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Tuesday, June 20, 2017

chuva

a chuva incessante ganha as ruas da cidade com força. ruas que viram riachos, bueiros que são meras lixeiras e todos aguardamos a nova tragédia, numa velha repetição de erros e indiferenças. a chuva, que alegra alguns corações e faz o pavor em muitos outros, seja numa encosta ou debaixo de uma marquise. ah, chuva, que engana e não traz paz. chuva que desnorteia os outros corações, tão mendigos, e que ajuda a girar a roda da notícia - viva os sucessos populares! agora todas as regiões são uma longa noite, agora as calçadas bebem goles de inundação, agora a televisão mostra uma banda quase jovem cantando um hino dos antigos: "não sou brasileiro, não sou estrangeiro, não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum". somos de qualquer lugar. a chuva alaga a cidade. talvez não estejamos nem aí para tudo.

@pauloandel


Monday, June 19, 2017

cinismo song

I

Finalmente chegou o dia em que somos todos inúteis. Seja na condição de cracatoas assanhadas da internet, seja pela indiferença cínica que muitos de nós utilizam para lidar com o mundo, seja pela torcida por este liberalismo escroque, a verdade é que somos todos inúteis. O mundo explode em guerras, atentados, cenas violentas, traições da natureza, desencantos mis e continuamos em nossos papéis de cavaleiros da moral internauta. E do alto dos castelos virtuais, assistimos calados ao desgoverno dos pezões e malafaias, à insana escrotidão da república golpista, à farsa nojenta dos veículos de comunicação. Enquanto o mundo gira, o Brasil se espatifa e todos ficamos orgulhosos de nossos murais, dos kkkkkkk e dos mimimi. Achamos o máximo porque somos/supomos ser subcelebridades de porra nenhuma numa superpopulação eletrônica, isso quando não fazemos de tudo para eliminarmos o sub em vão. Kkkkkkk, mimimi, ahahahahahaha e aí está a certidão de nascimento de toda a nossa inutilidade. Este POST é a prova viva de que nos tornamos a sociedade do dia em que somos todos inúteis. O que mais será preciso para virar essa porra toda de cabeça para baixo, sacudir tudo e varrer a sujeira de vez? Não precisamos ser inúteis para sempre, pois. O resumo é de cada um, a tristeza é de todos nós, a conta também. Pôstis e tuítes são supositórios desconfortáveis. Até quando fingiremos que este mundo real não tem o formato desigual, escroto e fadado ao simplório fracasso? Aleluia!

Friday, June 16, 2017

midnight copacabana II

depois de ter visto a miséria e a prosperidade esmolando no mesmo balcão de botequim

e as doces tristes putas aguardando o carro que lhes sirva de sobrevivência

os garotos negros sentados no chão em posição de ataque em frente à porta das Casas da Banha, ignorados por senhoras respeitáveis e marombeiros com esponjas nas mãos

depois de ter visto e ouvido a esquina mais barulhenta do mundo na janela da casa de Marcelo Conde

os garotos fumando maconha e depois jogando football de praia com os operários da grande obra da Avenida Atlântica

e entender que Copacabana não é simples assim

nosso lorde das ruas é um mendigo com seis metros de altura, duzentos quilos e um cheiro indefectível de éter que atravessava três quadras

e que rivalizava com Ramiro, que picava mil papéis na rua Siqueira Campos e, certa vez, acertou um belo soco num reacionário debochado

os quitinetes estão cheios de dor, de luta, mas luxúria quando for o caso raro

generais de pijamas jogam cartas e cheiram pó na varanda de um grande apartamento do Bairro Peixoto

e garotos moderninhos vestidos de preto com camisetas do The Cult, passam apressados com seus copos de bebida alcoólica 

a caminho do Crepúsculo de Cubatão

o jovem poeta Fausto Fawcett cria rapa e poesias no Cervantes, quartel-general da avenida Prado Júnior

e belas garotas passam de carro a caminho do Leme, na Pizzaria Sorrento, perto da casa do ator e lutador Ted Boy Marino

já no outro lado do bairro, no Forte de Copacabana, impera um silêncio austero, enorme, que até finge imprimir um tom sóbrio aos arredores

mas como, se a Galeria Alaska ferve solta com seu interminável carnaval homoerótico? 

eu vi a calma à beira do mar que precede qualquer assassinato por motivo torpe - eu vi os sóis - eu vi três mundos 

todos eles pensativos na calçada do edifício Ritz

amanhã é um outro dia 

Saturday, June 10, 2017

cruzadas de ódio

até quando seremos mortos vivos
em nossas cruzadas de ódio
atravessando o caminho entre o nada
e o nunca
pelo prazer da humilhação alheia? 

desfraldando as bandeiras da estupidez
e gritando gol a cada outro ofendido
somos felizes mortos vivos
a vida é nosso uniforme vestido ao avesso

somos estúpidos, arrogantes e bastante ignorantes: somente assim encontramos nosso lugar ao sol

num dia de céu apodrecido
e o fartum acre das ruas abandonadas

até quando nossa pretensão vai nos guiar até o Olimpo dos idiotas? 
onde não temos respostas 
para nenhuma das nossas perguntas

quando vamos aprender que não passamos de granadas sem pino
efêmeras por natureza 
e que ao menos descuido
nos tornamos grandes bifes podres? 

ou orgulhosos seres primitivos 
da idade da pedra digital? 

será que um dia nos livraremos do consumismo pueril e da indiferença oca?

ou seremos eternas marionetes nas mãos da TV, das grandes corporações, da nossa própria desinformação? 

Tuesday, May 30, 2017

o que fode tudo

todos os dias tem uma bala perdida
uma vida destruída
e idiotas com seus impropérios de mural
a vida escorre sem sentido
as pessoas desesperadas vagam por emprego
outras por crack
e a maioria experimenta uma solidão enorme
todos os dias a TV desfralda suas mentiras em forma de notícias
e brilhantes soluções 
que só atendem o brilho nos olhos dos patrões
a gran finesse da burocracia
todos os dias experimentamos o gosto amargo da derrota
a semana jogada fora à espera da sexta-feira
os pequenos momentos de prazer e fé
porque nos dói aceitar
que tudo é uma merda
que a maioria dos nossos semelhantes
caga e anda para o outro
e quer mais que o outro se foda
de verde e amarelo 
ou com a velha e encardida desculpa
do anticomunismo 
no paraíso do capitalismo volátil
o traficante não percebe que é escravo
o policial não percebe que é escravo
e a escola sem partido é a ditadura de ocasião
todos os dias tem assalto, estupro, hipocrisia e indiferença
a sociedade é muito linda
o que fode tudo é o ser humano
o poeta bem disse: somos uns boçais
incapazes de enxergar quem oprime
ou quem realmente semeia amor
ostentando nossa formação de merda
à base de revistas, jornais e programas de merda
com fanfarrões arrogantes em tom blasè
e a grande representação
está nas caçambas cheias de lixo
os papéis de pó jogados na calçada em frente à escola
os rios destruídos, os índios queimados
os corações estuprados
a revolução não será televisionada
porque seus donos são porcos estúpidos
enquanto a maioria ignara
é tão estúpida que não consegue sequer ser individualista
e pensar em si
uhu! eu sou o rei do Facebook
sou bastante tuitado 
e não passo de bosta mole, pastosa
espalhando a apoteose do meu redor
uhu! a globo disse e eu aplaudo
batendo firme as minhas ferraduras
enquanto os caveirões 
são carros alegóricos do carnaval da morte
uhu! eu sou um bosta consumista e minha vida não faz sentido sem um shopping center
uhu! eu sou o prego na balada, o babaca na calçada ostentando bobagens
a cidade amanhece debaixo de mais um nevoeiro
e estamos vigilantes em busca do próximo feriado
o próximo vazio feriado
com nossas piadinhas misóginas, fascistas e totalitárias
porque no fim das contas temos pouco ou nada a dizer
é isso que fode tudo, tudo
sem gozo, deleite e prazer - é pantomina da foda, ilusão tamanha, desfaçatez
é isso que fode tudo
essa mistura de ganância, burrice e egoísmo
essa prepotência idiota
porque é made, made, made
made in Brazil
os mortos viram estatística
os vivos são mera audiência
os votos são o resquício da farsa
e clamamos por Deus, pela família e contra a corrupção dos outros
a nossa é terra debaixo do tapete
somos uns boçais
não entendemos o mínimo necessário
para a sobrevivência
e nada disso será ensinado 

depois do jornal nacional 


Tuesday, May 16, 2017

Saturday, May 13, 2017

brasil cemitério

bem-vindos ao país do caos
absolutamente destruído
bonito pela própria natureza
e apodrecido em suas entranhas

bem-vindos ao oco, ao fútil, ao superficial

a ignorância num jornal nacional

ódio, ignorância e progresso

bem-vindos ao cu do mundo
ao fim da trilha, à troca do homem cordial pelo de neandertal

no fim tem festa, gol roubado
e carnaval - que sensacional

o brasil da alegria numa noite
de finados no cemitério

Wednesday, May 10, 2017

robraco - rap do ódio brasileiro contemporâneo

e agora/ o que vai sobrar depois de todo esse ódio no coração?/ um mar de verborragia em vão/ a felicidade plena da agressão? /"eu matei mais um em nome da limpeza da nação"/ ledo engano, meu irmão/ esse teu reboco não sustenta a construção/ a casa cai e só vai atestar a desilusão/ o que fazer quando um pote de cólera é a orientação?/ o mundo de cabeça para baixo e um homem solitário suicidando a boa intenção/ não se faz justiça com ódio/ no máximo, exacerbação/ você pagando de rei com suas mãos esmolando um punhado de atenção/ está perdido, amigão/ o tiroteio do rancor tem uma bala perdida para cada coração/ a uti do amor está sofrendo de superlotação/ estamos vazios, fudidos, sem humildade para pedir perdão/ buscar uma explicação/ que se foda o outro, comigo não/ e assim atravessamos o pantanal da ingratidão/ vamos matar uns aos outros até sair o grande campeão/ e a constatação/ do vazio de ideias em que nos metemos por presunção/ e agora/ o que vai sobrar deste livro de fel escrito em murais de devastação?/ ódio puro à vista, no débito ou no cartão?/ isso fez de você um grande cidadão?/ um latifundiário da razão?/ não, não, mil vezes não/ apenas uma besta-fera em busca de autopromoção/ no mundo do big brother e da manipulação/ no fim das contas/ apenas um poço de mágoas e putrefação/ há carne podre por todos os lados e viva também/ resultante de tortura e agressão/ manter o teu coração cheio de cólera/ é fazer o jogo do opressor/ o papel do idiota no meio da multidão /o que o amor não constrói/ o rancor não traz solução

@pauloandel

Monday, May 08, 2017

Barão!

Acabei de ler no excelente blog do mestre Jamari França: o Barão Vermelho botou para quebrar em sua volta, jogando em casa - o Circo Voador - e com um novo cantor - Rodrigo Suricato. O poeta não morreu.

Torci como nunca por esta volta: sou fã da banda desde o seu começo, começo mesmo, quando tocavam na antiga boate Holigay da rua do Passeio: voltávamos do Maracanã e lá tinha um quadrinho na porta, escrito com giz. Depois, ficamos como loucos procurando no FM aquela música que até o Ney Matogrosso tinha gravado. O resto todo mundo já sabe: a irresistível pegada rock + blues + MPB vindas de um de seus melhores conjuntos - no coração de todo mundo antes da Legião, dos Paralamas, de geral. De lá para cá já se foram mais de trinta anos, perdas, enganos, vitórias e uma trajetória foda. 

Torci porque sou torcedor do Barão. Vi Cazuza, já conhecido, fazendo loucuras na Ataulfo de Paiva e pouco se importando com a fama. Uma vez conversei com Frejat no ponto de ônibus da rua Figueiredo Magalhães. O poeta Mauro Santa Cecília é de uma simpatia a granel nas redes sociais. Volta e meia eu via o Peninha no supermercado. Podia falar também do meu grande amigo Xuru, da minha amiga Manuela, mas isso tudo seria pequeno diante do principal: o Barão tinha o direito - e até o dever - de prosseguir na carreira musical, sem Cazuza, sem Frejat, com todo o respeito ao gigantismo destes nomes. Quem é que tem que dizer quando uma banda de rock deve acabar? A própria banda e mais ninguém. 

Não conheço o trabalho de Suricato, mas não há nenhuma importância dele ter vindo de outra banda, de um reality show, o que quer que seja - o grande Yes faz isso há anos e todos acham ótimo. A única coisa que importa é a qualidade e mais nada. O show do Circo tem recebido os maiores elogios possíveis.

O Queen não pode nunca mais tocar porque Fred Mercury morreu? Se Jagger ou Richards falecerem, o sobrevivente terá que decretar o fim dos Stones? Façam-me um favor... Deixem os artistas trabalhar! Ouve quem quer, vê quem quer e pronto. Amigos: Maurício Barros, Guto Goffi, Fernando Magalhães e Rodrigo Santos. Em NENHUM lugar do mundo uma banda com tais integrantes seria desestimulada a um retorno, exceto por quem comenta música sem conhecer do assunto. 

Bom demais saber que o Barão Vermelho está de volta. Vivo, feliz, com as pequenas cicatrizes de uma grande história, com toda a vida pela frente - é que o tempo não para, uma pena. Que saudade daqueles 1982/1983.  Mas ainda há muito a fazer. 


Friday, May 05, 2017

Los justiceros virtuales

Eles estão por toda a internet.

São faiscantes.

Coquetéis molotóvi arremessados em moto contínuo. 

Defensores da ordem e da moral. Gente impoluta acima do bem e do mal, inquestionável, senhora da razão, latifundiária da verdade. 

Ai de quem discorde deles. A destruição é fascínio. Ameaças, intimidações e outras expressões típicas do totalitarismo travestido de "opinião". 

Infalíveis, precisos, mortíferos com suas frases de 140 caracteres ou textões que mais parecem tentativas de choques de ordem num grande deserto de ideias. Por ironia este é também um textão. 

A versão tupiniquim de "Social Justice Warriors", SJW, devidamente traduzida para Justiceiros Sociais - JS. Virtuais. Reais. Tanto faz. 

Por trás de algumas eventuais boas intenções, muitas vezes existe a confusão de virulência com convicção e de verborragia com sofisticação argumentativa, características marcantes de quem pretende na verdade oprimir os outros em vez de convidá-los ao papel de leitor, ouvinte, integrante da dialética. "Em defesa da liberdade, eu oprimo". Já dizia o grande artista Enrico Bianco: "A única coisa importante no homem é a sua contradição". Quem se lembra do ditador Figueiredo? "Anistia ampla, geral e irrestrita; quem for contra, eu prendo e arrebento"...

E odeiam, odeiam, odeiam qualquer pessoa que não os aprovem 100% em suas teses nem sempre construídas em momentos de lucidez física, ou nem sempre baseadas em nobres intenções.

Em suas manifestações, em geral o outro é apenas um acessório, um número na grande plateia virtual, cuja disposição deve ser a de ratificar e aplaudir. Um degrau. Caso contrário, morte na fogueira. Racista, fascista, bandido, corrupto et cetera. 

Estão na esquerda, na direita, no centro, no velho, no novo, nas religiões. E explicam muito do que o Brasil se tornou nestes dias de 2017.  Muito mesmo. 

Às vezes parecem militantes políticos, noutras vezes singelos estafetas, noutras apenas suicidas verbais. Mas não se pode negar a coragem - ou a audácia - de expor em público as verdadeiras barbaridades que publicam e/ou compartilham. Em alguns casos, o problema é que não há como não se perceber o tempero que acompanha o prato: a covardia oportunista. 

E quando odeiam a expressão de alguém, o comportamento é padronizado: copiar o dito e escrito para seus semelhantes de virulência, até que seja feita a grande redenção moral por meio de linchamento virtual - Tom Zé, inacreditável vítima deste processo, respondeu com a brilhante canção "Tribunal de Feicebuqui".  

Justiceiros virtuais, a versão cibernética do que já acontece há séculos no Brasil e no mundo, desde os tempos das espingardas até os fuzis de hoje em dia. Os teclados simulam a opressão vista em inúmeras comunidades do país. O que dizer das legítimas áreas indígenas e de tantas outras questões?

Xerifes da opinião. Patrulheiros da manifestação em defesa da pátria, contra a corrupção, contra ou a favor do golpe, contra a ditadura (dos outros). 

Pensando bem, por mais agressivo que seja este cenário de internet - e é -, especialmente nas redes antissociais, ele seria até genuíno se escondesse em alguns casos as verdadeiras intenções dos justiceiros sociais. Em várias ocasiões, elas são bem mais simplórias do que a aparência agressiva da verborragia caudalosa de murais, blogs e outros espaços virtuais. 

Por trás desta cortina de virulência, ódio e verborragia xiita que hoje se espalha pelo Brazil, também batem corações sedentos por láiques, retuites, divulgação da marca pessoal, alívio da carência sentimental, busca de espaço midiático, sensação de poder, inveja, oportunidades profissionais e de outras naturezas. A própria aceitação, ironicamente calcada na negação colérica do outro. Melhor dizendo, recalcada. O desamor em busca do amor.

No fim das contas, um monte de ódio na briga por ser visto/vista, lido/lida, admirado/admirada. Nada muito diferente dos Big Bros da vida. 

O já saudoso Belchior cantava lindamente que o novo sempre vem. Sôfrega e humildemente, aguardamos com alguma esperança. 

Monday, May 01, 2017

Feriado

é difícil demais perceber que não entendemos nada
com nossa nova ordem destrutiva
e a certeza vã da indiferença
o desprezo ao outro, a humilhação
não entendemos o afeto que se encerra
nas mãos estendidas do mendigo
ah, o sucesso que só pode ser dinheiro!
as almas em queda livre e mortal
é difícil demais perceber que não entendemos sequer uma delicada esmola de amor
o egoísmo é a pior forma de solidão
e há quem durma tão tranquilo
desprezamos nossos assassinados
os feridos e mutilados, os inválidos
- o mercado regula, caros amigos!
mas não há existência que resista em ser resumida a uma conta, um número
lá fora, o mundo desaba tão retumbante
e aqui a tristeza é o grande mausoléu
onde iremos guardar tanto ódio, mágoa, arrogância, a pequenez do cotidiano?
os jovens morrem cedo em cassetetes
os velhos morrem sofridos nas macas
e estamos tão tranquilos, indiferentes
que mal existe na dor dos outros, pois?
é difícil demais assumir que pioramos
numa sociedade fascista e tão excludente
copacabana não sorri mais à noite
a avenida são joão é a voz do velório
nunca fomos tão desesperançosos:
Brasil, ame-o ou deixe-o
brasileiro, morra e foda-se
tanto faz pina, ondina, boca maldita, menus
a liberdade é a mesma, meus caros
mais um dia amanhece, enquanto as dores no corpo são entorpecentes
- a solidão é o silêncio de um feriado
você já estendeu tua mão hoje
para quem foi novamente escorraçado?
o que me importa a dor do outro
a felicidade é um tanque de louça à pia
é difícil demais assimilar toda a nossa escrotidão medonha
e o feriado faz cara de pouco ou nada
com seus heróis estúpidos, reacionários
onde foi que erramos a rota e o destino?
a revolução não será televisionada
porque o jornalismo tem hora e preço
na terra esmaecida e fingida, deselegante e insensata por natureza
nunca vamos entender o afeto que se encerra nas mãos enrugadas de um mendigo
na dor do enterro dos meninos
na carne podre que se decompõe diante de sorrisos cínicos e distantes
agora quem abre os braços sou eu
mas não fazemos um país que seja
o brasil é o peito que abriga um coração morto, um cachorro morto na calçada
com seus homens de preto e choques de ordem a gritar
até que a morte nos separe e seja alívio infinito - nem o smartphone é capaz de deter a nova e torpe Idade Média
vamos erguer as mãos para o céu e cantar sobre velhas roupas coloridas
enquanto o mormaço do outono é risco
na pátria mãe dos infelizes fascistas
todos são bem vindos ao velório
e muitos se fazem até de tristes
mas não disfarçam o ódio, a destruição
- mas o que vale é que vai ter sol, uhu!
eu não tenho nada a ver com nada disso
nada, nada, nada, me deixe em absoluta paz!
só o que me interessa é ter o meu país de volta

@pauloandel

Thursday, April 06, 2017

um minuto de silêncio em memória dos pobres idiotas da objetividade

1


enquanto nos perdemos com vaidades estúpidas, jogamos o que nos resta de humanidade no lixo - e, por isso, as crianças mortas acabam sendo apenas recheios descartáveis de noticiários. ansiamos por modernidades mas vivemos a apoteose do retrocesso. continuamos racistas, misóginos, excludentes, incapazes de perceber a dor dos inocentes mortos, sufocados em bairros de miséria. os nossos salvadores da pátria não vão salvar coisanenhuma que não seja os próprios pescoços - não passam de curruptos sujos de um pau de galinheiro. o futuro é incerto, mas já sabemos que a tendência é piorar. há muitos discursos, ofensas, bravatas mas as ações dormem em banho maria. os pais abraçam os filhos mortos numa guerra estúpida, os inescrupulosos agora são o exemplo do sucesso, a escrotidão é a grande campeã. vamos celebrar nossos tuítes de merda, vamos cantar e dançar pelo fascismo que inunda nossas ruas. um viva à nossa hipocrisia, combustível​ cotidiano de avaliações seletivas. os bacharéis em ignorância venceram a grande batalha imaginária contra a ameaça comunista. ufa! nunca fomos tão livres, felizmente temos nosso Brasil de volta: che mierda. 



2



a verdade é que somos estúpidos demais enquanto sociedade humana. fala-se de liberdade, mas o dinheiro vem forte com ditadura e guerra. defende-se a competição, mas os grandes vencedores são os que praticam o predatismo sem fronteiras. não existe país na terra que tenha dado certo com ódio e indiferença ao outro, com abandono e desprezo. somos estúpidos com nossos vaidosos peitos de pombo a desfilar em redes antissociais e chopincêntis. perfeitos imbecis quando a retórica agressiva é mais importante do que o argumento. ainda somos a terra onde há gente que acredita na combinação letal de leite com manga. essa nossa mistura de boçalidade com falta de ética e de respeito ao próximo ainda vai nos levar, e muito, para baixo do fundo do poço sem fundo. mas o que nos importa são fofocas, ostentações e status virtual. viva a idade média com esmártifone, viva! viva o nosso túmulo da filosofia! nós somos os melhores do mundo de porranenhuma e vamos para frente, galopando.



@pauloandel 


Tuesday, March 28, 2017

a nossa linda paisagem do inferno

parece tão sedutora e faiscante
esta linda visão do nosso inferno
oh, reparem nos olhinhos brilhantes
em frente à vitrine da loja de luxo:
a riquinha indiferente, a menina de rua
a respeitável executiva - não são
todas absolutamente iguais?

irmãs de um mundo cão, puro sangue
com sua banca de jornais ainda viva
e vendendo manchetes importadas
- o asfalto recebe carros importados
os negros estão empilhados no entorno
da praça, livres pelas grandes verdes
- não são todos iguais demais, senhor?

como é linda e delicada a fina estampa
da nossa visão mais limpa do inferno:
a orla, a gente bonita, o atlântico sul
e as crianças nordestinas entorpecidas
com tíner de morte - não são todas extremamente iguais?
- senhor, tende piedade do nosso majestoso inferno
queremos o nosso rio de volta, mesmo com água turva, cheiro de puro sangue apodrecido, realidades editadas mis
o nosso inferno é tão lindo que sequer percebemos o seu maior problema: nós
diabos chinfrins e indiferentes, com a nossa arrogância escarrada e pútrida
fazendo a pose dos sofisticados servis
- diabos estúpidos, sim, finalmente somos radicalmente iguais - e tão sós


@pauloandel

Friday, March 10, 2017

onde foi parar o grande amor desta nação?

afinal de contas
onde foi parar o grande amor desta nação?
estará nas cútis sofridas
deitadas sobre caixas de papelão
e debaixo de marquises? 
ou nas carnes apodrecidas 
sobre as macas mortuárias
do instituto médico-legal? 
existe amor na terra de crânios dilacerados a bala por motivo fútil?
nas carnes apavoradas e trêmulas
das meninas estupradas 
o suor é o desespero
as lágrimas sangrentas das travestis assassinadas
nos incêndios acidentais em favelas
nos conflitos sangrentos de terra
na devastação da vida nativa
o amor é o egoísmo vil
oh, amor desconjuntado e perdido
nas filas de emprego algum
nas portas dos hospitais públicos
e das pobres mulheres em visita
aos presídios
o amor faleceu no olhar dos meninos
mendigos
perdido no vazio do horizonte
envolto na manta da indiferença
e sobrevive apenas no pequeno pranto
de uma jovem mulher que clama
por justiça
o amor não prevalece numa cidade
vazia
e nem nas revoluções televisivas
onde está o grande amor do nosso país?
será transmitido em cadeia nacional
ou é mero fruto desta ironia
que nos abraça sem afago? 

@pauloandel 

Tuesday, February 28, 2017

meu poema torto

meu poema torto 
é denso, é doce, é temperado
com lagrimalegrias e magoamores
ele não lamenta mas registra
e mora nas entrelinhas
nas vielas das conversas
meu poema torto é freelancer
franco atirador do trôpego romance
e sente as dores das ruas: 
o rancor, a ignorância e o desprezo
o homem que mata o homem e ri
o bobo da corte de camisa amarela
e uma panela vazia de atabaque
meu poema é desencontro: 
o verso que não rima, o jazz fonético
a ida sem vinda, o desapego em cor
o amor que nada espera, o ceticismo
diante das pessoas apressadas 
com suas conversas em smartphones
e desejos inúteis de poder
meu poema torto é uma cidade partida
estraçalhada, tão iludida 
a falsa joia rara de um país fudido
nas mãos de psicopatas analfabetos
é viúvo da valentia ingênua
e reticente diante do caos disfarçado
pelas manchetes de mentira
e novelas de notícias editadas
ah, esse poema que não constrói
não edifica nem serve de exaltação
com exceção dos admiráveis mortos
os miseráveis, os militantes
os batalhadores agora tão mortos
exilados desta escravidão oficial
com tinta fosca de ordem e progresso
o meu poema torto queria outra coisa
outra gente, a de abraços sinceros
tão distantes da dialética corporativa
e dos bares chiques, moderninhos
- o país do futuro é uma pilantragem
- quem vai acreditar nessa merda? 
um garoto é morto a socos e chutes
porque não tem dinheiro para um lanche
uma garota é estuprada à luz do dia
porque um monstro lhe achou oferecida
e os imbecis aplaudem o fascismo
como meio de integração social: 
vamos aplaudir o capitão nascimento
e ignorar a fala de jards macalé
meu poema torto não tem happy end 
- todo mundo vai se fuder no final
nenhum super herói vai nos salvar
meu poema torto é a desilusão
a tristeza em vísceras detalhadas
que nenhum samba comprado lê
- alguma coisa está feito um cochicho
de que aqui jaz a sonora importância
somos a pátria opaca dos banqueiros
dos homens brancos de bem e paz
- os tiros de fuzis são sorrisos cínicos
meu poema torto é a derrota certa
que trago desfraldada num abraço

@pauloandel


Wednesday, February 22, 2017

carne crua II

I

carne crua, trêmula
ofegante
liquefeita
no mar das carícias
em mil predicados 
e um desejo só

carne crua, vadia
namoradeira
instigada pelos gostos
ou os imaginários
deliciantes

carne do gozo
do tesão
um jato, uma lágrima
um coração de alfaia
retumbante 

carne da provocação

um grito, um alívio
o impulso ao chão


II

carne crua, fria
morta
refém da terra má
estirada sem causar
apelo
aos indiferentes

carne vazada, invadida
estraçalhada 
rumo ao inevitável
pedestal
da decomposição

- a carne é nada - é inquilina
do desconhecido

é a primeira página


III

carne ao lado
da carne
as duas estrangeiras
distantes no ofício
perdidas 
enquanto os smartphones
vibram e as músicas 
tocam
as carnes alheias entre si
são saltos e passos
nas próximas estações

@pauloandel 

Friday, February 10, 2017

Meu novo livro - Cenas do Centro do Rio

Paulo-Roberto Andel lança seu primeiro livro de contos, crônicas e poesias, ambientadas em histórias ficcionais - e baseadas em fatos reais - tendo o Centro do Rio de Janeiro como palco, em 98 páginas.

Prefácio de Elika Takimoto, prêmio nacional Saraiva 2015 de literatura infanto-juvenil.

"Sempre que vemos um filme, estamos, na verdade, ouvindo uma história que nos é contada pelo diretor. Este procura os melhores planos, as melhores sequências e coloca a música (ou o silêncio) em um quadro muito bem estudado. Cenas do Centro do Rio de Paulo-Roberto Andel nos dá a sensação de estarmos diante uma tela de cinema. As descrições são precisas a ponto de nos fazerem enxergar o que Andel viu. Mas não falo aqui só de fotografias. Como disse Veríssimo, a principal matéria-prima para uma crônica são as relações humanas e neste livro elas aparecem de forma intensa e diversa."

Direção de Zeh Augusto Catalano.

À venda em www.arlequim.com.br

(Clique para ampliar a imagem)

Tuesday, January 31, 2017

Fuá na casa de Cabral* (ou Eike Batista)

eike batista é o hit parade 
eike batista dá ponto no Ibope
o mundo parou, o rio parou: 
- somos todos cunha! uhu! 
agora temos um detento branco e rico
um salvatore cacciola
garotinho de um dia só
somos doces amebas em frente à TV
vestimos as camisas amarelas
e gritamos, berramos, deixamos fluir
o rio caudaloso da nossa ignorância
eike batista é petista
eike batista é comunista
desde os tempos da rússia pelada
e não tem celular - é um detento comum
no meio da quebrada tem um desafio
fazer um dedo de seta sair redivivo
como se fosse um samba de belo:
paratodos, vale o escrito! o escrito!
se eike pode ser preso, lula também!
vamos acabar com a corrupção 
e os pobres diabos que se matem
nos assaltos e arrastões, nas rebeliões
- essa gente não deveria existir! 
eike batista vai falar toda a verdade
e temos um big brother da realidade: 
todos ao tribunal do paredão! agora! 
o juiz beiçudo precisa defender a lei
só os idiotas estão realmente felizes
nas cadeias as panelas não batem
eike batista é hashtag e pauta pronta
um injustiçado desse maldito esquema
- vai ter fuá na casa de cabral à vera! 
um pobre diabo gritou "tchau, querida!"
sem perceber a primeira-dama recolhida
numa formação de clássica quadrilha
um vão pateta quer ver o couro comer
o mineirinho deita e rola, debocha a valer
eike batista é a nova novela das oito
o juiz zavascki já faz parte do passado
ordem e progresso no país das bestas
eike batista é o vilão da hora
eike batista não vem da senzala
hoje é um lindo dia, o primeiro de todos
onde seremos todos inúteis, inúteis
e nos enxergamos tão importantes
heróis da datilografia militante oca! 
acreditamos na capa da revistinha
- somos todos william bonner! lindo!
nós aprendemos tudo no fantástico
e corremos para as livrarias modernas
atrás de livros e livros de altajuda
com até 130 páginas e letras grandes
- somos todos miami! vá pra cuba!
nossos escroques já foram melhores: 
ditadores, crápulas e elegantes bicheiros
- somos todos selfies e likes! uhu! 
o carnaval está chegando, depois vemos
onde o fim do mundo ainda vai parar 
- somos todos cerveja da boa e caos
(ainda bem que somos ricos demais)
(o mal do homem é a ignorância vilã)
até o próximo crânio de criança vazado
por uma maldita bala perdida e fria
até o próximo trabalhador assassinado
em troca de trinta reais ou um relógio
(ainda bem que só morre gente na TV)
eike batista é branco, é contratador
no meio do navio negreiro da dor em gris
eike batista vai nos libertar um dia
mas o que dói é sermos tão estúpidos
eike batista vai salvar a voz do brasil
em memória de eldorado dos carajás
(só os mais idiotas acreditam firmes)

@pauloandel

*Mestre Ambrósio 

Cenas do centro do Rio - em 10/02

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Monday, January 30, 2017

o diabo

encafifado numa poltrona
confortável
e navegando nos canais
da TV a cabo
numa casa aprazível
cercada de luxo e posses
está o diabo
o bode expiatório das mazelas
deste mundo admirável
- o grande e único culpado

ouve e vê as notícias
espantado
com a hipótese
de ser responsabilizado
pelas tragédias cotidianas: 
ele inventou o fuzil, o confronto
o acordo de guerra e paz
- as cabeças decapitadas
- os corações arrancados
um atentado, um crime encomendado
ou um superfaturamento qualquer

um pobre diabo, mero estafeta
das meias verdades do mundo
é o inimigo número um da multidão: 
não cabe em igrejas, templos, cultos
ou rituais de ocasião profana 
restam-lhe a poltrona 
e o controle remoto
para espiar todos os males, os males
suas realizações vis e traiçoeiras:
relatos de um homem comum

o diabo, espantado
com as mortes por motivo fútil
as violências pela insanidade 
e os sentimentos mais mesquinhos,
sujos e vergonhosos, abomináveis
- ele não fez nada além de espiar
as notícias de um grande telejornal
sem boas novas nem promessas
apenas a admirável decadência
humana por demais

uma boa noite e o diabo assustado
receoso pela culpa que lhe cabe
desliga a tv, a luz da sala
e refugia-se na velha poltrona
amiga vermelha e também puída:
ali é um mendigo bem remunerado
completamente desapontado
encolhido sob a imaginária marquise
e gritando por dentro: não, não, senhor
eu não tenho culpa de nada!
sou apenas um pobre diabo humilde
e não arquitetei essa guerra!
vós que tirastes os pecados do mundo
escutai a nossa prece
eu não arranco corações
e não decapito pessoas 
eu não planejo atentados 
e nada tenho a ver com estes fuzis!
o que me resta é ser um homem 
desta terra de ódio e incerteza
enquanto cada noite tem horrores
e a insônia santa do caos 


@pauloandel

Saturday, January 28, 2017

tão estranho

é deveras estranho, estranho demais
ver os meus heróis da juventude
tão sisudos e reacionários, integralistas

negando a própria estampa

as minhas garotas foram embora
algumas enricaram, outras nem tanto
muitas faliram as personalidades
e as sãs e salvas agora são silêncio

de saudade ou até desprezo

os homens de sucesso do meu tempo
não passam de ladrões calhordas
reacionários pilantras, hipócritas
foragidos, enjaulados ou sumidos:
nenhuma fala ou foto, nem pista

os formadores de opinião do meu tempo
têm muita opinião e escassa leitura:
sabem tudo sobre o quase nada, grátis
e vivem certezas absolutas da mediocridade

nada disso faz muita diferença ao final
porque poucos entendem o livro escrito
a verdade está nas figurinhas carimbadas
enquanto o sol de verão é a cabeça vazia
enquanto as cores dos dias são tão frias

estamos numa boa esperando, esperando
esperando a pátria passar - ou dar até

@pauloandel