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Friday, May 19, 2006

A madrugada precoce

Chove.

Este lugar é de um silêncio enorme, talvez imaginariamente entrecortado por canções de ouvir Carole King ou Marina Lima, ambas campeãs de execução radiofônica nos programas de música soft que aconteciam nas rádios de freqüência modulada, basicamente por volta das dezoito horas. Carole e Marina são cantoras da chuva, dos tempos nublados, do tempo ameno e da atenção a melodias doces. Agora, pela noite, o verde escuríssimo das cortinas entreabertas serve de tensa moldura do céu azulado de Copacabana, o mesmo céu que excita gentes à beira-mar, traz força a fé dos que rezam em janelas e que serve de telhado vazado para indigentes – hoje, mais tristes pelo molhado.

O silêncio é democrático, ressalte-se. Há barulho. Pouco, baixo, mas suficiente para ocupar o ambiente cheio de luzes apagadas. Na sala, quadros bonitos expressando uma arte que eu não sei explicar. Todos estão próximos de livros, muitos livros. Parecem viver todos ali em plena harmonia, feito um só conjunto. Tem também uma vitrola antiga acoplada à outra que foi moderna até outro dia, discos ao redor em profusão. Discos, livros, pensamentos.

Já que tenho a liberdade de escolher um, ei-lo. Dave Brubeck, o lendário jazzman ainda vivo e perto dos noventa, primeiro branco a liderar a parada de jazz na história, contraponto ao racismo convencional. Louve-se o seu preciso piano contrapondo ao sax inacreditável de Paul Desmond. A capa é coloridíssima e, sem querer fica em contraste com beleza turva do conjunto de cortinas, decorações e o céu.

Não é tão tarde, mas foram todos embora. No quarto, Teresa dorme o sono dos justos, que acomoda as pálpebras que agora escondem aqueles olhos incríveis. Queria dizer-lhe algo quente e especial mas não sei bem ao certo, desisto temporariamente; queria ter continuado continuado o sexo e gasto mais horas em beijos no ventre, cansou. Teresa está cansada, esgotada. Talvez fosse importante que descêssemos e caminhássemos um pouco na calçada larga, acompanhando aquele zig-zag fantástico que consagrou Copacabana para o mundo, as pedras portuguesas que fazem ondas aos pés da areia. Talvez fosse saboroso que encontrássemos o pessoal no Gordon, rir do enorme Canguru em sua porta. Mas nada faremos, pois Teresa dorme e eu vivo.

Os discos e os livros são herança de Dona Marília. Foi embora antes do tempo, muito antes do devido, desesperançada pelo fim do Seu Marcos – que também retirou-se de forma um tanto quanto apressada e inesperada. Marcos filho já não mora mais aqui, desde que se enlaçou com Fernanda há uns três anos.

Engana-se quem acredita que a tristeza é hóspede permanente da casa; no máximo, entre uma e outra lembrança física da morte, descrita num velho som ou texto, o restante é contente. A juventude da turba da Santa Úrsula ajuda a trazer alegria. Eles gostam de carteados, de jogos de tabuleiro, de bebidas ligeiras; riem e contam boas histórias, sabem línguas e autores, cidades e hábitos. Não gosto quando fazem a sala de Amsterdam barata, mas é deles mesmo. Creio que não façam por mal, é coisa de jovem. Desconfio que não gosto apenas desse único momento, o resto é de uma tranqüilidade acolhedora. Simpatizo com eles, suponho que me achem um mais velho, experiente, acreditam ingenuamente que tenho muito a lhes contar, vã esperança. Ainda não sabem que aprendemos truques todos os dias e nunca é tarde.

Tudo ao mesmo tempo agora. Penso em Teresa. Penso em seus sonhos e poesias. Penso em oferecer-lhe alegria, contar-lhe uma história especial, beijar-lhe a mão e também entregar uma rosa. Penso em levá-la para uma viagem, cobri-la de carinhos, sexo, companhia, aventura. Penso em tratá-la permanentemente como mulher e não uma oportunidade ocasional. Gostaria de amá-la mais do que posso. Gostaria de ser somente dela. Era indispensável namora-la, cativá-la, dar-lhe todo amor que houvesse pelas esquinas, tabernas, a praia, o parque e o cinema.

Ouço o jazz ecoando pela casa e buscando as janelas, como se quisesse multiplicar-se pelos arredores. Há um Brubeck e um Desmond fazendo contrapondo com os vestígios noturnos da Atlântica. Alguns notívagos desfilam na avenida, devagar e suavemente. Teresa dorme e tenho remorso. Eu preciso dar-lhe o dia e a noite, o céu e o mar, o verde da esperança e o branco da paz celestial, o sorvete e o uísque, as vitaminas e a erva. Eu preciso dar-lhe o amor do qual carece injustamente. Não tenho nada de sobra, nada de útil que fosse digno de olhos tão brilhantes. Preciso aprender como fazer música doce a tilintar em seus ouvidos. Remorso é ver seu repouso tranqüilo, suave, sereno.

Deitada em berço esplêndido, onde dorme Teresa agora?

Cansada, repousada, esplendidamente nua, o que imagina Teresa em seus sonhos mais íntimos?

Tenho um gole de bebida fina à minha disposição. Um silêncio cortado por jazz. Pensamentos nublados sob um céu que promete dias de brilho.

Teresa dorme.

Está nua e cativante. Pele clara e fresca. Seios lisos e cabelo solto. Pés recolhidos.

Ao fundo, o piano é denso, o saxofone é cortante. No imaginário, crio um trio com Carole e Marina.

Reflito sob o luar. Teresa tem beleza e poesia, ambas profissionais. Eu sou um amador.

Chove.

4 comments:

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