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Monday, May 30, 2022

Eles não sabem nada de Copacabana

Domingo à noite, perto das nove, nove e pouca, deixo a casa de Katia na Barata Ribeiro e peço um Uber na portaria do prédio. Enquanto o carro não vem, espio a calçada onde tricolores e flamenguistas vêm e vão, voltando do Maracanã ou dos bares. É o futebol, nosso ópio admirável que faz apaixonar. 

A um minuto do embarque, o motorista cancela a corrida. Já na rua, com mais gente do que eu esperava, resolvi não pedir outro carro imediatamente e, mais do que isso, andar sobre os paralelepípedos da minha infância por alguns instantes. 

Metros adiante, o Edifício Richard, número 194, um respeitável condomínio que ganhou muitas manchetes no passado, quando era simplesmente o 200. Era um microcosmo do bairro, ou melhor, ainda é. Detestado pela burguesia barroca, admirado pelo underground, teatro do submundo, hoje casa de grandes intelectuais, escritores, professores e também de algum pecadinho, porque ninguém é perfeito. 

Desde o golpe de 2016, Copacabana ganhou uma estranha pecha, a de capital do nazifascismo tupiniquim, tudo porque os amantes da terra plana e do milicianismo político resolveram fazer suas passeatas na Avenida Atlântica, aos domingos. É certo que muitos simpatizantes da arminha ainda moram por ali, e não se pode descontar apartes históricos de um bairro cheio de elevadores de serviço por toda parte, mas na essência Copacabana nunca foi uma aldeia reacionária. Eles, os que insistem em depreciar a Princesinha do Mar, não sabem absolutamente nada de Copacabana, talvez um dos únicos lugares do mundo onde ricos e pobres ainda compartilham os mesmos espaços públicos. 

Tudo começa pela praia, que possui sua geografia política própria mas incorpora todas as tribos: gatinhas, marombeiros, craques da pelota, bonecas e muita gente que vem da cidade inteira, mas que ao chegar à terra copacabanense age como se fosse local - quantas musas do bairro não iam embora da praia via 434, 474, 415 e outras linhas de ônibus?

Se a população envelheceu e a boemia encolheu, paciência, mas não há como apagar a história de bares e boates memoráveis, dos inferninhos aos templos da bossa nova, chegando até aos botecos sobreviventes - os catedráticos de Copacabana sabem muito bem que o Pavão Azul, antes de se tornar uma potência, era um botequim humílimo mas sempre de iguarias inesquecíveis. Recém-chegado, o Parada de Copa já é um digno herdeiro da tradição do Cervantes. O Sniff's não resistiu depois da pandemia, mas acumulou histórias em meio século no Shopping dos Antiquários - deu até livro. 

Copacabana não é para amadores e calhordas, nem para ressentidos com o bairro mais famoso do Brasil, tão plural que abrigava golpistas e ditadores junto a revolucionários, democratas, estudantes, camelôs, artistas, desocupados e quem mais viesse. Palco plenamente possível da festa de "A rainha diaba", filme protagonizado pelo brilhante Milton Gonçalves, que acaba de nos deixar. 

Os detratores de Copacabana nunca viram o goleiro Renato voando em defesas para o time de praia do Lá Vai Bola, nem Tião Macalé reclamando da arbitragem numa outra partida de areia. Nunca viram o esplendor de Rogéria sendo saudada por populares à rua como verdadeira personalidade do bairro. Nunca souberam de Lina, a moradora de rua que lia o New York Times na calçada com excelente pronúncia. Nunca lancharam hambúrguer com mate na Sorveteria Bolonha, nem pizza no Sumol às duas da manhã, esquina de Barata com Figueiredo. 

Nunca viram os garotos jogando botão debaixo da escada rolante fajuta do shopping, nem Clóvis Bornay cumprimentando a todos gentilmente na porta do Coruja Bar. Não sabem sequer que o Parque Peter Pan tinha uma linda e maravilhosa baleia na entrada, por onde as crianças entravam e se encantavam. E nunca poderiam uma imaginar uma bicha maravilhosa discutindo um Fla x Flu de antigamente com um general aposentado no elevador - isso, até chegar à portaria, onde o funcionário do prédio, vascaíno, se mete no debate esportivo. 

Depois de um pequeno lapso de razão, lembro que preciso ir embora, que amanhã é um novo dia e a segunda-feira não perdoa. Aperto os botões e um carro me levará dentro de três minutos. Eu não moro mais em Copacabana, mas ela não sai de mim. 

@pauloandel

Saturday, May 14, 2022

Cenas do Centro do Rio 2022

Depois de comermos pastéis com laranjada na Chic's da rua dos Andradas - estamos sempre comendo -, resolvemos caminhar até o Largo da Carioca, eu, Vitor S Barros e Jocemar Barros . Não levou mais do que dez minutos. Nos despedimos, eles foram a caminho da Praça XV e eu pensei em fazer minha velha visita ao Santos Dumont para tomar um sundae de morango em meio ao silêncio da praça de alimentação do aeroporto - quem chega ao Rio quer se mandar para casa ou hotel. Então peguei meu VLT favorito e fui. 

Uns vinte metros depois da entrada e você fica inebriado com o som de jazz e bossa nova do conjunto que se apresenta no SDU às sextas, das seis da tarde às oito da noite. Logo você está perto do palco e já conheço quase todos os músicos de vista, com exceção de um que conheço desde sempre: Sérgio Barrozo, contrabaixista com quase 60 anos de carreira, já tocou com os gigantes da música brasileira. Sérgio é nosso Ron Carter, nosso Charles Mingus e deveria ter uma estátua sua em praça pública. Seis ou sete pessoas aplaudem o conjunto. Outras acabam celebrando a apresentação de passagem. 

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Subo uma pequena escada rolante e desisto do sundae. A loja de mate promete sanduíches  da pesada num cartaz promocional. Ao mesmo tempo, dali dá para ouvir o belo som do conjunto lá fora. E por falar em música, carrego quatro CDs comigo: um, raro, de Paulo Lepetit ao lado do saudoso Gigante Brazil, um de Herbie Hancock - The Joni Letters, um tributo a Joni Mitchell, afora outros dois que ainda vou me lembrar. No mais, sigo com meus confortáveis chinelos, meu bermudão azul e reparando no clima tenso que alguns passageiros exibem em seus semblantes de desembarque, loucos para se mandar porque querem ou aproveitar o que o Rio tem de bom, ou escapar da ruindade. 

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Dois sujeitos estão com seus notebooks em ação nas mesas da lanchonete. Aguardo pacientemente pelo atendimento. Quando a moça vem, penso que já são quase sete da noite e ela já deve estar morta de cansada pelo trabalho extenuante. 

Peço o lanche, vou para a mesa de fundo e, quase ao mesmo tempo, os dois clientes se mandam. Meus sais: acabei de lanchar com Jocemar, sou um esfomeado irresponsável. Não, não, longe disso: engordei por excessos mas me cabe o perdão de já ter passado fome algumas vezes na vida, inclusive quando supostos amigos faziam vista grossa para o acontecimento. Vida que segue. Já falei algumas vezes que, no passado e com saúde, fui atleta em treinamento para a São Silvestre - sonhava romper o ano correndo na madrugada urbana de São Paulo. 

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Há anos que ouço falar desse disco de Paulo Lepetit com Gigante Brazil. Finalmente está em minhas mãos. Sou fã de Paulo como músico e facebooker. A Isca de Polícia é um negócio sério demais. Saudade de vê-los em ação. A última vez foi no CCBB. Já Gigante é saudade. 

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O sanduíche é bom, tecnicamente bom, o pão é gostoso mas o recheio deixa a desejar. Sou cliente do Paladino e do Parada de Copa, acostumado a recheios generosos, de matar a fome. 

O mate estava uma porcaria. 

Pelo menos carreguei um pouco o celular. 

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Ao descer, passo novamente pelo palco dos shows de sexta, agora com música ambiente porque é intervalo. 

Numa mesa na lanchonete ou restaurante à esquerda do palco, Sérgio Barrozo traça um sanduíche e parece feliz da vida. Não nos esqueçamos: ele é nosso Mingus, nosso Ron Carter, e merece todas as reverências. 

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A sexta-feira à noite do Aeroporto Santos Dumont é fria e vazia. Sexta-feira, 13 de maio, dia de superstições. E reflexões. 

Uma breve espiada e logo se percebe o quanto precisamos evoluir em termos de inclusão negra por ali. 

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Deveria ter pego um Uber, mas simplesmente esqueci, então logo chego ao VLT e fico apreciando a beleza noturna da região, as árvores, os prédios da Beira-Mar. Troco mensagens com Marina, o Fabiano Soares - que é um tremendo escritor - diz que virá ao sebo na terça.

As curvas do percurso me lembram o Tivoli Park por algum motivo. O trecho do Aeroporto à Cinelândia é imperdível pela bela arquitetura ali reunida. 

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Bem ao lado do acesso do metrô na Santa Luzia tem uma turma comendo churrasquinhos e bebendo cerveja. Jovens mulheres bonitas e seus pares. Por um instante, parece até que a pandemia não nos abateu. 

O Rio é a cidade de cidades misturadas, versou o poeta Fausto Fawcett. Nada parece ser tão preciso para descrever a Cinelândia atual. Do Starbucks na esquina até o Amarelinho, o MC Donald's se salva aberto e cheio. Nas marquises e bancos, muita gente em situação de rua e, na amostra local, a população negra é de 100%. As reflexões sobre 13 de maio são inevitáveis e dolorosas. Somos uma sociedade muito atrasada e desigual. 

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No tempo que me resta, olho para cima e o relógio do Edifício Mesbla me oferece um tom de Gotham City, não apenas a cidade dark de Batman mas também a letra profunda de Macalé e Capinam. 

Perto de mim, pessoas descem delicada mas  apressadamente pelas escadas do metrô. Taxistas caçam passageiros. Os últimos clientes das Lojas Americanas deliciam-se com suas sacolas cheias de promoções. Garotos e jovens perdidos carregam suas caixas de Mentos para vender aos transeuntes, muitos deles sem um níquel sequer. Há um burburinho na entrada do Teatro Riachuelo e, bem em frente, na fila do ônibus 247. A miséria, a indiferença e o consumo dividem o mesmo espaço à rua, como se tudo parecesse normal. 

O leão e o tigre andando lado a lado na mesma calçada, assim disse Jack Kerouac em "Crônicas de Nova York" em alusão a Tom Wolfe. 

@p.r.andel

(continua algum dia)

Thursday, May 12, 2022

o final de um livro breve

 "...e chegava a ser incrível que o senhor J. J. Johnson continuasse tão calmo diante de seu cenário de penúria, pensando que tudo iria dar certo de repente, talvez misturando realidade e delírio, talvez tão chocado que sequer percebesse a gravidade do momento, ou talvez porque não tivesse a menor preocupação com o que pode significar sucesso ou fracasso, ambos menores do que a vida, a sucessão dos dias, o ir e vir de dias e noites que muitas vezes nenhum de nós percebe porque estamos ocupados demais, focados em nossa individualidade e pouco afeitos ao próximo, ao verdadeiro amor, à delicadeza e o entendimento necessário de que a passagem por esta terra não pode nem deve ser um processo egoísta, mesquinho, laureado pela escrotidão. 

Calmo, lúcido, atravessando os dias mesmo com uma bala de revólver apontada para a própria cabeça, o senhor J. J. Johnson é um nobre cidadão e pouco importam suas roupas poídas, sua falência, sua incapacidade de se adaptar ao mundo dos vencedores com ternos de cor neutra, sua aversão ao estilo de vila do mundo corporativo, geralmente desprezível e alheio aos mendigos que sofrem debaixo da fachada de uma grande corporação capitalista. A nobreza não vem das grandes posses e sim da gentileza, da amabilidade e da ética, esse verdadeiro elixir da vida que se esconde em pequenos abrigos e nos livros, nos versos e até nas cenas de um filme qualquer na TV à madrugada, quando a muito jovem Scarlett Johansson contracena com o veterano John Travolta em um ambiente de pobreza, solidão e poesia. 

Em certo momento, o que parece fragilidade em J. J. é, na verdade, um pouco de todos nós. Onde está o que é realmente sucesso ou fracasso? Quem sabe definir exatamente esses conceitos? São números ou vivências? 

Os grandes salões do high society estão cheios de fracassos, as longas noites estão cheias de lágrimas silenciosas e, sem qualquer exagero ou arroubo, são muitas as lápides luxuosas que hospedam o silêncio permanente da empáfia e da arrogância."

Sunday, May 01, 2022

trabalho

o trabalho. eu trabalho há muitos anos. fiz coisas fáceis e difíceis. vi muito desrespeito, assédio moral, humilhação, maldade. muito. algumas das piores pessoas que conheci na vida foi em ditos ambientes de trabalho, ou de projetos, tanto faz. 

em trabalhos voluntários e remunerados, testemunhei uma reação bizarra diversas vezes: num grupo onde alguém se destaca a ponto de melhorar a coletividade, integrantes passam a boicotá-lo justamente para que não ganhe mais espaço. o coletivo sabota em nome do particular. 

a imagem que carrego do trabalho é o moço lavando o chão da pastelaria ao término do expediente, a senhora carregando as bolsas de roupa no trem, o rapaz esmagado no ônibus tentando ouvir música no fone. o moço que traz a comida, o moço que cuida da portaria, a moça que registra a compra, a moça que vem ao balcão. vi tudo isso muitas vezes, em paralelo ao chamado mundo corporativo, onde é comum pessoas grosseiras fingirem educação ou extremamente ignorantes fingirem erudição. 

o mundo só poderia ter dignidade se todos tivessem um trabalho e dele pudessem sobreviver. todo mundo precisa de um trabalho, ter uma casa, uma cama, comida, fogão, rádio, tv. só que isso não existe. no exato momento em que escrevo aqui, cerca de 70 milhões de pessoas são humilhadas no brasil: não têm emprego ou têm ocupações tão precarizadas que arriscam a própria sobrevivência diariamente. 

há 40 anos eu sonhava em ter um trabalho para ajudar meus pais em casa. recebi nãos e humilhações. depois estudei, cresci, trabalhei, trabalhei, fiz coisas demais. escrevi milhares e milhares de páginas, fiz milhares e milhares de contas, viajei milhares de quilômetros de ônibus e avião, participei de centenas de reuniões. mesmo depois de tudo isso, ainda me falta encontrar a dignidade.

Thursday, April 21, 2022

Na Carioca

DEPOIS de bater um misto quente com suco de laranja na Senador Dantas, desci pela escada da Estação Carioca e, num súbito, espiei o quiosque de empadinhas e pão de queijo.

Foi quando lembrei de uma história de anos. Exatamente ali funcionava um outro quiosque, de chope. Eu bebericava e espiava um livro de Kerouac. Foi em plena Copa do Mundo, talvez depois de um jogo do Brasil. A Estação estava cheia de ir e vir, mas no quiosque eu era o único cliente. 

Em certo momento chegou um casal. Quero dizer, um homem e uma mulher que pareciam ter marcado um encontro ali. Num olho eu espiava as loucuras de Kerouac; noutro, o casal ou a dupla. 

A mulher era jovem e muito bonita. Parecia ter olhos claros, cabelos também. O homem parecia mais velho, embora nem tanto. Não era bonito, mas devia ter charme - a jovem não parava de olhá-lo enquanto conversavam. 

Houve uma hora em que ele pegou na mão da moça, mas a mesa fazia a distância regulamentar da idade. E eu feito um boboca, espiando a vida dos outros enquanto Kerouac falava da bondade na Terra e das alucinantes festas beat. Será que eram amantes? Sou um boboca. 

De repente, a conversa ficou escassa. Parecia haver um mal entendido. A mulher ficou séria, calada. O homem falava, falava e também sorvia um chope. Eu, que não sou fofoqueiro mas curioso, pedi mais uma tulipa. 

Ele pediu a conta, pagou e os dois se levantaram. Mais à frente, pararam na mureta da Estação. Ela falou algo, ele a puxou, ficaram abraçados e plaft, pensei: o cara se deu bem, porque a garota era um espetáculo. Beijo, beijo? Não, não teve. Ela foi em direção à catraca eletrônica, ele voltou lentamente a caminho da escada, a mesma que desci só lembrar de tudo isso. Seu charme tinha virado uma impressão triste. 

Até aqui eu poderia parecer apenas um bisbilhoteiro, mas não era o caso e sim apenas um simpatizante daquele casal que não aconteceu. Fui um torcedor do amor, aquele que nasce e morre nas conversas, nos quiosques, nas festas e shows, na velha conversa de portão, em qualquer lugar. Torcer para que terceiros sejam felizes. Nunca mais os verei, mas acho que mereciam trocar um beijo que talvez só tenha existido na minha cabeça.

No palco do amor fracassado, restam empadinhas saborosas. Ninguém desconfia de nada. Só eu sei e isso é engraçado, mas tem tristeza também. 

@pauloandel

Sunday, April 17, 2022

em nome do pai

Hoje meu pai faria 81 anos. Por si só, já seria uma data difícil mas, nos últimos tempos, todos os dias têm sido muito difíceis. Ninguém tem ideia. 

Vivemos quase 40 anos juntos. Houve muita dificuldade mas alegria também. Por diversas razões, dialogamos muito menos do que o devido, mas o saldo foi positivo. 

Minutos antes de morrer, ele me chamou para me devolver uma grana que eu havia emprestado. Era pouca coisa, mas seu último gesto descreve exatamente quem ele foi. Um cara que teve muitas dificuldades, que sofreu paca e, involuntariamente, fez outras pessoas sofrerem, mas que sempre foi de uma dignidade enorme. 

Desde então, tenho tentado fazer coisas boas, praticado o bem (discurso sem ação não passa de falácia) e sobreviver. Espalhei o Andel por vários lugares, na internet, na TV, no rádio, em livrarias e bibliotecas. Certamente li e ouvi mais Andel nos últimos 12 anos do que nos 42 anteriores. Enquanto isso, vi o amor e o ódio, as raras amizades e muita falsidade, a escassa generosidade e os múltiplos jogos de interesses. A praxe do ser humano, enfim. 

Apesar de ser naturalmente o meu sobrenome, quando falam Andel eu penso no meu pai. Quando leio as capas dos livros eu penso no meu pai. Quando falam o sobrenome, a ele ergo o pensamento. Enquanto ainda estiver por aqui, sigo buscando a valorização do Andel, não a mim, mas a meu pai, meu avô que não conheci, a uma longa história que fala de dor, de amor e de coisas simples, mas sinceras demais. 

@pauloandel

Wednesday, April 13, 2022

Altinho, altinha, celebração do futebol

Antigamente era altinho. O pessoal brincava antes de qualquer pelada, em qualquer lugar. O único objetivo era manter a bola no ar, numa espécie de frescobol coletivo – outro esporte solidário, sem vencedor ou vencido.

Na praia, o altinho se consagrou. Às vezes durava mais do que a própria pelada em si. Nos velhos tempos do futebol de praia em Copacabana, enquanto os dois times disputavam a peleja, atrás do gol ficava a turma na disputa de equilibro: a bola era a peteca e não podia cair. Ainda que seja uma prática muito ligada à praia, não é exagero dizer que o altinho fez parte da imensa faculdade de formação de boleiros Brasil afora, aprimorando o domínio de bola dos craques, outrora players.

O tempo passou, as garotas aderiram à prática trazendo ainda mais graça e beleza ao jogo, o altinho virou altinha – que valham as duas formas! – e se tornou patrimônio imaterial do Rio. A disputa oficial agora tem regras e pontuações, mas nada a afasta de seu curso natural, que é a beleza da solidariedade, um jogando pelo outro, cada um tentando um toque mais bonito e a bola no ar, voando alta ou um pouco mais baixa, prendendo todos os olhares ao redor. Talvez a busca por outra beleza, a do futebol que um dia tivemos no Brasil e deixava todo mundo louco de paixão. Talvez seja jazz tocado com os pés na esfera. Se os campinhos foram sendo apagados no Rio, pelo menos ninguém mexe ainda na orla e, com isso, não há dia em que, num passeio pela calçada, não se possa ver um grupo de artistas fazendo arte da própria brincadeira antes do jogo.

Neste 2022 a altinha ganhou até uma bela trilha sonora. “Espelho Solar” traz a parceria entre Rodrigo Lima, Ithamara Koorax e João Cavalcanti, com produção de Arnaldo DeSouteiro. Na letra, há uma linda passagem que captou o espírito da altinha em cheio: “Nosso espelho solar/ Onde põe-se a voar/ Nossa infância outra vez”. Nada pode ser melhor do que a junção entre os tempos de criança e uma bola para, mesmo que por alguns instantes, deixar a opressão do mundo lá fora e revolver a infância. O mundo precisa disso.

Os veteranos dos anos 1950 e 1960 agradecem.


OUÇA "ESPELHO SOLAR", COM RODRIGO LIMA E ITHAMARA KOORAX

Wednesday, March 02, 2022

Rio 457 Rio

A cidade fez aniversário. Na verdade, ela é um país, um pequeno país cheio de contradições, problemas seríssimos, confusões, mas também de uma beleza que remete à expressão cunhada por um dos seus famosos habitantes do passado, Ibrahim Sued: "linda de morrer". Nem mesmo seus inúmeros detratores contestam a beleza, exceto quando não querem ser levados a sério. 

Embora o Rio seja mundialmente conhecido pela sua geografia à beira-mar, a cidade está longe de se resumir a isso. Pense num lugar como a Portuguesa de Olaria - se você não conhece é melhor ir logo - e caminhando por lá você se depara com lindas casas e gentes, sem contar os grandes músicos de chorinho ao vivo no domingo à tarde. Festa boa é festa de subúrbio, com comida, bebida e terraço a valer. A trilha pode ser samba, pode ser funk e pode ser rock, você vai se surpreender. E tome Olaria, Ramos, Madureira, Honório, muita coisa boa mas escondida. E o trinômio Méier + Todos os Santos + Cachambi que se estica até Del Castilho e põe todo mundo para se refrescar no grande shopping? 

O mesmo trem da Central que une a cidade partida e desenha as desigualdades é também uma verdadeira aula de marketing, com os camelôs a plenos pulmões vendendo tudo o que podem - tudo é tudo mesmo. Tem conversa, turma, purrinha e adjacências. A concessionária precisa tratar melhor seus clientes, mas ali você compreende melhor a cidade múltipla. 

Pode ser na Praça da Harmonia também, já perto do Centro, onde o clássico e o novo se encontram da janela do VLT.

Ou numa birosca perto da Praça da Apoteose, do velho Estácio dos bambas, construindo uma história secular desde os tempos de Tia Ciata. 

Pode ser no ir e vir da turba na Carvalho de Souza em Madureira, perto do Viaduto Negrão de Lima - calma, é só o sobrenome! - e, se você der um pulo até Edgard Romero, pode se esbaldar a valer no Mercadão, patrimônio da terra. O Miguelão não existe mais, não se pode vencer todas. 

Outro polinômio faiscante é Maracanã + Vila Isabel + Tijuca + Andaraí + Grajaú. Em certos pedaços, ninguém sabe ao certo que bairro é, mas está garantido um universo de gênios da raça: artistas, intelectuais, personagens botequinescos e próceres locais, num caldo cultural que vai de Noel Rosa a Aldir Blanc e deságua na mais carioca das universidades, a UERJ - que, claro, é do Estado, com suas bibliotecas de frente para o Morro de Mangueira. 

Há muitos Rios num só, e desde sempre a dor e a alegria andaram juntas. Tivemos e temos muitos erros, mas a quantidade de gente boa sempre será maior do que a ruim, o que garante a sobrevivência até em destruições econômicas - como a que vivemos desde 2016 - e a maldita pandemia, que botou nosso sorriso no armário por um bom tempo. Ah, e temos nossos próprios condados, verdadeiros bairros-cidade a gosto do freguês, vide Campo Grande, Bangu, Jacarepaguá e Ilha do Governador. 

"Do Leme ao Pontal não há nada igual", assim cantou um dos nossos maiores símbolos, Tim Maia, com seu vocal inesquecível. "Sem contar Calabouço, Flamengo, Botafogo, Urca, Praia Vermelha". Quer fazer um passeio inesquecível? Pegue um frescão no Santos Dumont em direção à Barra: antes de chegar à lindeza do Atlântico Sul carioca, você vai cortar e olhar uma das maiores criações do homem: o Aterro, com jardins de Burle Marx - calma, é só o sobrenome! A visão da estrada com as árvores, o gramado, e o Pão de Açúcar - este, por conta de Deus - deixa uma visão única na mente de qualquer turista. Em mais de quarenta anos, não conheço um que não tenha dito "Lindo!". 

Quer comer uma sardinha inesquecível? Beco da Sardinha, lá na ponta do Centro. Um sanduíche antológico? Paladino, inaugurado em 1907 e fincado na Marechal Floriano com o pedacinho da Uruguaiana. Batata frita, 1, 2, 3? Marechal Hermes! 

Que cidade do mundo tem o Aterro, o Campo de Santana, a Quinta da Boa Vista e o Parque de Madureira? Já ouviu falar do Parque Guinle? E da Travessa dos Poetas de Calçada? Pegue o trem, cruze a cidade e rememore Candeia, Alvaiade, Paulo, Mano Décio. Turiaçu, você lembra? Sampaio? Bonsucesso com certeza. E Anchieta? 

Permita-me o desafogo. Tirar o nó da garganta. Essa cidade tem coisas demais. Se "só" tivesse Machado de Assis e João do Rio, valeria por um milênio, mas a quantidade de poetas, escritores, artistas plásticos, atores, cineastas e profissionais da arte em geral é tão grande, mas tão grande, que fica impossível listar. Todo o Brasil e boa parte do mundo já passou por aqui ou ficou de vez, juntando-se aos craques locais. O baiano Glauber Rocha é Rio, o baiano Caetano Veloso também. Dorival Caymmi e Gilberto Gil. João Gilberto. O mineiro Ary Barroso. O mineiro Darcy Ribeiro. Percebem como a lista é interminável? 

As garotas do Rio, lindas de morrer como dizia Ibrahim, que esticam suas cangas na areia e alimentam poemas imediatos - elas vêm de todos os bairros. A garota de Ipanema muitas vezes mora na Cruz Vermelha, em Vigário Geral, Guadalupe, Paciência ou Boiúna. São esquadrões e esquadrões. Tem Tatiana, Alessandra, Ana Cláudia, Vanessa, Gabriella, Marina, Juliana, Renata e o resto fica por conta do cartório. 

Esse não é um discurso ufanista, é apenas uma humilde tentativa de falar da vida como ela é. O Rio é cheio de problemas, miséria, violência, fanatismos, mas ele não se resume a isso. A cidade é partida e precisa derrubar o muro, mas há tanta vida lá fora, mesmo que precisemos de máscaras e vacina quádrupla - questão de ciência -, e, por isso, sonhar é preciso. 

Temos coisas demais, todas muito importantes. 

Não deu tempo para falar dos grandes cinemas e teatros que perdemos, dos bares inesquecíveis e das coisas que acabam porque, no fim, tudo passa e precisa mudar. 

A luta é árdua e a cidade precisa se unificar, dando uma banana para os limitadores xiitas, sejam eles quais forem. Realidade possível ou utopia, o Rio de Janeiro merece um lugar no topo do mundo. Cá entre nós, muito cá entre nós: quem fala muito mal ou não conhece a cidade ou carrega aquele apêndice desagradável que, muitas vezes, resumimos: inveja de não poder estar aqui. 

Agora me dá licença que eu vou pegar meu VLT, espiar a Cinelândia, a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes e, se bobear, vou até o Edifício A Noite, primeiro arranha-céu da América Latina. No percurso, dá para lembrar das decorações de carnavais inesquecíveis. 

Copacabana? Ah, meu amigo, eu já escrevi um livro. Esse ano eu lanço.

Um viva à Casa de Portugal: foi de lá, no Rio Comprido, que eu caminhei até aqui. Faz muito tempo. 

@pauloandel

Monday, February 28, 2022

Brincadeira

Por um momento tive saudades de brincar feito criança. Isso não tem nada a ver com imaturidade - muitas vezes ligada a certa postura sisuda - nem com voltar no tempo, nem saudosismo. A vida é uma estrada que devemos atravessar. Tudo tem seu tempo. Ok, mas desconfio que as pessoas capazes de manter a chama da infância no coração têm mais lapsos de felicidade. 

Brincar, brincar, eu brinquei muitas vezes sozinho. Acho que até menos do que deveria. Não que não tivesse colegas, é algo que não sei explicar ao certo, mas brinquei pouco em grupo. Embora seja divertido demais, eu não via botão como brincadeira, era algo muito sério no começo, ficando mais divertido e galhofeiro com o tempo. E o futebol era a mais séria das brincadeiras, na praia, na quadra, no playground e na vila. 

Brinquei muito com carrinhos Matchbox sozinho. Não tive muitos, eram caros nos anos 1970, mas tive. Lembro de uns bonecos pequenos de borracha que eu adorava, o Hulk, o Capitão América, eram muito legais. E as miniaturas de plástico que meus pais compravam nas Lojas Americanas e Brasileiras. 

Uma vez fiquei louco de alegria. Morávamos no alto da rua Santa Clara, num prédio que não existe mais, quando meu pai chegou cedo da loja num sábado e me falou para que eu tomasse banho porque íamos sair. Foi um passeio dos deuses: descer a rua toda até a esquina com Avenida Copacabana, virar à direita e tum: Lojas Brasileiras. Certamente eu ia ganhar algum brinquedo e, de quebra, fazer o melhor lanche daqueles tempos: fatia de pizza de mussarela maravilhosa, que hoje só o BB Coliseu no das Massas tem. Que delícia! Isso tem 47 anos e eu nunca esqueci o gosto. Ainda ganhei um bonequinho do Zorro, pequenininho, devia ter menos de dez centímetros de altura mas era o poderoso Zorro, todo de preto. Uma grande tarde. 

Brincar é criatividade. Noutra ocasião, meu pai chegou em casa e trouxe um pneuzinho para mim. Uma rodinha de borracha que bem lembrava um pneu e só. Como brinquei com aquilo. Girava, dava voltas, inclinava. Talvez me lembrasse uma bola de futebol, minha paixão. Talvez fosse algo diferente, mas eu gostava muito. 

Anos mais tarde, quando já era adolescente, lembro também que já sentia falta de brincar nos tempos em que era escoteiro. Muitas vezes, a ronda noturna ficou comigo. Em meio ao silêncio profundo das noites no campo, às vezes cortado pelos bichos da região ou o vento, tudo sugeria seriedade e uma certa solidão, mesmo com 50 ou 60 jovens dormindo nas barracas ali ao lado. E em todas aquelas noites quase solitárias eu sempre senti falta de ser criança, de estar brincando mesmo sendo ainda muito jovem. É um outro tempo que merece muito carinho. 

Assim sendo, em meio ao Carnaval só para alguns, eu viajo meio século no tempo, recordo aquela rodinha - tanto faz se o brinquedo é cariou baratísssimo -, os velhos botões, aquele cheiro da pizza e minha pequena emoção é mais pela felicidade dos pequenos momentos. Sem pai nem mãe, com a corda no pescoço e num país de mil guerras, meu brinquedo agora é o debate sobre futebol na TV. Há várias guerras, por toda parte, mas o pessoal só se comove com o discurso da metrópole. Deixa estar. 

Vejo os bonequinhos como se estivessem todos ao meu lado. Doce ilusão. 

Lojas Brasileiras? Nunca mais. 

Ah, a rodinha! 


@pauloandel 

Sunday, February 27, 2022

estranho carnaval

UM

Há tempos, as coisas andam fora da ordem. Não que o mundo fosse grande coisa antes da pandemia, mas o ruim piorou bastante. E se o caso é Pindorama, multiplique por quatro ou seis.

De berda em berda, de galho em galho, chegamos a 2022. Há guerra no mundo, nenhuma novidade e nenhuma exclusividade do confronto Rússia versus Ucrânia - nesta semana vários países foram bombardeados mas no Brasil ninguém sabe, a não ser o mais badalado. O resto a gente varre para debaixo do tapete. 

O espetáculo da morte estrangeira na TV é tão grande que os mais distraídos se esquecem das nossas desgraças cotidianas. Afinal, continuam caindo três aviões lotados de covid-19 por dia no Brasil. E a nossa guerra urbana de décadas envolvendo o tráfico, a milícia e a polícia? Tem bomba, fuzil, escopeta e carnificina, mas uma parte da turma finge que nem tá aí. Fazemos cara de paisagem, choramos (justamente) pelos mortos do outro lado do mundo e desprezamos a nossa pilha de cadáveres no morro ao lado. 

Por incrível que pareça é Carnaval. Ou quase, adiado que foi. Foi proibido no Sambódromo, furaram a fila na Zona Sul e a folia comeu solta. Parece que no Porto Maravilha também. Adiamento? Pra norueguês ver. As fotos do Facebook e do Instagram e do Facebook não deixam dúvidas. Infelizmente é a sina: como sociedade, somos bagunçados e indiferentes a tudo. A velha história do homem cordial do pro espaço. 

Nao que eu seja um folião, longe disso, mas é legal ver os desfiles na TV. E para quem mora perto do Sambódromo, faz falta ouvir o foguetório de hora em hora anunciando as novas escolas na avenida. E os bailes de antigamente transmitidos ao vivo? Tudo acabou. 

Por um instante tudo fica para trás no fim da noite de domingo. Na TV Senado toca o excepcional pianista Gilson Peranzetta, acompanhando ninguém menos do que a mitológica cantora Leny Andrade. Dois monstros da música brasileira soando como o bom e velho jazz, capaz de unir a todos. Ok, carnajazz que a gente merece. Quando cantam "Saigon", vira Seleção Brasileira: Paulo Cesar Feital na letra, a lembrança inevitável de Emílio Santiago na voz. Leny Andrade é a maior cantora de jazz do Brasil, Gilson Peranzetta é um dos maiores arranjadores da Terra. 

Num instante a terça-feira desaparece, a quarta-feira de Cinzas não tem cinzas. A vida volta ao novo normal, com toneladas de miséria em cada esquina. Não há empregos nem dinheiro, mas navegar é preciso. Não tem desfile das campeãs, ficou tudo para abril. O que está à frente são as águas de março, românticas e perigosíssimas - mal saímos da tragédia de Petrópolis. O problema é que não memorizamos nada direito, tudo passa rápido demais e vamos esquecendo a cada 15 dias os 15 dias anteriores. 

Sigamos em busca da sobrevivência, torcendo ardorosamente para todo mundo aguentar o rojão até outubro. Entendedores entenderão. 

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DOIS

São seis horas da manhã e nada tenho a ver com a velha e boa canção da Gang 90. Seu criador, o poeta Júlio Barroso, morreu há quase trinta anos. Ele faz falta. 

Não acordei. Na verdade não dormi. Cochilei. Despertei às três e meia, revi a reprise de Leny Andrade, revi Afogados x Náutico e, quando me dei conta, o céu já era alaranjado, prestes a explodir o sol nas vistas sensíveis e tirando de vez a chance de descanso para pessoas feito eu. 

Por vários motivos sou uma das pessoas mais tristes do mundo e pode ser que isso me leve à morte, mas não agora. Meu país me dá muita tristeza, as pessoas boas, as muitas ruins, as falsas, a minha família extinta. Eu sou o último grão de areia de nomes que desapareceram, absolutamente desimportante para mudar as coisas na Terra e lutando por uma sobrevivência que parece inútil. Isso não me impede de trabalhar nem de produzir coisas legais, mas me instiga a uma pergunta permanente: o que é que eu ainda estou fazendo nesse lugar cheio de escrotidão? Não sei. Sinceramente não sei. 

Queria ouvir um disco, mas estou sem aparelho. Ler um livro, mas está me faltando paciência. Queria comer menos, dormir mais, ter alguma diversão. O mais incrível nesse lugar é que sou um privilegiado, mesmo sem dinheiro, casa própria, carro, plano de saúde e direitos trabalhistas, logo eu que, por mais de 20 anos, trabalhei para que muitos profissionais tivessem seus salários devidamente corrigidos. 

Por incrível que pareça, hoje é segunda-feira de um Carnaval pela metade. Era para as pessoas não aglomerarem, mas se elas não ligam para si próprias, o que fariam pelos outros numa hora dessas? 

Na TV está passando um gol da Portuguesa. Eu escrevi o livro do time. Um idiota disse que o livro foi um fracasso, eu entendo que idiotas devem ser desprezados. 

Meu joelho direito está doendo. Estou muito pesado. É um problema de saúde, mas sempre tem uma besta para me chamar de preguiçoso sem saber o que acontece. São esses que votam em milicianos. 

O BRT voltou. O Circo Voador foi interditado. Para quem conseguir, feliz ano novo.







Thursday, February 24, 2022

a tempestade

São quase seis da manhã e a cidade acorda lentamente, com bem menos gente do que de costume - estão quase todos desempregados, muitos não saem do que sobrou de suas casas, há um clima permanente de que está faltando alguma coisa.

Perto de dois anos de pandemia, morrem quase mil pessoas por dia mas a maioria não está nem aí. Naturalizaram o processo de carnificina, o que não é de hoje. Se não ligávamos para os esfomeados, os sem teto e os junkies, por que nos comoveríamos com COVID-19? No fim, o que ficou valendo foi o discurso da besta-fera: "todo mundo vai morrer". Na terra da indiferença, o outro que se dane. É o jeitinho. 

A guerra prevalece do outro lado da Terra, mas quem disse que não a temos bem diante de nossos belos narizes? Ela está por toda parte, e não adianta fingir que não se trata da ganância capitalista. Lembra uma doce canção pop dos anos 1980: "proliferando ódio e destruição". 

Somos cruéis, muito cruéis. Capazes de matarmos uns aos outros por causa do futebol. Na primeira estupidez dita numa live qualquer, despejamos rancores na cara de todos. Em nome da justiça e da moral, humilhamos, ofendemos, agredimos verbalmente e aproveitamos para vomitar nossos recalques nem sempre enrustidos. Nós somos os cavaleiros da verdade haja o que houver, mesmo que esteja em campo a hipocrisia - condenar nos outros a escrotidão que desfraldamos com nossas bandeirinhas de mão. 

Muitos de nós ainda acreditam em verdadeiros estelionatos. Qualquer arminha basta para que a negligência desfile em seu carnaval particular. Quem nunca teve um dito amigo a dizer "A culpa não é minha, eu não vou mudar o mundo, ele já era assim quando nasci"? Não é de hoje. "Biado tem que morrer!", "Tem que tacar uma bomba na cavela e matar tudo". A solução simplista está nos discursos por toda parte: o outro que se phoda e pronto. 

Coitado de Deus. Em nome dele, homens podres e hipócritas promovem os discursos mais bárbaros e cínicos, debochados. Gente enganando gente com discursos baratos que não se sustentam. 

E ficamos a esperar o novo problema na linha do trem, o reconhecimento das vítimas apenas no IML na hora da desgraça, a corrupção gigantesca com a desculpa do combate à corrupção. A nova tempestade com suas vítimas fatais. A nova guerra mundial que vai gerar lucro para poucos e tragédia para muitos.

"A próxima versão vai solucionar todos os problemas anteriores". É muita vontade de acreditar. 

Quinta-feira, um lindo dia de sol mas pode chover a qualquer momento. Tanta gente desmaiada debaixo das marquises porque simplesmente não consegue dormir por medo de assassinato e/ou estupro, mas é muito mais fácil chamar todo mundo de vagabundo, especialmente se você tem papai e mamãe bancando suas contas.

Nunca se leu tanto no Brasil. Nunca foram produzidos tantos livros. Nunca se publicou tanta berdha. 

Calhordas ditos liberais comemoram o empreendedorismo das grandes caixas de isopor nas costas, da bicicleta alugada e das 14 horas diárias em subempregos, até que o nobre trabalhador atravesse 50 quilômetros da cidade e descanse na paz de seu barraco - na verdade desmaie e desperte com o relógio tremulando. 

O que importa é lacrar. Aparecer. Por likes, tem quem alugue a mãe morta, não importa. Somos os cavaleiros da verdade irrefutável. Mentimos na Justiça, na Polícia e na Receita Federal. Vamos vencer!

Uma em cada sete pessoas da Terra não tem sequer água, mas muitos de nós afirmam que o mundo é desenvolvido. Afinal, que diferença faz se dois bilhões de pessoas mal respiram? 

A culpa é sempre do outro. O pênalti roubado a nosso favor a gente esquece. O troco a mais também. 

"Bom dia. Afaste-se de toda negatividade e seja firme em seus objetivos".

Enquanto isso, os sonhos são destruídos.

Felizmente a arte resiste.

@pauloandel

Tuesday, February 15, 2022

Um dia de fevereiro

Acordei, tomei café e soube da morte de Arnaldo Jabor. Ele era muitos num só. O cineasta era sua faceta que eu mais admirava, ao contrário da de cronista, mas isso não tem nenhuma importância porque é apenas a minha opinião. Fato é que a figura de Jabor esteve sempre em minha vida desde pequeno, de modo que é lamentável sua perda. Aos poucos, aqueles adultos que eu tentava compreender quando era criança vão se despedindo, porque o tempo é implacável e vence todas as batalhas. 

Foi embora o cineasta, deixei pra lá o artículista. Acabei o café e fui para o trabalho presencial. No dia que o lucro for bom, será a melhor ocupação do mundo: ouvir música, pesquisar discos, arrumar livros. Levei John Coltrane e Ruben Gonzalez para ouvir. Estou de olho no fabuloso CD do Tenório Jr, que ninguém comprou ainda. A tarde foi rápida, vendi Iron Maiden, Bill Evans, mais alguma coisa boa.

Saí às cinco, atravessei a Praça Tiradentes e peguei o VLT só para me divertir - é bom demais. Num minuto eu já estava na Casas Pedro, onde comprei uma suculenta pasta de grão de bico e champignons para fazer um sanduíche árabe em casa. Na volta, caminhei por cinco quadras silenciosas até chegar em casa e descansar um pouco. Banho, lanche, Marina, celular carregando e a tragédia de Petrópolis. Há muito tempo o Brasil humilha pessoas, especialmente as mais pobres. Ok, choveu muito, é a natureza mas não dá para culpar exclusivamente o imponderável: todo ano vemos N tragédias acontecendo em chuvas de verão. 

Fiz uma live sobre o Fluzão, depois fui trabalhar postando CDs e LPs nas redes sociais da loja. Fizemos algumas vendas. Marina dormiu. O silêncio completo ganhou as ruas da Cruz Vermelha.

Meia noite. A terça-feira acabou. No telejornal, Jabor aparece novamente. Silvio Tendler o define com maestria: "É uma perda muito grande, porque a gente perde o contraditório". Meu amigo Bigode, outro prócer do cinema, o homenageou no Facebook. Gerald Thomas também (e ainda não acredito que ele topou colaborar com meu livro sobre Copacabana). Ricardo Soares, autoridade literária, destacou bem o papel de Jabor. 

A tragédia de Petrópolis ocupa a tela da televisão. Há muito sofrimento. Que venha a cura. 

Para tentar me distrair, recordo a conversa à tarde com uma amiga querida, tudo pelo WhatsApp e suas brevidades. Falávamos de recalques alheios e ela me contou que uma colega havia reprovado uma foto sua exclusivamente por causa do decote, que era normal, respeitável e admirável. A única coisa que me veio à cabeça foi uma certa frase, do único personagem possível para costurar todo o roteiro escrito até aqui, com perda, tragédia, o cinema de Jabor, o Fluminense e uma sugestão de belo decote: Nelson Rodrigues. 

A frase? "Toda nudez será castigada".

Monday, February 14, 2022

Copacabana no elevador

QUINTA-FEIRA, PERTO DAS 15 HORAS 

Bloco E, Shopping de Copacabana, aka Shopping dos Antiquários

Você abre a porta e dá de cara com um paletó de lantejoulas azuis, uma cabeleira black e o bigode que, juntos, formam uma das estampas mais famosas do Brasil: a de Cauby Peixoto. Então dá boa tarde, recebe a réplica em voz de trovão e finge que está tudo bem porque em Copacabana ninguém se emociona com celebridades - só louvam Clóvis Bornay e Rogéria nesta terra. Fica em silêncio, o grande cantor não diz nada também porque não puxaria conversa com um garoto de catorze anos. Dois minutos depois, o elevador está no térreo, vocês saltam, Cauby passa na porta dos famosos Supermercados Leão e ninguém fala nada também (embora, claro, todos estejam diante de uma lenda da música popular brasileiras - e com um paletó de lantejoulas azuis!


QUALQUER NOITE, DEPOIS DAS 23 HORAS

Você espera o elevador no térreo e, de repente, está a seu lado um dos grandes jogadores do futebol brasileiro: Rodrigues Neto, Flamengo, Fluminense, Botafogo, internacional, Seleção Brasileira, também no Ferrocarril Oeste da Argentina, onde ganhou o apelido de "El Negro Neto". 

Abre a porta e ele faz um cumprimento respeitoso sem dizer nada. Só que o cheiro não engana ninguém: rolou um pileque poderoso. Rodrigues Neto tem encarado dias difíceis: além de jogar, é o treinador da famosa Cooperativa do São Cristóvão. Deve ter afogado as mágoas porque não está fácil para ninguém. 


QUARTA-FEIRA, 11 DA MANHà

Desce Dona Estela. Una oitenta anos talvez, com seu marido de uns trinta e cinco, Marcos. Um amor daqueles que não tinha tanta probabilidade assim. Ela vai lentamente a caminho dos Supermercados Leão, ele fica na portaria. 

O porteiro não perdoa: "Seu Marcos, a Dona Estela já ficou viúva sete vezes. O senhor não tem medo não?"

"Não, cada um tem um destino".

[mentira, tá se cagando de medo

Marcos dá tchau, vai para a Siqueira Campos e se manda. Por via das dúvidas, pegou o contato de uma mãe de santo, para calcular os novos tempos e, no pior cenário, fica de olho nas proximidades e desdobramentos plausíveis.


O GRANDE ATOR, 23:45 HORAS DE QUALQUER NOITE

Carregando uma sacola de compras das Casas da Banha, jornais e um livro, o ator Walmor Chagas entra no elevador do Bloco E e sobe tranquilo para o 13° andar, sozinho e anônimo porque o porteiro, embora o conheça há tempos do prédio, não tem a menor ideia de quem se trata. 

Página eterna do cinema, teatro e TV, ali Walmor é apenas um condômino chegando em casa, num andar que possui 16 apartamentos. Cada um deles possui histórias, dramas, loucuras e contradições que cabem em Copacabana, porque é no bairro que tudo se mistura e contradiz o tempo inteiro. Walmor se alimenta delas para oferecer a sua grande arte aos brasileiros. 

O ator abre a porta do terceiro apartamento à esquerda do hall dos elevadores, larga as coisas em cima do sofá e vai para a janela. Vê a igreja em forma de cúpula lunar no terceiro andar do shopping, o quartel da PM e o posto de saúde. Carros passam em alta velocidade na Rua Tonelero, um ou outro 433, com certeza um 415, todos a caminho da beleza da Lagoa Rodrigo de Freitas. Há quase silêncio no bairro que nunca se cala.

palcos cariocas

ANDANDO pelo Centro e sonhando com grandes shows que sempre dominaram o pedaço. Eu trabalho na praça Tiradentes e, da janela da minha loja, vejo de frente a beleza perdida do Teatro João Caetano, quando muito funcionando à meia boca. Saindo da portaria, na primeira esquina à esquerda fica o Teatro Carlos Gomes, que desde 2020 só funcionou temporariamente como posto de vacinação na pandemia. E pensar que, em na ambos,assisti João Donato, Altamiro Carrilho, Jarda Macalé, Jorge Mautner, Quarteto do Rio e outros. 

Onde foi parar a maravilhosa Sala Sidney Miller? Lá por 2007, 2008, era parada obrigatória dos fãs da boa música, com shows de alta qualidade, conforto e preços populares. Antes da entrada você podia fazer um lanche esperto no Itahy, delicioso joelho com refresco. Na saída, os CDs dos artistas eram disputados a tapa pelos fãs e colecionadores. O Estado Maior da sofisticação musical brasileira passou pela Sidney, e até mesmo craques da música internacional como o jazzman Gabrielle Mirabassi. 


Duas quadras depois, é de doer a visão da antiga sede da Caixa Econômica fechada. Além da imponência do prédio, o século XXI foi brindado com a Caixa Cultural, que por vários anos foi uma potência de teatro, música, cinema e artes em geral. Hoje, a entrada se resume a tapumes e mais nada. 


Dezenas de metros adiante, ainda existe esperança na volta do Teatro do BNDES, com grandes shows musicais às quartas e quintas, misturando nomes consagrados e alternativos. Espero que o novo Governo reative o palco em 2023.


Isso tudo sem contar a efervescência dos shows nas ruas. Ângela Rô Rô e Totonho já tocaram em pleno Largo da Carioca. Na Praça XV, Boca Livre, Jair Rodrigues e tanta gente boa.


O Boulevard Olímpico teve grandes artistas no palco. Antes de partir, Elza Soares fez uma grande apresentação por lá, Tom Zé também.


Por enquanto o que ainda se vê é tristeza, ruas vazias e palcos fechados. É preciso derrotar o COVID e também os inimigos da arte. Há muito a ser feito.


Wednesday, February 09, 2022

o estrangeiro

Cai a noite no coração da melancólica Guanabara, que perdeu até suas papelarias tão encantadoras para o poeta Carlito Azevedo. 

A Leiteria Mineira quase sucumbiu mas resistiu, para a alegria do cineasta Luiz Carlos Lacerda. 

O Copacabana Palace abre suas portas para uma noite de latin jazz, bem perto do Beco das Garrafas, palco de histórias da arte. 

E eu escuto Albert Ayler, vejo Leandra Leal na TV em silêncio e penso nas derrotas do dia. 

Um garoto preto pobre preso com um pacote de mão e uma camisa do Flamengo. 

Um garoto triste e sofrido dormindo na estação Sete de Setembro do VLT. 

Olho para o WhatsApp e leio as falas cínicas de um homem de Deus.

Que ora, jejua, sobe montes e mente também. 

Troco Ayler por Prince e lamento sua morte tão precoce. 

Lendo Ruy Castro e Assunção, apoiando o embate. 

A linda baiana Emily há muito se foi da vizinhança. 

E Dona Marina está longe, bem longe em Paciência. 

Então revejo haicais do poeta Jocemar Barros e cartões postais de Ana Klein também. 

Onde está Keith Jarrett? Onde está Joe Jackson? Onde está Ben Harper? O mago Wayne Shorter se recolhe muito bem. 

Penso no pré-sal que roubaram do povo triste e usaram em bel prazer. 

Os hipócritas são felizes demais e não se importam com o mal que criam. 

Eu quero a baleia do Parque Peter Pan de volta ou pelo menos a minha prancha de isopor para turistas. 

Eu quero meus doze ou quinze anos de idade numa terra com bem menos ódio. 

Eu quero o fim das guerras, da escrotidão contemporânea. 

O maestro Gerald Thomas redime minhas tardes com seu contrabaixo arisco. 

E penso em gente amontoada debaixo de marquises vizinhas. 

Choro pela minha pátria mãe em prantos diante de tanta covardia. 

O poeta Allen Ginsberg ainda está vivo por sua obra tão devastadora. 

Deus não está desatento dos pastores covardes, nem pretende baixar na esquina. 

A TV num súbito encerra a série e pouco se tem a dizer de Leandra tão linda. 


@pauloandel

Saturday, February 05, 2022

Jazz

Onze e meia da noite de sábado, o mundo inteiro está atrás da Blitz no Circo Voador - igualzinho há 40 anos - e eu, um dos últimos otários que pensa no próximo e evita aglomerações mesmo com três vacinas, encerro meu expediente de trabalho, tomo banho, deito, falo com meu amor pelo WhatsApp e, para me distrair, espio a Orquestra de Duke Ellington tocando na Sala São Paulo. O show é excelente - e olhe que o meu jazz ideal é 1959-1980. Gravaram na Sala em outubro de 2019. Ellington, que antes de ganhar o mundo vendia amendoins em jogos de beisebol.

Aquele som tem um charme, uma elegância difícil de definir. Duke era realmente um gênio, um sujeito especial e não é à toa que outro gênio era completamente louco por ele: Charles Mingus. Dois craques completamente distintos: Duke, um lorde e Mingus, bem, porrada pra toda obra. Ambos já se foram há décadas mas continuam vivos demais, com suas artes demolidoras.

Para quem é do ramo, pouco importando se é especialista ou simpatizante, o fato é que o jazz instiga e apaixona: quem ouve uma vez e gosta, não larga nunca mais. Você vai procurando um músico, outro, outro e outro numa busca interminável é gente demais.

A Sala São Paulo é linda. O mar de sopros ataca para todo lado. O ventilador turbo me oferece um ventinho confortável antes do lanche. É um fim de sábado, neste domingo tem Fla x Flu. Meu amor tá longe. Sinto uma  tristeza enorme pelo garotinho do Marrocos, tão pequenininho, sofreu tanto em sua curtíssima vida, Jô, ninguém deveria passar por isso - nem ele nem a família. 

O jazz da TV é minha igreja, minha oração e pregação - é o que sobrou desde os tempos em que eu era rapazote, estudando na UERJ e ouvindo o programa do Jô Soares na Rádio JB FM num walkman vermelho - faz 30 anos. Jô sempre curtiu o jazz da velha guarda, Gene Krupa, Buddy Rich, Jack Old Teagarden, as feras de sua juventude. Aprendi muito com ele, ainda aprendo. 

@pauloandel.

Saturday, January 29, 2022

cinco minutos na Rodrigo Silva às seis da tarde de sexta

Noutros tempos a rua estaria apinhada de gente indo e vindo. Um exército de mulheres bonitas saindo de seus trabalhos dos mais variados. Bares lotando com a turba em busca de cerveja, petiscos e risadas. Vendedores de amendoim torradinho batalhando o sustento. 

Não é mais assim. Antes da pandemia, o golpe ceifou os empregos, faliu e lacrou lojas, esvaziou salas. Hoje são dez mil unidades fechadas, algo difícil de reverter sem políticas de geração de emprego, renda e crédito. Difícil. 

Bem no coração da cidade, na Sete de Setembro, o VLT vai e vem sem dar tempo de lembrar que o Bob's na entrada da Rodrigo Silva acabou. E quem há de se lembrar da Murray, que ficava na esquina com Assembleia e vendia discos fantásticos, sendo um local frequentado por ninguém menos do que o jovem João Gilberto? Tudo passou mas resta um fiapo de arte bem em frente do corner: uma banca de jornais cheia de CDs e LPs, nada propriamente tão barato mas interessante. Discos de Ornette Coleman e Zoot Sims, jazz seríssimo. 

A metros da banca fica o prédio que abriga a União dos Escoteiros do Brasil, por si só um endereço de referência para muitos garotos dos anos 1960 a 1990 - eu mesmo fui um deles e vivia ali. Vínhamos com orgulho de Copacabana pelo metrô recém inaugurado (fazendo a baldeação para Botafogo, é claro). Foram dez anos incríveis, dos poucos que tenho saudade. 

Se você caminhar em direção ao Buraco do Lume, vai se separar com um dos patrimônios da cidade, imponente há décadas e que superou até mesmo a pandemia: o Café Gaúcho. Funciona no térreo de um sobrado que no passado abrigava pintores dissidentes da Escola de Belas Artes, dentre eles craques como José Pancetti, Milton Dacosta e Eugênio Sigaud, que formavam o Núcleo Bernardelli. Cândido Portinari era de outro grupo mas vivia no Gaúcho também. Essencialmente é um bar para se frequentar cedo, beber em pé e comer sanduíches imperdíveis de pernil, carne assada e linguiça - e também tem caldos revitalizantes. Se a Cidade está vazia, o Gaúcho segue firme com lotação justa e fiéis caçadores do chope dourado da felicidade. 

Queria ter parado no clássico mas estava sozinho, então voltei para a Assembleia e pedi um filé com queijo do Pajé, que também tem décadas de bons serviços prestados. Acompanha uma soda limonada. O bar está vazio, o gerente me agradece pela presença. As coisas mudaram para pior.

Na hora de voltar para casa, desisto temporariamente e pego meu querido VLT para tomar um sundae no Santos Dumont. A viagem é linda e rápida. Lá chegando, vejo o palco de shows vazio no intervalo. Sigo para a lanchonete e sou surpreendido no atendimento: "O senhor me desculpe, mas só temos o garfinho de plástico: as colherem acabaram". Tudo bem. 

No saguão, a bossa nova recupera seu espaço no palco. No contrabaixo, um dos maiores músicos da Terra: Sérgio Barrozo, músico genial que tocou com N artistas da Bossa Nova, do Samba Jazz e mais um caminhão. Viu e viveu tudo de perto.  Quase todos os expectadores estão olhando inutilidades no smartphone, em vez de apreciar um dia nossos artistas geniais.

A noite no Rio ainda é bonita.

Wednesday, January 12, 2022

paladino

1

Saí sem rumo do trabalho depois de mais um dia triste, no coração estilhaçado da cidade. Poderia ter ido para casa ou caminhar nas ruas vazias e melancólicas da minha vizinhança, mas preferi comer um sanduíche favorito no Paladino. 

Depois de tanto matutar, percebi que parte de meu amor no VLT é que nele me sinto como se estivesse num parque de diversões. É uma volta imaginária à infância por cinco ou dez minutos. Estou acostumado a longas caminhadas quilométricas e poderia perfeitamente fazer tudo a pé. O VLT é prazer, é diversão, rápido também. 

Pego na Tiradentes, salto na Sete de Setembro, faço a baldeação e rapidamente faço a bela curva da Rio Branco com a Visconde de Inhaúma. Para minha surpresa, ainda tem algum movimento na rua escura. 

O Paladino é multicampeão em prêmios no Rio. É um bar de antigamente, muito antigamente, perfeito para gente inadequada e ultrapassada feito eu. Um armazém de 1907 com sanduíches, omeletes e chopes imperdíveis. Algumas mesas ocupadas, sendo a mais efusiva a ocupada por João do Cavaco e seus amigos, todos lamentando a morte de Nésio da Tradição, de Natal e da Portela. 

Numa outra mesa, um casal namorando. 

Meu sanduíche vem com uma Fanta Uva, que fica linda num copo cheio de gelo. Por cinco ou dez minutos esqueço as dores que me esfaqueiam 25 horas por dia. 

Lembrando noites com colegas do passado à mesa, o que jamais se repetirá. Ou lembrando o dia em que Sheila parou o bar com seu vestido black, deve ter sido em 2006 ou 2007.  Ou o dia em que convidamos Josi para um ensaio fotográfico nu no lançamento de nossa revista eletrônica, com o convidado dizendo "Se me chamam para este papel de Apolo, aceito" - e Catalano, ao saber que o ensaio seria realizado em sua empresa, gritou "VOCÊS ESTÃO LOUCOS?". O tempo varreu tudo, até as piadas e sorrisos. 

2

Rapidamente fecho a conta. Hora de ir embora. Agradeço ao garçom, deixo um abraço e vou para a estação. 

Sete e quinze da noite, somos eu, uma garota e um rapaz em todo o VLT. 

É estranho cruzar a Presidente Vargas e ver as pistas livres. 

3

Na porta da Di Santinni, na esquina da Rio Branco com Sete de Setembro, um rapaz em situação de rua está sentado no chão da calçada solitária. Não há ninguém ali além dele, de sua miséria retumbante e de meu testemunho dessa tragédia, algo que se repete desde criança e que sempre me entristeceu. É inaceitável que uma pessoa não tenha uma casa, algum conforto e algumas roupas para usar, mas em nome da livre iniciativa naturalizamos tudo isso. Nós, a miserável e hipócrita sociedade humana, que só olha para si e, quando muito, seus filhos. 

4 

No deserto da Cinelândia pelo menos o Amarelinho brilha. É uma pequena luz de vela votiva em meio a todo esse breu. 

5

Desço a escada do metrô sozinho. Pouca gente passa nas roletas. Passada a euforia injustificada do ano novo, o que se vê é janeiro tímido, recolhido, daqueles que não vai deixar saudades. Aí está o COVID de vez.

Pela milésima vez, tiro uma foto do relógio da Mesbla. Nunca se sabe até quando o relógio estará lá ou alguém se interessará em fazer o registro. 

Logo vem o 247, velho personagem da minha literatura inútil. O rapaz dos doces é simpático, só não comprei desta vez porque eu só tinha uma nota de 50 e isso atrapalharia seu troco. Sempre que posso, compro. 

6

Nos últimos anos, tenho usado ônibus por no máximo um quilômetro. Às vezes faço baldeação para o metrô, noutras para o VLT, noutras vou de Uber. Na urgência, táxi.

Por breves minutos, o 247 me dá o prazer de andar de ônibus, o que sempre gostei. Claro, eu não era um proletário humilhado pelo vergonhoso sistema do Rio, mas um garoto (não) privilegiado de Copacabana, que percorria distâncias curtas. É que ônibus me lembra companhia, Maracanã e até mesmo a maravilhosa ilusão da amizade - a gente pensa que todo mundo é amigo, mas eles sobram nos cinco dedos de uma mão. 

Depois de saltar do 247, a setenta ou oitenta metros de casa, tudo fica definitivamente para trás, exceto a melancolia que, por vários motivos, não cabe aqui. A um verdadeiro cavalheiro só interessam as causas perdidas, disse Borges. Para Cioran, as causas já estão perdidas, e é duro admitir, mas ele parece estar certo muitos anos depois de sua morte. 

@pauloandel

Sunday, January 02, 2022

pro zé

É, meu amigo, as coisas não andam nada fáceis. Por aqui, nunca estiveram tão difíceis. Chego a ter mais medo das janelas, no trabalho nem chego perto: parece que tem alguém te puxando para pular. Fome, miséria e desespero por todo lado. Nunca imaginei que viveria tempos ainda piores do que os da ditadura.

Enfim, chegou a hora do teu pai. Na verdade nunca é a hora para nós, filhos. Sempre será cedo e tem que ser assim mesmo. Fiquei bem triste. Eu conheço muito dessa dor que, para mim, nunca passou e com a qual convivo em 25% da minha vida. Dói, bate, soca na cara e não passa. Criança, jovem ou adulto, ninguém está preparado para a morte dos pais, a não ser que não sinta amor por eles. Bom, o que eu queria era deixar aqui um abraço para você e toda a força. Imediatamente me vem à tona o quanto você foi prestativo com tanta gente, especialmente o Xuru - que faria aniversário estes dias mas às vezes nem parece que morreu, pois sempre lembramos de suas histórias e de seu herdeiro Cler. 

A dor não passa. Ela diminui mas é uma unha encravada para sempre. Dada a impossibilidade dessa questão, aí estão a Ana, o Theo e sua família linda para te dar força e amenizar as coisas. É o caminho de ser adulto: fazer contas, viver momentos divertidos, lembrar o passado e, contra a vontade, ir a mais velórios. Dizem ser o sentido da vida. Vamos em frente. 

Apesar do momento triste, queria dizer que embora não nos vejamos mais como no começo do século, certamente várias das noites mais divertidas que tive foram com você e a turma, em bares que já não existem, numa quadra de futebol que já não existe e até outro Rio de Janeiro, que piorou tão depressa mas sempre dá a esperança de algo melhorar, sabe-se lá de onde. É assim. 

Não conheci seu pai pessoalmente, mas isso não tem a menor importância. Sinto a dor do mesmo jeito pelo amigo, rememoro todas as pancadas do passado. Amanhã, 15 anos da minha Bolinha Mãe. Meu amigo Fredão foi enterrado no dia do aniversário do meu pai, o primeiro sem ele. Quando voltei do velório e sentei na cadeira para trabalhar, avisaram do Alex - meu último golaço foi com ele no gol. 

A centenas de quilômetros de distância, o que esse pobre escriba pode oferecer é um abraço, força e solidariedade. É muito pouco, mas de coração. Você sabe disso. 

Quando as coisas assentarem, vamos marcar pelo menos três chopes anuais. Merecemos isso. Merecemos isso, meu amigo querido. 





Tuesday, December 21, 2021

oh, então é Natal

Ah, então é Natal e o verão é uma realidade, mas todo cuidado é pouco: já pensou em todos os seus atos neste ano? 

Foi indiferente? Fez a tradicional cara de paisagem? Omitiu-se quando poderia ter agido? Tudo isso pode levar à morte de terceiros - depressão - suicídios - sofrimento.

E o cuidado com as palavras? Escritas e faladas. Tem praticado? Palavras mal utilizadas podem destruir bons sentimentos.

Tenha certeza: fazer o bem é bem mais importante do que ser bom. Muita gente fica mais preocupada em parecer boa do que qualquer outra coisa, e o bem fica de lado. 

Pedir desculpas e tentar reparar erros não é humilhação, mas grandeza. Medíocres ficam remoendo as desculpas; os grandes a praticam. A arrogância e a empáfia são defeitos que levam à estupidez, é preciso cuidado. 

Eis o planeta Terra, um lugar onde muita gente sofre e a maioria absoluta das pessoas não tem direito a nada. São milhões de crianças e adultos morrendo de fome e de sede, muitas vezes jogados em calçadas para a lenta morte com as mãos estendidas em vão. 

Já falou com seu amor hoje? Seus amores? Lembrou a todos do seu amor? Nunca é tarde para se fazer isso. O amor que não se expressa não resiste. 

É Natal, é verão e se tenta passar uma felicidade que, sinceramente, não existe. Nossa realidade é a dor, o sofrimento e a depressão. Lembre-se disso antes de priorizar seu mundinho particular acima de tudo. O único sentido da vida é ter boas companhias, fazer o bem, ter algum conforto e fazer as coisas com amor. 

Se não puder fazer o bem pelo próximo, tenha pelo menos alguma solidariedade. Não chegamos a esse caos à toa: foi um longo processo de involução, ignorância e egoísmo. O resultado aí está e é trágico. 

É Natal, mas está faltando humanidade nas esquinas.

Pode não parecer, mas ter cuidado com o outro é ter cuidado consigo mesmo. 

@p.r.andel

Tuesday, December 14, 2021

brand new day

hoje eu tenho a madrugada longa e quente, solitária estrela no céu

mais um ventilador que lembra a turbina de um avião e silêncios quase imaginários

eu tenho um dia novinho em folha

cheio de medos razoáveis, inseguranças e natural descrença no projeto do ser humano - eu tenho um lindo dia novo em folha

ao longe, ouço vozes chorosas e sofridas e recados sonoros de violência crua no asfalto que os carros abandonaram  pouco antes das três da manhã: descansa em paz um dia novo em folha

penso na beleza do cinema, o rio e nas mãos dadas que me desprezam e nos abraços mortos que me desprezam

- foi-se embora uma segunda-feira tensa

e daqui a pouco terei um dia novo em folha

uau! o shopping center abarrotado que parece até outro planeta até encontrar um menino negro à porta com sua caixa de doces e um recado:

"senhor, como podemos ser tão estúpidos?"

e o vento quente corta pesadelos, parece um cutucão dizendo "fique atento, pois você tem na mão um dia novo em folha"

[os minutos correm como se aqui fosse o inferno

[eu tenho um punhado de paixões soterradas e amores sob os escombros de um desabamento admirável, mas e daí? ninguém liga

minha cabeça dói feito um berço esplêndido ou meu sobrenome desimportante

todos estão dormindo ou surdos

a cidade é um templo dos cemitérios

eu tenho um dia novinho em folha e nenhum futuro me aguarda na sala ao lado

esqueça qualquer final feliz: é apenas um novo dia que se abre pelo azul escuro do céu

um dia novinho, novinho em folha

feito um lindo filme à beira da lagoa


(livre adaptação sobre a poesia de Sting)


@pauloandel.

Saturday, December 11, 2021

monarco

Por mais que o tempo não pare, com Monarco isso parecia acontecer no melhor sentido. Ele era a perenidade e a elegância do samba numa só pessoa. 

Sua morte é também a morte de parte da cidade, a cidade de raízes profundas no samba de classe, no querido America; na cidade de antigamente que, rapidamente postada às nossas vistas, resgata o que já tivemos de melhor. 

Não é exagero dizer que a morte de Monarco está para o samba como a de Miles Davis para o jazz ou John Lee Hooker para o blues, só para falar de três homens negros do tamanho do mundo, grandiosos, definitivos. 

Desde criança eu o conhecia de casa, pelos sons de meu pai, portanto nunca soube o que é a vida sem ouvi-lo. Tudo nele era coisa de elegante, de lorde: o vestir, o falar e o cantar. Felizmente, ainda muito vivo, teve em Zeca Pagodinho - outro monstro - um intérprete de primeira, que espalhou sua música por todo o Brasil. 

Tudo tem seu tempo e infelizmente chegou o dia. Contudo, ao contrário do maravilhoso samba de Paulinho da Viola - outro monstro -, não se trata de um rio que passou em nossas vidas. A arte de Monarco permanece: ela é rio de margens e profundeza colossais. 

@pauloandel

Monday, December 06, 2021

a semana campeã de audiência

Mais um dia de péssimo sono para começar a semana. À toa. Por que apenas uma dezena de problemas, a tristeza e a depressão deveriam atrapalhar o ato de dormir, não é mesmo? Vai começar um lindo dia de mais uma semana brasileira, com a cara do fracasso, mas precisamos ser altivos, imponentes e dizer que está tudo às mil maravilhas. No Brasil não pega bem você dizer que está triste consigo mesmo e com os outros - é que as pessoas precisam pular, rir, gritar uhu e esquecer de si mesmas. Neste exato momento eu sou um privilegiado por não ter que me esmagar no transporte coletivo que humilha o povo, nem levo duas horas para chegar ao trabalho extenuante e mal remunerado. Eu sou um privilegiado porque tenho dinheiro para tomar café, almoçar e jantar, ou ainda porque parece que terei vários anos de vida à frente com alguma saúde, mas tem alguma coisa que me incomoda agora com o dia clareando, já que não dormi e essa dívida permanecerá me cutucando no ombro. Tudo vai passar rápido, logo as pessoas vão se abraçar nas festas de Natal e Ano Novo, a TV já começou a colocar seus jingles de festa mas... será que a gente deveria comemorar alguma coisa? Me perdoem se sou do contra, mas esta bela manhã que nasce não me comove. Ainda tenho na mente o choro dos desesperados, as pessoas correndo para se abrigar da chuva, as pessoas revirando ossos com fome, as pessoas que andam sem rumo nem futuro. São cinco e meia da manhã, ainda é muito cedo para qualquer coisa, muito cedo para ser ouvido ou abraçado, ninguém tem tempo agora. Vem aí mais uma semana campeã de audiência, uhu!

Saturday, December 04, 2021

sócrates, dez anos depois da morte

Em fins dos anos 1970, o Brasil ainda tinha boa parte dos melhores jogadores do mundo, e todos eles jogavam aqui. São muitos nomes, desde os óbvios até os mais alternativos, mas um deles se destacava pelo estilo único: Sócrates. 

Eu me lembro que ele fazia golaços e sequer comemorava, como se as obras de arte fossem triviais. Logo chegou à Seleção e marcou época. Iniciado no Botafogo de Ribeirão Preto, virou a eminência do Corinthians. Outro golaço: cortando para a direita e matando o goleiro Jagger, do time holandês Ajax. 

Ao lado de outros próceres, Sócrates reconduziu o futebol brasileiro ao estrelato. A excursão brasileira à Europa em 1981 colocou o Brasil como favorito à Copa da Espanha, e não era para menos: ganhamos Alemanha, Inglaterra e França em seus domínios, com autoridade. No ano seguinte, embora a Seleção jamais tenha repetido na Copa as brilhantes atuações que ofereceu por dois anos seguidos, Sócrates foi importante do começo ao fim, do golaço contra a URSS ao empate contra a Itália no primeiro tempo. 

Não lhe bastou ser um craque imortal. Foi um líder, uma referência, uma presença inesquecível. Na Democracia Corintiana, que subvertia o totalitarismo no futebol, até sua luta pelas Diretas Já - cogitando até mesmo não deixar o país caso as eleições para presidente voltassem à pauta - , Sócrates marcou o país mais além de suas jogadas brilhantes e de seus gols arrebatadores, como um cidadão engajado. A seguir, ganhou e perdeu, jogou mais uma Copa e saiu invicto, trocou de clubes mas sempre deixou sua assinatura, mesmo quando o corpo já não obedecia à cabeça em campo. Quem o viu de perto em seu auge sabe que ele foi um monstro, dos maiores de todos os tempos. 

Dez anos depois de sua morte, Sócrates é a maior referência de cidadania na história do esporte brasileiro. Para ele, o país merecia a mesma felicidade que as tantas arquibancadas servidas com seus espetáculos. É duro saber que partiu tão cedo, porque o Brasil precisava muito dele, mas talvez ele tenha sido poupado de tanta mediocridade e manipulação que o país tem sofrido, com sucessivos golpes dentro e fora dos gramados. 

Sócrates, o craque, o médico formado, o cidadão, o militante político. Ele foi muitos grandes homens num só. Às vezes o vejo no YouTube e penso que ele está vivo. Quando me lembro de que jogadores não devem ser pessoas alienadas, desinteressadas de seu povo, eu penso em Sócrates. Quando penso em elegância e passes fantásticos de calcanhar, eu lembro de Sócrates. Quando me tornei um garoto apaixonado por futebol, foi porque vi gênios como Sócrates. E se agora me emociono no fechamento destas palavras, é porque mesmo vivo nas imagens, frases e histórias, ele deixou uma lacuna que não cabe preenchimento. 

@pauloandel

Friday, December 03, 2021

dezembro

CAMINHEI com meu amigo Leo, que não via há tempos, e descemos a Carioca rumo à Leiteria Mineira para o café. Ele surgiu subitamente com uma bela doação de CDs para o X, mas logo precisava voltar para Recife. 

Dez da manhã, carros velozes, calçada vazia e lojas fechadas. Desolação. Tristeza. A palavra exata é essa: tristeza, temida e evitada, mas pura realidade. 

Quatrocentos metros depois, a lendária Leiteria nos abrigou por duas horas. Eu lembrei de quantas vezes estive ali, bem como dos intelectuais nos arredores. Então conversamos sobre vida e morte, dramas e alegrias, lindas garotas do passado e jovens senhoras. Tristes.  Falamos de pessoas boas e más, generosas ou falsas, as que nos cercam e as que já se foram. Algum sentido de religião. Um país em destroços. 

Minha fome era tanta que pedi dois americanos. Serviram como refeição de todo o dia. 

Como o que é bom dura pouco, a conversa evaporou porque a vida é assim: precisamos viajar, morar longe, trabalhar, cuidar de problemas, de mágoas, da tristeza - não adianta fugir, ela está no meio de nós - e, quando vemos, lá se foram dez ou vinte anos, trinta anos, os sinos tocam pelos nossos mortos e falamos pelos cotovelos dos melhores anos de nossas vidas. Brigamos para pagar a conta, o garçom ria e, por alguns minutos, nos sentimos num Rio de antigamente, que parece cada vez mais distante. 

Trocamos um abraço, que nunca sabemos ser o último ou não, mesmo esperando naturalmente que não seja. Leo foi para o metrô da Carioca, eu fui para o VLT que tem sido uma das minhas únicas diversões - brincar de passear pela cidade estuprada e sonhar que tudo vai dar certo, mesmo que os dados digam o contrário. Num segundo, eu estava sozinho de novo num vagão confortável para descer na próxima estação e fazer uma breve baldeação. Para fugir da tristeza, fui para o sebo na folga e trabalhei até cansar. Fizemos as contas e não tínhamos metade do que precisávamos. Agora é compensar na próxima semana. 

No fim do dia, era a vez do Jocemar ir para o VLT. Eu o acompanhei. Quando foi embora, entrei no mercadinho e comprei pão, queijo, guaraná, sardinha, salame, Toddy e uma caixinha de leite condensado, além de três sacolas plásticas. Guardei meu CD de música cubana junto e desisti de passear, não só pelo cansaço mas também pela tristeza que acampa em cada calçada ou debaixo de cada marquises. Resolvi caminhar para casa. 

Perto da interdição da Gomes Freire, vi sujeitos balbuciando com olhares tristes. Depois,  na delegacia, uma moça humilde falando perto da grade com um detento. 

Na rua da Relação e na Henrique Valadares, vi algumas poucas pessoas, alguns tomando cerveja, outros passando rápido, alguns esmolando. Cada um tinha um ofício, mas não havia um único semblante alegre. A tristeza é a tônica das ruas. Não adianta fingir, porque a realidade é cristalina. Dezembro tem dessas coisas: o ímpeto consumista num país miserável, a indiferença de alguns, a dor de muitos e uma tristeza indisfarçável. Nós já fomos muito pobres; a diferença é que havia futuro. 

@pauloandel

Monday, November 15, 2021

república

república. hum, ahn, bom, ninguém falou da república hoje. talvez seja porque ela só exista em poucos corações fraternos, bem poucos. quando era criança, meu ideal de república era ninguém passar fome nem dormir na rua, o que eu achava fácil porque produzimos muita comida e temos muita terra, mas não é assim que as coisas funcionam. depois cresci, fiquei adulto, envelheci e a cada hora que passa estou mais longe da minha república. o que me sobrou foi um punhado de boas conversas com camaradas, tentar salvar alguém dos escombros, salvar a mim mesmo do delírio suicida. o que sobrou foi quase nada. a república não pode prosperar com crianças famintas sem carinho de pai e mãe, não pode prosperar em cantos de loucura da cidade em nuvens de crack, não pode prosperar com um homem se arrastando num vagão do metrô enquanto vinte e cinco pessoas olham para seus smartphones como se nada estivesse acontecendo. a república é minha lágrima silenciosa no escuro do quarto antes das onze da noite. a república é a caixinha de mentos da moça solitária tentando vender na porta do restaurante, onde cem gramas custam mais de duas caixinhas de mentos. a república caminha tristonha por entre os grandes prédios de sua antiga capital, cheios de lembranças, tingidos com melancolia e quase desertos de corações em paz. a república é a fresta da cortina azul por onde entra a réstia de luz às cinco da manhã para mais um dia em vão. somos quase todos desprezados e caminhamos firmes a caminho da morte, a nossa única certeza, até que nos enterrem e dentro de duas semanas apenas nossos parentes lembrem-se de nós. eu escrevi cinco mil páginas, escrevi outras dez mil fazendo contas, escrevi cartas de amor inúteis, parabéns esquecidos e abraços sem retorno. a república, ainda não. não, ainda não.

Wednesday, October 27, 2021

nuova normalità

antigamente eu gostava de ir à padaria. era a celebração de um novo dia. agora não é mais. deixa pra lá. 

desci e usei minha rua como pequena amostra. ela é uma importante via de corte do centro e acesso à zona sul. 

o novo normal: apesar do preço estúpido da gasolina, o número de carros tem aumentado no trânsito. carros. praticamente não há ônibus. o ponto está vazio. no máximo algumas bicicletas do itaú e grandes caixas de comida a domicílio. praticamente só.

na lateral da cruz vermelha, o velho cheiro insuportável de urina coletiva, porque a população em situação de rua não tem qualquer direito, imagine um banheiro. por isso o fedor é para todos. viva o neoliberalismo.

cem metros depois, a padaria. os frios são ruins. o pão é bom. as atendentes são atenciosas. sete pães, um sonho de creme, uma qualy pequena, uma coca-cola, vinte e seis reais.

desvio do fedor. há um silêncio constrangedor de rua triste. o brasil está muito triste, mas os carros não vão parar. não há ônibus porque não há trabalhadores. agora é falar com a turma na portaria, tentar rir de alguma coisa, ligar o computador, trabalhar, vender, escrever, ficar mais triste pela morte do tio do amigo e espiar a réstia nublada que escapa pelo pedacinho da cortina. 

ah, e tomar café. ainda há um sonho, nem que seja de creme. novo normal. novo normal. que merda: não era isso que o verão de 1988 prometia para tanto tempo depois. 

@p.r.andel