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Friday, May 19, 2006

Memorial da adolescência

Num dia do nosso tempo, o velho Xuru de guerra me levou até a casa de outro grande camarada nosso, também velho de guerra e chamado Henrique. Era dia de conversa fiada da boa.

Nos conhecemos nos acolhedores e socializantes anos da juventude e, entre idas e vindas, fomos nos perpetuando até este novo tempo, agressivo e individualista por hoje. Acampamos por um bilhão de vezes juntos e, em cada um deles, tínhamos roteiro para redigir odisséias. Entretanto, marcante mesmo para mim é a enciclopédia de eternidades que escrevemos na casa de veraneio do Henrique, em Arraial do Cabo - que era um arraial de verdade, não esse de hoje, recheado de lutadores empenhados em humilhar ao próximo.

Arraial tinha lá as suas precariedades: luz e água, tais quais nos dias de hoje, eram mais do escassas. Porém, a cidade era habitável, silenciosa e romântica. O Carnaval abalava suas estruturas sempre, mas era de outro jeito. E viajar para lá em longa temporada, preferencialmente na baixa estação, era garantia de provar o gosto do paraíso: foi naquele maravilhoso lugar que comemorei a minha dispensa do exército depois de treze meses (mais tempo do que se leva servindo, eta), e que também serviu de pré-temporada para uma faculdade que haveria de ser bem longa, após quinze revitalizantes dias de folga. Dali também recordo que, noutros anos, ao falar da querida casa para uma linda mulher com quem caminhava pelas ruas de pedra, passei pela porta do inesquecível teatro; no muro da casa, tão amado e já corroído, tive um dos melhores beijos de amor da minha vida - e que fique por aqui o assunto, já que a respeitável senhorinha tem um matrimônio feliz com um conhecido que se julga o senhor exclusivo da situação.

E, como o maldito tempo insiste em não parar, passaram-se treze, quatorze anos e hoje estamos em outra casa do Henrique, em Laranjeiras. Assistimos um show de rock, igualzinho como naqueles tempos, exceto o fato de que antes era ao vivo e agora é pela televisão. Mudamos, claro. Somos quase jovens. Gastamos quilos e quilos de prosas e, num determinado momento falamos da casa, a velha geradora de grandes encontros e alegrias, que está a pique pela deterioração. Vive fechada em função de acordos familiares, desde a passagem da dona Maria, mãe do Henrique. Seria bom ter dinheiro, o velho vil metal que é tão sonhado e consagrado de tantos, só para arrematar a casa. Enquanto isso não acontece, a casinha querida fica por lá à deriva, perdida nas memórias e à espera de que seus heróis juvenis tenham um futuro a lhe reservar. Aqueles segundos são carregados de empolgação ao falarmos do quartel-general dos melhores dias de nossas vidas. As frases rápidas são incapazes de ignorar a felicidade que aquela velha gigante de pedra nos desperta.

Subitamente, uma pergunta corrói meu pensamento, feito um raio num campo limpo em dia de tempestade: "Quanto custa em dinheiro o memorial de nossas adolescências, dos melhores anos de nossas vidas?"

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