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Monday, May 01, 2023

Cesare

Nós ficamos amigos anos atrás, em 2007. O primeiro contato não foi dos mais pacíficos para mim, mas deu tudo certo: estávamos no Alla Zingara, um bar favorito da esquina de Belford Roxo com Ministro Viveiros de Castro, quando minha amiga Kátia me pediu para que buscasse alguma coisa em sua casa, então bem em frente. Peguei o molho de chaves e atravessei a porta. Quando a abri, conheci meu novo amigo rangendo os dentes, mas em paz absoluta. 

Cesare era um buldogue clássico e, nos primeiros momentos, fiquei tenso, mas logo nos tornamos amigos, amigos mesmo. Ele era bem pesado e tinha um visual assustador, mas também era um doce. A única coisa que não aceitava de jeito nenhum era se, dentro do carro, alguém tentasse falar com a Kátia pela janela do motorista - dava super latidos perturbadores. 

Durante alguns anos, Kátia trabalhava para um executivo que tinha um enorme apartamento em Copacabana, gigantesco literalmente, e lá fizemos encontros, jantares e tal. Cesare virou integrante da turma, mesmo sem dar uma palavra. Performático, ele vinha caminhando de longe, atravessava a imensa sala, chegava bem devagarinho e aí eu me sentia feliz demais: girava seu corpanzil, encostava em minha perna direita e então me cutucava com o dorso, pedindo carinho. 

Um dos nossos momentos inesquecíveis no apartamento foi numa tarde em que marcamos um almoço com a turma da escola. Cheguei mais cedo para ajudar na cozinha. Quando deixamos tudo pronto e o pessoal ainda não tinha chegado, Kátia resolveu dar um banho em Cesare, mas cadê o buldogue? Sagaz e percebendo que ia rolar banheira, ele simplesmente sumiu no gigantesco imóvel. Meia hora depois, reapareceu perto da sala, que era muito longe do banheiro. Ao nos ver, fingiu ter desmaiado ou dormido, virou a pança para cima e ficou na dele. Como era pesadíssimo, tivemos que arrastá-lo lentamente - e isso com o sem-vergonha fingindo estar desacordado. Um maravilhoso cara de pau. A muito custo, conseguimos empurrá-lo até a banheira e subi-lo. Ele aceitou o que considerava uma traição, mas não movia sequer a pata. Tivemos um trabalhão mas foi divertido demais. 

Nascido na Itália, Cesare tinha natural afeição pelas cores de sua bandeira. Logo se tornou um fanático torcedor do Fluminense. Corria e pulava nos gols tricolores, levando a rivalidade a sério: se fosse um gol do Flamengo, dava latidões assustadores. 

Um dia Cesare se foi. Tinha chegado a hora. Fiquei triste e chorei. Nunca me esqueci de como ele era carinhoso comigo, mesmo quando eu parecia ameaçador com a proposta de banho. Lá de longe, vindo devagarinho até bater o dorso em minha perna direita e pedir um abraço do jeito dele, com a dignidade que só os cães têm. Não esquecia de mim, mesmo quando ficávamos semanas e até meses sem nos ver. Penso nele sempre. 

Agora tenho o Ship e o Xou. Marina me manda vários vídeos e fotos deles, são legais demais. Nunca os vi de perto, mas é como se morassem comigo. Quando estou sozinho, os vejo no smartphone e me sinto melhor. Eles não sabem, mas eu os amo demais. A vida é assim: amor, amizade e lembrança. 


Sunday, April 30, 2023

Até a casa de Katia

Saio da estação do metrô Siqueira Campos e, em trinta ou quarenta passos, depois de olhar a placa da rua Tenreiro Aranha - a vila, onde estudei e joguei bola entre 1978 e 1980 - e pensar no que já não existe, entro no Shopping dos Antiquários. Meu objetivo é fazer meia horinha até encontrar com Kátia, minha querida amiga que é um símbolo do bairro. 

Passo pelos corredores, venho e volto. Do meu tempo de criança, 95% das lojas são outras, mas é incrível como o espírito de antigamente permanece ali. Tem algo vintage, kitsch e elegante ao mesmo tempo, como determina a liturgia de Copacabana. Não tem mais a loteria do Seu Carlos, com dezenas de escudinhos de times de futebol na parede, nem os Supermercados Leão - com ice cream soda na lanchonete -, nem o Bar Bole-Bole, o Abílio e nem o antológico Sniff's, mas o Casilhas segue lotado no corredor da Siqueira Campos, agora com mesinhas. Mais lotada ainda fica a Adega Pérola, do outro lado da rua. 

Num dos corredores do shopping está rolando um vernissage. Umas trinta pessoas, comes e bebes, burburinho. Viva a arte, ali é um bom lugar. 

Perto dele, está o fabuloso sebo L.O.Matta, fechado pelo horário. Tem uma grande quantidade de LPs e CDs interessantes, livros também, menos os de futebol - parece que ninguém liga para o tema. O Matta fica aos pés da escada rolante que leva ao Teatro Net, palco de grandes apresentações da MPB desde o tempo em que se chamava Teresa Raquel - bem perto dele, funcionava o estúdio do maestro Arthur Verocai, ícone da nossa arte. E a mesma escada rolante, que antigamente não funcionava, serviu para a subida de inúmeros grandes artistas brasileiros, de Gilberto Gil a Lennie Dale.

Voltando para a porta do Extra, sucessor dos Supermercados Leão. Bem em frente há dois quiosques. Um vende doces maravilhosos, bomba, quindim e o outro vende queijos, salames, frios. Delícias nem tão caras para quem tem um bom emprego, mas caras demais para 95% dos transeuntes - e ainda assim dão lucro, porque estão ali há tempos. 

Dou meia volta e resolvo espiar a lateral de fora, com saída na rua Joseph Bloch. Quanta coisa legal da minha vida vem dali! O Leo e o Rubinho, a Cissa, a loja do pai do Cassiano - agora ela virou um bar lotado. Não tem mais o Teatro de Arena. Então vem a porta do estacionamento que fica no subsolo e penso que, apesar de ter morado ali por mais de dezesseis anos, raras vezes fui à garagem. Hum, e quando a Dona Célia me levava para lanchar cachorro quente no Aterro com o Adão, meu amigo e seu filho? Ela ligava o Fusca e a gente se sentia numa verdadeira viagem. O percurso do Shopping até o Flamengo é de poucos quilômetros, mas a vista da Enseada de Botafogo e do Pão de Açúcar é inebriante desde sempre, enlouquecedora. Esses lanches no Aterro têm 45 anos. Ah, o tempo.

Na esquina fica o Copa Star, onde as celebridades do Rio costumam se despedir. Parece um hotel de luxo. Grandes carros, sobrenomes estrangeiros e aí já passou o tempo de ir à casa de Kátia. Até o começo da Barata Ribeiro ainda terei muito tempo para abrir a cortina do passado, sonhando com meu tempo humilde que ficou para trás, mas que de alguma maneira resiste na memória. 

Monday, April 24, 2023

Seis da tarde

Avenida Chile, coração da cidade, seis da tarde é chegada a hora do rush e o sol já se pôs no outono. As pessoas deixam seus postos de trabalho e tomam o caminho de casa, ou de outros compromissos após o expediente, quase todas tão apressadas que sequer notam a belíssima paisagem composta pelo azulado nem tão claro do céu em contraste com a Catedral Metropolitana e o prédio da Petrobras, um marco da capital e também conhecido pela sigla “Edise” (de edifício-sede). A corrida para encontrar a pessoa amada em casa, rever os filhos, arrumar a casa, calcular as contas ou mesmo descansar depois de um dia de trabalho intenso – embora os trabalhadores comemorem, pois no atual cenário do Brasil, quem tem emprego, ainda que precário, possui motivos de sobra para felicidade – o Rio de Janeiro é um mar de desempregados por todos os lados, de quase todas as classes, cores  e crenças.

De toda forma, o desenho do céu entrecortado pelos dois edifícios merece atenção, ao mesmo tempo em que o formigueiro humano dispara pela parte alta da Avenida Chile, geralmente em direção à Avenida Rio Branco e mais especificamente ao acesso lateral do Metrô Carioca. 

Jovens garotas entre 20 e 35 anos, com saltos altos, roupas elegantes, maquiagem, cabelos louros ou com luzes, iPhones e outros dispositivos eletrônicos, música nos fones de ouvido. Andam em duplas, trios, às vezes quatro mulheres.

Homens da mesma faixa etária, geralmente com vestuário padrão: sapatos escuros, calças de cores neutras, camisas de botão azuladas ou marrons ou da cor bege, discretas, com mangas curtas ou compridas. Cabelos curtos, cavanhaques delineados (quando é o caso), iPhones, música nos fones de ouvido. Sempre em grupos, que podem ser pequenos (até quatro sujeitos) ou grandes (um bando). 

Naturalmente, há exceções: uma pequena parte da turma vai atrás do chope dourado da felicidade em locais próximos, como a boa e velha Cinelândia do Amarelinho e dos arredores do Teatro Rival, sempre movimentado com intensa programação, além de ter a diretora mais linda e talentosa da cidade, Leandra Leal. Agora, com certo sentimento de segurança local, provocado pela patrulha do Centro Presente, alguns ousam cortar o bairro a pé até a Praça XV, em busca do Arco do Teles. No entanto, é possível perceber que muita gente vai embora mesmo, o que se compreende por conta de tudo o que tem acontecido com a Cidade Maravilhosa, deveras impactada pelo caos da corrupção que, somada ao golpismo de outrora, ceifou boa parte da nossa economia, espalhando o desemprego e incrementando a violência (que nunca foi fácil antes, sejamos sinceros, porém piorou muito).

Um cheiro forte de pipoca doce atravessa o caminho dos pedestres apressados e alguns não resistem a um pacote. Sorte do pipoqueiro que ali exerce seu digno ofício, batalhando a sobrevivência. Ao lado, uma banca de balas e jornais, uma promoção de MM’s, as garotas ficam loucas com aquilo. Ainda há um tom doce no outono do coração do Rio. 


Sunday, April 16, 2023

Onde estará meu pai?

Nós vivemos juntos por 39 anos, quase 40. Fomos ao céu e ao inferno. Brigamos, choramos, rimos, dissemos coisas duras, sofremos (muito) e deveríamos ter vivido muito melhor do que vivemos, mas era o que tínhamos e assim foi. A ditadura não deixou que fosse melhor. 

Eu achava meu pai grandão e isso continuou até depois de eu ter ficado um pouco mais alto do que ele. Aliás, continuou a vida inteira. 

Era de poucas palavras, mas às vezes tagarelava. Ria. Contava coisas engraçadas. 

Durante muito tempo o álcool criou uma barreira insuportável entre nós, mas só a maturidade me permitiu entender a tragédia que também me vitimou. Quando meu tio foi expulso do Brasil pela ditadura, meu pai entrou em depressão - à época, tida como frescura. Eles já haviam sofrido muito, perderam os pais ainda crianças, foram criados em colégio interno e uma pergunta é inevitável: para que servia a família deles? Enfim, a separação do irmão e as dificuldades nos negócios, durante o milagre econômico que só abençoava alguns, o levaram ao alcoolismo e daí veio uma fase muito difícil para nós, eu e minha mãe, que se estendeu da minha infância à jovem idade adulta. 

Numa luta danada, consegui me formar e arranjei um emprego, mas os anos duros cobraram a conta: meu pai ficou doente e parou de trabalhar. Pior: parou de andar. Apesar de tudo, vivíamos uma vida razoável, apertada de grana mas com aquela sensação de família que, de alguma forma, está ali junta. Era meu conforto chegar em casa à noite e vê-los, eles e meu irmão. Dava uma sensação de dever cumprido. 

Meu pai me cercou de livros, jornais e revistas desde pequeno. Era tudo natural para mim, até folhear jornais incompatíveis com minha idade, caso do Pasquim. Foi desse jeito num apartamento de 300 metros quadrados e, a seguir, num de 30 metros. Com ele, aprendi o significado de Fluminense e o carreguei para sempre. Entre 1976 e 1982, fomos a muitos jogos juntos. O Maracanã era minha vida e meu pai, o guia. 

Conhecia muita música. Embora tivesse predileção pelo sertanejo tradicional dos tempos de infância, gostava de sambistas da antiga, da Bossa Nova, de Jorge Ben e Simonal. Elis, Simone, Elizete. 

Conhecia tudo do Rio. A noite, os points, o underground. Nada lhe era alheio, das altas rodas aos bafafás. 

Lia todos os jornais possíveis, acompanhava o rádio e a TV, era obcecado por notícias. Informação o tempo todo. 

E futebol, futebol, futebol! Às vezes via ou ouvia outros esportes, mas o grande lance estava no jogo de bolapé. 

Aos poucos fomos nos aproximando sob distância regulamentar. Na verdade, sempre estivemos perto. Eu não tinha como entender sua tristeza, nem ele a minha. Quando minha mãe morreu, nossa única válvula de escape foi conversar todo dia. Infelizmente o tempo foi curto, porque ele faleceu um ano e quatro meses depois, mas ainda tivemos tempo de comer bons lanches, falar de música, comemorar a Copa do Brasil de 2007 e sonhar com o futuro. Tão novo, acabara de fazer 67. 

Quinze anos depois, ele faz uma falta tão grande que só de pensar minha cabeça explode. Eu o procuro num Maracanã que já não existe, num botequim que foi todo remodelado, numa calçada que não tem ninguém. Onde estará meu pai? Não sei, a não ser na hora diária das lágrimas, feito agora. 

Tuesday, April 11, 2023

João do Rio, 102 anos depois

(reprise)

Gomes Freire, Lavradio, Inválidos e arredores, duas da tarde de quarta-feira. Há exatos cem anos, esta região e a capital da República pararam, porque morrera João do Rio enquanto as ruas fervilhavam pela perda. Hoje, o Centro mal tem trânsito, as lojas morreram pela decadência econômica que já vinha antes da covid19 e piorou. Outro brilhante escritor, Jack Kerouac, veria aqui o mesmo cheiro de rua triste que encontrou ao escrever "Cenas de Nova York". 

Pelas ruas do Centro, o progresso e a miséria se esbarravam naquele tempo. Os cafés abarrotados, o ir e vir das gentes, enquanto ao largo dos caminhos os excluídos pediam socorro. A história se repete em 2023, mas não se sabe ainda do progresso que abraçará o Rio devastado. Tempos atrás, votaram o projeto que faria o Centro renascer, mas por enquanto é só um disfarce para que as construtoras possam operar de novo em Copacabana, Ipanema e Tijuca. 

João do Rio viveu apenas 39 anos, mas que valeram por 80. De forma avassaladora, ele não apenas inventou o jornalismo formal carioca, mas foi o grande cronista fotográfico da cidade, do céu ao inferno, escrevendo de forma avassaladora e perene - seus textos continuam atualíssimos . E foi ele quem abriu o mundo para Ipanema numa crônica (que pode ter sido encomendada) sobre as maravilhas lunares do então areal. Como se sabe, deu certo. 

Estima-se que a morte de João do Rio tenha levado mais de 100 mil pessoas às ruas para seu cortejo fúnebre. Até hoje está no rol das grandes comoções cariocas, só não batendo a do Barão do Rio Branco, ocorrida antes. O próprio Barão vetou as pretensões de João do Rio em integrar a diplomacia, pois o candidato incorporava três vertentes que o preconceito não perdoa: obeso, negro e homossexual. Todas continuam em voga, horrorizado e humilhando a alma brasileira, mas os planos do Barão em ter um corpo diplomático 100% heterossexual já foram abaixo há tempos...

Ao mesmo tempo, não há como não pensar: há cem anos, um homem gordo, negro e gay parou a capital do Brasil pela força de sua importância, de seu talento, independentemente de suas relações com o poder constituído. João do Rio ganhou o país com seu texto e, depois deles, muitos foram os craques que se consagraram por seus escritos em jornais. Ok, nenhum deles teve um velório com cem mil pessoas, mas não se pode ganhar todas. 

Mais de cem anos depois, o Rio agoniza e estende as mãos nas calçadas, dorme debaixo das marquises e revira latas vazias de lixo desesperadamente. Não há vagas. Os ricos estão mais ricos, enquanto os pobres estão cada vez mais humilhados. A busca pelas manchetes nas bancas foi trocada por vídeos de dancinhas no celular. Ainda estão rolando os dados, mas é difícil crer que todos caiam com a face seis para cima. Resta sonhar com uma reconstrução que não faz parte dos planos empresariais, o que está evidente nestes últimos tempos. 

Em algum lugar do imaginário, João do Rio desce a Gomes Freire saudando os transeuntes. Depois vira na Senado e, a seguir, na Lavradio, onde para para almoçar no Mangue Seco lotado, cheio de cavalheiros e damas elegantes, que ele aprecia de esguelha. Quando terminar a refeição, ele caminhará pela Praça Tiradentes em busca do esplendor perdido da região, aproveitando para pescar alguns livros nos sebos da região e especialmente  em um, que funciona no Edifício Riqueza e é cheio de livros sobre a cidade. No sexto andar há uma loja pequenina, humílima e abarrotada, onde ele pode tomar um café, conversar com os livreiros, apreciar a chegada de um famoso cineasta, escutar a fala rouca de um jornalista e, finalmente, ficar a par das novidades musicais pós-Pixinguinha, tudo enquanto espia a bela vista da praça à janela. 

O que nos resta é sonhar. 

O leão e o tigre no Centro do Rio

(Flashback)

Depois de comermos pastéis com laranjada na Chic's da rua dos Andradas - estamos sempre comendo -, resolvemos caminhar até o Largo da Carioca, eu, Vitor S Barros e Jocemar Barros . Não levou mais do que dez minutos. Nos despedimos, eles foram a caminho da Praça XV e eu pensei em fazer minha velha visita ao Santos Dumont para tomar um sundae de morango em meio ao silêncio da praça de alimentação do aeroporto - quem chega ao Rio quer se mandar para casa ou hotel. Então peguei meu VLT favorito e fui. 

Uns vinte metros depois da entrada e você fica inebriado com o som de jazz e bossa nova do conjunto que se apresenta no SDU às sextas, das seis da tarde às oito da noite. Logo você está perto do palco e já conheço quase todos os músicos de vista, com exceção de um que conheço desde sempre: Sérgio Barrozo, contrabaixista com quase 60 anos de carreira, já tocou com os gigantes da música brasileira. Sérgio é nosso Ron Carter, nosso Charles Mingus e deveria ter uma estátua sua em praça pública. Seis ou sete pessoas aplaudem o conjunto. Outras acabam celebrando a apresentação de passagem. 

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Subo uma pequena escada rolante e desisto do sundae. A loja de mate promete sanduíches  da pesada num cartaz promocional. Ao mesmo tempo, dali dá para ouvir o belo som do conjunto lá fora. E por falar em música, carrego quatro CDs comigo: um, raro, de Paulo Lepetit ao lado do saudoso Gigante Brazil, um de Herbie Hancock - The Joni Letters, um tributo a Joni Mitchell, afora outros dois que ainda vou me lembrar. No mais, sigo com meus confortáveis chinelos, meu bermudão azul e reparando no clima tenso que alguns passageiros exibem em seus semblantes de desembarque, loucos para se mandar porque querem ou aproveitar o que o Rio tem de bom, ou escapar da ruindade. 

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Dois sujeitos estão com seus notebooks em ação nas mesas da lanchonete. Aguardo pacientemente pelo atendimento. Quando a moça vem, penso que já são quase sete da noite e ela já deve estar morta de cansada pelo trabalho extenuante. 

Peço o lanche, vou para a mesa de fundo e, quase ao mesmo tempo, os dois clientes se mandam. Meus sais: acabei de lanchar com Jocemar, sou um esfomeado irresponsável. Não, não, longe disso: engordei por excessos mas me cabe o perdão de já ter passado fome algumas vezes na vida, inclusive quando supostos amigos faziam vista grossa para o acontecimento. Vida que segue. Já falei algumas vezes que, no passado e com saúde, fui atleta em treinamento para a São Silvestre - sonhava romper o ano correndo na madrugada urbana de São Paulo. 

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Hã anos que ouço falar desse disco de Paulo Lepetit com Gigante Brazil. Finalmente está em minhas mãos. Sou fã de Paulo como músico e facebooker. A Isca de Polícia é um negócio sério demais. Saudade de vê-los em ação. A última vez foi no CCBB. Já Gigante é saudade. 

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O sanduíche é bom, tecnicamente bom, o pão é gostoso mas o recheio deixa a desejar. Sou cliente do Paladino e do Parada de Copa, acostumado a recheios generosos, de matar a fome. 

O mate estava uma porcaria. 

Pelo menos carreguei um pouco o celular. 

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Ao descer, passo novamente pelo palco dos shows de sexta, agora com música ambiente porque é intervalo. 

Numa mesa na lanchonete ou restaurante à esquerda do palco, Sérgio Barrozo traça um sanduíche e parece feliz da vida. Não nos esqueçamos: ele é nosso Mingus, nosso Ron Carter, e merece todas as reverências. 

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A sexta-feira à noite do Aeroporto Santos Dumont é fria e vazia. Sexta-feira, 13 de maio, dia de superstições. E reflexões. 

Uma breve espiada e logo se percebe o quanto precisamos evoluir em termos de inclusão negra por ali. 

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Deveria ter pego um Uber, mas simplesmente esqueci, então logo chego ao VLT e fico apreciando a beleza noturna da região, as árvores, os prédios da Beira-Mar. Troco mensagens com Marina, o Fabiano Soares - que é um tremendo escritor - diz que virá ao sebo na terça.

As curvas do percurso me lembram o Tivoli Park por algum motivo. O trecho do Aeroporto à Cinelândia é imperdível pela bela arquitetura ali reunida. 

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Bem ao lado do acesso do metrô na Santa Luzia tem uma turma comendo churrasquinhos e bebendo cerveja. Jovens mulheres bonitas e seus pares. Por um instante, parece até que a pandemia não nos abateu. 

O Rio é a cidade de cidades misturadas, versou o poeta Fausto Fawcett. Nada parece ser tão preciso para descrever a Cinelândia atual. Do Starbucks na esquina até o Amarelinho, o MC Donald's se salva aberto e cheio. Nas marquises e bancos, muita gente em situação de rua e, na amostra local, a população negra é de 100%. As reflexões sobre 13 de maio são inevitáveis e dolorosas. Somos uma sociedade muito atrasada e desigual. 

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No tempo que me resta, olho para cima e o relógio do Edifício Mesbla me oferece um tom de Gotham City, não apenas a cidade dark de Batman mas também a letra profunda de Macalé e Capinam. 

Perto de mim, pessoas descem delicada mas  apressadamente pelas escadas do metrô. Taxistas caçam passageiros. Os últimos clientes das Lojas Americanas deliciam-se com suas sacolas cheias de promoções. Garotos e jovens perdidos carregam suas caixas de Mentos para vender aos transeuntes, muitos deles sem um níquel sequer. Há um burburinho na entrada do Teatro Riachuelo e, bem em frente, na fila do ônibus 247. A miséria, a indiferença e o consumo dividem o mesmo espaço à rua, como se tudo parecesse normal. 

O leão e o tigre andando lado a lado na mesma calçada, assim disse Jack Kerouac em "Crônicas de Nova York" em alusão a Tom Wolfe.

Tuesday, April 04, 2023

Manhã praieira (reprise)

SEPAREI O DINHEIRO para um picolé e um copo de mate, botei meu par de chinelos e desci. Todo mundo ainda estava dormindo em casa, algo perto das seis e meia da manhã. 

A Figueiredo Magalhães praticamente não tinha carros nem gente, ao contrário de 99% do tempo. É que o domingo de manhã tem certo gosto de ressaca, de noite para dormir.

Quase na esquina com Barata Ribeiro, jovens vindos da Lapa, o underground carioca, saltam do ônibus no ponto e há quem cogite um lanche no Sumol, um suco e sanduíche, talvez uma fatia de pizza napolitana que eles vendem toda hora.  

Caminhe menos de cem metros e, na porta da galeria, dá para saber as próximas atrações do Cine Condor Copacabana. Bem na porta fica meu ponto de ônibus preferido para ir ao Maracanã. Na pequena galeria tem uma loja que vende camisas bem confortáveis

[Avenida Copacabana versus Figueiredo Magalhães, a esquina mais barulhenta do mundo. Marcelo Conde e Hermínio moravam ali. Garotos extenuados pela noite virada deixam o Gordon, lendária lanchonete famosa pelas partidas de mau-mau e truco disputadas no segundo andar da loja. Os sanduíches eram imperdíveis.

O símbolo da drogaria na Figueiredo é um dos colossos de Copacabana: Pepe Corta Zeros, um tucano - ou arara? - combatente da inflação de 70% ao mês, porque a vida é assim na Era Sarney. É um tucano bem grande na logomarca, antes de chegar a agência do Banco Econômico.

Na transversal, tem a loja da Gênova com os melhores salgados e a melhor pizza brotinho do mundo, senhor! Gostosa demais. A Domingos Ferreira é uma rua discreta, de pouco movimento. Uma quadra antes do temível Edifício Master - eu e Xuru passamos sempre do outro lado da rua. 

Na quadra do Camões é fácil ver Júnior, um dos melhores jogadores brasileiros. Volta e meia está por ali com seus ex-vizinhos, apaixonado que é pelo Juventus, o time mais popular de futebol de areia do Rio.

Atravesso a Atlântica, desço a escadinha de dois degraus e meu par de chinelos Katina Surf protege meus pés do calor da areia. A praia ainda está deserta. Manhãzinha de domingo, todo mundo tem um pouco de ressaca, seja etílica, seja sentimental. 

Um garotinho sentado mais adiante mexe com a pá num balde, brincando com a areia. Sua mãe o observa atenta e orgulhosa. É uma linda e pequena família. Noves fora, estou sozinho bem aos pés do Atlântico Sul, então me sento, olho para um lado e outro, escuto o breve som do mar e nem quero pensar no vestibular, nos problemas e nas soluções que ainda não tenho. Por enquanto é tentar sair do quartel, passar na prova, estudar e arrumar um emprego. Os raios solares parecem mais fortes, já deve estar perto das oito da manhã. Daqui a pouco eu compro um picolé de limão ou côco.

O mate fica para depois. A praia ainda está deserta, mas ao longe já tem um senhor vendendo o Dragão Chinês e outro com a chamada inesquecível: "É Maria Teresa Weiss!". 

Friday, March 31, 2023

por fim

Quem te dá a mão de verdade quando você está à beira do precipício? 

Quem? 

Muito pouca gente, para não dizer ninguém. 

Quem realmente se importa com a tua dor? 

Quase ninguém. 

Ninguém. 

Até a próxima morte

Como sempre acontece nas últimas décadas, a chuva um pouco mais forte foi suficiente para detonar a cidade e matar pessoas. 

As desculpas são sempre as mesmas: choveu tantos milímetros como nunca, aconteceu o imponderável e outras mentiras estapafúrdias que só convencem os desmemoriados ou desinformados. Ora, se o volume de chuva é grande, o que resolverá? Não é apenas noticiando que choveu demais...

Pouco antes de eu nascer, aconteceu a tempestade de 1966. Durante anos e anos ela foi uma referência de desastre. Aí veio a tempestade de 1988 que parou o Rio por dias e dias - eu era garoto, trabalhei que nem um cão. E depois vieram outras e outras e outras. 

Pouca gente fala, mas a sensação de abandono é tamanha que, ao longo dos tempos, as pessoas passaram a ter medo da chuva no Rio de Janeiro. Basta o céu nublado que as ruas se esvaziam, as pessoas se escondem, compromissos são desmarcados e muitos dias úteis viram ociosos. E é pra ter medo mesmo. A falta de manutenção do sistema elétrico pode te dar um choque mortal, ou você pode ser arrastado pelas águas em plena região urbanizada. Nem é preciso dizer do sofrimento de tanta gente e encostas e lugares de risco. 

Às seis e meia da manhã, o gris do céu tem cheiro de morte. Somado à véspera do aniversário do golpe militar, compõe um conjunto deprimente. Deprimente.

@pauloandel

Wednesday, March 29, 2023

Jesus não tem dentes no país da hipocrisia

Talvez a maior contribuição que as redes sociais tenham prestado ao mundo seja a exibição crua da hipocrisia mundial.

Mundial sim, o problema é universal. 

O caso é que no Brasil parece que há uma faixa bônus, uma perversidade extra.

Sabe aquela garrafa de Coca-Cola 2 litros que vem com um acréscimo no rótulo? Pois bem, é só adaptar para o brasileiro excrot0, que tem um bônus exclusivo, acima da média global. 

Todo mundo aqui conhece alguém que, na internet, arrota discurso progressista, bom-mocismo e ética mas que, na chamada vida pessoal, nem disfarça seu reacionarismo e egoísmo (quase uma redundância), reproduzindo comportamentos que tanto diz combater.

Nas redes, discursa contra a fome. À rua, troca de calçada para não ver gente esfomeada. Ainda tem requintes de crueldade: quando diz "Eu ajudo mas não dou dinheiro de jeito nenhum", pode ter certeza de que não ajuda em porr@ nenhuma... Alguns são capazes de responder com grosseria aos pedintes. "Esse vagabundo fica dormindo na rua", falando de alguém geralmente desmaiado porque não dorme à noite por medo de ser estuprado, incendiado e/ou assassinado. Imagine se uma besta dessas conseguiria passar uma noite sequer dormindo na calçada... 

Se o tema é a desigualdade, textos e textos e textos; agora, se o vizinho, o amigo ou até um parente precisar de socorro, é só fazer  cara de paisagem e ligar o "Ôdracir". Só que a urgência da vida não se resolve com textos de internet, aliás texto algum. 

O racista? "Ah, eu tenho um amigo preto". O homofóbico? "Ah, eu tenho amigos gays". O discípulo do etarismo? "Não, é só para colocar um pouco mais de energia". O neoliberal herdeiro/oportunista? "Ah, você não se esforçou o suficiente...". São muitos os casos, mas quem consegue ser mais excrot0 nesta verdadeira Olimpíada da excrotidã0 é o gordofóbico: "Não estou falando do seu corpo, apenas me preocupo com a sua saúde". Não se preocupa é com porr@ nenhuma, exceto com seu escr0tíssimo senso (?) estético. 

Fique sempre atento aos bacharéis moralistas. São os piores. Cheios de certezas e ditados, adoram terceirizar culpas, geralmente jogando a conta pra Deus. Não cumprimentam nem os funcionários do condomínio e querem falar de pátria. E quando vem aquela esparrela de "família", pode mexer no iPhone ou no computador do desgraçado: você vai achar m3rda com certeza. É batata! De miliciano a vendedor de sentenças, não escapa um! 

A carteira de desculpas e sofismas para tanta excrotidã0 é diversa: o ser humano é complexo, a contradição faz parte da natureza humana e outras retóricas esdrúxulas - no pior estilo auto ajuda - para embrulhar luxuosamente a própria canalhice. Enganar a si mesmo é uma obsessão do hipócrita, mesmo que ele já não consiga enganar mais ninguém. 

Enquanto isso, o ódio aumenta, a miséria sufoca, a intolerância agride e a indiferença mata. Salvo raras exceções, ninguém nasceu mau. A ruindade é uma doença que se adquire pela transmissão humana - para muitos, com gosto. E são exatamente esses que sabotam a tal pátria, ou o país. 

Enquanto as pessoas choram e passam fome, vivem ao relento ou se apavoram com o despejo, choram para ter um emprego de salário mínimo, você liga a TV ou vai ao YouTube e logo aparece um engomadinho oferecendo maneiras de "investir", como se milhões de miseráveis pudessem fazer isso. "Planeje seu futuro",  "administre"... 

A hipocrisia está ligada no volume máximo e, se a gente não se mobilizar, sequer percebe. 

@pauloandel

Sunday, March 26, 2023

Paralamas no Lollapalooza

Deitado em berço esplêndido no calor infernal do Rio de Janeiro, procuro alguma coisa na TV sem o futebol de domingo. Zap dali, zap de lá, e fico sabendo que está para começar o show dos Paralamas do Sucesso no festival Lollapalooza. Uma boa pedida. 

Boa, não: excelente. Escutando e olhando para a telinha, me dei conta que o Paralamas está comigo desde a meninice, quando fui vê-los lançar o compacto de "Vital e sua moto". Faz tempo, senhor: eu tinha catorze anos, debutava no segundo grau e a gente achava o máximo pegar o ônibus circular, de Copacabana até o Jardim Botânico via Leblon, para ir ao Parque Lage só para ver a banda. Menos de dois anos depois, eles explodiram de vez no Rock in Rio e estão aí até hoje. 

Conheço literalmente todo o setlist, uma faixa atrás da outra, e a competência da banda é permanente. Tocam juntos há muitos anos com músicos que nem podem ser chamados de apoio, mas parte da banda moralmente falando. João Fera (teclados), Bidu Cordeiro (trombone) e Monteiro Jr. (saxofone) acompanham os Paralamas nos palcos há décadas, sempre com ótimos resultados artísticos. Nota 10.

A cada sucesso, a garotada do Lollapalooza urra e dança. Quando a maioria nasceu, os Paralamas já eram consagrados, mas estão tocando sob o sol a pino como se fossem iniciantes, de tão entusiasmados. É visível na tela. Então me lembro de uma cena de 1988, no Festival Alternativa Nativa que rolou no Maracanãzinho: eu, Jorge, Henrique e mais alguém, a gente no show dos Paralamas. Herbert Vianna, todo de vermelho, fez embaixadinhas com uma lata ou algo parecido. 

Se os Titãs foram avassaladores com sua mistura de pop e peso na segunda metade dos anos 1980, o Barão Vermelho foi a grande banda de rock puro daquele tempo e a Legião Urbana arrebatou multidões, o papel dos Paralamas do Sucesso não foi menos do que espetacular: além de popularizar os metais latinos no Brasil, a banda continuou rock mas temperada com sabores latino-americanos, caribenhos, jamaicanos e brasileiríssimos, numa mistura que até hoje soa maravilhosamente bem, com frescor de novidade. 

No trio base, Herbert Vianna é um dos melhores guitarristas já surgidos no Brasil, e a cozinha do contrabaixo de Bi Ribeiro com a bateria de João Barone é uma verdadeira máquina de ritmo. Aliás, anos atrás entrevistei Barone em sua casa e ele foi tão simpático que sentei no chão para trabalhar. Foi um barato: falávamos do nosso Fluminense. Barone acabou de fazer sua turnê com o Call The Police, ao lado de Rodrigo Santos e Andy Summers. É um monstro.

Uma horinha de show, todo mundo cantou a valer no Lollapalooza e está na hora do final. Olho para aqueles caras e lembro de quantas vezes os vi no Canecão, no Circo Voador, no Maracanãzinho. Quantas vezes os ouvi, quantas vezes namorei seus LPs sem dinheiro para comprá-los - e quando tive uns trocados, compensei comprando todos os CDs. Quantas vezes não alimentaram meus romances fracassados mas inesquecíveis? 

Uma das grandes bandas do mundo é 100% brasileira, e tenho orgulho de acompanhá-la desde o começo. Os Paralamas tiram é onda! 

Saturday, March 25, 2023

Oração iconoclasta

Por que somos tão escr0t0s?

O que faz a gente ser assim?

Não nós, nem todos nós, mas muitos e muitos de nós.

Por que somos tão hipócritas?

Por que nos doemos somente quando a miséria é do outro lado do mundo, mas a desprezamos em nossa calçada?

Por que em nome de Deus, da pátria e da família, muitos de nós fazem atrocidades inaceitáveis aos olhos do Criador, repulsivas para o Estado e vergonhosas para nossa célula familiar?

Por que somos tão cafonas, antiquados e totalitários, mas vivemos pregando sobre o somos incapazes de realizar?

Por que muitos de nós somos progressistas da boca pra fora, mas no cotidiano agimos igualzinho aos poderosos coronéis que oprimem e humilham?

Por que enchemos a boca para falar de amizade mas, na vida real, não somos nada do que discursamos?


Friday, March 24, 2023

mais do mesmo na cidade indiferente

Reprodução do texto de Leandro Pereira no Facebook. 

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Hoje ocorreu um suicídio no banheiro do Casashopping, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Um segurança atirou na própria cabeça. Ele era jovem e gravou um vídeo de esclarecimento a todos. Algo angustiante aconteceu no maior shopping de decoração da América Latina. Ali é um dos ambientes mais luxuosos no Rio. 

O jovem se dizia uma pessoa triste e infeliz. Disse que fingia ser uma pessoa legal, estava até acontecendo algumas coisas legais na vida dele. Mas ele voltou pra escuridão. 

Lembrei com a minha supervisora um episódio em 2020 quando eu falei com uma moça da limpeza agradecendo a gentileza dela ao liberar o banheiro de manhã. Ela disse "obrigado". Na saída eu perguntei o motivo do agradecimento. E ela disse que se sentia invisível, que ninguém falava com ela.

Não vou postar o vídeo do rapaz porque é de chorar. 

Precisamos urgentemente incluir as pessoas. Precisamos falar sobre suicídio.

Ninguém é feliz o tempo todo.

Peço orações ao Ericles Oliveira. Para que a alma dele encontre conforto, para que Deus tenha piedade dele.

Tuesday, March 21, 2023

escola, escola

Antes de tudo, tudo mesmo, é bom que se diga: escola é fundamental e o único jeito para sairmos do século XIX. Apesar de tudo, tenho sobrevivido bem graças aos estudos. 

Contudo, minha vida escolar não foi nada fácil. Uma verdadeira bagunça. 

Mal havia começado, fui expulso de uma escola pela ditadura. Numa situação extremamente azarada, os militares resolveram descobrir que perigo eu representava para a sociedade aos sete anos de idade. Mandaram a direção me excluir. 

Eu estudei sozinho em casa. Sempre gostei de estudar. Pulei da primeira para a segunda série por nivelamento. Aí, precisamos mudar temporariamente de Copacabana para Vaz Lobo, meu pai estava muito empobrecido. Parei na metade da terceira série. Nesse tempo, que durou pouco mais de um ano, fiquei sem estudar formalmente, mas fazendo exercícios em casa diariamente por conta própria. 

Voltamos para Copacabana no final de 1977 e aí, finalmente, tive estabilidade escolar. Comecei a quarta série em 1978 e fiquei no mesmo colégio até 1980, quando fui dispensado por não poder pagar a mensalidade e ter tido uma nota vermelha em Matemática, a única de todo o meu currículo escolar, que questiono se foi um mau desempenho meu ou uma desculpa para tomarem minha bolsa de estudos. 

Saldo: até os 12 anos de idade, fui expulso de uma escola, perdi a bolsa em outra, praticamente não fiz a primeira série, saltei para a segunda e fiz metade da terceira. Por incrível que pareça, nada disso atrapalhou meu avanço nos estudos. 

Em 1981, fiz a sétima e oitava séries em escola pública, o que continuou no Segundo Grau. 

Trouxe comigo até hoje poucos amigos do primeiro grau e nenhum do segundo, uma pena e uma estranheza também.

Passei por boas escolas, não tenho dúvidas, e tive alguns professores admiráveis, poucos, que realmente me influenciaram. Outros, não: alguns realmente não ensinavam bem e outros eram grosseiros gratuitamente, na verdade estúpidos, estúpidos ao extremo.

Havia também o bullying, que era insuportável em muitas ocasiões. Esse é um assunto muito sério, que faz muitas crianças e adolescentes sofrerem ao extremo, inclusive levando alguns ao suicídio, mas há gente suficientemente ignorante para dizer que é "frescura" ou "babaquice".  Sofri bastante com isso, mas menos do que outros colegas de classe que eram extremamente humilhados pelos alunos que se sentiam "superiores". 

Depois cheguei à universidade. Passei por várias, mas a dona do meu coração é a UERJ. Lá, levei alguns poucos zeros, aprendi com todos eles, também tive grandes professores, outros péssimos, mas já não havia bullying algum e fui muito feliz por lá, talvez feliz como nunca mais voltei a ser em quantidade. 

O diploma de estatístico cancelou aquela nota vermelha em Matemática na sexta série. 

Sunday, March 19, 2023

para o verão que morre

Dois terços de março escorreram num estalar de dedos e pimba: acabou o verão.

Eu gostava mais quando era garoto, entre meus 11 e 17 anos. Não que fosse fácil, porque não era: sofria muito em casa. Porém, quando você mora perto da praia, ela se incorpora à sua vida. Jogar bola, ver a beleza das meninas, o desenho do Atlântico Sul em Copacabana, sentir o enorme silêncio de manhãzinha, a neblina da ganja à noite perto do mar. Dando sorte, você até conversava com ídolos, como me aconteceu certa vez: eu e Xuru saímos da água com nossas pranchas de isopor, quando Orlando Fantoni e Paulo Amaral puxaram papo conosco e nos pagaram picolés de côco. Imagine, eu molequinho e um campeão mundial conversando comigo. 

Minha praia cerrou as portas de vez em 1989. Às vezes eu corria às seis da manhã, voltava em casa para tomar banho e saía correndo, porque o 434 não esperava. Chegava na UERJ elétrico, enquanto o pessoal ainda estava sonado. Uma contusão no tornozelo encerrou minha carreira de atleta, e as aulas cedo mais os estágios resumiram minha Copacabana a um dormitório. O golpe final foi o despejo anos depois, que arrasou toda a minha família. Não é fácil ser humilhado pela pobreza. 

Desde então, lá se foram trinta verões. Eu voltei à praia muitas vezes, à noite, pelo futebol ou para caminhar, fazer algum exercício, namorar. O problema é que a relação de vizinhança se espatifou. Você descia e estava no calçadão em dez minutos a pé, encontrava os amigos. Agora, não. 

O verão era uma promessa. Grandes shows, bares, o amor, roupas leves, sem maiores preocupações. Aí você estuda, começa a trabalhar, passa trinta anos numa baia sem janelas, perde trinta verões e, aos 50, uma mulher hipócrita finge chorar ao te entregar a carta de aviso prévio - tchau. No Brasil dos últimos anos foram milhões, o que fez o Rio sentir o golpe literalmente: a cidade está esvaziada, decadente e triste, cheia de lojas fechadas pelos bairros, com muita gente chorando de fome e sede nas ruas. E então o verão tem a missão de espalhar alegria e encobrir melancolia. O samba, os blocos, o Carnaval, o começo da temporada do futebol, tudo isso serve feito uma deliciosa cachaça para nos entorpecer, até voltarmos aos melhores anos de nossas vidas. 

Bate a realidade. O Carnaval passou, os blocos se despediram, o Campeonato Carioca vai terminando e, com exceção dos sofridos engravatados, a turma começa a sentir que o outono se avizinha. As folhas irão ao chão, a chuva deve aumentar. As águas de março, Tom e Elis. O verão tem uma felicidade gratuita que a sobriedade do outono trata de tirar do caminho. 

Ah, verão: queria ser teu adolescente outra vez. Pobre, choroso, mas com vários momentos desse pequeno bálsamo chamado felicidade. 

Tuesday, March 14, 2023

Titãs, Raimundos, Canisso e Dorsal Atlântica

Eu sou fã dos Titãs, muito fã. Desde que começaram a tocar no rádio, quando isso era um sinal de sucesso à vista. Entre o fim dos anos 1980 e o começo dos 1990, os Titãs eram os reis do Canecão, vi muitos shows por lá. Uma casa histórica, o ingresso barato e a dez minutos da minha casa de ônibus. Logo, logo, você estava diante de Tim Maia, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e até o Jethro Tull.

Por isso, num domingo à noite em 1992, depois de um campeonato de botão na casa do Luiz, resolvi partir para o Canecão em busca do novo show dos Titãs. Joguei minhas partidas, me despedi do pessoal, desci a Figueiredo Magalhães, peguei o ônibus na Avenida Copacabana e, em minutos, estava na bilheteria comprando meu ingresso titânico, mais uma vez. Cheguei cedo e fiquei sabendo que teria uma banda de abertura, os Raimundos. Ainda com a casa quase vazia, os novatos subiram para o palco. E meia hora depois eu estava impactado por uma verdadeira porradaria sonora, misturando som pesado com ritmos nordestinos e triângulo, além de muitos palavrões. Um negócio sensacional. Pensei na hora: esses caras vão dar liga no rock. Depois vi meu maravilhoso show titânico numa boa, mas os Raimundos foram marcantes demais. 

Pouco tempo depois, deu no que deu: os Raimundos viraram ponta no rock brasileiro, tocaram loucamente, encararam uma legião de fãs e se consagraram. Os primeiros álbuns eram demolidores e deixaram suas marcas. Acompanhei tudo de pertinho. Os anos 1990 tinham bandas brasileiras poderosíssimas surgindo, além dos Raimundos: Planet Hemp, O Rappa, Chico Science e Nação Zumbi, Pato Fu, Skank, uma turma da pesada. 

Anos depois, por vários motivos, acabei me afastando do som dos Raimundos. Fui escutar outras coisas, muitas coisas, a banda mudou de formação etc, mas nunca esqueci daquele começo deles, até por serem apadrinhados pelos Titãs, com quem sempre caminhei. E aí surge o nome do baixista Canisso, porque era o cara mais simpático e articulado da banda, sempre falando na MTV num tempo em que a emissora dava as cartas na cultura nacional.

Lembrar de Canisso e dos Raimundos é automaticamente lembrar de tempos felizes na UERJ, de grandes almoços em restaurantes como o Capelinha em Vila Isabel e o La Monet, no Méier. Grandes amigas, gatas crush. De meus últimos anos como um feliz morador de Copacabana, apesar de tudo. Coisas de 30 anos atrás, quando você é jovem e acredita piamente nos versos da charmosíssima Marina Lima: "o mundo pode ser seu, todinho seu!". Mas aí surgem os versos implacáveis de outro poeta, Cazuza: "o tempo não para". 

Assim, o tempo escorreu e Canisso, ainda tão jovem, morreu na segunda passada aos 57 anos de idade. Mesmo dia do aniversário de Chico Science, se não me engano. A comoção provocada nos fãs e as inúmeras declarações dos colegas de profissão não deixam dúvidas sobre a falta que deixará. 

Há outras histórias, muitas, mas estas eu deixo para depois. Se meu espírito já não era mais próximo aos Raimundos nos dias mais atuais, ele continua se alimentando de rock - e, por isso, encerro estas linhas saudando meu amigo e ídolo Carlos Lopes, referência da música extrema brasileira: viva a Dorsal Atlântica!

Canisso, siga em paz e obrigado por tudo. 

Monday, March 13, 2023

segunda no rio

Meio de março, águas a caminho, as duas prorrogações do Carnaval com seus super blocos já se foram, o verão começa a dar adeus.

A proximidade do outono parece trazer uma espécie de volta à realidade.

Você liga o jornal e a violência é cada vez mais intensa, não apenas dos grupos criminosos de sempre, mas do delinquente ocasional - aquele que nunca roubou uma tampinha de caneta e, de repente, mata alguém. Uma mulher busca uma faca e mata o namorado por ciúmes. Um monstro enche um garotinho de porradas, porque teria maltratado seu cachorro pitbull.

No Riachuelo, tradicional e esquecido bairro carioca, falta água no verão. As pessoas pagam as contas mas são humilhadas e ficam impotentes. Riachuelo, Sampaio, Rocha, Quintino, Água Santa, cheios de gente e problemas, mas completamente desprezados pelos poderes públicos. Geralmente são visitados em época eleitoral, candidatos em busca de votos e só. No fim, as pessoas são muito humilhadas. 

Deve ter briga de torcidas. Clássico no Maracanã logo mais. Tem sido assim há muitos anos. Por que será que a polícia não consegue prender pessoas que matam outras, tendo o pobre futebol como desculpa? Por que será que é tão difícil quanto prender certos traficantes e milicianos? E o que adianta proibir o uso de camisas no Maracanã se as brigas mortais podem acontecer em Madureira, Anchieta, São João de Meriti, Caxias etc? Prevenção ou populismo barato, jogando pra galera sem realmente resolver o problema? 

Ao mesmo tempo, o coração da cidade agoniza em via pública. O Centro, o grande Centro de grandes personagens e histórias de importância nacional, se decompõe a olhos nus. Sem um público circulante de mais de 70 ou 80 mil pessoas, provocado pelos desastres político-econômicos, a pandemia e a especulação imobiliária, o que se vê é um ar de decadência, exceto por situações pontuais específicas - uma bela exposição no CCBB, por exemplos. A Rua da Carioca, símbolo do orgulho carioca, hoje é uma via de passagem de veículos, com 80% de suas lojas fechadas e deserta depois das 17 horas. A Praça Tiradentes está completamente abandonada. Em diversos pontos, dezenas e dezenas de prédios abandonados que jamais serão retrofitados, muitos com apenas um banheiro coletivo por andar. Enquanto isso, a gentrificacão corre solta no Porto Maravilha. "Ah, os pobres… que se danem!". É triste demais. 

Enquanto as zonas norte e oeste vivem o ocaso e o desprezo, a zona sul experimenta a miséria nas ruas como raras vezes se viu. Catete, Flamengo, Botafogo e Copacabana vivem a incoerência de prédios com PIB expressivo abrigando a indigência debaixo de suas marquises garbosas. Famílias inteiras choram e passam fome, mas o dar de ombros é a regra. Há quem lamente que a Covid-19 tenha matado "apenas" um ou dois milhões de pessoas. 


Hoje Antônio Pedro será enterrado e, com ele, vai-se muito do riso carioca que alegrou nossos cinemas, teatros e o imaginário dos velhos botequins. A boemia que, aos poucos, fomos trocando pelo comodismo dos áudios no WhatsApp - porque escrever cansa. 


Segunda no Rio, céu de gris, melancolia. 


Tuesday, March 07, 2023

é difícil ser bicho

Depois de mais de uma noite mal dormida, ligo a TV e me deparo com um caminhão tombado em algum lugar. A carga era um monte de galinhas.

Coitadas. Juntas num bolo que mais parecia um supermercado cheio, paradas, cacarejando sem saber que adiaram a morte. 

Já no take seguinte, como era de se esperar, um monte de gente esfomeada começou a saquear a carga. Para muitas galinhas, a hora da morte sofreu apenas uma vírgula.

É muito duro ser galinha, frango, peixe ou qualquer bicho que faça parte da cadeia alimentar humana. Eu não queria que nenhum bicho morresse, mas o frango, o peixe e o espetinho são deliciosos. É uma contradição que sempre carregarei.

É muito duro ser humano no Rio de Janeiro onde, se você não pertence a um nicho de elite econômica, quase sempre está ameaçado pela violência, despejo, miséria, sofrimento e o pior: com a total indiferença das pessoas em volta. Se alguém para numa janela e ameaça o suicídio, a turma da calçada grita "Pula!". Todo mundo que tem 50 anos ou mais já ouviu algum infeliz dizer "Tem que tacar uma bomba em cima da favela e matar tudo".  Nós, societá, somos muito piores do que parecemos. 

A TV continua. A mãe assassinada, o rapaz morto na briga de torcidas, o assalto na portaria e por aí vai.

Há quem acredite que a solução é só pensar em coisas boas, deixar de lado a má energia. Na prática, fingir que isso tudo não existe e que não fazemos parte desse processo.

Eu, não, mesmo que pareça hipócrita minha solidariedade às galinhas, porque a que dedico aos seres humanos não tem hipocrisia alguma. 

Então desligo a TV, o ventilador super turbo, me preparo para o banho e a saída para o trabalho.

Na cabeça, carrego medo, tristeza, decepção. Já pensei muitas vezes que eu gostaria de ser uma pedra bem grande e ficar na minha num parque qualquer. Quando era pequeno, tinha uma bem grandona no Parque da Cidade. Queria revê-la, nunca mais fui lá.

Bom, pedra bem grande longe de empreiteiros da brita, que fique registrado. 

Bom dia. 



Agora que o ano finalmente começou

Começou o ano de 2023 de fato no Rio. Uma semana depois do fim do Carnaval, os últimos blocos ainda arrastam multidões no Centro da Cidade e, a seguir, ficam para trás as festas, os abraços, os beijos românticos e o frenesi das ruas. Deixa um gosto de quero mais, aguçado por aqui devido à pandemia. Este Carnaval foi além da celebração, servindo também de desafogo contra a opressão que invariavelmente nos cerca. Por isso mesmo, muita gente o viveu ainda mais intensamente, um fato que não deixa de ser absolutamente compreensível.

Depois que as serpentinas foram varridas do chão, vem a realidade e ela não é nada fácil para nós, cariocas, da gema ou não - tanto faz. 

A esperança que já sopra noutros lugares do Brasil, motivada pelo novo governo que, goste-se dele ou não, já dá seus primeiros sinais de ação, ainda é bem rara no Rio. 


Talvez nunca tenhamos sido uma cidade tão partida como agora, onde a questão econômica dói como faca rascante. 


A miséria está estampada a olhos nus, basta um pouquinho de atenção. O tal normal, que viria depois do controle da pandemia, nunca chegou. Salvo o tradicional bolsão elitista da Zona Sul e de outras localidades como a Grande Tijuca, o desemprego sugere a cidade num grande feriadão, vazia. Mesmo em locais de grande circulação comercial como no Méier e em Madureira, a diferença de público circulante é nítida quando comparada ao passado. Ok, o transporte público continua lotado, então como explicar isso? Simples: o sucateamento, a ineficiência e a desorganização. 


O coração do Centro bate descompassado, inchado, com risco de morte. A região continua sofrendo com seu completo esvaziamento. A hora do rush às vezes sugere que você está num feriado, de tão vazia. Com mais de dez mil unidades fechadas, muitas antes da pandemia, o Centro tem uma reação muito lenta com alguns retrofits que mais parecem gentrificacão. Aliás, a própria história do retrofit é bastante imaginativa, porque muitos prédios da região possuem apenas um banheiro por andar, típico de modelos construtivos de outrora. Como transformá-los em habitação? 


O subúrbio mantém sua luta pela sobrevivência e identidade. Cada vez mais as ruas estão vazias, salvo os tradicionais pontos de concentração. Não é surpresa alguma que, se você resolver vir de Cascadura para o Centro às 21 horas, não passe por uma viatura policial sequer. A política comercial está deteriorada. A insegurança é a regra principal. Nossa sorte é que brotam iniciativas populares próprias, como a maravilhosa Livraria Belle Époque no fígado do Méier - cada bairro suburbano precisava ter uma Belle também -, porque a única saída que temos está na conscientização social e ela depende dos livros, dos discos e da arte em geral. É claro que, do calçadão de Madureira à batata frita de Marechal Hermes, o subúrbio carioca nos oferece momentos maravilhosos - o problema é que são para poucos habitantes. 


Que 2023 desafogue o nosso nó na garganta. 


Thursday, February 23, 2023

verão no rio

Tá calor. Três da manhã. Lanchei baguete com guaraná. Não consegui dormir. Eu nunca mais dormi direito. Tudo bem: quando morrer eu descanso. Começou o ano novo. E daí? Os dias são todos iguais para os oprimidos: você luta para sobreviver. Justamente hoje preciso acordar mais cedo, tenho reunião de trabalho. Justamente hoje, quando me vi em Dakar ou noutra terra de horizonte limpo e nenhuma alma à vista. Pelo menos falei com minhas amigas de muito tempo, todos ainda sob a tristeza pelo Renato. Escrevi quase todo o final do livro. Espero ter ganhado na Lotofácil e escapar do caos, mas só vou conferir os cartões amanhã. Ouvi Duran Duran, como em quase todos os dias. Beach Boys também, "Good Vibrations". All of us need this! Recebi propostas ridículas de emprego home office. Nenhum cliente para livros novos. Na loja, o cliente quer raridades do Pink Floyd. Eu rio nervoso. Conversei com o Piccoli. Também com Bosisio. Com Robertinho. Conto carneirinhos. Eu não durmo de nervoso, de muito nervoso, porque tem uma guilhotina sedenta pela minha cabeça ensanguentada e preciso fugir. Oh, phod3u! O primeiro gênio da insensibilidade vai me chamar de suicida. Quase todo mundo vai procurar o significado literal destas linhas e aí está o erro: não há. Só 10% é verdade. É tudo verdade ou não. Ah, sim, Gabriella estava muito bonita na foto. Não, essa não é uma boa explicação: ela é bonita independentemente da foto. Falei com o Piccoli sobre o Didi e a Adriane, quanto tempo! Sign of the times! Tá calor. Três e vinte. Os minutos escorrem, escorrem. Dizem que é uma dádiva, ok. Talvez ainda escreva hoje sobre o Fluminense, porque é o único refúgio fácil de humanidade que me resta: abrir as cortinas do passado. Agora eu penso em Fred, em Luiz Magno, naquele apartamento junkie rock da Figueiredo Magalhães que eu sempre considerei uma casa, mesmo nunca tendo dormido por lá. Eu nunca mais encontrei minha casa. Fred e Magno estão profundamente mortos, mas eles vivem comigo, penso neles, meus amigos tão longe daqui. Eram jovens demais. Naquela casa eu rascunhei meus primeiros passos pelo mundo, ouvi Kraftwerk e Mercyful Fate. Olhei o lindo par de olhos da Claudia, Fred teve ciúmes e ri. Lembrei da janela da sala, quando certa vez um vaso de plantas explodiu aos meus pés do outro lado da rua, fiquei preto de terra do pescoço ao tornozelo e os imbecis riram na rua. No fim, falei todas essas coisas sem a menor necessidade de que alguém ouça ou leia, porque é dever do cronista falar sozinho na frente de todo mundo. Depois, ninguém liga ou se lembra: somos muito impessoais, nossos umbigos tomam tempo demais. É, amigo, é difícil ter quem estenda os braços a quem procura abrigo. Na madrugada das silenciosas tragédias anunciadas, escrever é se sentir vivo, mesmo dizendo coisas insignificantes. Daqui a pouco é um novo dia, muitos serão explorados no talo, mas isso fica para outro momento. Outro. Outro. 

Outro.

Wednesday, February 22, 2023

a ficha ainda não caiu?

Hoje, a expressão traduz que ainda não despertamos para alguma realidade, estando devidamente incorporada à língua corrente, mas quem se lembra de sua função original? 

Num mundo sem celulares e com telefones residenciais caríssimos, a gente telefonava dos orelhões. Tinha fila, uns viviam cheios, outros eram cult.

Você depositava a ficha no telefone, ela fazia plim e você podia falar por quatro minutos numa ligação local. Um namoro adolescente exigia pelo menos dez fichas e a paciência de quem estivesse atrás na fila. Às vezes, em alguns aparelhos a ficha não caía, então o sonho do telefonema demorado se materializava baratinho. E a turma que amarrava linha na ficha para "pescá-la"?

Geralmente eu ligava pra casa quando viajava, acampava ou ia dormir fora. Ainda lembro da felicidade da minha mãe quando eu ligava. Nos acampamentos era mais difícil, mas eu dava um jeito de ir à cidade e telefonar. Ela gostava tanto. Como era bom ligar pra alguém que gosta da gente, sem saudosismo mas bem diferente da frieza das mensagens digitais. 

Um orelhão em perfeitas condições era um estouro. Uma alegria. Ouvir e falar bem. Era o jeito de nos comunicarmos. Hoje, tudo ficou mais fácil, mas pouca gente quer ouvir o outro. Quem telefona pra quem? Quem tem prazer de ouvir a opinião do outro? 

Durante muitos anos, trabalhei com o telefone numa tarefa não muito fácil: explicar procedimentos de cálculo. Essa parte tirou um pouco da minha vontade de conversar pelo telefone, mas nunca foi absoluta. 

Num mundo em que as pessoas economizam palavras até na hora da morte de pessoas queridas, dá o que pensar. Por outro, muitos dizem que nunca se escreveu tanto por causa da internet. Ok, mas o que é escrito? O que agrega mesmo? O que integra, convida? Difícil. 

E as fichinhas? De metal fosco chumbo, com o nome da Telerj e até da Cetel.  Eram vendidas em cartelas. Com a nova tecnologia veio a era dos cartões telefônicos. O serviço continuou, mas o charme acabou. Já vinha um novo tempo. 

Os orelhões são muito raros agora. Quando se vê algum, está recheado de panfletos de profissionais do sexo. Sim, a ficha já caiu. 


@pauloandel

Monday, February 20, 2023

Nossas gangues de amor

(Em memória amorosa de Renato Alberto Azevedo, falecido hoje)

Durante um tempo, eu liderei uma turma que fez história no começo dos anos 1990 na UERJ, mais precisamente no Instituto de Matemática e Estatística. Muitos veteranos se formaram e então o carisma foi transferido para a mocidade que chegava. E aí, rapidinho, veio a turma do Renato Azevedo - senhora turma por sinal, com vários caras maneiros e gatas idem. Então juntamos nossas gangues de amor. De 1992 a 1994 vivemos a 350 km por hora, o que significa grandes festas, churrascos com mais de cem pessoas, viagens e etc etc etc. Até nos formamos, pois. 

Um dia, Renato foi pro Ceará. Se mandou. Sumiu. Só fui vê-lo anos depois, quando nos encontramos na Rodoviária, eu indo buscar minha mãe e ele indo pra algum lugar. 

Nos últimos anos a distância nos apartou pessoalmente, mas jamais em pensamento. Renato foi um dos caras mais legais que conheci na vida. O nosso forte ficou naqueles três anos diários, absolutos, mas é melhor viver três anos a mil do que mil anos a três. Sempre rindo, brincando, tranquilo. Nós o chamávamos de Renato Tranquilo. 

Um instante, uma postagem, o Renato se foi. Na verdade, tudo que eu disse aqui é para disfarçar a dor que estou sentindo. Na minha cabeça ele sempre foi um jovem, um touro com o mundo pela frente, então me sinto atordoado. 

Vivemos três anos a mil. Rimos, brincamos, nos divertimos, almoçamos, jantamos e choramos juntos. 

Cara, te amo. Obrigado por ter cruzado o meu caminho. A UERJ que eu vivi não teria sido a mesma sem você. Mais não sei dizer. Desculpe a dor. 

@p.r.andel

Saturday, February 18, 2023

cotidiano

A opressão mata. Humilha. Tortura. Destrói sonhos. Em todo o mundo, centenas de milhões de pessoas são oprimidas, humilhadas, desgraçadas. Num planeta lindo, de geografia maravilhosa que não pode ser vivida por quase ninguém. Centenas de milhões de pessoas que mereciam as artes, os esportes e a natureza, mas só possuem humilhação e indignidade. 

Salvo situações excepcionais, o mundo é determinado pelos berços. A trajetória de cada um vem da fonte e é muito difícil mudar. Gente que nunca fez mal a ninguém morre em guerras as mais variadas. Gente que precisa de tão pouco tem suas mãos estendidas em vão, sem qualquer espécie de afago. 

As pessoas não passam de números. Números para comer, para consumir, para pagar impostos, para votar, números para estimar, números para fabricar números que alimentam outros números. Números para se usar e jogar fora quando forem desnecessários. 

Chegamos à varanda do século XXI. Enquanto pouquíssimos usufruem do conforto da tecnologia, a multidão vive como no século XIX, humilhada e faminta. 

Levamos cem anos para tirar os escravos das senzalas e jogá-los nas mãos da milícia em conjuntos habitacionais. Ou carregando caixas de comida que nunca poderão comer. Enquanto bilionários contratam passeios extraterrestres, o povo é humilhado por situações degradantes que nunca se alteram significativamente. 

Milhões e milhões de pessoas só querem uma pequena esmola, um lugar para viver honestamente, mas só recebem socos na cara, chutes covardes, escrotidão, indiferença e desprezo. Se tiverem sorte, conseguem até um bom dia e algum níquel. Se não, tudo pode ser muito pior a depender da cor da pele, do peso, da orientação sexual e por aí vai. 

Não é preciso ter formação em ciências exatas para perceber o completo desalinhamento matemático do mundo. Basta um pouco de vontade e bom senso.

Há quem se incomode com este tipo de fala. É mais cômodo pintar o mundo de azul, mas apenas isso. Não dá para fingir que a Terra não tem um imenso cinza. 

Friday, February 17, 2023

números

No fim, somos números e só. Com riqueza, importantes; insignificantes sem ela. Número do registro, número da identidade, número da matrícula, número da carteira de trabalho, da conta corrente, do contracheque. Número da casa, do prédio, do apartamento. Com sorte, número da aposentadoria. Sem sorte, talvez sem números, exceto o da geladeira do IML. A lápide tem um número, o último. Em meio a isso tudo, números de vaivém, de sucesso para poucos - mas o que é o sucesso, afinal? - e de anonimato para muitos. 

Eu sempre gostei de números desde criança, mas não queria ser um número. Eu preferia ser uma pessoa, um cidadão, um ser humano tratado com dignidade, mas a sociedade e o estado fazem tudo para me oprimir e humilhar a ponto de eu não passar de um número, desprezível, descartável, absolutamente desimportante. 

Eu preferia ser um cachorro bem tratado  numa família, ou um gato ou um passarinho, apesar da gaiola - que é opressora, mas nesse mundo de ruindade pode até ser bom negócio como residência. Bom mesmo deve ser morar nesse novo parque do Rio. Mas não, sou um número. E se eu me tornar zero ou infinito logo mais, para essa máquina de moer gente não faz a menor diferença. Troca-se um número por outro com grande facilidade. E alguém se importa com um número descartado? Somou, diminuiu, trocou, tchau e bênção. 

O próximo número, por favor.

Wednesday, February 15, 2023

para entender o brasil - compro ouro!

Na terça-feira retrasada (7/2), o ministro do Gilmar Mendes (STF) intimou o Banco Central e a Agência Nacional de Mineração a prestarem esclarecimentos sobre a comercialização de ouro do garimpo ilegal na Amazônia. 

As DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), instituições financeiras especializadas na venda e compra de ouro, dependem de autorização do Banco Central para seu funcionamento. 

A intimação atende a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo Partido Verde (PV) no STF, com pedido de medida cautelar, contra a lei federal 12.844/2013. A lei diminui a responsabilidade das DTVMs, lhes permitindo que comprem ouro com base no princípio da boa-fé, apenas com informações prestadas pelos vendedores.

Em maio de 2021, o Banco Central comprou sigilosamente 11,7 toneladas de ouro, o que não fazia desde 2011. Em junho do mesmo ano, foram compradas mais 41,8 toneladas do metal, além de mais 8,5 toneladas no mês seguinte. Portanto, em apenas três meses o Banco Central adquiriu a maior quantidade de ouro desde 2000. O país fechou o ano de 2021 com a quantidade de ouro desde novembro de 1999, somando 129 toneladas, estimadas em R$ 39 bilhões.

Questionado sobre as aquisições, o BaCen alegou a necessidade do sigilo bancário, tendo carta branca para segurar informações de interesse público.

Matéria recente do Jornal Valor Econômico informa que, em 2022, diversos Bancos Centrais do mundo investiram em ouro, em países como Turquia, Catar, China e Uzbequistão. Um total de 1.135 toneladas, no maior volume de negociação desde o distante ano de 1967. 

A tendência mundial até colocaria o Brasil em situação normal, embora seja curiosa a compra súbita em 2021 de um percentual equivalente a quase 10% do movimento mundial no ano seguinte.

Porém, há uma terrível interrogação a ser respondida entre os valores, o sigilo da operação e a chamada compra de ouro com base da boa fé: a explosão do garimpo ilegal no Brasil e o massacre da população Yanomami. 

@pauloandel

Saturday, February 04, 2023

as garotas

(original de 1990) 

Luciene está sorrindo, sentada ao lado da minha prancheta laranja transparente, onde carrego meu arsenal de conhecimentos num caderno cheio de fórmulas. O sorriso dela é lindo, vem de italianos e por isso tem dois mil anos de cultura, acompanhado pelo par de olhos claros de esmeralda. Está sempre rindo, falamos muitas besteiras descompromissadas. Não sei ao certo o motivo mas, de todas as garotas dos arredores, ela é que que mais tem do spiritus mundi indecifrável de Copacabana, embora jamais tenha morado no bairro e sequer eu a tenha visto por lá. Ainda por cima ela é branca, branca, ítala do nariz adunco cheio de charme, com seu cabelo claro cacheado, sem qualquer vestígio do sol do Atlântico Sul - e morro de rir quando Mônica se derrete de raiva porque digo "Luciene é a mais linda do mundo!" - ela se irrita e diz "Meus sais!" - algo me diz que uma celebridade vai repetir essa expressão por muito tempo. 

Dia desses fomos ao cinema com a turma, também fomos ao boliche e viajamos num feriado. Em todas essas ocasiões, fiquei reparando bem além de sua óbvia beleza: ela trata as pessoas muito bem, e acho que isso é que potencializa a atração natural que exerce em quase todos nós. No Rio de Janeiro você se depara com a beleza feminina em praticamente todas as esquinas de todos os bairros. Tudo que vivemos enquanto miscigenação popular nos levou a uma cidade de belas mulheres, dos mais variados tipos, inclusive os não óbvios. Há beleza para todos, basta ser atento e não ter preconceitos tolos. 

Não, não é só beleza e simpatia ou carisma. Vai além disso. Gosto de ouvi-la porque ela é inteligente e sagaz, a primeira a matar nossas piadas, sempre rindo, sem alterar sua elegância no tom de voz. Nunca a vi em situações de rispidez, está sempre tranquila, educada. Doce sem ser melosa. Elegante sem ser formal, muito pelo contrário. Nos dias de verão, ela vem de short jeans, tênis baixo e top branco, com a mochila pequena atravessada no ombro. Tenho um amigo que sempre se engasga ao vê-la, e outro que só consegue dizer "Que pernas!". Os machos de vinte anos são sempre óbvios,  embora saibam às vezes o que estão dizendo. 

Então me dou conta de que, depois do lindo sorriso de sempre, ela diz algo como "É isso mesmo, Paulo?", eu não respondo porque estou pensando em todas as coisas, então ela me dá um beliscão no braço esquerdo, diz 'Ei, presta atenção em mim!", eu viro e respondo "Mais do que presto, impossível!". Ela não entende nada, começa a rir, me dá um beijo no rosto e se levanta para ir à cantina ou à xerox, acho. 

Quando caminha em direção à rampa que leva ao sétimo andar - as garotas nunca desciam porque o quinto era da Engenharia e um machismo só -, eu ainda penso num último item: ela é linda, doce, educada, engraçada paca, simpática e... Fluminense! Eu, que não falo de Deus em vão e fujo das religiões, fico pensando que, no fim das contas, Luciene é uma espécie de paradigma feminino tricolor, o que sinceramente faz todo sentido. Ela tem a ver com o charme das cores, do pó de arroz, das bandeiras tricolores apaixonantes. 

Então ela olha pra trás, dá mais um sorriso, sobe e me dou conta que sua mochila ficou ao meu lado. Tudo bem, eu tomo conta e espero quanto tempo precisar. Quem tem a sorte de ser amigo de uma das garotas mais bonitas do mundo, por dentro e por fora, não tem do que reclamar. 

@pauloandel

Monday, January 30, 2023

Costa Barros, 1975

O que lembro é que saímos da casa de Dona Nininha de madrugada, eu e minha mãe, sábado para domingo. Ficava na Estrada de Botafogo, 1970, se eu não estiver enganado, mas no Google não há qualquer vestígio da casa - o endereço aponta um posto de gasolina numa região de grande tensão social, das maiores do Brasil, em Costa Barros. Lembro que a casa era grande, tinha estacionamento para uns quatro carros, dentre eles um Aero Willys com enorme banco traseiro. Na frente, era a casa da família e, nos fundos, ficava o terreiro. Eu adorava aquele ritual todo de percussão, atabaques, tenho certeza de que aquilo me levou para o gosto por música, algo tão grande que já colecionei milhares de artistas. E foi lá, numa outra tarde de sábado, que ganhei do meu pai o meu primeiro time de botão do Fluminense, lindo, botões cristal transparente e o escudo em adesivos redondos brancos. Ganhei um do Botafogo também, para ter um adversário. Depois fiquei pensando: se o Botafogo tinha uma estrada com o nome dele, o Fluminense também devia ter uma. Coisas de criança.

A madrugada. Daquela vez, ao contrário das outras, meu pai não foi encontrar minha mãe. Naquele tempo ninguém tianha telefone. Devia ser perigoso cruzar a cidade de madrugada, claro que nem se compara a hoje, mas sei que ficamos no último banco do ônibus praticamente vazio, eu e minha mãe. Era a primeira vez que eu via a noite com atenção e esmero, buscava todos os detalhes possíveis de se espiar pela janela, mas em boa parte do percurso o que lembro é do escuro e de luzes ao longe. E silêncios. E nenhum outro carro ou ônibus. E grandes terrenos vazios. 

Depois, na grande reta, veio a Avenida Brasil. Viadutos, grandes lojas. Eu me sentia numa verdadeira viagem para casa, e era mesmo. Tinha a loja de tratores, a fábrica da Kelson's, os quartéis da Marinha, o prédio da Mercedes Benz, o Bob's, o Gordon, a fábrica da UFE. Minha mãe estáva calada. Era uma garota de 30 anos, eu tinha sete. 

Foi uma grande jornada pela noite, hoje quase impossível de ser refeita. Quando chegamos à Rodoviária Novo Rio, eu me espantei com a hora no relógio: eram três da manhã. Nunca tinha ficado acordado tanto tempo fora de casa. Minha mãe cogitou de pegar um táxi, mas bem ali havia um ônibus para Copacabana, com mais gente. 

Ainda tenho uma última lembrança, que me marcou para sempre: passarmos pela Rodrigues Alves escura, vendo os Armazéns do Cais do Porto. Eles tinham algo de tenebroso que hoje não sei dizer. Foi o último registro. Depois disso, não lembro do desfecho nem de chegarmos em casa. Morávamos na Rua Santa Clara, 345, num prédio de quatro andares que já foi demolido há muito tempo e que agora abriga um flat. 

O que fez minha mãe voltar de madrugada para casa? Provavelmente ciúmes do meu pai. Medo de alguma amante, algo assim. Sempre dormíamos em Costa Barros, só nesta noite é que quebramos a regra. Para mim era só um passeio diferente, mas para ela era muito mais. Ainda moraríamos por um tempo na Santa Clara, ainda frequentaríamos Costa Barros por algum tempo. Mesmo depois de não irmos mais, minha mãe mantinha contato com Dona Nininha. Eu virei um ótimo jogador de botão. 

Em momentos como agora, eu lembro do silêncio daquela noite de 1975, há quase cinquenta anos. Ultimamente quase não saio à noite, ainda mais de madrugada, mas quando acontece eu lembro daquela noite. São silêncios familiares. Já escrevi sobre isso tudo algumas vezes, mas escrever é reescrever e recontar os fatos, ainda mais quando daquilo tudo o que restou foi apenas lembrança. 

Momentos que os garotos guardam para sempre numa caixinha de brinquedo na memória. A

@pauloandel

Saturday, January 21, 2023

para os que estão distantes

minha pequena cidade parecia 

a mulher amada, nua

deitada em êxtases

quando decido percorrê-la feito pele

e vi os veteranos da praia encostados 

na trave à espera do jogo

e lindas garotas loucas tomando ácido 

no calçadão

e mais lindas garotas indiferentes, com suas cangas, a caminho de casa 

[onde foram parar renatinha e ana paula?

e vi os novos grandes prédios cheios de luzes, onde poucos entram

ao contrário das ruas, cheias de lojas vazias e empregos mortos

lojas, patrões e histórias mortas

e ônibus passando indiferentes com 

toda velocidade

[debaixo da marquise tem uma família em desespero pelo crack

eu vi as memórias dos cinemas

que juntavam multidões na fila

e o cheiro de pipoca doce, de emoção

até entrar na sala escura e surgir 

a grande tela com imagens 

monumentais

e vi as calçadas de sonho, preenchidas 

por todos os tipos: senhores respeitáveis,

escoteiros, pivetes, playboys, camelôs, 

mensageiros, executivos e doidões felizes

e mais mulheres lindas e indiferentes

até mesmo as lindas put@s da orla, que muitas vezes só queriam namorar mas fodi@m pela sobrevivência

travestis solitários nas esquinas que fariam tudo por uma verdadeira amizade

e idosas injustiçadas com suas mãos estendidas esperando a ajuda de deus

vi grandes artistas caminhando feito anônimos e anônimos se sentindo famosos

pessoas ricas com roupas humílimas, às vezes indo para o Maracanã com rasgos

num velho bar perto do teatro, os camaradas riam toda noite com os exóticos personagens da casa, que criavam as situações mais divertidas - infelizmente todos estão mortos, 

até mesmo o bar que chegou 

a ganhar um livro  

um livro, os livros, os livros que não estão sendo lidos, os escritores que estão suicidando, os poetas atordoados - todos precisam ficar ocupados com seus smartphones

eu vi a glória e a decadência, moradores morrendo e nascendo, crianças que agora são pais e mães, gente 

que lutou por uma vida inteira

e agora se humilha com latinhas 

no chão

eu vi os globinhos às cinco da manhã preparando os jornais para a entrega a domicílio, todos os dias do ano

vi o sol, a chuva, o mar na tempestade,

a bola na chuva, as corridas solitárias

vi prédios mal assombrados virando confortáveis flats

menos mal que muitos ainda possam comer esfihas em paz no restaurante da galeria

e que o teatro hoje abrigue grandes shows de música, embora esteja faltando certa irreverência

vi casais apaixonados e, mais de uma vez, deixei uma garota no vácuo à espera do beijo - eu era difícil 

e amigos gays sofrendo pelo preconceito, se achando anormais e terrivelmente reclusos

vi artistas de futuro ficando pelo caminho, perdi contato com queridos amigos da marinha, perdi todos os contatos e meu único amigo se chama desespero

à noite, corto as ruas da minha pequenina cidade e percebo que tudo está rigorosamente lá, com exceção das pessoas - o tempo muda tudo

então, aceito minha insignificância, sento num banco da praia, penso num novo livro - mesmo sem recurso algum - e descanso sem paz


@pauloandel