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Friday, March 31, 2023
por fim
Até a próxima morte
Como sempre acontece nas últimas décadas, a chuva um pouco mais forte foi suficiente para detonar a cidade e matar pessoas.
As desculpas são sempre as mesmas: choveu tantos milímetros como nunca, aconteceu o imponderável e outras mentiras estapafúrdias que só convencem os desmemoriados ou desinformados. Ora, se o volume de chuva é grande, o que resolverá? Não é apenas noticiando que choveu demais...
Pouco antes de eu nascer, aconteceu a tempestade de 1966. Durante anos e anos ela foi uma referência de desastre. Aí veio a tempestade de 1988 que parou o Rio por dias e dias - eu era garoto, trabalhei que nem um cão. E depois vieram outras e outras e outras.
Pouca gente fala, mas a sensação de abandono é tamanha que, ao longo dos tempos, as pessoas passaram a ter medo da chuva no Rio de Janeiro. Basta o céu nublado que as ruas se esvaziam, as pessoas se escondem, compromissos são desmarcados e muitos dias úteis viram ociosos. E é pra ter medo mesmo. A falta de manutenção do sistema elétrico pode te dar um choque mortal, ou você pode ser arrastado pelas águas em plena região urbanizada. Nem é preciso dizer do sofrimento de tanta gente e encostas e lugares de risco.
Às seis e meia da manhã, o gris do céu tem cheiro de morte. Somado à véspera do aniversário do golpe militar, compõe um conjunto deprimente. Deprimente.
@pauloandel
Wednesday, March 29, 2023
Jesus não tem dentes no país da hipocrisia
Talvez a maior contribuição que as redes sociais tenham prestado ao mundo seja a exibição crua da hipocrisia mundial.
Mundial sim, o problema é universal.
O caso é que no Brasil parece que há uma faixa bônus, uma perversidade extra.
Sabe aquela garrafa de Coca-Cola 2 litros que vem com um acréscimo no rótulo? Pois bem, é só adaptar para o brasileiro excrot0, que tem um bônus exclusivo, acima da média global.
Todo mundo aqui conhece alguém que, na internet, arrota discurso progressista, bom-mocismo e ética mas que, na chamada vida pessoal, nem disfarça seu reacionarismo e egoísmo (quase uma redundância), reproduzindo comportamentos que tanto diz combater.
Nas redes, discursa contra a fome. À rua, troca de calçada para não ver gente esfomeada. Ainda tem requintes de crueldade: quando diz "Eu ajudo mas não dou dinheiro de jeito nenhum", pode ter certeza de que não ajuda em porr@ nenhuma... Alguns são capazes de responder com grosseria aos pedintes. "Esse vagabundo fica dormindo na rua", falando de alguém geralmente desmaiado porque não dorme à noite por medo de ser estuprado, incendiado e/ou assassinado. Imagine se uma besta dessas conseguiria passar uma noite sequer dormindo na calçada...
Se o tema é a desigualdade, textos e textos e textos; agora, se o vizinho, o amigo ou até um parente precisar de socorro, é só fazer cara de paisagem e ligar o "Ôdracir". Só que a urgência da vida não se resolve com textos de internet, aliás texto algum.
O racista? "Ah, eu tenho um amigo preto". O homofóbico? "Ah, eu tenho amigos gays". O discípulo do etarismo? "Não, é só para colocar um pouco mais de energia". O neoliberal herdeiro/oportunista? "Ah, você não se esforçou o suficiente...". São muitos os casos, mas quem consegue ser mais excrot0 nesta verdadeira Olimpíada da excrotidã0 é o gordofóbico: "Não estou falando do seu corpo, apenas me preocupo com a sua saúde". Não se preocupa é com porr@ nenhuma, exceto com seu escr0tíssimo senso (?) estético.
Fique sempre atento aos bacharéis moralistas. São os piores. Cheios de certezas e ditados, adoram terceirizar culpas, geralmente jogando a conta pra Deus. Não cumprimentam nem os funcionários do condomínio e querem falar de pátria. E quando vem aquela esparrela de "família", pode mexer no iPhone ou no computador do desgraçado: você vai achar m3rda com certeza. É batata! De miliciano a vendedor de sentenças, não escapa um!
A carteira de desculpas e sofismas para tanta excrotidã0 é diversa: o ser humano é complexo, a contradição faz parte da natureza humana e outras retóricas esdrúxulas - no pior estilo auto ajuda - para embrulhar luxuosamente a própria canalhice. Enganar a si mesmo é uma obsessão do hipócrita, mesmo que ele já não consiga enganar mais ninguém.
Enquanto isso, o ódio aumenta, a miséria sufoca, a intolerância agride e a indiferença mata. Salvo raras exceções, ninguém nasceu mau. A ruindade é uma doença que se adquire pela transmissão humana - para muitos, com gosto. E são exatamente esses que sabotam a tal pátria, ou o país.
Enquanto as pessoas choram e passam fome, vivem ao relento ou se apavoram com o despejo, choram para ter um emprego de salário mínimo, você liga a TV ou vai ao YouTube e logo aparece um engomadinho oferecendo maneiras de "investir", como se milhões de miseráveis pudessem fazer isso. "Planeje seu futuro", "administre"...
A hipocrisia está ligada no volume máximo e, se a gente não se mobilizar, sequer percebe.
@pauloandel
Sunday, March 26, 2023
Paralamas no Lollapalooza
Deitado em berço esplêndido no calor infernal do Rio de Janeiro, procuro alguma coisa na TV sem o futebol de domingo. Zap dali, zap de lá, e fico sabendo que está para começar o show dos Paralamas do Sucesso no festival Lollapalooza. Uma boa pedida.
Boa, não: excelente. Escutando e olhando para a telinha, me dei conta que o Paralamas está comigo desde a meninice, quando fui vê-los lançar o compacto de "Vital e sua moto". Faz tempo, senhor: eu tinha catorze anos, debutava no segundo grau e a gente achava o máximo pegar o ônibus circular, de Copacabana até o Jardim Botânico via Leblon, para ir ao Parque Lage só para ver a banda. Menos de dois anos depois, eles explodiram de vez no Rock in Rio e estão aí até hoje.
Conheço literalmente todo o setlist, uma faixa atrás da outra, e a competência da banda é permanente. Tocam juntos há muitos anos com músicos que nem podem ser chamados de apoio, mas parte da banda moralmente falando. João Fera (teclados), Bidu Cordeiro (trombone) e Monteiro Jr. (saxofone) acompanham os Paralamas nos palcos há décadas, sempre com ótimos resultados artísticos. Nota 10.
A cada sucesso, a garotada do Lollapalooza urra e dança. Quando a maioria nasceu, os Paralamas já eram consagrados, mas estão tocando sob o sol a pino como se fossem iniciantes, de tão entusiasmados. É visível na tela. Então me lembro de uma cena de 1988, no Festival Alternativa Nativa que rolou no Maracanãzinho: eu, Jorge, Henrique e mais alguém, a gente no show dos Paralamas. Herbert Vianna, todo de vermelho, fez embaixadinhas com uma lata ou algo parecido.
Se os Titãs foram avassaladores com sua mistura de pop e peso na segunda metade dos anos 1980, o Barão Vermelho foi a grande banda de rock puro daquele tempo e a Legião Urbana arrebatou multidões, o papel dos Paralamas do Sucesso não foi menos do que espetacular: além de popularizar os metais latinos no Brasil, a banda continuou rock mas temperada com sabores latino-americanos, caribenhos, jamaicanos e brasileiríssimos, numa mistura que até hoje soa maravilhosamente bem, com frescor de novidade.
No trio base, Herbert Vianna é um dos melhores guitarristas já surgidos no Brasil, e a cozinha do contrabaixo de Bi Ribeiro com a bateria de João Barone é uma verdadeira máquina de ritmo. Aliás, anos atrás entrevistei Barone em sua casa e ele foi tão simpático que sentei no chão para trabalhar. Foi um barato: falávamos do nosso Fluminense. Barone acabou de fazer sua turnê com o Call The Police, ao lado de Rodrigo Santos e Andy Summers. É um monstro.
Uma horinha de show, todo mundo cantou a valer no Lollapalooza e está na hora do final. Olho para aqueles caras e lembro de quantas vezes os vi no Canecão, no Circo Voador, no Maracanãzinho. Quantas vezes os ouvi, quantas vezes namorei seus LPs sem dinheiro para comprá-los - e quando tive uns trocados, compensei comprando todos os CDs. Quantas vezes não alimentaram meus romances fracassados mas inesquecíveis?
Uma das grandes bandas do mundo é 100% brasileira, e tenho orgulho de acompanhá-la desde o começo. Os Paralamas tiram é onda!
Saturday, March 25, 2023
Oração iconoclasta
Por que somos tão escr0t0s?
O que faz a gente ser assim?
Não nós, nem todos nós, mas muitos e muitos de nós.
Por que somos tão hipócritas?
Por que nos doemos somente quando a miséria é do outro lado do mundo, mas a desprezamos em nossa calçada?
Por que em nome de Deus, da pátria e da família, muitos de nós fazem atrocidades inaceitáveis aos olhos do Criador, repulsivas para o Estado e vergonhosas para nossa célula familiar?
Por que somos tão cafonas, antiquados e totalitários, mas vivemos pregando sobre o somos incapazes de realizar?
Por que muitos de nós somos progressistas da boca pra fora, mas no cotidiano agimos igualzinho aos poderosos coronéis que oprimem e humilham?
Por que enchemos a boca para falar de amizade mas, na vida real, não somos nada do que discursamos?
Friday, March 24, 2023
mais do mesmo na cidade indiferente
Reprodução do texto de Leandro Pereira no Facebook.
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Hoje ocorreu um suicídio no banheiro do Casashopping, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Um segurança atirou na própria cabeça. Ele era jovem e gravou um vídeo de esclarecimento a todos. Algo angustiante aconteceu no maior shopping de decoração da América Latina. Ali é um dos ambientes mais luxuosos no Rio.
O jovem se dizia uma pessoa triste e infeliz. Disse que fingia ser uma pessoa legal, estava até acontecendo algumas coisas legais na vida dele. Mas ele voltou pra escuridão.
Lembrei com a minha supervisora um episódio em 2020 quando eu falei com uma moça da limpeza agradecendo a gentileza dela ao liberar o banheiro de manhã. Ela disse "obrigado". Na saída eu perguntei o motivo do agradecimento. E ela disse que se sentia invisível, que ninguém falava com ela.
Não vou postar o vídeo do rapaz porque é de chorar.
Precisamos urgentemente incluir as pessoas. Precisamos falar sobre suicídio.
Ninguém é feliz o tempo todo.
Peço orações ao Ericles Oliveira. Para que a alma dele encontre conforto, para que Deus tenha piedade dele.
Tuesday, March 21, 2023
escola, escola
Antes de tudo, tudo mesmo, é bom que se diga: escola é fundamental e o único jeito para sairmos do século XIX. Apesar de tudo, tenho sobrevivido bem graças aos estudos.
Contudo, minha vida escolar não foi nada fácil. Uma verdadeira bagunça.
Mal havia começado, fui expulso de uma escola pela ditadura. Numa situação extremamente azarada, os militares resolveram descobrir que perigo eu representava para a sociedade aos sete anos de idade. Mandaram a direção me excluir.
Eu estudei sozinho em casa. Sempre gostei de estudar. Pulei da primeira para a segunda série por nivelamento. Aí, precisamos mudar temporariamente de Copacabana para Vaz Lobo, meu pai estava muito empobrecido. Parei na metade da terceira série. Nesse tempo, que durou pouco mais de um ano, fiquei sem estudar formalmente, mas fazendo exercícios em casa diariamente por conta própria.
Voltamos para Copacabana no final de 1977 e aí, finalmente, tive estabilidade escolar. Comecei a quarta série em 1978 e fiquei no mesmo colégio até 1980, quando fui dispensado por não poder pagar a mensalidade e ter tido uma nota vermelha em Matemática, a única de todo o meu currículo escolar, que questiono se foi um mau desempenho meu ou uma desculpa para tomarem minha bolsa de estudos.
Saldo: até os 12 anos de idade, fui expulso de uma escola, perdi a bolsa em outra, praticamente não fiz a primeira série, saltei para a segunda e fiz metade da terceira. Por incrível que pareça, nada disso atrapalhou meu avanço nos estudos.
Em 1981, fiz a sétima e oitava séries em escola pública, o que continuou no Segundo Grau.
Trouxe comigo até hoje poucos amigos do primeiro grau e nenhum do segundo, uma pena e uma estranheza também.
Passei por boas escolas, não tenho dúvidas, e tive alguns professores admiráveis, poucos, que realmente me influenciaram. Outros, não: alguns realmente não ensinavam bem e outros eram grosseiros gratuitamente, na verdade estúpidos, estúpidos ao extremo.
Havia também o bullying, que era insuportável em muitas ocasiões. Esse é um assunto muito sério, que faz muitas crianças e adolescentes sofrerem ao extremo, inclusive levando alguns ao suicídio, mas há gente suficientemente ignorante para dizer que é "frescura" ou "babaquice". Sofri bastante com isso, mas menos do que outros colegas de classe que eram extremamente humilhados pelos alunos que se sentiam "superiores".
Depois cheguei à universidade. Passei por várias, mas a dona do meu coração é a UERJ. Lá, levei alguns poucos zeros, aprendi com todos eles, também tive grandes professores, outros péssimos, mas já não havia bullying algum e fui muito feliz por lá, talvez feliz como nunca mais voltei a ser em quantidade.
O diploma de estatístico cancelou aquela nota vermelha em Matemática na sexta série.
Sunday, March 19, 2023
para o verão que morre
Dois terços de março escorreram num estalar de dedos e pimba: acabou o verão.
Eu gostava mais quando era garoto, entre meus 11 e 17 anos. Não que fosse fácil, porque não era: sofria muito em casa. Porém, quando você mora perto da praia, ela se incorpora à sua vida. Jogar bola, ver a beleza das meninas, o desenho do Atlântico Sul em Copacabana, sentir o enorme silêncio de manhãzinha, a neblina da ganja à noite perto do mar. Dando sorte, você até conversava com ídolos, como me aconteceu certa vez: eu e Xuru saímos da água com nossas pranchas de isopor, quando Orlando Fantoni e Paulo Amaral puxaram papo conosco e nos pagaram picolés de côco. Imagine, eu molequinho e um campeão mundial conversando comigo.
Minha praia cerrou as portas de vez em 1989. Às vezes eu corria às seis da manhã, voltava em casa para tomar banho e saía correndo, porque o 434 não esperava. Chegava na UERJ elétrico, enquanto o pessoal ainda estava sonado. Uma contusão no tornozelo encerrou minha carreira de atleta, e as aulas cedo mais os estágios resumiram minha Copacabana a um dormitório. O golpe final foi o despejo anos depois, que arrasou toda a minha família. Não é fácil ser humilhado pela pobreza.
Desde então, lá se foram trinta verões. Eu voltei à praia muitas vezes, à noite, pelo futebol ou para caminhar, fazer algum exercício, namorar. O problema é que a relação de vizinhança se espatifou. Você descia e estava no calçadão em dez minutos a pé, encontrava os amigos. Agora, não.
O verão era uma promessa. Grandes shows, bares, o amor, roupas leves, sem maiores preocupações. Aí você estuda, começa a trabalhar, passa trinta anos numa baia sem janelas, perde trinta verões e, aos 50, uma mulher hipócrita finge chorar ao te entregar a carta de aviso prévio - tchau. No Brasil dos últimos anos foram milhões, o que fez o Rio sentir o golpe literalmente: a cidade está esvaziada, decadente e triste, cheia de lojas fechadas pelos bairros, com muita gente chorando de fome e sede nas ruas. E então o verão tem a missão de espalhar alegria e encobrir melancolia. O samba, os blocos, o Carnaval, o começo da temporada do futebol, tudo isso serve feito uma deliciosa cachaça para nos entorpecer, até voltarmos aos melhores anos de nossas vidas.
Bate a realidade. O Carnaval passou, os blocos se despediram, o Campeonato Carioca vai terminando e, com exceção dos sofridos engravatados, a turma começa a sentir que o outono se avizinha. As folhas irão ao chão, a chuva deve aumentar. As águas de março, Tom e Elis. O verão tem uma felicidade gratuita que a sobriedade do outono trata de tirar do caminho.
Ah, verão: queria ser teu adolescente outra vez. Pobre, choroso, mas com vários momentos desse pequeno bálsamo chamado felicidade.
Tuesday, March 14, 2023
Titãs, Raimundos, Canisso e Dorsal Atlântica
Eu sou fã dos Titãs, muito fã. Desde que começaram a tocar no rádio, quando isso era um sinal de sucesso à vista. Entre o fim dos anos 1980 e o começo dos 1990, os Titãs eram os reis do Canecão, vi muitos shows por lá. Uma casa histórica, o ingresso barato e a dez minutos da minha casa de ônibus. Logo, logo, você estava diante de Tim Maia, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e até o Jethro Tull.
Por isso, num domingo à noite em 1992, depois de um campeonato de botão na casa do Luiz, resolvi partir para o Canecão em busca do novo show dos Titãs. Joguei minhas partidas, me despedi do pessoal, desci a Figueiredo Magalhães, peguei o ônibus na Avenida Copacabana e, em minutos, estava na bilheteria comprando meu ingresso titânico, mais uma vez. Cheguei cedo e fiquei sabendo que teria uma banda de abertura, os Raimundos. Ainda com a casa quase vazia, os novatos subiram para o palco. E meia hora depois eu estava impactado por uma verdadeira porradaria sonora, misturando som pesado com ritmos nordestinos e triângulo, além de muitos palavrões. Um negócio sensacional. Pensei na hora: esses caras vão dar liga no rock. Depois vi meu maravilhoso show titânico numa boa, mas os Raimundos foram marcantes demais.
Pouco tempo depois, deu no que deu: os Raimundos viraram ponta no rock brasileiro, tocaram loucamente, encararam uma legião de fãs e se consagraram. Os primeiros álbuns eram demolidores e deixaram suas marcas. Acompanhei tudo de pertinho. Os anos 1990 tinham bandas brasileiras poderosíssimas surgindo, além dos Raimundos: Planet Hemp, O Rappa, Chico Science e Nação Zumbi, Pato Fu, Skank, uma turma da pesada.
Anos depois, por vários motivos, acabei me afastando do som dos Raimundos. Fui escutar outras coisas, muitas coisas, a banda mudou de formação etc, mas nunca esqueci daquele começo deles, até por serem apadrinhados pelos Titãs, com quem sempre caminhei. E aí surge o nome do baixista Canisso, porque era o cara mais simpático e articulado da banda, sempre falando na MTV num tempo em que a emissora dava as cartas na cultura nacional.
Lembrar de Canisso e dos Raimundos é automaticamente lembrar de tempos felizes na UERJ, de grandes almoços em restaurantes como o Capelinha em Vila Isabel e o La Monet, no Méier. Grandes amigas, gatas crush. De meus últimos anos como um feliz morador de Copacabana, apesar de tudo. Coisas de 30 anos atrás, quando você é jovem e acredita piamente nos versos da charmosíssima Marina Lima: "o mundo pode ser seu, todinho seu!". Mas aí surgem os versos implacáveis de outro poeta, Cazuza: "o tempo não para".
Assim, o tempo escorreu e Canisso, ainda tão jovem, morreu na segunda passada aos 57 anos de idade. Mesmo dia do aniversário de Chico Science, se não me engano. A comoção provocada nos fãs e as inúmeras declarações dos colegas de profissão não deixam dúvidas sobre a falta que deixará.
Há outras histórias, muitas, mas estas eu deixo para depois. Se meu espírito já não era mais próximo aos Raimundos nos dias mais atuais, ele continua se alimentando de rock - e, por isso, encerro estas linhas saudando meu amigo e ídolo Carlos Lopes, referência da música extrema brasileira: viva a Dorsal Atlântica!
Canisso, siga em paz e obrigado por tudo.
Monday, March 13, 2023
segunda no rio
Meio de março, águas a caminho, as duas prorrogações do Carnaval com seus super blocos já se foram, o verão começa a dar adeus.
A proximidade do outono parece trazer uma espécie de volta à realidade.
Você liga o jornal e a violência é cada vez mais intensa, não apenas dos grupos criminosos de sempre, mas do delinquente ocasional - aquele que nunca roubou uma tampinha de caneta e, de repente, mata alguém. Uma mulher busca uma faca e mata o namorado por ciúmes. Um monstro enche um garotinho de porradas, porque teria maltratado seu cachorro pitbull.
No Riachuelo, tradicional e esquecido bairro carioca, falta água no verão. As pessoas pagam as contas mas são humilhadas e ficam impotentes. Riachuelo, Sampaio, Rocha, Quintino, Água Santa, cheios de gente e problemas, mas completamente desprezados pelos poderes públicos. Geralmente são visitados em época eleitoral, candidatos em busca de votos e só. No fim, as pessoas são muito humilhadas.
Enquanto as zonas norte e oeste vivem o ocaso e o desprezo, a zona sul experimenta a miséria nas ruas como raras vezes se viu. Catete, Flamengo, Botafogo e Copacabana vivem a incoerência de prédios com PIB expressivo abrigando a indigência debaixo de suas marquises garbosas. Famílias inteiras choram e passam fome, mas o dar de ombros é a regra. Há quem lamente que a Covid-19 tenha matado "apenas" um ou dois milhões de pessoas.
Hoje Antônio Pedro será enterrado e, com ele, vai-se muito do riso carioca que alegrou nossos cinemas, teatros e o imaginário dos velhos botequins. A boemia que, aos poucos, fomos trocando pelo comodismo dos áudios no WhatsApp - porque escrever cansa.
Segunda no Rio, céu de gris, melancolia.
Tuesday, March 07, 2023
é difícil ser bicho
Depois de mais de uma noite mal dormida, ligo a TV e me deparo com um caminhão tombado em algum lugar. A carga era um monte de galinhas.
Coitadas. Juntas num bolo que mais parecia um supermercado cheio, paradas, cacarejando sem saber que adiaram a morte.
Já no take seguinte, como era de se esperar, um monte de gente esfomeada começou a saquear a carga. Para muitas galinhas, a hora da morte sofreu apenas uma vírgula.
É muito duro ser galinha, frango, peixe ou qualquer bicho que faça parte da cadeia alimentar humana. Eu não queria que nenhum bicho morresse, mas o frango, o peixe e o espetinho são deliciosos. É uma contradição que sempre carregarei.
É muito duro ser humano no Rio de Janeiro onde, se você não pertence a um nicho de elite econômica, quase sempre está ameaçado pela violência, despejo, miséria, sofrimento e o pior: com a total indiferença das pessoas em volta. Se alguém para numa janela e ameaça o suicídio, a turma da calçada grita "Pula!". Todo mundo que tem 50 anos ou mais já ouviu algum infeliz dizer "Tem que tacar uma bomba em cima da favela e matar tudo". Nós, societá, somos muito piores do que parecemos.
A TV continua. A mãe assassinada, o rapaz morto na briga de torcidas, o assalto na portaria e por aí vai.
Há quem acredite que a solução é só pensar em coisas boas, deixar de lado a má energia. Na prática, fingir que isso tudo não existe e que não fazemos parte desse processo.
Eu, não, mesmo que pareça hipócrita minha solidariedade às galinhas, porque a que dedico aos seres humanos não tem hipocrisia alguma.
Então desligo a TV, o ventilador super turbo, me preparo para o banho e a saída para o trabalho.
Na cabeça, carrego medo, tristeza, decepção. Já pensei muitas vezes que eu gostaria de ser uma pedra bem grande e ficar na minha num parque qualquer. Quando era pequeno, tinha uma bem grandona no Parque da Cidade. Queria revê-la, nunca mais fui lá.
Bom, pedra bem grande longe de empreiteiros da brita, que fique registrado.
Bom dia.
Agora que o ano finalmente começou
Começou o ano de 2023 de fato no Rio. Uma semana depois do fim do Carnaval, os últimos blocos ainda arrastam multidões no Centro da Cidade e, a seguir, ficam para trás as festas, os abraços, os beijos românticos e o frenesi das ruas. Deixa um gosto de quero mais, aguçado por aqui devido à pandemia. Este Carnaval foi além da celebração, servindo também de desafogo contra a opressão que invariavelmente nos cerca. Por isso mesmo, muita gente o viveu ainda mais intensamente, um fato que não deixa de ser absolutamente compreensível.
Depois que as serpentinas foram varridas do chão, vem a realidade e ela não é nada fácil para nós, cariocas, da gema ou não - tanto faz.
A esperança que já sopra noutros lugares do Brasil, motivada pelo novo governo que, goste-se dele ou não, já dá seus primeiros sinais de ação, ainda é bem rara no Rio.
Talvez nunca tenhamos sido uma cidade tão partida como agora, onde a questão econômica dói como faca rascante.
A miséria está estampada a olhos nus, basta um pouquinho de atenção. O tal normal, que viria depois do controle da pandemia, nunca chegou. Salvo o tradicional bolsão elitista da Zona Sul e de outras localidades como a Grande Tijuca, o desemprego sugere a cidade num grande feriadão, vazia. Mesmo em locais de grande circulação comercial como no Méier e em Madureira, a diferença de público circulante é nítida quando comparada ao passado. Ok, o transporte público continua lotado, então como explicar isso? Simples: o sucateamento, a ineficiência e a desorganização.
O coração do Centro bate descompassado, inchado, com risco de morte. A região continua sofrendo com seu completo esvaziamento. A hora do rush às vezes sugere que você está num feriado, de tão vazia. Com mais de dez mil unidades fechadas, muitas antes da pandemia, o Centro tem uma reação muito lenta com alguns retrofits que mais parecem gentrificacão. Aliás, a própria história do retrofit é bastante imaginativa, porque muitos prédios da região possuem apenas um banheiro por andar, típico de modelos construtivos de outrora. Como transformá-los em habitação?
O subúrbio mantém sua luta pela sobrevivência e identidade. Cada vez mais as ruas estão vazias, salvo os tradicionais pontos de concentração. Não é surpresa alguma que, se você resolver vir de Cascadura para o Centro às 21 horas, não passe por uma viatura policial sequer. A política comercial está deteriorada. A insegurança é a regra principal. Nossa sorte é que brotam iniciativas populares próprias, como a maravilhosa Livraria Belle Époque no fígado do Méier - cada bairro suburbano precisava ter uma Belle também -, porque a única saída que temos está na conscientização social e ela depende dos livros, dos discos e da arte em geral. É claro que, do calçadão de Madureira à batata frita de Marechal Hermes, o subúrbio carioca nos oferece momentos maravilhosos - o problema é que são para poucos habitantes.
Que 2023 desafogue o nosso nó na garganta.
Thursday, February 23, 2023
verão no rio
Tá calor. Três da manhã. Lanchei baguete com guaraná. Não consegui dormir. Eu nunca mais dormi direito. Tudo bem: quando morrer eu descanso. Começou o ano novo. E daí? Os dias são todos iguais para os oprimidos: você luta para sobreviver. Justamente hoje preciso acordar mais cedo, tenho reunião de trabalho. Justamente hoje, quando me vi em Dakar ou noutra terra de horizonte limpo e nenhuma alma à vista. Pelo menos falei com minhas amigas de muito tempo, todos ainda sob a tristeza pelo Renato. Escrevi quase todo o final do livro. Espero ter ganhado na Lotofácil e escapar do caos, mas só vou conferir os cartões amanhã. Ouvi Duran Duran, como em quase todos os dias. Beach Boys também, "Good Vibrations". All of us need this! Recebi propostas ridículas de emprego home office. Nenhum cliente para livros novos. Na loja, o cliente quer raridades do Pink Floyd. Eu rio nervoso. Conversei com o Piccoli. Também com Bosisio. Com Robertinho. Conto carneirinhos. Eu não durmo de nervoso, de muito nervoso, porque tem uma guilhotina sedenta pela minha cabeça ensanguentada e preciso fugir. Oh, phod3u! O primeiro gênio da insensibilidade vai me chamar de suicida. Quase todo mundo vai procurar o significado literal destas linhas e aí está o erro: não há. Só 10% é verdade. É tudo verdade ou não. Ah, sim, Gabriella estava muito bonita na foto. Não, essa não é uma boa explicação: ela é bonita independentemente da foto. Falei com o Piccoli sobre o Didi e a Adriane, quanto tempo! Sign of the times! Tá calor. Três e vinte. Os minutos escorrem, escorrem. Dizem que é uma dádiva, ok. Talvez ainda escreva hoje sobre o Fluminense, porque é o único refúgio fácil de humanidade que me resta: abrir as cortinas do passado. Agora eu penso em Fred, em Luiz Magno, naquele apartamento junkie rock da Figueiredo Magalhães que eu sempre considerei uma casa, mesmo nunca tendo dormido por lá. Eu nunca mais encontrei minha casa. Fred e Magno estão profundamente mortos, mas eles vivem comigo, penso neles, meus amigos tão longe daqui. Eram jovens demais. Naquela casa eu rascunhei meus primeiros passos pelo mundo, ouvi Kraftwerk e Mercyful Fate. Olhei o lindo par de olhos da Claudia, Fred teve ciúmes e ri. Lembrei da janela da sala, quando certa vez um vaso de plantas explodiu aos meus pés do outro lado da rua, fiquei preto de terra do pescoço ao tornozelo e os imbecis riram na rua. No fim, falei todas essas coisas sem a menor necessidade de que alguém ouça ou leia, porque é dever do cronista falar sozinho na frente de todo mundo. Depois, ninguém liga ou se lembra: somos muito impessoais, nossos umbigos tomam tempo demais. É, amigo, é difícil ter quem estenda os braços a quem procura abrigo. Na madrugada das silenciosas tragédias anunciadas, escrever é se sentir vivo, mesmo dizendo coisas insignificantes. Daqui a pouco é um novo dia, muitos serão explorados no talo, mas isso fica para outro momento. Outro. Outro.
Outro.
Wednesday, February 22, 2023
a ficha ainda não caiu?
Hoje, a expressão traduz que ainda não despertamos para alguma realidade, estando devidamente incorporada à língua corrente, mas quem se lembra de sua função original?
Num mundo sem celulares e com telefones residenciais caríssimos, a gente telefonava dos orelhões. Tinha fila, uns viviam cheios, outros eram cult.
Você depositava a ficha no telefone, ela fazia plim e você podia falar por quatro minutos numa ligação local. Um namoro adolescente exigia pelo menos dez fichas e a paciência de quem estivesse atrás na fila. Às vezes, em alguns aparelhos a ficha não caía, então o sonho do telefonema demorado se materializava baratinho. E a turma que amarrava linha na ficha para "pescá-la"?
Geralmente eu ligava pra casa quando viajava, acampava ou ia dormir fora. Ainda lembro da felicidade da minha mãe quando eu ligava. Nos acampamentos era mais difícil, mas eu dava um jeito de ir à cidade e telefonar. Ela gostava tanto. Como era bom ligar pra alguém que gosta da gente, sem saudosismo mas bem diferente da frieza das mensagens digitais.
Um orelhão em perfeitas condições era um estouro. Uma alegria. Ouvir e falar bem. Era o jeito de nos comunicarmos. Hoje, tudo ficou mais fácil, mas pouca gente quer ouvir o outro. Quem telefona pra quem? Quem tem prazer de ouvir a opinião do outro?
Durante muitos anos, trabalhei com o telefone numa tarefa não muito fácil: explicar procedimentos de cálculo. Essa parte tirou um pouco da minha vontade de conversar pelo telefone, mas nunca foi absoluta.
Num mundo em que as pessoas economizam palavras até na hora da morte de pessoas queridas, dá o que pensar. Por outro, muitos dizem que nunca se escreveu tanto por causa da internet. Ok, mas o que é escrito? O que agrega mesmo? O que integra, convida? Difícil.
E as fichinhas? De metal fosco chumbo, com o nome da Telerj e até da Cetel. Eram vendidas em cartelas. Com a nova tecnologia veio a era dos cartões telefônicos. O serviço continuou, mas o charme acabou. Já vinha um novo tempo.
Os orelhões são muito raros agora. Quando se vê algum, está recheado de panfletos de profissionais do sexo. Sim, a ficha já caiu.
@pauloandel
Monday, February 20, 2023
Nossas gangues de amor
(Em memória amorosa de Renato Alberto Azevedo, falecido hoje)
Durante um tempo, eu liderei uma turma que fez história no começo dos anos 1990 na UERJ, mais precisamente no Instituto de Matemática e Estatística. Muitos veteranos se formaram e então o carisma foi transferido para a mocidade que chegava. E aí, rapidinho, veio a turma do Renato Azevedo - senhora turma por sinal, com vários caras maneiros e gatas idem. Então juntamos nossas gangues de amor. De 1992 a 1994 vivemos a 350 km por hora, o que significa grandes festas, churrascos com mais de cem pessoas, viagens e etc etc etc. Até nos formamos, pois.
Um dia, Renato foi pro Ceará. Se mandou. Sumiu. Só fui vê-lo anos depois, quando nos encontramos na Rodoviária, eu indo buscar minha mãe e ele indo pra algum lugar.
Nos últimos anos a distância nos apartou pessoalmente, mas jamais em pensamento. Renato foi um dos caras mais legais que conheci na vida. O nosso forte ficou naqueles três anos diários, absolutos, mas é melhor viver três anos a mil do que mil anos a três. Sempre rindo, brincando, tranquilo. Nós o chamávamos de Renato Tranquilo.
Um instante, uma postagem, o Renato se foi. Na verdade, tudo que eu disse aqui é para disfarçar a dor que estou sentindo. Na minha cabeça ele sempre foi um jovem, um touro com o mundo pela frente, então me sinto atordoado.
Vivemos três anos a mil. Rimos, brincamos, nos divertimos, almoçamos, jantamos e choramos juntos.
Cara, te amo. Obrigado por ter cruzado o meu caminho. A UERJ que eu vivi não teria sido a mesma sem você. Mais não sei dizer. Desculpe a dor.
@p.r.andel
Saturday, February 18, 2023
cotidiano
A opressão mata. Humilha. Tortura. Destrói sonhos. Em todo o mundo, centenas de milhões de pessoas são oprimidas, humilhadas, desgraçadas. Num planeta lindo, de geografia maravilhosa que não pode ser vivida por quase ninguém. Centenas de milhões de pessoas que mereciam as artes, os esportes e a natureza, mas só possuem humilhação e indignidade.
Salvo situações excepcionais, o mundo é determinado pelos berços. A trajetória de cada um vem da fonte e é muito difícil mudar. Gente que nunca fez mal a ninguém morre em guerras as mais variadas. Gente que precisa de tão pouco tem suas mãos estendidas em vão, sem qualquer espécie de afago.
As pessoas não passam de números. Números para comer, para consumir, para pagar impostos, para votar, números para estimar, números para fabricar números que alimentam outros números. Números para se usar e jogar fora quando forem desnecessários.
Chegamos à varanda do século XXI. Enquanto pouquíssimos usufruem do conforto da tecnologia, a multidão vive como no século XIX, humilhada e faminta.
Levamos cem anos para tirar os escravos das senzalas e jogá-los nas mãos da milícia em conjuntos habitacionais. Ou carregando caixas de comida que nunca poderão comer. Enquanto bilionários contratam passeios extraterrestres, o povo é humilhado por situações degradantes que nunca se alteram significativamente.
Milhões e milhões de pessoas só querem uma pequena esmola, um lugar para viver honestamente, mas só recebem socos na cara, chutes covardes, escrotidão, indiferença e desprezo. Se tiverem sorte, conseguem até um bom dia e algum níquel. Se não, tudo pode ser muito pior a depender da cor da pele, do peso, da orientação sexual e por aí vai.
Não é preciso ter formação em ciências exatas para perceber o completo desalinhamento matemático do mundo. Basta um pouco de vontade e bom senso.
Há quem se incomode com este tipo de fala. É mais cômodo pintar o mundo de azul, mas apenas isso. Não dá para fingir que a Terra não tem um imenso cinza.
Friday, February 17, 2023
números
No fim, somos números e só. Com riqueza, importantes; insignificantes sem ela. Número do registro, número da identidade, número da matrícula, número da carteira de trabalho, da conta corrente, do contracheque. Número da casa, do prédio, do apartamento. Com sorte, número da aposentadoria. Sem sorte, talvez sem números, exceto o da geladeira do IML. A lápide tem um número, o último. Em meio a isso tudo, números de vaivém, de sucesso para poucos - mas o que é o sucesso, afinal? - e de anonimato para muitos.
Eu sempre gostei de números desde criança, mas não queria ser um número. Eu preferia ser uma pessoa, um cidadão, um ser humano tratado com dignidade, mas a sociedade e o estado fazem tudo para me oprimir e humilhar a ponto de eu não passar de um número, desprezível, descartável, absolutamente desimportante.
Eu preferia ser um cachorro bem tratado numa família, ou um gato ou um passarinho, apesar da gaiola - que é opressora, mas nesse mundo de ruindade pode até ser bom negócio como residência. Bom mesmo deve ser morar nesse novo parque do Rio. Mas não, sou um número. E se eu me tornar zero ou infinito logo mais, para essa máquina de moer gente não faz a menor diferença. Troca-se um número por outro com grande facilidade. E alguém se importa com um número descartado? Somou, diminuiu, trocou, tchau e bênção.
O próximo número, por favor.
Wednesday, February 15, 2023
para entender o brasil - compro ouro!
Na terça-feira retrasada (7/2), o ministro do Gilmar Mendes (STF) intimou o Banco Central e a Agência Nacional de Mineração a prestarem esclarecimentos sobre a comercialização de ouro do garimpo ilegal na Amazônia.
As DTVMs (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), instituições financeiras especializadas na venda e compra de ouro, dependem de autorização do Banco Central para seu funcionamento.
A intimação atende a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo Partido Verde (PV) no STF, com pedido de medida cautelar, contra a lei federal 12.844/2013. A lei diminui a responsabilidade das DTVMs, lhes permitindo que comprem ouro com base no princípio da boa-fé, apenas com informações prestadas pelos vendedores.
Em maio de 2021, o Banco Central comprou sigilosamente 11,7 toneladas de ouro, o que não fazia desde 2011. Em junho do mesmo ano, foram compradas mais 41,8 toneladas do metal, além de mais 8,5 toneladas no mês seguinte. Portanto, em apenas três meses o Banco Central adquiriu a maior quantidade de ouro desde 2000. O país fechou o ano de 2021 com a quantidade de ouro desde novembro de 1999, somando 129 toneladas, estimadas em R$ 39 bilhões.
Questionado sobre as aquisições, o BaCen alegou a necessidade do sigilo bancário, tendo carta branca para segurar informações de interesse público.
Matéria recente do Jornal Valor Econômico informa que, em 2022, diversos Bancos Centrais do mundo investiram em ouro, em países como Turquia, Catar, China e Uzbequistão. Um total de 1.135 toneladas, no maior volume de negociação desde o distante ano de 1967.
A tendência mundial até colocaria o Brasil em situação normal, embora seja curiosa a compra súbita em 2021 de um percentual equivalente a quase 10% do movimento mundial no ano seguinte.
Porém, há uma terrível interrogação a ser respondida entre os valores, o sigilo da operação e a chamada compra de ouro com base da boa fé: a explosão do garimpo ilegal no Brasil e o massacre da população Yanomami.
@pauloandel
Saturday, February 04, 2023
as garotas
(original de 1990)
Luciene está sorrindo, sentada ao lado da minha prancheta laranja transparente, onde carrego meu arsenal de conhecimentos num caderno cheio de fórmulas. O sorriso dela é lindo, vem de italianos e por isso tem dois mil anos de cultura, acompanhado pelo par de olhos claros de esmeralda. Está sempre rindo, falamos muitas besteiras descompromissadas. Não sei ao certo o motivo mas, de todas as garotas dos arredores, ela é que que mais tem do spiritus mundi indecifrável de Copacabana, embora jamais tenha morado no bairro e sequer eu a tenha visto por lá. Ainda por cima ela é branca, branca, ítala do nariz adunco cheio de charme, com seu cabelo claro cacheado, sem qualquer vestígio do sol do Atlântico Sul - e morro de rir quando Mônica se derrete de raiva porque digo "Luciene é a mais linda do mundo!" - ela se irrita e diz "Meus sais!" - algo me diz que uma celebridade vai repetir essa expressão por muito tempo.
Dia desses fomos ao cinema com a turma, também fomos ao boliche e viajamos num feriado. Em todas essas ocasiões, fiquei reparando bem além de sua óbvia beleza: ela trata as pessoas muito bem, e acho que isso é que potencializa a atração natural que exerce em quase todos nós. No Rio de Janeiro você se depara com a beleza feminina em praticamente todas as esquinas de todos os bairros. Tudo que vivemos enquanto miscigenação popular nos levou a uma cidade de belas mulheres, dos mais variados tipos, inclusive os não óbvios. Há beleza para todos, basta ser atento e não ter preconceitos tolos.
Não, não é só beleza e simpatia ou carisma. Vai além disso. Gosto de ouvi-la porque ela é inteligente e sagaz, a primeira a matar nossas piadas, sempre rindo, sem alterar sua elegância no tom de voz. Nunca a vi em situações de rispidez, está sempre tranquila, educada. Doce sem ser melosa. Elegante sem ser formal, muito pelo contrário. Nos dias de verão, ela vem de short jeans, tênis baixo e top branco, com a mochila pequena atravessada no ombro. Tenho um amigo que sempre se engasga ao vê-la, e outro que só consegue dizer "Que pernas!". Os machos de vinte anos são sempre óbvios, embora saibam às vezes o que estão dizendo.
Então me dou conta de que, depois do lindo sorriso de sempre, ela diz algo como "É isso mesmo, Paulo?", eu não respondo porque estou pensando em todas as coisas, então ela me dá um beliscão no braço esquerdo, diz 'Ei, presta atenção em mim!", eu viro e respondo "Mais do que presto, impossível!". Ela não entende nada, começa a rir, me dá um beijo no rosto e se levanta para ir à cantina ou à xerox, acho.
Quando caminha em direção à rampa que leva ao sétimo andar - as garotas nunca desciam porque o quinto era da Engenharia e um machismo só -, eu ainda penso num último item: ela é linda, doce, educada, engraçada paca, simpática e... Fluminense! Eu, que não falo de Deus em vão e fujo das religiões, fico pensando que, no fim das contas, Luciene é uma espécie de paradigma feminino tricolor, o que sinceramente faz todo sentido. Ela tem a ver com o charme das cores, do pó de arroz, das bandeiras tricolores apaixonantes.
Então ela olha pra trás, dá mais um sorriso, sobe e me dou conta que sua mochila ficou ao meu lado. Tudo bem, eu tomo conta e espero quanto tempo precisar. Quem tem a sorte de ser amigo de uma das garotas mais bonitas do mundo, por dentro e por fora, não tem do que reclamar.
@pauloandel
Monday, January 30, 2023
Costa Barros, 1975
O que lembro é que saímos da casa de Dona Nininha de madrugada, eu e minha mãe, sábado para domingo. Ficava na Estrada de Botafogo, 1970, se eu não estiver enganado, mas no Google não há qualquer vestígio da casa - o endereço aponta um posto de gasolina numa região de grande tensão social, das maiores do Brasil, em Costa Barros. Lembro que a casa era grande, tinha estacionamento para uns quatro carros, dentre eles um Aero Willys com enorme banco traseiro. Na frente, era a casa da família e, nos fundos, ficava o terreiro. Eu adorava aquele ritual todo de percussão, atabaques, tenho certeza de que aquilo me levou para o gosto por música, algo tão grande que já colecionei milhares de artistas. E foi lá, numa outra tarde de sábado, que ganhei do meu pai o meu primeiro time de botão do Fluminense, lindo, botões cristal transparente e o escudo em adesivos redondos brancos. Ganhei um do Botafogo também, para ter um adversário. Depois fiquei pensando: se o Botafogo tinha uma estrada com o nome dele, o Fluminense também devia ter uma. Coisas de criança.
A madrugada. Daquela vez, ao contrário das outras, meu pai não foi encontrar minha mãe. Naquele tempo ninguém tianha telefone. Devia ser perigoso cruzar a cidade de madrugada, claro que nem se compara a hoje, mas sei que ficamos no último banco do ônibus praticamente vazio, eu e minha mãe. Era a primeira vez que eu via a noite com atenção e esmero, buscava todos os detalhes possíveis de se espiar pela janela, mas em boa parte do percurso o que lembro é do escuro e de luzes ao longe. E silêncios. E nenhum outro carro ou ônibus. E grandes terrenos vazios.
Depois, na grande reta, veio a Avenida Brasil. Viadutos, grandes lojas. Eu me sentia numa verdadeira viagem para casa, e era mesmo. Tinha a loja de tratores, a fábrica da Kelson's, os quartéis da Marinha, o prédio da Mercedes Benz, o Bob's, o Gordon, a fábrica da UFE. Minha mãe estáva calada. Era uma garota de 30 anos, eu tinha sete.
Foi uma grande jornada pela noite, hoje quase impossível de ser refeita. Quando chegamos à Rodoviária Novo Rio, eu me espantei com a hora no relógio: eram três da manhã. Nunca tinha ficado acordado tanto tempo fora de casa. Minha mãe cogitou de pegar um táxi, mas bem ali havia um ônibus para Copacabana, com mais gente.
Ainda tenho uma última lembrança, que me marcou para sempre: passarmos pela Rodrigues Alves escura, vendo os Armazéns do Cais do Porto. Eles tinham algo de tenebroso que hoje não sei dizer. Foi o último registro. Depois disso, não lembro do desfecho nem de chegarmos em casa. Morávamos na Rua Santa Clara, 345, num prédio de quatro andares que já foi demolido há muito tempo e que agora abriga um flat.
O que fez minha mãe voltar de madrugada para casa? Provavelmente ciúmes do meu pai. Medo de alguma amante, algo assim. Sempre dormíamos em Costa Barros, só nesta noite é que quebramos a regra. Para mim era só um passeio diferente, mas para ela era muito mais. Ainda moraríamos por um tempo na Santa Clara, ainda frequentaríamos Costa Barros por algum tempo. Mesmo depois de não irmos mais, minha mãe mantinha contato com Dona Nininha. Eu virei um ótimo jogador de botão.
Em momentos como agora, eu lembro do silêncio daquela noite de 1975, há quase cinquenta anos. Ultimamente quase não saio à noite, ainda mais de madrugada, mas quando acontece eu lembro daquela noite. São silêncios familiares. Já escrevi sobre isso tudo algumas vezes, mas escrever é reescrever e recontar os fatos, ainda mais quando daquilo tudo o que restou foi apenas lembrança.
Momentos que os garotos guardam para sempre numa caixinha de brinquedo na memória. A
@pauloandel
Saturday, January 21, 2023
para os que estão distantes
minha pequena cidade parecia
a mulher amada, nua
deitada em êxtases
quando decido percorrê-la feito pele
e vi os veteranos da praia encostados
na trave à espera do jogo
e lindas garotas loucas tomando ácido
no calçadão
e mais lindas garotas indiferentes, com suas cangas, a caminho de casa
[onde foram parar renatinha e ana paula?
e vi os novos grandes prédios cheios de luzes, onde poucos entram
ao contrário das ruas, cheias de lojas vazias e empregos mortos
lojas, patrões e histórias mortas
e ônibus passando indiferentes com
toda velocidade
[debaixo da marquise tem uma família em desespero pelo crack
eu vi as memórias dos cinemas
que juntavam multidões na fila
e o cheiro de pipoca doce, de emoção
até entrar na sala escura e surgir
a grande tela com imagens
monumentais
e vi as calçadas de sonho, preenchidas
por todos os tipos: senhores respeitáveis,
escoteiros, pivetes, playboys, camelôs,
mensageiros, executivos e doidões felizes
e mais mulheres lindas e indiferentes
até mesmo as lindas put@s da orla, que muitas vezes só queriam namorar mas fodi@m pela sobrevivência
travestis solitários nas esquinas que fariam tudo por uma verdadeira amizade
e idosas injustiçadas com suas mãos estendidas esperando a ajuda de deus
vi grandes artistas caminhando feito anônimos e anônimos se sentindo famosos
pessoas ricas com roupas humílimas, às vezes indo para o Maracanã com rasgos
num velho bar perto do teatro, os camaradas riam toda noite com os exóticos personagens da casa, que criavam as situações mais divertidas - infelizmente todos estão mortos,
até mesmo o bar que chegou
a ganhar um livro
um livro, os livros, os livros que não estão sendo lidos, os escritores que estão suicidando, os poetas atordoados - todos precisam ficar ocupados com seus smartphones
eu vi a glória e a decadência, moradores morrendo e nascendo, crianças que agora são pais e mães, gente
que lutou por uma vida inteira
e agora se humilha com latinhas
no chão
eu vi os globinhos às cinco da manhã preparando os jornais para a entrega a domicílio, todos os dias do ano
vi o sol, a chuva, o mar na tempestade,
a bola na chuva, as corridas solitárias
vi prédios mal assombrados virando confortáveis flats
menos mal que muitos ainda possam comer esfihas em paz no restaurante da galeria
e que o teatro hoje abrigue grandes shows de música, embora esteja faltando certa irreverência
vi casais apaixonados e, mais de uma vez, deixei uma garota no vácuo à espera do beijo - eu era difícil
e amigos gays sofrendo pelo preconceito, se achando anormais e terrivelmente reclusos
vi artistas de futuro ficando pelo caminho, perdi contato com queridos amigos da marinha, perdi todos os contatos e meu único amigo se chama desespero
à noite, corto as ruas da minha pequenina cidade e percebo que tudo está rigorosamente lá, com exceção das pessoas - o tempo muda tudo
então, aceito minha insignificância, sento num banco da praia, penso num novo livro - mesmo sem recurso algum - e descanso sem paz
@pauloandel
Thursday, January 19, 2023
Renda nacional, país dos hipócritas
É certo que Marina Silva cometeu um equívoco em Davos, quando afirmou que 120 milhões de brasileiros passavam fome, retificado em sua fala no dia seguinte. Mas, claro, a hipocrisia brasileira não poderia falhar numa hora dessas, tentando criar uma crise a respeito imediatamente repercutida pela imprensa de baixo calão, representada por esgotos jornalísticos como a Revista (?) Oeste, Antagonista e congêneres.
Na verdade, um prato cheio para abafar o escândalo dos 40 bilhões do Caso Americanas, que tem desdobramentos imediatos na privatização da Eletrobras.
Vejamos. O salário mínimo atual tem o valor de R$ 1.302,00, diária de R$ 43,20 e, se imaginarmos três turnos, equivalentes a manhã, tarde e noite - ou café, almoço e janta -, R$ 14,47. Evidentemente, nenhuma pessoa que ganhe salário mínimo dispõe desse valor exclusivamente para refeições, já que certamente tem outras despesas, além de contribuir para o sustento da família.
Em novembro passado, pesquisa da LCA Consultores sobre dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios) do IBGE (uma das mais dinâmicas e eficientes do mundo) indicou que, dos 97,6 milhões de ocupados do país, 35,63% recebiam no máximo um salário mínimo. Outros 31,56% ganhavam entre 1 e 2 salários mínimos. Importante frisar: o Brasil tem 214,3 milhões de habitantes, ou seja, o percentual da população ocupada brasileira está na faixa dos 45%. Os outros 55% são, de alguma forma, dependentes dos ocupados. Não é necessário nenhum cálculo sofisticado para se perceber a tragédia de um país continental onde metade da população possui renda insuficiente para o consumo mínimo e, com isso, estagnando o processo econômico - sem maiores preocupações para parte da classe empresarial, que simplesmente despreza a necessidade de sobrevivência de milhões de brasileiros.
Lembra daqueles R$ 14,47 por turno para o trabalhador? Eles não são apenas para a alimentação, mas para tudo. São 69 milhões de famílias no Brasil, de acordo com dados da POF 2018 (Pesquisa de Orçamentos Familiares, divulgada antes da pandemia e, por isso mesmo, com dados menos graves). No mesmo trabalho, 2,7% das famílias brasileiras detinham cerca de 20% do dinheiro circulante no país, enquanto 23,9% ficavam com apenas 5%.
Mais de 33 milhões de brasileiros sofrem de insegurança alimentar crônica. Traduzindo: pessoas que, ao almoçar, não têm certeza de que irão jantar.
Dados Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), divulgados em julho de 2022, indicavam que a quantidade de brasileiros que enfrentaram algum tipo de insegurança alimentar ultrapassou a marca de 60 milhões.
O erro de informação de Marina não foi crasso. O esmagamento econômico do Brasil foi tamanho que, mesmo se excluindo a população abaixo da linha da pobreza, há um número enorme de brasileiros que, mesmo ocupados informal ou formalmente, não conseguem consumir minimamente e, embora não passem fome, estão sempre à beira disso.
Ontem, 21,9 milhões de beneficiários do Auxílio Brasil começaram a receber R$ 600,00. Exatos R$ 20,00 por dia, R$ 7,00 por turno.
Preço médio do litro de leite hoje no Rio de Janeiro: R$ 5,97.
@pauloandel
Wednesday, January 18, 2023
bajulação
Durante muito tempo, acreditei que um dos piores tipos de pessoas fosse o bajulador. Eis um exemplo abominável, um papel nojento que sempre recusei para mim com veemência. Não acredito em amigos que elogiam tudo em alguém, isso não existe no mundo real. O verdadeiro amigo debate e critica, porém com a prudência e o bom senso de não ofender, senão deixa de ser amigo e passa apenas a ser um b@b@c@ que não merece atenção. Claque não é amizade. Quando tenho que elogiar, elogio em público e procuro ao máximo fazer críticas em particular.
Hoje já não tenho certeza sobre o pior papel do bajulador, por mais ridículo que seja. Afinal, para que ele, bajulador, exista, é preciso existir o bajulado - e esse também é um papel extremamente ridículo caso o próprio tenha plena noção do fato. Afinal, quem gosta de ser bajulado? O boboca, o prepotente cheio de si, muitas vezes com menos qualidades do que acredita ter, mas entorpecido pela canastrice de seus bajuladores. Uma pessoa com bons princípios detesta a bajulação na raiz.
Claro, sempre existe o outro lado. Não bajular está longe, muito longe, de grosserias, humilhações e colocações absolutamente infelizes. Muita gente confunde sinceridade com grosseria - aliás, um dos grandes hits desta rede social, onde pessoas "sinceronas" na verdade são apenas grosseironas estúpidas em busca de autopromoção. Elogiar o bom, o bem feito, o justo, o belo deveriam ser gestos normais para todos, mas nem sempre acontece. Mas elogiar não é bajular. Longe disso.
E no trabalho? Durante 21 anos, tive um cargo de confiança numa instituição. Assessorava o diretor da casa, por sinal uma das melhores pessoas com quem convivi e aprendi muita coisa. Mas em uma única ocasião, o caldo ferveu e, por meia hora, tive certeza de que seria demitido, não pelos meus defeitos mas sim pelo que eu considero uma qualidade.
Mensalmente, nos reuníamos para aprovar um indicador que eu calculava, utilizado em todos os custos cartoriais de imóveis no Rio de Janeiro - algo muito sério à época. Numa ocasião, com o presidente da entidade junto conosco - o que raramente acontecia -, o diretor resolveu encrespar com a alta do cimento, que considerou insuficiente para a realidade do momento.
O que era para ser um simples entendimento de repente virou uma confusão: expliquei que a base de dados não indicava um aumento maior, então não teríamos nada a fazer. E ele cismou que o aumento não poderia ficar apenas no percentual apresentado. Daí ele se alterou, dizendo que a alteração era uma ordem e que eu deveria me submeter hierarquicamente. Então simplesmente respondi: "Eu não vou publicar uma farsa. Trabalho nisso há onze anos. E não vou me submeter a nada que desonre meu diploma". E saí da sala, voltando à minha de trabalho, sem fechar nada sobre o indicador. Então me sentei, fiquei em silêncio por longa meia hora e esperei pelo telefonema da demissão. Afinal, o que eu ia fazer tendo que sustentar família, pais doentes, pobreza?
Uns quarenta minutos depois, tocou o telefone: "Venha aqui por favor". Fui à sala, o diretor pediu para que eu fechasse à porta - algo também raro -, ficou uns trinta segundos em silêncio e disse apenas "Desculpe. Agora entendi a questão dos dados. Você tem razão.". E aí eu é que pedi desculpas pela maneira como falei, não pelo teor, mas pelo tom. Terminamos a aprovação do indicador aos sorrisos e, pelos quinze anos seguintes, tivemos uma relação fantástica, a melhor de toda a minha vida profissional. Ele foi um dos grandes incentivadores dos meus livros.
Um executivo comum, raso, grosseiro, teria visto naquela pequena divergência apenas um ato de indisciplina, mas o personagem em questão estava bem acima da média nacional. Muito acima. Infelizmente sua doença e morte interromperam nossa parceria, mas se ele estiver em algum lugar, sabe de meu respeito e consideração plenos, por muitas histórias que não cabem aqui.
Com ele muito aprendi, talvez tenha até ensinado algumas coisas, mas o que me deixou mais contente foi ter conquistado sua confiança sem uma vírgula de bajulação.
@pauloandel
Thursday, January 05, 2023
praça Tiradentes, 11:30 a.m.
CENAS DO CENTRO DO RIO
PRAÇA TIRADENTES, 11:30 A.M.
Um garotinho passa de mãos dadas com seu pai e vibra com as bandeiras dos países que disputaram a Copa do Qatar. Os dois ficam espiando os pavilhões e o menino dispara "Ih, Arábia Saudita!". Então logo me lembro do Fredão, meu amigo que era o único sujeito a ter um time de botão da Arábia Saudita, lindo, verde - atenção: não existe politização para colecionadores de botões, onde só o que importa é a beleza.
"É, bonita, filho."
"O que tá escrito ali, pai?"
[Silêncio por alguns segundos, atenciosamente espero a resposta
"Não sei, filho. É na língua deles, que é muito diferente."
"E a espada?"
"Acho que é por causa das lutas que eles travaram."
[Quase ri. Crianças são o máximo. Eu queria ter sido criança para sempre, mas agora é muito tarde. Bom, ninguém coloca uma espada - ou adaga, é isso? - numa bandeira para falar de amor.
Metros adiante, a padaria mais misteriosa do Rio de Janeiro tem a porta quase fechada. Quero dizer, uma parte aberta e outra com cadeado. A informação pode ter ter ficado tão boa, mas é sincera.
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Uma garota bonita, de olhar extremamente triste, procurando algo inexistente no horizonte da Lavradio. Carrega uma mochila e uma garrafa d'água. Bonita, negra, nem baixa nem alta, com grande e belo cabelo desgrenhado, vestindo uma blusa do Fluminense e mirando a direção da Lapa, ao longe.
Será que ela vai a jogos? Será que acompanha o Flu. A tristeza de seu olhar é natural ou fruto de seu momento.
Então se vira, pega a garrafa, toma um gole e daí caminha para a mirada. Para onde irá ao certo?
O Fluminense nos reúne por um segundo. Dois transeuntes num segundo, um desconhece o outro e a vida segue.
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Quase na esquina da Praça Tiradentes há um ponto de ônibus e, bem perto, um poste cheio de anúncios das travestis empolga outro pedestre. Por sinal, ele veste a camisa de outro time de futebol, com um grande número 11.
Ele chega a ficar paralisado com as ofertas. Os olhos quase se arregalam. O rosto não tem nenhuma outra reação, que não permite saber se era espanto, preconceito ou tesão - quem sabe, tudo junto?
As travestis dominam os postes, o que sobrou dos orelhões, os cercados e muitas paredes. A luta pela sobrevivência exige estratégias de marketing, que vão das sofisticações na internet até os bons e velhos panfletos.
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Uma moça vira pra outra e diz alto: "Meu Deus do céu, esse cheiro de maconha tá forte pra c@r@lho."
A interlocutora: "Esse pessoal não tem vergonha de fumar na rua não? Isso é coisa que se faça em casa, discretamente."
[Pausa
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Bem em frente, seis pessoas em situação de rua, mais seus três ou quatro cães de estimação, vivem a morte em vida debaixo de uma marquise. Antes ficavam na porta do Teatro Carlos Gomes, mas as novas obras do local exigiram a mudança.
Fome, miséria, vida sem rumo e um cigarro de maconha que lhes dê um mínimo prazer numa vida tão humilhante - que ninguém deveria ter, mas o ser humano médio é estúpido demais para pensar em empatia e solidariedade.
O sexteto fica em frente ao que já foi um bar, um depósito de bebidas e antes, muito antes, há uns 80 anos, funcionou uma camisaria que atendia os boêmios da região - muitos artistas de renome -, com horário de atendimento até às 22 horas e anúncios grandes na capa do Jornal dos Sports - imagine o sucesso.
O que sobrou foi a desilusão.
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O porteiro é gente boa demais. Chegou ao prédio há alguns meses. Não tem jeito: ele não decora meu nome nem para onde vou.
Sexto andar, Sebo X. Eu sou o Paulo.
O elevador está reformado, o prédio está vazio. Janeiro tem férias, desemprego e pouco dinheiro para os clientes.
Abro a loja, ligo o CD player e boto Paulo Lepetit pra tocar, "Peças", lançado pela Elo Music há tempos com uma turma da pesada: Hugo Hori, Adriano Magoo, Webster Santos - que vi ao vivo no Teatro do BNDES - e outros.
Vamos à espera dos clientes.
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Um poema ou algo semelhante perdido à mesa:
"... vamos, vamos com vontade até o fim mesmo que seja nosso último dia, porque tudo deve ser feito com amor e dedicação até o final. A vida não é para os atos feitos pela metade, preguiçosos, sem garra! É preciso seguir navegando, descobrindo e se tiver chegado a hora do navio afundar, que ele seja elegante ao mergulhar para a morte nas águas que, de alguma forma, são capazes de nos fazer desaparecer de tão pequenos e insignificantes que somos, todos somos. Somos todos insignificantes diante da grandeza do universo."
Niemeyer disse algo assim em seu documentário. Faz todo sentido. Morto, ele ainda é um vivíssimo farol de lucidez.
@pauloandel
Saturday, December 31, 2022
Livros "A essência do FDP" 1 e 2
Em 2018, publiquei dois livros inspirados na obra original do intelectual português Alberto Pimenta, "Discurso sobre o filho da puta".
Pimenta, com magistral prosa e poesia, descreve bem este personagem contemporâneo que encontramos em todos os caminhos.
Meu caminho foi o das crônicas de botequim. Mal sabia eu o quanto os livros teriam de profético para os anos seguintes no Brasil.
Hoje, no último dia do pior governo da história do país, comemoro com o relançamento de ambos.
DOWNLOAD GRÁTIS - CLIQUE AQUI.
Wednesday, December 28, 2022
ainda lembro e me lembro
eu lembro. lembro de quase tudo. minha memória é delícia e inferno. eu me lembro quando fiz sinal para um táxi no colo de minha mãe, assim como me lembro de ser carregado em minha festa de aniversário em 1970, aos dois anos de idade. eu lembro do panduíche na revista e do sujismundo na tv. eu me lembro quando meu pai me disse "félix" e "fluminense" pela primeira vez em 1973, antes dos cinco anos de idade. lembro de ver minha mãe chorando quando chegamos a vaz lobo para morarmos um ano, em 1976 - eu já tinha oito anos. também me lembro de comprar coxinhas sequinhas e deliciosas numa lanchonete no largo de vaz lobo, enquanto tocava belchior na lanchonete. volto a copacabana em 1975 e lembro quando a ditadura me expulsou da escola, ou quando minha mãe chorou muito ao falar com uma jovem mãe em situação de rua na frente do metro copacabana. eu me lembro de ana paula, linda, passar pela figueiredo magalhães, mas aí já tinha 14 anos e isso tem apenas 40 anos. eu me lembro de todas as vezes que precisei chegar em casa para dormir, ou às vezes nem ir, para não ter choques com meu pai doente por alcoolismo. eu me lembro de quantas vezes vi o atlântico sul e pensei no mistério, no medo e na morte, sonhando em ser alguém digno e poder dormir todas as noites em paz - o que jamais aconteceu. eu lembro de meus amigos à mesa jogando cartas enquanto alguns ficavam muito loucos de pó e algumas garotas se esfregavam em nossos colos, aí já tinha 18. recuo e relembro quando ia com meu pai de copacabana até são joão de meriti, então pegávamos um belo ônibus que passava pela dutra e eu me sentia feliz por ser um ajudante de loja aos sete anos de idade. lembro de minha mãe comprar uma caixa de madeira de um velhinho na viveiros de castro, ele era bem velhinho e essa caixa até hoje serve para guardar meus botões. eu me lembro de todas as vezes que sofri bullying na escola, todas as humilhações ridículas e todos os rostos dos algozes - a maioria se tornou a mediocridade esperada. eu me lembro de uma garota que beijei sem saber o nome, no meio do ajuri de cotia com dez mil escoteiros em 1985. lembro de quase todas as admirações e paixões que tive, vividas ou não, não sei se sou lembrado. lembro das últimas palavras que não troquei com xuru e fred, cujas ausências são dolorosas ao extremo para mim, isso com 13 ou 17 anos atrás. e lembro do dia em que fiquei amigo do xuru em 1984, assim como lembro da primeira vez em que fui à casa do fred em 1977. eu me lembro de ter visto os paralamas no parque lage, quando ninguém os conhecia. eu me lembro do bar bole bole e de billy blanco cruzando diariamente o shopping dos antiquários. lembro de antológicas noites no campo em arcozelo, vale do sol, imbuí, serra dos órgãos e vassouras - japuíba-patis-gaviões, 1987. eu me lembro de ter jogado botão com augusto, luis e Marcelinho debaixo da escada volante em 1978, e de ter assistido aulas de catecismo com floriano em 1979. eu me lembro de ter acariciado uma gata por baixo da mesa enquanto seu noivo tinha ido ao banheiro do bar, 1995. eu me lembro quando vi chocão pela primeira vez e ela era bem pequenininha. eu lembro de lula perseguido pela imprensa numa denúncia do pasquim de 78. e me lembro do homem cadeirante triste, usando uma sonda debaixo da marquise do shopping dos antiquários em 1993. bem mais longe, lembro de minha primeira entrada no shopping em 1975, vindo da Toneleiro e acessando pela siqueira campos. eu me lembro de dri, roberto e nilton jogando bola no bairro peixoto em 1981. lembro do lazlo e do janjão, que foram meus vizinhos em 1978, assim como o luiz fernando português, o marcelo e a maravilhosa zuleika. eu lembro de todas as injustiças e portas na cara que sofri, e me lembro também das pouquíssimas pessoas que me deram a mão sem oportunismo. eu me lembro quando chorei de alegria pela primeira vez, quando passei para a uerj - tem apenas 34 anos. minha memória tem coisas demais, é minha delícia e desastre ao mesmo tempo. ainda me lembro.
@pauloandel
Saturday, December 24, 2022
sociedade dos poetas mortos: frases do filme
“Carpe diem. Aproveitem o dia, meninos. Façam de suas vidas uma coisa extraordinária.”
"Quando você pensa que conhece alguma coisa, você tem que olhar de outra forma. Mesmo que pareça bobo ou errado, você deve tentar!”
"Na vida, há tempo para se arriscar e tempo para se ser cauteloso, e um homem sensato sabe qual é o momento certo para cada uma dessas coisas."
"Não importa o que dizem a você, palavras e ideias podem mudar o mundo.”
"Não lemos e escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana e a raça humana está repleta de paixão. Medicina, lei, negócios e engenharia são ocupações nobres para manter a vida. Mas poesia, beleza, romance e amor são razões para ficar vivo.”
"Garotos, vocês devem se esforçar para encontrar suas próprias vozes. Porque quanto mais vocês esperarem para começar, menos provável que vocês possam encontrá-la. Thoreau disse: ‘A maioria dos homens leva uma vida de desespero silencioso.’ Não se rebaixem a isso. Saiam!”
"Todos nós temos uma grande necessidade de aceitação, mas vocês devem confiar que suas crenças são únicas, suas próprias. Mesmo que as pessoas as achem estranhas ou impopulares, mesmo que todos forem embora”
"Só nos seus sonhos o homem é realmente livre, é assim e sempre vai ser. (Carpe Diem)”
"Vocês estão vendo estas fotos, meninos? Os jovens que estão nesses quadros planejam revolucionar o mundo e transformar suas vidas em algo magnífico. Isso foi há 70 anos. Agora estão todos mortos. Quantos tiveram uma vida realmente feliz? Quantos realizaram seus sonhos? Aproveitem o seu dia. Vivam o presente. Confiança é saber que somos limitados, que não podemos adivinhar o que está por vir, que jamais controlaremos todas as ‘possibilidades’ e que nossa única saída é viver intensamente a realidade, seja boa ou ruim.”
Friday, December 23, 2022
noites no campo 1984
agora tudo é questão de silêncio. todos os garotos e garotas estão dormindo, todas as crianças e eu, em plena maturidade dos dezesseis anos, faço a ronda sozinho enquanto o pessoal foi de carro até a cidade para bebericar. então olho para o céu limpo, cheio de estrelas e todas elas já estão mortas, mas a luz de cada uma só brilha agora. o céu, cheio de segredos e que um dia, pelo que muitos dizem, será minha casa. o céu, cheio de mistérios - no fundo, bem no fundo, não sabemos quase nada.
todos dormem bem demais com o frescor da noite. não há um único ruído diferente além dos ronquinhos. tomamos um susto quando o coruja cortou o dedo limpando bambu, mas ele foi ao hospital, tomou os pontos e tudo está ok. nem as simpáticas vacas do terreno ao lado aparecem, devem estar num sono profundo.
a cem quilômetros daqui, eu espero que minha família durma bem. será que o pessoal se encontrou na casa do fred? queria estar lá, mas é bom estar aqui também. gosto de contemplar a noite a céu aberto, olhar o horizonte mesmo que minha miopia não ajude. o horizonte, o infinito, o mistério do céu grafite que instiga e também oferece esperança sem que saibamos em quê.
a fogueira baixa oferece algum calor. nenhum vento a alimenta. num súbito, mesmo sabendo que estou cercado de colegas dentro das barracas, eu me sinto em plena solidão. posso falar sozinho, chorar, até gritar que ninguém saberá. alguma coisa me diz que isso vai me acontecer muitas e muitas vezes, mas não tenho tempo a perder: com dezesseis anos de idade, o mundo é todo meu.
chácaras vale do sol. estrada itaboraí-friburgo. daqui a pouco as olimpíadas acontecem. o fluminense, senhor, é uma máquina. de repente, patrícia surge na madrugada, perdendo o no sono. pede para se sentar ao meu lado, pega a minha mão e parece encantada com a noite grafite enluarada. o rádio toca música bem baixa e assim ficamos por vários minutos, procurando entender o que há depois do infinito, até que surge o chevette branco com seus faróis de milha acesos, trazendo de volta os chefes, os veteranos um tanto alegres pelo vinho. então ela me dá um beijo, agredece a companhia, volta para sua barraca e volto à solidão do começo, a mesma que ainda vai me ameaçar muito.
todos dormem bem. espero também conseguir.
@pauloandel
Desencontro
Tudo passa rápido demais. Dia desses, por acaso, reencontrei meu querido amigo Leo depois de muitos e muitos anos, no Santos Dumont num domingo de manhã. Algo absolutamente improvável, mas acontecido porque fui encontrar meu outro amigo, Eric, no aeroporto.
Leo jogou botão comigo no Estrelão. Curtimos o nascimento do grande Fluminense de 1980. Estudamos juntos por três anos no colégio e, anos mais tarde, na UERJ.
Não sei ao certo o motivo, mas para mim Leo, Augusto, Luis e Jorge Pinto conhecem todas as pessoas do mundo, especialmente as que conheci lá longe e que a vida acabou afastando - talvez, no fundo, esta seja a sina de todos nós: navegarmos sozinhos, mesmo cercados de gente - a solidão é oxigênio, puro ou poluído. Então fiz algo raro: fui ao perfil do Leo para procurar o André. Nem sei se eram amigos, mas o Leo podia saber porque conhece todo mundo. Ah, sim, o André (Cabeça) não era meu amigo próximo, mas conhecido da rua, da praia, do Bairro Peixoto. Tive curiosidade em saber. Aqueles ícones particulares de Copacabana que só nós, eternos moradores e exilados, sabemos que existem.
Foi justamente quando me deparei com o perfil de outro André, o irmão mais da Daniela, que estudou comigo e com Leo da quarta à sexta série, e que me lembro que era um amor de garota, educada, doce, daquela cheia de grandes notas. Eu nunca mais a vi e mantive essa imagem em minha memória de menino. Queria ter passado mais tempo com eles, mas perdi a bolsa de estudos na escola e tive que sair - até hoje não me conformo e, sinceramente, desconfio de que tenha sido uma nota plantada com o único intuito de retirar a bolsa (e que pode ter me estimulado a me formar em Estatística e estudar mais dois anos de Matemática...). Enfim, a Daniela era um doce e eu nunca mais a vi, mas eu lembrava do André, seu irmão, que sempre me cumprimentava simpaticamente na rua, até que fui demitido de Copacabana em 1993 e até hoje acuso o nocaute.
Olhei o perfil e tomei um susto: André, que era mais novo do que eu, faleceu há três anos. Desci o cursor e vi as palavras generosas de sua esposa e amigos, confirmando tudo que ele era em nossos tempos de criança. Muitos elogios pessoais e profissionais. Fiquei pensando naquela efêmera ligação do passado, em como foi sua bela trajetória por aqui e, diante da tristeza por sua passagem precoce, ao menos pude me solidarizar em pensamento com os que o queriam tão bem.
Às vezes tenho medo dessa busca que realizei quase involuntariamente. Quando você fica muito tempo sem ver alguém, pode ter decepções terríveis. Lembro outro dia de uma conversa com meu amigo e ídolo Carlos Lopes, quando falamos de pessoas próximas a nós que enveredaram pelo crime. Mas no caso do André a decepção foi mesmo por sua juventude abatida em pleno voo. Ainda me lembro dele na Toneleiro dando oi e rindo, dando tchau e rindo.
Eu, que estou fora de órbita no planeta Terra às vésperas do Natal, espero que o André esteja bem em algum lugar que não sei dizer. Ele, Fred, Luiz Magno, Valério, a irmã do Jorge, o irmão do Conde, acho que o Ciley também, todos vizinhos de duas quadras, muitos que se conheceram ou não, todos tijolinhos das lembranças da minha infância, juventude, vida e, quem sabe?, fé.
Ao mesmo tempo, me lembro de Simonard ontem lá no Sebo X, quando conversávamos com o Marcelo Lessa: "É assim. Todo mundo morre. Passa". Tudo é efêmero demais, porém creio que, como em alguns dos casos acima, o inevitável tenha vindo muito antes da hora justa e razoável. Ok, a velha sentença afirma: a vida não é justa. Mas precisa ser tão injusta?
@pauloandel