Translate

Sunday, October 01, 2023

Sobre "A alma aflita das ruas"

Há motivos para o que se considera uma produção literária frenética de minha parte, com 40 livros em 13 anos, na verdade 14 porque o primeiro estava quase escrito desde o ano anterior. O principal deles foi a morte repentina dos meus pais, que me levou a mergulhar vertiginosamente para tentar ocupar a cabeça - e não adiantou nada. Em menor escala, minha vontade de ser publicado desde os anos 1990, o que acabou acontecendo somente em 2010. Também conta o fato de poder produzir meus próprios livros, sem os vícios preconceituosos que costumam povoar a mente de boa parte dos editores, lutando para tornar o livro um objeto hermético. 

Agora, um grande motivo para essa correria desenfreada foi o medo da morte. Não exatamente o medo, porque ela é inevitável, mas o medo de morrer sem ter escrito um conjunto de livros que considerasse razoável. O medo de que não desse tempo. Hoje ainda me falta muita coisa, claro, mas era inimaginável o número de 40 há 13 anos e ele foi alcançado. Alguns venderam milhares de cópias, outros venderam centenas e provavelmente os melhores não venderam nada, mas tudo bem - o autor quer ser lido mas não faz um pacto de plateia antes de escrever. Só lamento que meu trabalho como autor "carioca" fique à margem do trajeto no futebol - do qual me orgulho muito mas não não sou 100% dependente. De toda forma ele existe e pode ser lido há anos no Correio da Manhã e no meu blog, "otraspalabras!". 

Vivi e vivo com medo. Sempre foi assim, havia e há muito sofrimento. Por muitos motivos, achava que minha vida seria curtíssima - e quase foi mesmo -, o que se acentuou quando alguns colegas meus morreram jovens. Então acabei chegando aos 55 anos, que para muitos ainda é uma réstia de juventude nos tempos modernos, mas me tem pesado com enorme cansaço. A luta pela sobrevivência, a sensação da velocidade do tempo, as perdas e danos mais a certeza da ruindade da maioria dos humanos aumentam a fadiga. Só que eu não paro, nem sei por que motivo. Então continuo escrevendo e produzindo livros de terceiros, enquanto sigo cumprindo minha pena por aqui - nada que se compare às verdadeiras penas aplicadas em presídios, mas também longe de ser fácil. 

Meu novo livro estará pronto em duas semanas mais ou menos. Ele se chama "A alma aflita das ruas" e é uma brincadeira com o craque João do Rio, inspirada em meu amigo Luiz Carlos Lacerda - poeta e consagrado diretor de cinema -, dado que algumas pessoas veem semelhança entre o que tenho feito e a produção avassaladora dele. Obviamente não cabe comparação: João foi o maior cronista de seu tempo, inaugurou a ABL e seu talento venceu as décadas. O que faço é tentar registrar alguns cenários do Centro do Rio para que, no futuro, alguém os ache numa garrafa que atirei no mar da internet. "Alma" é um livro de humanidade, de minha incapacidade em desprezar o próximo, e está alinhado com todos aqueles que veem o Rio de Janeiro com amor mas sem hipocrisia, entendendo a verdadeira tragédia que nos cerca há anos. Vários de seus textos foram produzidos durante a pandemia ou depois de suas consequências, portanto não são leves. Contudo, não se trata de um livro fúnebre, como a primeira vista sugere a capa, mas sim sobre a vida real, que é feita por aqui de descaso, indiferença, desprezo, falsidade e mau caratismo, tudo devidamente varrido para debaixo do tapete do Facebook. Um livro sobre a opressão, naturalizada pelo neoliberalismo e tolerada com candura por certa esquerda cheia de discurso, mas pouca ação prática no sentido coletivo. 




Os interessados em "A alma aflita das ruas" podem encomendá-lo pelo WhatsApp 21 99634-8756. A princípio ele não terá um lançamento. Venderá pouco e é para poucos mesmo - os que nele acreditam. Nenhum problema para quem não acreditar: a recusa e o desprezo fazem parte do jogo literário. Porém, até segunda ordem, não há mau resultado financeiro que me faça parar de escrever. É uma causa e, como disse Borges, "aos verdadeiros cavalheiros só interessam as causas perdidas. 

Enquanto isso, vamos esticando a corda até onde der. 

@pauloandel 


Saturday, September 30, 2023

Dois ônibus (parte 1)

Esta semana fiz algo que há muito tempo não fazia. Melhor dizendo, que quase nunca fiz. Entrar num ônibus sem saber ao certo seu percurso. Fiz isso duas vezes. 

Quando era garoto eu adorava ler o Guia Rex. Estudar os nomes das ruas dos bairros, das ruas dos trajetos dos ônibus e por aí vai. Quando estagiei na Firjan, os mensageiros me pediam dicas sobre ônibus e ruas, era engraçado. Por muito tempo fui um entusiasta da cidade, atravessando bairros e bairros, mas à medida que tenho envelhecido as travessias reduziram drasticamente. Com as mudanças de mãos das ruas, de números das linhas e as reformas desde a Copa 2014, perdi meu capital de informações. Além do mais, trabalho perto de casa, faço muita coisa a pé, Uber e táxi. Às vezes pego um ônibus por 900 metros para chegar a estação Carioca do metrô. 

Nem sempre foi assim. Especialmente entre 1988 e 1994, quando fazia faculdade e me deslocava de lá, para o trabalho e para casa. Eu gostava, mesmo. Sempre gostei de ver a paisagem, as pessoas perto. Claro, eu nunca pertenci à população oprimida pelas precariedades do sistema de transportes. Era pobre também, mas um pobre que usa ônibus na zona sul e no Centro é privilegiado na comparação com usuários da zona norte, oeste e região metropolitana.

Veio o 201. Chovia fininho, ainda tinha uma hora para abrir a loja. Entrei. Antigamente ele subia até o fim da Almirante Barroso e voltava pela Assembleia. Mudou. Virou para a direita depois pegou a Araújo Porto Alegre. Me deu uma saudade enorme da ABI - outro dia mesmo estávamos lá lutando contra o golpe e Isabel estava deitadíssima no chão, vendo um vídeo. Nossa musa do vôlei, tão cheia de vida. E a Sala Sidney Miller? Quantos shows maravilhosos ali, de Jorge Mautner a Victor Biglione, tanta coisa. 

Simpático o motorista. Conversa com uma passageira conhecida, risonha. Aí chegamos à Evaristo da Veiga e, rapidamente, República do Paraguai - que eu adoro porque você vê do alto a avenida Chile, os grandes prédios, o Edise, símbolos de uma afirmação carioca, talvez. Dia de chuvinha, ruas vazias trânsito livre. 

Sem planejar nada, descobri que o ônibus me deixaria na porta do trabalho. Foi divertido. A primeira vez que fiz isso em quase cinco anos de loja. Fazer um caminho minimamente diferente. Já escrevi outras vezes que, por gostar muito de VLT, faço um percurso quase ridículo só para usá-lo: apenas duas estações, com direito a baldeação na Sete de Setembro, que me deixa na Praça Tiradentes. 

Foi legal rever certa paisagem que, às vezes, a pressa e as responsabilidades nos alijam da oportunidade. Gostei tanto que repeti dias depois, mas com outra linha de ônibus. Acabei indo até o stand do Túlio, que fica na Primeiro de Março, com excelentes CDs e LPs estilo King Crimson, Traffic, Premiata Fornecia Marconi e outros craques.

Depois eu conto. 

@pauloandel.

Sunday, September 24, 2023

Copa do Brasil 2023

Antes de se apaixonar pelo Fluminense para sempre, meu pai torceu para o São Paulo quando era garoto. Vivendo em colégio interno e órfão, talvez o futebol fosse uma de suas únicas alegrias. Aos 18 anos veio para o Rio e nunca mais saiu. 

Uma hora antes do maior jogo entre os dois times da sua vida, um infarto o tirou de cena em 2008. E mudou a minha vida para sempre.

Cresci numa casa com paixão pelo futebol, sem ódios, sem rancores. Claro que tinha as rivalidades - aos 11 anos de idade eu já tinha visto jogos nas torcidas do America, Campo Grande, Goytacaz e Palmeiras. Claro que secar sempre foi divertido, claro, mas ódio, rancor, jamais. E cresci com muita simpatia pelo São Paulo, por conta da questão familiar. 

Portanto, a vitória de hoje me faz pensar que, onde quer que esteja, meu pai está feliz. E a felicidade dele é a minha. Agora penso nos jogos que vimos juntos, e foram bem menos do que eu gostaria - com 14 anos eu já ia sozinho para o Maracanã. Penso nesse gosto pelo futebol que ele foi me passando desde que eu era criança, a própria maneira como me tornei Fluminense e tantas outras coisas. 

Já adulto, com mais de 40 anos, eu sonhava em escrever um livro sobre o Fluminense para homenagear meu pai. Em certo momento, parecia impossível, mas certa conjunção astral mudou tudo, acabei conseguindo ser publicado e nunca mais parei. Tenho escrito muitas coisas sobre muitos assuntos, mas sei que os trabalhos que me projetaram para milhares de pessoas são os do Flu. Nenhum problema. 

Seria bom tê-lo aqui agora, comendo os sanduíches que ele sempre gostava (minha mãe imitando meu pai nessas horas é uma cena inesquecível). Falaríamos desse jogo, desse título, desse negócio chamado futebol que, mesmo contaminado, nos dá alegria e esperança, alivia as noites - ok, também as destrói - alimenta as conversas. 

Na ausência inevitável, resta pedir um sanduíche, lanchar, rir com as mensagens no WhatsApp, brincar com os rivais. Pequenos momentos divertidos desse estranho negócio chamado vida. 

@p.r.andel

FIGUEIREDO MAGALHÃES, 00:47H, PRIMAVERA DE 1989

[A praia está vazia e silenciosa, algo incomum para a madrugada do fim de semana. Geralmente vem o pessoal de outros bairros e, claro, os turistas. 

Não tem mais ninguém na rede de vôlei. Futevôlei. No campo de areia, nem pensar. 

Estranho. 

[Na esquina de Figueiredo com Domingos Ferreira tem sempre uma galera dormindo na rua. São uns dez. Não mexem com morador, mas se sacarem outra procedência vai dar zebra

[Na quadra seguinte, do outro lado da rua, tem as duas drogarias e, numa delas, o letreiro tem o Pepe Corta-Zeros. Um pequeno símbolo da rua. 

No prédio da esquina moram Marcelo e Hermínio. Talvez no quarto andar. Bem, não é uma esquina qualquer, mas a mais barulhenta do mundo. Dizem que até entrou para o Guiness. 

Se você atravessar a Avenida Copacabana e utilizar a primeira entrada, perto da mitológica Galeria Ritz, cujo terreno já abrigou a fantástica faquiresa Suzy King - que o poeta e cineasta Luiz Carlos Lacerda, menor de idade, espiava pela fresta da porta -, vai adentrar as Lojas Americanas, paraíso das crianças com suas balas e brinquedos. A loja tem formato de L e você pode sair pela Figueiredo Magalhães, onde não encontrará mais vestígios da lanchonete de rua - que vendia cachorro quente e refresco de côco no copo de cone -, apenas a sorveteria Akay do outro lado da rua, bem em frente, que tem um misto quente imperdível: pão crocante, queijo derretendo e fatias finas de bom presunto. 

Cine Condor, dentro da galeria. Minha amiga Katia morava ali. São mais de 800 lugares no ótimo cinema refrigerado. Tenho visto muitos filmes, exceto "Psicose" - dormi e depois explico o motivo.

Ainda poderia voltar à esquina anterior, a mais barulhenta do planeta, bem na diagonal do prédio do Hermínio. Casa Nelson, roupas finas para senhores exigentes - especialmente para quem não quer sair do armário, se é me entendem.

[Figueiredo e Barata Ribeiro é Varese, loja esportiva. Lindos e caros botões, tênis fascinantes, artigos de primeira. A vitrine é uma beleza. E é também Sumol, lanchonete querida do bairro que aguenta o tranco até três da manhã. Salada de frango, belo bife de hamburger da casa, grandes sucos e a maravilhosa fatia de pizza muçarela, verdadeira salvação depois dos jogos noturnos no Maracanã. Ai, Jesus!  

Ainda o futebol. Passando pelo Sumol (alguns chamam por a Sumol), tem a Kayat Esportes, outra loja de artigos esportivos que faz a festa da garotada: vende escudos bordados, números de camisa que se prende com ferro de passar e bolas, bolas, maravilhosas bolas de futebol. 

Na esquina da Edmundo Lins incrivelmente não tem ninguém. É um dos alvoroços de Copacabana por causa da turma que ali convive, pessoal da praia, das lutas e da noite. Uns trinta garotos ou mais. Eles são a GEL e a sigla é óbvia: Galera da Edmundo Lins. 

Esquina de Figueiredo com Toneleiro, resta o único estabelecimento aberto da quadra, o velho botequim pé-sujo sem letreiro, onde os últimos boêmios tomam goles de cerveja e cachaça, afogando mágoas e melancolias. Mas não por muito tempo: uma das portas já foi baixada e em pouco tempo só restará um único bem, raro em Copacabana e na rua Figueiredo Magalhães mesmo de madrugada - o silêncio.

@p.r.andel

Sobre Rick Davies e o Supertramp

Eu sou fã do Supertramp desde garoto. Fiquei louco da vida quando não pude ver a banda no Hollywood Rock de 1988. Estava em meio ao vestibular, matar ou morrer. Passei, felizmente. 

O problema é que o Supertramp nunca mais voltou ao Rio, sequer ao Brasil. Nas últimas três décadas lançou apenas dois álbuns, "Some things never change" (1996) e "Slow motion" (2002). O grupo está recolhido, não faz shows, não lança álbuns e não dá qualquer indício em seu site oficial. 

Não vou entrar aqui na briga entre Roger Hodgson e Rick Davies. Eu gosto do Supertramp e ponto. Uma banda que não deixou herdeiros, ninguém se parece com ela. Hits eternos como "Give a little bit", "Goodbye stranger", "My kind of Lady", "Bloody well light", "From now on", "It's raining again" e tantos outros êxitos. Quando Roger deixou o grupo, é claro que muitos fãs lamentaram, mas a vida seguiu, ele fez sua carreira solo e o Supertramp funcionou bem ao vivo com os vocais de Mark Hart, cantor do Crowded House. Ok, os puristas e cri-cris odiaram, mas qual a exata importância destes? 

Há alguns anos, mais precisamente em 2015, prestes a iniciar uma turnê europeia, ela foi cancelada às vésperas porque Rick Davies foi diagnosticado com um mieloma múltiplo, aos 71 anos. 

O tempo passou, as notícias eram escassas e a única coisa que achei no Google para me dar esperanças foi uma foto de Rick, acompanhando uma partida de futebol americano. Só. 

Semana passada, pesquisando pelo YouTube me deparei com alguns vídeos de Rick Davies, tocando várias músicas do Supertramp com outros músicos, num local relativamente intimista. Achei glorioso: Rick, atualmente com 79 anos e depois de superar um câncer, voltou aos palcos. O som continua inconfundível e a voz é a mesma. O Supertramp estava lá, ao menos na memória e nas canções. 

Então fiz uma postagem no Facebook a respeito, e confesso que me decepcionei com a reação de alguns colegas. Houve quem dissesse algo como "Que coisa decadente! Tocando num palquinho, que triste fim de carreira!", bem como outras sentenças parecidas. 

Então me perguntei: de onde as pessoas tiraram que o artista consagrado só pode tocar em grandes arenas, sendo um ser inatingível? 

Desde quando se apresentar em palcos alternativos é exclusivamente sinal de fracasso ou ostracismo? 

Quantas vezes artistas mundialmente consagrados já tocaram em casas com público mínimo, por diversas razões? 

E mais: a qualidade artística de um músico é definida pelos palcos em que toca? Parece improvável. Quantos e quantos músicos espetaculares são completamente desconhecidos do grande público? Outros não tocam sequer em palcos pequenos, mas se limitam a estúdios. E isso não lhes tira o talento. 

É difícil dizer se o Supertramp voltará aos palcos um dia. Roger Hodgson continua fazendo turnês regulares. Ao que tudo indica, Rick Davies está recuperado. De tudo isso, certo mesmo é que um artista que já vendeu mais de 60 milhões de álbuns na carreira pode ser quase tudo, menos um fracassado. Procure nas rádios do mundo inteiro: sempre tem "The logical song" tocando em algum momento, só para lembrarmos que o Supertramp é eterno. 


Tuesday, September 19, 2023

noite agora

noite agora

2023


agora é noite, o começo

da noite


a nação proletária sonha 

com casa, banho e comida

sonha com descanso

enquanto se encaminha


[nas gares


agora é noite e os corações

perfeitos


procuram seus pares em sonho

sorriem para o amor passado

celebram os vivos e os mortos

pelas veias velozes de asfalto 


os corações solitários 

navegam rumo à via láctea:

batem, voltam, se esparramam

pela incerteza da vida


agora é noite, agora

é o futuro que decola

para o voo cujo destino 

é o eterno presente em que

vivemos


@p.r.andel

Sunday, September 17, 2023

Fragmentos da UERJ

[Numa certa manhã de 1988, aproveitamos que a aula terminava às 8:50h e nos mandamos para São Conrado. Objetivo: jogar boliche. Depois voltamos para almoçar no La Mole da Marquês de Valença, Tijuca. Não sei como, mas juntávamos pobres e ricos no mesmo barco, ou melhor, carro. Todo mundo ia. Não era baratinho, mas certamente era bem mais barato do que qualquer coisa de 2023. 

[Ou juntarmos uma turma para assistir Dick Tracy, acho que no Cine América. Foi um acontecimento. Depois lanchamos no Bob's. Madonna era Breathless Mahoney, no auge da forma e fama. Tinha também Warren Beatty, as garotas adoravam. Era muito bom ter dezoito ou dezenove anos. Ou vinte. 

[Estávamos na varanda do Bloco A, bem de frente para uma maravilha chamada Maracanã, quando testemunhamos uma tragédia. Eu estava com a mão encostada no parapeito quando de repente senti uma dor lancinante. Um segundo depois, um barulho assustador. As garotas correram, aterrorizadas. Olhei para baixo e lá estava um corpo estendido no chão, depois de seu último voo. Então me senti gelado, estático e demorei para perceber que minha mão havia inchado e arroxeado com a pancada que, involuntariamente, o suicida me acertou num esbarrão. 

[Às vezes matávamos aula só para conversar e mais nada. Era um grande prazer coletivo. Juntávamos oito ou dez alunos e falávamos, falávamos e ríamos. Aquilo me fazia um bem enorme, eu estava sofrendo muito em casa. Eu me sentia acolhido, era bom. Era como se fosse como a casa do Fred, só que com outros colegas e outras garotas bonitas.

[Eu achava um barato aquele ir e vir que só a UERJ tem. Você sobe uma rampa e está no Direito, desce outra e está na Engenharia. Para no meio do caminho e fica na Estatística. E História. Educação Física. Letras, Economia. Tudo se misturava. Logo, logo, fizemos muitos colegas de outros cursos. 

[Acho incrível que aquele grande prédio só tenha me feito bem, porque muitas pessoas espiritualizadas o condenam por conta do que aconteceu lá. Antes da construção da Universidade, seu terreno abrigava a favela do Esqueleto, havendo um terrível incêndio antes da remoção. Depois, o prédio virou uma espécie de referência para suicídios, hoje atenuada por diversas providências. 

[Nos primeiros períodos eu não estudei direito. Olhava a grandiosidade dos corredores, das salas lotadas, um mar de gente de todos os lugares com mil interesses e formações. Eu espiava as palestras, os filmes e shows da concha acústica, os cartazes nas pilastras com os eventos culturais. Era um mundo.

[Minha amiga Lou era uma graça. Eu a achava linda, com um sorriso de braços abertos sobre a Guanabara. Ela tinha o cabelo alourado, cacheado. Linda e divertida, sempre rindo. Convivemos por bons anos. No dia seguinte ao título imortal do Fluminense em 1995, o do famoso gol de barriga, nos encontramos no hall do sexto andar e trocamos um longo abraço de campeões. Foi a última vez que nos vimos. 

[Tinha a Sônia também, que era uma graça. Largou o curso pelo caminho. Às vezes eu a encontro num dos restaurantes onde almoço, perto de casa. Ela tem negócios por ali. É sempre simpática quando nos vemos. Eu sei que agora temos mais de cinquenta anos, mas eu só a vejo como a garota de dezoito anos, elegantemente vestida, do tempo em que eu sonhava em disputar a São Silvestre, me formar e viver feliz com a minha família.

Sunday, September 10, 2023

Salut, São Paulo!

Até que envelhecer tem suas vantagens. Com ou sem dinheiro, dificilmente vou a festivais de rock pop. É que meus heróis estão aposentados, quase aposentados ou muito mortos. Naturalmente há exceções: dia desses fui com meu amigo Marcelo Rodrigues Lessa ao show da Dorsal Atlântica, do meu querido amigo e ídolo Carlos Lopes. Trash metal roots, em pé, como o estilo pede. Bom, a Dorsal pede uma coluna inteira e o Carlos não cabe num livro. Por enquanto digo que é um dos maiores artistas em atividade no Brasil. Gênio. Perguntem ao João Gordo.

Então fiquei vendo The Town, o Roquinrio de Sampa, meu! Gosto de São Paulo, de suas esquisitices, de suas garotas, aventuras lokas e até das viagens de avião - são as melhores do mundo para quem tem medo, pois mal dá tempo de servir o sanduíche - quando há - e o piloto avisa que iniciou o processo de aterrissagem. Só que tá bem caro...

Da Pitty só vi o finzinho. Ela é uma graça. Vinte anos de carreira, atitude, uma garota baiana que botou muita pimenta no vatapá. Trajetória maneira, vitoriosa. Tem toda razão quando canta "Que me acha foda". 

Num susto, o Garbage. Shirley Manson, minha crush desde os anos 1990, senhor! Butch Vig, o homem de "Nevermind" do Nirvana e "Siamese Dream" do Smashing Pumpkins. Gostei muito. Minha preferida é "Stupid Girl". Especialistas dizem que o show não emplacou para a plateia presente. Bem, em 95% dos dias de festivais é assim. Achei o show correto e, pra quem conhece as músicas, elas soam como nos álbuns. Tomara que voltem, no Vivo Rio (sem mesas). Shirley é adorável. 

Barão. Barão é foda. Stoneanos de corpo e alma. Desde a volta, acho que vi uns seis shows do BV na TV e todos foram ótimos. Frejat era uma voz espetacular para a banda, mas gostei mesmo do Suricato, é um outro jeito de cantar e com mais peso no som. Foi legal ver o Barão tocando as músicas do Skank, bem divertido. Certa vez o Samuel Rosa foi muito antipático comigo e com o Bolinha, deixa pra lá. Espero que façam outros shows junto. Guto senta a mão na bateria, gosto quando Maurício canta. E onde tem Barão, tem a presença poética do meu ídolo e parceiro literário Mauro Santa Cecília. O livro tá atrasado, senhor! 

Wet Leg eu não conhecia. A cantora é linda, docinha, aquele pop rock leve às vezes com uns berros. Ok, tem a questão das escalações e palcos, mas isso também é de todos os festivais. Deveria ser ótimo vê-las na antiga arena da Caixa Cultural do Rio na Almirante Barroso, que os fascistas destruíram. Bom passatempo para o gran finale. 

Por fim, Foo Fighters. Eu demorei a gostar do Nirvana e demorei com o Foo, mas o show dos caras é devastador. Dave Grohl passou por duas tormentas e, pelo visto, ainda vai contar muitas histórias. Simpatizo mesmo é com Pat Smear, divertido e excelente guitarrista que vem dos tempos do Nirvana Unplugged. Um show de rock como tem que ser. Ouvi como se tivesse 22 anos de idade, que infelizmente já estão longe demais. 

Meu Roquinrio foi na TV. Uma noite divertida mesmo. Este ano tem Paul McCartney e Roger Waters por aqui, com ingressos salgadíssimos. O Glenn Hughes também. Em tempos de dureza, se eu conseguir comprar o novo Dark Side, está bom. 

@pauloandel

Saturday, September 09, 2023

Onde estão eles?

Eu penso muito. Em muitas coisas e pessoas. 

Hoje comecei a pensar em um monte de gente que me lembro, mas provavelmente sequer sabe da minha existência. 

Gente que foi minha vizinha, gente que estudou comigo - foram muitas escolas, gente com quem joguei bola na praia, gente do bairro que me cumprimentava com a levantada da sobrancelha - você não fala mas reconhece a pessoa. 

Lembrei de gente e coisas, algumas muito duras e outras até felizes. E me dei conta que uma parte dessas pessoas pertence à minha vida, mas eu não pertenço às delas. 

Falo de gente de longe, dos anos 1970, 1980 e 1990, não de agora, onde ficou quem tinha que ficar e saiu quem tinha que sair. 

É sobre gente que sumiu. 

Eu lembro dos nomes, dos rostos, nem tanto das vozes. E lugares também. 

Lojas que faleceram, prédios inteiros, lugares. Copacabana por exemplo, que é tão igual mas mudou muita coisa que só os veteranos conheceram. 

Deitado na cama e espiando o show do Foo Fighters, começo a pensar na quantidade de pessoas que conheci e nunca mais vi. Elas não morreram para mim, mas podem ter morrido de verdade. Eu nem nasci para elas e isso é engraçado. 

Em grupos muito pequenos, de três ou quatro pessoas, eu sou o único sobrevivente e tudo me parece estranho. 

Agora mesmo me lembro de uma vizinha bonita que não vejo há 40 anos. Um jornaleiro que também sumiu há 40 anos. Colegas de escola e vizinhança, lembro de dois que por sinal torciam para o America. Lembro até do vendedor da loja de roupas numa loja da Figueiredo Magalhães, que era muito roqueiro e também homofóbico - vivia sacaneando Rob Halford e Lou Reed. 

Lembro duma outra garota bonita, bonita, que nem olhava pra gente e era irmã de um conhecido - ela passava pela gente quase todo dia e nos desprezava, ou não sei dizer se era uma autodefesa porque ela tinha um mínimo problema motor e talvez tivesse vergonha - mal ela sabe que a achávamos linda demais, porque ninguém falou com ninguém. 

Achei graça de lembrar também que uma garota da sexta série queria me dar um beijo, porque resolvi um exercício difícil de Matemática - eu fiquei com vergonha, acredita? Claro, nós, garotos de 1980 com 11 ou 12 anos éramos verdadeiras crianças - a ditadura de certa forma nos fez retraídos e tristes. Nunca mais vi a garota, nem seu irmão que era um botafoguense fanático? Que fim será?

Naquele tempo mal havia telefone e uma simples mudança de endereço podia significar a morte em vida do pré-adolescente. Agora tudo mudou: telefonar para alguém é quase um crime, as pessoas deixam dias sem resposta no Whatsapp - mas quando precisam, são as primeiras a chamar, e agora tudo é descartável. Se você não pensa como eu, você é burro e não entende nada, então eu posso silenciar você e me livrar da oposição. Eu sempre sei mais, mesmo quando comprovadamente eu não sei pomba nenhuma. 

Deixa de seguir, exclui, bloqueia, silencia, deixa invisível. 

Foi pra isso que inventamos o smartphone? 

@pauloandel

Fragmentos do Rio num sábado

[Oh, é uma tarde carioca tão legal que deveríamos aproveitá-la ao máximo, quero dizer, deveríamos alguns de nós porque a maioria não pode aproveitar nada. Apenas sobrevive e sofre. Alguns de nós se solidarizam e se doem por isso. A maioria, não. O céu do Rio é lindo e azul celeste, mas isso não impede sinos que estão a dobrar por ora - é que os assassinados também se despedem em dias de sol, e nós temos muitos assassinados, quero dizer, alguns de nós porque a maioria é de alienação e descompromisso assustadores. 

[A jovem linda, alva, de cabelos Chanel pretíssimos, sorve uma taça de vinho num restaurante do Largo do Machado. Linda e só, ela alterna os tragos com espiadas lentas no smartphone como se estivesse a ler um texto caudaloso. Sozinha no salão, ela fita a rua e percebe que, à altura do muro que toca o vidro da porta, um pequeno par de olhos é que a fita. Um garotinho preto, talvez de seis ou sete anos, com seus pequenos e aflitos olhos de jabuticaba, talvez um dos garotinhos que vendem drops na região - e que olha pelo vidro porque é sua única chance de estar ali. Em alguns segundos, ela toma um gole, aterrissa a taça na mesa e abre um sorriso que só realça sua beleza. Pequenininho, o menino não alcança a altura do vidro, mas o franzido de sua testa e o brilho do pequeno olhar de criança não deixam dúvidas: ele também está sorrindo. Uma jovem e bela mulher, um garotinho e dois segundos da fraternidade mundial.

[O Arco Metropolitano é uma das vias mais perigosas do Brasil e não são poucas as suas histórias de violência. Ontem tivemos mais um, com uma garotinha de três anos fuzilada por um policial. Em condições normais, isso bastaria para manifestações de dezenas de milhares de pessoas nas ruas, mas a desumanidade tomou a sociedade de tal forma que as piores coisas são naturalizadas. Ninguém liga. É feriado. Uhu! Aguardemos a próxima manchete com a nova criança barbarizada. 

[Jovens de classe média, casais bem sucedidos, intelectuais legítimos e pretensos, moderninhos e descolados, muitos são os frequentadores do CCBB num sábado, para apreciar a exposição de Evandro Teixeira, um dos maiores fotógrafos do mundo. Tempos atrás foi a vez de Walter Firmo, outro gênio. Evandro fez a crônica fotográfica de um Brasil dos mais difíceis, o da ditadura 1964-1985. É certo que as pessoas estão no CCBB em busca de arte, cultura e informação, mas seria bom que refletissem sobre o tempo maligno que Evandro registrou como ninguém, e que até hoje mantém feridas profundas na vida brasileira - basta pensar em tanta gente que foi torturada, estuprada, esquartejada e incinerada em nome do fascismo travestido de patriotismo, que só fez o povo sofrer. 

[Dois camaradas de vinte e poucos anos conversam num botequim perto da Nova Petrobras, no coração do centro. Parecem novos beatniks à primeira vista. Enquanto bebem uma cerveja artesanal, um fala para o outro que está completamente apaixonado por uma garota do trabalho, ao que tudo indica numa agência de publicidade, mas que tem muitas dúvidas se será retribuído na paixão e que, em caso positivo, precisará preparar os pais para terem uma nora trans. O outro dá uma gargalhada de corar Chiquinho Zanzibar, o exótico personagem da noite carioca, e diz: "Irmão, vai fundo. É 2023! Bem-fundo, hein? O apaixonado beatnik dá um sorriso meio sem graça. Numa mesa próxima, uma velhinha com a amaldiçoada camisa da CBF arregala os olhos. O garçom abre outra artesanal e tudo bem. 

[A garotada chutando uma bolinha de plástico numa área de lazer do Méier, enquanto transeuntes passam com as compras de supermercado e o bar está apinhado de gente. Na calçada bem em frente, a marquise é a única companheira de um velhinho que pede esmolas quase chorando. Quase ninguém liga.

@p.r.andel

Monday, September 04, 2023

Fragmentos de São Paulo

1987

[A gente não tinha um tostão pra sair. Resolvemos caminhar seguindo três ou quatro estações do metrô. Numa delas, São Bento, vimos uns caras espertos dançando break e ouvindo sons de batida da pesada. O Marco ia entrar na escola do exército, eu fazia faculdade com o dinheiro que meu tio me deu tão generosamente. A gente estava acostumado aos acampamentos, a noite no campo, admirar as garotas e viver nossa melancolia serena. Ali era o urbano, o som da rua, a galera black e, enquanto começava a revolução cultural do hip hop no Brasil, a gente era testemunha sem querer. Dois garotos cariocas andando na grande solidão que abraça a noite de São Paulo. Perto dali, a gente nem sabia do sofrimento do pessoal no edifício São Vito. A gente não sabia de nada e nem era feliz, mas tinha uma esperança enorme. 

2011

[Cansado da vida ridícula e posuda do mundo corporativo, onde sempre me sinto tão deslocado. Às seis da tarde escurece e caminho pela Berrini cheia de carros no asfalto e calçadas vazias. Quatro quadras depois encontro um botequim respeitável, parecido com o Vieira Souto no Rio. Entro e vejo o cardápio, também respeitável. Então peço um bife a cavalo que vem maravilhoso. Enquanto saboreio a excelente refeição, numa outra mesa o pessoal fala do Corinthians enquanto ri. Na rua, os faróis dos carros parecem espadas de luz se digladiando no rush de São Paulo. Logo depois, voltarei sozinho pela calçada deserta, chegarei ao bom hotel, tomarei banho, verei TV, a vista da janela e tentar descansar para o trabalho no dia seguinte. Estou num hotel quatro estrelas mas nem ligo para isso - a única coisa que me interessa é o ovo mexido no café da manhã. Suco de laranja também.

1987

[Samuel me levou ao cemitério para ver o túmulo de meu avô. Foi uma tarde muito triste. Eu merecia ter conhecido meu avô, algum dos avós. Não tive nenhum. Estamos na Vila Mariana? No Araçá? 

A inscrição na lápide dizia algo como "A saudade de seus filhinhos". Como meu pai e meu tio sofreram com sua morte, minha tia também, que não conheci, foi dada para uma família rica e nunca vi. Ela também não me viu. Se estiver viva, tem 80 anos. 

As famílias dos meus pais sofreram demais. Quando se casaram, eles tinham mil quilômetros de distância de casa, muita luta e provavelmente eu fui a única alegria deles por muito tempo. De certa forma, a herança desse sofrimento me ajudou a aguentar muita coisa ruim, especialmente vinda de pessoas ditas amigas - elas são as piores. 

Não ficamos muito tempo no cemitério. Logo depois, estávamos no jipe cortando as ruas, navegando pelas artérias de asfalto de São Paulo. Ladeiras, sobe, desce, mão dupla. É bem diferente do Rio e também interessante.

2011

[Ainda tenho três horas para chegar ao trabalho. Talvez seja legal ficar deitado vendo TV. Juliana manda uma mensagem de bom dia, eu digo que seria muito bom se ela estivesse lá comigo, ela ri e dissimula. Gastamos uma hora com passatempos, aí desisto de sair mais cedo e passar nos sebos da Avenida São João. 

No ano passado comprei um ótimo CD do Yes. 

@pauloandel

Sunday, September 03, 2023

Eu lembro e me lembro (reprise)

eu lembro. lembro de quase tudo. minha memória é delícia e inferno. 

eu me lembro quando fiz sinal para um táxi no colo de minha mãe, assim como me lembro de ser carregado em minha festa de aniversário em 1970, aos dois anos de idade. eu lembro do panduíche na revista e do sujismundo na tv. 

eu me lembro quando meu pai me disse "félix" e "fluminense" pela primeira vez em 1973, antes dos cinco anos de idade. lembro de ver minha mãe chorando quando chegamos a vaz lobo para morarmos um ano, em 1976 - eu já tinha oito anos. também me lembro de comprar coxinhas sequinhas e deliciosas numa lanchonete no largo de vaz lobo, enquanto tocava belchior na lanchonete. 

volto a copacabana em 1975 e lembro quando a ditadura me expulsou da escola, ou quando minha mãe chorou muito ao falar com uma jovem mãe em situação de rua na frente do metro copacabana. 

eu me lembro de ana paula, linda, passar pela figueiredo magalhães, mas aí já tinha 14 anos e isso tem apenas 40 anos. 

eu me lembro de todas as vezes que precisei chegar em casa para dormir, ou às vezes nem ir, para não ter choques com meu pai doente por alcoolismo. 

eu me lembro de quantas vezes vi o atlântico sul e pensei no mistério, no medo e na morte, sonhando em ser alguém digno e poder dormir todas as noites em paz - o que jamais aconteceu. 

eu lembro de meus amigos à mesa jogando cartas enquanto alguns ficavam muito loucos de pó e algumas garotas se esfregavam em nossos colos, aí já tinha 18. 

recuo e relembro quando ia com meu pai de copacabana até são joão de meriti, então pegávamos um belo ônibus que passava pela dutra e eu me sentia feliz por ser um ajudante de loja aos sete anos de idade.

lembro de minha mãe comprar uma caixa de madeira de um velhinho na rua viveiros de castro, ele era bem velhinho e essa caixa até hoje serve para guardar meus botões. 

eu me lembro de todas as vezes que sofri bullying na escola, todas as humilhações ridículas e todos os rostos dos algozes - a maioria se tornou a mediocridade esperada. 

eu me lembro de uma garota que beijei sem saber o nome, no meio do ajuri de cotia com dez mil escoteiros em 1985. lembro de quase todas as admirações e paixões que tive, vividas ou não, não sei se sou lembrado. 

lembro das últimas palavras que não troquei com xuru e fred, cujas ausências são dolorosas ao extremo para mim, isso com 14 ou 18 anos atrás. e lembro do dia em que fiquei amigo do xuru em 1984, assim como lembro da primeira vez em que fui à casa do fred em 1977. 

eu me lembro de ter visto os paralamas do sucesso no parque lage, quando ninguém os conhecia. 

eu me lembro do bar bole bole e de billy blanco cruzando diariamente o shopping dos antiquários. 

lembro de antológicas noites no campo em arcozelo, vale do sol, imbuí, serra dos órgãos e vassouras - japuíba-patis-gaviões, 1987. 

eu me lembro de ter jogado botão com augusto, luis e marcelinho debaixo da escada volante em 1978, e de ter assistido aulas de catecismo com floriano em 1979. 

eu me lembro de ter acariciado uma gata por baixo da mesa enquanto seu noivo tinha ido ao banheiro do bar, 1995. 

eu me lembro quando vi chocão pela primeira vez e ela era bem pequenininha. 

eu lembro de lula perseguido pela imprensa numa denúncia do pasquim de 1978. e me lembro do homem cadeirante triste, usando uma sonda debaixo da marquise do shopping dos antiquários em 1993. 

bem mais longe, lembro de minha primeira entrada no shopping em 1975, vindo da Toneleiro e acessando pela siqueira campos. eu me lembro de dri, roberto e nilton jogando bola no bairro peixoto em 1981. lembro do lazlo e do janjão, que foram meus vizinhos em 1978, assim como o luiz fernando português, o marcelo e a maravilhosa zuleika. 

eu lembro de todas as injustiças e portas na cara que sofri, e me lembro também das pouquíssimas pessoas que me deram a mão sem oportunismo. 

eu me lembro quando chorei de alegria pela primeira vez, quando passei para a uerj - tem apenas 35 anos. 

minha memória tem coisas demais, é minha delícia e desastre ao mesmo tempo. 

ainda me lembro.

@pauloandel

Wednesday, August 30, 2023

Fragmentos sobre Copacabana II

[Perto da meia noite de sexta-feira, jovens do bairro deixam o Edifício Pampeiro na Rua Toneleiro rumo às Casas da Banha, esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro. Interromperam um campeonato de botão para comprar lanche - os jogos vão até às três da manhã. No tradicional supermercado 24 horas, compram pão, frios e refrigerante. Depois voltam, fazem sanduíches e se divertem a valer enquanto os craques redondos dominam o campo de compensado. 

[Perto da meia noite de sexta-feira, o Bar Sniff's está prestes a cerrar suas portas. Alguns boêmios ainda bebem o último copo de cerveja, tanto próceres locais como Fred, Paulinho Cana e Márcio Pô quanto celebridades como o jornalista Arthur Laranjeira, nome fundamental na produção de shows da Tropicália no Teatro Teresa Raquel, o "Teresão". 

[Perto da meia noite de sexta-feira, os últimos craques da pelota deixam a praia e encerram a jornada de futebol do dia. Tudo recomeça no dia seguinte porque o futebol é sagrado e não tem fim. Descem a Figueiredo Magalhães de ponta a ponta. Alguns entram na Siqueira e sobem Tabajaras. O morro e o asfalto sempre fazem tabelinhas na dupla de praia e no futevôlei de Copacabana. 

[Uma jovem mulher no esplendor de sua forma está deitada na cama, com a luz acima, vestindo apenas uma calcinha preta, tudo perto do Bairro Peixoto. A beleza de seu corpo nem sempre pode ser vista seis ou sete andares acima, mas um grupo de adolescentes se espreme na janela da sala para admirá-la ou, de longe, sonhar com a admiração. Desejar a juventude de sua pele alva e fresca, sua beleza diante do charme do mundo, seu futuro que tanto promete. Perto da força de uma jovem mulher, os jovens homens não passam de súditos indefesos. 

[Num outro boteco do Shopping dos Antiquários, o compositor Billy Blanco bate papo com outros frequentadores, alguns do estilo low profile. 

[De longe, um forte cheiro de éter denuncia a chegada de um dos maiores enigmas de Copacabana: Mister Éter, morador em situação de rua na esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro. Dono de um corpanzil de quase dois metros com 150 quilos, Mister Éter anda pelo bairro sem pedir esmolas, apenas cachaça pelos botequins. Talvez o segredo de sua longevidade numa vida tão sofrida esteja nisso mesmo: os botecos não lhe dão cachaça, mas sim doses de água. O sabor não importa: ele sempre traga e faz um ahhhhh de satisfeito com a purinha, que só existe em seu pensamento. 

@pauloandel

Tuesday, August 29, 2023

Fragmentos sobre Copacabana

[Não, provavelmente eu não escrevo sobre Copacabana como a maioria a vê. Não. Na verdade eu mergulho Copacabana em Gotham City, chacoalho e tempero com a minha Copacabana que já não existe mais: a dos apartamentos. Basicamente dois: o do Fred e do Luizinho. Mais recentemente o da Katia. E a Copacabana dos apartamentos não é solar feito a praia, pelo contrário: pode ser dark e elegante, soturna mas charmosa. 

[A minha Copacabana também era triste e violenta, mas plural também. Tive uma vida de dias difíceis, mas nada comparado com 80 ou 90% das pessoas. Minha tristeza tinha a ver com a pobreza e a doença do meu pai, mas não foram grandes dramas embora incômodos. Isso não me impediu de lanchar bem, passear, praticar esportes, sair à noite (não era um esporte predileto), ver bons filmes, ter garotas bonitas por perto. Nunca tive ambições financeiras, então o essencial já me bastava. 

[Você mistura Copacabana com Gotham City quando tira o céu azul celeste e põe o gris. Mais sombra, mais nuvens, menos gente na rua, menos carros buzinando. A noite cai mais fria, as belas e deliciosas garotas das boates estão com os sorrisos cheios de cocaína para aguentar o tranco - as travestis também, na outra ponta do bairro. 

[Uma das cenas mais humilhantes que vi em Copacabana foi há quarenta anos. Eu era escoteiro e passávamos os sábados na sede do grupo, cedida pela Paróquia de Santa Cruz. As reuniões acabavam às cinco e meia da tarde. Depois disso, às vezes havia alguma quermesse por perto, alguma cabeleireira ou manicure prestava serviços a preços populares. Havia uma moça jovem negra que tinha uma limitação física nas pernas. Sem uma cadeira de rodas, ela andava pela região de quatro, com joelheiras servindo de sapatos e se apoiando com as mãos. Era uma cena terrível e ainda me pergunto como havia tanta gente na igreja e ninguém lhe conseguiu uma cadeira. Eu me sentia muito triste mas não tinha como ajudar. Passado tanto tempo, eu agora entendo como quase todos podem ver o sofrimento alheio com total indiferença: geralmente eles se escoram no nome de Deus. Involuntariamente ele se torna o escudo dos hipócritas. As senhoras ricas da igreja jamais olhavam para baixo: podiam correr o risco de enxergar a menina se arrastando pelo chão. Era a crueldade em carne viva. 

[Na casa de Fred ouvíamos discos, jogávamos cartas, conversávamos e deixávamos o tempo escorrer. Foram duas incríveis. As garotas eram lindas, havia um som da pesada e de doçura da adolescência e sua prorrogação. Tínhamos fé no futuro. Havia muito a ser feito. 

@pauloandel

Saturday, August 26, 2023

O silêncio do hall

Meu caminho é inesperado. Já disse outras vezes que me tornei Fluminense por causa do nome, da palavra,  ao contrário de muitos que se encantaram pelo escudo e pelas cores. Sempre preferi os dias nublados do mar de Copacabana - e muitas vezes ansiei pelo gris, a chuva, a silenciosa porta do Atlântico Sul repleta de silêncios e reflexões. Quando todo mundo foi estudar Direito, Engenharia, Economia ou Informática eu escolhi Estatística, que ninguém sabia o que era e até hoje a maioria não tem a menor ideia - gente diplomada mas severamente ignorante acredita ser chute, teu Deus!

Eu gostava de ficar no hall da faculdade. Muitas vezes e muitas vezes, desde o meu primeiro dia de matrícula, quando fiquei em silêncio aguardando minha vezÁ na primeira matrícula numa tarde nublada e de pouca luz. Foi um exercício que se repetiu muitas vezes. Sem falsa modéstia, meu carisma reuniu dezenas de pessoas naquele lugar muitas e muitas vezes, de onde saíram amizades, casamentos, separações, sociedades, traições, desentendimentos, lágrimas, abraços, beijos, gritos de gol e, porque não dizer, livros. Livros. Lembrei As garotas me adoravam também porque eu era muito divertido e criativo - as mulheres adoram isso - e, onde há garotas, há sujeitos pelos mais variados motivos. Meus amigos bichas também me adoravam - adoram até hoje e isso é recíproco - e posso chamá-los de bichas à vontade porque assim eles querem - não somente pelo meu carisma mas também porque sempre os tratei com respeito e dignidade num ambiente arriscado a machismo e homofobia. Enfim, fiz muitos colegas e a maioria se perdeu, mas ainda tenho alguns para recontar as histórias.

Era um outro tempo muito difícil de minha vida, então era bom ter os colegas em volta por algumas horas. Eu precisava de convívio humano ali e foi muito bom, mas em muitas ocasiões ficava sozinho com meu caderno e prancheta laranja de acrílico. Espiava o ir e vir das gentes, as garotas, os funcionários, os desconhecidos subindo e descendo as rampas, gente indo e vindo como se estivessem participando de um grande filme cheio de cenas, a começar pelo primeiro dia em que cheguei ali, sonhando em estudar, conseguir um emprego e sair da miséria, ter uma casinha. Às vezes ficava uma hora em silêncio até que surgisse alguém, às vezes mais. Um silêncio tão poderoso e pacífico quanto o que vivo neste momento, numa manhã de sábado chuvosa no coração do Rio de Janeiro, sem lenço e sem documento, enquanto alguém que me desconhece poderá entender exatamente o contrário do que eu quis escrever aqui.

Nem tudo é reflexão e seriedade. Há também o jocoso e o ridículo, também recíproco e capaz de também fazer pensar. Nós, calouros, respeitávamos os veteranos. Eles pareciam respeitáveis, mesmo vestidos com ternos duvidosos. Certa vez era bem cedo e um deles foi ao banheiro ao lado do hall silencioso. Não saiu. Algum tempo depois, precisei também por causa do pipi. Entrando, fui ao primeiro box. Do segundo, saíam urros e gemidos sugerindo um orgasmo. Tive vontade de rir, eu tinha vinte anos. O sexo abobalha. Contudo, o fedor do banheiro não sugeria tesão nem a presença de um casal ali. Saí, lavei minhas mãos e voltei para o hall deserto, em dia tão nublado como hoje. Meia hora depois, chegou o Bolinha. Subitamente o veterano saiu do banheiro de maneira impecável, sem acompanhante rumo à sala de aula. Contei o ocorrido e nós dois rimos a valer. Parecia orgasmo, mas era só dor de barriga.

Monday, August 21, 2023

Tchau, Raul

Naquele tempo eu tinha uns três períodos na faculdade, que escorreram como se fosse água na pia. Vivia encantado pelo prédio, pelas programações culturais - shows de rock e jazz, filmes de arte na concha acústica -, pelas garotas - todas lindas, cada uma de um jeito. Enfim, eu era o garoto pobre que conseguiu passar para a universidade pública em condições precaríssimas. Quando não estava na casa do Fred ou jogando botão no Luizinho, a UERJ era minha casa. 

Passei um dia inteiro por lá. Assisti aulas de manhã, levei Alessandra no ponto do ônibus, depois fui almoçar num restaurante natural que ficava lá na Souza Franco - a comida era deliciosa, barata e você podia repetir. Alguém da turma foi comigo, Gerson talvez, Alexandre, alguém mais. Voltei pra faculdade, eram quase três da tarde, melhor ficar e economizar a passagem de ônibus. 

Sentado no hall, fiquei lendo alguma coisa de Kerouac mas não mostrei pra ninguém. Eu era garoto, ali era um ambiente careta, a maioria não ia entender. Depois parei, a turma começou a falar de futebol e depois de música. Eram verdadeiras aulas, às vezes mais interessantes do que as da sala. 

Rapidinho bateu seis da noite. E choveu. Fez frio. Muita gente não apareceu, o corredor ficou vazio e triste, não havia risos nem musas. Assisti os dois primeiros tempos e depois avisaram que não ia ter a outra aula. Eu evitava de chegar em casa muito cedo, porque era uma época muito difícil de alcoolismo do meu pai, então tudo era briga, eu evitava ao máximo. 

Do nada, surgiu o Zé. Ele atrasadão, nem sabia que não teria outra aula, já se preparava para voltar pra casa. Eu não tinha mais nenhuma programação, resolvi descer. Voltar pra Copacabana, fazer hora no Sniff's e chegar em casa com os pais dormindo. Do nada, resolvemos parar no Bar do DCE, completamente vazio, e pedimos uma cerveja - lá vendia. Conversar um pouco e aliviar as dores da juventude sem emprego, sem dinheiro, chamado de vagabundo, sonhando em ter uma calculadora. 

Eu, Zé, o atendente do bar, o ventinho na varanda e tocando Rádio Fluminense - você tem ideia? Trocamos ideias, deu para gastar exatamente uma garrafa de cerveja. De repente, um rock depois do outro, entra uma faixa de Raul Seixas e o Zé vibra, porque era muito fã. O som baixa e a locução anuncia a morte de Raul Seixas. 

Em silêncio, pedimos a segunda cerveja. O Zé ficou transtornado. Eu, mesmo não sendo fã apaixonado mas ligado no trabalho do ômi, de repente senti um enorme, enorme vazio. Bebemos a cerveja em completo silêncio, com o Zé às vezes cortando a mudez: "Car@lh0, morreu Raul Seixas". A gente sabia que ele andava doente, mas ainda era muito novo. Muito.

Tudo era silêncio. Nossa descida para a portaria, o pedido de carona na entrada da UERJ - acredite: isso existia! -, nossa despedida. Meu amigo ficou triste paca. Eu consegui um bonde para Copacabana e, chegando ao meu bar oficial, lá estavam as pessoas chorando. Raul Seixas morreu. 

Engraçado que hoje achei a noite mais silenciosa e apavorante do que de costume. Há pouco, soube do aniversário da morte do Raul. Voltei exatamente naquele dia e senti exatamente a mesma tristeza, aquela não de um fã apaixonado mas modesto, certo de naquela noite fria do DCE, havia um gosto de derrota do Brasil numa Copa do Mundo, com a diferença que no futebol sempre é possível sair da adversidade para a glória. 

Uma tremenda saudade do Zé e da nossa juventude. Em 1989 eu ainda achava que o ser humano era viável. Toca Raul! 

@pauloandel

Saturday, August 19, 2023

Três botequins mortos

Entre dezembro de 1983 e agosto de 1990, se passaram mais de dois mil dias. Em 90% deles eu dediquei pelo menos uma hora diária ao Sniff's, o mitológico botequim que ficava aos pés da escada rolante que levava ao Teatro Teresa Raquel, o Teresão, um dos símbolos da cultura nacional, hoje Teatro Claro. Foi uma fase muito importante da minha vida, dos 15 aos 22 anos, onde pude aprender muita coisa com os veteranos da área, rir de montão, chorar um pouco e infelizmente até brigar. Faz parte da vida. O mais incrível é que fui um frequentador de botequim praticamente sem consumir álcool: ficava na Coca-Cola e no suco de morango ao leite. Anos depois, incentivado por minha amiga Ana Elisa, acabei escrevendo um pocket book sobre o Sniff's, um dos que mais gostei de fazer. O boteco resistiu a planos econômicos, golpes de estado, inflação galopante, desemprego e o escambau, mas perdeu a batalha para o COVID-19. Vida que segue. 

Eu vivia no Sniff's porque meus amigos escoteiros - sim! - lá estavam diariamente. Depois, os maravilhosos personagens do bar eram uma atração à parte. Por fim, apareciam as celebridades artísticas e culturais por conta do Teresa Raquel, então estava formado o grande caldo cultural para boas conversas, muitas hilariantes e outras que chegavam à beira da porrada. Era nosso bar oficial. Não tinha nenhum atrativo que cativasse o público além da birita e do bom papo. Comer por lá, nem pensar. 

No circuito do Shopping dos Antiquários, que não tinha esse nome nos anos 1980, o Sniff's teve dois concorrentes por longo tempo, melhor dizendo, um - o outro durou menos. Eram o Bole-Bole e o Abílio, que tinha outro nome mas só o chamávamos pelo nome do dono, gente boa. O Abílio durou anos e anos, o Bole-Bole acabou nos anos 1980 mesmo. Ambos eram nossos points ocasionais, às vezes para prestigiar os outros comerciante, noutras vezes em greve contra o Sniff's por algum motivo que nunca passava de dois dias. 

O Abílio ficava de um lado da grande e maravilhosa rampa circular do Shopping, bem em frente aos Supermercados Leão (onde tomávamos Ice Cream Soda nos sábados à tarde). Era um boteco simpático e nele os clientes comiam, ao contrário do Sniff's. Estava sempre cheio. Já o Bole-Bole ficava do outro lado, no outro corredor e estava sempre vazio. Era um refúgio de bebuns. Quem o comandava era Marieta, algo incomum para uma mulher naqueles tempos, onde volta e meia recebia alguma cantada dos fregueses. Quando o cidadão passava do ponto, ela dizia barbaridades sexuais que deixavam todo mundo sem graça e o assunto morria. 

O Bole-Bole era famoso por seus acepipes trash e uma pimenta que assustava todo mundo, mas devia ajudar a encarar os pratos. Em certa ocasião, nossos amigos João e Jésus fizeram uma aposta: o primeiro pagaria uma grana se o segundo encarasse uma almôndega do bar com uma pimenta quadrada aterrorizante. De olho na bufunfa, Jésus pegou o pratinho com duas almôndegas estilo semana passada. Abriu o garrafão, tacou a pimenta e mordeu. Ficou impassível, mas não conseguiu esconder as lágrimas quando mordeu a pimenta. João só ria. 

(continua)


Monday, August 14, 2023

Canção dos escroques, 2015 (remix)

No fim das contas, quem é o grande vitorioso? Você, que acumulou dinheiro e poder mentindo, trapaceando e humilhando os outros, hum? E você, cuja palavra e compromisso simplesmente não existem? 

Você, que vive de páginas bonitinhas e trechos bíblicos, mas faz as piores coisas com o próximo? E você, que deixa o mundo desabar porque não quer se envolver? Fala tanto em Deus e não desconfia de que ele está observando? 

Você, cuja ignorância suprema te faz acreditar ser melhor do que os outros, mesmo quando não existe uma vírgula disso? Gênio que, na verdade, não passa de besta metida a besta, com bacharelado em ciências curtas e apagadas, cuja capacidade não prevalece sequer numa linha de transmissão do WhatsApp? Comece tua semana debaixo de risos, patético. 

Você acha sinceramente que engana alguém? 

Você acha que ninguém fala sobre o teu mau caratismo comprovado? Que não sabem da tua falsidade? 

E você, cuja ingratidão se espalha numa calçada feito vômito? Acha que ninguém repara? Não se iluda, muita gente repara...

Sim, talvez você seja o grande vitorioso, mas numa única condição: a de ser o maior de todos os filh@sd@sput@s, ruim de verdade mesmo, disbólico no sentido ruim da expressão, o chorume da espécie. Porque, se não for, a tua consciência um dia irá te roer feito câncer, e esse não tem tratamento nem cura. 

Vai te doer dia após dia, te arder e te cortar dolorosamente. 

Quando menos esperar, você vai parar, pensar e chorar porque fazer o mal é espatifar cristal, e ele não se cola jamais.

A filh@d@put1ce é um ofício para muito poucos. Os canalhas de verdade, os que realmente desprezam a vida alheia, os que riem da desgraça dos outros. Se a tua  má fé não chega a esse ponto, tenta certeza: a tua ruindade vai te doer até os ossos, literalmente. 

Se você não tem especialização na escrotid@o, tenha muito cuidado: o ódio que você emitiu será o mesmo que vai te engolir...

Sunday, August 13, 2023

Madonna, 65 anos

(originalmente publicado em 16/08/2022)


Ela mexeu com o imaginário popular mundial, transitou entre gêneros musicais, desafiou definições e, aos recém-completados 65 anos de idade, ainda dá as cartas na cultura pop da Terra, com o handicap de ser a artista que mais vendeu álbuns em toda a história, indo muito além da lourinha sexy e provocante do começo dos anos 1980. Madonna Louise Ciccone é o nome. 

Há quarenta anos, a música pop estava no auge da massificação mundial. Ao mesmo tempo que produzia novos artistas, também os descartava. Alguns atravessavam temporadas, outros eram verão de uma só andorinha, muito poucos tinham a força descomunal de Michael Jackson, mas o fato é que Madonna chegou lá.

A estrela pop explodiu com seu álbum "Like a virgin", de capa deliciosamente sexy, e nunca mais parou. Poucos anos depois, arrumava enorme problema com a comunidade católica por retratar um Cristo negro em "Express Yourself", mas a grande polêmica mundial seria potencializada com seu mergulho artístico no sexo, especialmente a partir do videoclip de "Justify my love", proibido nos EUA e em outros países pela volúpia erótica. Suas turnês se tornaram gigantescas e, num mundo ainda corrompido por preconceito e ignorância, Madonna ganhou a benção e o prestígio mundial da comunidade LGBTQIA+, lotando seus shows em qualquer lugar.

Entre o começo da década de 1980 e meados de 1990, Madonna dominou rádios e TVs como nenhuma outra mulher na música. Durante um curto espaço de tempo, perto do fim do século XXI, mesmo consagrada, a estrela dava a falsa impressão de perda do estrelato. Ledo engano: bastaram "Ray of Light", "Music" e a espetacular "Beautiful Stranger" (integrante da trilha sonora do filme "Austin Powers") para que Madonna seguisse na crista da onda mundial. A seguir, ainda mais ligada em novas tendências, seu som passou a incorporar cada vez mais a tendência da música eletrônica, trazendo novos fãs e ampliando caminhos. Desde então, tem causado furor a cada nova turnê mundial. 

Todas as cantoras pop que surgiram a partir de Madonna prestam-lhe natural reverência, e nem há como ser diferente: ela é o ideal de sucesso e pluralidade, o mito, o sinônimo de consagração. É difícil imaginar que qualquer uma delas chegará também aos 64 anos com o mesmo tamanho da blondie girl, mas lutar é sempre preciso. E, por mais que todas tenham reconhecido sucesso mundial, nenhuma delas ameaçou o reinado de Madonna, que também alcançou as telas do cinema e as estantes das livrarias. 

Desafiadora, provocante, ousada, libertária, inovadora, Madonna chega onde nenhuma diva pop chegou. Tendo vendido mais de 300 milhões de discos em todo o mundo, ela é a artista feminina mais bem sucedida de todos os tempos segundo o Guiness Book. Com faturamento superior a 1,5 bilhão de dólares com ingressos para seus shows, ela continua sendo a artista solo de maior bilheteria em turnês de todos os tempos. Seus números astronômicos fazem jus ao seu tamanho artístico. E, ao que tudo indica, a multiartista ainda tem muita lenha para queimar. 


Monday, August 07, 2023

Copacabana 03:27 AM

Pessoas famintas e naturalmente chorosas, deitadas por esgotamento perto da igreja na Praça dos Paraíbas, bem perto do cadáver da Miami Peep Show.

Jovens sem futuro fumando crack na porta de agências bancárias nas imediações da Praça do Lido, sonhando com uma recuperação impossível. 

Dois amigos gays atravessam a imensa calçada do lado direito da Barata Ribeiro, que vai da Belford Roxo até o famoso Edifício Richard, ex-200, atual 194 - e Fausto Fawcett deve estar acordado escrevendo sua literatura high tech down by law. 

Na elegante rua Toneleiro, com suas múltiplas grafias, os prédios de garbo têm quase todas as suas janelas com luzes apagadas, enquanto uma moto passa no asfalto a 172 quilômetros por hora.

Alguém sente saudades da maravilhosa Sorveteria Bolonha, que viveu por cinquenta anos na esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro, mas não resistiu à pandemia. 

Bons espíritos podem se lembrar da Casa Gaio Marti, do Mercadinho Azul, do Metro Copacabana com seu ar condicionado potentíssimo e de tantos cinemas maravilhosos do bairro - somente o Joia resiste. Uma inimaginável Copacabana sem cinemas. 

De São Paulo, o espanhol Antonio Carlos Gonzalez ri das grandes noites do bairro nos anos 1980, repletas de garotas e loucuras.  

Bem mais de perto, há o cineasta e poeta Luiz Carlos Lacerda, que cortava o bairro com sua jovem e linda amiga Leila Diniz, culminando no Beco da Fome na madrugada. 

Algum saudosista esfomeado e com dinheiro deseja a volta do Gordon, a mitológica lanchonete que ficava aberta até às seis da manhã e tinha crepes, mate  e hambúrgueres maravilhosos. Alguém vai se lembrar do atendente Misaque? 

[meu coração é uma lágrima. paro um tempo, vou à geladeira, trago um copo com água gasosa. 

Temendo o despejo de sua quitinete, um garoto bonito e solitário chora num banco de concreto da praia de Copacabana, enquanto espia o mistério fúnebre do mar à madrugada - em 1993. 

Algumas garotas de programa ficam de sentinelas do sexo na avenida Atlântica perto do Posto Quatro. Mais adiante, fica o esplendor das travestis na Souza Lima, que Cler tanto admira. 

Numa conversa risonha do botequim na Aires Saldanha, alguém defende o fim da muralha da Praça Sarah Kubistchek. 

Os carros, esses invencíveis namorados do asfalto de Copacabana, vão e vem, cortando a velha Gotham City brasileira que já não tem vestígios do Sacha's, do Vogue e até da Fiorentina. 

Sempre tem alguém nos pontos de ônibus deixando o bairro que nunca dorme, a caminho da Central do Brasil, Nova Iguaçu ou Caxias. Quem sabe Vila da Penha? 

Nenhum vestígio de famosos moradores em situação de rua que marcaram época, tais como Baiano, Mister Éter e Ramiro, mas também não há de celebridades como Cat Stevens, Mick Jagger e Bob Dylan. Nem do grande aniversariante Caetano Veloso. 

Ivan Lessa, inesquecível cronista, sempre recordou o valão da praia em frente à Constante Ramos, com uma grande faixa de areia preta por causa do esgoto. 

Alguns poucos clientes nos quiosques da praia, compreensível por conta do medo da violência. 

Impávida, a estátua de Carlson Gracie senta praça bem perto do metrô da Siqueira Campos, leia-se acesso pela Figueiredo Magalhães, a metros do Shopping dos Antiquários e do Solar da Família Couceiro.

Quase nenhum jovem da região sabe dizer sobre o atentado no Edifício Albervania, melhor dizendo, o atentado contra Carlos Lacerda que levou ao suicídio de Getúlio Vargas em 1954. 

Daqui a pouco é um novo dia.

@pauloandel

A crônica não morrerá

Publicado por aí, um pretenso intelectual com infinitamente mais likes e dinheiro do que eu decretou: a crônica morrerá. E todo pretenso intelectual com muitos likes e dinheiro é louvado por sua corte a qualquer manifestação, mesmo que ela se pareça por exemplo com um flato. 

Para o dito cujo, não há mais tempo a se perder com o gênero essencialmente brasileiro. 

Há muito tempo, li e ouvi sobre o fim do rádio. Depois, o fim do jornal, das revistas, dos livros, agora da crônica e também da televisão. Ok, o mundo muda muito, mas não a ponto de desintegrar certas coisas. 

Comecei a escrever para mim mesmo, há 40 anos. Ninguém leu, eu tinha vergonha do que escrevia e joguei tudo fora. Assim fiquei até 1993, com 25 anos, quando passei a colaborar com o jornal da faculdade e recebi elogios de colegas que hoje nem sabem da minha existência - ou seja, as palavras foram sinceras. Poucos anos depois, um escritor premiado internacionalmente me convidou para colaborar em sua revista. Comemorei como se tivesse feito um gol no Maracanã e nunca enviei nada, por vergonha. Essa tolice me custou uma década até ser finalmente publicado em 2010 e, sete anos depois, também fora do futebol. 

Publiquei alguns livros lidos por milhares de pessoas e outros que ninguém leu. Continuei pobre. Tenho uma vida de sofrimentos. Contudo, escrever é meu oxigênio. Por isso, meu nome está na autoria e coautoria de mais de 40 livros. Gosto de todos, especialmente os menos lidos. Semanalmente escrevo em blogs, sites e num jornal de grande circulação no Rio. 

Por que eu deveria parar de escrever, fazendo o que sei? Por que eu mesmo deveria sabotar uma das únicas alegrias da minha vida?

Escrevo, não obrigo ninguém a ler. É uma experiência voluntária de quem se interessa pelo meu trabalho. Tirando alguns livros, as pessoas leem meus escritos gratuitamente. Hoje, mais do que meu prazer, é praticamente uma tentativa de sobrevivência nesse mundo injusto, cruel e opressor. 

A internet é um dos grandes inventos da história. Graças a ela, muitos escritores puderam ser descobertos e lidos, pessoas se aproximaram e interagiram, tanta coisa boa aconteceu, não há o menor sentido em se acreditar no fim da crônica. Ela viverá, porque conta as pequenas histórias de tudo que vivemos, mesmo quando já não estivermos mais aqui. 

Simples ou profunda, divertida ou pesada, apaixonada ou fria, esperançosa ou cética, a crônica veio para ficar. Pode não chegar mais a milhões ou centenas de milhares, mas terá o que dizer mesmo que para um só leitor. É o que basta.

@pauloandel

Sunday, August 06, 2023

A grande rampa

Para quem vai ao Maracanã há muito tempo, é certo que muita coisa mudou. O velho estádio setorizado virou uma arena, mas também segmentada e pior, gradeada. Não há vestígios da velha geral, nem do glorioso setor de cadeiras azuis, que já tiveram a cor laranja também.

Sábado passado, para aliviar um pouco das dores da vida, fui assistir Fluminense e Palmeiras. Comprei o ingresso em cima da hora no único local disponível, Leste Superior, que antigamente chamávamos de meio de campo e, mais tarde, de cadeiras brancas. Resolvi fazer um caminho diferente, de muitos anos atrás: saltei no metrô São Cristóvão, indo a pé pelo Cefet e rememorando caminhadas fascinantes com meu pai rumo ao palácio do futebol. Mais policiado do que eu esperava, com pequenos grupos de tricolores rumando para o Maraca, eu fui junto. 

Uma saudade: parar bem na esquina e lembrar da antiga bilheteria, onde comprávamos nossos ingressos em 1978 e 1979, também onde garotinhos pediam moedas. Várias vezes meu pai comprou três, quatro ou cinco ingressos e deu para eles, que saíam enlouquecidos para entrar no Maior do Mundo e viver duas horas de sonho. Saudade que ia se repetir mais duas vezes: primeiro, ao lembrar que na entrada da Leste vi Alberto Lazzaroni pela última vez, há uns dois meses, e ele queria doar um ingresso sobressalente. Nos anos 1970 mil garotinhos viriam correndo, mas não conseguimos ninguém. E Alberto foi embora muito antes do justo e razoável. Segundo, bem perto do encontro de Alberto, fica um degrau da escadinha onde eu sentava com meu pai, às vezes uma hora antes dos portões abrirem - ele adorava chegar cedo. Tempos em que o Maracanã era cercado por bancos de praça e vendedores de laranja, a fruta mesmo, mais cara quando descascada. 

Ir de Leste Superior, assim como na Oeste, dá direito a uma experiência maravilhosa: subir a rampa original do Maracanã, a imortal, que serve aos torcedores há 73 anos. Dela, eu já aproveitei quase 50. Subo lentamente com meu chinelinho velho e sinto vontade de chorar muitas vezes, porque todos aqueles anos incríveis vêm à tona: a emoção de rever a infância, a sensação de ter meu pai ao lado, espiar às torcidas organizadas vendendo seus produtos nas pilastras, aqueles garotinhos da bilheteria subindo e rindo tão felizes mesmo com roupas rasgadas ou descalços, os senhores carregando suas almofadinhas para aliviar o calor na arquibancada. Subidas com esperança em vitórias maravilhosas que nem sempre vieram, a seguir descidas de cabeça quente ou repletas de vitória. 

Dois minutos de subida que valem uma vida. Agora estou sozinho, ninguém me acompanha e o novo Maracanã tem uma pequena rampa anexa para continuar o percurso até a entrada do setor. Para quem viveu muito o Maracanã, um jogo não é só um jogo: há toda uma carga do passado maravilhoso. Então compro meu velho cachorro quente, um mate, vou para a arquibancada e repito um ritual de muitos e muitos anos: olhar para o novo e rever os anos inesquecíveis de minha vida. 

O jogo é duro, meu amigo Edgard não pôde vir, o Luciano chegou atrasado e vimos o Fluminense vencer bem. Teve gol de pênalti e gol bonito. Ver o Marcelo tocando a bola e driblando relembra momentos espetaculares do nosso futebol, que eram muito comuns. Tudo é diferente, sem dúvidas, mas tem sabor. Difícil foi ver o Alberto no obituário do telão, é estranho demais porque ele era cheio de vida e, num estalar de dedos, tudo mudou. 

Fim de jogo, a torcida do Fluzão sai feliz e confiante, então descemos a rampa e me sinto em berço esplêndido como em nenhum outro lugar. Há mais de 70 anos, quanta gente desceu ali? Quantas vezes houve alegria ou tristeza. Quantas vezes não saímos inebriados com um golaço ou uma jogada inesquecível? Fui feliz ali muitas vezes, mesmo nos piores momentos. 

Logo depois do portão, me despeço do Luciano e, à esquerda, está o nosso degrauzinho, meu e do meu pai. É a lembrança, é o que me resta. Tal como na ida, faço a volta diferente e vou a pé para o metrô de São Cristóvão, depois salto no Catete, peço um lanche no Big Néctar e lamento muito que meu amigo Eric não esteja lá para me acompanhar num sanduíche. Ainda vou pegar um táxi para casa. Na terça que vem eu vou de Norte, então não vai ter a emoção da grande rampa, mas espero que se repita em muito breve. 

@pauloandel 


O trovador anônimo

O Sr. Robert, 70, desceu à rua. Veio ao Rio de Janeiro por motivos profissionais, mas já conhecia a cidade de outros tempos.

Num domingo nem frio, nem quente, com nuvens em Copacabana, ele caminhou vestindo um casaco talvez jeans, uma touca e óculos escuros. Noutros lugares, talvez a indumentária chamasse a atenção, mas não no bairro da praia mais famosa do mundo, onde andar vestido com um uniforme de super-herói ou com uma fantasia de viking não causa qualquer espécie - desde os anos 1940, alguns moradores da região faziam coisas bem piores (ou melhores, dependendo do ponto de vista).

Passando pela Rua Ronald de Carvalho, avistando a Praça do Lido, depois engatando na Belford Roxo (onde já não se encontra a famosa discoteca Pussy Cat, com deliciosas garotas de lingerie, se muito) e espiando o mar na Avenida Atlântica, para depois voltar pela Prado Júnior (a menor avenida do mundo, berço dos prazeres mundanos do bairro) e encontrar a Barata Ribeiro (passando em frente ao Cervantes, o mitológico bar de sanduíches e chopes imortais, frequentado pelo poeta Fausto Fawcett, o Jack Kerouac de Copacabana - já o Jack Kerouac original é um dos ídolos do flâneur em questão), o Sr. Robert andou com as mãos no bolso, discretamente, e não trocou uma só palavra com qualquer pedestre, o que não lhe era estranho - ao trabalhar em outras cidades do exterior, muitas vezes foi às ruas para bater perna e espionar um pouco dos mundos humanos. 

Ninguém o estranhou, pediu-lhe alguma informação ou perguntou-lhe as horas. 

Caminhou por uma hora aproximadamente até voltar aos seus aposentos, de onde só sairia à noite para a lida profissional. Experimentou a música urbana das ruas de Copacabana. 

Durante o percurso, espiou revistas numa banca de jornal e achou graça numa manchete musical pendurada. Admirou duas lindas mulheres, uma delas muito parecida com sua musa Alicia Keys. Riu de um garotinho que corria atrás de um balão. E estranhou que os carros ultrapassassem o sinal vermelho numa boa. 

Conforme o esperado, à noite ele desceu novamente, agora para a labuta. Uma van o esperava à portaria. Foi para o seu ofício de muitos anos, onde foi efusivamente recebido pela sua clientela e retornou já de madrugada, apenas para dormir e preparar uma nova viagem a serviço, prática que já exerce há tempos e tempos. Sua caminhada pelas ruas de Copacabana teve um sabor especial: em muitas viagens, ele não tem a oportunidade de caminhar nas ruas, seja pelo tempo escasso ou por outras questões. 

Na manhã de segunda-feira, já estava sentando praça no Aeroporto Tom Jobim, pronto para mais uma jornada de trabalho em algum lugar dos mistérios do mundo.

Dias depois, foi revelado que um único cidadão teve a curiosidade de registrar a caminhada breve, anônima e solitária do Sr. Robert pelas ruas dark side de Copacabana. Ele o fotografou em close, mas ninguém tinha entendido nada nem prestou atenção - o bairro que nunca dorme tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. As fotos foram parar em jornais e revistas imediatamente. 

Nem todo mundo sabe que o Sr. Robert é na verdade o maior artista estadunidense vivo em qualquer área, atendendo em suas rodas de trabalho - há mais de meio século – pela alcunha de Bob Dylan, o bardo imortal. 

[os tempos mudaram, rapazes!]


(Publicado originalmente em "Os trechos dos livros que ainda não foram escritos", Vilarejo Metaeditora, 2018)

Friday, August 04, 2023

Do Aterro ao Caravelle

I


Pedi o carro e, minutos depois, estava no Aterro. Às vezes a gente se esquece de como aquele caminho é bonito. Você descer direto até o Túnel do Pasmado e depois o novo, seguir até a praia e espiar os mistérios do Atlântico Sul. 


Burle Marx queria o Aterro inteiro sem luz elétrica. Achava que o parque ficava mais romântico. Não dava, ainda mais hoje, mas as luzes em nada atrapalham a beleza do parque, colada à geografia descomunal do Pão de Açúcar. 


Como é bonito. 


É o Rio de Janeiro que todos os cariocas merecem. 


Dura uns sete minutos de carro até o túnel, mas que valem um mês. 


Já estou com saudades.


II


Se o Aterro é bonito, Copacabana instiga. Eu era criança e, quando passava do terreno onde seria o Rio Sul, brincava de pensar que o túnel do tempo me levaria para outra época, até desembocar na Princesa Isabel. Hoje em dia, velho de doer, ainda tenho a mesma sensação. Talvez porque no fundo, bem no fundo, em certas coisas a gente nunca deixa de ser criança. 


Eu deveria estar desesperado, lutando contra uma ânsia justificada pelo suicídio, mas basta olhar para a esquerda do carro e tudo passa por alguns instantes, de forma alucinógena. É o mar, é o Atlântico Sul espumando na boca de Copacabana. Entorpecido pela vista, aproveito os pouquíssimos minutos para namorar minha terra natal. As areias desertas são mistério, as traves já testemunharam craques e craques, assim como as redes de vôlei e futevôlei. Senhor! Onde foram parar minhas musas maravilhosas, as crushs de hoje em dia, as garotas lindas que nos faziam suspirar? 


Força e Saúde, Racing, Juventus, Bairro. Tudo é vivo demais depois de quarenta longos anos. 


O motorista é gente boa. Faço logo o pix da corrida para não atrasá-lo. Ok, eu sei que há muita tristeza e miséria nas ruas de Copacabana, talvez como nunca antes, mas hoje eu vou dar uma única chance à minha pequena alegria.


Então vejo direitinho os falecidos caminhando na calçada ou atravessando a Atlântica, ou ainda jogando altinho. Muitas gente boa se foi. Eu fiquei para chorar, mas é um consolo rever a praia onde nasci e vivi. 


III


Domingos Ferreira é a rua do Edifício Master, consagrado no documentário de Eduardo Coutinho. E também dos galetos, do Sesc, do falecido primeiro Bob's, do Istambul e, claro, do Caravelle (é a pizzaria mas nos acostumamos com o artigo definido masculino). 


Meus amigos estão lá. Talvez sejam os últimos, os únicos, não sei dizer. Só sei que vamos rir a valer com besteiras e incorreções políticas nas próximas três horas. Já estão Cler e Raul, Gomez vai atrasar como sempre, Luiz dará uma passada por conta de intempéries.


São coisas simples. Pizza napolitana incomparável, Malzbier, chope, depois uma lasanha dividida por quatro. Gomez chega atrasadíssimo (como nos últimos 40 anos), Luiz aparece, a gente fala, fala, fala e ri. Só besteiradas, que não repetimos com mais ninguém. O Xuru não veio porque foi embora há muito tempo, mas a gente se recusa a vê-lo como morto - é como se ele pudesse descer a qualquer maneira do prédio ao lado e viesse dar uma risadinha. Doce ilusão, doce. 


Rio tanto que esqueço dos pensamentos suicidas. A gente devia se ver mais vezes, porque tudo passa rápido e daqui a algum tempo - que espero estar longe - vai faltar mais alguém na mesa, porque assim é a vida. Temos liga de longa data, vem dos anos 1980. Rir é o melhor remédio, o melhor entorpecente. Fracassei em quase tudo, mas numa eu acertei em cheio: ajudei a juntar uns caras que parecem andar juntos para sempre, se sempre houver.