela, saltados e provocantes entre as coxas? Só de ouvir sua voz delicada já penso em aterrissar nas estrelas, com todo o ridículo nisso. Não era nada de mais: coisas de seu trabalho, pediu apenas uma orientação, queria saber como eu estava, não deixei que Sônia percebesse nada, fui um completo canalha naquilo que é a única coisa que justifica a canalhice – o amor.

Sônia está nua, paciente e desejosa em seu corpo quente e cheio de saliências convidativas. Como posso ser um velho tão idiota a ponto de navegar naquela catedral de carne quente e ficar a pensar em outra mulher que nunca sequer beijei?  Logo eu que já fui o rei das estagiárias na delegacia, o bambambã de certas noites suburbanas, o algoz dos namorados que não sabem acariciar uma mulher como devido.

O fim da vida está me reservando bobagens da adolescência? Ou é simplesmente aquilo que chamam amor?

O que me resta é navegar, beijar, chupar, penetrar, Sônia tem uma satisfação enorme e tão visível em berço líquido que me desfaço e também rio, pelo prazer de proporcionar prazer. Bebemos vinho em nossas peles como se fôssemos discípulos de Baco – somos mesmo! Mas acontece que eu sou um perfeito idiota: o meu corpo está misturando nas carnes daquela deliciosa mulher e eu só penso em outra, outra – algo que se repete há anos e me tira do sério, já que isso supostamente “coisa de mulher” – ou será coisa de amor? – eu não sei dizer. Em vias de gozo e prazer cumprido, eu só penso em Tati, o quanto seria bom estar ao seu lado, namorá-la, recitar-lhe pequenas sacanagens ao pé do ouvido ou algum dos poemas que já escrevi em sua homenagem – na verdade foram dezenas – se um dia escrever um livro, eu a ponho com personagem. Para piorar, Tati namora um sujeito chamado Francis, que é a apoteose da mediocridade em pessoa: jamais será capaz de lhe proporcionar os carinhos e os sestros que só eu sei conduzir e dizer vida afora. Não conhece os poetas, não sabe dos versos, nem desconfia do que desenho todos os dias. Deuses do céu, como posso ter esse comportamento tão imaturo e, ao mesmo tempo, maravilhoso?

Sônia está nua e linda, deitada em nosso berço esplêndido e encostada com a cabeça em meu peito cheio de desejo por outra mulher que quase nunca vi, muito li e sempre sonhei. Trocamos beijos, somos apaixonados desconhecidos, dois animaizinhos em ritmo de foda a mil. Ela parece feliz e me pergunto se há um homem em sua vida que lhe signifique o que Tati é para mim: pedra, flor e espinho. Hoje é sexta e o dia já vai dizer adeus. Sinto-me bem com o delicado corpo de mulher que se esfrega em mim, mas meu sonho e pensamento clamam pelo corpo de Tati. Sônia é meu prazer e me faz tão bem, mas eu não consigo deixar de pensar em Tati. Tenho sonhos eróticos com ela constantemente, penso nela quando transo com outras mulheres, lembro dela quando vejo casais de namorados felizes em mãos dadas nas areias do Leme. Meus amigos dizem que sou um sortudo com as mulheres e eu choro nas noites solitárias de julho por causa de Tati – faltam me bater quando falo disso. E pensar nos criminosos que já me viram como carrasco nos momentos necessários: eles nunca sonhariam no quanto eu sofro feito um tolo por causa de algo que parece tão tesão, tão corpo e provocação mas não passa de um amor que atravessa paradigmas e beija o surrealismo na boca até dizer chega.

Eu e Sônia tomamos um banho frio e namoramos sob a água da ducha que se faz cachoeira. Ela se veste rápido para não perder o ônibus na Conde de Bonfim. Ganhamos as ruas da Tijuca. Quando a deixo no ponto, sou capaz de pensar mil coisas. Trocamos um beijo de quatro estações, ela sorri e diz que já volta. Olho as ruas quase desertas. É uma sexta-feira e as pessoas estão namorando felizes. Tenho ódio de pensar em Tati nua nos braços de Francis e choro. O que me resta é fechar as cortinas do dia na casa de amigas felizes e queridas, brindando com mais vinhos em Copacabana. Tomo um táxi. Sou um idiota: eu devia pensar tudo em Sônia, mas só enxergo Tati.

Somos todos discípulos de Baco, mas o que realmente procuramos estampado nos céus são sinais de amor – exatamente o que vejo quando penso numa estrela e vejo Tati. Passam os meses, os anos e eu penso em Tati. Passam céus e infernos e eu penso em Tati. Ela é uma bailarina jovem e linda e eu não tenho mais crimes a combater. Eu devia estar feliz porque eu tenho Sônia, os amigos me elogiam, a Tijuca é a mansão do idílio, mas sei que toda a minha felicidade mora nos seios de Tati, seu colo, suas coxas, morder-lhe da nuca ao calcanhar, do pescoço aos pés. Quero vê-la dançando numa perto do mar de Ipanema como Isadora Duncan fez certa vez. Quero cada passo do seu corpo, dos seus encantos, como se a fagocitasse por completo, namorar seus olhinhos infantis e misturar todos os carinhos à putaria. Ela é jovem e linda, ela baila cada vez mais linda e eu sou apenas um pobre amador – é que Sônia me manda um torpedo pelo telefone.

Saudades do velho oeste na delegacia.

Da próxima parada não sei dizer.

@pauloandel

baseado em fatos surreais

Histórias reais (true stories)

voo sobre o horizonte

quando as cordas e sopros luzirem
lá estará ela em pleno voo
os mistérios, as sombras, a cor
tudo se fará noites e dias claros
o luar será apoteose e vitória
nenhum sino há de dobrar à toa:
a bailarina e o doce flanar no ar
um delicado exercício de amor

uma outra canção

se você deixar
eu cantar em teus ouvidos
uma outra canção
prometo e atesto
que ela vai ser de arrepiar:
vai ter zum-zum
versos doces
e tom de colher amor
posso cantar em ti
pertinho, colado
e navegar tua pele
como desbravador?
eu só quero cantar
um outra canção:
a que eu não pude
não tive chance
e que parece âmbar
ao que pensamos

amanhã

serei meu muro de Berlim
serei minha faixa de Gaza
pensarei em dois mundos
importantes e delicados
meu amor ao lado
meu amor ao longe
meu amor à vista
serei multidão e retrato
a ribalta e o gramado
uma peça, uma prosa, um calado
mil coros de nossa torcida
as cartas que só nós lemos
meu coração vai ser foguete
ansiando o espaço sideral -
meu amor em todo, em partes
meu pensamento é pecado -
e, por isso, tão desejado
serei minha nova ordem
querendo o querer de sempre
serei meu muro de Berlim
mas acontece que já sei
onde fica o lado que me apraz -
ele é longe, longe
mas se deixarem eu passo
atravesso um deserto do Saara
em dedos a estalar – no ato!



@pauloandel

Friday, July 19, 2013

A tua vida

o fascinante está
em perceber
que eu sou nada
do que você sempre quis

eis-me tua vida
hiperbólica, desgovernada
catando cavaco
botando o nunca
em volta do sim

mas é que tudo muda
mesmo com medo
e o que vale e o alguém
a te levar aos céus
a dar- se em flores vis
num jardim só pra ti

eu tenho medo
pois não sou nada
do que você sempre quis
eis-me tua vida
em rosas celestes


e lua escarlate


eis-me verdade tão longe do fim
o que me importa
é ficarmos em mim
ah, sim!


@pauloandel

Thursday, July 18, 2013

Mantras urbanos



não existe amor em julho

longe, longe
eu sou tão longe
bem longe
do que gostaria
mas ainda e bom
tem algo de doce
rascante e bom

do meu lado
não está
quem eu tanto queria
mas ainda ha um bom
uma réstia opaca
de sonho bom

e muitos outros sonhos
dormem para sempre:
cortes, marcas, talhos
terrores ao ventre
mas ainda assim e bom

o mundo e um instante
uma virgula e um porém
mortos-vivos comemoram
nas grandes corporações -
meu amor não dorme
e nem me sonha mas ri
mesmo que seja a toa -
sou tão estrangeiro
numa terra de ninguém
mas persigo a esmola
do que ainda e bom

ainda quero ver Deus antes do fim
ainda quero ver Deus antes do fim
antes dos garotos rirem abraçados
de volta a uma velha casa de cinza
antes de qualquer pátria mofada

não existe amor em julho
a vida é um sopro, um predicado
feito a dança firme duma bailarina
esbelta e linda em seu melhor voo
o voo flamejante de uma linda mulher
uma criança à mansa, apaixonante
e seus delicados olhos de ágata

fazendo da balada um blues
e o Rio acorda em cor de gris
enquanto a beleza de Monte
grita e pula por um bis - e tris!


não existe amor em julho
mas velhos camaradas riem
do caos exposto e rico
numa távola quadrada
e isso parece algo bom

estou longe de casa
sou conversa de taverna
alguma coisa acontece
em meu distante coração
quando vê ao norte
uma garota num trem da central
uma bandeira de amor
um carnaval em febre total
para acender em meu peito
agora a gare fechou
o povo dormiu mas não sonhou -
não existe amor em julho! -
mas estupidamente
acerto os passos que nascem

eu acredito na próxima parada
na próxima esquina
e qualquer sentimento trocado
que me ofereça um punhado
minuto a minuto onde se erga
qualquer momento bom

as crianças estão bem crescidas
o hall de espera e uma festa
então desacontecemos:
somos felizes demais num segundo
e não existe amor em julho
não existe amor em julho
não existe amor 
em 
julho

Sobre as obras de Criolo, Marina Lima e Oscar Niemeyer

pra marina, fernanda, flavão, max, nelsim, fábio, ana paula, zeh e meu avatar predileto


o avatar do avatar


você mil vezes
e meu coração que sangra
minha desconhecida
eu queria tirar teu véu
em mil e uma noites
na arábia de Copacabana

você mil vezes
e meus olhos te perseguem
sem rumo discreto
desesperados

eu não sei dizer do meu amor
o que choro não é pecado
somos desconhecidos demais
e alguma coisa estranha
me faz perseguir teu olhar
duas mil e quinhentas noites

eu não sou teu avatar
nenhum androide à tela
faço minha religião inútil
enquanto versos rasos rugem
numa canção do teu amor
numa canção do teu amor -
eu sou carne viva e te venero

eu sou um mantra urbano
e te namoro ao longe, longe
feito uma outra canção -
não traio meus pactos, não

mas acontece que eu não sei dizer
quando você é minha contramão -
o avatar do avatar é a verdade
é a mais perfeita sedução

fernanda II

ninguém se permite
ser muito triste
quando tem a fé
na tua companhia -
o pecado é apenas
de quem não te vê
a nossa turma aplaude
o que você participa
rimos, choramos, vivemos
nossa melhor ironia



@pauloandel

Wednesday, July 17, 2013

Azul


o que vai ser
do meu azul
nessa aquarela?
qual vai ser o tom?
a luz? vai ter gás?
será que esse azul
vai pintar meu céu?

e quem sabe desse azul
dar em mar e juntar-se
a um verde qualquer -
talvez psicodélico
um fora-da-ordem
um down-by-law?

o que vai ser
do meu azul
no fim do céu -
isso se o céu tem fim -
quando encontrar
o cinza, o preto
as cores da morte
se tudo o que temos agora
é um punhado
de vida à desordem?

o meu azul sem conforto
ainda há de voar longe
até onde não vai poder
ter vista alguma ao léu

@pauloandel




Vândalo (por Marcus Vinicius Caldeira)

Vândalo não é quem joga pedra nas câmaras e assembleias prostituídas

Verdadeiros antros de baixarias e corruptelas com dinheiro alheio

Vândalo é quem faz parte dessas câmaras e assembleias constituídas

Que corrompe, é corrompido e enriquece sem receio


Vândalo não é quem joga pedra na vidraça do banco

Onde tubarões ganham milhões com a poupança do trabalhador

Vândalo é o sistema financeiro que especula sem dor

Trai, corrompe, mata o salário sem nenhum pudor


Vândalo não é quem joga pedra na vidraça da igreja

Que há anos explora o medo que o homem tem da morte

Vândalo é quem promete o paraíso e no além-túmulo toda sorte

Claro! Desde que siga seus ditos e contribua com algum porte


Vândalo não é quem joga pedra no muro da emissora

Verdadeira manipuladora dos sonhos da população

Vândalo é quem da benesse da ditadura cresceu promissora

Quem mente, distorce, enriquece e se aproveita da burrice da nação


Vândalo não é o trabalhador que em greve fecha a fábrica

Que deveria somente produzir o necessário à sobrevivência

Vândalo é o industrial burguês, o dono da máquina que não dá assistência

Explorador do trabalho do homem em troca de mais conveniência


Não! O brasileiro que saiu pra protestar,

Pra xingar, quebrar, bradar e sem medo de apanhar

Este não é vândalo, é gente nua

Que ante aos corruptos, de joelhos não se curva

Vem pra rua!


Vândalo é que aquele que jogou esta nação no limbo

Que faz festa em Paris com o dinheiro que não é seu

Que compra deputado para votar no que não é meu

Que entregou nossas riquezas a quem nunca pertenceu


Sim, na ótica deles, sou um vândalo e me perdoe, sou irascível

Não admito e não faço parte dos tolos

O vândalo é aquele que corrompe e se corrompe de forma incrível

Passou da hora:

“Fora todos”

@mvinicaldeira

Moranguinho e outras histórias



I
moranguinho

urge a carne escarlate
do teu ventre em minha boca
urge a pele escarlate, o dorso
as rugosas empolgantes
em cor de sangue vivo, muito vivo
urge a tua curva, a nuca o toque
cada pedaço das tuas nuances
tuas entranhas e pêlos

e num instante o mundo é nosso:
viramos do avesso por nós mesmos
imersos, invasivos, provocadores
eu e você na minha saliva
nenhum beijo se faz lágrima
lábios lânguidos a roçar à casca
gostos, traços, secreções
eu quero a tua pele só pra mim
te mergulhar em creme
e fazer de ti a refeição predileta -
ave nosso pecado!
ave o que nos faz de sina!

II
far

nenhuma solidão
é tão humana
quanto aquela
que reside
num quente e delicioso
corpo deitado
bem do nosso lado

III a
inútil – parte 1

agora durmo
e vejo meu próprio sonho:
translúcido
ele tem de uma inutilidade enorme
minhas palavras em vão
são inutilidade enorme
um cais de mil barcos
passageiros tão felizes
um viajante solitário e perdido
sem motivo e crença
ao largo, apenas rastilhos de pólvora
molhada e uma certeza
inútil pela própria natureza -
o resto e só beleza roubada
decomposta, ignara, distante
são cinco e meia da manhã
de um dia quase bonito
é morri ha sete anos atrás
virei minha assombração
um zumbi de copacabana

III b
inútil – parte 2

escorar a inutilidade
entre os escombros da razão
enquanto a chuva não cessa
os mendigos sofrem
e nenhuma ilusão é barata
pessoas sofrem nos pontos de ônibus
e nos terminais, nas centrais
alguém chora num hospital
e a minha inutilidade ri
de tão surreal e tola que é:
decomposta em madrugadas
fracassada, perdida
incapaz de enternecer
e entedia pois não tem lógica
é também mendiga de sentido
são cinco e meia em plena manhã
em pane, desgovernada
ventre de um dia inútil
enquanto a vida escorre
deságua em vão por nada
e o trabalho nos enobrece, oh!
a minha inutilidade ri
de si mesma, de tão oca que e -
fala sozinha, desamparada
ninguém entende ou se arrepia
os alvos estão todos errados
hoje é um belo novo dia
tão inútil quanto ontem
tão inútil quanto o verso
mal-ajambrado na poesia
escorar a inutilidade
em ser estrangeiro de si mesmo
enquanto a dor dói e marca
hoje e só um belo novo dia
e ninguém vai ligar para nada
são cinco e meia da manha
que parece não ter fim ou fase
vemos granadas sem pinos
foguetes fora de órbita
e tudo é tão sem-vão
é espaço, silêncio e perda
enquanto a vida navega
furiosa na contramão
um dia escuro e cinza
para que tudo seja tão longe
quanto é - sem questão!

@pauloandel

Tuesday, July 16, 2013

Pêssego


dá-me tua calda
doce, arisca
que arde imaginários
e acende o paladar
dá-me tua carne
dourada, macia
em pequenos nacos
e mil delícias
de te experimentar
dá-me teu colo, dorso
os espaços livres
as melhores saliências
e tudo que o doce bom
sabe provocar por si
dá-me teu silêncio
e teus feitiços de amor
numa estampa rija
em porcelana e bordas
e os versos fáceis
que trago na língua
são chantilly em fogo
a te devorar crua! crua!

@pauloandel

Gatas extraordinárias


1

Mal coloquei os pés na areia do Leme, depois de estacionarmos o carro, meu amigo Leo faz um gracejo e duas gatas alucinantes sul-americanas  - venezuelanas, chilenas, qualquer cousa - viraram para trás, sorriram, disseram algo ininteligível e não fizemos nada além de tomar o rumo do mar – agora eu sou um respeitável senhor e não posso ficar de namoricos pelas ruas – o Leo pode – o namoro é tudo. Então rimos, ficamos com o ego inflado por cerca de cinco segundos e tudo virou passado como deve ser.

A pedra do Leme, misteriosa, iluminada, provocante e escura. No térreo, casais namorando, gente olhando para o horizonte como se ali estivesse o fim do mundo, eu pensando em todas as coisas que não deveria ter dito ou escrito hoje e tantas vezes – claro que devia ter dito e escrito, seu idiota! - tudo tão inútil e lindo, seu idiota! – bobagens fascinantes que quase ninguém liga – o tempo jogado fora que jamais voltará – mas disse a verdade! – na verdade não mudaria uma vírgula que fosse! – o amor que não é escrito morre em palavras ao vento -, Leo rindo como sempre e caminhamos. Sempre rindo e sempre cantando, “Tradição” e pensei em Vanessa, que mora por ali.

Houve uma hora em que vimos uma assustadora e gigante pegada de um possível ET em Copacabana. Acontece que o bairro já tem extraterrestres demais, de modo que uma celebridade interplanetária poderia sentir-se incomodada com a concorrência – e, claro, não colocaria seu pezão ali.

Mais um cem metros, duas gatas extraordinárias – lindas coxas - fazem exercício físico na areia para futevôlei ou beach soccer. Demos uma espiada na quadra seguinte, era vôlei mesmo, claro que Caldeira reprovaria.

A praia do Leme era um silêncio de morte.

2

Grandes estruturas de ferro à frente, caminhamos bem perto da orla para que pudéssemos passar, Rimos ao cogitar que algum casal taradão poderia transar ali tranquilamente pois não havia uma viv’alma além de nós e, mais além ainda, é algo bom para os casais: o desafio.

Acontece que a praia mudou. O pessoal já não transa à beira-mar como antigamente. Centenas de metros e nenhum nativo fumando maconha sequer. Ao longe, as luzes da orla e do Forte de Copacabana faziam sua própria Via Láctea – estrelas, estrelas, vizinhas do mar sereno e frio da noite. Todo mundo chama o antigo Meridién de Meridién mesmo, não vai mudar nunca.

Pensamos nos tempos em que éramos escoteiros – talvez sejamos escoteiros pelo resto da vida. Bivaque, jornada, céu aberto e mar sem fronteiras – fogo de conselho. Caminhar na areia é três vezes mais pesado do que em terra firme, tudo muito divertido. Começou a chover antes de chegarmos à bandeirinha de perigo no mar, típica para estrangeiros.

Metros adiantes, garotas suculentas no Balcony procurando clientes para sexo, a velha Help resiste arduamente. Algumas delas sempre provocam uma pergunta: “O que você está fazendo aqui?” – claro que podiam estar em lugares melhores, onde suas curvas e tesão fossem melhor apreciados, mas a vida não é justa, nunca foi e, por isso, tudo é um grande negócio onde hipocritamente as pessoas fingem não ter sentimentos.

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Lentamente, voltamos para o fim do Leme, os aparelhos são confortáveis e divertidos para ginástica, porque nem tudo funciona direito na cidade? Fizemos algumas séries, falamos de mulheres – há coisa melhor? -, das coisas que não entendemos nelas – há coisa pior? -, até futebol, qualquer bobagem. Garotos jogando uma pelada na quadra redonda da praça.

Dez, vinte, trinta minutos, Katia nos liga pra conhecermos seu novo solar – fica num oásis de Copacabana, perto da Chacrinha, coisa de sonho – em cinco minutos estamos ai! – Leo, siga aquele carro! Aumente o volume do Van Halen!

Entramos na rua errada, subimos a ladeira, o segurança da cancela foi muito gentil, contornamos e havia um descidão. No meio, uma loura tipo Elizabeth Shue vinte anos mais nova me chama, pergunta algo, Leo parou o carro: - Vocês querem vaga, estou tirando o meu daqui?  - Dois mil obrigados? – Claro, por favor. Linda de morrer, ficamos embasbacados com sua educação e presteza – definitivamente não era uma mulher qualquer – era longe da casa de Katia, mas é claro que aceitamos, seria uma descortesia não fazê-lo.

Depois de estacionar, o possível namorado, marido, irmão ou pai – não descobrimos – foi bastante simpático. A garota subiu, ele pegou o carro para sair, conversou conosco com fidalguia e nos sentimos bem. Nunca mais veremos aquela linda mulher – mas o que importa? Tudo na vida é efêmero.

Descemos a ladeira.

Que garota linda! Por um segundo, até ocupou meu pensamento.

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A casa de Katia é nova, aconchegante e linda feito a anfitriã. O que podíamos fazer por lá? Rir. Não falamos de nada que nos entristecesse ou quase, mesmo que eu estivesse muito triste – e isso não tem importância. Telefonei para minha gata de chocolate e dei-lhe um beijo de boa noite. Depois, conversamos sobre negócios na sala. Vai dar tudo certo. Um suco de uva delicioso. Ficamos uma hora na prosa, depois todos tinham que dormir.

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Perto de meia noite, mais suco e salgados, agora na Cruz Vermelha. Eu e Leo continuamos não entendendo nada sobre o dia e a noite. Ora, vamos rir, é a única coisa que interessa! Dividimos grana, falamos de domingo, o que vem por aí, a desimportância do futuro por agora.

Dei um abraço no amigo, ele seguiu para outro lado, ainda cumprimentei os chapas no Vieira, o bar sendo lavado como poucas vezes vi.

Tristeza ao ver o morador de rua com suas mil bagagens na calçada enquanto chovia forte.

Garotos fumando maconha perto do posto de gasolina. Adilson simpático na portaria do prédio. Chegaram mensagens do e-mail, várias que não tinha lido e teria sido melhor não ler, tudo sem amor.

Um banho frio. 

Don Airey no velho Hammond, o Deep Purple firme no quarto. Só entende quem namora.

Tudo continua escuro, mas não é o céu do Leme, não é o fim do mundo e o que hoje parece desconforto amanhã à noite vira alívio. Um horizonte é apenas um horizonte e só. Apenas um quarto com luz apagada, som moderado, o teto de bom abrigo e uma noite para se dormir um pouco mal. Todos devíamos ter um botão off para os pensamentos, de modo que fossem desligados – ou mesmo deletados. Quem merece atenção além das gatas extraordinárias?

@pauloandel




Monday, July 15, 2013

A via láctea

eu e meu eu
nós dois tão perdidos
feito você
por entre as estrelas
vasculhar o céu
até te encontrar
e entender o que se namora -
eu já não sou o mesmo
e sou muitos
mas cada um dos meus eus
procura a tua luz
num infinito

você tem outro céu
outra estrela ou outro amor
nós somos a mesma via láctea
e trocamos olhares
perigosamente distantes
nenhum avatar é perigo -
a vida é um perigo enorme -
o que eu amo não consigo -
eis nosso mesmo lugar:
meu amor, crime e castigo

eu tenho outro céu
e outra paixão
mas amor é outra coisa:
é procurar a estrela predileta
no meio da via láctea
entre milhares de estrelas
até encontrar você
até encontrar você

o resto do mundo voa longe
as mentiras são tão sinceras
e tudo o que eu namoro
à luz da via láctea
está preso em você
estampado em você

o mundo inteiro contra
e eu pensando
em te querer até o mesmo céu
derreter de paixão
cobiçando
um sereno canto e mãos dadas
enquanto o luar
finge nos prometer -
loucamente temos fé! -
assim seja ou o que será

se o teu Deus
for o mesmo que me chama


@pauloandel

(Sobre "A via láctea", Renato Russo, 1996)

Thursday, July 11, 2013

Beijo III

nossa luz opaca
e alguma Madeleine
na vitrola eletrônica:
você me pede um beijo
mas não diz nada
apenas graceja
e fecha os olhos
mergulha no mar
das incertezas -
somos lábios contra
lábios, fogo contra
fogo, lábios em chamas
e eu te mordo
eu te namoro e mordo
você tem velas acesas
nas veias e calda
de chocolate no corpo
daí te beijo, beijo
Deus é uma porta aberta
o céu sem fronteiras:
duas almas nuas
satisfeitas enquanto o chão
parece infinito
e o diabo veste azul
num lençol retorcido

@pauloandel

Wednesday, July 10, 2013

Verões do Leme


viste o meu sorriso
e disseste: eu sou
teu luar de praia
enquanto navegamos
com toda calma
em busca de perdão -
eu não! – eu não!
meu pecado
é tempero quente
de amortecer
a tua devassidão
até provocá-la
subvertê-la
chacoalhar tudo
e deixar
cada coisa devidamente
fora de seu lugar

@pauloandel

Tatiana


quem aqui
te pediu romance?
nuance?
alguma chance?
meu amor, você perdeu
a calçada de pedra
num único lance
e deslumbrou-se
num céu de esmeraldas
eu não sou daqui
nem num instante
eu tenho outro lugar
e não preciso de você
enganou-se por soberba
e desfez a noção da hora:
eu tenho tempos modernos
e dispenso as preces -
sei muito bem do meu agora

@pauloandel



Pra quê

Por Susan Sontag e Miles Davis

Cai o dia e penso numa pergunta inevitável, demolidora, feito aquelas que agradariam na réplica uma mulher genial como Susan Sontag - The only interesting answers are those that destroy the questions – ou qualquer pessoa genial. Susan gostaria de uma grande pergunta porque a resposta seria irresistível e avassaladora. Então olho para o teto do quarto, nenhuma estrela, uma tristeza enorme por vários motivos e penso mais: que pergunta poderia ser tão demolidora a ponto de exigir uma resposta mortífera? Pois bem, cheguei a uma simples, mas que tem me feito matutar: “Pra quê?”. É que se chega a um ponto da dialética onde o “pra quê?” é definitivo: um sinal claro da desnecessidade, da desimportância do que se está fazendo ou querendo. Mas não é apenas um “pra quê?” no sentido de se estabelecer a compreensão das coisas ou pessoas, mas sim para investigar a utilidade, a importância delas, principalmente quando investimos tempo e energia demais. Uma certa hora, você se dá conta do tempo que está perdendo com uma coisa, pessoa, ideia ou sentimento e questiona: pra quê? Uma briga, uma cantada, uma troca de ideias, uma tentativa de aproximação ou conquista de harmonia, uma reconciliação, uma busca de amizade, uma integração intelectual, qualquer conversa fiada e tudo sai ao contrário, tudo é longe do que se queria, muitas milhas depois, nada tem a liga necessária, é como se você se olhasse diante do espelho: pra quê? A amizade, o carinho, o amor, a atenção, o cuidado, a preocupação, o respeito, o interesse no outro, na outra ideia, na outra compreensão, tudo sobre coisas que não oferecem contrapartida, retorno ou mínimo cuidado do outro lado daquela dialética, você respira fundo, reflete, caminha nos pensamentos e a pergunta é inevitável: pra quê? O futuro é o próximo segundo, os planos que não são realizados, os sonhos que não vão virar realidade mesmo por que nada indica isso, as ideias que não têm chance de sair do papel, os anseios que não tomam corpo e tudo se dilui numa modesta pergunta, à beira do simplório: pra quê? Que ninguém se engane: esta reflexão típica de um bebum em seu habitat natural não é amarga nem fria e nem oca – ela tem a ver com o que fazemos de nosso tempo até ele se tornar perdido e inútil – e nos tempos modernos o tempo é tudo – eu não tenho mais o tempo de antes e cada segundo meu precisa agora durar um dia – pra quê? Pra quê? A vida é hoje, o futuro é a morte e você perde preciosos minutos ou horas no meio do nada em busca do lugar nenhum? Pra quê? Agora estou triste, o tempo não é mais o mesmo e, olhando para trás, vejo quanto tempo gastei em minha vida com dialéticas inúteis e sem sentido quando tudo o que eu precisava, bem antes, era ter olhado naquele mesmo espelho e perguntado: pra quê? Agora não tenho esperanças, o mundo é uma tarde de inverno, a vida é em vão, o que resta é esmolar o tempo, os segundos, subir à lua, dez anos a mil ou a um milhão, o sol nascerá e tudo teria sido poupado se eu tivesse feito a pergunta definitiva a mim mesmo, aquela que nenhuma pergunta destrói e desapontaria Susan Sontag: pra quê? Agora é só uma tarde de inverno, ensinar procedimentos a uma linda estagiária, ver o céu de gris e réstias do sol, chorar pelos mendigos sofridos no centro de uma grande capital, ver os prédios das grandes corporações abarrotados com números e gente como figurantes de um cenário qualquer, pagar contas, correr pelo trabalho, estudar o que não se quer, namorar quem não se ama, engolir compromissos à toa, tudo é bonito ou lindo de morrer, mas falta charme e nada ocupa minha cabeça que não seja uma mísera e fugaz pergunta: pra quê? Pra quê? Pra quê? The only interesting answers are those that destroy the questions – The only interesting questions have no answers away.



@pauloandel

O ballet da balada da morte

morremos tão jovens
tão longe do que devia ser fim
e agora sorrimos um para o outro
eu, você e nossos corações imperfeitos
perdidos
impecavelmente mortos
sorrimos frente a tudo
a morte foi nosso futuro -
para que planos e sonhos?
vamos viver em paz
na contradição que nos resta
ficamos tão longe do devido
e do razoável ou talvez justo
que renascemos -
e não somos mais do mesmo:
apenas saudável aragem
de um verão que não veio
um amor que apodreceu
e alimentou a terra - deu cria em flores
não quis paz nem guerra -
emudeceu-se, foi bússola
sem norte e fez do vento
o seu voar para outra estação

@pauloandel




Tuesday, July 09, 2013

Apresentação do autor

NOME Paulo-Roberto Andel

NACIONALIDADE Brasileira e do mundo, talvez. Qualquer lugar

LOCAL DE NASCIMENTO Rua do Bispo, Rio Comprido, RJ

DATA DE NASCIMENTO 26 de julho de 1968, dia de minha mãe


INSTRUÇÃO

Colégio Pinguinho de Gente, em Cascadura (1973); Colégio Pernalonga, Arpoador (1974/75), morto; Instituto Santo Antônio de Pádua – o Padão – em Copacabana, sedes Toneleiro e Tenreiro Aranha, ambas mortas (1976/1980, com saltos); Escola Municipal Cícero Penna, Copacabana, muito viva (1981/1982); Colégio Estadual Pedro Álvares Cabral, Copacabana, muito vivo (1983/1985); Facen, atual Universo (1986); UERJ (1988/1994 – 1994/1996); UFRJ (1997/1998); Suesc (2005/2006). Jamais tive uma nota abaixo de 7 de matemática até chegar à UERJ, quando dois zeros puseram minha auto-suficiência abaixo. Tirei três notas 10 em redações nos vestibulares, mas achei que tinha sido sorte. Fui atleta até chegar à universidade; depois disso, garotas, risos e bebidas demais me tiraram de combate. Ganhei campeonatos de futebol de botão e de praia. Razoável jogador de sinuca mata-mata, bom jogador de ping-pong, bom de carteado (mau-mau), razoável de xadrez. Treinei boxe. Basquete também, mas era pequeno - não sou mais.

CASADO

Não, nunca fui, não sei se serei, quase fui noivo mas felizmente desisti. Depois recebi dois pedidos de casamento, mas eram propostas de jerico. Uma mulher me fez pensar nisso à toa – mas sempre -, já que me ignorou solenemente – e devo tê-la amado. Tive várias garotas, espero que mude. Atualmente estou bem. Muito bem.

FILHOS

Ninguém reclamou. Tive sustos e ao menos um grande drama que não cabe aqui. Adoro crianças. Estou velho, mas talvez seja um ótimo pai, se tempo ainda houver.

RESUMO DAS PRINCIPAIS OCUPAÇÕES E/OU EMPREGOS

Ajudante de estrutura para corridas de rua; caixa financeiro da falecida Mesbla; atendente de barraca de praia, professor particular; fiscal de provas de vestibular; vendedor de times de botão; entrevistador na Bienal do Livro – onde certa vez vi o jornalista Boris Casoy chegando ao saguão vestindo um terno impecável e apresentando seu jovem sobrinho de camiseta; estagiário de estatística (Hospital Pinel – onde acessei o pavilhão dos internos por mais de uma vez – a linda estagiária morria de medo de ir; Sindicato Nacional dos Editores de Livros; Federação da Indústria do Estado do Rio de Janeiro; Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado do Rio de Janeiro); dono de loja de discos musicais em duas oportunidades; editor de um site de cronistas de futebol; blogueiro; escritor e poeta, assim me chamam.

INTERESSES/ HOBBIES/ ESPORTES

Durante décadas, joguei campeonatos de botão e ganhei vários, trago isso desde criança. Joguei muito futebol de salão, campo e praia, mas nunca ostentei tal fato porque só idiotas se vangloriam disso num lugar como o Brasil, que tem trocentos mil jogadores. Desde cedo gostei de ler – aprendi a ler e escrever praticamente sozinho, o que assustou minha mãe na sala de casa – meu pai deu de ombros. Lia qualquer coisa, de diversas revistinhas em quadrinhos ao Pasquim (sem entender, lógico, com nove anos de idade). Gosto de muitos esportes, pratiquei corrida, futebol e basquete. Sempre gostei de fazer pequenas viagens, estar em locais diferentes, aprendi nos tempos de escoteiro e, por isso, conheci dezenas de cidades no Rio de Janeiro, mais tarde as capitais do Sudeste, Curitiba, Ponta Grossa, Goiânia - o que sempre causa piadas contra mim - e outrem.

ESPECIAL 

Garotas, futebol e poesia. Música. Escritores da alma.

FAÇA UM BREVE RESUMO DE SUA VIDA, POR FAVOR

Quando nasci, meu pai era comerciante e tinha lojas, uma razoável situação. Vivíamos em Copacabana desde 1968 e, com pequeno intervalo em 1975, lá ficamos até novembro de 1993, pouco mais de 25 anos. Tenha vagas imagens na memória de minha festa de dois anos de idade, feita em nosso apartamento da rua Belford Roxo 284. Minha mãe me levava para passear de táxi e eu é quem fazia o sinal para o motorista. Uma das primeiras expressões que aprendi a falar foi “Não precisa”, quando alguém queria me ajudar a andar. Depois meu pai e meu tio foram presos pela ditadura do AI-5, meu tio foi expulso do país e suicidou-se no exílio em Israel anos depois. Era uma casa de comunistas, ainda é.

Fui criado na praia de Copacabana e nas ruas. 

Nesse tempo, meu pai perdeu tudo, ficamos muito empobrecidos, passamos várias dificuldades financeiras, mas nenhuma fome – trocamos um apartamento de 500 metros quadrados por outro de 40. 

Tive apoio permanente em duas casas: a de Fred, meu amigo falecido em 2009, onde ríamos a valer na adolescência e começo da vida adulta todos os dias, além da casa da família Couceiro, que frequentei quase que diariamente de 1986 a 2000, ao lado de outros amigos como Rafael Epocler, Marco Gomão, Raul Sussekind e Xuru Nunes. 

Em minha casa, durante anos, praticamente só fui para dormir, ainda mais que meu pai desenvolveu alcoolismo e isso criava conflitos violentos. 

Também fui escoteiro durante muitos anos e isso me permitiu contato permanente com a natureza, com pessoas de todas as classes e comportamentos e, sendo Copacabana um bairro de ricos e pobres, isso foi um determinante na minha formação como homem. Por ignorância, mergulhei muitas vezes no mar de Copacabana em dias de tempestade e raios: podia ter morrido. Depois aprendi e nunca mais repeti. 

Sempre estive pouco ligado em diversões eletrônicas e tem sido assim até hoje. 

Embora estivesse quase que diariamente perto das drogas ilegais - todas! todas!-, nunca me interessei por nenhuma delas – aliás, nunca fumei um cigarro de nicotina – mas continuei junto de meus amigos junkies. 

Depois de perder tudo, meu pai voltou a ser gerente em uma das lojas outrora de sua propriedade, depois fez vários bicos – tinha uma formação ótima, mas parecia mais afeito a empregos mais modestos. Minha mãe teve inúmeros empregos domésticos, era uma mulher linda, inteligentíssima, mas de pouca instrução formal, chamava-se Maria de Lourdes e me deu tanto carinho que até hoje eu tento transmiti-lo aos outros. Meu pai se chamava Helio. Os dois faleceram ainda jovens, anos atrás. 

Minha criação foi anárquica: jamais meus pais me pediram para fazer qualquer dever de casa, minha mãe gostava que eu faltasse às aulas para assistir desenhos animados em casa, com nove anos de idade meu pai me dava o dinheiro do aluguel para que eu viesse de Copacabana ao Centro para pagá-lo. Pulei vários anos na escola - o primeiro, metade do segundo e três bimestres do terceiro. Também tive um irmão adotivo que, em 2008, insatisfeito com tudo, pegou suas coisas depois de 15 anos de convivência, se mandou e nunca mais falou comigo. 

Aos 17 anos, incentivado pelas minhas notas em Matemática, resolvi escolher uma carreira que me permitisse ter alguma capacitação para ajudar no sustento da família, mas naqueles tempos o salário de professor já era bem ruim. Na fila de inscrição, num susto, escolhi sem clareza o curso de Estatística e isso salvou a minha vida: anos mais tarde, foi o que me permitiu bancar todas as contas da casa até hoje. 

Em paralelo, sempre gostei de escrever, mas tinha vergonha de mostrar aos outros. Meus primeiros textos foram publicados no jornalzinho da faculdade. Em 1999, o grande escritor Rubens Figueiredo indicou meu nome para uma publicação que dirigia – fiquei honradíssimo, vermelho feito uma bandeira comunista e não mandei texto algum. Depois, comecei a escrever em sites e blogs na internet, até que em 2010 publiquei o primeiro de meus três livros, todos sobre o Fluminense e o futebol, nenhum deles com a obviedade oca que se lê nos jornais atuais. Atualmente escrevo um livro de contos – sem futebol - que espero lançar ano que vem ou no outro. Durante minha vida tenho lido um pouco de tudo, talvez possa lembrar de nomes importantes para mim: Ivan Lessa, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, João Saldanha, Achilles Chirol, Glauber Rocha, Maurício de Souza, Torquato Neto, Paulo Leminski, Mauro Santayanna, Paulo Moreira Leite, Zózimo Barroso do Amaral, Tárik de Souza, Jack Kerouac, William Burroughs, John Scott-Fitzgerald, Ernest Hemingway, Carlos Drummond de Andrade, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Carlito Azevedo, Arnaldo Antunes, Patti Smith, Bob Dylan, Leonard Cohen e mais cem nomes óbvios, para desespero de prepotentes invejosos que não sobrevivem ao talento e admiração dos outros. 

Desde 1992 moro no centro da cidade do Rio, antes um lugar abandonado e off, agora na moda com o advento da Lapa e outras quinquilharias. Não tenho parentes próximos, vivo sozinho mas sem solidão, apaixonado noutros anos por um avatar feminino, tenho me relacionado muito bem com uma garota 23 anos mais jovem do que eu – o que, claro, traz à tona um enorme preconceito contra mim - fico sempre com mulheres bem mais jovens, os amigos casados suspiram, suas esposas me odeiam. Alguns de meus melhores amigos são profundamente religiosos e sou ateu – exceto quando penso no avatar. Tenho vários amigos de situações, opções, formações e disponibilidades financeiras diferentes, muitos dizem que sou engraçado e divertido, outros supõem que eu seja intelectualizado - talvez seja, mas seria ridículo falar isso de mim mesmo. É, sou mesmo. Uma realidade. 

Detesto falsidade, arrogância, soberba e falta de solidariedade para com o próximo, tudo coisas que aprendi a combater em casa e, mais tarde, quando ingressei no escotismo. 

Creio que me chamem de poeta porque, embora essa não seja a minha formação acadêmica, acaba aparecendo em meu trabalho de cronista e escritor - também faço poemas regularmente desde sempre.

Minha vida não tem muita badalação: bares, centros culturais, shows de música, cinema, teatro, namorar, futebol, horas de conversa fiada com gente que sequer conheço.

PLANOS FINAIS

Sozinho como sempre fui, mesmo com o mundo ao meu lado - sempre me senti muito, muito sozinho o tempo todo, não importando a mulher ao lado ou o amigo -; alguns amigos mais jovens fazendo companhia; alguma mulher que me ame ou uma enfermeira bonita caso eu não me suicide, risco natural com histórico familiar; o Maracanã e o Odeon ainda vivos, o CCBB também. Livros, discos, quem sabe risos. A vida é hoje, o futuro é a morte, para que planos?

QUEIXA FAVORITA SOBRE O MUNDO CONTEMPORÂNEO

Pessoas arrogantes, nariz empinado, todos serão carne podre ou incinerada numa gaveta, as outras pessoas morrendo e passando fome, isso tudo não tem o menor sentido lógico ou de humanidade.

FAÇA, POR FAVOR, UMA PEQUENA DESCRIÇÃO DO SEU FUTURO LIVRO – OU FUTUROS -, SEU CONTEÚDO E PROPÓSITO, NA SUA OPINIÃO

O próximo é de futebol também, fiz com mais cinco amigos escritores, será um publicação desafiadora em termos de futebol daqui porque mexe em velhos dogmas da “respeitável” imprensa esportiva brasileira. Deve ir para a editora em breve.

O meu livro pessoal é de contos, histórias de lugares e pessoas que conheci, em cidades diferentes como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e talvez Vitória. Um dia. 

Basicamente é expressar meus sentimentos em relação ao que experimentei. Há ficção também, mas o leitor não terá clareza sobre quando é uma coisa ou outra. No fim, fica tudo como ficção, acho. 

Qual a diferença ou importância? Nenhuma.

@pauloandel

Homenagem a "Apresentação do autor", Jack Keroauc, 1961