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Tuesday, May 16, 2017

Saturday, May 13, 2017

brasil cemitério

bem-vindos ao país do caos
absolutamente destruído
bonito pela própria natureza
e apodrecido em suas entranhas

bem-vindos ao oco, ao fútil, ao superficial

a ignorância num jornal nacional

ódio, ignorância e progresso

bem-vindos ao cu do mundo
ao fim da trilha, à troca do homem cordial pelo de neandertal

no fim tem festa, gol roubado
e carnaval - que sensacional

o brasil da alegria numa noite
de finados no cemitério

Wednesday, May 10, 2017

robraco - rap do ódio brasileiro contemporâneo

e agora/ o que vai sobrar depois de todo esse ódio no coração?/ um mar de verborragia em vão/ a felicidade plena da agressão? /"eu matei mais um em nome da limpeza da nação"/ ledo engano, meu irmão/ esse teu reboco não sustenta a construção/ a casa cai e só vai atestar a desilusão/ o que fazer quando um pote de cólera é a orientação?/ o mundo de cabeça para baixo e um homem solitário suicidando a boa intenção/ não se faz justiça com ódio/ no máximo, exacerbação/ você pagando de rei com suas mãos esmolando um punhado de atenção/ está perdido, amigão/ o tiroteio do rancor tem uma bala perdida para cada coração/ a uti do amor está sofrendo de superlotação/ estamos vazios, fudidos, sem humildade para pedir perdão/ buscar uma explicação/ que se foda o outro, comigo não/ e assim atravessamos o pantanal da ingratidão/ vamos matar uns aos outros até sair o grande campeão/ e a constatação/ do vazio de ideias em que nos metemos por presunção/ e agora/ o que vai sobrar deste livro de fel escrito em murais de devastação?/ ódio puro à vista, no débito ou no cartão?/ isso fez de você um grande cidadão?/ um latifundiário da razão?/ não, não, mil vezes não/ apenas uma besta-fera em busca de autopromoção/ no mundo do big brother e da manipulação/ no fim das contas/ apenas um poço de mágoas e putrefação/ há carne podre por todos os lados e viva também/ resultante de tortura e agressão/ manter o teu coração cheio de cólera/ é fazer o jogo do opressor/ o papel do idiota no meio da multidão /o que o amor não constrói/ o rancor não traz solução

@pauloandel

Monday, May 08, 2017

Barão!

Acabei de ler no excelente blog do mestre Jamari França: o Barão Vermelho botou para quebrar em sua volta, jogando em casa - o Circo Voador - e com um novo cantor - Rodrigo Suricato. O poeta não morreu.

Torci como nunca por esta volta: sou fã da banda desde o seu começo, começo mesmo, quando tocavam na antiga boate Holigay da rua do Passeio: voltávamos do Maracanã e lá tinha um quadrinho na porta, escrito com giz. Depois, ficamos como loucos procurando no FM aquela música que até o Ney Matogrosso tinha gravado. O resto todo mundo já sabe: a irresistível pegada rock + blues + MPB vindas de um de seus melhores conjuntos - no coração de todo mundo antes da Legião, dos Paralamas, de geral. De lá para cá já se foram mais de trinta anos, perdas, enganos, vitórias e uma trajetória foda. 

Torci porque sou torcedor do Barão. Vi Cazuza, já conhecido, fazendo loucuras na Ataulfo de Paiva e pouco se importando com a fama. Uma vez conversei com Frejat no ponto de ônibus da rua Figueiredo Magalhães. O poeta Mauro Santa Cecília é de uma simpatia a granel nas redes sociais. Volta e meia eu via o Peninha no supermercado. Podia falar também do meu grande amigo Xuru, da minha amiga Manuela, mas isso tudo seria pequeno diante do principal: o Barão tinha o direito - e até o dever - de prosseguir na carreira musical, sem Cazuza, sem Frejat, com todo o respeito ao gigantismo destes nomes. Quem é que tem que dizer quando uma banda de rock deve acabar? A própria banda e mais ninguém. 

Não conheço o trabalho de Suricato, mas não há nenhuma importância dele ter vindo de outra banda, de um reality show, o que quer que seja - o grande Yes faz isso há anos e todos acham ótimo. A única coisa que importa é a qualidade e mais nada. O show do Circo tem recebido os maiores elogios possíveis.

O Queen não pode nunca mais tocar porque Fred Mercury morreu? Se Jagger ou Richards falecerem, o sobrevivente terá que decretar o fim dos Stones? Façam-me um favor... Deixem os artistas trabalhar! Ouve quem quer, vê quem quer e pronto. Amigos: Maurício Barros, Guto Goffi, Fernando Magalhães e Rodrigo Santos. Em NENHUM lugar do mundo uma banda com tais integrantes seria desestimulada a um retorno, exceto por quem comenta música sem conhecer do assunto. 

Bom demais saber que o Barão Vermelho está de volta. Vivo, feliz, com as pequenas cicatrizes de uma grande história, com toda a vida pela frente - é que o tempo não para, uma pena. Que saudade daqueles 1982/1983.  Mas ainda há muito a fazer. 


Friday, May 05, 2017

Los justiceros virtuales

Eles estão por toda a internet.

São faiscantes.

Coquetéis molotóvi arremessados em moto contínuo. 

Defensores da ordem e da moral. Gente impoluta acima do bem e do mal, inquestionável, senhora da razão, latifundiária da verdade. 

Ai de quem discorde deles. A destruição é fascínio. Ameaças, intimidações e outras expressões típicas do totalitarismo travestido de "opinião". 

Infalíveis, precisos, mortíferos com suas frases de 140 caracteres ou textões que mais parecem tentativas de choques de ordem num grande deserto de ideias. Por ironia este é também um textão. 

A versão tupiniquim de "Social Justice Warriors", SJW, devidamente traduzida para Justiceiros Sociais - JS. Virtuais. Reais. Tanto faz. 

Por trás de algumas eventuais boas intenções, muitas vezes existe a confusão de virulência com convicção e de verborragia com sofisticação argumentativa, características marcantes de quem pretende na verdade oprimir os outros em vez de convidá-los ao papel de leitor, ouvinte, integrante da dialética. "Em defesa da liberdade, eu oprimo". Já dizia o grande artista Enrico Bianco: "A única coisa importante no homem é a sua contradição". Quem se lembra do ditador Figueiredo? "Anistia ampla, geral e irrestrita; quem for contra, eu prendo e arrebento"...

E odeiam, odeiam, odeiam qualquer pessoa que não os aprovem 100% em suas teses nem sempre construídas em momentos de lucidez física, ou nem sempre baseadas em nobres intenções.

Em suas manifestações, em geral o outro é apenas um acessório, um número na grande plateia virtual, cuja disposição deve ser a de ratificar e aplaudir. Um degrau. Caso contrário, morte na fogueira. Racista, fascista, bandido, corrupto et cetera. 

Estão na esquerda, na direita, no centro, no velho, no novo, nas religiões. E explicam muito do que o Brasil se tornou nestes dias de 2017.  Muito mesmo. 

Às vezes parecem militantes políticos, noutras vezes singelos estafetas, noutras apenas suicidas verbais. Mas não se pode negar a coragem - ou a audácia - de expor em público as verdadeiras barbaridades que publicam e/ou compartilham. Em alguns casos, o problema é que não há como não se perceber o tempero que acompanha o prato: a covardia oportunista. 

E quando odeiam a expressão de alguém, o comportamento é padronizado: copiar o dito e escrito para seus semelhantes de virulência, até que seja feita a grande redenção moral por meio de linchamento virtual - Tom Zé, inacreditável vítima deste processo, respondeu com a brilhante canção "Tribunal de Feicebuqui".  

Justiceiros virtuais, a versão cibernética do que já acontece há séculos no Brasil e no mundo, desde os tempos das espingardas até os fuzis de hoje em dia. Os teclados simulam a opressão vista em inúmeras comunidades do país. O que dizer das legítimas áreas indígenas e de tantas outras questões?

Xerifes da opinião. Patrulheiros da manifestação em defesa da pátria, contra a corrupção, contra ou a favor do golpe, contra a ditadura (dos outros). 

Pensando bem, por mais agressivo que seja este cenário de internet - e é -, especialmente nas redes antissociais, ele seria até genuíno se escondesse em alguns casos as verdadeiras intenções dos justiceiros sociais. Em várias ocasiões, elas são bem mais simplórias do que a aparência agressiva da verborragia caudalosa de murais, blogs e outros espaços virtuais. 

Por trás desta cortina de virulência, ódio e verborragia xiita que hoje se espalha pelo Brazil, também batem corações sedentos por láiques, retuites, divulgação da marca pessoal, alívio da carência sentimental, busca de espaço midiático, sensação de poder, inveja, oportunidades profissionais e de outras naturezas. A própria aceitação, ironicamente calcada na negação colérica do outro. Melhor dizendo, recalcada. O desamor em busca do amor.

No fim das contas, um monte de ódio na briga por ser visto/vista, lido/lida, admirado/admirada. Nada muito diferente dos Big Bros da vida. 

O já saudoso Belchior cantava lindamente que o novo sempre vem. Sôfrega e humildemente, aguardamos com alguma esperança. 

Monday, May 01, 2017

Feriado

é difícil demais perceber que não entendemos nada
com nossa nova ordem destrutiva
e a certeza vã da indiferença
o desprezo ao outro, a humilhação
não entendemos o afeto que se encerra
nas mãos estendidas do mendigo
ah, o sucesso que só pode ser dinheiro!
as almas em queda livre e mortal
é difícil demais perceber que não entendemos sequer uma delicada esmola de amor
o egoísmo é a pior forma de solidão
e há quem durma tão tranquilo
desprezamos nossos assassinados
os feridos e mutilados, os inválidos
- o mercado regula, caros amigos!
mas não há existência que resista em ser resumida a uma conta, um número
lá fora, o mundo desaba tão retumbante
e aqui a tristeza é o grande mausoléu
onde iremos guardar tanto ódio, mágoa, arrogância, a pequenez do cotidiano?
os jovens morrem cedo em cassetetes
os velhos morrem sofridos nas macas
e estamos tão tranquilos, indiferentes
que mal existe na dor dos outros, pois?
é difícil demais assumir que pioramos
numa sociedade fascista e tão excludente
copacabana não sorri mais à noite
a avenida são joão é a voz do velório
nunca fomos tão desesperançosos:
Brasil, ame-o ou deixe-o
brasileiro, morra e foda-se
tanto faz pina, ondina, boca maldita, menus
a liberdade é a mesma, meus caros
mais um dia amanhece, enquanto as dores no corpo são entorpecentes
- a solidão é o silêncio de um feriado
você já estendeu tua mão hoje
para quem foi novamente escorraçado?
o que me importa a dor do outro
a felicidade é um tanque de louça à pia
é difícil demais assimilar toda a nossa escrotidão medonha
e o feriado faz cara de pouco ou nada
com seus heróis estúpidos, reacionários
onde foi que erramos a rota e o destino?
a revolução não será televisionada
porque o jornalismo tem hora e preço
na terra esmaecida e fingida, deselegante e insensata por natureza
nunca vamos entender o afeto que se encerra nas mãos enrugadas de um mendigo
na dor do enterro dos meninos
na carne podre que se decompõe diante de sorrisos cínicos e distantes
agora quem abre os braços sou eu
mas não fazemos um país que seja
o brasil é o peito que abriga um coração morto, um cachorro morto na calçada
com seus homens de preto e choques de ordem a gritar
até que a morte nos separe e seja alívio infinito - nem o smartphone é capaz de deter a nova e torpe Idade Média
vamos erguer as mãos para o céu e cantar sobre velhas roupas coloridas
enquanto o mormaço do outono é risco
na pátria mãe dos infelizes fascistas
todos são bem vindos ao velório
e muitos se fazem até de tristes
mas não disfarçam o ódio, a destruição
- mas o que vale é que vai ter sol, uhu!
eu não tenho nada a ver com nada disso
nada, nada, nada, me deixe em absoluta paz!
só o que me interessa é ter o meu país de volta

@pauloandel