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Friday, May 19, 2006

Os verões do Leme

É bonito ver o jovem casalzinho no banco de praia, aos pés da orla e perto daquele Forte inesquecível. Crianças ainda, devem estar perto dos seus quinze, dezesseis anos - a mesma idade que eu tinha quando voltava dali diariamente para minha querida casa, onde um delicioso almoço preparado por minha mãe me esperava. Jogava bola no Forte, corria, brincava e ria; depois ganhava até um beijo de Vera, o que bastava para voltar feliz pelo calçadão, mesmo que perto dos quarenta graus a enfrentar com a companhia de um mísero - e delicioso - picolé "Dragão Chinês". Depois tinha o danado do colégio, mas só de noite, bem mais tarde e com tempo limitado: afinal, a rodada de carteado no Gordon era vital e não podia esperar. Sabores de adolescência.

Não afasto meu olhar daquele amor.

Bonito o carinho daqueles jovens, com jeito de segundo grau e cursinho de inglês, em plena vivência do melhor de suas vidas sob a tarde do Leme. Amor de beira-mar, de chinelos e bermudas, de camisetas e pele beijada de sol. Bonito é o que o menino deve dizer, ao mesmo tempo em que toca uma das mãos da bela moça; é de se perceber que o texto dito suavemente, ao pé do ouvido, provoca-lhe um sorriso arrebatador, daqueles que só entendem os que já viveram as nuances de uma paixão. A outra mão do rapaz carrega um pequeno embrulho, um suposto presente trazido especialmente para aquele instante de paz. Instante de felicidade, onde rostos encostam-se delicadamente como se, na suavidade do toque, fossem capazes de tornar-se como um só. As mochilas ao lado servem de testemunhas fraternas, de companheiras sagazes que apóiam e apreciam aquele amor - que não precisa durar para sempre afim de alcançar a eternidade e que, se também não durar, já terá valido por toda uma vida permanentemente guardada num canto do coração. Com o amor que testemunho, basta-me ficar perdido pela vista de um céu límpido, em perfeita harmonia com o brilho do sol vespertino; poucos são os que ali aproveitam esta hora, preferindo resguardar-se para os encantos da noite que há de se aproximar. Mas esperar o escurecer é bobagem perante a paz que emana do abraço daquele casal de namorados, em próxima sinceridade e íntima admiração.

Beijam-se. Riem. Vivem o que lhes cabe naquela bela imagem emoldurada em minha vista do Atlântico. São jovens: não precisam discutir relações, planejar racionamentos, evitar viagens, pagar prestações, economizar em cartões. Tampouco é necessário pensar em ciúmes, em traições baratas, em distâncias ao lado, nada disso: a eles basta o roçar de rostos, o sorriso, o entrelaçar de mãos, o aconchego que um corpo propicia ao outro servindo-lhe de poltrona para apreciar o mar e o caminho dos pescadores rumo aos azuis do horizonte. Quem sabe se o amor há de prorrogar-se num cinema que ainda vive esperançoso em Copacabana? Quem sabe se o casal rumará ainda em tempo para a discoteca? Pode ser que visitem os amigos para uma jogatina de tabuleiros antigos ou distraiam-se numa partida de vôlei noturno. E daí? Seja qual for, o evento é o que menos interessa; tudo é pouco importante durante a vivência daquela paixão numa tarde do Leme, o mundo está de férias perto daquela linda menina loura que beija ardentemente o garoto moreno - e não somente com seus lábios de sonho, mas também com o olhar cintilante. Um olhar de querer bem, de querer ao lado, de espantar os males para respirar desejos e imaginar suaves carinhos. Tudo como ordena um doce amor num cantinho do litoral, abençoado por uma rosa e tendo o sol como guia do horizonte, que poderia abençoar qualquer casal em Arraial do Cabo, em Porto Seguro ou na Prainha mas que, pela magia daquele momento saboroso, é coroado pelo eterno mar de Copacabana.

É bonito ver o casalzinho no esplendor da juventude num intenso amor à beira-mar. E são bonitos os verões do Leme, sempre, causando-me a doce e fugaz ilusão de que a vida é sempre bela.


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