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Monday, July 31, 2023

De julho para agosto

Cai a tarde e a cidade namora seu próprio silêncio. É o fim de julho e quase todos estão duros, exceto a minoria de sempre. Logo, há menos carros deslizando, menos gente caminhando e, se você tiver mínima atenção, basta olhar pra cima e há um monte de cartazes "vende-se" e "aluga-se", ao mesmo tempo que muita gente é humilhada com despejos, em grande maioria sem a menor má fé, apenas sofrendo a pobreza que aí está. 

"Vende-se. Aluga-se. F0da-se você que não tem condições. Você não faz parte dos planos. Você, falido, fudid0, desempregado ou de baixa renda, é um estorvo para o progresso da nação. Você não consome, não gera empregos, não engorda receitas de bancos, qual é a tua razão de ser?" Por incrível que pareça, há gente que diz pensar assim. 

O fim de julho tem um silêncio de cemitério e não é em vão: foram-se ídolos, craques, amigos, pessoas famosas, anônimas, tudo porque a vida é assim e, para quem está sempre correndo mas longe do atletismo, não há tempo para lamentar. Se alguém morrer e você quiser ficar bem na fita, é só escrever um post emocionado, todos curtem e você faz a sua parte. Nós somos uma sociedade de migalhas: gostamos de oferecer aos outros o que detestaríamos que nos oferecessem, somos humanos e, por isso mesmo, cínicos. Podemos alegar a complexidade do ser humano como excelente desculpa. Fica tudo bem. Onde há hipocrisia, as piores escr0tidões alimentam sorrisos. 

Agora vem agosto. Nada muda. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, na brilhante sacada de Belchior. Nossa solidariedade nos dói por cinco segundos, mas não temos tempo a perder e o coach deixa tudo claro: "Vamos ser feliz" (sic). Já, já, os noticiários vão mostrar as novas vítimas de balas perdidas, as novas chacinas, as novas crueldades que nutrem likes e nada vai mudar porque nós, humanos, estamos muito ocupados e não há tempo para investir no próximo, apenas no lucro. 

A cidade cheia de lojas fechadas e famílias agonizando nas calçadas. Vende-se, aluga-se, "vamos ser feliz", uhuuu!, é a galera, é o ritmo, é o resto kissfoudasse e mais uhuuuuuu! 

A dois quilômetros de onde você lê estas palavras planejadamente desconexas, existe tortura, estupro, humilhação e morte, todas praticadas por bandidos amparados pelo Estado ou mesmo pertencentes ao seu quadro funcional. Ao seu lado vai ter um idiota falando atrocidades aprendidas nas faculdades WhatsApp - quem precisa de livros? -, e invariavelmente ele defenderá golpistas, milicianos e assassinos, tudo em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que, exista ou não, nada tem a ver com essas barbaridades. 

O mais difícil do fim de julho nem é a péssima atualidade, mas sim saber que agosto vem aí. 

Mas você só fala de derrota, de tristeza e miséria? Não, não, eu estou falando da vida real, cheia de cicatrizes, varizes, rugas e nenhum Photoshop. O que eu estou falando é a língua da vida óbvia, não a da gentrificação, não a que trata o outro como caixas de papelão a serem movidas para não atrapalharem o caminho. Gente que gosta de juros altos para destruir o próximo.

Eu falo dos garotos e trabalhadores que, à essa hora, sonham com o fim do expediente para almoçarem biscoitos recheados baratos andando à rua, pois só tomaram café às cinco da manhã e andam feito zumbis da Lavradio até a Central, onde poderão ser amassados pela covardia da Supervia. E esses têm sorte porque ainda conseguem biscoitos. Depois, a matéria da TV fala que os brasileiros estão obesos, sugerindo de forma canalha que há um excesso de consumo de alimentos. O que há é fome, distribuída entre refeições desequilibradas e só.

É claro que precisamos buscar combustível em pequenas alegrias do dia a dia, senão ninguém aguenta. Muita gente já não está aguentando. Você nunca verá a notícia, mas muitas vezes quando um transporte de massa sob trilhos tem uma paralisação, é porque estão tirando o cadáver de alguém que não aguentou tanta humilhação - e isso acontece muitas vezes, muitas mesmo. 

Apesar de tudo, ainda temos muitos heróis. Eles estão carregando peso debaixo do sol, fugindo com suas mercadorias do choque de ordem, aguentando firme todas as privações que a vida livre liberal lhes oferece. Alguns, derrotados pela pobreza, tentam sobreviver mas desmaiam de cansaço e fome debaixo das marquises - não é incomum que, mesmo nas piores condições, cuidem de animais de estimação, enquanto volta e meia vemos vídeos com carros de luxo atirando animais de estimação à própria sorte em vias. Temos heróis e heroínas que recusam a vida criminosa que se impõe na porta de seus barracos - e às vezes pagam caro por isso. Temos outros, mas a maioria nem sabe. 

Julho acaba aqui, mas a vaidade, o egoísmo, a arrogância e a ruindade continuam firmes, opressores. O problema não está nos meses, mas nos homens. E, por mais que haja a lacração dos discursos nas redes sociais, a verdade é que muitas vezes as práticas são desprovidas de qualquer sentimento progressista. Não é uma novidade. Foi Napoleão Bonaparte que dizia "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço"?

Falta uma hora para os famintos lancharem seus biscoitos. É o fim de julho, mas poderia ser de um mês qualquer. O problema é que o Rio está matando muitos cariocas e, se antigamente era preciso dizer "O último a sair apague a luz do aeroporto", a nova ordem do genocídio da cidade afirma: "A janela é a porta principal".

Só me resta um pedaço de bolo de chocolate.

@pauloandel

33 anos

Há exatos 33 anos, à essa hora - três da madrugada - eu poderia cruzar Copacabana a pé, até chegar às Casas da Banha da Siqueira Campos e comprar iguarias pra lanchar. Pão, frios, coca. Voltar para casa com alguma tranquilidade e fazer a boquinha em paz. Com sorte, poderia ver até conversas divertidas dentro do mercado, como a travesti tricolor zoando um general rubro-negro vizinho pela derrota num Fla x Flu. 

E podia ir para uma festa maluca em Icaraí, onde não conhecia ninguém, só pra ficar com Ana e depois nos mandarmos às seis da manhã, já com luz no domingo, para dar uma volta na praia e tomar café numa bela padaria do bairro. 

Cinemas, havia para todo lado. É perda de tempo tentar explicar para quem não viveu aquilo: um filme só tem sua verdadeira existência quando é exibido na grande tela. O resto é jeitinho. Um monte de cinemas em Copacabana, Tijuca, Centro, todos de rua, todos do jeito que tinham de ser. 

Maracanã, minha, nossa casa, lugar de povo e fantasia. A única catedral carioca 100% voltada para a população. Pobres e ricos se acotovelavam e se trocavam o tempo inteiro. Ingressos antecipados? Nem pensar. 

Shows para todo lado, pagos e gratuitos. Na Apoteose, na praia, no parque. Quem viu Tears for Fears, Marillion, o apoteótico  Bob Dylan? David Bowie e Eric Clapton na Apoteose, Oingo Boingo no estádio da Gávea. A Legião Urbana parando o Rio de Janeiro com seu show no dia da morte de Cazuza. 

Tempos depois, os clássicos do grunge: Alice in Chains e, claro, o desgovernado Nirvana. Caetano lotou a praia de Botafogo em 1992, cantando com Djavan. Já o espetacular Tony Bennett teve a areia vazia em sua apresentação no mesmo lugar, que desperdício.

Na Rio 92, os Arcos da Lapa viveram uma tarde inesquecível com as performances de Barão Vermelho, Jello Biafra e Mano Negra. No ano anterior o Maracanã foi tomado de assalto pelo Rock in Rio, com grande e variada programação. Futuramente, o maior estádio do mundo receberia ninguém menos do que Madonna Louise Ciccone para 100 mil pessoas.

Ainda falando de shows, os estudantes da UERJ, UFRJ e PUC foram agraciados com grandes espetáculos gratuitos para o público. Numa parceria com a Brahma, o projeto "Som do meio dia" ajudou a consagrar a então desconhecida Cássia Eller nas universidades, além de divulgar trabalhos espetaculares como Ney Matogrosso ao lado do violonista Raphael Rabello. Tinha até Lobão cantando samba. 

O Canecão pulsava e, com ele, um show antológico do Jethro Tull, o início dos Raimundos e, claro, conturbadas turnês de Tim Maia. Do outro lado da cidade, o Imperator abrigava até Peter Gabriel.

O Rio era cheio de bares em muitos bairros e, neles, as pessoas queriam conversar e trocar ideias. Nada de ficar olhando o reality show na televisão. As pessoas iam e vinham, os ônibus e barcas rodavam a noite toda. Tráfico e milícia já estavam nas paradas de sucesso, mas ainda era possível vivenciar partes maravilhosas da cidade.

Sunday, July 30, 2023

O último domingo de julho

Cinco e meia da manhã. Tudo escuro, chuva nem tão fina, frio e um silêncio de mil cemitérios. Julho vai embora com suas derrotas, lembranças e vivências. Gente como eu perdeu um amigo, uma crush, um ídolo. Temos perdido coisas demais. 

O pequeno barulhinho da chuva pipoca na janela e nos aparelhos de ar condicionado. O sofrimento das ruas é mudo. Tradicionalmente, quase ninguém escuta. 

[Levanto para tomar remédios e tentar me entorpecer com sonhos bons, porque a realidade é tão barra pesada e sufoca feito fosse um poderoso socão no peito, daqueles que tiram o ar, deixam tudo roxo e desesperam.

O último domingo de julho, tão logo as pessoas acordem, terá polêmicas no futebol, velhas notícias de velhacos da política - especialmente os que andam de mãos dadas com a milícia - e algumas notícias até boas, porém insignificantes para muita gente que tem vivido em desespero e não pensa em desistir só do trabalho ou de casa, mas de tudo no sentido estrito da palavra. Principalmente aqui no Rio, há muita gente sofrendo e não seria surpresa a nova nomenclatura Cidade Horrorosa, não por causa de sua beleza física comprovada, mas pela sua opressão econômica e social que destrói famílias e ceifa vidas em pleno voo.

Nem tudo ė perda. Em alguns pontos da cidade, os boêmios começam a sartar de banda e voltar para casa. Depois vão dormir por horas a fio e acordar para ver o Botafogo jogar, pois os outros três já jogaram ontem - o Vasco segue seu calvário. Os casais se abraçam mais forte, os camaradas trocam sorrisos de saideira, o dia ainda escuro vai clarear aos pouquinhos. Se a chuva não atrapalhar, vai ter gente pelas feiras da cidade comendo pastel e bebendo caldo de cana - um luxo que eu curto.

[Aqui estou sem pai nem mãe, sem irmão e sem meu amor, pensando nas piores coisas e tentando espantá-las, mas tudo é muito difícil quando você está sozinho e cercado por metralhadoras da alma - todas apontadas para a sua testa e peito. 

Parece que ainda tem um pouquinho de luz na janela, vamos ver no que dá. Ainda não é agosto, melhor assim. Estão rolando os dados.

@pauloandel.

Friday, July 28, 2023

397

Uma das coisas mais humilhantes no Rio de Janeiro hoje é a questão do transporte público. Não existe dia em que os passageiros não sejam desrespeitados em algum dos serviços, quando não em todos. 

Quarta-feira, um caso chamou a atenção: em plena avenida Brasil, um motorista abandonou seu posto de trabalho da linha 397, embarcou em outro ônibus e deixou para trás não somente o veículo que conduzia, mas também dezenas de passageiros que se apertavam como sardinhas em lata. 

Informações dão conta que o motorista chegou ao limite do esgotamento, depois de ter sido xingado e ameaçado ostensivamente pelos passageiros do 397, porque vinha parando em todos os pontos com o veículo já lotado. 

É o retrato fiel do caos carioca. 

Desde o golpe de 2016, com a Lava Jato destruindo 2/3 dos empregos formais cariocas, o número de passageiros caiu drasticamente no principal transporte de massa, o trem. Some-se a isso o péssimo serviço da Supervia e as disputas políticas, então a capacidade de operação da companhia caiu em 50%, de 700 mil passageiros por dia para 350 mil aproximadamente.

O que faz a Supervia então? Reduz a circulação de trens, que ficam cada vez mais cheios. Algumas pessoas, cansadas da ruindade do serviço, voltaram para os ônibus. Mas como o desemprego era marcante, o que aconteceu? As empresas passaram a colocar menos ônibus em circulação nas linhas, especialmente aquelas que cruzam a cidade e têm como rivais as vans e motos da milícia...

Ou seja, o passageiro, trabalhador ou estudante, simplesmente não tinha para onde correr. 

Com a pandemia, o desastre foi completo. Até agora não houve recuperação e a explicação é óbvia: anos de desgoverno, sucateamento estadual e federal. O Rio se espatifou e, mesmo que agora tenha uma retomada do emprego, ainda está muito aquém dos níveis de dez ou oito anos atrás, em termos proporcionais. Consequentemente, continuamos a ter menos trens circulando do que precisamos e menos ônibus. Na hora do rush vira o caos. 

O motorista é obrigado a parar nos pontos, mesmo com o ônibus lotado. Se passar direto e for fiscalizado, rua. 

O passageiro que embarca do centro para a zona oeste é praticamente um animal de abate embarcado num caminhão.

Não é difícil imaginar as situações que a população passa diariamente no universo do transporte público. 

Por sua vez, a milícia segue cada vez mais ameaçadora, ocupando o território metropolitano do Rio e humilhando as pessoas. 

Perto do que se vê todo fim de tarde na hora do rush no Rio e seus arredores, a tensão num ônibus se limitar a palavrões e um motorista extenuado desistir do trabalho é quase um milagre. O sistema funciona para que as pessoas se agridam até a morte, numa selvageria absurda. É uma pena que centenas de milhares de pessoas, incluindo passageiros e motoristas, cumprem diariamente. 

Que crime cometeram? Terem nascido pobres. 

Wednesday, July 26, 2023

Sinéad O'Connor

Justamente ontem, Sinéad O'Connor partiu para sempre. Ainda me lembro quando a vi pela primeira vez, na capa de seu disco que alguém levou para a casa do Fred. A beleza de seu rosto me causou um impacto absurdo, pois era acompanhada do crânio raspado, uma ousadia que pouquíssimas mulheres praticavam no mundo todo. Eu mesmo era o único careca voluntário das minhas turmas. Tinha o Alexandre Gomes na faculdade, que era gente muito boa e sumiu. Só. Em Copacabana, só Monique Evans, linda de enlouquecer, tinha coragem de usar o cabelo muito curto.

No apartamento, enquanto discutíamos qualquer coisa, alguém lembrava como Sinéad era linda e logo alguma amiga ciumenta reclamava. Ríamos e contestávamos. 

A beleza do rosto de Sinéad me impactou por muito tempo, aumentando ainda mais quando explodiu o vídeo clip de "Nothing compares to you", que ganhou o mundo - uma canção de Prince que ela transformou em sua com maestria - há cantoras com esse poder, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Tina Turner, que cantam e interpretam de um jeito único, virando parceiras dos autores. 

Nenhuma mulher raspa o crânio sem atitude. Sinéad era uma força da natureza. Lançou alguns álbuns ótimos que a intelligentzia desprezou porque estava mais interessada em fofocas e polêmicas. Enfrentou poderosos cara a cara e não arredou pé, o que lhe custou severos boicotes. 

Foi linda até o fim. Aguentou tudo, menos o pior castigo que sofre uma mãe: perder um filho. Morreu jovem demais. Os mais novos precisam conhecê-la.

Volto a 1989 e revejo a casa de Fred. Alguns amigos estão longe, as garotas também, alguns se foram para sempre. Não parece longe, foi outro dia. Eu não me esqueço da contemplação daquela beleza, que ainda tem uma marca: a tristeza do olhar e semblante. Tive sorte com garotas bonitas, fui amigo de muitas, namorei algumas, flertei com outras e me casei com uma.

Independentemente disso, tive e tenho minhas admirações pela beleza em si, que basta. Ana Paula era linda, assim como Luciene e depois Juliana, depois Gabriella. Amigas, colegas e admirações cujos rostos me remetem à beleza e que me lembro agora. A diferença é que me lembro de todas belas, muito belas mas com algum sorriso, desfraldado ou contido, emoldurado pelos cabelos. Sinéad não: era a beleza monumental do rosto triste e careca. Nela, tudo era desafio, até mesmo a beleza. A beleza.

Julho

Por aqui, no coração da Guanabara, é um mês que sugere civilidade. Férias escolares, ruas (ainda) mais vazias, às vezes frio e chuva. Dias e tardes gris. Nenhum feriado.

Quando julho corre, fica a sensação real de que mais da metade do tempo do ano passou, isso para nós que medimos o tempo em meses. Já começa o caminho para o próximo ano, o próximo ano, a próxima temporada e tudo corre com enorme velocidade rumo ao futuro, o fim ou o nada, conforme o gosto do freguês. 

São seis e meia e o dia ainda está clareando. Julho vai chegando ao seu final. Embora não haja nada de novo debaixo do sol discreto, quem sabe a vida não oferece uma surpresa boa? Quem sabe?

Sunday, July 23, 2023

De Ed Motta a Geraldo Vandré

Ouço música diariamente, no trabalho e em casa. É assim há muitos anos. Geralmente faço minha programação particular onde o cast possui 360 graus de amplitude, indo de Cauby Peixoto a Sepultura, Tom Zé a Radiohead, Almir Guineto a United Future Organization, Fevers a Brand New Heavies. 

Passei a sexta no trabalho ouvindo Ed Motta, neste domingo também. Eu o vi começando a carreira já monstruoso e seu trabalho só melhorou com o tempo, notadamente influenciado pelo Steely Dan, que é uma das instituições estadunidenses da música - embora Donald Fagen, o próprio SD com a morte de seu parceiro Walter Becker - já tenha dito que detesta bossa nova. Eu adoro e ponto. Viva São João Gilberto e São João Donato, que acabou de partir mas deixou uma carreira fantástica, repleta de álbuns sensacionais. 

Volto ao Ed. Algumas falas deturpadas fizeram com que o cantor colecionasse haters nas redes sociais, fruto desse ódio delivery que vivemos. E, claro, a tradicional hipocrisia dos puristas que adoram apedrejar os outros. O mais importante de tudo deveria ser seu trabalho musical, que é riquíssimo com 35 anos de carreira e muita qualidade.

[pausa por motivo de força maior]

Domingo, perto da meia noite, o mundo em agonia plena porque lá vem a segunda-feira, passo pelo documentário sobre Sidney Magal na GloboNews. Algumas falas bem interessantes. Mas fico de olho porque vai começar o Canal Livre e eu sempre espio o entrevistado. 

Meia noite em ponto e acontece a cena mais inesperada da TV brasileira em anos: anunciam o nome do entrevistado. Geraldo Vandré. O quê? É isso mesmo? É! 

[volto em seguida depois desse natural Impacto]

Ed Motta me remete ao começo da faculdade em 1988. Vi um show dele por lá. Era também o tempo da estreia de Marisa Monte, os dois fizeram um belo dueto em "Ainda lembro", segundo álbum da cantora. Os Titãs voltavam à tona com o álbum "O blesq blom". Os Paralamas arrasavam com a sonoridade latina de "Bora Bora". A Legião Urbana lotava estádios. Ciente do fim, Cazuza acelerava novos trabalhos, que iam da bossa de "Faz parte do meu show" ao protesto vigoroso de "Burguesia". De 1987 a 1990, isso foi uma pequena amostra. 

E de fora? Vieram ao Brasil The Cure, Metallica, Supertramp, Pretenders, Simply Red, Simple Minds, UB40, Tears for Fears, Terence Trent D'arby, Eurythmics, Bob Dylan, David Bowie, Eric Clapton, Paul McCartney, Oingo Boingo, muita gente importante. Com um verdadeiro furacão em fins dos anos 1980, a década de 1990 prometia muito. Musicalmente falando, um grande tempo.

[para não dizer que não falei da incrível aparição de Geraldo Vandré na TV]

Apesar dos experientes entrevistadores do Canal Livre, o programa não deve ter sido dos mais fáceis. Ao mesmo tempo em que muitas pessoas admiram Vandré, suas respostas são lacônicas, evasivas e dão a impressão de que alguma coisa está fora da ordem, para não dizer de omissões. Mesmo assim, alguns momentos são engraçados até. Pela primeira vez, vi o grande artista falar após 45 anos de espera. A reprise da entrevista me será útil para tirar várias dúvidas. 


Monday, July 17, 2023

Fluminense 121

Ainda me lembro do exato momento em que me tornei Fluminense, há 50 anos: meu pai veio me mostrar um álbum de figurinhas da Copa de 1970 e abriu na página da Seleção Brasileira. Apontou e disse: "Esse é o Félix, ele é do Fluminense". Desde então, essas duas palavras nunca mais saíram da minha memória, Félix e Fluminense. Eu não me apaixonei pelo escudo, pelas cores ou pelas bandeiras, mas pela palavra - e se coincidência não existe, está explicado porque, muitos anos depois, escrevi vários livros sobre o clube. 

Cheguei em 1973 e o Flu já tinha uma história maravilhosa. Embora não seja o primeiro clube de futebol do Brasil, foi o pioneiro de tudo: inventou os campeonatos, o estádio, a torcida, o cuidado com a grama - pelo impecável burro Faísca -, o ídolo - e sex symbol - e, por fim, a Seleção Brasileira, para quem forneceu dezenas de jogadores nas Copas do Mundo. 

Provando sua vocação suprema para o futebol, o Fluminense logo tratou de ganhar muitos títulos na era do amadorismo. Depois deu um tempo e, quando veio o profissionalismo, montou aquele que provavelmente foi o maior time de sua história, dominando o Rio de Janeiro em fins dos anos 1930 - e se não fosse a Segunda Guerra Mundial, o Brasil era candidato certo a ganhar o Mundial de 1942 com um escrete tipicamente tricolor. E já que a guerra veio, o Fluminense colaborou com um avião de combate para o Brasil. No fim dos anos 1940, a Taça Olímpica deu ao Flu o título de perfeita organização desportiva. Quando o futebol brasileiro foi reduzido a pó na Copa de 1950, correndo grande risco até de desaparecimento, veio o Fluminense e ganhou o Mundial de Clubes, reacendendo o interesse popular pelo esporte. 

Desde então, o Fluminense viveu de tudo, tal como um verdadeiro ator de cinema: ganhou e perdeu grandes títulos, foi condenado à morte com rebaixamentos mas ressuscitou para sempre, teve dezenas de grandes craques, vários perebas, lutou muito e atravessou décadas. Foi às vias de fato, encarando a luta. Time de guerreiros. Tudo isso foi testemunhado pela maravilhosa massa tricolor, muitas vezes imersa na mais apaixonante nuvem de pó de arroz que já se tem notícia. O grande Flu dos clássicos imortais, de times inesquecíveis como a Máquina Tricolor de 1975/17, a mocidade independente de 1980 e o grande grupo tricampeão carioca e campeão. O time do gol de barriga, os campeões da Copa do Brasil em 2007, o vice-campeão da Libertadores em 2008, os dois títulos brasileiros em 2010 e 2012, mais o recente bicampeonato carioca em 2022/23.

O Fluminense é o time dos gols no último grão da ampulheta, das vitórias inacreditáveis, dos heróis improváveis. É o time da playboyzada que não se limita aos bairros nobres - é muito mais um estilo do que qualquer outra coisa. O time das garotas mais bonitas de todos os tempos, não importando se têm 18, 27, 42 ou 66 anos. O time que, por sua longa trajetória, já irritou e contrariou as redações e estúdios de boa parte da imprensa convencional. De Waterman a Welfare, depois passando por Batatais e Romeu, Rivellino e Edinho, Assis e Washington, Renato e Romário, até agora desembocar em Arias e Cano, o Tricolor é sonho, realidade, drama, conquista e emoção, tudo isso envolto em três cores que contam a história do futebol brasileiro há 121 anos. 

@pauloandel @p.r.andel

Sunday, July 16, 2023

Três atos em Copacabana

I


Cruzei a cidade na noite de sexta-feira e fui parar no único bairro do mundo onde me sinto em casa: Copacabana, é claro. Acontece que agora sou um haole, um estrangeiro, um turista, só que com o olhar mais atento de todos os habitantes locais. Bem antes de fechar a corrida, perguntei ao motorista se preferia receber em dinheiro ou pix. Deu pix na cabeça. Vale o escrito. 


Parei no Teatro Brigitte Blair. Fiquei contente. Um palco de resistência, com programação variada e grande ênfase musical. Aconchegante e vintage, a cara de Copacabana. Fui assistir o show da Conexão Planetária, para conferir a ótima impressão que tive do EP no Spotify. Nenhuma surpresa: ótimo no áudio, ótimo ao vivo e saboroso. A Conexão é um duo formado por Mariana Moulin (voz) e Marco Lima (guitarra), também compositores, acompanhado nas apresentações por Ivo Ricardo (baixo), Rabicó (bateria) e Rodolfo Bragantini (guitarra). Raras vezes vi um show tão bom e azeitado de uma banda que está começando um trabalho, mesmo que tenha músicos tarimbados. Há ecos de soul, rock, pop, MPB e peso agradável nas guitarras (sem barulheira) que fazem um contraponto excelente à doce voz de Mariana. Enfim, me diverti por uma hora e meia e espero revê-los em breve. 


II


Depois de um bom show, cabe uma boa janta ou lanche, uma boquinha talvez. Meu plano era visitar Katia, no outro lado de Copacabana, começo da Barata Ribeiro. Deixei o Brigitte Blair ainda cheio, parei numa esquina e mandei mensagem pelo WhatsApp. Katia não respondia, nem Rodrigo, meu amigo que mora nos arredores do teatro. Então andei uma quadra, duas, nenhuma resposta e parei na porta de um restaurante a quilo que ainda funcionaria por uns dez minutos. Uma boquinha leve, dois pedacinhos de frango, meia colher de arroz, um pedacinho de pernil e quarenta reais no peso. Socorro!


Sentando à mesa, Katia respondeu. Já tinha uma pizza em casa, mas não estava muito empolgada. Respondi e avisei que sairia em instantes do restaurante. Meu prato tinha tão pouca comida que terminei em dois minutos. Paguei a conta, a caixa foi simpática, logo peguei o Uber e tanto a pergunta quanto a resposta se repetiram: "Você prefere pagamento em dinheiro ou pix?", "Prefiro pix, senhor". Tempos modernos. 


III


O elevador do prédio de Kátia é um paradigma de Copacabana, com duas portas pantográficas - uma somente para o térreo. Leo, o cão oficial, pequenininho e super legal, me espera com latidos. 


Com o pratinho do restaurante caro, a fome ainda batia. Eu sou um comilão: tracei a pizza que a Kátia rejeitou, ela ligou pro Caravelle, pediu uma lasanha e uma outra pizza de chocolate. Então conversamos e rimos, passamos tempo, falamos de amigos queridos - alguns, infelizmente mortos - e comemoramos quando o pedido chegou. Num mundo onde tanta gente passa fome, poder comer é um privilégio. 


Como tudo que é bom dura pouco, chegou a hora de ir embora. O Leo correu de um lado para o outro, me despedi da amiga e fui para o terceiro Uber. Depois de cochilar no sofá, o Rodrigo respondeu mas já era tarde, fica para a próxima. 


"Tudo bem? Você prefere o pagamento em dinheiro ou pix?"


"Prefiro pix, senhor." 

Wednesday, July 05, 2023

frag mentos

[tudo no LinkedIn é falso

[é necessário respirar bem às três da manhã, enquanto tiros explodem em algum lugar de Santa Teresa e aqui na Cruz Vermelha o desespero é outro. cada um tem a desgraça que lhe cabe

[a cada dia que passa o tempo escorre cada vez mais rápido e, quando olhamos para trás, já se foram trinta ou quarenta anos. então tenho pressa porque sei que estou no terço final. ao mesmo tempo, minha cabeça ainda alimenta tantas ideias e esperanças, às vezes inúteis, às vezes combustível para fazer desta última parte a mais dessa travessia, se última for mesmo

[onde estão aqueles jogos que o tempo levou, junto com as músicas e as grandes garotas? 

[às três da manhã é necessário respirar e perceber o silêncio

[onde estou além do abismo?

Sunday, July 02, 2023

Mar

Podem falar o que quiserem de ruim, mas Copacabana não é para amadores. Você tem que vir das divisões de base já pronto para ser titular. E até hoje Copacabana tem seu playground para todos, que é a praia. Hoje em dia é preciso ter cuidado, especialmente à noite, mas a praia é o grande polo democrático que reúne tudo: gatinhas, marombeiros, coroas, crianças, gordos e magros, gays pra todo lado, sapatões deliciosas, saudáveis desocupados e o resto da fauna copacabanensis.

Geralmente eu estava ou jogando botão na casa do Luiz ou ouvindo discos na casa do Fred. Depois, quando passei a ter aula noturna na faculdade, o lazer diminuiu. E uma ou duas vezes por semana, eu ia para a praia à noite. Às vezes tinha uma garota, muitas vezes era sozinho. Eu e minha relação com o mar. Molhava o pé na beira, sentava no banco de areia, apreciava o horizonte infinito do Atlântico Sul. Tudo escuro e infinito, tudo cheio de silêncio e misterios. Tinha alguma coisa de charme, outra de medo, outra mórbida. Eu, que gosto tanto de lá, sempre pensava no que teria depois do infinito. Tanto silêncio e poucas respostas. 

Quando é cedo, em dia de tempo bom, o mar se destaca pela sua beleza e cores. Tarde, pelo mistério. Sempre foi assim. Para muita gente, fui um privilegiado por ter vivido 25 anos perto do mar e é verdade mesmo. Sempre me comovo com a emoção de pessoas do interior ao verem o mar pela primeira vez, dando-lhe o devido valor que eu nem sempre pude por tê-lo sempre ao lado. Hoje ele me faz muita falta. Há anos tenho vivido noites difíceis e, se o mar estivesse perto, era só descer, caminhar um pouco e me deparar com sua grandeza. Aliviaria alguma coisa com certeza. 

Até 1988 a praia não tinha luz noturna. Só o Juventus tinha luz própria para treinos e jogos. Aí veio a grande obra e a praia de Copacabana ficou toda iluminada. A imagem era bonita demais. Lembro que eu estava voltando de Arraial do Cabo, da casa do Henrique, com ele, a Ana e não sei se Xuru ou Pedro também. Viemos até Niterói, pegamos a barca e, a seguir, fomos da Praça XV para Copa. Era o começo da tarde e combinamos de nos encontrar para ver a nova praia cheia de luz. Foi uma noite muito bonita, depois lanchamos no Bob's. Pra mim, 1988 era um grande ano por vários motivos, até hoje me lembro. Bom, deixa pra lá. 

Infelizmente os perigos de hoje são muito maiores. Naquele tempo, o máximo que acontecia era sair na porrada com o ladrão - nós, garotos de 18 ou 20 anos, cheios de energia, não éramos fáceis. Agora é diferente: qualquer coisa tem facada no peito, degola e horror. Não era pra ser assim, bastava o ser humano ser humano de verdade, mas não aconteceu e só piorou. Mesmo assim, dia desses eu quero voltar à beira do mar de Copacabana. Rever aquela atmosfera de silêncio, mistérios e o verdadeiro ballet da morte. Procurar no horizonte pelo desconhecido, lembrar de tudo que passou, sonhar com dias de generosidade em vez de esmola e, definitivamente, tentar entender porque aquele ambiente da natureza litoral tem tanto a ver comigo, a ponto de mantê-lo intacto na memória pelos últimos 35 ou 40 anos.

Saturday, July 01, 2023

Serious

A faixa tocou pouco mas eu a memorizei de imediato. Para mim, é a melhor música do Duran Duran, mas é quase desconhecida. A sonoridade é atual mas ela é da transição 1989-1990, e eu me lembro de tudo como se fosse hoje. 

O Luizinho morava na Tonelero, no famoso Edifício Pampeiro. Ele e o Raul eram muito mais novos do que eu, Xuru e Gomão, mas nós adorávamos jogar botão e viramos amigos para sempre. Ele tinha uma mesa grande, montada na sala, onde jogávamos quase toda noite. Na hora da fome, buscávamos o lanche nas Casas da Banha da Siqueira Campos, aberta 24 horas - já fomos modernos. 

Quinhentos metros adiante, morava o Fred no Bloco F do Shopping dos Antiquários, que foi minha segunda casa por anos a fio. Também ia lá quase todo dia: era onde jogávamos cartas, ouvíamos música e alguns usavam drogas ilícitas. As garotas entravam e saíam. Uma delas, que não lembro mais o nome, vivia me dando foras até que um dia me beijou - confuso demais para entender. Estávamos todos no começo da faculdade, procurando o início do caminho adulto. Eram nossos últimos momentos adolescentes divertidos. 

Eu já estagiava, no Hospital Pinel. Não tinha um tostão mas sonhava com o futuro, ajudar meus pais. Estávamos muito pobres, não havia emprego, era o Rock Horror Show da Era Collor. 

A faculdade era maravilhosa. Minhas amigas eram lindas e nos adoravam. Éramos divertidos na turma: engraçados, excêntricos e alheios ao clima "sério" do Instituto de Matemática. Os caras preocupados com integrais e derivadas, a gente falando de Tim Maia, Prince e irmãos Coen: claro que as garotas iam nos preferir. Até as professoras: a Sônia, que era meio sem noção, dizia para Alessandra que eu era feio pra ela, mas falava em plena aula que seu marido era uma cópia minha. Vá entender. Íamos ao boliche, aos cinemas da Saens Pena, ao Palheta e sonhávamos em viajar para Arraial do Cabo. 

O Flu tinha um time modesto mas brigava. Eu estava no Maracanã o tempo todo, em Laranjeiras e tal. Era muito divertido. 

A derrota para a Argentina na Copa de 1990 nós vimos juntos na casa do Luizinho. O Xuru xingou muito na hora do gol argentino, a jogadaça do Maradona. Mais tarde, no mesmo dia, a maravilhosa Holanda também foi eliminada: deu Alemanha, futura campeã. 

Vimos grandes shows: Bob Dylan, Eurythmics, Oingo Boingo, A-Ha, Legião Urbana e o antológico Tim Maia no Arpoador. O Circo Voador bombava, o Canecão era super acessível. Jorge Benjor estava de volta com "E Brasil". Depois veio a maravilhosa MTV Brasil. Houve também uma derrota violenta, que foi a morte de Cazuza. A gente sabia, já era esperado mas doeu paca. Nenhum jovem deveria perder seu poeta também jovem, mas a vida é injusta por excelência. 

Naquele tempo eu era um sujeito bastante popular nos meus nichos, nem sei por que motivo. Agora, a verdade é que eu me sentia sozinho em todos os lugares, inclusive acompanhado. Às vezes eu fugia para a praia à noite e ia até a beira do mar só para contemplar a noite atlântica de Copacabana, sozinho, apreciando o litoral por minutos e minutos, misturando o silêncio com os sons do mar e a escuridão que, de certa maneira, remetia à morte - também não sei dizer como não mergulhei no mar para sempre, tantas foram as vezes e os pensamentos. 

Tudo está tão longe, mas pode ser imediatamente acionado com alguns poucos acordes. Ouvir "Serious" leva a um mundo cheio de cores e também algumas dores. Ou seja, o mundo como ele realmente é.

Tuesday, June 27, 2023

uma noite de 1979

Meu pai chegou bem em casa. Triste ele sempre estava, mas não tinha bebido e aquilo foi um alívio para mim. Naquele tempo eu rezava e agradecia, tinha acabado de fazer primeira comunhão. 

Apesar da nossa relação tensa, volta e meia ele trazia algum pequeno presente para mim. Um botão. Um gibi. Eu tinha dez anos e, naquele tempo, os garotos da minha idade só brincavam e sonhavam. Ganhar uma caixa de Playmobil. Autorama, já pensou? 

Naquela noite ele devia estar duro de grana, mas não falhou. Trouxe para mim um pneuzinho. Na verdade era um anel de borracha que lembrava um pneu mas era liso, sem vincos. Eu gostei. Tínhamos um sofá vermelho, kitsch, cuja cabeceira tinha uma ondulação, aclive e declive. E o que precisava além daquilo para ser feliz? Nada, a não ser um gole de Coca-Cola ou um hambúrguer que minha mãe fazia em casa para o lanche. 

Então me esbaldei. O pneuzinho ia e vinha na cabeceira do sofá. Ele deve ter ficado contente, porque brinquei bastante. Uma hora ou mais. Depois parei para escutar um jogo do Fluminense em nosso rádio, um Telefunken grandão com luz esverdeada. Toda vez que penso naquele aparelho, invariavelmente me vem à tona os nomes de ídolos da minha infância, não os jogadores, mas os radialistas: Jorge Curi, Waldyr Amaral, João Saldanha, Mário Vianna, Kleber Leite e Loureiro Neto. Era como se eu os escutasse todo dia e ficasse o tempo todo esperando: lá vem o Fluminense. Durante o jogo, minha mãe fez o delicioso hambúrguer. 

Curiosamente não lembro da partida, pois geralmente guardo tudo. Não eram tempos fáceis, longe disso, mas aquela noite do pneuzinho foi muito legal, como a de uma criança feliz. Não lembro do jogo, mas o Fluminense era inesquecível: Wendell, Renato, Miranda, Tadeu, Moisés, Edinho, Carlinhos, Rubens Galaxe, Pintinho, Cléber, Mário, Cristovão, Toinzinho, Carlos Roberto - que jogava demais -, acho que já tinha Fumanchu e Nunes também. Qualquer partida na rádio era um épico. 

Depois daquele dia, vieram mais de 14 ou 15 mil noites. Em muitas, a vida não teve nada de fácil, mas eu sinto falta daquilo. De ganhar um presentinho do meu pai. De poder brincar no sofá. De tudo aquilo que vivia um garoto pobre à beira-mar em fins dos anos 1970. De lá pra cá, a única coisa que não se alterou foi essa coisa do Fluminense, que veio sempre comigo e que aumentou quando passei a escrever livros sobre o clube. Não sou exatamente um saudosista, as coisas precisam passar, mas o que me traz aquele tempo com tanta força é o maior tesouro que uma criança pode ter: futuro. As crianças, nem todas - e isso é muito doloroso -, têm o futuro pela frente. Era o que eu tinha. 

Muitos anos depois, escrevi sobre Saldanha e Edson Mauro, fiquei amigo do Mazella, entrevistei o Garotinho e fiz alguns programas de TV com ele, que honra. Também fiquei amigo do Vinicio Gama, que é sensacional e cujo trabalho me lembra o de Jairo de Souza. 

São quatro da manhã. Eu queria aquele hambúrguer, queria meus pais, queria Copacabana e também aquele Fluminense que eu vivi. Tudo está longe, mas o Flu continua por aqui. Hoje tem Maracanã cheio, é decisão de vaga.

Um hambúrguer da mãe, a preocupação com a aula, o Telefunken. O Fluminense, rapaz. Renato, Miranda, Moisés, Edinho e Carlinhos. Um pneuzinho. Um garoto brincando e contando as horas no mundo.

Monday, June 26, 2023

dia útil

As pessoas vêm e vão pelos ônibus e trens da Central. As pessoas com sorte têm emprego e fazem jus a almoçar um pacote de biscoitos baratos às 17 horas, quando se amontoam para volta. Lembrem-se sempre: gare é uma coisa, linha 2 do metrô é outra coisa, linha 1 do metrô é outra outra coisa.

Notícias populares na televisão: um bairro da Região Metropolitana onde as pessoas são assaltadas diariamente a qualquer hora do dia. Qualquer hora do dia. É duro. 

Está frio. Vai chover. Vai ter sofrimento. Quando não tem? Não dá pra lavar roupa, não dá pra pagar conta, não dá pra respirar direito

Invasão de terreno na Mata Atlântica. 

Parece incrível mas, por volta de sete e meia da manhã, os passageiros parados nos pontos dos ônibus precisam ficar espertos. Na troca de guarda da Polícia, as ruas então largadas e os assaltantes aproveitam para atacar. Senhor! 

Está frio. Tem um restinho de sol no fim da linha do céu. 

No Centro do Rio, ao mesmo tempo em que as pessoas mais sofridas se amontoam debaixo das marquises, não há uma única rua onde não prevaleçam cartazes onde se lê "Aluga-se" ou "Vende -se". Cadê o dinheiro? A conclusão é inevitável, embora pouco se diga a respeito: a minoria com poder econômico prevalece sobre a maioria que precisa de emprego, enquanto uma parcela da população não tem utilidade econômica para o poder e deve ser dizimada aos poucos, com a crueldade da necropolítica. Depois de anos sem renda, sem casa, comendo lixo, a parcela esmagada pode se decompor sem paz e com total desinteresse das classes dominantes. É tão óbvio que surpreende quando alguém não enxerga o processo. 

Os shopping centers continuam vazios, mas ninguém liga. Não estão ali para encher, mas sim para outras funções. O trânsito ficou mais tranquilo, não pelo reordenamento da cidade, mas sim pela falta de dinheiro para o combustível. O transporte de massa é um dos maiores instrumentos de humilhação popular. As pessoas são tratadas da pior maneira possível. 

O Centro vai ser salvo por políticas de ocupação? Ou seriam na verdade de gentrificação, empurrando os habitantes cada vez mais para a zona suburbana?

Os bancos estão vazios. A minoria opera pelo celular, a maioria não tem nada a fazer ali. 

A cada dia que passa, a cidade se volta cada vez mais para uma elite e despreza o resto. Não é preciso dizer que os mais pobres devem desaparecer, basta apenas deixar que o processo de gentrificação aja silenciosamente. As boas campanhas de marketing sugerem que o futebol e o carnaval sejam elementos de inclusão popular, mas todos sabemos quem é que vai para os camarotes e quem vai vender balas na Praça Onze. 

Dia útil, vidas tão desprezadas, mas boa parte da gente não está nem aí. Afinal, Deus perdoa. 

@pauloandel

Sunday, June 25, 2023

uma breve história sobre futebol

Há quem diga que o futebol é bobagem. Santa insensibilidade: se não fosse o futebol, o mundo seria muito pior porque, para centenas de milhões de pessoas, ele é a única chance de alegria em meio a um monte de ódio, opressão e covardia. Hoje à tarde, conversando com Raul, lembramos que o velho Maracanã era o único espaço de real convivência democrática da cidade entre ricos e pobres, abraçados nos gols e chorosos nas derrotas. Em muito menor escala, eu só consegui viver o mesmo no grupo de escoteiros: todos acampávamos com ou sem dinheiro, fazíamos vaquinha, apertávamos a comida, o ônibus mais barato. No grupo éramos uns setenta; no Maracanã, cem mil. Quantas vezes o futebol me salvou? Não sei dizer. Quando meu pai chegava derrotado e violento por causa da bebida, eu corria para o 434, ia para a geral e chorava vendo um jogo. Noutras vezes, eu ficava no corredor da arquibancada olhando a UERJ e sonhando em estudar lá. Noutras vezes eu ia porque era o único lugar em que, tão solitário, eu não me sentia sozinho. Foi assim muitas vezes. Sem o futebol, a depressão teria me vencido, eu teria executado o suicídio que iniciei e teria sido um desperdício, porque escrevi muitas coisas legais a seguir, o que eu não faria morto por motivos óbvios. O futebol me deu a ilusão de um monte de amigos juntos, caso da arquibancada; me deu sonhos em jogos e lances inesquecíveis; preparou meu espírito para saber encarar as derrotas. O futebol me deu muitos colegas, com quem interagi e trabalhei muitas vezes. Por exemplo, nesse domingo há 28 anos o meu time ganhou um dos maiores jogos de todos os tempos, com um gol de barriga. Naquele ano quase tudo deu errado pra mim, mas o campeonato valeu muito a pena. Muitos anos depois, foi o futebol que permitiu minha estreia em livro e, por gratidão, escrevi um monte de livros sobre o tema, vários ainda inéditos. Por causa do futebol vivi admirações, paixões e conheci minha esposa. Também conheci pessoas do Brasil inteiro, com quem converso sempre que posso - algumas colaboram com o meu site. O futebol só não me ofereceu mais abraços do que minha mãe. Você conhece ou segue um artista, acaba gostando mais dele quando é um entusiasta do futebol. Ele me faz esquecer as dores no corpo, a minha tragédia pessoal, a melancolia cotidiana. Por uma hora e meia, mesmo que o jogo não seja bom eu tenho meu pequenino momento de felicidade. Tanto faz se é uma partida importante ou esdrúxula - o jogo começa, eu volto a ter dez anos de idade e meu olhar persegue a bolinha na tela da televisão. Ah, se não fosse o futebol, como eu teria conversado com a Bibi Ferreira, o Gilberto Gil e a Letícia Spiller? E a Maria Bethânia? E o Italo Rossi? E como eu ia suportar o mundo agora, que me humilha todo dia enquanto sinto dores pelo corpo e choro por tanta gente humilhada feito eu? É domingo à noite, tudo parece perdido, tenho vontade de desistir mas penso na terça-feira, tudo pode ser diferente e surgir pelo menos uma luzinha no fim do túnel. Pode ser que eu não tenha um único amigo, pode ser que eu não consiga vender e está tudo perdido, mas a terça-feira me serve de esperança. Vou pensar no jogo, vou conversar com colegas para chegar logo o horário da partida. Agora é uma noite melancólica como todas de domingo, onde esperamos ótimas semanas que nunca, mas nunca chegam - ao menos para mim -, só que eu carrego comigo o futebol, a minha esmolinha, os meus botões que minha mãe comprou com tanto sacrifício, as histórias que vi e escrevi, as histórias que ainda preciso contar quando era garoto e, na Copacabana de orla escura, chutava a bola na areia com os colegas mesmo sem vê-la direito, nem o goleiro e o gol - assim como só nos resta viver, nos campos da praia só nos restava jogar, pouco importando se a bola iria para a direção correta, ou se um gomo da bola estivesse soltando. Aqui falo de quarenta ou quarenta e cinco anos atrás, que foram há um susto porque tudo é brevidade, mas a bola na praia, na vila, no playground do Gordinho e mesmo no Maracanã - meu pai me levou para ver não apenas o Fluminense, mas o America, o Bangu e até o Campo Grande, todos contra o Flamengo - eram tudo uma coisa só: um pequeno suspiro de felicidade. 

Friday, June 23, 2023

cenas do centro do rio

Saí do trabalho com Jocemar e caminhamos pelo que sobrou da Rua da Carioca. Breu, silêncios, portas fechadas. Onde está o Bar Luiz? E a Guitarra de Prata. O Cine Íris sobrevive com seu nicho de fanáticos pela sexualidade, é um zum-zum-zum da transa e as pessoas são felizes, pouco importando se de maneira efêmera ou permanente. 

Nossos passos são rápidos e logo estamos no mijódromo, mistura de grade e canto que fica bem no começo da Carioca, perto da loja de malas e a outra, de facas e canivetes. O odor de urina é de matar. A cidade nem liga para a pressão de seus cariocas, apertados por natureza:  muitos acham que só pessoas em situação de miséria precisam de banheiro público. Todo mundo deveria urinar em paz, ora. 

O Largo da Carioca, que costumava ter multidões às seis da tarde, está frio e esvaziado. O Rio, que já vinha sofrendo desde o golpe de 2016, foi à lona com a pandemia e nunca mais se recuperou. São mais de 10.000 unidades fechadas, salas e lojas, um corte de 80.000 pessoas. Não há rua em que não se leia uma placa de "aluga-se" ou "vende-se". Ninguém se importa. 

O que nos resta é espiar livros e discos na banca do Olivar. Fica num dos pontos mais privilegiados do Rio, em frente à. Estação Carioca do metrô. Você pode achar belas oportunidades lá por dois reais cada: Jamiroquai, Altamiro Carrilho, Heraldo do Monte, Rubem Braga, Carlinhos Oliveira. Olivar precisa comprar 500 livros por dia para garantir o giro. Dia desses um cliente quase infartou ao encontrar um cd de Fela Kuti.

Jocemar vai para Niterói, eu preciso jogar na loteria porque é meu único antídoto contra o suicídio. Minha saída é o VLT Central, passando pela Visconde de Inhaúma - a casa lotérica de lá fica aberta até às 19 horas. Chego com folga, sou bem atendido pela bela caixa, faço a fezinha da minha turma e decido dar um pulo rápido no Paladino, para espairecer por alguns minutos. Sou cliente há mais de 20 anos e o único da minha antiga turma a frequentar. A visita foi para não perder a viagem, já que almocei tarde. Assim, vale conferir uns bolinhos de bacalhau com soda limonada. 

Os tempos mudaram para melhor no Paladino. Antigamente quase não se via mulheres no salão, mas agora elas dominam a cena. Riem, conversam, estão livres. E eu, tão sozinho, converso com a minha amada pelo Whatsapp - ela já está a caminho de casa, a 50 quilômetros daqui. Sou a única pessoa sozinha numa mesa, mas isso me faz bem: antes só do que mal acompanhado. Só. Não por muito tempo, apenas o suficiente para rangar os bolinhos de bacalhau e tirar fotos: o CD de Altamiro Carrilho, gênio da flauta brasileira, ou de Bill Evans, monstro sagrado do jazz. Ficar sozinho tem suas vantagens: as conversas paralelas podem ser interessantes, escutar outras histórias, outros personagens desconhecidos. E no Paladino com mesas 100% femininas, o que não falta é personagem para todo lado, enquanto respondo Marina e vejo recados no WhatsApp, tudo ao mesmo tempo com a pimenta e o azeite nos deliciosos bolinhos de bacalhau. É sexta, é o fim da semana, é o descanso e recolhimento, mas também medo dos problemas, que não são poucos. 

Meia hora depois, me despeço do Paladino lotado e vou para a estação do VLT. Um rapaz em dificuldades pede uns trocados, eu só tenho uma única nota de dez reais e dou, ele agradece aos céus e me sinto um pobre diabo por não poder ajudar ninguém direito - eu me sinto muito humilhado há muitos anos - eu sou um popular de bermuda e chinelos gastos, falando para ninguém -, ele segue feliz pela penumbra, eu espero o trenzinho e cai a noite no coração do Centro, a metros da Rio Branco, a grande avenida onde o que mais se lê é "aluga-se!" por todo lado, em vão. Eu carrego comigo Bill Evans e Altamiro Carrilho, a noite carioca tem um quê de jazz e choro, alguma melancolia - por ali, logo serão dezenas de pessoas em situação de rua. Por um instante me lembro de um grande show de Altamiro com João Donato no Teatro João Caetano, vi no domingo de manhã, faz muito tempo. 

Aluga-se, aluga-se, vende-se. Tão difícil quanto ver os anúncios nas janelas e portas da Rio Branco é acreditar que, um dia, aqueles espaços voltem a ser ocupados. O futuro trouxe as compras delivery, as pessoas saem cada vez menos de casa, muita gente não tem um tostão, então como o capitalismo dominante vai funcionar? Menos mal que o trenzinho passa na esquina com a Presidente Vargas e dali se pode ver toda a grandiosidade da cidade, que tudo prometia mas não tem cumprido. 

[Num segundo o noroeste breve remete aos garotos na marquise que um dia foram vítimas da Chacina da Candelária.

DESCENDO a Rio Branco, a rua está escura, a noite já está presente, alguns transeuntes vêm e vão enquanto poucos letreiros acesos chamam atenção. É sempre legal ver a fachada do Edifício Edison Passos, Clube de Engenharia, quase na esquina com a Sete de Setembro - tem uma grande placa de cimento em curva. Uma quadra depois, o deserto discreto do Largo da Carioca abriga os grandes sanduíches do Bob's, o novo estilo das lojas do Edifício Avenida Central - muita alimentação, nenhuma livraria. E grandes camelôs de livros, discos e chocolates, todos perto do Olivar. Perto da entrada do metrô Carioca, uma grande movimentação lembra até o Rio de antigamente. 

Pensei em tomar um sundae de morango no Santos Dumont, aproveitando o percurso do VLT, mas eu já carregava comigo um bolinho de pote que comprei com a Carla, na Rua dos Inválidos, então acabei desistindo da operação. O aeroporto é sempre um bom lugar para lanchar. Pena que não tenha livros e discos. Então salto na Cinelândia, o trenzinho fica deserto e a velha praça dos grandes cinemas do passado só tem salvação nas luzes do Amarelinho - o Verdinho acabou, o McDonald's não empolga e a luz da região está muito escassa. 

Caminho para o ponto regulador do ônibus 247. Logo aparece um, guiado por uma motorista loura e isso é uma vitória sobre preconceitos históricos. Somos quatro ou cinco passageiros na fila de embarque. Outro dia mesmo, éramos duas filas de cinquenta pessoas com três ônibus estacionados ali, vigiados do alto pelo charmoso relógio do Edifício Mesbla - agora, Lojas Americanas praticamente fechadas. 

Rapidamente embarcamos, a motorista desce para comprar um saco de pipocas e, antes de sair, conversa com a vendedora. Um passageiro demonstra incômodo com a conversa, está apressado. Ele nem percebe a profundidade do que ela diz: volta e meia, paga do próprio bolso passagens para pessoas carentes indo a hospitais e delegacias. Nesse mundo de gente tão lutadora e pobre, só quem entende a dor do outro é capaz de ajudar. Enfim, o ônibus arranca e para do outro lado do Passeio Público, onde quatro ou cinco garotos estudantes, espertos, sentam juntos e começam a cantar funks populares com excelente afinação, bem na porta de um dos palácios da música brasileira - a Sala Cecília Meirelles, onde já vi grandiosos shows e me arrependo de não ter ido a Chucho Valdés & Gonzalo Rubalcaba, pois tinha o ingresso mas fiquei chateado com minha demissão do emprego. Uma pena. 

A loura dirige bem, o 247 passa rápido pela boemia da Lapa, ainda está cedo e em poucos minutos é minha vez de saltar, no perturbador edifício do antigo IML. Eu queria parabenizar a motorista e lhe dizer de sua boa condução, mas ela tem pressa no trabalho e os poucos passageiros querem ir embora logo. Então desço os degraus com alguma dificuldade devido a dores no pé, penso que uma palavra mal colocada pode ser interpretada como assédio, me calo e desisto. De longe, agradeço.

A visão tétrica do IML fica para trás. Na farmácia, um velhinho conversa com um atendente na porta. É preocupante que o galeto ao lado esteja fechado numa sexta-feira à noite, espero que não tenha falido. 

Em novo corte a noroeste, pessoas em pleno sofrimento aproveitam a marquise do que sobrou do Bar das Quengas. Pelo menos a padaria do outro lado da rua oferece luzes à esquina. 

@p.r.andel

Monday, June 19, 2023

Uma canção para Tom Waits

Quem tem paz? É difícil demais. Nesta noite gelada, de muito sofrimento no Rio, um cobertor pode salvar uma vida. Um chocolate quente. Um prato de boa sopa. Uma roupa digna. Tudo isso falta e deveria ser indigno achar isso normal, mas muitos o fazem por meio de um procurador: Deus. Deus quis assim, Deus quer assado. É uma farsa e uma covardia atribuir a Deus a escrotidão dos seres humanos. Mas seguimos assim. Eu, por exemplo, nunca tive paz por mais de uma semana: sempre houve problemas feito cordas em meu pescoço, os mais diversos, então cheguei aqui meio sem planos ou rumo, perdido na multidão, sem pai nem mãe. Além de tudo eu sou vítima da gordofobia, taquepariu: logo eu, que joguei muita bola na praia, que treinei tanto para a São Silvestre na madrugada, fiquei gordo demais. E sempre que posso eu como mesmo, porque já vi muitos sanduíches e salgados na vida que não pude comer, ora por estar duro, ora por precisar economizar, ora para sustentar minha família. Então agora que eu ando no fio da navalha, se puder como bastante. E daí que fiquei gordo? Ninguém precisa gostar de mim, nem do meu corpo: quem fazia isso foi embora ou já morreu! Mas minha barriga não importa, eu quero falar que ainda sonho com uma semana de paz antes de morrer, um mês, já pensou um ano? A paz. Paz. Ter onde morar, ter comida, algumas roupas razoáveis, os livros, os cds, os botões e um smartphone com wi-fi é o que basta. Tanto faz o lugar: eu nunca mais vou voltar para casa como gostaria, qualquer casa serve. Queria paz. Andar na rua e ver as pessoas em paz, com algum conforto. Entrar na fila do restaurante e fazer meu prato em paz. Comer, pagar, caminhar e passear numa tarde de paz. Admirar respeitosamente a beleza de uma garota que passa em paz. Ver lojas abertas com pessoas trabalhando tranquilamente. Carros passando sem se fecharem como se quisessem trocar socos. As calçadas limpas, sem sofrimento debaixo das marquises. As crianças passando tranquilas. A paz é a grande fortuna e não é preciso ser milionário para tê-la, mas é impossível tê-la passando fome, miséria, dor, doença e violência. A paz chama abraços e sorrisos, tudo ao contrário dessa cidade cabisbaixa, cheia de silêncios e desertos urbanos. Não existe paz com abandono. Não existe paz com falsidade. Quem tem paz? É difícil demais. Nesta noite gelada, de muito sofrimento no Rio, a paz é escassa demais. Hoje um homem chorou sua jovem esposa morta pela polícia. Hoje traficantes e milicianos estupraram, agrediram e mataram. Hoje há bêbados e crackers miseráveis esperando a morte chegar nas ruas e ela, tão filhadaput@, demora a vir para que sofram mais. Hoje eu tenho dor e desespero, mas não há nada a ser feito porque todas as poucas pessoas que eram tão minhas estão longe ou completamente mortas, mortas, mesmo que eu pense nelas o tempo inteiro. Então escrevo para aliviar minha dor infinita, para suportar melhor a estadia neste lugar estranho e hostil, enquanto sonho com o impossível: um ano de paz, algo que nunca tive nem nos melhores momentos de minha vida. E quem tem a verdadeira paz? Quem finge tê-la? Quem confunde paz com felicidade? Esta é uma segunda-feira gelada no Rio, uma cidade de silêncios, desertos urbanos, opressão, miséria e crimes pavorosos. Quem será que se preocupa com isso? Ninguém, meu senhor, é cada um por si e Deus está do lado de quem vai vencer. A cidade não tem paz, é que as pessoas não têm paz nem quando na TV Chaka Khan canta Joni Mitchell. Nem Chico Buarque tem paz. O Fluminense não tem paz, senhor. Imagine os humilhados na linha de trem do Jacarezinho. Imagine o breu profundo da Automóvel Clube toda escura, com um camburão nas sombras. Imagine a garotinha procurando comida na lata de lixo. Há paz ou vivemos uma grande farsa protegida pela nossa escrotidão e egoísmo? Isso é voluntarismo, filhadaput@? Não. É dignidade, caráter, amor ao próximo, tudo que é tão desprezado nessa máquina de moer carne chamada sociedade de consumo. Agora vou descansar. Eu não conheço a paz e a espero, nem que seja pelo gracioso beijo da morte. Tudo é inútil. 

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*Contém citação de "O senhor da guerra", Renato Russo.

**Literatura não precisa ser autobiografia.

***Em vez de escrever "fique bem" ou "se cuida", é mais útil comprar meu livro novo. 

@p.r.andel

Wednesday, June 14, 2023

a tv tá ligada

mal cochilei e acordo em meio às chamas da minha melancolia. a tv tá ligada e está rolando cássia eller. ela é phoda demais e, desde aquele dia infeliz em 2001, nunca mais morreu. tá sempre viva, navegando pelos nossos ouvidos ou berrando deliciosamente na tela, feito agora. estão vou à geladeira, pego minha lata de fanta maracujá bem gelada, um pacotinho de club social e volto para o quarto perseguir a cassia. rio do dia em que ela morreu de medo de mim, rio do chico rindo quando eu lhe contei que a achava phoda demais - ele é um tremendo cantor. o show já está perto do final e volto 30 anos no tempo, quando a vimos cantando no teatrão da UERJ: reboco, calor e rock n' roll. o xuru foi lá e viu o show conosco, 1992. em 1998 também foi maneiro quando ela tocou na apoteose, abrindo para os rolling Stones - que noite legal - o moraes foi com a gente ao show, epocler também, eu, raul, luiz - nunca mais fomos a um show juntos. ligo o ventilador pra refrescar mas logo o quarto fica gelado - marina ia gostar disso - bem gelado. não refresca nada: como você vai refrescar o desespero? desliga. tudo bem. então pensar de 1998 é lembrar 25 anos atrás. eu tinha um amigo phoda que me traiu e outro que ameaçou de morte - nunca mais vi, melhor assim. o ameaçador era um b0sta, disse que eu ia vender bala na rua e eu ia mesmo, porque todo trabalho honesto vale a pena. era um idiota. dane-se. agora é olhar para a tela do celular até morrer, desmaiar, levantar, sonhar com um novo dia, esperar por um milagre e, apesar de tudo, de todos os fdps, de todos os falsos e traidores, pensar "ainda tem gente maneira por aqui". eu posso estar condenado, mas cabe recurso. meu ombro tá doendo.

Monday, June 12, 2023

não. não quero

não quero influenciar ninguém. 

não tenho seguidores. não sou uma seita.

tenho é pessoas que se identificam com meu trabalho. não.

não quero. não quero. 

não quero viralizar nada. não quero nenhum sucesso. só quero escrever minhas coisas em paz. ter um lugar pra morar. ter comida. camisas, bermudas e um par de chinelos. o óculos eu já tenho. 

só quero um punhado de paz que nunca tive, nem nos momentos mais merecidos, e não quero experimentar a morte para saber o que é a paz. 

só quero os cds e livros e os jogos. alguns shows. algumas conversas. 

só quero um punhado do que sobrou do meu amor, não. 

não quero um milhão de amigos. eu não tenho amigos. os meus amigos estão todos mortos. basta os colegas. 

não quero ter razão, eu não quero ter sentido, eu não quero supremacia. 

eu só quero dormir com alguma paz. 

não quero nem sonhar. viver já basta. quem sabe, cinco anos de vida. como disse aquele infeliz, é melhor viver cinco anos a mil do que mil anos a cinco. 

eu não quero pose nem fama nem luxo. só quero um pôr do sol em arraial ou no imbuí. 

eu não quero ternos, nem gravatas, nem voos de primeira classe. quero é andar de novo pela geral do maracanã. colocar meus chinelos de traves, chutar minha bola de borracha e fingir que sou feliz para sempre. 

eu não quero festa nem bagunça nem luxúria nem esbórnia. tudo isso eu já provei. o que tenho agora é um pouco de desespero, nenhuma saída, um copo de água bem gelada e meu amor escrevendo no WhatsApp. e meu amor numa foto no Instagram. e meu amor tão longe que nem o cemitério sabe dizer. 

eu só quero um pouco de paz. não me interessa a ralé que me boicota - ela não tem como me superar. podem fazer o que fizerem, serão sempre minúsculos diante de escritores de verdade - e eu sou um deles, com frases desconexas, versos tortos e sentidos confusos. se até aqui você sentiu um pouco de free jazz, então captou o meu espírito.

eu só quero honrar minha mãe que, meses antes de sua morte, disse ter orgulho de mim porque eu era bonzinho e fazia o bem. quem deixa a mãe orgulhosa não precisa de fama nem fortuna. eu não preciso. 

eu só quero escapar da morte e não virar mendigo. eu só preciso de uma casinha. eu só preciso de alguma ajuda. se alguém investir no meu trabalho, pode obter um bom lucro. não estou à venda, mas disponível para trabalho.

eu sou um brasileiro de quase 55 anos, que sofre muito porque é pobre e vê muita gente sofrendo muito mais, sem água ao lado de gente com carro importado e smartphone. eu sou um brasileiro, logo sofro. eu sou um comunista de gestos cristãos, e não acredito mais em vários colegas de esquerda que falam uma coisa mas fazem outra, outra. 

eu tenho na verdade oito anos de idade e, com meus olhos infantis, choro pelo mundo que vivo. só o que me salva agora é anastácia cantando forró no programa de rolando boldrim - e ele, mesmo morto, continua um fenômeno da nossa grande arte. 

Sobre Serguei

Estava com minha mãe na porta da famosa loja Gabriel Habib, que ficava no Shopping dos Antiquários quando ele nem tinha esse nome. E estava muito feliz com a possibilidade de ganhar um carrinho de plástico, quem sabe um caminhão. 

Eu gostava muito de andar de mãos dadas com a minha mãe. Aquilo me fazia muito bem, e felizmente durou muito tempo. Bem, prestes a entrar na loja, de repente surgiu um homem gigantesco e veio cumprimentá-la. Os dois se abraçaram e então ele veio falar comigo, mas não entendi bem o que ele disse. Então conversou com minha mãe por alguns instantes e depois nos despedimos. 

Todo mundo era gigantesco para mim. Eu tinha seis para sete anos de idade, era pequenininho. Mas aquele homem era diferente. Primeiro, ele tinha o cabelo enorme e olhos muito, muito claros. Segundo, estava todo vestido de preto. Nunca tinha visto nada parecido. 

Quando entramos na Gabriel Habib, minha mãe disse "Paulo, esse é o Serguei". Que nome! Se não tinha visto nada parecido antes, imagine o nome para quem mal saía do Bairro Peixoto. Mas as garotas de Copacabana nos anos 1960 o adoravam, e minha mãe tinha sido uma delas. Não fosse a bitchness, Serguei poderia ter namorado todas as mulheres que quisesse: era considerado o sujeito mais bonito do bairro. 

Passaram-se vários anos, mudamos de casa mas continuávamos em Copacabana. Àquela altura, eu já era um ouvinte de rádio, caçando sons na Fluminense FM, Antena 1, Cidade e Del Rey, quando o gigantesco homem da porta da Gabriel Habib cantava rock a valer. Com vários anos de carreira, Serguei ainda era cult mas já tinha uma estrada na música, lutando para emplacar com sua Banda Cerebelo.

Outros anos e Serguei arrebentou no Rock in Rio. Finalmente tinha conseguido o palco que tanto almejava, uma pena que a vitória seria efêmera por diversos motivos. Desde então, fazia furor em suas aparições midiáticas, geralmente nos programas de entrevistas de Jô Soares. Louco, divertido, hippie e gente boa, Serguei acabou se transformando mais em uma figuraça do que o artista que poderia ter sido. Isso não o impediu de viver o rock intensamente, é apenas a constatação de que o voo merecia uma altitude maior. 

Um belo dia, dá na TV a notícia de que Serguei estava com problemas de grana. Conversei com um colega meu e me veio à mente a coleção de lembranças, além de minha mãe naturalmente. Pensamos em fazer um livro sobre ele, cedendo-lhe o lucro das vendas. E escrevemos. É uma biografia, com a participação de gente boa falando do que representava o cantor. Mas tudo que cercava Serguei dava problema quando o assunto era lucro e, quando o livro estava prestes a sair, ele adoeceu, a impressão ficou sob demanda e depois ele morreu. De toda forma, ficou um registro bonito. Pelo menos é o que dizem os leitores que postaram suas opiniões no site da Amazon, exceto um que considerou o livro fraco. 

Ah, sim: acabei não ganhando o caminhão naquele dia. Não se pode vencer todas. 


Sunday, June 11, 2023

Tempos da UERJ

Entre 1988 e 1996, vivi mais tempo na UERJ do que em minha casa e meus ambientes de trabalho. Foram anos incríveis, que mudaram minha vida para sempre. Não somente pela minha formação acadêmica - até hoje tento entender como consegui aprender aquilo -, mas pela formação de vida, de cidadão, de politização, de tudo. 

Na UERJ, você vive o conceito de universidade como nunca: está na Matemática, sobe uma rampa e lancha com os futuros advogados; desce outra e debate com os futuros engenheiros. Entra no elevador e encontra o camarada da História, a gata da Educação Física, a gataça da Psicologia, os caras maneiros da Física. É tudo junto e misturado. Nos tempos das Olimpíadas era um barato total. 

Num segundo, foi lá que conheci direito David Lynch, Hector Babenco, Tunga, Hemingway, João Antônio, Gerald Thomas, Plínio Marcos, João do Rio, Alan Parker, Tom Waits, Nick Cave, Jack Kerouac, Neil Young, Leonard Cohen, Basquiat e todo o jazz. Sentado no banco da concha, vi Paulinho da Viola, Victor Biglione, Gilberto Gil, Ed Motta, a imortal Cássia Eller. Assisti "Veludo Azul" e "Ironweed". Dei beijos também, faz parte do jogo. 

No Teatrão, ainda inacabado, aplaudi a Cássia também (dois shows dela!), o Ney Matogrosso, a Leila Pinheiro (quase compramos um buquê de flores pra ela, mas as garotas do CA não se conformaram e desistimos), Fernanda Abreu, Vinícius Cantuária, Raphael Rabello e um certo Tom Jobim. 

No auditório, fiquei cara a cara com Luiz Carlos Prestes. Só. 

A proximidade da UERJ me levou aos cinemas da Tijuca, ao Café Palheta (onde celebrei minha colação de grau com a Diniz e a fantástica Conceição), às ruas e aquilo se multiplicou pelo Grajaú e Vila Isabel. Atravessei tardes e noites em suas calçadas. Virei freguês do Capelinha, outrora frequentado por um certo Noel Rosa. 

Meu amor mora ao lado: o Maracanã, aquele velho Maracanã de gente simples e jogos imortais. Descer o elevador com caderno e prancheta, atravessar a rua, comprar o ingresso e entrar no mundo dos sonhos. 

Eu era um garoto pobre e desesperado, queria estudar e conseguir um emprego para ajudar minha família. O governo fazia de tudo para não passar os recursos para a UERJ. Sabotavam tudo. Ficamos nervosos, fomos à Alerj e rolaram as pedras.

Saí do pavilhão como um profissional formado e um jovem homem muito melhor do que entrei. Nunca fui doutrinado por ninguém e nem precisava: a política eu aprendi em casa. 

Um dia tive que sair, mas a UERJ nunca mais saiu de mim e ela está nos meus atos, falas e textos. Ela vive. Todo dia penso em alguma coisa que tem a ver com ela. 

Naquele prédio, conheci jovens homens e mulheres da pesada que carrego comigo até hoje. Vivi situações hilárias e dramas. Aprendi coisas demais. Não saí apenas como um estatístico, mas também como um escritor a vingar mais tarde. 

Talvez aquele tempo seja o melhor livro que ainda não escrevi. 

Friday, June 09, 2023

Vinte metros

Eu tô numa cadeira confortável dentro da famosa Leiteria Mineira, bem no coração da cidade, em frente à estação Carioca do metrô. Hoje é sexta-feira depois do Corpus Christi, tudo está ainda mais esvaziado no Centro porque a Alerj, claro, está fechada - e com ela tem um movimento que lota a Mineira nos almoços. Vim tomar um café da manhã para aguentar o tranco do trabalho: misto quente no pão Petrópolis e Toddy gelado. 

Eu queria falar várias coisas bem legais, mas a verdade é que eu tô bem fudido e triste com um milhão de coisas. A minha pandemia ainda não acabou: continuo isolado do mundo, com trabalho precarizado e com outras bombas prestes a estourar bem no meio da minha cara, enquanto luto há alguns anos contra um novo ímpeto suicida - o que só não aconteceu devido ao meu transtorno mental, porque se eu fosse perfeitamente são, já teria repetido há muito tempo. Mas aqui, na Mineira, eu sou o cliente de sempre e tento me acalmar com um lanche. Não tem quase ninguém no salão, exceto um casal tomando café.

Então resolvo mandar uma mensagem para meu amigo Eric com uma foto da porta da Leiteria, onde normalmente as pessoas formam um caldeirão humano em dias normais, mas hoje não há ninguém. Não, não é verdade, há sim, mas só percebo depois de enviar a foto. No cantinho direito do campo de visão, a uns vinte metros da porta há um símbolo de tudo aquilo que deveríamos lutar todos os dias para corrigir: o sofrimento silencioso de um jovem homem negro, sentado no chão, com o ar tão cansado que parece não ter dormido - e se ele for uma pessoa em situação de rua, é bem possível que não tenha dormido mesmo, muitas vezes por medo de ser incendiado, estuprado ou assassinado. 

Estamos nós dois a vinte metros de distância. O que nos separa é uma porta de vidro. Para ele, eu talvez seja um esquisito burguês gordo, de roupas simplórias demais para estar naquele restaurante tradicional. Nunca vai imaginar o que estou passando, mas eu sei exatamente o sofrimento que ele passa só de vê-lo e isso me rói. Está tudo errado. Num mundo normal, ele estaria comendo um misto quente comigo. Nós vivemos a anormalidade, a indiferença, a escrotidão e fingimos que tudo é normal, mas é exatamente o contrário.

Como o misto devagar, olho para o rapaz, ele está extenuado. Não são onze da manhã. Aquele sofrimento vem de ontem, ou de muito tempo atrás. Num instante, alguém para para falar com ele. Parece um entregador. Será que são amigos? Bebo Toddy, lembro da minha mãe, fico ainda mais sufocado, mas a chance de ter uma refeição deliciosa é uma dádiva neste mundo. Então paro para ouvir dois áudios típicos do descaso, onde tudo se resolve pelo WhatsApp e, prestando atenção na grande fachada de vidro da Leiteria Mineira, ela parece uma grande televisão, a TV da vida real onde no cantinho direito da tela o Brasil está estampado por um jovem homem negro extenuado por algum sofrimento - ou todos. 

Peço a conta, pago, meu garçom querido está com uma tremedeira na mão acima da média, ainda conversamos um pouco antes de eu me levantar. Nem reparei que o casal já tinha ido embora. Vou falar com o rapaz, oferecer alguma ajuda, algum dinheiro, o pouco que tenho, ao contrário de todos os filhos da puta que se dizem meus amigos mas ficam em silêncio diante da minha dor - ou fingem que não sabem de nada. Pobres dos que acreditam no inferno, pois terão muito a pagar. Só preciso romper a barreira da grande porta de vidro e dos vinte metros para encontrar um amigo que não conheço, mas que não deve ser desprezado porque praticamente toda vida é importante. 

Tchau, pessoal, uma ótima sexta. Abro a porta e rompo a barreira. Restam apenas dez metros e um vazio: o jovem foi embora para sofrer noutro lugar. Desapareceu. Ou será que sequer existiu além do meu delírio? Não importa: todas as grandes esquinas do Centro têm jovens homens e mulheres negras, quando não crianças, vivendo em berço esplêndido de sofrimento mas, ainda assim, há quem insista em negar o racismo no país.

O vazio é inevitável. Eu não estendi a mão para alguém que precisava. Não deu tempo. Carrego mais essa dor. Agora é hora de ir para o trabalho, responder as mensagens que importam, talvez ouvir música, ocupar a cabeça com ideias, lutar contra a morte, quem sabe fazer uma fezinha na Loteria e até fingir que terei uma noite de paz, escrevendo, sonhando acordado ou estando longe demais daqui. 

@p.r.andel 

Monday, June 05, 2023

Tempo

Quando volto para meu bairro natal, tudo é familiar mesmo que muitas mudanças tenham ocorrido. 

Eu vejo as lojas que faliram, os personagens locais há muito mortos, os carros que viraram ferro-velho. E lembro das conversas de rua, das jovens meninas agora tão senhoras.

E procuro pelos amigos. Os colegas do futebol. Os escoteiros. A rapaziada do bar. As lojas de discos. Os colégios. Os famosos mendigos. Tudo se foi, embora pareça cedo demais. 

A praia, não. Ela continua onde sempre esteve. Se as pessoas ficaram mais violentas, a natureza não tem culpa. 

Quando ando pelas ruas de meu bairro natal, procuro um passado que já não existe a não ser nas minhas lembranças - e elas são muitas, muitas, boas e más, às vezes felizes ou muito tristes, tristes demais. De toda forma, sempre volto: é melhor até viver grandes derrotas do que empates sem emoção. 

Meu bairro era minha casa. Me expulsaram de lá injustamente. Sempre volto como um visitante, um turista, alguém de fora indevidamente. Cumpro uma pena: sou um estrangeiro em minha própria terra. Então procuro e procuro, é meu último refúgio. Vivo e revivo os escombros de minha memória. 

Sunday, June 04, 2023

O delicado som do trovão

Tenho tantos álbuns de tantos artistas que fico tentando entender por que só comprei este hoje. Sou um fã da banda desde sempre. 

Talvez tenha sido porque, quando pude colecionar CDs, "Delicate" não tenha sido lançado em massa. 

Ou porque o disco me leva a caminhos muito poderosos. Ele era a trilha sonora da casa de Fred, que foi uma das minhas faculdades. Uma experiência tão marcante para mim que escrevi um livro inteiro a respeito, mas desisti de lançá-lo porque não o considerei à altura da minha capacidade e nem do velho apartamento que abraçou tantas e tantas histórias nossas. 

Futebol, televisão, livros, discos, shows, plastimodelismo, revistas Playboy, jogo de botão, acampamentos escoteiros, discotecas, risos, lágrimas, conversas, amores, decepções, ódios, vinho, cocaína, cigarros, Coca-Cola, pasta Alhouette de ervas finas, LSD, gatas enlouquecidas, gatas do metal, desfiles de escolas de samba, filmes alternativos. No meio disso tudo, meus amigos. Todos nós encarando o que era ser jovem no meio dos anos 1980, saindo da ditadura, não achando nenhum sinal de emprego, não tendo um tostão e tentando sobreviver. 

Fred não gostava de sair. A casa ficava livre. Sua mãe trabalhava de meio dia à meia noite. Íamos para lá todo dia. 

O álbum é a retomada mundial do Pink Floyd, já sem Roger Waters. Fizeram o show em Veneza que literalmente quebrou tudo. A guitarra de David Gilmour estava condenada à eternidade. E tinha a maravilhosa Rachel Fury, a mais gata e enigmática vocalista de apoio da história do rock. 

Gilmour solava e dávamos as cartas do mau-mau na mesa da sala. Praticamente todo dia. Chegava o Luiz, aumentavam as gargalhadas e as tensões. O pó rolava. Eu não gostava porque via tristeza nos meus amigos. Fred não ficava bem, Luiz também não. Depois descíamos para comprar o lanche na padaria. 

Muitos anos depois, o Pink Floyd tocou ao vivo uma última vez, no Live 8 de 2005. Vi na TV, passei o dia em frente à tela, foi meu recorde. Fred estava distante, mas nos reaproximaríamos como nunca em 2007 e 2008, após a morte de meus pais. Parecia um recomeço depois de ficarmos afastados entre 1992 e 2005. Pena que durou pouco: em 2009 ele se foi. 

Olho para a capa do disco e o título parece apropriado demais para aqueles anos incríveis da juventude. Era a leveza do som do trovão. Sozinho, volto no tempo e revejo meus grandes camaradas. Fred e Luiz estão mortos, mas apenas para a burocracia: eles estão por perto, ora rindo, ora brincando, ora recuperando os melhores anos de nossas vidas. 


(2020)

Saturday, June 03, 2023

Estão rolando os dados

Em alguma noite de 1975, minha mãe me chamou para um jogo de dados. A gente morava num prédio baixo da rua Santa Clara, que já não existe mais. 

Fomos para a saleta e preparamos a mesinha de jogo. Uma folha de papel, dois dados e um copinho de couro, que tenho até hoje. Cada um colocava seu dado no copo e jogava. Anotávamos os pontos na folha. Jogando, jogando, jogando. Era muito divertido. Quem ganhava uma rodada, comemorava. Cinco, três, você ganhou. Não lembro o fim da contagem, mas lembro que minha mãe ganhou e ficou contente. Como a conta passou de quinhentos e um dado tem seis pontos no máximo, jogamos pelo menos oitenta e tantas vezes. 

Talvez tenha sido minha experiência com jogos de números, talvez aquilo tenha me marcado para sempre. Era apenas uma brincadeira feliz com minha amada mãe, mas aquela noite me despertou para algo que nunca mais parei de fazer: cálculos. Quase vinte anos depois daquela brincadeira, eu virei um calculista de verdade, com diploma e tudo. No meio do caminho, fiquei 28 anos fazendo contas em escritórios. Faça chuva ou faça sol, contas. Na alegria ou na tristeza, contas. No sufoco desesperador, contas. É engraçado que me conheçam mais como escritor do que calculista - sim, escrevi muita coisa, mas calculei mais ainda. Bom, escrevendo você pode deixar pessoas felizes e até dar autógrafos; as contas nem sempre têm esse poder.

Daqui a algum tempo aquele dia do jogo de dados vai fazer 50 anos. Eu lembro dele, lembro muito agora. Lembro do apartamento, que era bem grande e confortável. Lembro da minha mãe, que faz tanta falta o tempo inteiro de todos os dias, sem alívio. Uma simples brincadeira que, por muitos e muitos anos, determinou os rumos da minha vida. 

Ultimamente tenho me dedicado aos estudos de combinação da Lotofácil. São mais de três milhões de possibilidades, mas sigo tentando. Já foram catorze pontos duas vezes, treze umas dez, doze e onze já perdi a conta. Está batendo na trave. Já, já, a bola vai entrar. Não é só o dinheiro ou a chance de mudar de vida, até mesmo salvá-la, mas a diversão de tentar descobrir a sequência mágica. 

Pouco tempo depois do jogo com minha mãe, a minha vida virou de cabeça pra baixo. Mudamos de casa, eu saí da escola, fiquei sem estudar, voltei pro colégio no ano seguinte e passei de série - estudei por minha conta. Deixei mais de um professor assustado. Eu não fiz a primeira série nem a terceira, e a segunda eu fiz num bimestre só. Da quarta em diante é que a coisa mais ou menos estabilizou. 

Em algum momento de 1988, na faculdade, um professor escreveu no quadro um exercício de probabilidade das faces de um dado. No primeiro momento sorri, mas logo em seguida me veio uma grande emoção ao lembrar do jogo com a mãe, a mesma de agora quando tudo aquilo parece tão longe, mas na verdade é muito presente. 

Logo a seguir, escreveu um grande poeta: "ainda estão rolando os dados, porque o tempo não para". Tome mais trinta e cinco anos e aqui estamos, tentando entender o mundo, buscando esmolas de alegria e tentando respirar. 

Ah, minha mãe.

Monday, May 29, 2023

A última segunda-feira de maio

Chove. 

Começa a semana e chove. É o fim de maio que se avizinha numa segunda-feira cinzenta. A última segunda-feira de maio.

Há quem possa ficar em casa e também quem fique por não ter um níquel para ir à rua. O desemprego é um drama. 

Com a chuva tudo fica mais difícil. As pessoas se esbarram nas calçadas, os ônibus e trens ficam ainda mais alinhados, o trânsito se complica e, claro, logo se vê bueiros entupidos e pequenos alagamentos. Um deles é famoso no Centro por já existir há décadas, na esquina da Rua dos Inválidos com Henrique Valadares: basta cinco minutos de chuva razoável e o caos se instala. 

E naturalmente a chuva esvazia ainda mais as ruas já abandonadas do Centro. Fala-se de dez mil unidades fechadas entre salas e lojas, e aí pode se estimar cerca de cinquenta a sessenta mil pessoas, talvez cem mil pessoas a menos em circulação na região. Dois Maracanãs cheios. Por outro lado, muito se fala sobre o retrofit de prédios antigos, mas grande parte deles só têm um banheiro por andar - como fica a questão hidráulica para renovar as edificações? 

Na televisão da vitrine da loja de eletrodomésticos, a comoção pelo terrível assassinato do ator Jeff Machado, encontrado dentro de um baú concretado a dois metros de profundidade numa casa em Campo Grande. Novas informações parecem encaminhar o desfecho das investigações. E também pelo não menos doloroso assassinato de Lindaci Carvalho, envenenada com bombons por motivo de ciúmes. Cada vez mais a perversidade aumenta. 

Uma boa notícia: a cassação de Marcelo Crivella pela Justiça Eleitoral, tornando-se inelegível por oito anos por abuso de poder econômico. Crivella foi, sem dúvida, o pior prefeito da cidade do Rio de Janeiro em todos os tempos.

O Rio entra em estágio de alerta por causa do tempo. 

Os pontos de ônibus no Centro estão esvaziados. Há poucos veículos em circulação. 

Em compensação, as latas de lixo são o alvo dos desesperados catadores e famintos. É o que resta. 

Do outro lado da região, negócios imobiliários vão de vento em popa. A gentrificação vem com toda força e só os mais abobados terão vez. 

Completamente alheios aos acontecimentos, dois garotos que não se conhecem cruzam um o caminho do outro na Rio Branco, perto da Associação dos Empregados no Comércio. Um deles, descalço na chuva e com a camisa de um time de futebol estrangeiro, carrega uma caixa de Mentos para vender aos transeuntes. O outro, com um par de tênis humílimos, traz à mão uma caixa de engraxate. Ao mesmo tempo em que são desconhecidos, eles são tão semelhantes: dois garotos que deveriam estar estudando e brincando, mas ali estão lutando pela sobrevivência num país tão desigual que chega a ser desumano. 

Perto dali, na Padaria Boulos, alguns fregueses tomam café. As pessoas estão cabisbaixas, silenciosas. O frio traz certa melancolia mas não é só ele: o cenário carioca ajuda na depressão. Há mesas disponíveis. Numa delas, um senhor de talvez cinquenta e poucos anos deixa escorrer diversas lágrimas enquanto sorve uma caneca de café com leite. Talvez seja um homem doente ou solitário, quem sabe faminto ou à beira do suicídio? Quem sabe não seja nada disso. Ninguém sabe. 

Chove e o coração da cidade não abraça os batalhões de estranhos, que vêm e vão pelas calçadas cheias de indiferença e abandono. 

Ninguém liga.