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Thursday, April 06, 2017

um minuto de silêncio em memória dos pobres idiotas da objetividade

1


enquanto nos perdemos com vaidades estúpidas, jogamos o que nos resta de humanidade no lixo - e, por isso, as crianças mortas acabam sendo apenas recheios descartáveis de noticiários. ansiamos por modernidades mas vivemos a apoteose do retrocesso. continuamos racistas, misóginos, excludentes, incapazes de perceber a dor dos inocentes mortos, sufocados em bairros de miséria. os nossos salvadores da pátria não vão salvar coisanenhuma que não seja os próprios pescoços - não passam de curruptos sujos de um pau de galinheiro. o futuro é incerto, mas já sabemos que a tendência é piorar. há muitos discursos, ofensas, bravatas mas as ações dormem em banho maria. os pais abraçam os filhos mortos numa guerra estúpida, os inescrupulosos agora são o exemplo do sucesso, a escrotidão é a grande campeã. vamos celebrar nossos tuítes de merda, vamos cantar e dançar pelo fascismo que inunda nossas ruas. um viva à nossa hipocrisia, combustível​ cotidiano de avaliações seletivas. os bacharéis em ignorância venceram a grande batalha imaginária contra a ameaça comunista. ufa! nunca fomos tão livres, felizmente temos nosso Brasil de volta: che mierda. 



2



a verdade é que somos estúpidos demais enquanto sociedade humana. fala-se de liberdade, mas o dinheiro vem forte com ditadura e guerra. defende-se a competição, mas os grandes vencedores são os que praticam o predatismo sem fronteiras. não existe país na terra que tenha dado certo com ódio e indiferença ao outro, com abandono e desprezo. somos estúpidos com nossos vaidosos peitos de pombo a desfilar em redes antissociais e chopincêntis. perfeitos imbecis quando a retórica agressiva é mais importante do que o argumento. ainda somos a terra onde há gente que acredita na combinação letal de leite com manga. essa nossa mistura de boçalidade com falta de ética e de respeito ao próximo ainda vai nos levar, e muito, para baixo do fundo do poço sem fundo. mas o que nos importa são fofocas, ostentações e status virtual. viva a idade média com esmártifone, viva! viva o nosso túmulo da filosofia! nós somos os melhores do mundo de porranenhuma e vamos para frente, galopando.



@pauloandel 


Tuesday, March 28, 2017

a nossa linda paisagem do inferno

parece tão sedutora e faiscante
esta linda visão do nosso inferno
oh, reparem nos olhinhos brilhantes
em frente à vitrine da loja de luxo:
a riquinha indiferente, a menina de rua
a respeitável executiva - não são
todas absolutamente iguais?

irmãs de um mundo cão, puro sangue
com sua banca de jornais ainda viva
e vendendo manchetes importadas
- o asfalto recebe carros importados
os negros estão empilhados no entorno
da praça, livres pelas grandes verdes
- não são todos iguais demais, senhor?

como é linda e delicada a fina estampa
da nossa visão mais limpa do inferno:
a orla, a gente bonita, o atlântico sul
e as crianças nordestinas entorpecidas
com tíner de morte - não são todas extremamente iguais?
- senhor, tende piedade do nosso majestoso inferno
queremos o nosso rio de volta, mesmo com água turva, cheiro de puro sangue apodrecido, realidades editadas mis
o nosso inferno é tão lindo que sequer percebemos o seu maior problema: nós
diabos chinfrins e indiferentes, com a nossa arrogância escarrada e pútrida
fazendo a pose dos sofisticados servis
- diabos estúpidos, sim, finalmente somos radicalmente iguais - e tão sós


@pauloandel

Friday, March 10, 2017

onde foi parar o grande amor desta nação?

afinal de contas
onde foi parar o grande amor desta nação?
estará nas cútis sofridas
deitadas sobre caixas de papelão
e debaixo de marquises? 
ou nas carnes apodrecidas 
sobre as macas mortuárias
do instituto médico-legal? 
existe amor na terra de crânios dilacerados a bala por motivo fútil?
nas carnes apavoradas e trêmulas
das meninas estupradas 
o suor é o desespero
as lágrimas sangrentas das travestis assassinadas
nos incêndios acidentais em favelas
nos conflitos sangrentos de terra
na devastação da vida nativa
o amor é o egoísmo vil
oh, amor desconjuntado e perdido
nas filas de emprego algum
nas portas dos hospitais públicos
e das pobres mulheres em visita
aos presídios
o amor faleceu no olhar dos meninos
mendigos
perdido no vazio do horizonte
envolto na manta da indiferença
e sobrevive apenas no pequeno pranto
de uma jovem mulher que clama
por justiça
o amor não prevalece numa cidade
vazia
e nem nas revoluções televisivas
onde está o grande amor do nosso país?
será transmitido em cadeia nacional
ou é mero fruto desta ironia
que nos abraça sem afago? 

@pauloandel 

Tuesday, February 28, 2017

meu poema torto

meu poema torto 
é denso, é doce, é temperado
com lagrimalegrias e magoamores
ele não lamenta mas registra
e mora nas entrelinhas
nas vielas das conversas
meu poema torto é freelancer
franco atirador do trôpego romance
e sente as dores das ruas: 
o rancor, a ignorância e o desprezo
o homem que mata o homem e ri
o bobo da corte de camisa amarela
e uma panela vazia de atabaque
meu poema é desencontro: 
o verso que não rima, o jazz fonético
a ida sem vinda, o desapego em cor
o amor que nada espera, o ceticismo
diante das pessoas apressadas 
com suas conversas em smartphones
e desejos inúteis de poder
meu poema torto é uma cidade partida
estraçalhada, tão iludida 
a falsa joia rara de um país fudido
nas mãos de psicopatas analfabetos
é viúvo da valentia ingênua
e reticente diante do caos disfarçado
pelas manchetes de mentira
e novelas de notícias editadas
ah, esse poema que não constrói
não edifica nem serve de exaltação
com exceção dos admiráveis mortos
os miseráveis, os militantes
os batalhadores agora tão mortos
exilados desta escravidão oficial
com tinta fosca de ordem e progresso
o meu poema torto queria outra coisa
outra gente, a de abraços sinceros
tão distantes da dialética corporativa
e dos bares chiques, moderninhos
- o país do futuro é uma pilantragem
- quem vai acreditar nessa merda? 
um garoto é morto a socos e chutes
porque não tem dinheiro para um lanche
uma garota é estuprada à luz do dia
porque um monstro lhe achou oferecida
e os imbecis aplaudem o fascismo
como meio de integração social: 
vamos aplaudir o capitão nascimento
e ignorar a fala de jards macalé
meu poema torto não tem happy end 
- todo mundo vai se fuder no final
nenhum super herói vai nos salvar
meu poema torto é a desilusão
a tristeza em vísceras detalhadas
que nenhum samba comprado lê
- alguma coisa está feito um cochicho
de que aqui jaz a sonora importância
somos a pátria opaca dos banqueiros
dos homens brancos de bem e paz
- os tiros de fuzis são sorrisos cínicos
meu poema torto é a derrota certa
que trago desfraldada num abraço

@pauloandel


Wednesday, February 22, 2017

carne crua II

I

carne crua, trêmula
ofegante
liquefeita
no mar das carícias
em mil predicados 
e um desejo só

carne crua, vadia
namoradeira
instigada pelos gostos
ou os imaginários
deliciantes

carne do gozo
do tesão
um jato, uma lágrima
um coração de alfaia
retumbante 

carne da provocação

um grito, um alívio
o impulso ao chão


II

carne crua, fria
morta
refém da terra má
estirada sem causar
apelo
aos indiferentes

carne vazada, invadida
estraçalhada 
rumo ao inevitável
pedestal
da decomposição

- a carne é nada - é inquilina
do desconhecido

é a primeira página


III

carne ao lado
da carne
as duas estrangeiras
distantes no ofício
perdidas 
enquanto os smartphones
vibram e as músicas 
tocam
as carnes alheias entre si
são saltos e passos
nas próximas estações

@pauloandel 

Friday, February 10, 2017

Meu novo livro - Cenas do Centro do Rio

Paulo-Roberto Andel lança seu primeiro livro de contos, crônicas e poesias, ambientadas em histórias ficcionais - e baseadas em fatos reais - tendo o Centro do Rio de Janeiro como palco, em 98 páginas.

Prefácio de Elika Takimoto, prêmio nacional Saraiva 2015 de literatura infanto-juvenil.

"Sempre que vemos um filme, estamos, na verdade, ouvindo uma história que nos é contada pelo diretor. Este procura os melhores planos, as melhores sequências e coloca a música (ou o silêncio) em um quadro muito bem estudado. Cenas do Centro do Rio de Paulo-Roberto Andel nos dá a sensação de estarmos diante uma tela de cinema. As descrições são precisas a ponto de nos fazerem enxergar o que Andel viu. Mas não falo aqui só de fotografias. Como disse Veríssimo, a principal matéria-prima para uma crônica são as relações humanas e neste livro elas aparecem de forma intensa e diversa."

Direção de Zeh Augusto Catalano.

À venda em www.arlequim.com.br

(Clique para ampliar a imagem)

Tuesday, January 31, 2017

Fuá na casa de Cabral* (ou Eike Batista)

eike batista é o hit parade 
eike batista dá ponto no Ibope
o mundo parou, o rio parou: 
- somos todos cunha! uhu! 
agora temos um detento branco e rico
um salvatore cacciola
garotinho de um dia só
somos doces amebas em frente à TV
vestimos as camisas amarelas
e gritamos, berramos, deixamos fluir
o rio caudaloso da nossa ignorância
eike batista é petista
eike batista é comunista
desde os tempos da rússia pelada
e não tem celular - é um detento comum
no meio da quebrada tem um desafio
fazer um dedo de seta sair redivivo
como se fosse um samba de belo:
paratodos, vale o escrito! o escrito!
se eike pode ser preso, lula também!
vamos acabar com a corrupção 
e os pobres diabos que se matem
nos assaltos e arrastões, nas rebeliões
- essa gente não deveria existir! 
eike batista vai falar toda a verdade
e temos um big brother da realidade: 
todos ao tribunal do paredão! agora! 
o juiz beiçudo precisa defender a lei
só os idiotas estão realmente felizes
nas cadeias as panelas não batem
eike batista é hashtag e pauta pronta
um injustiçado desse maldito esquema
- vai ter fuá na casa de cabral à vera! 
um pobre diabo gritou "tchau, querida!"
sem perceber a primeira-dama recolhida
numa formação de clássica quadrilha
um vão pateta quer ver o couro comer
o mineirinho deita e rola, debocha a valer
eike batista é a nova novela das oito
o juiz zavascki já faz parte do passado
ordem e progresso no país das bestas
eike batista é o vilão da hora
eike batista não vem da senzala
hoje é um lindo dia, o primeiro de todos
onde seremos todos inúteis, inúteis
e nos enxergamos tão importantes
heróis da datilografia militante oca! 
acreditamos na capa da revistinha
- somos todos william bonner! lindo!
nós aprendemos tudo no fantástico
e corremos para as livrarias modernas
atrás de livros e livros de altajuda
com até 130 páginas e letras grandes
- somos todos miami! vá pra cuba!
nossos escroques já foram melhores: 
ditadores, crápulas e elegantes bicheiros
- somos todos selfies e likes! uhu! 
o carnaval está chegando, depois vemos
onde o fim do mundo ainda vai parar 
- somos todos cerveja da boa e caos
(ainda bem que somos ricos demais)
(o mal do homem é a ignorância vilã)
até o próximo crânio de criança vazado
por uma maldita bala perdida e fria
até o próximo trabalhador assassinado
em troca de trinta reais ou um relógio
(ainda bem que só morre gente na TV)
eike batista é branco, é contratador
no meio do navio negreiro da dor em gris
eike batista vai nos libertar um dia
mas o que dói é sermos tão estúpidos
eike batista vai salvar a voz do brasil
em memória de eldorado dos carajás
(só os mais idiotas acreditam firmes)

@pauloandel

*Mestre Ambrósio 

Cenas do centro do Rio - em 10/02

Clique na imagem para ampliá-la. 


Monday, January 30, 2017

o diabo

encafifado numa poltrona
confortável
e navegando nos canais
da TV a cabo
numa casa aprazível
cercada de luxo e posses
está o diabo
o bode expiatório das mazelas
deste mundo admirável
- o grande e único culpado

ouve e vê as notícias
espantado
com a hipótese
de ser responsabilizado
pelas tragédias cotidianas: 
ele inventou o fuzil, o confronto
o acordo de guerra e paz
- as cabeças decapitadas
- os corações arrancados
um atentado, um crime encomendado
ou um superfaturamento qualquer

um pobre diabo, mero estafeta
das meias verdades do mundo
é o inimigo número um da multidão: 
não cabe em igrejas, templos, cultos
ou rituais de ocasião profana 
restam-lhe a poltrona 
e o controle remoto
para espiar todos os males, os males
suas realizações vis e traiçoeiras:
relatos de um homem comum

o diabo, espantado
com as mortes por motivo fútil
as violências pela insanidade 
e os sentimentos mais mesquinhos,
sujos e vergonhosos, abomináveis
- ele não fez nada além de espiar
as notícias de um grande telejornal
sem boas novas nem promessas
apenas a admirável decadência
humana por demais

uma boa noite e o diabo assustado
receoso pela culpa que lhe cabe
desliga a tv, a luz da sala
e refugia-se na velha poltrona
amiga vermelha e também puída:
ali é um mendigo bem remunerado
completamente desapontado
encolhido sob a imaginária marquise
e gritando por dentro: não, não, senhor
eu não tenho culpa de nada!
sou apenas um pobre diabo humilde
e não arquitetei essa guerra!
vós que tirastes os pecados do mundo
escutai a nossa prece
eu não arranco corações
e não decapito pessoas 
eu não planejo atentados 
e nada tenho a ver com estes fuzis!
o que me resta é ser um homem 
desta terra de ódio e incerteza
enquanto cada noite tem horrores
e a insônia santa do caos 


@pauloandel

Saturday, January 28, 2017

tão estranho

é deveras estranho, estranho demais
ver os meus heróis da juventude
tão sisudos e reacionários, integralistas

negando a própria estampa

as minhas garotas foram embora
algumas enricaram, outras nem tanto
muitas faliram as personalidades
e as sãs e salvas agora são silêncio

de saudade ou até desprezo

os homens de sucesso do meu tempo
não passam de ladrões calhordas
reacionários pilantras, hipócritas
foragidos, enjaulados ou sumidos:
nenhuma fala ou foto, nem pista

os formadores de opinião do meu tempo
têm muita opinião e escassa leitura:
sabem tudo sobre o quase nada, grátis
e vivem certezas absolutas da mediocridade

nada disso faz muita diferença ao final
porque poucos entendem o livro escrito
a verdade está nas figurinhas carimbadas
enquanto o sol de verão é a cabeça vazia
enquanto as cores dos dias são tão frias

estamos numa boa esperando, esperando
esperando a pátria passar - ou dar até

@pauloandel