Caros amigos,
Já cantava o genial Caymmi: “Vida de nego é difícil, é difícil como o quê”.
Mais um treze de maio à vista: cento e vinte e um anos da chamada abolição da escravatura no Brasil: gesto digno, importante, tardio e que, por má execução, acabou não abolindo quase ninguém. Um século e a desigualdade social está ao alcance das mãos, exceto para parlapatões como Demétrio Magnoli, Ali Kamel e o (sempre necessário dizer) parajornalista Mainardiota – todos, sempre com dados estatísticos às mãos e um arsenal de manipulações, aplaudidos por ignorantes deslumbrados que imaginam um Brasil que só existe na Avenida Paulista e na antiga Sernambetiba. Abolição?
Pelas tabelas, há os que vociferam contra o sistema de cotas, tema polêmico, rico e necessário. Reconheço falhas gritantes no sistema vigente, que precisam ser discutidas e realinhadas; entretanto, os mesmos que latem não apresentam qualquer alternativa plausível para a inserção sócio-educacional dos pobres – quando muito, as falácias tão seculares quanto o maio da princesa Isabel: é preciso criar uma “revolução” no ensino fundamental, dizem. Não fosse a hipocrisia de quem a profere, haveria validade plena: de modo algum as classes mais favorecidas têm interesse em revolucionar o ensino público e permitir incrementos aos mais pobres – muito pelo contrário, não admitem publicamente, mas defendem o status quo. Qualquer sujeito sabe que o sistema educacional brasileiro está em processo de degeneração; entretanto, se uma ansiada grande mudança acontecesse a partir de hoje, o que se faria por exemplo com os jovens entre 17 e 19 anos, potenciais estudantes acessando o ensino superior? Enquadrá-los na famigerada Lei de Odracir? Nossos homens de mídia parecem “conhecer” muito de ensino e desenvolvimento, mas são completamente ignorantes em termos de direitos subjetivos. Negar a exclusão social histórica dos negros e seus descendentes no Brasil é vestir na cabeça um chapéu de cone. Em contraprova, os cotistas de meu berço, a querida UERJ, mostraram recentemente melhor pontuação média nas disciplinas, contrastados com os não-cotistas. Esforço hercúleo, dedicação? Ou a comprovação de que o fato dum sujeito ser abonado, ter feito cursinho e ter passado num vestibular público não o torna “mais preparado” do que outro sujeito que, sem as mesmas condições, tenha ingressado na universidade pelo sistema de cotas?
Morri de rir estes dias, lendo um conhecido em seu blógui: faz campanha contra o Bolsa-Família e a vergonha do desvio de dinheiro público. Retrato típico da nação: é funcionário público, ganha quinze mil por mês por um trabalho que, no setor privado, teria um terço dessa remuneração, e vem jogar o problema nos pobres? Um gesto altruísta cairia bem: simplesmente pedir exoneração para poupar o Estado. Ah, isso não.
Há vinte e um anos, ingressei na UERJ, com boa pontuação vestibular num curso de procura restrita, o de Estatística. A ciência em questão mostrava e mostra que, no âmbito nacional, os cursos públicos de graduação com menor relação candidato-vaga tendem a ter um maior número de alunos não-louros-de-olhos-azuis, justamente porque a classe loura-abastada direciona seu poder de fogo e seu preparo “intelectual”, em cursinhos que podem até custar dois mil réis por mês, para os cursos de “doutores”: Direito, Medicina, Odontologia, Engenharia et cetera. Quando você vai a um consultório médico particular ou clínica, não há porque se surpreender no fato de que o médico/ médica que te atende nunca é preto/ preta, nunca é pardo/ parda, nunca é mulato/ mulata. O enfermeiro enfermeira, pode ser. Ah, sim, minha graduação. Começamos com cento e vinte alunos. Quatro pretos. O Brasil é plural. Há advogados pretos, muitos. A minoria, nos grandes escritórios. Quem não se lembra da comemoração feita quando da nomeação do Ministro Joaquim Barbosa para o STF, por ser o primeiro preto lá? Um século de hipocrisia no país da democracia.
O Brasil é plural e convive bem com isso, dizem. Ô. Mas depende da questão geográfica. Em Ipanema, por exemplo, e tão-somente exemplo, bairro-paradigma do Brasil, há muitos pretos. Podem fazer o censo: os locais moram, em sua maioria, nas comunidades de Pavão-Pavãozinho e Cruzada São Sebastião. Pretos na Vieira Souto? Flanelinhas, seguranças de terno ou porteiros. Alguém sabe dizer de algum síndico da famosa avenida litorânea, que seja afrodescendente? Pois é. Por que o Leblon tem mais louros-de-olhos-azuis do que o Catumbi? Por que em Madureira os nordestinos estão mais próximos do empresariado do que no centro da cidade? Por que Japeri tem uma infra-estrutura pior do que o Méier? Há várias respostas; todas, de alguma forma, esbarram num mesmo item: renda.
Mudemos de bairro: comunidade do Jacarezinho. Tem algum morador louro-de-olhos-azuis que esteja cursando faculdade de algum dos cursos que enunciei noutro parágrafo? Cartas para esta redação.
São apenas citações. Não estou aqui tratando de parametrização estatística, embora meu diploma me permita tal chatice. Apenas coloco em discussão algumas máximas insistentemente repetidas pela mídia, repercutidas pelas maritacas falastronas sem a menor reflexão. Em suma, a coisa não é bem do jeito que tentam pintar.
Cotas e bolsa-família, reitero, são paliativos. Paliativos. É preciso mais do que isso se querem transformar o país de verdade. Mas têm importância fundamental no Brasil de hoje, que é bem menos pior do que aquele feito pelo desgoverno de Fernando Henrique. Há muito o que fazer: extinguir deputados que se lixam para o povo, prender bandidos engravatados multimilionários, fazer do Brasil um verdadeiro Brasil – o que é impossível através da “livre-iniciativa” (que nunca foi livre) tão propagada pelos jornais, revistas e patetas de plantão.
Hoje é treze de maio. Falam tanto dos feriados. O país para. Lorotas. A Alemanha também tem. Deveria ser um dia de reflexão para tudo o que acontece nesta terra.
Kamel, Magnoli e Mainardiota são lacaios da renda. Não o fossem, direcionariam seus impropérios contra o movimento nazista veiculado nestes dias pelos noticiários, que está ramificado em todo o Sul Brasileiro.
Não deram uma palavra.
Logo eles, que deveriam se considerar também “afrodescendentes”, num país justo, plural, miscigenado, eqüitativo e que, por isso mesmo, deveria abrir mão do sistema de cotas e do Bolsa-Família.
Sou do tempo em que preto tinha medo de nazista. E branco também.
Paulo-Roberto Andel, 13/05/2009
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Wednesday, May 13, 2009
TREZE DE MAIO?
Tuesday, May 12, 2009
A ÚLTIMA VOZ DO BRASIL!
São quinze pras sete, tá quase na hora
de ouvir pelo rádio a última voz do Brasil
Calem a boca, cantores do rádio!
Tá quase na hora da última voz do Brasil
Vocês não vão saber de nada mais!
Fechem a porta, apaguem as luzes,
acendam as velas para a última voz do Brasil
Em Brasília, dezenove horas!
Aviso aos navegantes: mar de pequenas praias,
calmaria, bóias de luz!
O preço da soja, o dilúvio no Acre
já foram notícias na última voz do Brasil
Os navegadores perderam o rumo,
sem ter as notícias da última voz do Brasil
Vocês não vão saber de nada mais!
Sete e quarenta, tão todos na sala
ouvindo as notícias da última voz do Brasil
Panela no fogo, ampulheta (barriga) vazia,
e aquela folia da última voz do Brasil
Nunca mais vamos ouvir o Guarani
Já passa das oito, barriga vazia
e aquela folia da última voz do Brasil
De agora em diante, é tudo silêncio
e nós nunca mais ouviremos a voz do Brasil
Nosso consolo é ver a TV
Brazil has no more radio service today
Vamos tentar mais uma vez
a última voz do Brasil
A insensatez que você fez
querer ser burguês no Brasil
Atriz atroz, atrás há três
folias de reis no Brasil
E os carnavais nos hospitais
se ouvem na voz do Brasil
de ouvir pelo rádio a última voz do Brasil
Calem a boca, cantores do rádio!
Tá quase na hora da última voz do Brasil
Vocês não vão saber de nada mais!
Fechem a porta, apaguem as luzes,
acendam as velas para a última voz do Brasil
Em Brasília, dezenove horas!
Aviso aos navegantes: mar de pequenas praias,
calmaria, bóias de luz!
O preço da soja, o dilúvio no Acre
já foram notícias na última voz do Brasil
Os navegadores perderam o rumo,
sem ter as notícias da última voz do Brasil
Vocês não vão saber de nada mais!
Sete e quarenta, tão todos na sala
ouvindo as notícias da última voz do Brasil
Panela no fogo, ampulheta (barriga) vazia,
e aquela folia da última voz do Brasil
Nunca mais vamos ouvir o Guarani
Já passa das oito, barriga vazia
e aquela folia da última voz do Brasil
De agora em diante, é tudo silêncio
e nós nunca mais ouviremos a voz do Brasil
Nosso consolo é ver a TV
Brazil has no more radio service today
Vamos tentar mais uma vez
a última voz do Brasil
A insensatez que você fez
querer ser burguês no Brasil
Atriz atroz, atrás há três
folias de reis no Brasil
E os carnavais nos hospitais
se ouvem na voz do Brasil
(Prêmio de melhor letra no Festival dos Festivais, 1985)
Monday, May 11, 2009
Fosco
inenarrável
a beleza,
tão sozinha
no fosco da tarde,
tão sozinha
no vazio da fala,
tão sozinha
frente à multidão,
que significa
essencialmente
a própria
consolação
indesculpável
a beleza,
tão formosa
mas tristonha;
tão delicada
mas tenebrosa;
insaciável
medonha,
desamparada,
dadivosa
inconteste
a paixão,
a secura
e a dor –
pois não?
sem par,
nem cor dão
paulo-roberto andel, 11/05/2009
Friday, May 08, 2009
Meu dia de Mainardiota!

Provei do meu próprio veneno, embora sem as intenções maléficas da maioria.
Não era meu intento, mas cheguei lá.
Tenho inimigos virtuais, tal como Mainardiota, o parajornalista do conhecido e lamentável veículo semanal da Editora Abril. A diferença está nos números, sempre eles: Mdiota tem milhares; eu, três.
Tento analisar as razões. Afinal, meu blógui é desconhecido – embora, sem falsa modéstia, o autor seja de boa cepa. E... não sou capanga de Daniel Dantas ou Gilmar Mendes.
xxxxxxxxxxxxx
Tive alguns inimigos na vida. Poucos.
A maioria deles, até a idade adulta, com vocação para a ignorância atroz.
O chefe de escoteiros do grupo ao qual pertenci; uma besta. Um ex-vizinho, que me acusou de ser homoafetivo quando descobriu que algumas de suas namoradas me fizeram muito carinho. Um chato do quarto andar, que fofocava ruindades entre garranchos e monossilábicos.
A maioria da turba gosta de mim. Amigos, garotas, ex-namoradas até. Meu amor. Minha família. Nunca precisei ostentar isso, tal como se faz hoje em dia: já viram a patetada de redes sociais, blóguis e congêneres com fotos de “casais felizes fazendo juras de amor eternas e emanando felicidade às quatro estações”. Pode escrever; alguém nesta história bate com os chifres no topo da porta. Cada um com sua felicidade. E mentira. Há casos piores, até: o sujeito escrever para si mesmo, fingindo ser um fã ou a pessoa amada. Pode parecer demais, mas tem louco para tudo.
xxxxxxxxxxxxx
Minha vida era tranqüila, até o dia em que entrei para o Centro Acadêmico.
Aí, a corda roeu. Eu era PDT de Brizola – logo, para a extrema-esquerda do PT e para o PSTU, eu era de “direita”. Não riam com o fato de me acusarem de ser direitista, menos ainda pelo fato do PT ter tido, um dia, uma extrema-esquerda.
Os caras da “oposição” eram um saco. Reclamavam todo dia: “O CA é um antro de corrupção. Há evidentes demonstrações de tráfico de influência: eles usam o dinheiro dos alunos para comer coxinha e beber tubaína! E o escândalo das passagens de trem? Pegam todo dia, de graça! Isto tem que acabar! (Nelson Merru, 1986)"
Manter um governo de CA dentro de uma universidade sem pertencer a um partido político é barra. Duramos três anos. Perdemos na quarta. Seis meses depois, o CA acabou.
Minha bolsa de estagiário naqueles tempos de Itamar Franco era de dois salariominimux. Ainda era preciso descontar a compra de cartolina, pincel atômico e o lanche. Não sobrava nada. Éramos felizes de toda forma.
Peguei o diploma, dei o fora e fui viver minha vida profissional, cheia de modelos parabolóides e outras matemáticas.
xxxxxxxxxxxxx
Escrevo para mim e meia-dúzia de amigos, desde a adolescência. Com a modernidade dos blogs, resolvi aderir à causa: expor meu trabalho e minhas opiniões (baseadas em análises de fatos) – não dogmas ou imposições que, vez por outra, algum lunático resolve assumir como senhor da verdade. Aos poucos, fui me aproximando de pessoas simpáticas, intelectualizadas, com talentos em várias áreas do conhecimento. Meu blog na comunidade eletrônica do jornal O Globo passou a receber adeptos. De meia-dúzia, a turba virou cem, duzentos, sei lá. Eu e meu textos, meus poemas e minhas opiniões contra a hipocrisia que reina em Pindorama.
Romário, o filósofo e craque, definiu como ninguém: “Babaca, tem em todo lugar”. Um frasista impecável.
O saldo é positivo até o momento: centenas de mensagens parabenizadoras, vindas de gente que passei a admirar com idolatria – logo eu, um iconoclasta. Os poetas (de verdade) Pedro Du Bois e Ricardo Mainieri estão aí para confirmar, por exemplo.
Gosto do ambiente de blogs. Gosto das trocas.
Você, leitor, perguntará: E os três inimigos?
xxxxxxxxxxxxx
Não é minha vocação dar espaço publicitário para pessoas que, comprovadamente, me prejudicaram inclusive cometendo crimes previstos no Código Penal Brasileiro. Logo, citá-los seria perda de tempo e contra-senso. Três bobalhões. Dois palhaços sem graça e uma Cuca do sítio-do-picapau-amarelo.
Mas, contudo, toadavia (assim mesmo), sou uma pessoa justa: afinal, graças a patetas como estes, até mesmo em função das tolices que já disseram a meu respeito, de certa forma ajudaram a divulgar meu trabalho literário, no que lhes sou grato – embora não valham uma gota de secreção mucosa.
Causam-me curiosidade, pelas características em comum: pessoas da terceira idade rumo à fase final (nicho social ao qual sempre dediquei máximo respeito), com enorme disponibilidade de tempo ocioso (fundamental para malversar pessoas que sequer conhecem em termos pessoais ou de obra); pouco ou nenhum conteúdo respeitável nos diários virtuais que publicam; uma necessidade enorme de auto-afirmação como lideranças virtuais; textos impregnados de citações poéticas (sem o devido crédito dos verdadeiros autores, lamentavelmente) e com altos teores de prepotência, mal-ajambrados com referências do pseudo-realismo místico-fantástico (o que pode ser até o caso de tratamento psiquiátrico); auto-exaltação das personalidades próprias (o que deixa até de ser defeito, devendo ser encarado como humorismo) e mais um calhamaço que não cabe aqui. Em suma, poderiam perfeitamente usar dois pares de tênis, em vez de um, a cada caminhada matinal. E andar de quatro. Lentamente.
Não procurei nenhum dos três para relacionamento virtual. Vieram a meu caminho. Carência? Necessidade de afeto? Transtorno bipolar? Inveja? Desconheço as respostas. Tão logo mostraram má-fé, foram alijados dos contatos de meu ex-blog. Então, preocupados com minha pessoa, mais outros amigos queridos meus, têm perdido o tempo ralo de suas vidas na terra a proferir tolices a meu respeito. Por que não descansam em paz, cremados ou putrefatos dentro da caixa mortuária? Por que não tentam o amor e sexo, tão plausíveis depois dos sessenta? Por que não ler um livro, ouvir um disco, ver um filme? Agregar pessoas, defender boas causas, produzir bons conteúdos blogueiros? Em vez disso, futriquinhas, fofoquinhas, maledicências estúpidas e um enorme sentimento de vazio.
Entender o que meus três detratores têm à mente é tarefa árdua. Não há lógica. Mas é sinal de audiência do meu escrito. E qualidade.
Serei bonzinho.
xxxxxxxxxxxxx
Na Terra, três pessoas não gostam de mim, do que eu escrevo. Falam de esguelha. De araque. Não sabem de nada.
Curtem-se. Identificam-se. Assemelham-se.
Por que não experimentam as delícias do ménage à trois? A idosa, velha maritaca, de lésbica ativa; os dois senis esquisitões, de veadinhos indefesos*? Quac!
xxxxxxxxxxxxx
Assim, me tornei um micro-Mainardiota por um dia. Menos, menos.
Tenho formação superior, formação intelectual e não vendo meu texto para bandidos.
Meu sincero tributo a um dos seres “brasileiros” mais abomináveis.
* Inspirado na crônica "Ano Novo, contas novas", de meu ídolo Ivan Lessa, 2001, JB.
Paulo-Roberto Andel, 08/05/2009
Thursday, May 07, 2009
Wednesday, May 06, 2009
Monday, May 04, 2009
CAVALA

cavala
cavala
por onde nada?
há isca pontiaguda
no encalço
agudo
da tua trilha
há rivais
que te invejam
terras triviais
que te desprezam
cores
que te amedrontam
cavala
cavala
por onde nada?
não te confundo
com a cor opaca
nem com opala
mesmo que você
fuja para outra raia
cavala
cavala
regata de metonímia
lírica
paulo-roberto andel, 04/05/2009
Thursday, April 30, 2009
ESTRICNINA
ligeira, a moça
com seus firmes passos
de juventude à lida
atravessa o boulevard
enquanto
olhares de lascívia
e doçura
escorrem
pelas pedras portuguesas
alguns denotam-lhe
tesão, prazer, perdão,
mas nenhum tem rima -
tão-somente um clima
outros, rejeitados,
sorvem o gosto amargo
da vã desilusão -
é a contramão,
fel à vista,
estricnina
Paulo-Roberto Andel, 30/04/2009
Wednesday, April 29, 2009
Fronteiras
entre a pétala
e o talo,
entre a força
e o fardo,
entre o incêndio
e o rescaldo;
entre o alvo de cortiça
e a agulha do dardo;
entre a secante
e a tangente;
entre a lâmina
e o corte rente;
entre o horizonte
e o zênite;
entre o planeta
e o satélite;
entre o choro
e o desabafo;
entre as frases
e um hiato;
entre o leme
e o pontal;
entre a
última palavra
e o ponto
final.
http://radinho.ning.com/profiles/blogs/otraspalabras-1
Paulo-Roberto Andel, 29/04/2009
e o talo,
entre a força
e o fardo,
entre o incêndio
e o rescaldo;
entre o alvo de cortiça
e a agulha do dardo;
entre a secante
e a tangente;
entre a lâmina
e o corte rente;
entre o horizonte
e o zênite;
entre o planeta
e o satélite;
entre o choro
e o desabafo;
entre as frases
e um hiato;
entre o leme
e o pontal;
entre a
última palavra
e o ponto
final.
http://radinho.ning.com/profiles/blogs/otraspalabras-1
Paulo-Roberto Andel, 29/04/2009
Monday, April 27, 2009
Otrospetiscos
CANTO
canto
porque
meu tanto
é pouco,
o quinhão
que tomo
é
pouco
e a nostalgia
não me
apraz
canto
pelo
sopro,
tênue vento
sem maior
intento
na vida
que não
me
condiz
canto
como verso,
que se
desvela
onde há
segredo,
se desnuda
em meio
ao
pensamento
e não
vulgariza
o amor
que doa
paz
MUDEZ
silêncio,
silêncio:
vocação
lúgubre
da paz
NOT SO LONG
not so long
like a shame
burning
into a wild
heart
down by law
like a trust
shining
on a twisted
mind
not back home,
nor back on top -
just in a breathe,
a squeeze:
handsome love
Paulo-Roberto Andel, 27/04/2009
canto
porque
meu tanto
é pouco,
o quinhão
que tomo
é
pouco
e a nostalgia
não me
apraz
canto
pelo
sopro,
tênue vento
sem maior
intento
na vida
que não
me
condiz
canto
como verso,
que se
desvela
onde há
segredo,
se desnuda
em meio
ao
pensamento
e não
vulgariza
o amor
que doa
paz
MUDEZ
silêncio,
silêncio:
vocação
lúgubre
da paz
NOT SO LONG
not so long
like a shame
burning
into a wild
heart
down by law
like a trust
shining
on a twisted
mind
not back home,
nor back on top -
just in a breathe,
a squeeze:
handsome love
Paulo-Roberto Andel, 27/04/2009
Monday, April 13, 2009
Permita
que
não me permita
confundir
serenidade
com frieza,
mocidade
com beleza,
felicidade
com riqueza
que
não me permita
proclamar
não me permita
proclamar
independência
em covardia,
misturar
indecência
misturar
indecência
na hipocrisia,
deixar rancor
sem fidalguia
que
não me permita
o óbvio, o flácido,
o histérico
e o desamparado,
o colérico
num amontoado,
um retrocesso
a morar do lado
que
não se habilite
que
não se habilite
a insensatez;
só a honestidade
pode me servir
por vez -
a estrela-guia,
pode me servir
por vez -
a estrela-guia,
um azimute
que se inicia
que todo mal
não me permita;
apenas permute
a luz pela luz -
a luz da vida,
todavia
que se inicia
que todo mal
não me permita;
apenas permute
a luz pela luz -
a luz da vida,
todavia
Paulo-Roberto Andel, 13/04/2009
Friday, February 01, 2008
MEU NOVO BLOG
Caro (a) amigo (a),
Esteja convidado (a) a visitar meu novo blog, no endereço:
http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action
Obrigado pela visita!
Paulo.
Esteja convidado (a) a visitar meu novo blog, no endereço:
http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action
Obrigado pela visita!
Paulo.
Wednesday, January 30, 2008
Crônicas Tricolores 5 - Chuva de gols
Caríssimos, em mais um capítulo da maratona de jogos que tem marcado a Taça da Guanabara, nosso Tricolor entrou em campo para mais um compromisso contra o Volta Redonda, o Peñarol do sul Fluminense - com sua garbosa e vistosíssima camisa aurinegra.
Vencemos, não convencemos plenamente, mas o time certamente se recuperou do empate contra a agremiação de Macaé – mais ainda, mesmo que timidamente, fez o que se pode dizer de melhor partida este ano; ao menos, a mais equilibrada em termos de dois tempos, mesmo que a goleada tenha sido desenhada apenas no segundo.
Nem a baixa temperatura de um Maracanã alagado com a chuva ininterrupta atrapalhou o pequeno, mas fiel, contingente dos nossos torcedores. Quase dez mil pessoas em Mário Filho, num dia de águas bravas e trânsito caótico, ainda mais no exótico horário das sete e meia. Com chuva, muita chuva. A sina do Tricolor tem sido a chuva neste 2008.
O time mudou, e para muito melhor, ainda que longe do ideal. Ao contrário dos outros três matches anteriores, facilmente viu-se a mudança de comportamento da equipe. Começamos agredindo, buscando ataque, fazendo pressão na intermediária do Volta Redonda, e tudo isso fez diferença. Mais ainda, compensação pelo nosso ainda precário entrosamento, afora a pouca ênfase de jogadas ensaiadas. Convém ressaltar que, embora a entrada de Júnior pela esquerda, no lugar do indeciso Nery, tenha colaborado para a mudança de atitude do Fluminense, houve uma sacudidela coletiva da meia-cancha para a frente, com todos correndo, brigando e buscando a abertura de resultado. O Volta Redonda, recolhido e respeitoso, não lembrava em quase nada o time de outros tempos – há pouco, decidiu contra nós um título do Rio.
Deixando de lado a nossa paixão, o Tricolor até que demorou para abrir o placar – e, curiosamente, numa das raras jogadas ensaiadas postas em prática, fizemos o tento numa cabeçada de Luiz Alberto, que tinha subido à área em função de um escanteio. Antes, vários chutes tinham sido dados contra a meta dos voltas – e o próprio escanteio que gerou o primeiro gol veio de uma grande defesa do goleiro Edinho, em chute de Dodô. Em suma, poderíamos ali já ter uma vantagem. Percebi evolução, vontade, e a diferença de apenas um gol só era preocupante porque sabemos que, no futebol, o um a zero é um triz – e, ao final da primeira etapa, quase os voltas igualaram o marcador; contudo, Nelson e outros deuses do futebol de Laranjeiras afastaram a bola de nossa meta, o que nos fez vencedores da primeira etapa. Não foi um jogo brilhante do Fluminense, mas raçudo e bem-disposto; parte de nossa torcida vaiou, mas não por uma péssima atuação e sim por saber que o Fluminense pode oferecer muito mais.
O pai-de-santo Tiba não foi visto nas arquibancadas, de modo que não se podia sequer pedir o amparo dos orixás para uma vitória consagradora na fase final. Porém, eu senti o aroma da goleada no vento úmido do Maracanã. Ao meu lado, a amiga Rita parecia cética quanto ao resultado, quando bradei:
“ – Querida, o Fluminense goleará. Espero cinco ou seis gols ao final. Será seis a zero.”
Rita riu da fanfarronice macarrônica que parecia vir das minhas palavras. Contudo, o destino do Tricolor é a vitória, é a conquista. E o que se viu no segundo tempo foi uma goleada retumbante, heróica, digna.
Para desespero daqueles que querem um dos nossos atacantes no banco, todos foram bem na segunda etapa, fazendo do Fluminense um algoz implacável dos voltas. Com dez minutos de segundo tempo, resolvemos a fatura: primeiro, num golaço de Washington em cobrança de falta, bola precisa no ângulo direito, impecável. Os amigos sabem com clareza; há milênios que não temos um finalizador, um centroavante, que tenha o dom da cobrança de falta. Washington tem. Como é importante ver o homem da frente fuzilando o gol adversário com maestria. E, em seguida, com o desespero de Volta Redonda, contra-atacamos e fizemos o terceiro, com o demolidor Leandro tocando rasteiro na saída de Edinho, Leandro que fora municiado por Washington. E, mais uma vez, Washington, em falha no rebote do goleiro, mas mostrando o faro de artilheiro, fez o quarto. Pela primeira vez no ano, ficamos tranqüilos bem antes do jogo terminar. Eu vi Rita e sorri, dizendo-lhe que os dois faltantes viriam para o sexteto retumbante de gols.
Jogávamos em franca velocidade e as jogadas vieram uma atrás da outra. Poderia ter sido mais, e desimporta se disserem que o Volta Redonda está mais fraco, que o Volta Redonda tem menor investimento, que o Volta Redonda já não é o de antes. Vale o que está escrito, e a súmula mostra uma goleada impiedosa, com um Washington esplêndido.
Fomos atrapalhados pelo gol dos voltas, numa desatenção que não pode se repetir. Tomar um gol de bola quicada n’área seria motivo de derrota e crise, se tivéssemos levado primeiro que eles. Falha sim, mas num momento em que podia acontecer. Menos mal.
Eu não destacaria um jogador em especial nesta vitória expressiva, pois acho que o time foi dedicado e aplicado, mesmo com a exuberante partida de Washington. As entradas de Roger e Cícero foram boas. Foi uma vitória de coletivo. Entretanto, cabe a menção um jogador de alto nível técnico que não vinha conseguindo mostrar o que sabe, e que fechou a partida com chave de ouro: Dodô. Sim, amigos, Dodô correu, passou, chutou muito, lutou e foi premiado a dez minutos do fim com um golaço, de artilheiro que sabe matar o goleiro. Um chute fortíssimo, que estufou o ângulo direito do goleiro do Volta Redonda, após dribles na direita da grande área. Um chute para desafogar mágoas. Tenho em mente a bela imagem que foi a do time inteiro vir em volta de Dodô para abraçá-lo; todos esperavam o primeiro grande gol dele com nossa camisa, e aconteceu. E ainda houve tempo para mais uma jogada fantástica dele ao fim do jogo, humilhando o zagueiro da direita e cruzando perigosamente. Agora, sim, vestiu de vez o manto Tricolor. Durante a partida, ao desperdiçar uma oportunidade, Dodô desabafou num rompante que perder aqueles gols tinha a culpa de alguma praga botafoguense, para fartos microfones abertos da imprensa, atrás dos gols - e hoje, alvinegros vociferaram alegando que o artilheiro tinha desrespeitado General Severiano. Para nós, Dodô mostrou, isto sim, um repertório de competência que foi coroado com um golaço – o resto é falácia.
Foi o quarto jogo em dez dias. Não fomos aprovados com honra ao mérito, mas a goleada, as boas jogadas e os vários lampejos de talento, principalmente no segundo tempo, sugerem que um Fluminense forte - mais forte do que nunca - pode estar a caminho. Assim como não jogamos bem com três atacantes no sábado, ontem tivemos excelente jornada no segundo tempo com o trio. E a imprensa esqueceu-se de que ainda temos Dario Conca para estrear.
Veremos o que nos espera pela trilha.
Errei o placar. Atirei no que vi, acertei no que não vi. A goleada é fato.
Paulo-Roberto Andel, 30/01/2008
http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog
Monday, January 28, 2008
Crônicas Tricolores 4 - Um pequeno revés
Caríssimos, a partida de ontem à noite, contra a estreante agremiação auriceleste do Macaé, não foi de boa jornada para o Tricolor, ainda que o resultado final não tenha sido altamente comprometedor para a classificação na Taça da Guanabara. Jogamos mal e, como conseqüência, a partida foi de fraco nível técnico, sem desmerecimento dos valorosos macaenses. Apesar de ser uma peleja limpa, com poucas faltas, foi bastante truncada e com poucos lampejos de criatividade. O empate em dois tentos foi praticamente justo e, se os adversários de Laranjeiras quiserem falar do gol que os estreantes perderam na última finalização do jogo, posso lembrar de dois pênaltis claríssimos a nosso favor – que foram solenemente ignorados pelo rechonchudo árbitro Damásio, bem como sua loura assistente. Voltamos a sofrer dois gols no primeiro tempo e, embora merecidos, eles contaram com um misto de nossa desatenção e o salpicar de sorte.
Tudo começou com a chuva, a mesma chuva que vem nos perseguindo em todas as partidas. Nas arquibancadas, quero destacar a beleza do coletivo intitulado Legião Tricolor, uma torcida que visa exclusivamente apoiar Laranjeiras e, hoje, já repleta de uma multidão como as de torcidas organizadas convencionais. Os legionários, com seus sinalizadores verdes, deram enorme alegria ao estádio. Os quinze mil torcedores viram o Tricolor começando a partida exatamente como das vezes anteriores neste certame: com certa timidez e baixa velocidade. Ontem, um agravante: a má performance de Gabriel, que errou praticamente tudo o que tentou. Doutro lado, Nery foi Nery. Ao contrário do que quer fazer ver a crítica especializada, o problema do Fluminense não está no trio de atacantes. Washington tem voltado para buscar jogo e briga bem como primeiro marcador na intermediária adversária. Leandro, com alguns erros, tem buscado mais a posição de um ponta-direita, com algum resultado. Apagado mesmo, apenas Dodô; porém, é jogador de fartos recursos técnicos e digno de crédito. Creio que o time foi tomado por súbita apatia, sem culpa do ataque, e muitos foram contaminados, de forma que a velocidade não ocorria e o Macaé segurava-se na defesa, com esparsos ataques.
Num momento, quebrando a monotonia do jogo, veio um grande gol, um golaço, daqueles de se pedir bis, daqueles como fez Thiago contra o Caxias: a bola sobrou na entrada da área, mais à esquerda; Neves dominou, viu o experiente Cássio adiantado e colocou a bola no ângulo esquerdo – muitos torcedores, incrédulos, só bradaram o gol quando a bola já estava há muito nas redes. Uma beleza. E tudo indicava que, com o tento sensacional, o Tricolor rumaria para uma grande vitória. Mas não foi o que aconteceu. Logo de cara, os macaés empataram. O camaronês Steve, tal como um ponta-esquerda de verdade, invadiu nossa área após ter dado um drible da vaca no vacilante Ygor. Feita a jogada, fuzilou como se quisesse acertar a esquerda de Diego; contudo, Washington, sim, ele, ao tentar tirar a bola da defesa, resvalou nela – e a pelota beijou violentamente a direita do nosso goleiro, enganando-o por completo. Foi um chutaço, um tirambaço de Jorge Curi, e o empate foi decretado.
Quando tudo indicava que o empate em um seria o ocorrido em Mário Filho na primeira fase, o Macaé virou o jogo, de forma quase inusitada. Num ataque dos amarelados, a bola sobrou dentro da área, à esquerda, para que o mesmo Steve finalizasse, depois de falha inicial de Nery – errando o tempo de bola, o importado acabou cruzando e Jones completou sozinho, diante da atônita defesa. E terminou o primeiro tempo, sob vaias da nossa torcida, com exceção dos admiráveis legionários, sempre a cantar em prol de uma virada no placar. Estamos mal-acostumados por hoje, eu reconheço: a excelência da nossa defesa no ano passado, a segunda melhor no certame nacional, fez com que passássemos a considerar gols adversários como verdadeiro sacrilégio. De qualquer forma, o respeito aos adversários do interior não os credencia a fazer mais de um gol em nossa defesa a cada primeiro tempo. Apesar da má atuação e dos gols sofridos, de toda maneira eu não enxerguei ali um sinal de derrota fragorosa ou de nenhum conserto. O Fluminense pareceu-me desatento até demais, mas capaz de reverter o placar que, ressalte-se, não foi ocasionado pela propalada sobrecarga dos três atacantes, e sim pela falha coletiva.
Voltamos surpreendentemente sem alterações – talvez Renato estivesse convicto de que as orientações de vestiário fossem suficientes. O time, contudo, retornou com a mesma falta de ritmo da primeira fase, incapaz de agredir um Macaé recuado pela vantagem no placar. E então, Renato tentou a diferença ao sacar Gabriel (com justiça) para colocar Cícero mais à frente, passando Marcos Arouca para a direita. Cícero entrou em campo e foi para a área, veio o cruzamento e ele cabeceou para o empate a nosso favor. Pode-se dizer que foi um golpe da sorte Tricolor, uma vez que o jogo já se aproximaria da metade do segundo tempo e reagir nestas circunstâncias, contra um time fechado, é sempre mais complicado. E, por mais sorte ainda, uma vez que o time não se sacudiu, não vibrou, mesmo igualando o marcador – voltamos ao estado original de antes do tento, mesmo entrando Júnior no lugar do apático Nery.
Os vinte minutos finais foram marcados por jogadas inócuas e pelo gol que os macaés perderam, mais os dois pênaltis que não foram marcados a nosso favor. Faltou-nos força para reagir, para traduzir a superioridade do nosso elenco no campo, na peleja. E empatamos, num revés desagradável. Menos mal o empate, a derrota seria injusta e pesada neste momento.
Os mais afoitos poderão enxergar sinais da crise, de que os três ases não podem jogar juntos, de que o time está muito mal. Penso que foi a terceira rodada, o terceiro jogo. Ainda temos tempo. Foi um pequeno revés. Espera-se que alterações sejam feitas, que surjam jogadas ensaiadas, tabelas, triangulações. Grandes gols, já mostramos que somos capazes de fazer.
Temos quatro jogos para chegar às semifinais da Guanabara, e eu acredito nisso. Todos apontam nosso tropeço, nossa falha, e isso é bom: deixemos os louros da glória efêmera para os preferidos da imprensa. Somos a zebra para os desinformados. No momento certo, quando ninguém espera, o Fluminense tornar-se-á o maior favorito de toda a história. Que não duvidem de nossa capacidade. Ela é tão grande quanto os incansáveis e intermináveis gritos de apoio por parte dos legionários.
27/01/2008
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Friday, January 25, 2008
Crônicas Tricolores 3 - O time da virada.
Caros companheiros, ontem foi dia de grande emoção em Mário Filho, dada a vitória garbosa do Tricolor sobre a estreante e qualificada equipe do Duque de Caxias, vinda de uma goleada de cinco contra o América, no inusitado horário de sete e meia da noite. A emoção não se deu propriamente em termos de uma partida eletrizante, embora tenha sido longe da monotonia, mas sim por causa do complicado início de jogo para nós – uma vez que estávamos com o revés de dois gols em vinte e cinco minutos de partida. Falarei disso.
Antes de tudo, a chegada ao estádio. Chamou-me atenção, mais uma vez, a dificuldade enorme que um torcedor tem para adquirir seu ingresso nas bilheterias de Maracanã. Organizaram uma fila para os jovens de meia-entrada, demoradíssima. Testemunhei que bilheteiros estavam exigindo, além da carteira de entidade estudantil, a da escola de origem e, com isso, atestando a inutilidade do primeiro documento, como se garotos de dezesseis anos estivessem ali em sinal de mentira. Outra situação curiosíssima foi a de que as grades das bilheterias estavam abertas por baixo, ao contrário da posição correta e tradicional – o que fazia qualquer sujeito com mais de um metro e sessenta e cinco ter que praticamente ajoelhar-se para falar ao funcionário. No mais, a apoteose dos cambistas, negociando a céu aberto e à frente de um camburão de polícia. Hoje, no Maracanã, é mais fácil pagar a um cambista do que adquirir um ticket em guichê. Havia um público pequeno para um jogo do Fluminense, mas suficiente para uma conturbada compra de ingressos. Passam-se os anos, e a coisa somente piora; seria muito fácil consertar a compra de ingressos, houvesse interesse.
Adentrei Maracanã, e logo deparei-me com dois fatos muito agradáveis: um, ver a seriedade do goleiro Diego em seu aquecimento atrás do gol à esquerda das cabines de rádio. Estava concentrado, firme, dedicado. Nós, como reza a tradição de Laranjeiras, acompanhamos todo o treino em silêncio, sem atrapalhar, como fosse uma reverência à camisa que já foi de São Paulo Victor e São Castilho. Antes de voltar ao vestiário, Diego foi atencioso com os que beiravam o gramado, e gostei disso – o ídolo precisa saber tratar a torcida. Ele sabe. Outro fato bom foi rever em campo meu amigo Rafael Marques, jovem e já veterano repórter esportivo, criado em berço Tricolor apesar das raízes eternas em São Januário. Rafael, também bastante solícito aos fãs, mostrou inconscientemente ali o que é um jogo do Fluminense: uma festa de amigos, de família, onde as pessoas confraternizam.
Quando nosso time entrou em campo, seu líder à frente era o presidente Horcades. Estranhei o fato, por mais que a hierarquia o explique. Trata-se de um senhor, com peso e, ao caminhar lentamente, fez com que o time, respeitosamente, fizesse o mesmo em linha indiana atrás dele. Entendo que a maneira de subir ao gramado deva ser rápida e vibrante. Coincidência ou não, refletiu depois em campo. E o calção grená, pouco afeito à camisa Tricolor, é sempre um fator desconfortável para bons presságios.
O jogo.
Sob chuva leve que, rápida e brevemente apertou, começou o match e os de Caxias mostraram presença. Ataques, dos dois lados; entretanto, os visitantes, de uniforme todo alvo (com mando de campo, neste estranho regulamento) pareciam mais bem-arrumados, com jogadas rápidas e tabelas. Imagino ser um time formado bem antes de janeiro. Logo, Caxias fez um gol, em cima de nosso lado esquerdo, onde estava o titubeante Nery: um cruzamento da direita, rasteiro, forte, e a conclusão do atacante caxiense dentro da pequena área. Era apenas um atacante contra quatro defensores na ocasião, mas a bola veio bem ao feito de um matador. Um a zero para eles.
Apesar da desvantagem, não houve motivo para o temor exacerbado, mesmo que os minutos seguintes tenham mostrado erros em nosso meio-campo e a situação crítica da esquerda de nossa defesa. Conseguimos alguns bons ataques e, em dois deles, o empate esteve iminente: um chute forte de Dodô, por cima da meta, pela direita do ataque; a cabeçada de raspão de Washington, que beijou a trave direita. O ataque, embora bem marcado, parecia movimentar-se bem; Neves chamava o jogo para si e tentava jogadas impetuosas pela esquerda. Mesmo longe do melhor de nossa forma, a confiança na reação era grande.
E então veio uma estocada perigosíssima. Em novo cruzamento nas costas do desorientado Nery, a bola foi escorada na direita de nossa defesa, aconteceu um novo cruzamento e sofremos um golaço, com a finalização de voleio do veteraníssimo Viola em meio à área – um golaço daqueles que merecem aplauso, dignos do canto do cisne de um campeão mundial. Os torcedores de Caxias, trazidos pela prefeitura local e nitidamente disfarçados de sua real origem de coração, a Gávea, vibraram. Tomar um grande gol em qualquer situação pode ser desastroso para um time, ainda mais com uma diferença de dois a zero em menos de meia hora de partida.
O Maracanã foi tomado por um silêncio desconfortável; todavia, o Tricolor não esmoreceu e, ainda que sob certa desordem tática, buscou ataque. Nossa defesa, sempre segura, ali tinha vacilado, também prejudicada pela ausência de Marcos Arouca. Outro fator que atrapalhava, e também junto do nervosismo, era a tentativa nossa de municiar o ataque com chutões, sem a bola no chão e toques. Os de Caxias, bem posicionados, desarmavam os lances sem falta. A meu lado, o amigo Pai Tiba de Oxossi, deliciando-se com o sabor inconfundível de um cachorro-quente, bradava:
“- Viraremos. Será 4 x 2!”
Veio intervalo e a impressão clara de que Renato mexeria na equipe. Os Sussekinds, meus irmãos de fé, estavam num camarote e telefonaram-me, enquanto nos víamos ao longe. Eu avisei que Pai Tiba de Oxossi tinha previsto a virada monumental. Raul, sempre sereno e ponderado, preferiu um pontual realismo ao telefone:
“- Cara, acho que virar é impossível...”
É claro que essa frase veio de um momento de chateação de um grande Tricolor, um instante. Eu, você e todos nós sabemos que, para o Fluminense, nada é impossível. Marcos Caetano, em brilhante texto, certa vez definiu bem que não há buraco nesta terra capaz de tragar o Tricolor. Mesmo que não tão firme em campo, o Tricolor tomou gols mais por falhas pontuais do que por uma má atuação coletiva.
Renato fez as entradas que já se imaginava: vieram novamente Cícero e Júnior César. E o Fluminense tornou-se um titã enfurecido, incontrolável.
Saída do segundo tempo, fizemos ataques e, numa jogada que parecia perdida, o zagueiro craque Thiago roubou magnificamente uma bola à frente da área, e disparou um tiro de canhão na meia-altura direita, indefensável para o goleiro caxiense. Um chute espetacular, violento e preciso, daqueles que fazem qualquer time reagir e vencer qualquer jogo. Um gol antológico, para premiar tudo o que este rapaz tem feito com a camisa do Fluminense e, sem o menor exagero, no mesmo nível de gigantes do nosso passado mais recente, como Ricardo e Edinho. Thiago dificilmente faz faltas, tem um senso de cobertura fantástico, grande posicionamento, carrega bem a bola e finaliza com maestria. É jogador de Seleção Brasileira, para quem entende do assunto. Não reconhecer seu talento só pode ser fruto de cegueira futebolística.
O gol incendiou nossa torcida, a reação no placar era inevitável. E logo empatamos, numa jogada onde Leandro tentou encobrir o goleiro Fernando, mas a bola não ganhou força na direção do gol; de toda forma, serviu como belo lençol e Leandro apenas chegou perto do gol vazio para tocar e decretar o empate.
Ainda tínhamos mais de meia hora para dominar o jogo em números e, ao verem os dois a dois no placar, os caxias certamente sentiram a pressão que havia se estabelecido, bem como a condição física que não era mais a mesma. Ficou claro que vencer a peleja era questão de tempo para nós.
Demoramos um pouco. Houve um gol justamente anulado de Leandro, impedido. Dodô buscava jogo pelos dois lados. Washington vinha marcar na nossa intermediária. Júnior disparava a todo instante pela esquerda. Neves ia e vinha. Em um certo momento, fizemos quatro finalizações em três minutos. O gol não surgia. Contudo, os de Caxias, baqueados, sequer encaixavam um contra-ataque. Era preciso ter paciência, perseverar.
Numa jogada bem parecida com a que gerou a bola na trave, no primeiro tempo, aconteceu o que todos queríamos e precisávamos. Neves cruzou e Washington, definitivo, venceu todos no alto e tocou para o gol, decretando o terceiro tento. Ali, senhores, o jogo encerrou. O Caxias entendeu que, mesmo tendo uma boa performance, não seria páreo para Laranjeiras. E nada mais fez, exceto aceitar sofregamente a derrota de virada.
Renato, prudente, colocou o jovem Maurício para aumentar o poder de marcação, e tirou o aplaudido Washington, nome de hoje e sinônimo de tantas glórias passadas. Ainda perdemos alguns gols, mas a vitória estava selada.
Diverti-me ao final, com o apito do juiz, ao ver os flamengos disfarçados de Caxias, um tanto cabisbaixos, com remorso. Perceberam que, por mais que a Gávea tenha a predileção da imprensa e dos especializados, encarar o Fluminense será uma pedreira de sete mil quedas. Também agradou-me saber da correção profética de Pai Tiba: os gols aconteceram e, se não foram quatro, foi apenas uma questão de validação.
Mostramos força e valentia, mesmo com uma situação de revés na partida. Viramos. Nós somos o time da virada, o time das vitórias no último minuto. E quem duvida de nós na véspera corre o sério risco de engasgar-se ao fim, enquanto bradamos nossa vitória a cada quarta, cada domingo, cada dia onde a nossa centenária e imortal camisa esteja em campo.
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Thursday, January 24, 2008
A respeito de Dora
Falar que Dora era apenas linda pareceria piegas ou diminutivo; para os mais atentos, não deve ter sido muito fácil descrever seu corpo de estátua grega, seu olhar cintilante e o rosto que cairia bem em qualquer passarela. Contudo, não se restringiu em vida apenas à beleza física.
Dora foi uma das grandes atletas brasileiras de todos os tempos, daquelas que um esporte passa a ser comentado por causa da performance dum determinado atleta. Foi assim no passado com Maria Esther Bueno e Aída dos Santos, para deixar dois entre muitos exemplos. Ganhou a América muitas vezes e bateu as ondas gigantes do Hawai. E virou referência de mulher ao mar.
Dora, de beleza infinita e mais que admirável, tinha um jeito de lady européia, tipo de mulher que cai muito bem na virtude de Ipanema com todo o jeito de Mônaco. Falando manso e com muita articulação. Mais ou menos isso. Charme especial, sofisticado.
Passou a vida desafiando as intempéries da natureza, nos mares, solitária em sua realização pessoal no esporte. Não havia alguém para tabelar, trocar passes, não havia nada ao lado - apenas ela e o mar bravio. Terminou a vida ainda jovem, muito aquém do justo e merecido - e, por desagradável coincidência, da mesma forma como sempre viveu: encarando as dificuldades da natureza, sob temporal, e sozinha ao carro onde acidentou-se derradeiramente.
Eu agradeço a Dora pelo que fez pelo esporte do Brasil, sozinha, catando apoios e patrocínios num lugar onde o futebol, nossa apoteose, ainda é tão mal-explorado e vilipendiado por gentes nefastas - e imagine-se dos outros esportes. Mais ainda, em muitas vezes que falou à imprensa, defendendo o direito de mulheres que, por opção, não tivessem se casado, tido filhos e que não fosem homossexuais - assim, combateu de uma vez só o machismo e o "achismo" dos que, em pleno século XX, ainda insistem em ditar comportamentos sobre o que "homem" e "mulher" devem "fazer". Seja o que tenha sido, sozinha que fosse, fãs não lhe faltaram aos pés.
Para os mais próximos, ela deve ter deixado muitas lições.
Para mim, apenas um amador fã à distância, desde minha adolescência, o ensinamento de que a mulher pode - e deve - buscar tanto beleza interior quanto exterior, ter postura, educação, fidalguia, formação intelectual e uma outra qualidade que anda rara no mercado: classe.
Eu adorava ver aquela mulher como numa fotografia, sozinha rumo ao mar, fosse qualquer tempo, carregando sua prancha e trilhando solitariamente o reconhecimento no esporte. Havia algo de atitude, personalidade ali. E linda.
Que esteja bem, tão bem quanto me fez sem nunca ter sabido. Muito bem.
Paulo-Roberto Andel, 24/01/2008
Tuesday, January 22, 2008
Do cansaço
eu, que me mastigo e rumino por vezes
em busca do meu próprio supra sumo,
eu, que me atiro e me estilhaço ao chão,
espalhando-me por dois mil e oito cacos,
eu, que me faço de lenha ao fogo intenso
e viro brasa de alimentar meu incêndio,
eu, que ponho quase tudo a tudo perder
por todo amor e alguma prova d'amizade
eu, tantas e todas vezes eu, tão indivíduo
e tão descrente que todos sejam só um
eu, dilapidado
eu, farto de mim, de meu, dos egoísmos
que se amontoam na gente apressada,
no bom-dia sem qualquer resposta vaga,
no monólogo e no bel prazer dum solo,
canso-me da frieza, da indiferença ao léu,
das pessoas que não sabem mais do Rio,
dos fatalistas que afirmam o fim do jeito,
como se a fidalguia fosse dejeto somente
eu, esgotado, tardo mas quase não falho
e muito há por ainda pastar, regurgitar,
ainda existe uma razão para se espatifar
mesmo que meia-dúzia não seja milhão
Paulo-Roberto Andel, 22/01/2008
http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030
em busca do meu próprio supra sumo,
eu, que me atiro e me estilhaço ao chão,
espalhando-me por dois mil e oito cacos,
eu, que me faço de lenha ao fogo intenso
e viro brasa de alimentar meu incêndio,
eu, que ponho quase tudo a tudo perder
por todo amor e alguma prova d'amizade
eu, tantas e todas vezes eu, tão indivíduo
e tão descrente que todos sejam só um
eu, dilapidado
eu, farto de mim, de meu, dos egoísmos
que se amontoam na gente apressada,
no bom-dia sem qualquer resposta vaga,
no monólogo e no bel prazer dum solo,
canso-me da frieza, da indiferença ao léu,
das pessoas que não sabem mais do Rio,
dos fatalistas que afirmam o fim do jeito,
como se a fidalguia fosse dejeto somente
eu, esgotado, tardo mas quase não falho
e muito há por ainda pastar, regurgitar,
ainda existe uma razão para se espatifar
mesmo que meia-dúzia não seja milhão
Paulo-Roberto Andel, 22/01/2008
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Friday, January 18, 2008
Crônicas Tricolores 1 - Gênese
Hoje, dia dezoito de janeiro, nós, Tricolores, estamos perto de nosso Réveillon, nossa virada de ano. O leitor desatento sabe que, tal como ensinou Nelson Rodrigues, Tricolor só há um, o Fluminense; os outros, com todo o respeito, são times de três cores. Nelson Rodrigues, também somente um.
Depois de quase quarenta dias longe de nossa casa, o Maracanã, é hora de brindarmos o ano novo que surge à frente e muito nos promete. A magia do futebol, que a milhões encanta na Terra, passa pela eterna renovação, a eterna busca e mudança: perde-se numa quarta, quinta é dia de se pensar no clássico de domingo. Contudo, este é um ano especial.
Depois de percalços do passado, nós, que respiramos o ar de Álvaro Chaves, estamos à boca de mais uma temporada, redivivos, firmes como nunca.
Amanhã, começa um desafio vigorosíssimo, que é o de buscar o trigésimo-primeiro título estadual. Porém, se a tradição e alguma superstição possuem força, estamos bem: um poderoso jornal desportivo do Rio realizou um levantamento entre seus analistas de futebol, para que indicassem os quatro primeiros colocados no certame que começará. A grande maioria indicou o Fluminense como vice-campeão do Flamengo, que empataria conosco em títulos regionais. Esse apontado favoritismo da Gávea cai bem.
Nós temos a descrença dos comentaristas como orgulhosa tatuagem no peito.
Não foram poucos nossos times que arrebataram as taças sem que um único analista nos desse o crédito do favoritismo. Relembro 1980, quando diziam ser da Gávea inevitáveis vencedores, ainda mais depois do campeonato brasileiro conquistado à época; contudo, não chegaram sequer à final de um dos dois turnos. Vencedores do segundo, os vascaínos esbanjavam favoritismo e acreditavam que, depois de seguidas derrotas para os flamengos, era chegada a hora da conquista. A chuva e o vento foram prenúncios, e o gol de Edinho foi abençoado por Cartola mais Nelson – assim, Laranjeiras naquele dia venceu mais do que nunca.
Creio que os da Gávea mereçam respeito por manterem o time-base do ano passado, mas nós, Tricolores, bem sabemos que eles não gostam de nos encontrar num jogo final ou decisivo. Há dois anos, quando estivemos perto de ganhar nossa primeira Copa do Brasil, mas perdemos a semifinal para São Januário, minutos após o jogo, houve um foguetório em muitos bairros da Guanabara – ao contrário do que se imaginava, não era a torcida vascaína, mas sim os flamengos, em comemoração de ter o Vasco como adversário em vez do algoz. Não queriam medir forças com o Tricolor, porque o passado os assombra. São fortes as imagens de Benedito de Assis, mesmo depois de vinte e cinco anos, entrando delicadamente pela esquerda d’área, para fuzilar Raul em seu gol de despedida. O golpe mortal de Assis, a cabeçada que pareceu um tiro e fez mágica da geometria ao deslizar no ângulo esquerdo, desnorteando Ubaldo Fillol. A maior vitória de todos os tempos, em todos os mundos, quando Renato encostou sagrada barriga à bola chutada por Aílton e correu de fita na cabeça, risonho, feliz, repetindo um 1950 para o centenário dos flamengos. Em todas, absolutamente todas estas ocasiões, a imprensa e a crítica especializada apontaram o Flamengo como superior, o Flamengo como o grande campeão, mas a glória final teve o destino da nossa casa.
Fizemos um time bom. Voltamos a ter um ataque com poder de fogo, com jogadores de alto nível técnico como Dodô e Leandro, e ainda o nome de Washington - tradicional em posters de campeões Tricolores e, inevitavelmente, um bom presságio. O meio de campo foi reforçado, e creio que Dario Conca possa render bons frutos. Nossa defesa, segura no ano passado, manteve-se íntegra. Para muitos, o gol era nosso sofrimento mais longo, dado que não temos um Paulo Victor há muito. Amanhã, jogará Diego, goleiro que ao ser contratado por nós era tido como o melhor do Brasil, mas que ainda não se firmou. É uma esperança.
Que não se iludam os mais vibrantes, mesmo que tenhamos hoje muita força. Doutro lado, estará o estreante Cardoso Moreira, da simpática e humilde cidade do norte Fluminense. Não virão com a intenção de serem meros coadjuvantes e, mesmo sabedores de tudo o que podemos realizar este ano, o respeito precisa imperar. Teremos o Maracanã como merecemos, nosso, límpido, e cabe-nos a função de abarrotá-lo, de fazer a grande apoteose da gênese, do nosso começo de um ano que pode ser especial.
A semana a seguir vem com mais dois jogos; em caso de boas vitórias, estará selado o passaporte de confiança para a Libertadores de América, que há muito nos espera. Muito falam do “grupo da morte”, que será uma tarefa terrível onde será muito difícil que nos classifiquemos. Para alguns, o futebol é momento, com certa razão; entretanto, basta olhar para nossa trajetória de louros e não será encontrada nenhuma facilidade, nenhuma dádiva. Para o Tricolor, não há títulos de antevéspera, mas sim os de últimos minutos. Nosso costume é o suor, a dificuldade, os olhares reprovadores dos mais sábios; porém, a sala de troféus mais abarrotada fica no vert-blanc-rouge.
Quando o Fluminense está em campo, todo jogo é importante e decisivo, toda taça é fundamental para as nossas mãos. Contudo, este ano é crucial, pois não podemos deixar que os flamengos sequer ameacem um título que trazemos desde a invenção do mundo, que é o de maior campeão desta terra. E há um sonho à vista: o das Américas. Ao contrário da ampla maioria dos especialistas em futebol, temos reais chances de conquistar a Libertadores e arrebatar o único título que nos falta – e o sol da América pode ser também o sol nascente de Tóquio, o sol do nosso bicampeonato do mundo. Sabemos, todos nós, que trata-se de um árduo caminho, tortuoso; entretanto, quando eu entrar amanhã em Mário Filho e subir a rampa, é exatamente neste caminho que estarei imaginando.
Em futebol, muita coisa é tênue, passageira, de modo que previsões têm sempre muita chance de dar em tiros n’água – mas eu acredito no Fluminense, na força do Fluminense, a mesma que nos tirou dos piores momentos e descréditos, a mesma que nos levou a folguedos e festas. Não sei dos títulos que virão, e nem se virão, mas o fato é que hoje, nesse dezoito de janeiro que se encerra, poucos times têm mais potencial de volta olímpica do que o nosso Tricolor de Laranjeiras. O tempo se encarregará do resto.
Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2008
Paulo-Roberto Andel
Thursday, January 17, 2008
Monday, January 14, 2008
Gerúndios
minha amena vida não se pauta em pretéritos;
ela é regada num jardim de gerúndios.
digo não ao mais-que-perfeito, ao subjuntivo.
eu quero também o erro, o defeito, e alguns bons indicativos.
basto-me vivendo, vivendo e aprendendo, aprendendo e respirando, solfejando;
fico sonhando, falando, bebendo e cantando, fazendo e desacontecendo.
eu namorando, amando e remando com a maré, num descansando, repetindo ou reiterando.
eu vou brotando e desfolhando, renascendo das cinzas, dos louros e pêsames, das lembranças.
o gerúndio é meu oxigênio, pretérito mais-do que-erro,
meu erro crasso, meu ir e vir das apressadas ruas.
enquanto eu ando, a vida é agora,
é do endo, indo, do ando sem quando;
é água de riacho que vai rumando;
desce o curso em busca da morte,
longe do hoje, lá no além-mar.
Paulo-Roberto Andel, 14/01/2007
http://www.globoonliners.com.br/icox.php?mdl=pagina&op=listar&usuario=5030&mostrar=meublog&refresh=action
ela é regada num jardim de gerúndios.
digo não ao mais-que-perfeito, ao subjuntivo.
eu quero também o erro, o defeito, e alguns bons indicativos.
basto-me vivendo, vivendo e aprendendo, aprendendo e respirando, solfejando;
fico sonhando, falando, bebendo e cantando, fazendo e desacontecendo.
eu namorando, amando e remando com a maré, num descansando, repetindo ou reiterando.
eu vou brotando e desfolhando, renascendo das cinzas, dos louros e pêsames, das lembranças.
o gerúndio é meu oxigênio, pretérito mais-do que-erro,
meu erro crasso, meu ir e vir das apressadas ruas.
enquanto eu ando, a vida é agora,
é do endo, indo, do ando sem quando;
é água de riacho que vai rumando;
desce o curso em busca da morte,
longe do hoje, lá no além-mar.
Paulo-Roberto Andel, 14/01/2007
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Friday, January 04, 2008
Brevidade
A única coisa realmente importante a dizer no dia de hoje é que eu amo minha mãe.
Muito.
Sempre.
No mínimo, enquanto eu viver.
Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008
Muito.
Sempre.
No mínimo, enquanto eu viver.
Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008
A longa noite - partes I e II
I
quando você foi embora
não deixou rastro, nem cheiro
e nem carta de até mais
o que me parecia delírio
tomou ares de eterna mudez,
de silêncio inconveniente,
que ensurdece e apavora
você foi embora e cerrou meu canto,
rachou meu coração em dois,
ficou um para a vida ingrata,
com suas dores e paixões,
cheia de não e porém, ou talvez
e certeza de quase nada
a outra metade é toda tua
sempre tua, a cada momento
hoje eu não quero ver o sol
nem o mar da praiva vermelha,
basta-me cogitar o teu abraço,
o teu beijo de afago e certa graça
que só mora em teu sorriso,
em tuas piadas de sempre
hoje, não posso apertar a tua mão,
e daí?
todo lugar tem o teu rosto
qualquer frase na tua voz é poema
e cada passo que eu dou
exige o respirar do teu ar
do meu amor solene
teu, perene
II
A longa noite
é longa e morna
é longa e mansa
há noite
há um caminho de pedras
e percalços escondidos
no fúnebre silêncio
imerso em negrume
à própria sorte
a morte à noite
alonga-se a noite, feito um açoite
nas costas nuas dos pretos velhos,
dilacerados em vida
há noite ao norte
para cada estrela que brilha,
mesmo há muito morta,
a estrela estende as mãos
em forma de brilho,
na desilusão da esperança
que não se prende,
não espera quem a alcança
afoito, pela noite,
avançando horizonte
há noite, a longa noite,
doce e traidora noite,
que repousa cativa
no mar da tranquilidade,
no afago secreto da lua,
serpente no monte,
há noite,
a longa noite em riste
é tristeza pintada com aquarela.
Em homenagem à pessoa mais importante de minha vida, minha mãe, Maria de Lourdes Andel.
Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008
quando você foi embora
não deixou rastro, nem cheiro
e nem carta de até mais
o que me parecia delírio
tomou ares de eterna mudez,
de silêncio inconveniente,
que ensurdece e apavora
você foi embora e cerrou meu canto,
rachou meu coração em dois,
ficou um para a vida ingrata,
com suas dores e paixões,
cheia de não e porém, ou talvez
e certeza de quase nada
a outra metade é toda tua
sempre tua, a cada momento
hoje eu não quero ver o sol
nem o mar da praiva vermelha,
basta-me cogitar o teu abraço,
o teu beijo de afago e certa graça
que só mora em teu sorriso,
em tuas piadas de sempre
hoje, não posso apertar a tua mão,
e daí?
todo lugar tem o teu rosto
qualquer frase na tua voz é poema
e cada passo que eu dou
exige o respirar do teu ar
do meu amor solene
teu, perene
II
A longa noite
é longa e morna
é longa e mansa
há noite
há um caminho de pedras
e percalços escondidos
no fúnebre silêncio
imerso em negrume
à própria sorte
a morte à noite
alonga-se a noite, feito um açoite
nas costas nuas dos pretos velhos,
dilacerados em vida
há noite ao norte
para cada estrela que brilha,
mesmo há muito morta,
a estrela estende as mãos
em forma de brilho,
na desilusão da esperança
que não se prende,
não espera quem a alcança
afoito, pela noite,
avançando horizonte
há noite, a longa noite,
doce e traidora noite,
que repousa cativa
no mar da tranquilidade,
no afago secreto da lua,
serpente no monte,
há noite,
a longa noite em riste
é tristeza pintada com aquarela.
Em homenagem à pessoa mais importante de minha vida, minha mãe, Maria de Lourdes Andel.
Paulo-Roberto Andel, 04/01/2008
Diana
Velha amiga, eu volto à nossa casa
Já não te encontro alegre, quase humana
Corpo pintado de branco e marrom
E uma tristeza no olhar
Como se conhecesse dor milenar
Já não te encontro à espera ao pé da porta
Correndo viva e bela ou descansando
Tanto vazio por todo lugar
Tanto silêncio sinto ao chegar
Ao nosso território de brincar
Almoço aos domingos, a velha farra
Todos vão inventando novos segredos
Fica a ausência branca e marrom
Duma tristeza milenar
Mas os meninos voltaram a brincar
Como se ainda sentissem o teu olhar
Diana, Diana, Diana, Dianá, Dianá
Diana, Diana, Diana, Dianá, Diá, Dianá, Dianá
Toninho Horta
Já não te encontro alegre, quase humana
Corpo pintado de branco e marrom
E uma tristeza no olhar
Como se conhecesse dor milenar
Já não te encontro à espera ao pé da porta
Correndo viva e bela ou descansando
Tanto vazio por todo lugar
Tanto silêncio sinto ao chegar
Ao nosso território de brincar
Almoço aos domingos, a velha farra
Todos vão inventando novos segredos
Fica a ausência branca e marrom
Duma tristeza milenar
Mas os meninos voltaram a brincar
Como se ainda sentissem o teu olhar
Diana, Diana, Diana, Dianá, Dianá
Diana, Diana, Diana, Dianá, Diá, Dianá, Dianá
Toninho Horta
Friday, December 28, 2007
Mais do mesmo
Entra ano, sai ano, as coisas não mudam muito, a não ser pela aceleração do crescimento (que é também uma pequena reação aos anos de estagnação d'outrora) e pela nova geração de celulares.
Este ano já nasceu morto.
Perdi minha mãe na terra com quatro dias.
O resto, foi quase lucro.
Vi os mesmos jogos de futebol e gostei de quase todos. Futebol é bom; desagradável é o que o cerca. O Fluminense ganhou o Brasil, o Fluminense é o que há.
Alguns shows, alguns filmes, muitas músicas.
Namoros que vão e vêm, namoros de uma noite somente, namoros de meia noite. Agora sou sério. Acho.
Lá fora, faz um calor danado e deve ter cem, duzentas mil pessoas na orla. Praticamente nenhum tumulto. Traficantes também tiram férias, acho. Nem tanto.
Acho estranho quando as pessoas falam de feliz natal e de boas festas.
Festa?
Não quero ser um chato, mas há um ano os bandidos incendiaram o ônibus com gente dentro, ninguém mais fala. Arrastaram o menino por quilômetros, ninguém comenta. Bala na cabeça do garoto no Clube Federal, cadê? Onde está a memória insana dessa gente?
Festa?
Final de ano, fui bem recepcionado por uma querida num daqueles apartamentões da Atlântica. Teve amigo oculto. Um amigo da turma, educado, começou a prosear. Outro camarada chegou. Falavam de Lula, do roubo, da corrupção, coisas que me deixam até cansado. Tudo bem. Problema foi quando um defendia a ditadura como meio de "salvação do país". O outro dizia que "tem que remover essas favelas inteiras".
Aí eu me assustei.
Perdi meu tio por conta da ditadura, já estudei o tumor que foi na vida carioca a remoção noutros tempos. Entendo quem defenda isso por desespero com as coisas de hoje ou ignorância com o passado. E só.
Noutros tempos, eu ia defender o meu discurso. Ali, naquela altura de dezembro, desisti. Susto em um segundo; silêncio, noutro. Melhor ver o mar de Copacabana, a construção do palcão onde vai ter muito fânqui na "festa da virada".
Virada?
Não passou a CPMF. Que maravilha. Ô. Tudo em nome do "povo" que é sacrificado porque já paga impostos demais. Certa verdade. Imposto para o refrigerante, o pão, o jornal, a luz, o gás. Mas a matemática me pareceu um tanto esquisita: boa parte do povo não paga CPMF porque simplesmente não opera com conta corrente. Verdade seja dita: uma pequena parcela do condado brasileiro não gostava desse imposto porque ele é mais enrolado de sonegar.
Os brasileiros estão aí. As televisões mostram seus programas de retrospectivas e seus "colar, colou!" - os pilotos de séries que, se derem alguma audiência, entram no ano que vem em grade fixa. A maioria não dá.
O doismileoito terá seu carnaval encolhido. Carnaval, para os pouco afeitos, não é somente o tempo de desfiles, mas sim todo o período compreendido entre primeiro de janeiro e o dia seguinte ao Desfile das Campeãs. Aí, o ano finalmente começa - e com desconto mas sem CPMF.
Ao que tudo indica, Bob Dylan vem cantar no Brasil, é sinal de alento.
Um bom campeonato de futebol, o carioca, e os times na Libertadores. Será divertido.
As pessoas vão encher a cara no dia trinta e um, muitos não abrirão mão do pó. Uma ou outra suruba, uma ou outra devassidão. Males diversos, creio.
Eu não faço planos.
A vida tem dois dias letivos: um quando você nasce, outro quando você vai embora. O resto é intervalo para amor, dor e pensamentos ao longe.
Eu queria ter visto Ana Klein, mas não consegui. Alessandra, felizmente sim.
O Zé vai casar, finalmente ouviu algo que eu disse.
Conseguindo viajar um pouco nos finais de semana, vendo o Fluzão e namorando normalmente, além de pagar as contas, estou quase satisfeito. Nada de grandes ambições.
Tomara que não me encham muito o saco com essa baboseira de "O governo do Lula é uma vergonha com toda essa corrupção"; já li e pesquisei muito sobre o assunto, muito além da leitura de jornais rasteiros e da falácia de senadores que têm a carteira profissional virgem.
Tomara que os traficantes matem menos e trafiquem menos. E que as pessoas cheirem menos pó.
Tomara que se roube menos.
Tomara que, daqui a um ano, tenha menos gente hipócrita falando em união, amizade, fraternidade, enquanto se nega a dar um real para o mendigo ou sonha com a remoção daquelas malditas favelas lá de cima.
E basta. Mais do mesmo já melhora alguma coisa.
Um beijo a quem devo.
Até.
Paulo-Roberto Andel; 28/12/2007
Thursday, December 13, 2007
Boa ação
Ontem, tarde da noite, estive refestelado no sofá enquanto girava incessantemente os canais da tevê. Houve um estalo, e lembrei-me de que ocorria a votação da CPMF transmitida pela TV Senado - sempre um bom programa para se rir ou chorar, dependendo de cada caso. Deixo claro que acompanhar a trajetória dos nobres parlamentares é fundamental, por mais inacreditáveis que sejam seus argumentos para votar nas questões á, bê ou cê, "pelo povo".
Certa hora, apareceu o Presidente Sarney, hoje Senador, em seu discurso. Naquele instante, esqueci-me das bazófias senatorais - até porque a CPMF, que desagrada mil vezes mais a classe empresarial (e dela cobra) do que o "povo" propriamente dito. Assisti um pouco e mudei de canal, sem prestigiar o cinismo do Sr. Virgílio e a posterior "comemoração da vitória", como se a vida de milhões de pobres nada valesse.
Sarney ficou na cabeça. Lembrei dos tempos de presidência. Confusos, por sinal.
Alguém me contou que a eleição era de mentirinha, somente no Congresso, e todos sabíamos que Tancredo venceria - o Brasil era caótico, mas Maluf era demais. Eu voltava da praia quando alguém gritou num bar da Domingos Ferreira:
- O Tancredo venceu!
Nada perto da ampla movimentação meses antes, por conta das manifestações pelas eleições diretas.
Tumulto mesmo foi quando Tancredo passou, era noite de 21 de abril. Entrou o Brito na televisão e comunicou. O enterro parou o país, era gente de todo lado. Menos pela boa trajetória de vida e mais pelo que significava aquele momento, Tancredo entrou para a história. E Sarney, que nem pensava em ser vice-presidente poucos meses antes, ocupou a cadeira.
Veio a febre do Plano Cruzado e a esperança de se controlar a inflação. Graças ao dinheiro doado por meu querido tio, que viria a falecer um ano e meio depois, consegui até fazer uma faculdade particular com os preços das mensalidades sob "congelamento" - se a memória não falhar, eram quatrocentos e sete mil cruzeiros em fevereiro, e passaram para quatrocentos e sete reais durante o ano todo. pelo menos, até a eleição, quando o "descongelamento" de preços foi para o espaço e a inflação voltou invencível.
Tempos de Sarney eram também tempos de Moreira Franco no Rio de Janeiro, e a promessa de acabar com a violência em 180 dias. O resultado, todos sabemos.
Eu não arrumava emprego, a não ser temporariamente na gigante Mesbla, a mesma que depois foi posta a pique pelo Sr. Mansur. Consegui a duras penas, nem tão duras assim, passar para a escola pública de qualidade. Dureza mesmo, era no bolso.
Tudo isso me veio à tona com a simples vista do discurso do Senador.
Agora, marcante mesmo, nos tempos do Sarney, foi uma certa noite, que deve ter sido no segundo semestre, depois do fracasso na Copa do Zico. Estudava em Niterói; para voltar, pegava o velho 996, velho mesmo, modelos Mercedes Benz dos anos 60. O caminho rotineiro de sempre: Ponte, Rodoviária, Santo Cristo, Santa Bárbara, Laranjeiras e Botafogo, até saltar na praia em frente à Sears. Ali, novo ônibus, em geral o 434, para saltar na Siqueira Campos e rever a turma no Bar do Seu Manel - o Xuru, Coruja, Pedro, Henrique, Ana, João.
Numa das voltas, eu saltei do 996 e, prestes a fazer a baldeação, uma senhora me pediu ajuda. Era bem velhinha, redondinha, tinha um quê de Tia Anastácia, mas com certa dificuldade para falar. Carregava uma bolsa grande, parecia vir de longe, de viagem. Estava com um papel rascunhado, mal-traçado, que tinha um escrito de uma secretaria que parecia ser um órgão público, mas sem o endereço, e procurava pelo filho que estava no trabalho.
E começou a chover.
A primeira coisa que pensei foi em tomar um táxi, só que eu não tinha um tostão no bolso que não fosse a passagem de ônibus. Arrisquei, estiquei o braço e um sujeito parou. Expliquei o fato de que estava tentando ajudar a senhora, já eram cerca de onze da noite, ele topou colaborar. Descemos São Clemente, Real Grandeza e Voluntários, até que lembrei de um antigo arquivo que funcionava na Praia, entre Voluntários e São Clemente, justamente, e pedi ao motorista para que fôssemos para lá. Na porta, comparamos o rascunho e era exatamente o local procurado. Saltamos, o motorista veio conosco. Depois de minutos de espera à porta, fomos atendidos. Ela balbuciou e, felizmente, o filho dela estava lá mesmo, trabalhando como vigia.
Deu certo. Ainda cheguei a ver pela fresta do portão mãe e filho se abraçando.
Despedimo-nos, o taxista me deu carona até em casa - ficou até emocionado, ele disse que era do Norte, que não via a mãe desde muito tempo e queria voltar à terra. Deixou-me na Siqueira. No bar, não tinha ninguém, eu resolvi subir logo para casa. Minha mãe estava sozinha pois, naquele tempo, meu pai tinha tentado uma experiência de trabalho em São Paulo, devidamente fracassada a posteriori.
Cheguei e dei o tradicional abraço na bolinha mãe, para depois contar do fato. Ela ficou contente e emocionada, até porque durante cinquenta anos procurou a família perdida (naqueles tempos, eram trinta). E disse que tinha ficado orgulhosa de mim. Fiquei contente também. A metros dali, a velhinha também estava abraçada ao filho, feliz. No fundo, foi apenas uma boa ação, daquelas que a gente devia fazer a toda hora e que eu, compromissado com a causa pelo fato de ainda ser escoteiro, buscava a todo instante. Quando não buscava, a chance da boa ação surgia logo em frente.
Hoje, nesse meio de dezembro, uma vez que ninguém vai me dar o caminho para eu reencontrar minha mãe, e nem eu vou poder mais ver a velhinha abraçando o filho, não deixa de ser uma boa associação de idéias que a imagem do Senador Sarney na tela me traga algo tão bom - e não exatamente o que eram aqueles tempos para muitas pessoas.
Um gosto de abraço infinito, uma boa lembrança. Excelente.
Daquele tempo de escassez, talvez uma das únicas.
Paulo-Roberto Andel, 13/12/2007
Friday, December 07, 2007
Pré-conceitos
Era tarde duma quarta, eu conversava ao telefone com um amigo que mora no Planalto, não necessariamente na sede do Governo Federal. Nada de i-meios ou emessêni, telefone da antiga, falar pra escutar e vice-versa. Contava-me ele das pressões que recebe, na condição de solteiro bon vivant, para celebrar um compromisso oficial, fato que o incomoda pelo preconceito que envolve este tipo de situação.
Eu compreendo.
O fato de ser solteiro, gostar de poesia e arte contemporânea rendeu-me e rende muitas pechas.
Tenho outro amigo que crê piamente em que eu seja virgem, por mais patético que isso possa ser, dado que ele não me viu com namorada a tiracolo, isso porque não somos companheiros de vigília noturna e nunca fomos - mas, além de amigo, ele ganha desconto porque também crê piamente em outras coisas que eu, nem sob o efeito dos mais potentes entorpecentes, colocaria fé. Por outro lado, cada um que regule a sua vida e saúde sexuais. Virgindade é direito, abstenção sexual ou mesmo luxúria plena, cada um que cuide de seu corpo.
Pensei em fazer uma listinha para entregar-lhe, mas soaria cafona e desrespeitoso com quem já amei - e com quem amo. Vida que segue.
Estamos em 2007 (ou, ao menos, deveríamos estar sob o ponto de vista cronológico), o velho modelo do eu-te-amo-para-sempre-e-vou-viver-junto-com-você tem seus desgastes - ainda que a mulher amada seja dádiva da natureza - e o resultado é que, num mundo de gente mal-casada, mal-namorada, mal-apaixonada e conformada com a mediocridade, poucos pares das novas gerações podem realmente falar da essência do eu-te-amo (Dara, argh). Amar é bom, mas não é para todo mundo.
Amor, sexo, casal homem-mulher. Tudo isso está envolvido pelo manto do preconceito. O casado que tem má vida sexual, o solteiro que deve ser gay por que não casa, o gay bonito que não fica com mulheres por mais que elas insistam em "regenerá-lo", as mulheres que não se separam para a família não apedrejar. A família que não conversa sobre sexo porque tem "respeito". Esqueci do sujeito que casa ou namora longamente para mostrar aos outros que não é um "encalhado", mesmo que a relação em si não seja das mais emocionantes. Melhor dizendo, uma porcaria.
Telefone desligado, pensei em preconceito. Outro. Outros.
Eu tinha uns nove anos de idade. No intervalo entre um outono e outro, mudei de um apartamento de 300 metros quadrados (onde poderia apresentar ótima forma na capa duma "revista" Caras) para um quarto-e-sala de 40. Tinha um garoto da terceira série, chamava-se Márcio, morava na Lacerda Coutinho. Encontrei-o na rua, chamei-o para jogar botão em minha nova minimansão. Ele apareceu. Lembro-me de como ele olhava aterrorizado para as paredes, para a cozinha, que eram humildes mas extremamente limpas e bem-cuidadas por minha amada mãe - estava acostumado ao gigantismo do antigo apartamento. Ficou lá em casa uns dez minutos, foi embora com cara de horror. Amada mãe até se assustou. Eu não tinha entendido muito bem, muito tempo depois é que saquei: preconceito contra a pobreza. Um sujeito de nove anos ser amigo do apartamento de outro é algo que desafia definições - e, talvez, quem sabe, possa explicar um pouco do que é o Brazyl e o Rio de Janeiro em que vivemos hoje. Primeira vez que me deparava com algo ruim desse jeito - até ali, minha vida era refrigerante, praia, botão, futebol e andar por Copacabana, desimportando quem era filho de barão ou porteiro.
Preconceito. O conceito prévio, normalmente embebido em ignorância.
Colégio, crianças, show de crueldade. Eu nem tinha onze anos, os galalaus de quinze, dezesseis enchiam a paciência porque minha voz era fina e eu tinha um metro e meio. Culpa minha dos caras serem reprovados três, quatro vezes. De vez em quando reencontro um pelo caminho, e incomoda ver que o dito fala das mesmas coisas, sem evolução, feito tivesse ficado em congelador tal como um Buck Rogers, só que sem o menor traço de heroísmo.
Era escoteiro, o pessoal dava gritinhos na rua, acho que por andarmos de uniforme. Estranho, pareciam as mesmas vozes daqueles caras que, passando de carro pela avenida Atlântica, xingavam os transeuntes em alta velocidade.
Faculdade, quando eu citava algum escritor ou poeta, alguém franzia a testa, com certa reprovação. Era o Instituto de Matemática e, em mais de uma vez, ouvi alguém dizer que ali era lugar de se calcular, não de ler. Deve ter sido uma das três maiores besteiras que ouvi na vida. Ou quatro. Oito. Teve uma outra criatura feminina de ofício que xingou meu nome aos quatro costões, e faz isso há dez anos, mesmo devidamente casada, apaixonada e feliz: tomou raiva de mim porque não a beijei e fiz certa força para não beijar. Era feia, um fato, mas não foi a principal razão do esforço: o problema mesmo era que fedia. As que eu devo ter beijado bem até hoje me chamam de Paulinho, me convidam para almoçar, nunca me xingaram. Grapete: quem bebe, repete. Deve fazer algum sentido.
Falaram mal de mim quando emagreci dez quilos e quando engordei trinta, com dez anos de diferença. Quando era moreno de praia, me chamavam de vagabundo; agora, branco, virei "esquisito".
No Brasil, o que não falta é segmentação. Gente disposta a tudo por quinze minutos de fama, a largar mão de qualquer senso ético em prol de bens materiais, luxúria e pequenas riquezas. Tudo raso, falho, trôpego. Você tem que ser bonito, rico, desejado, poderoso. Você tem que ter o mundo aos seus pés, não pode broxar, não pode falhar, não pode chorar, não pode deixar de mostrar aos outros o que tem de melhor. Você tem que ser o máximo, mesmo que isso signifique ser a maior lorota da semana, mês ou ano.
Falar de pobreza, um dos pontos-fortes do preconceito é simples. Basta procurar um nobre no meio do povo pelas grandes avenidas cariocas nestes tempos de pré-natal.
Solidariedade? Que tal começar por abraçar os mendigos, tão seres humanos como nós? Eles podem até feder, mas você não precisa beijá-los na boca.
Encheram meu saco por trinta anos. Agora é a minha vez. Arrá!
Eu não gosto de funk. Eu não gosto de viajar de avião. Eu não gosto de Arthur Virgílio. Eu não gosto de dirigir carros. Eu não gosto de bares cheios, de barulheira e da mais abominável expressão ideomática contemporânea: "galera", que não significa mais os velhos barcos. Dou gargalhadas quando falam que Ivete Sangalo é a maior cantora brasileira. Do Mainardi, quase não se fala porque ninguém o conhece. Eu não gosto dos jornais "Meia-Hora" e "Extra". Eu não gosto dos arroubos intelectuais da Luciana Gimenez. Eu não gosto da mídia que impõe a novela, o Flamengo, os vespertinos da televisão de domingo, o axé, o pagódi, os neo-sertanejos. Eu não me interesso pela carreira solo de Sandijúnior. Eu não gosto de suruba e de gente descontrolada pelo uso de drogas, legais ou não. Por isso, sou preconceituoso?
Tomara que sim.
E que o Márcio não tenha se tornado um boboca.
Paulo-Roberto Andel, 07/12/2007
Saturday, December 01, 2007
IMPRESSÕES - A pátria da debilidade
Tal como tantos outros brasileiros, senti-me humilhado e chocado ao pensar sobre o que seria a chamada cidadania num país que, por força de "contingências", permite que uma adolescente detida por furto seja presa numa cela com uma dezena de detentos, sendo estuprada várias vezes ao dia em troca de comida, água ou outras necessidades básicas, e ainda sendo filmada por "policiais" através de aparelhos celulares, que registraram criminosamente o horror do pior crime contra a mulher - conforme soubemos ocorrer no Pará, após ampla divulgação na mídia. O Estado, que deveria garantir segurança a qualquer cidadão, preso ou não, é promotor de tamanha crueldade através da polícia - inspetores e delegado (a), que conduziram o nefasto processo.
Dias depois, para tentar explicar o inexplicável, foi a Brasília o então chefe da Polícia Civil paraense, cujo nome não será citado neste texto por absoluta indignação. Coroando o show de atrocidades que envolveu tal caso, o dito chefe referiu-se à adolescente torturada como uma "débil mental", por, em nenhum momento, ter afirmado ser "de menor". Em suma, a culpa de todo o sofrimento que a garota sentiu, para o dito chefe delegado, era dela mesma. Sabemos que, no Brazyl, quase tudo é possível - mas aí, neste caso, passaram da conta. Palhaçada tem limite. O chefe perdeu o cargo. Que descanse em paz.
Será que é preciso comentar o desrespeito constitucional quanto ao fato da proibição de homens e mulheres presos dentro de uma mesma cela?
No próprio Pará, outros casos semelhantes foram denunciados. Não é problema de lá, bem sabemos. Procurando-se, acha em outras praças.
Dizem ser o Brazyl um país pacífico. Não temos guerra.
Com as cadeias que temos, e certos policiais, não precisamos de nenhuma Bagdad.
No mais, o dito chefe desrespeitou um coletivo de portadores de necessidades especiais, relacionadas a questões de saúde mental.
*************
Alguém imaginaria Suzane Von Richthofen numa cela com homens? Isso aconteceria hipoteticamente?
Nunca.
Suzane, que não está presa por furto, como a pobre menina paraense, mas pelo vil assassinato de seus próprios pais a pauladas, é um símbolo de perversidade.
Loura, bonita e rica. Jamais passaria por situação semelhante de estupro na cela, a não ser que quisesse.
A prisão no Brasil tem várias faces. Cada uma delas, de acordo com a condição financeira do detento - e isso faz pensar sobre o que é realmente no Brazyl a chamada "livre iniciativa".
*************
Apesar de cobertura televisiva compatível com o tamanho da atrocidade, a vergonha registrada no Pará perdeu terreno de mídia para os chamados "devaneios" de Chávez.
"Ditador" de plantão, segundo as autoridades jornalísticas.
Olhando para nossas próprias cadeias, deveríamos pensar sobre a tortura nelas praticada - provavelmente muito pior do que o resultado de todos os possíveis atos ruins de Chávez até a data de hoje, como comandante bolivariano.
*************
Juvenal foi um bom zagueiro. Sofreu o pão que o diabo amassou na Copa de 1950.
Naqueles tempos, boleiro não ganhava milhões de dólares.
Juvenal parou, ficou pobre, doente. Depois, miserável. Ainda vive, numa casa de pau a pique, oitenta e nove anos. Tem artrose, não anda. Deu no Fantático. Juvenal não viu, pois não tinha televisão. Depois ganhou uma velha, de presente.
O Brazyl é sede da Copa de 2014. Juvenal jogou no Flamengo e no Palmeiras.
De Parque Antactica, a única notícia é a de venderem um kit com pedaços de grama do Estádio Palestra Itália, mais um poster e um CD com o hino do clube, cantado pelos cracks da pelota. Setenta reais.
Márcio Braga, presidente do CRF, afirmou que "se o clube não puder ajudar Juvenal pessoalmente, ele mesmo o fará do próprio bolso". O Flamengo quer comprar o Maracanã e não pode ajudar Juvenal?
Palhaçada tem limite.
*************
A CBF, claro, não se manifestou.
*************
Somos ou não uma pátria marcada pela debilidade?
XXXXXXXXXXXXX
Paulo-Roberto Andel, 30/11/2007
Dias depois, para tentar explicar o inexplicável, foi a Brasília o então chefe da Polícia Civil paraense, cujo nome não será citado neste texto por absoluta indignação. Coroando o show de atrocidades que envolveu tal caso, o dito chefe referiu-se à adolescente torturada como uma "débil mental", por, em nenhum momento, ter afirmado ser "de menor". Em suma, a culpa de todo o sofrimento que a garota sentiu, para o dito chefe delegado, era dela mesma. Sabemos que, no Brazyl, quase tudo é possível - mas aí, neste caso, passaram da conta. Palhaçada tem limite. O chefe perdeu o cargo. Que descanse em paz.
Será que é preciso comentar o desrespeito constitucional quanto ao fato da proibição de homens e mulheres presos dentro de uma mesma cela?
No próprio Pará, outros casos semelhantes foram denunciados. Não é problema de lá, bem sabemos. Procurando-se, acha em outras praças.
Dizem ser o Brazyl um país pacífico. Não temos guerra.
Com as cadeias que temos, e certos policiais, não precisamos de nenhuma Bagdad.
No mais, o dito chefe desrespeitou um coletivo de portadores de necessidades especiais, relacionadas a questões de saúde mental.
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Alguém imaginaria Suzane Von Richthofen numa cela com homens? Isso aconteceria hipoteticamente?
Nunca.
Suzane, que não está presa por furto, como a pobre menina paraense, mas pelo vil assassinato de seus próprios pais a pauladas, é um símbolo de perversidade.
Loura, bonita e rica. Jamais passaria por situação semelhante de estupro na cela, a não ser que quisesse.
A prisão no Brasil tem várias faces. Cada uma delas, de acordo com a condição financeira do detento - e isso faz pensar sobre o que é realmente no Brazyl a chamada "livre iniciativa".
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Apesar de cobertura televisiva compatível com o tamanho da atrocidade, a vergonha registrada no Pará perdeu terreno de mídia para os chamados "devaneios" de Chávez.
"Ditador" de plantão, segundo as autoridades jornalísticas.
Olhando para nossas próprias cadeias, deveríamos pensar sobre a tortura nelas praticada - provavelmente muito pior do que o resultado de todos os possíveis atos ruins de Chávez até a data de hoje, como comandante bolivariano.
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Juvenal foi um bom zagueiro. Sofreu o pão que o diabo amassou na Copa de 1950.
Naqueles tempos, boleiro não ganhava milhões de dólares.
Juvenal parou, ficou pobre, doente. Depois, miserável. Ainda vive, numa casa de pau a pique, oitenta e nove anos. Tem artrose, não anda. Deu no Fantático. Juvenal não viu, pois não tinha televisão. Depois ganhou uma velha, de presente.
O Brazyl é sede da Copa de 2014. Juvenal jogou no Flamengo e no Palmeiras.
De Parque Antactica, a única notícia é a de venderem um kit com pedaços de grama do Estádio Palestra Itália, mais um poster e um CD com o hino do clube, cantado pelos cracks da pelota. Setenta reais.
Márcio Braga, presidente do CRF, afirmou que "se o clube não puder ajudar Juvenal pessoalmente, ele mesmo o fará do próprio bolso". O Flamengo quer comprar o Maracanã e não pode ajudar Juvenal?
Palhaçada tem limite.
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A CBF, claro, não se manifestou.
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Somos ou não uma pátria marcada pela debilidade?
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Paulo-Roberto Andel, 30/11/2007
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