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Friday, May 19, 2006

Conversa de botequim

Houve uma quarta-feira de azul turvo, aquela nem tão recente em que nós, sempre nós, em nosso refúgio fincado na mesa de bar, havíamos elegido para desafogar mazelas, culpas, medos e até sorrisos, perante a vida soturna que levamos na condição de brasileiros. Nós, brasileiros e pensativos, brasileiros e pobres, brasileiros e com dificuldades, brasileiros alegres.

Nossa mesa oficial era no segundo andar do bar, tanto por ser mais perto dos banheiros quanto por permitir o doce balanço das jovens estudantes de Direito, que iam e vinham a todo instante. Nada provocativo ou insinuante por parte delas, nenhuma abordagem de nossa parte, apenas vistas e curvas encontrando-se no ar. Nada que causasse fúria em alguma namorada, esposa ou equivalente masculino. Ao chegarem os drinques, celebramos vida, saúde, gentes e, cada um intimamente, o fato de podermos ainda brindar vivos feito como se estivéssemos numa taberna de outros séculos e lugares. Brindes e brindes.

Por mais que tenhamos ao longo destes anos forçado a máxima atualização possível, procurando sempre viver de presente e não de passado, em eventos desta natureza sempre acontece alguma louvação a nostalgias, saudades, coisas que ficaram para trás e não necessariamente precisavam ter sido perdidas para o sempre, com exceção das memórias. Daí que alguém recordou dos “trotes”, talvez o Claudionor. Sim, os trotes. Hoje em dia, vem um noticiário qualquer e mostra que, numa festinha de “trote”, alguém morreu ou aconteceu algum estupro. Nossas festas eram de diversão pura, tranqüila e serena. É claro que ninguém gosta de ser pintado com tinta verde e rosa se não for Mangueira de coração ou punk de atitude; assim, compreendo eventuais rusgas e desconfortos de outrora. Agora, bater, matar, estuprar? Inviável aos nossos corações. No máximo, beijar alguma garota não tão abençoada pelo esplendor da natureza, tudo bem escondido – e assim, evitar seis meses de gozações dos colegas. Amigos, o mundo mudou. Depois, com a justa função, em algumas instituições de ensinos, criaram o “trote ecológico”, o “trote social” e mais uma saraivada – outro na mesa, talvez o Zé, falou disso como uma bonita atitude para tirar a “lama” dos veteranos das faculdades mas, por outro lado, soava como uma clara brecha para mostrar que nós, brasileiros e trabalhadores, brasileiros e pobres, dependemos sempre de um esforço ou indicação para agir em prol do “ecológico” ou “social”. Dito e feito.

E o dinheiro? Ah, o dinheiro. Quantos tempos um dia empenhamos em estudos, livros, calculadoras, provas e papéis almaço? Tudo pelo bendito dinheiro, o dinheiro de comprar um apartamento, de pagar um veraneio, de trocar uma tevê antiga, as responsabilidades que aumentam à medida em que “amadurecemos” e nos tornamos “adultos”. Dinheiro para juntar, dinheiro para casar, e mais dinheiro ainda para se separar. O Paulo lembrou de que este mundo onde vivemos não era o que nos prometeram um dia, cheio de parcelamentos automáticos em contas de banco, prestações com juros sempre superiores do que as registradas nas máquinas de somar, produtos cada vez menores nas prateleiras dos supermercados - disfarçando a velha hipocrisia de “não” se aumentar preço mas “adaptar” as quantidades. Quando começamos a estudar, queríamos também dinheiro, mas satisfação também. Não éramos um bando de lunáticos capitalistas sonhando com Wall Street; bastava-nos a construção de um modesto patrimônio para viver, ajudar os pais, ter algum filho e uma esposa amorosa. Falavam que era “importante ter faculdade”, poderia ser garantia de um bom emprego – o que, infelizmente, todos os institutos de pesquisas governamentais ou privados sabem desmentir com muita facilidade. Nós, garotos, brasileiros e quase estudiosos, brasileiros e pobres, quando chegamos à nossa casa de estudos, mal tínhamos um tostão furado nos bolsos. Um conhecido nosso comprou um jaleco de escola técnica para poder ir de ônibus diariamente sem o pesado fardo do preço abusivo das passagens, o que deu certo e eu apoiei, digamos, como uma “contravenção positiva”, se me permitem a licença. Éramos uns pobretões, mas ríamos de tudo, divertíamo-nos a valer e quase estudávamos, tudo coisa de outro dia e, de repente, ali estávamos nós a divagar sobre a importância daqueles tais dinheiros. Continuamos pobretões? De certa forma, sim.

Do lado de fora, o céu de azul enegrecido com suspeita de chuva a caminho dava um tom de Gotham City ao centro da cidade, com seus prédios gigantescos, suas gentes apressadas, seus meios e fins.

Pedimos a pizza de sempre, grande e barata, cheia de queijo e rodelas de tomates. O Zé bradou sobre futebol, contra o Flamengo, contra a saudável “ditadura da maioria”, que é mesmo verdadeira quando se trata do esporte bretão. O Flamengo tem mais torcedores por todo o Brasil; conseqüentemente, tem mais simpatizantes entre jornalistas esportivos e, em certos casos, a paixão supera a razão, criando times fantásticos mediante contratações improváveis e revelações juvenis inexistentes. Eu entendi, mas achei que não era coisa do Flamengo, não, e sim do Brasil. Creio que alguns de nós, brasileiros e sofridos, brasileiros e enganados, somos sempre movidos a vãs esperanças: a política, a faculdade que pode garantir um bom emprego, o Flamengo. É um conjunto, não um fato isolado. No meio do caminho, gritamos sobre gols roubados, cartolas funestos e campeonatos onde impera a bagunça – ou seja, amenidades brasileiras.

O Márcio contou da experiência que teve ao se apaixonar por uma garota seguidora do Evangelho. Desaprovava por completo as normas da igreja que passou a freqüentar por intervenção da namorada, mas estava num dilema: ou continuava o romance que tanto lhe deixava feliz, ou terminava de vez. A condição da amada e dos pais era ser membro da mesma igreja. Terrível. Eu pensei com meus botões de plástico, que não morrem, porque o amor tem que enfrentar revezes absurdos, beirando o universo kafkiano. E nós, na velha mesa, vivendo hoje os momentos felizes de ontem, contando algumas lamúrias do agora e, feito quase todos nessa terra, desejando remoçar quinze anos, mais ou menos. Foi bom saber que Márcio é forte, é lúcido e saberá lidar com essa intempérie conforme o passar do tempo; que o Deus dele permita-lhe conduzir sua fé sem abdicar de seu amor.

Amor?

Sim, o amor aconteceu. Breve e efêmero. Amor de vista. De repente, pela escada do bar, subiu uma morena. Mas não era uma morena qualquer, daquelas que nós, brasileiros e chauvinistas, brasileiros e machos, por vezes apreciamos em rápido olhar numa rua, numa fila ou banca de jornais. Era uma morena estonteante, alucinante, alucinógena. Branca de pele, preta de vestido, mais preto de olhos e óculos. Lábios visivelmente colossais em batom róseo, altura em torno de metro e setenta, palpito. Calamo-nos. Fomos silenciosos por um instante, um silêncio de amém, de vivacidade e típico do visitante de museu quando se depara com a obra de arte.

Uma belezoca.

Não teve jeito. Com aquela bela mulher de seus vinte e pouquíssimos anos adoçando as vistas, um soco golpeou nossos crânios e balançou nossas cabeças, fazendo-nos voltar no tempo, o tempo de nossas divas da academia. É, “amadurecemos” mesmo. Vários nomes. Carla “Coelhinha”, Valéria, Lavínia, Luciene, Ana Paula. Claudionor fez uma pergunta que me fez pensar, algo sobre quem seria os jovens enfeitiçados de hoje pela morena que subiu a escada, assim como fomos um dia pelas divas dos tempos idos? Imaginei que, exceto um ou outro de gosto à frente de seu tempo, poderiam ser todos. Pedimos mais chope e pães de alho, para deleite de Márcio e desespero de Zé. Na hora do oitavo brinde, a moça voltou ao salão, rumo à descida da escada. Nunca é demais ressaltar que se tratava de um colosso, com o devido respeito. Brindamos e suspiramos, brindamos e fitamos, brindamos e a admiramos enquanto ela desceu para o sempre. A posteriori, mergulhamos em vários assuntos: texto, museus, política, cinema, puteiros. Como em toda conversa excelente, não chegamos à qualquer conclusão unânime que fosse.

O Paulo, preocupado com o andar da hora, confirmou que tudo estava maravilhoso e que poderíamos ficar ali bebericando o tempo que fosse preciso, não houvessem compromissos de todas as naturezas possíveis para cada um de nós: pais, filhos, mulheres, amantes, chefes, jogos na tevê, noticiários pessimistas, filmes baratos. Portanto, pedir a conta era preciso, o pior momento de uma saudável noite de bar. Concordamos e aclamamos, Severino desceu e nos garantiu mais quinze minutos de conversa fiada. Tudo o que é bom passa rápido, a papeleta chegou. Colocamos os tostões à mesa, Álvaro fez câmbio com os dinheiros em espécie, um total de cento e pouco reais, mais de cinqüenta dólares. Rimos e rimos. Nos arredores, nenhuma morena em especial cruzando o salão. Chegou a hora da nossa descida pela escada, assim o fizemos e assim chegamos à rua. Do lado de fora, mesas brancas de plástico que não morre, todas ocupadas por um batalhão de estranhos: executivos, estudantes, profissionais, uma Babilônia humana e divertida, gentes buscando sexo, gentes buscando amizade, gentes à procura do nada. Despedimo-nos fraternalmente, especulando um novo encontro; alguns indo para um lado da cidade, outros na direção oposta.

Eu segui com meu grupo e desci a São José no sentido Rio Branco; de repente, ouvindo algumas baboseiras, olhei para o alto e vi a lua cheia, límpida, sem as ameaçadoras nuvens de chuva, impecavelmente em contraste com o céu de Gotham City. Não localizei o bat-sinal e muito menos o Batman. Havia, sim, um silêncio de mistério, encravado nesta pontinha do Brasil, cheia de brasileiros estudiosos e pobres, honestos e pobres, envolvendo o belo luar e me chamando a atenção para algumas coisas: a vida é breve, a alegria é pouca e rápida, o melhor a fazer é viver cada segundo e, se possível, na companhia de grandes amigos numa mesa minúscula de bar, entre goles e tragos - nem que seja para se lembrar de um passado simpático que, de certa forma, é o eterno presente em que vivemos.

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