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Monday, May 22, 2006

O invencível verão

Sobraram ainda, creio, alguns momentos a serem usados nos próximos vinte dias, bem como alguns últimos momentos divertidos. Mas o verão começa a dar o ar de sua despedida, começa a dizer um "até breve" que não chega a soar como "adeus". As estações são assim, passam velozes em nossas vidas e, se não estamos devidamente atentos, podem escapar pelos dedos. Todas têm o seu importante valor; contudo, o verão é bem lembrado pelo seu brilho, pela sua perseverança, pelo azul sorridente de seus dias.

Imagino e espero que o verão tenha sido bom para você. Para nós, não foi intenso como outros; para mim, foi pouco e escasso. O verdadeiro verão deve ter crianças nas praças sem grades, moças lindas a desfilar nas orlas claras, gente feliz nas tabernas entre conversas fiadas e chopes dourados da felicidade. É preciso ver as pipas avoarem em ventos ligeiros dos bairros da Central. Urge que espalhem a fraternidade, ternura, carinho e esperança pelas esquinas, calçadas e travessas, pelas alamedas e vielas. As vilas e os condomínios ficam mais próximos do que o normal. Os poetas devem deixar fluir a sua verve, tão verve quanto dos escultores e pintores, dos homens de cinema e teatro, dos artistas do futebol. O bom verão toma emprestadas as flores da primavera e as refresca com alguns dias do outono, tudo para temperar o amor que surge de um beijo à beira-mar, no portão da casa ou na piscina. Esperamos do verão o rigor da paixão, a disciplina do caráter, a firmeza do excelente humor, o clarão da luz que acompanha os homens de bem, tudo temperado pelo balanço que os pianistas impregnam o samba - sim, o samba bom, o samba que aquece os corações perfeitos.

O verão, este que já despede-se, foi escasso para mim. Não tenho mais tempo para viver intensamente as coisas que disse antes nestas linhas. Não tenho mais tempo para as pipas nem para a verve, chopes não são mais freqüentes à minha mesa. Moro longe das praças queridas e meu amor desapareceu feito certa brisa leve. Devo ser ranzinza, posso ser mesquinho, tendo à mediocridade; entretanto, nada disso abala minha saudade do bom verão, um verão pomposo e metropolitano, cheio de promessas e tentativas que pudessem um dia dar certo. Queria a criança chamada eu de volta, para que me guiasse pelo pensamento de que somos nós mesmos que construímos as estações e, por isso, podemos transformar cada estação a nosso bel prazer, de acordo com nosso espírito livre. Queria por que não tenho, mentiu quem disse que querer é poder: na verdade, antecipo-me ao outono que já vai chegar, trazendo folhas ao chão e mocidades independentes para ocupar os espaços urbanos, prateados com pitadas de chumbo.

Daqui a vinte dias o verão será a saudade de todos os que o viveram bem e foram felizes - estes dele falarão aos quatro cantos e à rosa dos ventos. Para mim não sobrou nada, passou e senti um vazio por não vivê-lo como deveria e poderia.
Cabe-me contar as folhas do chão, as nuvens de chuva e as flores que surgirem até que surja um novo verão, uma nova promessa, um novo nascente que me faça sonhar. Como todos aqueles que, neste, tiveram um invencível verão.
Paulo Roberto Andel

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