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Wednesday, September 11, 2013

Xuru (1970-2005)

Meu querido amigo Russ, como andam as coisas?

Espero que bem, em algum lugar que não sei dizer.

Aqui, uma confusão enorme. Tenho sentido algumas dores, nem todas as pessoas são como parecem ser, outras coisas vão bem demais. Acho que estou triste, mas também feliz. As confusões de sempre, você deve imaginar.

E Dona Delfina?

Tem falado com Dona Luzia? Meus pais?

Ontem, exatamente ontem, segui uma das tuas lições à risca. Confesso que ri, mas não deveria. Talvez tenha rido mais por lembrar de ti do que pelo rol de atos em si. Mas foi divertido. Uma noite de Xuru num bar com direito a sete anos de vinganças. Talvez você se lembre da história. O final não foi feliz mas o império contra-atacou como nunca. 

E o Vascão? Mais ou menos, não é?

A corja nunca deixa de falar do teu carro inesgotável, levianamente – ou não – apelidado de travecomóvel. Sempre o mesmo caso, quem mandou você não confessar nada?

E o Fred, alguma notícia? João Carlos? Macedo? É tudo verdade?

Bom, andei escrevendo alguns livros de futebol e queria que você soubesse que escrevi um outro, de contos, onde você é o personagem principal. Nada de palavrões: apenas a verdade ipsis literis. Mas acontece que não gostei do resultado final e ele será reescrito até o primeiro semestre do ano que vem, assim espero. E vou contar praticamente tudo, ficção e realidade beijando-se na boca sem parar.

Estranho hoje não ser um dia de dor. Onze de setembro. 

Quando voltei de São Paulo e você tinha ido embora para sempre, é certo que eu chorei.

Mas depois destes oito anos, parece que você sempre esteve aqui. Não sei dizer ao certo se é apenas confusão mental ou se tem algum sentido lógico, justo na minha vida que já tem confusão mental demais.

Parece até que não mudou quase nada, exceto que nunca mais bebemos chopes intermináveis no Sasso, o carro nunca mais passou pela Atlântica zero hora e eu nunca mais fui ao Siri da Ilha. Volta olímpica de Santo André, nem pensar. 

A Pepsi está bem, encontrei-a outro dia com Wal, Epo, Ana, Chris Nunes, Lys, todo mundo perto da Praça da Bandeira. Você iria gostar.

A Barbarazinha lembrou do troncomóvel. De vez em quando vejo o Bernardão. Leilah comentou da tua vibe. Moraes é a mesma coisa. 

Enfim, se é que faz algum sentido nisso tudo, quando puder mande um sinal de fumaça.

Ou uma risadinha.

No mais? Somos todos rameiros!

P-R


@pauloandel


Rubens Nunes Carvalho (29/12/1970 - 11/09/2005)

Tuesday, September 10, 2013

o crepúsculo da paixão

hei, hei, você de vez
fazendo seu pouco caso
sem ter nada a dizer
e o que você não quis
foi o melhor sorriso de alguém
onde mora teu super-herói?
sabia de você estar aqui?
eu não tenho nada a temer
não preciso de garantias
ou uma idiota a tiracolo -
cadê teu grande eterno amor?
foi dar-se a quem merece?
hei, hei, o teu céu escureceu
em noite de lua nova, fria
e eu não sou mais teu você
agora o amor é tão fácil
que acho graça, oh graça
de quando eu trocava meu tempo
por um punhado teu de nada
não quero nenhum mal a ti
mas não faça-me rir sem par:
agora é tarde, meu bem
agora sou paixão de outro amor
e o que eu te dei à toa, toa
virou dia que passou, passou
perdeu-se no meio do nada
não deixou rastro nem saudade
é que te dei um mundo
e você deu de ombros, sórdida
o verão se fez inverno
uma longa noite floresceu
e o teu lugar tão desprezado
já tem um lugar pra ocupar
não mandei recado
nem guardei rancor
mas não é na geladeira
que se conserva o tom do amor -
por isso somos tão tarde
e cada vez mais perto de nunca

@pauloandel

Saturday, September 07, 2013

as estradas

e você devia estar
aqui
mais do que
ninguém
e então gastaríamos
juntos
nossos momentos
sinceros
ah, sexta-feira
e meu teto sem estrelas
não tem o teu sonho
teu corpo
nenhuma promessa
e você devia estar aqui
para irmos a qualquer
lugar
mesmo que do nada
ao lugar nenhum
só para estar ao teu
lado
ou vermos pela janela
a estrada que nos
leva
quem sabe do alto?
nos ares, um avião
e cortarmos um Brasil
só pelo prazer de se ver
e ficar junto, junto
e você devia estar aqui
para dar coerência
ao meu pensamento:
nele, você é viajante
permanente
navegante dos sonhos
invasão de desejos
e tudo mais que me faça
refletir e sonhar
enquanto não chega
a hora do nosso
pôr-do-sol

@pauloandel

Monday, September 02, 2013

Mesmo a esmo

mais do mesmo
é o começo 
do fim
mais do novo
é o começo
do eterno
recomeçar

@pauloandel

Wednesday, August 28, 2013

Bonequinha de luxo

I

oh, bonequinha/ deixa teu sono ir embora/ e espera a noite sem afronta/ onde ela te dará os melhores sonhos/ as canções de amor/ e pequenas maluquices admiráveis/ oh, bonequinha/ veste teu pijama em bom pano/ deita sem caber outro engano/ e adormece em busca do pote de ouro/ num arco-íris em ballet

II

e quando você/ se deitar/ e teus olhinhos de ágata mergulharem no luar/ de um teto sem estrelas mas tão firme/ é que o teu quarto se faz teu guardião/ e a vida lá fora/ tem as estrelas tão ansiadas/ mas fenecidas/ são luzes do longe/ enquanto as luzes novas a brilhar/ vão nascer da formosura/ que mergulhou no mistério/ do teu olhar/ lá fora existe lua, noite e encanto/ mas um guardião te nota/ repousada em mar de beleza/ meus olhinhos de ágata que fazem serenatas de paixão/ enquanto a noite dorme, dorme/ e clama pelo azul de uma nova alvorada

III

e agora/ você vai embora/ enquanto eu conto as horas pra te ver/ chegar/ oxalá o luar seja breve/ e as estrelas sejam feiticeiras de tiro curto/ por que estarei aqui/ quando você voltar/ estarei aqui/ quando o sol brilhar e você chegar


@pauloandel

Monday, August 26, 2013

pactos

que tal fazermos
um pacto daqueles
bem fiéis e inabaláveis?
você entra com a tua cor
teu sabor e algum
monodrama enquanto
eu venho com meu oceano
de paixão em torno teu
até você se afogar de carinho
voltar à tona e pedir sufoco
uma vez e outra outra vez

que tal esse pacto?
sem conversa fiada
ou tropeço ou hiato?

que tal sermos nossos sorvetes
nhá benta e cerejas?

chamas ardentes
enquanto o tempo clama
pelo hoje que já demora


@pauloandel

Thursday, August 22, 2013

o quiseres

quando me quiseres
feitiço serei poema
e se pedires recato
farei devassidão
quando falares de prosa
darei frases tortas
e teu gosto por cores
será meu gris
e se nossos amores
forem cousa morta
meu tesão por ti
há de pedir o bis
renovar-se de fato
e não suceder a moléstia
do que se faz hiato
um calhamaço de desejo
onde nada é pecado

@pauloandel

Tuesday, August 20, 2013

noites do lido

foi-se assim, dengosa e livre
enquanto ouvia poemas de luar
era quem não se aquietava
em seu desalinho com o ordinário
ela namorava a dor da lua
e buscava o fascínio da vida
entre sofrimentos e risos vis
e navegava e navegava o só
os esnobes só viam-lhe beleza
os covardes exigiam-lhe âmbar
eis que seu resto era insana canção
a trazer lirismos de além-mar
ela chorava por meu pranto
e gozava com meu gozo
ela dançava e sorria, linda
era inverno de Leme a sangrar
até estancar qualquer rancor
de modo que hoje, tão longe
ainda há um rufar de tambores no peito
a certa lua cheia há de nos redimir
e seremos, seremos
o colapso de toda tristeza em vão
ela e meu pequeno grande poema
onde versos tristes desimportam:
cada uma de suas armadilhas
fez-se pomar de se colher amor

@pauloandel

Thursday, August 15, 2013

us3

que tal se a gente
ficasse juntinho
a três: eu, você
e o sempre sempre
nos abraçando?
siameses implacáveis
sorrindo junto
gozando de boa
inventando nosso
loucamor que
decerto sorvemos

@pauloandel

Saturday, August 10, 2013

Marillion - Garden Party



desafio

quem
resiste
a um monumental
poema de carne
osso
e desejos?

@pauloandel

Friday, August 09, 2013

Tangerina


hum, hum
e você está me olhando por quê?
pensando em me desnudar?
deixar-me em nudez em fato
e beijar minha saliva doce
até o encanto fazer encanto
o que você está esperando?
outro alguém já desimporta
a vida é hoje, outro agora
a minha calda quer você no ato
debaixo da pele sou incêndio
e ardo firme por mim mesma
o que você está esperando?
alguém vir à tua frente
e tomar de vez o teu lugar
e me morder e me chupar
tirar meus pedaços do lugar?
se eu fosse você não vacilava
a vida não tem returno
tão na cara o que eu te quero
e você já nem se importa -
depois não esperneie à toa
as chances não são do sempre
tudo o que eu preciso por ora
é da tua boca em mim
me mastigando sem fim
fagocitando tanto enfim -
caiu em si ou vais ficar aí
com a tomada desligada
que nenhum curto-circuito
sabe sequer atiçar por nada?

@pauloandel

Thursday, August 08, 2013

tratado geral do amor profundo

então deve ser amor
por ser um querer sem ter ou estar
um querer de namorar e ler e ver – ouvir
um querer-se ao longe e permitir-se em sonhos
um volume máximo de jazz a fio
deve ser amor
porque dirige a êxtase mesmo sem sexo e toque
sem pipoca e cinema,  sequer as mãos dadas
ah, deve ser amor
porque nenhuma outra mulher
tão linda é tão linda assim
porque nenhum romance
é tão romance a fim
e o que se faz amor senão chama inexplicável
que incendeia lareiras?
sim, o amor que não tem lógica
nem forma, apenas o abstrato
às vezes surge na beleza                             (e dança
mas vira eternidade num encantamento
e se equilibra em nada: um fio, uma pena
qualquer recado, uma frase
o que é o amor senão o que não se ensina
mas muito se entende?
ele vive e causa frio na barriga
brilha fundo numa só palavrinha
quem sabe uma simples figurinha?
ou a mensagem cifrada na garrafa?
deve ser amor porque atravessa anos
em voo livre e caminha com leveza
de garça num lindo parque verde                         (aos olhos
intacto, invencível!
claro que é amor!
faz-se quente, doce, impreciso
deita-se em berço imprevisível
dá tesão e calafrio num suspiro
nem que seja sozinho – só de pensar
claro que é amor
pois não tem réplica ou causa
e nem precisa de retorno:
basta-se em si sempre no mesmo lugar
a esperar e reacender-se por puro amor

@pauloandel

uma gata num trem

parei, mirei um caleidoscópio
e vi uma gata no vagão de um trem
suburbano acho que vi uma gatinha
frajola feito um desenho animado
tinha algum dono temporário talvez
que ali já não se via nem queria
os passageiros queriam adotá-la
e levá-la pra casa com seus pelos
de encanto – de longe eu assistia
e logo a quis bem ao meu lado
com seus olhinhos bem puxados
diamantes raros e sofisticados
eu só pensava em ouvir ronrom
e tocá-la de leve, cheia de segredos
arisca e mansa entre os miados
mas então cochilei e despertei
quando vi o bom de mim, me perdi
estava em outra estação, oh não!
a gata tinha sumido! havia descido
alguém a raptou ou foi embora
sozinha, charmosa e tão estimada
agora fiquei grilado: queria a gata
então voltarei outras vezes ao vagão
no ir e vir da Central ao Brasil
até encontrar de novo aquela gata
os trilhos vão ser promessa
cada dia vai ser uma nova viagem
e eu não descanso nem desisto:
reencontro e sequestro a gatinha
pra ser meu amor de estimação
e razão de vinte e dois mil poemas

@pauloandel

Yo la tengo

Tuesday, August 06, 2013

retrato do artista quando solo

era uma vez e outra vez
ou muitas histórias atrás
quando me deparei sozinho
pode ter sido na infância, na juventude
pode ter sido em qualquer compasso
e aconteceu muitas vezes
e aconteceu muitas vezes
nas noites silenciosas dos acampamentos
sucedeu que estive sozinho
mesmo que em momentos ligeiros
mesmo que na sala de casa
e meus pais discutiam algo fácil
mesmo que com a garota
mais bonita do mundo ao meu braço
sucedeu que estive sozinho
apesar dos muitos amigos na praia
nos bares, na faculdade, em shows de rock
em grandes jogos tricolores
houve uma ocasião em que olhei
para cada e toda parte
até concluir que na verdade estava
completamente sozinho
enfrentei perigos inúteis, riscos
tudo desprovido de algum senso
e quando comemorei superações
a solidão era o caminho
ah, os amores, os namoros
a volúpia indecifrável do sexo
quantas garotas deliciantes
meu prazer redivivo e, num súbito
o dever cumprido de alguém sozinho
fui um transeunte de grandes ruas
artérias das grandes capitais
observei os passageiros, os trabalhadores
em insaciáveis jornadas de volta às casas
o ir e vir dos transportes de massa
em todos eles a solidão parece ser
o retrato do inevitável destino
adulto, encarei os temores dolorosos
a cor da morte, viva e aterrorizante
meus pais mortos em casa
as cores do féretro estampadas
e as lágrimas do eu sozinho
tenho mergulhado em histórias
sentimentos estúpidos, inúteis
mas verdadeiros e pulsantes
mas eles apenas dormem
nos vagões solitários de um trem
imaginário à cabeça de um pobre
homem sozinho
meus amigos disseram adeus
em dias de azul infinito
e então chorávamos em capelas
quando eu olhava para o lado
e me via tão sozinho
não há perdição ou dor, nem derrota
trato apenas de uma constatação:
a inevitável viagem do homem
e seu caminho imprevisível
o homem e seu caminho a sós
são exercício de nenhuma fé
lado a lado, frente e verso, bastam-se
na condição de alguém sozinho
uma procissão, uma passeata
uma torcida apaixonada e fãs
à beira do palco ou à ribalta
gente a cântaros numa cidade
e me sinto tão sozinho
sendo moço velho casado
agora mergulho em versos
difusos, concretos, etéreos
e todos os sons em volta soam nada
e o silêncio se faz ordem unida
alguém recorda uma canção
alguém deseja o meu amor
e nada é capaz de tirar a minha condição
de bípede sofisticado sozinho
mais tarde vou namorar
e ver um filme, sorver um livro
serei carinhoso como sempre
mas estarei irremediavelmente
sozinho
do alto, o mundo é um precipício
mas também uma vista cristalina
pássaros cortam o infinito
entender o mundo é um desafio
e a vida é o resumo de surgir
crescer, amanhecer até um dia
em que se deva desacontecer
num calado que revela o fato:
mergulhar na surpresa
sozinho


@pauloandel

Amor e ócio


I

Certa vez, tive um sócio comercial. Ele não era lá grande coisa em termos de ética e outras partes essenciais do convívio humano, mas era um sujeito engraçado. Às vezes falava sério demais. Noutras, me convencia de coisas insólitas – por exemplo, transar com uma garota que eu já não estava nem um pouco a fim. Isso e muito mais.

Houve um dia em que conversávamos depois do expediente num restaurante qualquer de Copacabana e desandamos em falar de mulheres.

Algo em torno de dez anos atrás.

Eu ainda era um garoto, caçava paixões, tinha diversos amores de ocasião, nem tinha conhecido a mulher mais linda do mundo ou vivido sentimentos inúteis de liquidificador. Em claras palavras, o futuro ainda todo à frente. E dizíamos bobagens, ora piadas machistas fúteis e divertidas, ora divagações sobre algo sem muito sentido ou importância. Tudo pós-onze de setembro.

Num momento, não me lembro como, ele disse de seu casamento de longa data (com algumas escapulidas) e afirmou: “Se você pensa em se casar agora ou no futuro, minha dica é a seguinte: case-se com uma mulher com quem você tenha prazer em conversar por horas a fio. Não que isso seja a única coisa importante – e não é -, mas é a mais importante. Não sendo capaz de ser feliz com uma mulher numa simples conversa, você não será feliz em nada. É por isso que meu casamento tem dado certo.”

O tempo passou, não me casei, mas sempre pensei nisso. Ao menos adotei o critério do sócio com namoradas, ficantes longas ou alguma mulher por quem tenha me apaixonado no período. Sempre o critério. Quando não deu certo, hora de adeus. Penso bem: que sentido faz estar ao lado de alguém com quem você não tem prazer em conversar? Nenhum. Carinho, sexo, outras peripécias, tudo é muito fácil quando em um casal ao menos um dos dois não é um completo idiota – basta explorar as boas possibilidades físicas. Conversar não. Precisa de fluidos positivos, agradabilidade, empolgação, cativação. É mais além. Mas todo homem precisa exercer o direito à contradição: nestes anos que seguiram, a garota que mais tempo namorei foi justamente com quem eu menos conversava. Por isso, agora tenho uma nova, linda e jovem com todo o futuro à frente que eu já tive e escorri em vão - nem tanto, divertidamente pois.

Gosto de conversar.

Meu sócio não era grande coisa, mas tinha toda razão.

II

Há pouco, uma amiga jovem e bonita me fala da alegria que é poder ver desenhos animados com seu pequeno filho e depois levá-lo à escola. Há respeitáveis mulheres bem-sucedidas que ganham cinco vezes mais; contudo, estão passando suas vidas em detestáveis escritórios fechados e refrigerados do mundo corporativo enquanto, num desperdício, seus pequenos filhos crescem acompanhados apenas por seu pequeno amigo computador. Estar ao lado do filho, viver uma história de amor real a cada passo. Tem preço? Não há salário de multinacional que pague. Nada paga a vida, o amor, a proximidade.

Uma amiga jovem e bonita, muito jovem, do mesmo jeito que minha mãe foi um dia e chegava a ficar contente quando eu matava aula e víamos os desenhos do SBT. Isso nada tinha a ver com notas na escola: numa ocasião, já aprovado antes do quarto bimestre, matei todas as aulas possíveis só para ficar em casa com ela. Amigos do colégio vieram à minha casa depois de duas semanas. Exagerei na dose.

Já adulto, mantive o ritmo na faculdade. Matei mais aulas do que qualquer outro aluno de meu curso. 

Namorar, jogar sinuca, ficar horas incríveis conversando sobre o nada no hall, jogar cartas, seguir cachorros nos arredores da 28 de setembro, ir para a concha acústica em busca de shows, Nelsinho tocando violão, Luciene linde com seus cabelos louros cacheados. Perdi dezenas de aulas, muitas, mas ganhei em convívio, amizades, troca de ideias, aprendizados diversos.

Anos depois, recebi uma proposta de trabalho que me pagaria o triplo do salário, mas isso significava mudar de cidade e ficar longe de meus pais. Ainda convivi com eles uns três ou quatro anos. A grana? Uns duzentos mil reais. Mas quanto custa estar ao lado dos pais pelo mesmo período? Tem preço?

A vida deveria ter mais ócio.

Domenico De Masi tem sempre razão.

Meu sócio também.


@pauloandel

Monday, August 05, 2013

wave



o céu do Leme sem tamanho
imensidão azul de preto e giz
e meu amor agora é dor que range -
vamos disfarçar a dor pelo sexo -
vamos silenciar qualquer tormenta -
ah, os castelos, belos castelos
que erguemos à sombra d’álma
feito moinhos de Cervantes
ah, os desejos, as trocas, a cor
tudo o que não aprendemos bem
os garotos jogam bola na areia
os casais normais entrelaçam-se
enquanto a noite só nossa, quente
tem também tremores e arrepios
mas sabemos de nossos lugares
alguém me cante uma velha canção
alguém me diga de algum desafio
e os jovens são como bons jovens:
riem e vivem a vida num segundo
o céu do Leme é a Via Láctea, viva
embora falte a estrela Vega, límpida
e as ondas são como boas ondas:
vão e voltam, são passado e futuro
são mistérios e convites à paixão
e então somos beijo e silêncios
o desarmar de nossos rancores
eis-nos incêndio em mar e prazer
ainda somos um pouco jovens
e se alguma chama se apaga sã
é porque falta minha estrela Vega
a estrela Vega, um disco na vitrola
e um trovador solitário a navegar
nos acordes de uma outra canção

@pauloandel

Sunday, August 04, 2013

domingo livre

sky blue sky
o domingo tão bonito
com crianças no parque
garotas nas praias
e frangos em brasa
um cansaço desejável
uma lerdeza desejável
e o café ainda demora
mais tarde tem futebol
e cor e sombra em vista
os restaurantes apinhados
as vitrines cobiçadas
e ninguém liga ao certo
para o que acontece
ao lado, ao lado
nasce outra semana
e você pensa com paciência
no que deve ser feito
no que deve ser deixado
a hora das prioridades
e não dar prioridades a nada
onde você mesmo não passe
de uma eventualidade
contas a pagar? perdas e danos?
desacontecimentos?
lamentações e maus agouros?
o domingo faz-se altiplano
amanhã vem mais um dia
com certezas e desenganos
vamos viver o domingo
e se o resto entrar pelo cano
que tenha onde desaguar
sem transtornos tamanhos

@pauloandel

Saturday, August 03, 2013

O poema do silêncio


"Difícil fotografar o silêncio", de Manoel de Barros


Dois escritores

Maria Thereza é escritora e mora num confortabilíssimo apartamento num dos últimos prédios do Leme. Aos trinta e cinco anos de idade, casou-se com um abonado empresário vinte anos mais velho. Tem uma vida de enorme conforto material, dois belos filhos, viagens frequentes para a Europa, jantares em bons restaurantes mais todos os mimos que a força da grana ergue pelo mundo afora. Por isso e outras coisas dedicou-se à literatura, da qual não depende para qualquer conforto de conta corrente.

A primeira sexta-feira de agosto, por volta de onze da noite e Maria Thereza aproveita a bela paisagem da praia de Copacabana em seu canto mais charmoso e discreto. O marido está recolhido: pode ter adormecido ou mesmo estar mergulhado em um livro qualquer onde se ensine táticas para ser rico, bem-sucedido e poderoso – parte da literatura a qual ela abomina, embora não admita publicamente. As crianças foram para uma festinha. Bebel, a empregada, está de folga. Uma noite bela e fria, que sugere amores, desejo, palavras doces, carinhos provocantes, uma noite do Leme. Ao fundo, o horizonte em preto brilhante que oferece sonhos e até mesmo pequenos delírios de carne e espírito. Então vem o inesperado.

Metros à frente, perto de um quiosque, tomando o caminho dos pescadores, um senhor caminha de mãos dadas com uma jovem que poderia ser sua filha, exceto se os eventuais beijos ardentes não denunciassem o teor da relação – devem ser ao menos namorados. Maria Thereza espia, estranha, contrai a vista e, num súbito, não tem mais dúvidas: o senhor gordo, de camiseta preta e chinelos descompromissados, acompanhado da jovem mulher em mãos a caminho do Leme é um velho conhecido seu, não se veem há anos. Trata-se do também escritor João Ribeira, já publicado e com alguma aceitação no mercado. Ela, tão rica e bem-sucedida. Ele, com trajes humílimos de escritor falido que se tornam seu charme kitsch.

Um segundo e Maria Thereza faz da sua enorme varanda o mundo.

E pensa em amor. Em tesão. Prazer. Vontade. Vira a cabeça, fita a sala imponente do grande apartamento do Leme e percebe ali o imenso vazio que a sofisticada mobília, os quadros caros e a prataria imponente não conseguem preencher. O dinheiro não é capaz de afagar a solidão humana na primeira sexta-feira de um agosto qualquer. Volta seus olhares para o Leme. João está perto da barraquinha de cerveja, sentado com a garota em seu colo e parecendo dez ou quinze anos mais novo do que os quase cinquenta que possui. O casal se beija e ri, como se Otto ali cantasse: “O que ela gosta é de fumar e beijar seu noivo de tarde na praia”. O Leme é um silêncio de fim de noite, mas nada se compara ao verdadeiro féretro da alma que se agiganta no grande e confortável apartamento no fim do quase-bairro. “Não existe amor no RJ” é uma sentença improvável. A garota tem pouco mais de vinte anos, Maria Thereza percebe isso em seu belo par de óculos que agora ajuda a esconder de si mesma alguma lágrima de tristeza. Mas o que a abala com tanto conforto e realização, uma bela família, a saúde em dia e uma ótima conta corrente? Amor. Amor. Isso tudo lhe parece um bom tema para uma crônica ou conto, quem sabe um poema.

Ela passa a observar o casal namorando no banco como se fosse uma obsessão de novela global. Quer saber o que acontecerá em diante, mesmo que pareça tão óbvio. O escritor e a garota não param de se roçar na praia quase vazia. Ao longe, mas nem tão longe, os olhos de águia da escritora são pedras fixas, mas atordoadas: tudo parece dizer que ela queria estar no lugar da garota – afinal, ainda é jovem, bela, faz sucesso em outros olhares, exceto os de um empresário bem-sucedido na primeira sexta-feira de agosto, mais interessado em ler, ver besteiras ou simplesmente dormir. Ou ainda um analgésico contra o tédio de um casamento que talvez não tenha tanto sentido assim.

A lágrima vira realidade. A jovem senhora, ainda com tanto pelo caminho em termos de felicidades efêmeras, perde uma linda sexta-feira fria. Mais uma.

O casal namora e parece estar em vias de providências para a volta ao lar, efêmero ou não. O mar do Leme sente canções que roem feito mistério e Cacaso, numa outra estação sorri.

Maria Thereza chora de vez. Velhos conhecidos que não se viam há anos, agora juntos num cenário tão improvável.

Ela foi namorada de João nos tempos de faculdade.

A primeira sexta-feira de agosto é um moinho.

@pauloandel

Friday, August 02, 2013

mar

mar - o delicado mar
para amortecer
os corações acesos
tão confusos e vivos
enquanto o atlântico
beija as pedras do Leme
para um amor que dorme
outro acorda tão bonito
outro amor não morre
a morte e um desperdício
mar e pedras são beijo
e os corações distantes
choram, choram por toa
o silêncio faz-se exílio
Copacabana e uma pátria
em perigo e dramas vis
mar - o delicado mar
um coração perfeito namora
enquanto outro
se apavora em céu
de noite fria e seca
um amor se despe - adeus
outra cor se aflora

@pauloandel

bastava

o que bastava
estava no teu eu
ou nós e os corpos
qualquer tarde
era leme, grajaú
ou saens peña
que tal francisco
real sem viço
o que bastava
era a tarde sem sol
um pingue-pongue
fogos de artifício
e guaraná champanhe
o que bastava
era estar perto de deus
os dois a sós
e algum mar
que a memória
louca perdeu

@pauloandel

Thursday, July 25, 2013

amor esquina

1

street song

era amor
porque não dependia
de corpo e rosto
e sexo mas sim
desejo de ter
perto
líquido e certo
era amor
porque vale
quanto versa
vale cada verso
e valerá

 2

mãe

cada passo
dessa estrada
sem você ao lado
faz-se pena
perpétua
o passo
e pensar em você
cada passo
e a vida deságua
num vão

 3

gata mansa

só sei do que te amo
porque qualquer
bobagem tua
me incendeia -
enxergo ouro
em terra
e tesão em sina
só pra te pensar
por perto

@pauloandel

bomba

meu coração e uma
bomba
estilhaçada
explodida
as ruas tão frias
eis julho vivo e triste
em fotografias
para adornar jornais
e dizer da dor
dizer tanta dor
o frio vivo do Rio
peregrinos seguem Deus
nossa grande capital
mora em festa e flor
os mendigos e as frestas
nos viadutos e vãos
forças ocultas
e mãos dadas
enquanto o fracasso
faz sua aquarela
em branco e gris -
somos capital
somos capital
e ninguém sabe o nome
do próximo corpo
recolhido
na esquina

Wednesday, July 24, 2013

deuses

no fim das contas
somos todos religiões
queremos fazer crer
a nossa crença
mesmo que ela seja nada
e não vamos convencer
nem a nós mesmos
da certeza do que é certo
somos todos esperança
enquanto começo e meio
não viram fim nem sim
e o resto é só o resto:
vagas nuvens de sonho
muitas procissões
e um nó de aço no peito

@pauloandel

as ruas



ah, que dor me corta o peito
uma aflição pelas horas do vir
agora que não somos nada
as ruas e seu gris inesgotável
uma dor que não cessa
faz-se viva sem o menor rancor
é que eu falo sobre o nada
é que eu falo sobre o nada
as ruas tão vivas e meu vazio
eis-me um punhado de nada
nunca mais voltei para casa
não revi meus amigos felizes
meu amor escorreu à pia
eu falo sobre o nada, o nada
minha poesia é torta e fria
um pesadelo me atordoa
e não sei dizer do que virá
mas o que importa nisso?
é que eu falo sobre o nada
é que eu falo sobre o nada
e as lágrimas num lençol
não oferecem arrepio
nossa avenida iluminada
e os mendigos sofrem tanto
eles se escondem em vãos
eles se escondem em vão
a dor é um tiro certeiro
que atravessa meu coração -
alguma coisa acontece
no pulmão da grande cidade
e ninguém vai perder tempo
se estou trucidado ao chão

@pauloandel


Tuesday, July 23, 2013

Long




Festa

uau
que legal
parabéns para você
hoje é teu aniversário
e estás cada vez mais e mais
perto da morte oca
longe dos amores
estrangeiro em si mesmo
alienígena vil
mais um ano se passou
e quantos virão?

parabéns para você
que não aceita o caos
e sai no tapa com a injustiça
a vida é tão inútil
que diferença faz?
o ser humano é cobiça
e a tua burrice jamais
te permitirá entender
porque a vida tem que ter dor

um minuto de alegria?
onde fica?
onde moram os pais mortos?
onde estão os amigos desaparecidos?
a casa devastada?
quem mais caberá
em teu coração inchado?
um minuto de alegria
em plena solidão
um mar de gente grita
e ninguém percebe nada -
somos tão ocupados
que não temos gente a perder!

parabéns para você
que trocou a vida pela poesia
a crueldade pelo sonho
e se perdeu para sempre -
isso, se o sempre existir -
isso de se perder mesmo -
a gente nunca sabe direito
o que é ganhar ou perder
apenas gasta os dias
em busca de incertezas
inutilidades e pedaços
do que consideramos vida

parabéns para você
que é granada estilhada
satélite sem sistema
longe de tudo o que quis
e por isso mesmo
tão diferente dos mil
há muitas estrelas no céu
qual seria a diferença de mais uma?
só faz sentido se tivesse
a cor de uma estrela
que ninguém ainda viu

parabéns para você
não há sorte alguma
esteja vivo e inútil
chore todo dia
diga o que tiver de dizer
ame e goze à toa
siga em frente rumo ao nada
e simplesmente não pense:
melhor viver
para ver
onde isso tudo
não vai dar


@pauloandel

The soul stations

we’re
the deep soul stations
and haven’t a fear
about any madness
sadness, sweetness -
we’re living
our feelings like
they said it so much -
they call love
to our lovely brains
they’re storms
and rest-in-pain
we’re
the mad soul stations
and july is saying bye
a strange kind
of disappearing


@pauloandel

Monday, July 22, 2013

Uma canção para Copacabana

minha terra
fica onde o céu
e o inferno
beijam-se na boca
sem hora
para terminar

são ricos e pobres
mendigos e príncipes
gente a nascer
e outros que apenas
dizem adeus
mas ainda vivem

minha terra
tem dramas e risos
túneis e mares
afora uma beleza
de estrelas no céu -
e como brilham

se as estrelas
já morreram
o que importa?
só agora é que vemos
o grande espetáculo
das luzes

minha terra tem livros
flores, caprichos e luxúria
fantasia, religião
bichos-soltos, junkies
amigos e a impecável
maré de solidão

ela é meu norte
meu leme

e ainda me encanta:
quero teu amo
dá-me teu colo
Copacabana

@pauloandel




Intransferível

a fascinante solidão
dos últimos dias de julho
introspecção
uma triste canção
e as pessoas ocupadas
atabalhoadas
na sala de conversar

então falam e fazem
trocam textos e dígitos

provocações?
nada disso!
é o mar da frivolidade


quando o horário
esgotar-se
vão correr com sobras
para um bar bonitinho
e vamos escutar bem
a voracidade do nada
mil tons e dicas
que vão significar nada
e viveremos bem assim


a fascinante solidão
dos dias de julho
é a mesma, mesma
de um ano inteiro:

apenas se protege
na melancolia
dos dias frios, cinzas
damos tanto valor
ao nada que sempre

fomos

@pauloandel

Saturday, July 20, 2013

dor

meu braço dói
e tem algo errado:
cuidado!
cuidado!
será morte ou cansaço?
ou a solidão
estúpida
meu sonho dói
o amor corrói
mas também conquista
e a dor tem pouca dor
por um instante chorei
sou desimportante
minha dor pequena
reflexo de pensamentos
inevitáveis e nenhuma
cor

democracia...

querem me falar 
de democracia

e democracia

deixar as pessoas
morrendo faz parte
da democracia

as garotas estupradas
por bandidos
de comandos ou
batalhões

os mendigos nas
marquises e os
meninos de cola
os errantes
sem rumo

os cruéis os burros
os falsos doutores
os patrões pilantras
e maus empregados

são também
democracia

os grandes jornais
as corporações
a copa do mundo
a copa do nada

fingem ser
democracia

e o que você vê
no meu autoritarismo
faz-se a tua miopia:
meu negócio vem
derrubar hipocrisias

@pauloandel

Tati


Algo em torno de seis e meia da tarde e Sônia me ligou, apenas para avisar que estamos a caminho. Jovem, louca, mansa, delicada e deliciosa em seus vinte e poucos anos, eu tento entender o que ela quer de mim além de sexo intenso de cortar feito adaga. Temos vivido assim há alguns meses e é naturalmente divertido: quando você tem cinquenta anos, não tem o direito de ser hipócrita em negar o prazer que sente de um jovem com a metade da tua idade em qualquer cama que se preze. Ou no banco de ônibus numa viagem. Ou na escada do prédio, feito fosse um adolescente. Tudo seria perfeito se não existisse na minha vida um problema chamado Tati, que ficará claro adiante. Ninguém da Tijuca precisa saber.

Sete da noite, o interfone toca, o porteiro com português de difícil compreensão acena e avisa que dona Sônia está subindo. Acho graça dos tratamentos que as convenções exigem: é Sônia e ponto. Abro a porta, trocamos um beijo de boas vindas, momento de trocar o inferno pelo céu e virá-lo do avesso várias vezes. E nem dá tanto tempo para esperamos qualquer coisa além de tirar roupas e trocar carinhos diversos – afinal, esse era o objetivo mesmo. Agora que posso ter horas mais longas, longe da confusão da delegacia e do transtorno de anos, o que mais tenho pensado é em tudo o que não havia por lá: livros, discos, versos, mar, futebol, sexo. Mas tudo isso tem um ponto e vírgula: Tati. Tudo o que penso dela desafia o conservadorismo tijucano.

Rapidamente Sônia está nua, nos abraçamos, fazemos sexo enlouquecedor – sejamos claros: é fuder loucamente, ora! O telefone toca uma ou duas vezes, ela ri, eu lembro dos tempos da polícia onde o tilintar do aparelho poderia ser a diferença entre a vida e a morte de alguém, resolvo atender, ela ri da paralisação. Para minha surpresa, um ponto e vírgula do outro lado da linha: Tati. Todo Superman tem a kriptonita que merece.

Conhecemo-nos anos atrás, eu e Tati, aqui Tatiana, por intermédio de uma amiga num tempo breve de faculdade e, na primeira noite que a vi, fiquei louco por ela: soube que dançava e lia, que gostava de versos e parecia tão delicada que tudo lhe dava ares de tesão e charme. Estava acompanhada na primeira noite, respeitosamente admirei de longe. Não sei como, mais tarde trocamos telefones, e-mails, passamos a nos corresponder, fomos amigos ao longe, continuamos sendo, ela tem um romance, eu tenho outros, mas sempre a desejei e penso nela a todo instante nua em todas as possibilidades que minha boca permite. Nunca lhe falei sobre o tesão imenso que ela me desperta. Alguém me disse que quando eu casasse isso passaria, mas casei duas vezes, desfiz, contratei garotas de programa, chamei garotas de bate-papo virtual, comi cem mulheres e nada faz cessar o tesão oceânico que tenho pela Tati – e não é só tesão em sexo, é tesão de tudo: brincar, namorar, conversar, dividir espaços, silêncios, tudo o que for. E beijo. E beijo e beijo e beijos até os lábios incharem e se avermelharem de vez – alguém fará piada comigo seu eu sair à rua, dizendo que pareço Boris Casoy de batom. O que dizer dos dela, saltados e provocantes entre as coxas? Só de ouvir sua voz delicada já penso em aterrissar nas estrelas, com todo o ridículo nisso. Não era nada de mais: coisas de seu trabalho, pediu apenas uma orientação, queria saber como eu estava, não deixei que Sônia percebesse nada, fui um completo canalha naquilo que é a única coisa que justifica a canalhice – o amor.

Sônia está nua, paciente e desejosa em seu corpo quente e cheio de saliências convidativas. Como posso ser um velho tão idiota a ponto de navegar naquela catedral de carne quente e ficar a pensar em outra mulher que nunca sequer beijei?  Logo eu que já fui o rei das estagiárias na delegacia, o bambambã de certas noites suburbanas, o algoz dos namorados que não sabem acariciar uma mulher como devido.

O fim da vida está me reservando bobagens da adolescência? Ou é simplesmente aquilo que chamam amor?

O que me resta é navegar, beijar, chupar, penetrar, Sônia tem uma satisfação enorme e tão visível em berço líquido que me desfaço e também rio, pelo prazer de proporcionar prazer. Bebemos vinho em nossas peles como se fôssemos discípulos de Baco – somos mesmo! Mas acontece que eu sou um perfeito idiota: o meu corpo está misturando nas carnes daquela deliciosa mulher e eu só penso em outra, outra – algo que se repete há anos e me tira do sério, já que isso supostamente “coisa de mulher” – ou será coisa de amor? – eu não sei dizer. Em vias de gozo e prazer cumprido, eu só penso em Tati, o quanto seria bom estar ao seu lado, namorá-la, recitar-lhe pequenas sacanagens ao pé do ouvido ou algum dos poemas que já escrevi em sua homenagem – na verdade foram dezenas – se um dia escrever um livro, eu a ponho com personagem. Para piorar, Tati namora um sujeito chamado Francis, que é a apoteose da mediocridade em pessoa: jamais será capaz de lhe proporcionar os carinhos e os sestros que só eu sei conduzir e dizer vida afora. Não conhece os poetas, não sabe dos versos, nem desconfia do que desenho todos os dias. Deuses do céu, como posso ter esse comportamento tão imaturo e, ao mesmo tempo, maravilhoso?

Sônia está nua e linda, deitada em nosso berço esplêndido e encostada com a cabeça em meu peito cheio de desejo por outra mulher que quase nunca vi, muito li e sempre sonhei. Trocamos beijos, somos apaixonados desconhecidos, dois animaizinhos em ritmo de foda a mil. Ela parece feliz e me pergunto se há um homem em sua vida que lhe signifique o que Tati é para mim: pedra, flor e espinho. Hoje é sexta e o dia já vai dizer adeus. Sinto-me bem com o delicado corpo de mulher que se esfrega em mim, mas meu sonho e pensamento clamam pelo corpo de Tati. Sônia é meu prazer e me faz tão bem, mas eu não consigo deixar de pensar em Tati. Tenho sonhos eróticos com ela constantemente, penso nela quando transo com outras mulheres, lembro dela quando vejo casais de namorados felizes em mãos dadas nas areias do Leme. Meus amigos dizem que sou um sortudo com as mulheres e eu choro nas noites solitárias de julho por causa de Tati – faltam me bater quando falo disso. E pensar nos criminosos que já me viram como carrasco nos momentos necessários: eles nunca sonhariam no quanto eu sofro feito um tolo por causa de algo que parece tão tesão, tão corpo e provocação mas não passa de um amor que atravessa paradigmas e beija o surrealismo na boca até dizer chega.

Eu e Sônia tomamos um banho frio e namoramos sob a água da ducha que se faz cachoeira. Ela se veste rápido para não perder o ônibus na Conde de Bonfim. Ganhamos as ruas da Tijuca. Quando a deixo no ponto, sou capaz de pensar mil coisas. Trocamos um beijo de quatro estações, ela sorri e diz que já volta. Olho as ruas quase desertas. É uma sexta-feira e as pessoas estão namorando felizes. Tenho ódio de pensar em Tati nua nos braços de Francis e choro. O que me resta é fechar as cortinas do dia na casa de amigas felizes e queridas, brindando com mais vinhos em Copacabana. Tomo um táxi. Sou um idiota: eu devia pensar tudo em Sônia, mas só enxergo Tati.

Somos todos discípulos de Baco, mas o que realmente procuramos estampado nos céus são sinais de amor – exatamente o que vejo quando penso numa estrela e vejo Tati. Passam os meses, os anos e eu penso em Tati. Passam céus e infernos e eu penso em Tati. Ela é uma bailarina jovem e linda e eu não tenho mais crimes a combater. Eu devia estar feliz porque eu tenho Sônia, os amigos me elogiam, a Tijuca é a mansão do idílio, mas sei que toda a minha felicidade mora nos seios de Tati, seu colo, suas coxas, morder-lhe da nuca ao calcanhar, do pescoço aos pés. Quero vê-la dançando numa perto do mar de Ipanema como Isadora Duncan fez certa vez. Quero cada passo do seu corpo, dos seus encantos, como se a fagocitasse por completo, namorar seus olhinhos infantis e misturar todos os carinhos à putaria. Ela é jovem e linda, ela baila cada vez mais linda e eu sou apenas um pobre amador – é que Sônia me manda um torpedo pelo telefone.

Saudades do velho oeste na delegacia.

Da próxima parada não sei dizer.

@pauloandel

baseado em fatos surreais

Histórias reais (true stories)

voo sobre o horizonte

quando as cordas e sopros luzirem
lá estará ela em pleno voo
os mistérios, as sombras, a cor
tudo se fará noites e dias claros
o luar será apoteose e vitória
nenhum sino há de dobrar à toa:
a bailarina e o doce flanar no ar
um delicado exercício de amor

uma outra canção

se você deixar
eu cantar em teus ouvidos
uma outra canção
prometo e atesto
que ela vai ser de arrepiar:
vai ter zum-zum
versos doces
e tom de colher amor
posso cantar em ti
pertinho, colado
e navegar tua pele
como desbravador?
eu só quero cantar
um outra canção:
a que eu não pude
não tive chance
e que parece âmbar
ao que pensamos

amanhã

serei meu muro de Berlim
serei minha faixa de Gaza
pensarei em dois mundos
importantes e delicados
meu amor ao lado
meu amor ao longe
meu amor à vista
serei multidão e retrato
a ribalta e o gramado
uma peça, uma prosa, um calado
mil coros de nossa torcida
as cartas que só nós lemos
meu coração vai ser foguete
ansiando o espaço sideral -
meu amor em todo, em partes
meu pensamento é pecado -
e, por isso, tão desejado
serei minha nova ordem
querendo o querer de sempre
serei meu muro de Berlim
mas acontece que já sei
onde fica o lado que me apraz -
ele é longe, longe
mas se deixarem eu passo
atravesso um deserto do Saara
em dedos a estalar – no ato!



@pauloandel

Friday, July 19, 2013

A tua vida

o fascinante está
em perceber
que eu sou nada
do que você sempre quis

eis-me tua vida
hiperbólica, desgovernada
catando cavaco
botando o nunca
em volta do sim

mas é que tudo muda
mesmo com medo
e o que vale e o alguém
a te levar aos céus
a dar- se em flores vis
num jardim só pra ti

eu tenho medo
pois não sou nada
do que você sempre quis
eis-me tua vida
em rosas celestes


e lua escarlate


eis-me verdade tão longe do fim
o que me importa
é ficarmos em mim
ah, sim!


@pauloandel

Thursday, July 18, 2013

Mantras urbanos



não existe amor em julho

longe, longe
eu sou tão longe
bem longe
do que gostaria
mas ainda e bom
tem algo de doce
rascante e bom

do meu lado
não está
quem eu tanto queria
mas ainda ha um bom
uma réstia opaca
de sonho bom

e muitos outros sonhos
dormem para sempre:
cortes, marcas, talhos
terrores ao ventre
mas ainda assim e bom

o mundo e um instante
uma virgula e um porém
mortos-vivos comemoram
nas grandes corporações -
meu amor não dorme
e nem me sonha mas ri
mesmo que seja a toa -
sou tão estrangeiro
numa terra de ninguém
mas persigo a esmola
do que ainda e bom

ainda quero ver Deus antes do fim
ainda quero ver Deus antes do fim
antes dos garotos rirem abraçados
de volta a uma velha casa de cinza
antes de qualquer pátria mofada

não existe amor em julho
a vida é um sopro, um predicado
feito a dança firme duma bailarina
esbelta e linda em seu melhor voo
o voo flamejante de uma linda mulher
uma criança à mansa, apaixonante
e seus delicados olhos de ágata

fazendo da balada um blues
e o Rio acorda em cor de gris
enquanto a beleza de Monte
grita e pula por um bis - e tris!


não existe amor em julho
mas velhos camaradas riem
do caos exposto e rico
numa távola quadrada
e isso parece algo bom

estou longe de casa
sou conversa de taverna
alguma coisa acontece
em meu distante coração
quando vê ao norte
uma garota num trem da central
uma bandeira de amor
um carnaval em febre total
para acender em meu peito
agora a gare fechou
o povo dormiu mas não sonhou -
não existe amor em julho! -
mas estupidamente
acerto os passos que nascem

eu acredito na próxima parada
na próxima esquina
e qualquer sentimento trocado
que me ofereça um punhado
minuto a minuto onde se erga
qualquer momento bom

as crianças estão bem crescidas
o hall de espera e uma festa
então desacontecemos:
somos felizes demais num segundo
e não existe amor em julho
não existe amor em julho
não existe amor 
em 
julho

Sobre as obras de Criolo, Marina Lima e Oscar Niemeyer

pra marina, fernanda, flavão, max, nelsim, fábio, ana paula, zeh e meu avatar predileto


o avatar do avatar


você mil vezes
e meu coração que sangra
minha desconhecida
eu queria tirar teu véu
em mil e uma noites
na arábia de Copacabana

você mil vezes
e meus olhos te perseguem
sem rumo discreto
desesperados

eu não sei dizer do meu amor
o que choro não é pecado
somos desconhecidos demais
e alguma coisa estranha
me faz perseguir teu olhar
duas mil e quinhentas noites

eu não sou teu avatar
nenhum androide à tela
faço minha religião inútil
enquanto versos rasos rugem
numa canção do teu amor
numa canção do teu amor -
eu sou carne viva e te venero

eu sou um mantra urbano
e te namoro ao longe, longe
feito uma outra canção -
não traio meus pactos, não

mas acontece que eu não sei dizer
quando você é minha contramão -
o avatar do avatar é a verdade
é a mais perfeita sedução

fernanda II

ninguém se permite
ser muito triste
quando tem a fé
na tua companhia -
o pecado é apenas
de quem não te vê
a nossa turma aplaude
o que você participa
rimos, choramos, vivemos
nossa melhor ironia



@pauloandel

Wednesday, July 17, 2013

Azul


o que vai ser
do meu azul
nessa aquarela?
qual vai ser o tom?
a luz? vai ter gás?
será que esse azul
vai pintar meu céu?

e quem sabe desse azul
dar em mar e juntar-se
a um verde qualquer -
talvez psicodélico
um fora-da-ordem
um down-by-law?

o que vai ser
do meu azul
no fim do céu -
isso se o céu tem fim -
quando encontrar
o cinza, o preto
as cores da morte
se tudo o que temos agora
é um punhado
de vida à desordem?

o meu azul sem conforto
ainda há de voar longe
até onde não vai poder
ter vista alguma ao léu

@pauloandel




Vândalo (por Marcus Vinicius Caldeira)

Vândalo não é quem joga pedra nas câmaras e assembleias prostituídas

Verdadeiros antros de baixarias e corruptelas com dinheiro alheio

Vândalo é quem faz parte dessas câmaras e assembleias constituídas

Que corrompe, é corrompido e enriquece sem receio


Vândalo não é quem joga pedra na vidraça do banco

Onde tubarões ganham milhões com a poupança do trabalhador

Vândalo é o sistema financeiro que especula sem dor

Trai, corrompe, mata o salário sem nenhum pudor


Vândalo não é quem joga pedra na vidraça da igreja

Que há anos explora o medo que o homem tem da morte

Vândalo é quem promete o paraíso e no além-túmulo toda sorte

Claro! Desde que siga seus ditos e contribua com algum porte


Vândalo não é quem joga pedra no muro da emissora

Verdadeira manipuladora dos sonhos da população

Vândalo é quem da benesse da ditadura cresceu promissora

Quem mente, distorce, enriquece e se aproveita da burrice da nação


Vândalo não é o trabalhador que em greve fecha a fábrica

Que deveria somente produzir o necessário à sobrevivência

Vândalo é o industrial burguês, o dono da máquina que não dá assistência

Explorador do trabalho do homem em troca de mais conveniência


Não! O brasileiro que saiu pra protestar,

Pra xingar, quebrar, bradar e sem medo de apanhar

Este não é vândalo, é gente nua

Que ante aos corruptos, de joelhos não se curva

Vem pra rua!


Vândalo é que aquele que jogou esta nação no limbo

Que faz festa em Paris com o dinheiro que não é seu

Que compra deputado para votar no que não é meu

Que entregou nossas riquezas a quem nunca pertenceu


Sim, na ótica deles, sou um vândalo e me perdoe, sou irascível

Não admito e não faço parte dos tolos

O vândalo é aquele que corrompe e se corrompe de forma incrível

Passou da hora:

“Fora todos”

@mvinicaldeira