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Friday, May 19, 2006

Salve(m) São Paulo...

São Paulo, a terra da garoa, com sua permanente nuvem cinzenta sobre os arranha-céus na vista de quem chega ao garboso estádio do Canindé, nas imediações da Rodoviária.

São Paulo, que recebe gente do Brasil inteiro sob a égide da fraternidade para alocar ora nos trabalho braçais, ora nas favelas horizontais e, se ainda sobrar mais alguém, nos presídios ou casas de detenção, isso se nenhum Fleury mandar passar fogo no melhor estilo Bushiano - desde que os traficantes não ordenem chacinas primeiramente.

São Paulo, das “mina” e dos “mano”, sempre na necessidade impávida de se criar onda explorando o melhor da língua mal-dita e mal-escrita.

São Paulo, sempre com a inflamada necessidade de posicionar-se perante o Brasil Na condição de Estado-Maior por força do dinheiro, como se ele fosse capaz de comprar tradição, cultura, classe e beleza natural.

São Paulo que tenta impor ao Brasil a diversão amena da vida caótica em shopping centers, sem árvores, sem mar, sem gente falando de poesia em beleza em mesa de bar. Pelo caminho, tome Daniel, Bruno e Marrone, Chitõezinhos, tudo no volume máximo porque se é pra esculhambar o ouvido, que se faça de uma vez.

São Paulo das meninas bonitas que não sorriem em seus ônibus e metropolitanos, suas ruas e grandes avenidas, cheias de gente orgulhosa do dinheiro que não tem mas que é incapaz de distinguir o próprio MASP (este sim, um oásis perdido em pleno deserto da cafonice) de um observatório da NASA.

São Paulo, com a face calhorda de Paulo Maluf, defendido por Dona Hebe Camargo às segundas-feiras na tevê, representando o que há de pior e mais atrasado na vida brasileira: a defesa da improbidade, o chacoalhar de jóias entre caros vestidos e paetês prateados misturados ao abóbora.

São Paulo, que ignora seu Arrigo Barnabé mas cultua seu Netinho. Que abandonou Itamar Assumpção mas enaltece Vavá. São Paulo, que não assiste a TV Cultura mas enche de brios o jabá dos cantores no Raul Gil.

Um dia, houve uma São Paulo grande e digna. A São Paulo de Adoniram Barbosa, de Noite Ilustrada, de Mário de Andrade, de Haroldo de Campos, de Zé Celso Martinez Corrêa, de Plínio Marcos, de Paulinho Nogueira, de Paulo Vanzolini. Esta, tinha futuro.

Ocorreu que os paulistanos estavam muito ocupados com seus jogos de futebol às onze da manhã, seus maiôs obsoletos perfilados na Rua Javari, sua ojeriza aos “baianos”, suas horas intermináveis com o campeonato mundial de lavegem de viaturas particulares, o Domingo Legal com as esquisitices homoeróticas de Gugu Liberato – cujo nome já é um trocadilho para tal. Por isso e muito, muito mais, não prestaram atenção ao redor do mundo e perderam o fio.

Acreditaram na bobagem de que tendo dinheiro, o resto se resolve. Charme não se vende no Morumbi Shopping, não se transfere nem personalidade nem elegância de uma hora para outra num banco qualquer da Avenida Paulista, um desses bancos que, volta e meia, lemos nos jornais como “quebrados”.

Simplesmente, não dá.

O dinheiro é muito importante para muitas coisas, mas para outras é de uma inutilidade enorme. Presença, beleza, poesia, charme, charme, como comprar isso? Ou você tem ou aplaude a quem tem, isso se não tiver eu teu coração um poço de mágoas – que dá câncer.

As pessoas caminhando nas ruas apressadamente, sem sorriso, tensas, ora fingindo estarem com pressa de algo muito importante a fazer, como se pelas ruas, esquinas e vielas também não caminhasse a desesperança de milhões de desempregados.

A tensão dos rostos tem motivos.

Olhar para o lado e saber que nem 450 anos e nem todo o dinheiro do mundo compram a sutileza, a categoria.

Escassez de berço, estampa, carisma.

Mas nem tudo está perdido.

Taí a boa e velha ponte aérea que não nos deixa mentir.

Cinqüenta minutos de avião que valem uma vida.

Ressalte-se que não se pode ouvir Chitãozinho, Giovanni ou Salgadinho. Pra chegar no Rio, ouve-se de Tom Jobim pra cima, já que o céu talvez seja limite, pois.

3 comments:

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