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Friday, May 19, 2006

O supersônico

Um dia comum, uma manhã comum, eu e minha bola oficial de futebol em jornada pela Figueiredo Magalhães, uma passada na casa de Buja para convidá-lo a comparecer ao match – que nada mais seria do que dois garotos em ação esportiva, um chutando a gol e outro defendendo, com direito a revezamento.

Entrei na portaria e lá estava Aílton, o porteiro do edifício de Buja, irmão de Agnaldo, ex-porteiro de meu prédio. Era a única relação de nações amigas no caso: Aílton vivia nos perseguindo no condomínio, ora por causa das peladas de futebol em pleno corredor, ora porque uma ou outra amiga brincava conosco na escada sem a distância regulamentar. Anos depois, passamos a compreender seu honrado dever de repreensão ao nosso arsenal de molecagens. O elevador demorava uma eternidade para descer naquele dia e, sabe-se lá porque, Aílton saiu do prédio, talvez tivesse ido buscar um café; enquanto isso, eu tornava-me ali um terrorista em potencial, tanto quanto qualquer garoto de quatorze anos que tenha uma bola de futebol ao alcance, para desespero de qualquer objeto quebrável como espelhos, jarras e coisas mais. Talvez alguém por perto estivesse me vigiando e, por isso, mantive-me imóvel enquanto o elevador insistentemente continuava parado no distante décimo andar. E, subitamente, o inferno chegou:

“- TREAAAAAAAAAAAAAAAAAFFFFFFFFHHHHHSSSSSSSSHHHHHH!”

Eu imóvel, nem respirava. Nada de errado à minha frente, imóveis estavam o espelho e as duas portas de elevador. À esquerda, a portaria principal intacta. Havia algo destruído ali, mas eu nem tinha coragem de me mexer: a bola oficial estava em minhas mãos e eu não tinha feito nada, não tinha quebrado nada, não chutei nada. Só pensei por alguns segundos na vã justiça dos homens que, com absoluta certeza, me condenaria pela quebra de algo certamente feito de vidro. Lágrimas vieram ao meu coração: não ia ter futebol, voltaria para casa triste e teria que pedir dinheiro à minha sacrificada mãe, tudo seria cruel. Sei de um estrondo e algo que se quebrou em seguida, nada mais.

Virei para a esquerda. Era ela: a porta dos fundos, estilhaçada por nada, de cima a baixo; sem um toque, pancada ou chute, simplesmente nada. E eu ali sozinho, único culpado sem álibi de nada.

Certamente pálido, mirei o que restou da porta. E, para minha surpresa, quem já tinha dado a volta no prédio e estava ali constatando a desgraça era Aílton, o porteiro, o algoz de todos nós que, um dia, naquele prédio, insistimos em viver como garotos de nosso tempo. Mais surpreendentemente ainda, tinha visto tudo o que aconteceu e – pasmem – era testemunha de que eu não tinha feito nada!

“- Não se preocupe, Paulinho, aconteceu alguma coisa que estraçalhou o vidro, outras lojas aqui estão com vidros quebrados, Deus nos livre.”

Abandonei um quilo de suor frio na portaria e, ainda quase trêmulo, peguei o elevador rumo à casa de Buja. Lá chegando, encontrei-o vendo televisão e o noticiário indicava que aviões tinham quebrado a barreira do som no Rio de Janeiro, coisa da guerra das Malvinas – um confronto pra lá de esquisito em tudo o que se possa dele analisar. Em suma, com a quebra da barreira, não ficou vidro sobre vidro na cidade – e daí ocorreu, como em tantos outros lugares, a destruição da porta de vidro na portaria.

Fiquei sem vontade de ir para a praia. Buja entendeu naturalmente e ficamos na janela da sala espiando o que ocorria na rua, tudo enquanto jogávamos conversa fora: não faltavam vizinhos em outras janelas também, alguns esperando o apocalipse, outros uma chuva de dinheiro. Era apenas guerra, senhores, guerra pura e barata. Guerra incapaz de fazer entender a aflição de um menino quando pode ser acusado da quebra de um vidro na rua, ou mesmo da necessidade de chegada ao campo de futebol e exercer a “pelada” na sua essência, na melhor virtude.

Veio a discreta tardinha, carente de sol mas ainda que repleta de brisa, desci sem Buja mas acompanhado de minha bola oficial. Enquanto isso, o mundo de Copacabana respirava guerra. Homens e mulheres atônitos nada entendiam, eu pouco sabia: falar em guerra e conflitos militares não era o forte nos colégios. Perdi o futebol do dia, mas resolvi ir à praia só para ver o mar de perto; afinal, quem saberia dizer se por lá haveria uma Vera ou uma Isaura só para mim? Desci a rua impávido, sereno, ciente da minha imponência de atleta do esporte bretão, tendo em meu braço o escorte da “oficial dente-de-leite”. Senti-me livre, sem ter feito mal a ninguém, aliviado por não ter destruído a portaria sem querer.

E, de mais a mais, um menino a caminho da praia com uma bola de futebol não podia mesmo ser ameaça para ninguém. Perigo mesmo estava nos homens que matavam e morriam logo ali ao lado, carregando mazelas dos poderosos na fria Antártica.







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