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Monday, May 24, 2021

Sobre o Fla x Flu 2021

Em 45 anos acompanhando o Fluminense, nunca tinha visto uma participação tão ridícula do meu time numa final como essa de 2021. Nem parecia um adversário, mas um convidado para a festa do outro. E pela primeira vez em 15 anos, não escrevi imediatamente uma crônica sobre a atuação, o que farei hoje ou amanhã. 

Agora, pior do que isso foi ver as verdadeiras trevas que viraram qualquer debate no Brasil, ainda mais sobre futebol. 

De tricolores, li e ouvi de tudo. Pode ser que a dor da derrota explique até certos arroubos e sandices, mas o que me preocupa é ver tanta gente boa conformada com tudo, como se o Fluminense fosse um clube pequeno, onde é bom ser vice-campeão ou quinto, sexto, sétimo, sei lá que diabos, depois de quase dez anos sem conquistas relevantes. Quem achar que está bom, que siga com isso mas conte com minha total ojeriza a respeito. Não sou obrigado a aderir pela campanha da mediocridade. 

De rubro-negros, sandices a granel, ao cúmulo de sugerir racismo tricolor em seu mosaico, apenas para suavizar a escrotidão de seus dirigentes, que deram um show explícito de irresponsabilidade no tocante à Covid19, chegando ao cúmulo da especulação de uma partida com público em Brasília depois de quase 500 mil mortos em nossas vistas - porque esse foi o único motivo da decoração. Até o início da pandemia, basta olhar no YouTube, a única torcida no Maracanã que era predominantemente de população negra e foi substituída por uma massa nitidamente branca não é a tricolor... Agora, se preferirem outra interpretação para os dizeres do mosaico, sugiro um pequeno lote: Serra Dourada/ ladrilheiro/ Papeletas Amarelas/ Roubado é mais gostoso/ Flamenguesa etc. 

Pior ainda é mais uma manipulação covarde de certa imprensa esportiva, querendo igualar números centenários na marra. Patético. O Flamengo foi infinitamente superior ao Fluminense nas últimas três decisões, mesmo com os já tradicionais erros de arbitragem que predominam para um lado. Nada disso era necessário. Do jeito que jogou sábado, o Fluminense não seria campeão nem com 24 horas de partida. 

Agora, ninguém tem culpa de que a pandemia impediu o Maracanã cheio, a festa etc que se vê em decisões passadas feito a de 1995, que aparece diariamente na TV ou tantas outras em que o Fluminense foi superior e campeão. Ou melhor, culpa tem, mas é alguém que não tem nada a ver com o futebol, embora bajulado por dirigentes da Gávea...

E antes que alguém fale alguma besteira, procure saber o que eu escrevo e falo sobre os dirigentes do meu clube há anos. Nada feito com ódio ou pessoalidade, nada. Tudo apenas no campo da divergência de ideias e conceitos. Se não gostam de mim por isso, dane-se: não sou tiete de dirigente, tenho mais o que escrever. Amar meu time não pode me transformar numa besta subserviente a sistemas no mínimo espúrios. 

Nada pode ser pior do que a ética seletiva, de conveniência, de circunstância. O sujeito ético por ocasião é tão calhorda quanto o anti-ético. 

Sunday, May 23, 2021

Bob Dylan, 80 anos

Cada um conheceu Bob Dylan de um jeito. Eu me lembro da primeira vez que ouvi seu nome e vi seu rosto: foi em 1977, em Vicente de Carvalho, quando ele tinha 36 anos e já era um ícone mundial. Eu tinha de oito para nove, e estava comprando figurinhas com meu pai numa banca de jornais, para um álbum de nome Multicolor. Chegando em casa, abri o pacote e saiu a figurinha de Bob Dylan. Achei o nome muito diferente. Meu pai disse apenas "é um grande artista", ele não falava muito. 

Seis anos depois, eu já ouvia Bob Dylan quase todo dia, já que as rádios o tinham como presença obrigatória tanto nos programas de flashback ("Lay, Lady, lay") quanto na programação habitual - Dylan tocava o tempo todo com "Jokerman", sua volta ao sucesso e que ganhou bela releitura de Caetano Veloso. E de lá para cá, nunca mais o larguei. Em 1990, eu estava com meu amigo Zé Luiz na Apoteose em noite histórica e, oito anos mais tarde, no incrível show de Cássia Eller, Bob Dylan e os Rolling Stones. 

Em 1994, Bob Dylan lançou o "Acústico MTV", que o levou a um novo e renomado público. Foi o primeiro passo de uma recuperação definitiva: desde então, todos os seus álbuns foram aclamados pela crítica a partir de "Time out of mind" (1997) e, se não possuem hits semelhantes aos primeiros dez anos de carreira - quando literalmente mudou o mundo, sendo um digno sucessor da literatura beat, além de mudar o curso de ninguém menos do que os Beatles -, são obras de grande esmero daquele que é o maior artista estadunidense vivo. Uma pérola atrás da outra. 

Escritor, pintor, poeta, compositor, Bob Dylan é a única pessoa no mundo a ter ganho o Prêmio Nobel de Literatura, o Prêmio Pulitzer, o Oscar, o Grammy e o Globo de Ouro. Dificilmente alguém conseguirá igualar tal façanha. 

Eu fui um garoto que cheguei à literatura beat graças a Bob Dylan, e fico pensando em quanta gente no mundo teve a mesma experiência definitiva. Ele mesmo saiu de casa quando leu Jack Kerouac, e uma de suas fotos mais famosas é dele com Allen Ginsberg, ambos sentados de pernas cruzadas, aos pés do túmulo de Jack com Allen lendo. Desde o dia em que deixou sua casa para sempre, mesmo sem ter planejado, Bob Dylan mexeu com os alicerces da cultura ocidental. Fez tudo de seu próprio jeito, encarou vaias, trocou de religião e nunca parou de tocar, exceto quando veio a pandemia. Isso não o impediu de lançar seu mais recente álbum, "Rough and Rowdy Ways" em 2020, que encerra com a espetacular "Murder Most Foul", faixa épica e crítica de 16 minutos baseada no assassinato de John Kennedy. 

Dylan há muitos anos iniciou a "Neverending Tour" e se espera que, na volta à normalidade, ela prossiga. Não é possível prever até quando, mas uma coisa é certa: ver Bob Dylan em ação num palco é uma das mais avassaladoras experiências que uma pessoa pode ter com arte. O referido é verdade e dou fé. A maravilhosa Chrissie Hynde, dos Pretenders, concorda: ela acaba de gravar um LP de covers  do poeta. Bob Dylan é uma fonte inesgotável, assim como seu ídolo Woody Guthrie foi para ele. 

@pauloandel

caramelo

um cachorrinho cor de caramelo trotando e flanando pelas ruas da cidade. ora corre, ora para. sem coleira, sem dono, sem nada. 

espiando os homens coléricos em suas motocicletas numa passeata suspeita, gritando violências e ostentando armas. 

os transeuntes que vêm e vão com suas vidas para seus destinos. 

sem entender mas sentir, o cãozinho fita a frangueira na padaria da esquina, os frangos indo e vindo até ficarem assados e prontos, com farofa e batata frita, para o almoço de quem tem dinheiro. 

ele pode voltar e se abrigar debaixo da marquise, sem precisar ficar perto de tanta gente que mora ali, com fome, sem casa, sem nada.

pode atravessar a rua e chegar à praça, onde outros cachorros bem cuidados estão com seus donos, com ou sem coleira dependendo da ocasião. perto deles, empregadas uniformizadas tomam conta de crianças vindas dos lares abonados, e estas adoram brincar com cachorros. 

um cachorrinho caramelo magro, miúdo, olhando para o mundo que não entende mas sente, sente tanto que é capaz de ficar parado perto de um garoto chorando sentado num banco da praia, ouvindo canções no walkman sem saber como será o dia seguinte.

quem sabe parar perto de um canteiro florido? 

onde conseguir uma tigela d'água? 

alguém faria a caridade de uma bolinha de borracha para brincar? 

o cachorrinho caramelo late ao longe bem alto para que alguém lhe dê atenção, mas as pessoas estão muito apressadas ou ocupadas para prestar atenção.

com suas patinhas, ele vaga em busca da vida numa manhã nublada de domingo, sonhando com uma ração suculenta, um bife, uma tigela de água e algum carinho, mas a cidade não é fácil e pouca gente consegue encontrar felicidade de verdade. é que as ruas estão lotadas de indiferença e os cemitérios, cheios de empáfia nas tumbas. 

um cachorrinho caramelo magrinho, miúdo, tentando viver em paz neste lugar tão orientado para a guerra e o ódio, mas que ainda pode ter chance. 

sozinho. sozinho. 

caramelo. um cachorrinho. 

@pauloandel

Tuesday, May 18, 2021

Lou & Patti

Quando Lou Reed morreu, Patti Smith escreveu uma linda e comovente carta. Num dos trechos, disse: 

"Ele era nossa ligação com o ar infame da Factory. Ele fez Edie Sedwick dançar. Andy Warhol sussurava em seu ouvido. Lou trouxe as sensibilidades da arte e literatura para a sua música. Ele era o poeta de Nova Iorque da nossa geração, defendendo os desajustados como Whitman havia defendido os trabalhadores e Lorca os perseguidos."

Eu conheci Lou Reed aos 13 anos, em 1982, quando ele já era uma referência mundial. Foi de maneira insólita: meu amigo Fred, que já era grandão e gordinho, pediu para que eu fosse com ele buscar duas calças jeans que havia encomendado no Rey das Calças, no coração de Copacabana. Fred estava com um disco do Judas Priest na mão. Ao chegarmos lá, rolou um papo de rock com o vendedor, entrou o Judas e no fim ele disse que Lou era uma "bicha maravilhosa". Tempos depois, é claro que aquela informação não fazia a menor importância: éramos de Copacabana, os gays estavam por toda parte e nunca sofri qualquer assédio. Ok, um vizinho tinha a mania de ficar piscando para mim no corredor, mas depois que me viu de mãos dadas com Patrícia, sossegou. Tudo bem. 

Anos depois, quando pude, comprei CDs de Lou Reed, li suas histórias loucas e ótimas, sua poesia rascante e crua - como deve ser. Mais de meio século depois, toda banda de rock alternativo tem um quê do Velvet Underground, nome e referência eterna. 

Lembro que estive numa exposição do CCBB sobre a soturna Nova York que atravessou as décadas de 1960 e 1970, temperadas pela desilusão e drogas pesadaças. Muitas fotos da época, várias de Robert Mapplethorpe, artista genial por quem Patti Smith era apaixonada. Outras tantas do Velvet com Nico, a charmosa cantora, Andy Warhol com sua divertida bitchness, e ainda outras de ninguém: ruas desertas, sombrias, tudo em delicado preto e branco. 

Ainda o Velvet Underground: sobreviveram apenas a baterista Mo Tucker e o incansável John Cale. Sterling Morrison se foi cedo, Lou Reed ainda aguentou o tranco e fez grandes álbuns. Gosto até do que ele fez com o Metallica, odiado por quase todo mundo. Já Patti Smith eu consegui ver ao vivo no Tim Festival em 2006, graças ao ingresso que meu amigo Bruno Saraceni me deu. Também vimos juntos os fabulosos Beastie Boys num show demolidor. 

Alguma coisa da noite atual do Centro do Rio me remete àquela exposição sobre Nova York. Temos ruas desertas, decadência, violência, desesperança. Fica faltando descobrir onde estão nosso Velvet Underground, nossa Patti Smith e, claro, Robert Mapplethorpe. Eles saíram de uma enrascada enorme, servem de bom presságio para nós. Lou Reed continua sendo uma força da natureza, com sua poesia de nocautes. 

@pauloandel

Monday, May 17, 2021

segunda

então começa mais uma semana nesta terra cheia de dor, desprezo e arrogância, mas nós, grandes corporações de água e carne, caminhamos para atravessá-la. é preciso, não resta outro caminho. sim, somos bolas gordas e magras de água e carne, preparadas para apodrecer a qualquer momento. 

isolados dentro de casa, nos deparamos com o museu de grandes novidades, um verso de cazuza, o maravilhoso poeta dos anos 1980: crianças desaparecidas, personalidades mortas, violência, fome, solidão. no ar uma peste que mata e atordoa. não é preciso estar nas ruas para saber de sua agonia. há quem enxergue o progresso, mas de maneira muito peculiar.

na janela fechada do quarto, uma cortina azul-escuro deixa escapar uma réstia de sol nublado. 

em algum lugar que não sei dizer, nós nos perdemos de vez. deve ter sido quando alguns sujeitos passaram a acreditar que eram as únicas pessoas importantes num mundo com bilhões de habitantes. ou quando o imaginário coletivo passou a entender que o outro não tem importância para a satisfação individual. a era do descartável devia ser limitada aos objetos, mas chegou às pessoas e assim estamos. bem mal.

o trânsito está tão devagar que o barulho do ônibus é menor do que o de um cachorrinho esperto latindo nas imediações. precisamos escutar mais os latidos, porque a desumanidade leva muitos a confundir os sons caninos com os choros humanos, desprezando ambos. é isso: nós viramos a capital mundial do desprezo. 

mantendo a rotina, o restaurante vizinho liga seus grandes aparelhos de operação, que lembram o som de turbinas de avião defeituosas. ninguém liga, nem os donos. 

na tv, uma matéria fala sobre o número de moradores na rua, que certamente é quatro ou cinco vezes maior do que qualquer estatística oficial. 

hora do home office em breve: banho, café, lágrimas, fracassos e postagens, postagens para vender, postagens para divulgar, revisões, cálculos e dinheiro algum. ainda são oito da manhã e há uma longa segunda-feira pela frente. isso para os que têm home office, porque a maioria não tem nada. 

mensagens inúteis, áudios inúteis, posts inúteis - aqui estamos! - enquanto a maioria celebra práticas nazifascistas acreditando se tratar de defesas da pátria e da família. pior ainda: a da liberdade. o direito de pisar na cara das outras pessoas para não sujar as próprias botas. o que isso tem a ver com a evolução humana? 

[eis a idade média com iPhone e iFood

cidade alta, parada de lucas, são josé operário, fé, tiroteios intensos em nome de uma guerra surda que estupra, humilha e mata pobres enquanto enche o bolso de empresários escroques. mais do mesmo a cada segunda-feira. 

[um jovem de cerca de trinta anos chamado andré, vestido com a bela camisa de 1902 do fluminense, mais uma máscara tricolor, sentado na calçada gelada e sonhando em sair do inferno das ruas. 

[trinta ovos por quinze reais. ovos são ótimos, mas não eram a base alimentar dos tempos da ditadura, com inflação mensal a 70%? deve ter algo errado.

lá fora o terceiro ônibus freia e para. é provável que o motorista não tenha visto o único passageiro à espera do serviço no sentido centro-estácio.

bom dia. boa semana. boa morte. 

Friday, May 14, 2021

short cuts 1

Sentado à mesa do velho bar da Cruz Vermelha um freguês chamado Mário. Sozinho no salão em tempos de pandemia, já com alguns tragos na cachola, dispara uma pérola interessante para o único interlocutor ali possível: ele mesmo. 

[O garçom está atendendo outro freguês, numa mesa do lado de fora do botequim, pouco importando a irregularidade do fato e o sereno da primeira noite fria do outono

"Por que ninguém mais abrevia seus nomes?"

"Lembram do guitarrista G. E. Smith, que tocou nos tempos áureos com Daryl Hall & John Oates e até com Bob Dylan? Smith acompanhou Dylan na Apoteose em 1990? Não tenho certeza."

"Poemas alucinantes de e. e. cummings, tudo realmente minúsculo como a elegância pede, Edward Estlin Cummings, um dos pais da poesia moderna para o terror de críticos e poetas conservadores."

"Por que precisamos de nomes pomposos por extenso? Bora abreviar!"

Uma voz imaginária ganha o salão do veterano botequim: 

- T. M. Stevens, lendário contrabaixista que já tocou com meio mundo americano, de Cindy Lauper a Joe Cocker! Fará 70 anos em breve. 

[É inaceitável que Cindy já tenha 70 anos, assim como aquela gata do B52's cujo nome esqueci

E continua:

- J. G. de. Araújo Jorge, poeta lidíssimo, consagrado no Rio de Janeiro mas tendo a infância passada no Acre. 

- O Acre é um mistério saboroso. De lá vieram Fernanda Takai, João Donato, Mitya Ghidini e outros. 

- Ainda sobre abreviações, não se esqueça do obscuro escritor e poeta p. r. andel, minúsculo também como e. e. cummings. 

Mário vê a solidão no salão do botequim por todos os lados, ri para não chorar, espera o garçom que não volta para um último trago e faz nova reflexão: "Tínhamos o J. Silvestre, o J. Jr. está por aí numa boa, mas é possível pensar que a decadência da abreviação de nomes no Brasil seja simbolizada por R. R. Soares." 

[Amanhã é uma sexta-feira fria do meio de maio, sem grandes expectativas e com um enorme passado pela frente

"Garçom, a conta por favor."

[Este bar está cheio de ninguém

@pauloandel

Friday, May 07, 2021

Copacabana

copacabana, uma semana de quinze dias

da graça de deus e o diabo


juntando o novo e o velho, o pobre e o rico, 

o avant-garde e a cafonália


[o excêntrico e o pop rock


deusas do sexo, velhinhas moralistas, 

maduros sacanas e garotos nerds


[quase todos se encontram na praia


respeitáveis condomínios orgiásticos

e barracos imperiais na favela


machistas musculosos dando pinta na 

caserna mas odiando as liberdades


e lindas putas tristes com seus collants 

coloridos jantando ao meio dia


ao contrário dos crackers da rua siqueira 

campos perto das casas da banha


copacabana, onda a igreja aluga lojas para o 

bas-fond sem pecado ou rancor


e garotos espertos atravessam a boca do 

lobo à madrugada no Bairro Peixoto


lindas gatas roteiristas escrevem 

barbaridades divertidas para a TV


e os veteranos do posto seis esperam a hora 

dos clássicos de peteca


pode ser Gerald Thomas ou Jorge Ileli ou 

Júlio Bressane numa nova arte


ou Nelson Sargento a caminho da loja de 

DVDs


pode ser João Roberto Kelly navegando a 

noite


ou Paulo Amaral batendo papo com Orlando 

Fantoni perto do Marimbás


ai de ti, Copacabana: bela e faiscante, 

devassa e lúcida


teus escritores e poetas, teus cineastas e 

pianistas, tuas nobres cantoras


teus moleques da areia caçando cola ou 

jogando bola à luz dos refletores


traga à tona as vedetes, os boêmios e os 

admiráveis inferninhos perdidos


e quitinetes lotadas de sonhos e ingênua 

busca da prosperidade


a fantasia, o medo e a aventura num 

ménage a trois dos sentidos


copacabana dos encantos doidivanas, dos 

malucos geniais e dos engomadinhos


o mar vadio e um exército de edifícios 

fazendo sentinela na terra 


o Atlântico Sul de tantos amores e 

folguedos, sempre renovado


Copacabana da Prado Júnior, um caldeirão 

de gentes e cores


o carnavalesco Clóvis Bornay ajeitando o 

cavanhaque na porta do Coruja Bar


os jovens Luiz Carlos Lacerda e Leila Diniz a 

caminho do Beco da Fome


o árbitro Armando Marques descendo a 

Figueiredo Magalhães todo prosa


a espetacular modelo Georgia Wortmann na 

caixa da loja de pão de queijo


batalhões de estranhos lutando por um 

lugar ao sol e o pão nosso de cada dia


Copacabana, musa decana, garota dourada, 

império de céu e mar


[dai-nos a paz


("Nada vira do avesso II", Caio Lima e Paulo-Roberto Andel, Vilarejo Metaeditora, 2020)

sexta-feira sete

ACORDEI muito antes do razoável em mais um dia nessa terra de angústias. Dormi um pouco antes do normal, desabado, depois de ver meu time desperdiçar a chance de uma vitória - foi uma das únicas coisas legais do dia, além do aniversário da Marina. De resto, mais um dia difícil. Não que eles não existissem, mas é que tem sido cada vez mais difícil ser brasileiro. Dor por toda parte. Dor. Indiferença. Intolerância. Incompreensão. Escrotidão, até mesmo de quem se diz consciente das questões sociais. Errar é humano, mas o brasileiro médio tem exagerado. 

LÁ FORA tem o silêncio. Enjoy the silence. Eu adorava o silêncio em noites no campo, quando era escoteiro. Todos estavam dormindo e eu de prontidão. Gostava. Tinha quinze, dezesseis anos, acreditava no mundo e nas pessoas. A ingenuidade é um tesouro.

Agora tenho medo do silêncio. Ele sugere abandono, ausência, alvorada decadente. Ligo a TV para não me sentir tão sozinho. Bem ao longe passa um ônibus lentamente, freando. As ruas já são vazias de dia, imagine à madrugada. Quando fui um garoto de Copacabana passando hora na rua, perto da portaria, até meu pai adormecer do inferno e poder ir para casa, eu via um certo silêncio na madrugada, só que naquele tempo o bairro era cheio de gente transitando à uma ou duas da manhã, cheio de carros e luzes no asfalto, como se fosse Nova York tropical. Havia silêncio na praia noturna também, mas os gritos do futebol cortavam a mudez, além dos risos dos casais que transavam à beira-mar.

Sinto saudades das sextas-feiras. Às vezes marcávamos um chope num bar preferido. Sempre preferi os mais vazios, onde se possa conversar. Escutar o interlocutor é puro respeito. Antigamente eu tinha colegas para isso, mas acabou muito antes da pandemia, é que as pessoas precisam pensar em si mesmas e isso não costuma contemplar o outro. Seria bom tomar uma cerveja depois do expediente, ter algum alívio, fingir por alguns instantes que a vida é boa, mas passou. Os poucos bares sobreviventes estão vazios. Perdemos o que havia de melhor. 

Seis da manhã. Estou suado. Vou tomar um banho. Na TV passam os gols da rodada com uma pressa imensa, mal dá para ver direito. O gol precisa ser respeitado. Quase ninguém liga. 

Estou cansado. A padaria ainda não abriu. Vou comprar três pães e comer antes de ir para o trabalho, sonhando com clientes que não sejam muquiranas. Sonhando com a vida digna que perdi, com um país que minimamente existia. Tudo isso é real, mas não passo de uma personagem. Pessoas vão curtir com lágrimas, desejar força e manter distância. Outras, muito poucas, vão tentar ajudar. Só os mais sensíveis vão entender que a prosa não é uma autobiografia. A dor existe mas somente os mais sensíveis irão entender. 

É sexta-feira de manhã. Os bares morrem numa quarta-feira. Ontem foi dia de chacina. Até quando seremos uma república federativa cheia de gente estúpida, desprezando o próximo e se entorpecendo com um falso amém cheio de ódio, uma falsa dancinha no reels, um inútil textão lacrador até que venha uma nova chacina, um novo crime hediondo, uma nova chacina, uma nova chacina, o sonho da redenção do próximo jogo, a próxima sexta-feira nublada com cheiro de ruas tristes? 

Estou cansado. São seis e treze da manhã. Nenhum ônibus passa. Um rapaz chora na televisão, contando de muitos tiros na porta de um bar. Tudo é inútil: corpos empilhados, vinte e quatro suspeitos mortos, um policial morto, barões do tráfico e da milícia sorriem, não faz diferença. Corpos empilhados garantem o sucesso dos negócios. 

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil. 

É quase tudo verdade. 

@pauloandel

Sunday, May 02, 2021

hamburguer

Queria comer um hamburguer. Tou com fome. Comecei a olhar o iFood e tudo é caro demais. Então resolvi desabafar um pouco e depois volto para lá. Aqui praticamente é meu único canal de troca e diálogo, enquanto ainda é possível.  

Lembrei de quando era garoto e ficava contente quando meus pais me davam algum dinheiro, suado, e eu economizava tudo para lanchar no Sumol ou na grande lanchonete que ficava na esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro, cujo nome já não recordo. Ou ainda o Bolonha, que o bozismo acabou de sepultar. Todas essas lanchonetes estão mortas. Todas tinham bifes próprios, suculentos. 

Por metade da década de 1980, o Gordon foi minha lanchonete oficial. Cheguei até a lanchar lá em pleno ano novo: eu e Fred comemos bastante, porque as garotas não aguentaram os sanduichões e faturamos. Havia um balconista educadíssimo chamado Misaque, homônimo de uma vítima da máfia carioca naquele tempo. O Gordon tinha crepe e sundae divinos, mas era impossível não pensar no Big Gordon, no Goleiro, no Angélico, no Toreador e no simpático Tudo. 

O Bob's da Domingos Ferreira era maravilhoso. Xuru morava bem em frente. 

O hamburguer da UERJ não era espetacular, mas quebrava um galhão em noites de muita fome e pouco dinheiro. Tenho saudade. Ando com saudades demais, não é saudosismo, não é oco, mas saber que era muito bom apesar das dificuldades - nunca é fácil quando você tem vinte anos de idade e precisa arrumar um emprego com urgência para ajudar seus pais, num país governado por Collor (claro que hoje é incrivelmente pior). 

(Enquanto penso, Noel Gallagher toca no programa de Jools Holland).

Falei de hamburgueres porque gosto. Pode ser de carne, pode ser vegetariano, pode tudo. 

(Lá fora começa o maldito silêncio sepulcral das noites de domingo).

Antes dos artesanais, eu ia sempre com Marina no Burger King do Barra Shopping, na verdade um pretexto para irmos à Livraria da Travessa e FNAC. Passávamos o dia lá. E pensar que o Brasil já teve FNAC...

Antigamente não se vendia caixas de hamburguer no supermercado. Quando a Sadia começou, minha mãe comprou uma com doze bifes, mais pão redondo com gergelim e queijo Chisi. Foi uma festa em casa. Tomate, cebola, maionese. Ela ficava contente demais quando me via lanchando porque sabia que eu estava contente. Quantas pessoas ficam felizes por saber que você está contente? Já se permitiu pensar a respeito?

Eu não sou egoísta porque estou falando de hamburgueres num país onde 110 milhões de pessoas não têm garantia das refeições diárias. Na verdade eu queria era que todas elas tivessem acesso aos pratos saborosos e aos hamburgueres também. Quantas pessoas você conhece que se preocupam DE VERDADE com a fome dos desconhecidos?

(Noel Gallagher sente saudades de David Bowie enquanto conversa com Jools Holland. Aimee Mann canta. Você se lembra dela fazendo vocais para o Rush?)

Vou escolher um hamburguer modesto mas não consigo pensar na garota que sumiu em Niterói, torcendo para que ela esteja bem, é irmã da amiga de um amigo meu e gostaria que ela estivesse bem. É tão jovem, bonita, tem o mundo pela frente, não pode desistir. 

Quando o sanduíche chegar, vou caminhar sozinho pela memória e saudar a velha Copacabana que me deu tantas coisas boas. Um bom sanduíche era o mundo. Estou deitado em casa. Espero ser vacinado e ficar mais alguns anos por aí, procurando esmolas de bondade cada vez mais escassas, já que meu país é na verdade um depósito de crueldade semeada em shopping centers - eles têm bons hamburgueres, é um alívio. 

(Algumas das piores pessoas que já conheci me abraçavam, me beijavam e me chamavam de querido, tudo muito pior do que no tempo em que eu comia um sanduíche sozinho, mas feliz, num balcão simples). 

@pauloandel

Friday, April 23, 2021

dia do escoteiro

Aconteceu que a turma saiu cedo como sempre - marcado às sete para partir às oito da manhã - na quinta-feira, mas eu tinha um compromisso à tarde e só poderia viajar à noite. De toda forma, ajudei no embarque; depois, voltei para casa. Nem precisamos acordar Macedo, um fato raro. 

Estudei um pouco de Matemática, almocei e sai para resolver pendências. Perto das quatro da tarde, estava de volta. Um banho rápido, a mochila estava pronta, vesti o uniforme e desci a caminho do ônibus 136. Em pouco mais de meia hora, com a cidade esvaziada, cheguei à rodoviária. Não havia muito movimento para véspera do feriado, culpa da inflação galopante de 70% ao mês, suponho. 

O 1001 estava ocupado pela metade. Bem confortável. Peguei um livro para me distrair durante a viagem, mas a leitura foi entrecortada pela paisagem: eu gosto de janela, de estrada, de ver o que se passa pelo caminho ou o que quase se vê no percurso escuro. Não havia ninguém ao meu lado, de modo que pude me espreguiçar com as duas poltronas. Entre campos e casas, comércios de beira de estrada, postos de gasolina e supermercados, uma hora e meia depois eu estava à porta do acampamento nas Chácaras Vale do Sol. 

Mal deu tempo de me apresentar ou abraçar os camaradas, quando fui chamado para uma emergência: salvar o arroz do jantar dos lobinhos, numa panela gigantesca que exigia cuidados diversos. Dois anos antes, eu não cozinhava, mas a péssima comida de alguns acampamentos me fez estudar os caminhos e fiquei bom de massa.

Imediatamente fui para a cozinha montada e preparei as colheres para a operação anti papa de arroz. Dividi com outra panela para controlar melhor o processo - quando se cozinha praticamente ao relento com um pequeno fogareiro, é necessário - e tudo corria bem. Dois escoteiros me acompanhavam, tentando pegar de olho o procedimento para uma ocasião qualquer.

Em três segundos, alguém gritou "Que marimbondo GRANDÃO!" e só deu tempo de me desvencilhar sem mexer as pernas - as queimaria na certa com a panela. Um esbarrou no outro, susto na cozinha e o inacreditável: o marimbondo caiu na panela de arroz fervente. 

Ninguém viu, só eu. De qualquer maneira, tinha que tirar o corpo da panela. Mexi, remexi, voltei e não havia um pedacinho do bicho. Morreu no fundo, coitado, no calor do inferno que os fascistas merecem. Depois de minutos e minutos sem a localização do corpo, decidi ficar na cozinha para também servir à Alcateia. Não queria nenhuma criança assustada e ninguém melhor do que eu mesmo para achar o pobre maribondo desnorteado. 

A fila indiana se fez. Todo mundo estava com fome, já passava de oito horas. Vinte e quatro crianças entre sete e dez anos. Eu, adultíssimo, com quinze. 

A carne moída com pomarola e cebola ficou ótima, as batatas cozidas também. Alguns lobinhos adoraram o arroz, chegando a elogiar - e nada é mais sincero do que um elogio de criança. Sorri também, mas a cada colherada servida eu procurava o cadáver para remoção e nada, sob tensão. Doze, quinze, vinte e quatro pratos. Os assistentes. Os chefes. Eu. Nada de marimbondo. Cheguei ao final da panela, raspando o arroz que todos adoraram, inclusive eu mesmo. Não havia um milímetro inteiro daquele corpo. Desintegrou-se na panela. 

Uma hora depois da janta, os escoteiros me convidaram para a guerrilha deles. Agradeci. Os lobinhos já tinham ido dormir. Preferi ficar sozinho, de frente para o campo, em silêncio, com a noite fazendo as vezes de telhado. Sentado num tonel, liguei meu rádio FM e quase todas as estações estavam tocando Stevie Wonder, estouradaço com a trilha sonora de um filme.

Cinco ou seis metros adiante, Patrícia me olhava e quase ria. Ela também jantou. 

@pauloandel

Wednesday, April 21, 2021

pequenininho

Amoçando com meu amigo Leo e, na mesa em frente, um jovem casal em apuros gastronômicos: o pequeno herdeiro, de meses, não podia ficar parado no colo da mãe ou do pai - imediatamente chorava bem alto, banguelinha, com enorme potência vocal infantil. 

Achei graça da cena. Leo também. A mãe balançava, o bebê ficava no mar da tranquilidade. Parou um segundo, buááááá! Depois o pai o pegou no colo e foi caminhar pelo salão, ele se acalmou. 

Ri também ao me lembrar que minha mãe me chamou de pequenininho até meus 38 anos, quando ela morreu. Raul me disse que Marô o chama de bebê, ele tem 44 anos e também me assusto porque, para mim, sempre será um garoto. Os referenciais mudam. Somos todos pequenininhos para os pais e mães. Meu pai não era de falar muito, mas devia me achar pequenininho também. 

É claro que a vida é como sabemos, e naturalmente todos vamos morrer. Mas tinha que ter um jeito dos filhos não terem que sofrer com a morte dos pais e vice-versa. É um delírio, é surrealismo, não dá mas deveria dar. A orfandade é algo tão doloroso que basta algum amigo sofrê-la e você sofre duas vezes, pela solidariedade e pelas próprias lembranças. 

Às vezes rio quando lembro da minha mãe. Ela detestava que eu a chamasse de Garfield porque o achava muito feio. Nem de pinguim, porque era muito baixinho. Minha mãe sofreu demais mas foi muito boa para mim. Pouco tempo antes de morrer, ela me disse que tinha orgulho de mim porque eu fazia o bem, e que se não fosse minha mãe queria ter sido minha amiga. É um dos poucos orgulhos que carrego. 

Hoje morreu a mãe do Silvio. Senti o velho soco duas vezes, o da dor dele e da minha, que carrego para sempre. Não tem jeito. Você segue em frente, há muito a ser feito, mas em algum lugar da sala fica um vazio desértico. 

Foi o Thiago, foi a Gisele outro dia por aqui. Tudo o que estamos vivendo acentua as perdas: quem não vê uma notícia de óbito por aqui? Vamos em frente, vamos em frente. 

Na TV passa um jogo, acho que é da Inter de Limeira. Estou deitado na mesma cama em que praticamente nasci. 

Já faz tempo. O tempo.

@pauloandel

Monday, March 01, 2021

o aniversário mais triste do Rio

Você vê na televisão as festas piratas, a boemia jovem da Zona Sul, os tumultos localizados e a confusão no transporte de massa, mas acredite: afora isso, a cidade do Rio em sua maioria mais parece um feriado interminável, nublado, de gris tristonha. 

Lojas fechadas, calçadas vazias, prédios que parecem abandonados. Dor, miséria, sofrimento. Perto da Praça Tiradentes, mendigos choram de fome - não há restos sequer na lata de lixo. O que já era uma injustiça social desumana ficou bem pior. 

De outros bairros, parece que sequer existem: não aparecem nos noticiários, não recebem qualquer amparo, são ignorados. Mídia, só quando há um crime. Lembremos do Rocha, de Sampaio, do Jacaré, de Todos os Santos, Quintino, Pilates. Ricardo de Albuquerque. Jardim América. Inhaúma. São muitos. 

Há anos, desde o golpe, o projeto subliminar de esmagar o Rio teve êxito. Afinal, aqui sempre residiu a voz crítica do país e o impulsionamento cultural - com todo respeito às outras localidades. Curiosamente, parte da população apoiou o projeto de destruição, elegendo em 2016 o pior prefeito do Rio e, em 2018, o pior presidente da República em todos os tempos. Deu no que deu. 

A cidade agora conta suas moedas e tenta se reinventar. Com a tragédia da Covid19 em pleno ar, precisa se reinventar, ocupar os espaços, resgatar as pessoas, refazer o comércio e semear empregos. Uma tarefa muito dura. Seguimos torcendo. Junto a tudo isso, é preciso reavivar a cordialidade dos cariocas, a empatia, a solidariedade. Não temos a vocação do mal, precisamos derrotar a desumanidade. 

Talvez o melhor caminho seja se apegar ao passado quase recente. Há exatos trinta anos, aconteceu o show histórico de Tom Jobim no Arpoador, tocando com sua Banda Nova para uma multidão em Ipanema. Não havia Covid19, o país era um caos - nada se comparado com agora - e os problemas eram muitos, mas um dos maiores cariocas de todos os tempos - Brasileiro em seu próprio nome - cantou as belezas - e as mazelas - da cidade para dezenas de milhares de pessoas. Foi uma noite histórica para o Rio e tomara que um dia algo semelhante volte a acontecer. 

Uma das pérolas do cancioneiro de Tom é "O morro não tem vez" (quando derem vez ao morro/toda a cidade vai cantar). É de 1964, um ano difícil para se defender os oprimidos. A foto abaixo é de 1961. Sessenta anos depois, o morro ainda não teve vez, mas a luta continua nas redes de relacionamento, na conscientização, no debate, no aprendizado e na constatação de que, apesar de hoje ser o aniversário mais triste do Rio, é possível reverter a tragédia em que nos metemos - ou que nos meteram. 

O Rio de Janeiro precisa dos cariocas, cariocas mesmo. 










@pauloandel

Tuesday, February 16, 2021

os tempos

os tempos, os tempos

e as mãos estendidas à espera 

do nada

quase perto de algazarras 

inconsequentes

em nome da liberdade


sorrisos de um carnaval natimorto

à procura do agora sem amanhã


[os outros que se fodam


a manhãzinha de silêncios cruéis

e mais um dia que parece em vão


carros cheios de sofrência sertaneja

buscando vagas e corações no leblon


sempre em frente, sem sentido

sempre em desprezo ao bem 

comum

sempre em desperdícios

sempre a indiferença


numa terça-feira gorda e indigente

com céu de raios de sol em fevereiro

esperamos o ano que não começa

a promessa que não se cumpre

o afeto despedaçado em estilhaços

e lágrimas que não atenuam a dor


oh, cidade maravilhosa: rogai por nós

teus braços abertos já não abraçam

são os tempos, tempos modernos

onde somos primitivos ao extremo


os primeiros motores barulhentos

cortam as grandes avenidas à beira-mar

enquanto bailes de rua semeiam o fim: 

nunca fomos tão cariocas da gema! 


os mortos vivos do coração da cidade

estão desmaiados sobre as calçadas

- ninguém lhes dará bom dia ou tudo bem

- estamos muito ocupados, deixe-me em paz!


as esquinas estão cheias de ausência


@pauloandel

Sunday, January 24, 2021

domingo em copacabana

SEPAREI O DINHEIRO para um picolé e um copo de mate, botei meu par de chinelos e desci. Todo mundo ainda estava dormindo em casa, algo perto de seis e meia da manhã. 

A Figueiredo praticamente não tinha carros nem gente, ao contrário de 99% do tempo. É que o domingo de manhã tem certo gosto de ressaca, de noite por dormir.

Quase na esquina com Barata Ribeiro, jovens vindos da Lapa, o underground carioca, saltam do ônibus no ponto e há quem cogite um lanche no Sumol, um suco e sanduíche, talvez uma fatia de pizza napolitana que eles vendem toda hora.  

Caminhe menos de cem metros e, na porta da galeria, dá para saber as próximas atrações do Cine Condor Copacabana. Bem na porta fica meu ponto de ônibus preferido para ir ao Maracanã. Na pequena galeria tem uma loja que vende camisas bem confortáveis.

[Avenida Copacabana versus Figueiredo Magalhães, a esquina mais barulhenta do mundo. Marcelo Conde e Hermínio moravam ali. Garotos extenuados pela noite virada deixam o Gordon, lendária lanchonete famosa pelas partidas de mau-mau e truco disputadas no segundo andar da loja. Os sanduíches eram imperdíveis.

O símbolo da drogaria na Figueiredo é um dos colossos de Copacabana: Pepe Corta Zeros, um tucano - ou arara? - combatente da inflação de 70% ao mês, porque a vida é assim na Era Sarney. É um tucano bem grande na logomarca, antes de chegar a agência do Banco Econômico. 

Na transversal, tem a loja da Gênova com os melhores salgados e a melhor pizza brotinho do mundo, senhor! Gostosa demais. A Domingos Ferreira é uma rua discreta, de pouco movimento. Uma quadra antes do temível Edifício Master - eu e Xuru passamos sempre do outro lado da rua. 

Na quadra do Camões é fácil ver Júnior, um dos melhores jogadores brasileiros. Volta e meia está por ali com seus ex-vizinhos, apaixonado que é pelo Juventus, o time mais popular de futebol de areia do Rio. 

Atravesso a Atlântica, desço a escadinha de dois degraus e meu par de chinelos Katina Surf protege meus pés do calor da areia. A praia ainda está deserta. Manhãzinha de domingo, todo mundo tem um pouco de ressaca, seja etílica, seja sentimental. 

Um garotinho sentado mais adiante mexe com a pá num balde, brincando com a areia. Sua mãe o observa atenta e orgulhosa. São uma linda e pequena família. Noves fora, estou sozinho bem aos pés do Atlântico Sul, então me sento, olho para um lado e outro, escuto o breve som do mar e nem quero pensar no vestibular, nos problemas e nas soluções que ainda não tenho. Por enquanto é tentar sair do quartel, passar na prova, estudar e arrumar um emprego. Os raios solares parecem mais fortes, já deve estar perto de oito da manhã. Daqui a pouco eu compro um picolé de limão ou côco.

O mate fica para depois. A praia ainda está deserta, mas ao longe já tem um senhor vendendo o Dragão Chinês e outro com a chamada inesquecível: "É Maria Teresa Weiss!"

@pauloandel

Saturday, January 09, 2021

miami peep show

Com anos de atraso, o Rio de Janeiro passou a sediar um velho costume estadunidense e europeu: o peep show, a casa de espetáculos eróticos onde os clientes, dentro de cabines apreciam as garotas numa arena de vidro simultaneamente ou não. Cada ficha dá direito a dois minutos de show. Num espaço anexo, funcionam as famosas cabines solo: nelas, o cliente tem um show exclusivo de sua modelo preferida, com mais tempo, mas precisa gastar pelo menos cinco fichas, sendo que a cabine não é 100% isolada entre cliente e modelo. Ou seja, passa a mão boba, as pequenas brincadeiras, um cachê a mais e, claro, os telefones de contato para futuros encontros de amor. 

E se alguma coisa vai começar no Rio de Janeiro, evidentemente a plataforma de lançamentos só pode ser num lugar: Copacabana. 

Miami Peep Show. Esquina de Hilário de Gouveia com Avenida Copacabana, bem perto do primeiro McDonald's do Brasil, do Banco Real, do Supermercado Pão de Açúcar (antigo Peg-Pag) e da locadora: a igreja católica. Sim! A Igreja de Nossa Senhora de Copacabana é a dona dos imóveis de parte daquela quadra e celebrou um contrato de locação honesto, sério. 

No térreo, a Miami vende produtos eróticos e fitas VHS. Subindo uma escada vermelha, logo você chega ao palácio erótico do bairro, que abre às onze da manhã e vai até meia noite, de domingo a domingo. Numa parede, tem o elenco de modelos da casa, cada uma com uma lâmpada acima da foto: as acesas indicam as titulares do dia, todas alucinantes. E é possível assistir a vídeos eróticos também, em cabines com TV, sem modelos.  

O ambiente está sempre limpo e quase ninguém repara que os supostos rapazes que cuidam de higienizar as cabines permanentemente na verdade são garotas homoafetivas, todas com cabelos muito curtos e roupas largas que enganam os olhares desatentos. Elas também mantém o semblante muito sério, regras da casa e também para evitar machismos e até mesmo assédios, num ambiente marcado pela intensa libido provocada pelas modelos. Eficientes, as funcionárias da limpeza deixam as cabines impecáveis, sem vestígios da excitação da clientela mais afobada. 

A Miami tem um locutor que anuncia as atrações na arena, as modelos disponíveis para a cabine solo e também para saudar os habituês e heróis da casa. O guitarrista John Avila não sai de lá: é tão conhecido que chega a comparecer nas festas de aniversários das modelos, churrascos com os frequentadores e mesas redondas, onde se faz a resenha da semana e as melhores performances das meninas. O comerciante Eduardo Eddie é um verdadeiro obcecado pela Miami: frequenta pelo menos duas vezes por semana e não aceita jogar menos de 20 fichas cada vez. Embora more do outro lado da cidade e trabalhe no Centro, ele faz tudo para que possa ir a Copacabana e, mesmo num intervalo de meia hora, tenha condições de apreciar as beldades - inclusive já convidou uma delas para saborear um cachorro-quente enquanto a modelo lhe contava sobre um livro erótico que pretende escrever. Perto dali, o estudante LC organiza campeonatos regulares de futebol de botão em sua casa, mas evita ao máximo que os participantes se ofereçam para ir comprar pizzas na Bella Blú, patrimônio gastronômico do bairro: os voluntários acabam esticando quatro quadras adiante e, dependendo das gatas do dia, podem parafrasear o ator Joel Barcelos no antológico filme "Rio Babilônia", conversando com sua namorada estadunidense: "No money, no pizza". Resumindo: torrando a grana do lanche em fichas de tesão.

Garotos imberbes, coroas, marombeiros, estudantes, profissionais liberais, todo mundo passa pela Miami em busca das emoções visuais. De conhecidos repórteres esportivos da Globo até parlamentares respeitáveis. Noutro dia, quem apareceu foi Paulo Sérgio, jovem goleiro reserva do Fluminense que acabou de ser campeão com o antológico gol de barriga de Renato Gaúcho - um sex symbol das garotas da casa. Entrevistado pela revista Placar, Paulo considera o ambiente bastante excitante. Depois de conferir a performance da modelo Samantha, Paulo não se fez de rogado: "Tive vontade de quebrar o vidro da cabine e agarrá-la. O poeta maior do bairro na era contemporânea, Fausto Fawcett, tem na Miami uma de suas fontes de inspiração literária. Um de seus versos cabe perfeitamente na arena: "Purgatório da beleza e do caos".


@pauloandel

Saturday, January 02, 2021

quando peguei cássia eller

(Baseado em fatos reais e imaginários

Numa noite de quinta-feira de novembro de 1998, eu estava com meu amigo Bolinha em Copacabana. Resolvemos beber chopes. Estávamos fudidos emocionalmente por vários motivos mas estávamos lá, juntos, um dando força para o outro. 

Chegamos tarde ao Sindicato do Chope no Posto Seis. Pedimos frango à passarinho, caldo de feijão e chopes. Já passava de meia noite e tínhamos trabalho cedo, mas não estávamos nem aí - lembrando que nosso estado emocional era péssimo - parece até as minhas últimas seiscentas noites. Não bebemos de cair, éramos quase responsáveis, mas dava para rolar umas tropeçadas e até se machucar no calçadão. 

Uma da manhã, bar vazio, o garçom esperando que pedíssemos a conta, eu pedi foi uma empolgante caipirinha - beber liberta! -, e subitamente chega ao bar ninguém menos do que Cássia Eller, acompanhada de dois brous. Enchi meu peito de emoção e o Bolinha logo inflou a ideia: "Porra, cara, Cássia é foda demais, você tem que ir lá falar com ela!". E a vergonha? E o risco do toco? A gente nunca sabe. 

Comemos, bebemos, Cássia estava na dela e a gente na nossa, claro, só que era impossível não olhar porque ela já era uma celebridade nacional, uma super ídola e nossas mesas eram as duas únicas com gente no bar. 

O Bolinha sussurrando que nem o Diabo: "Cara,  quando ela for no banheiro, você vai em seguida e cerca ela no corredor". Os dois banheiros eram um de frente para o outro. Mas eu já tinha ido umas cinco vezes de tantos drinques. 

Um chope, dois, três, cinco, deliciosos, eu já tinha aliviado toda a tristeza daquele dia mas o destino foi implacável: Cássia se levantou, Bolinha me deu um cutucão, ela foi para o banheiro, contei até três, fiz o mesmo mas o tanque já estava vazio. Então fiquei lá dentro num silêncio típico de minhas noites de ronda escoteira, ouvindo os ventos, as folhas e o horizonte livre no campo, esperando que, no outro compartimento, surgisse um som de torneira aberta - sinal de que ela estava prestes a sair. 

Segundos, segundos. Tchoook. 

[A água da torneira batendo no dorso da pia.

Estou pronto, conto três segundos e abro a porta do banheiro. 

Dou de cara com Cássia Eller. Ela olha e quase ri. Eu paro e digo "Cássia...". Ela para, eu me aproximo e aí um dos pares de olhos mais expressivos da música brasileira se arregalou: provavelmente ela pensou que eu a agarraria, mas não foi nada disso. Não. Eu coloquei minhas mãos nos ombros dela, peguei firme e disse "Tu é foda pra caralho. Eu cantei muito lá na UERJ quando você fez um show no Teatrão. Meu amigo Rubens estava lá mas não desceu quando você sorteou a caixa de Brahma (patrocinadora do evento) - ficou com vergonha de ser a bicha da letra. Só sei que tu é foda. Teu show na Apoteose foi demais, você, Bob Dylan e Rolling Stones. Caceta!". 

[Nós dois, cara a cara, olho no olho, a poderosa rockstar encolhidinha com medo de um gigante gentil. 

[A baixinha tremeu. 

Ela, pequenininha, já calma quando tirei as mãos de seus ombros, olhões quase arregalados. "Pô, cara, brigado pela força. Valeu mesmo.". Cássia realmente se assustou com a possibilidade de um beijo roubado, mas a um verdadeiro cavalheiro bêbado só interesssam as causas amorosamente perdidas. 

Té mais. Té mais. Valeu. 

Saímos rindo pelo hall, os amigos dela me espiaram estranho, voltei para a mesa e comemorei o feito gloriosamente com Bolinha. Logo depois, pedimos a conta: não havia mais nada a fazer. Na hora de irmos embora, dei um tchau pra ela.

Fizemos o caminho de sempre: Atlântica, Aterro, Arcos. Bolinha gostava de dirigir. Era um tempo de dificuldades - quase nada se compararmos a hoje - mas ainda era possível você tomar um trago na madrugada e se deparar com Cássia Eller no banheiro do bar, muito tempo depois da velha Galeria Alaska ter encaretado por completo, antecipando as trevas de 2020 - ou pós-2018, permitam-me.

Três anos depois, Cássia Eller morreu. Por ironia do destino e sem saber, eu estava a 100 metros do hospital onde ela faleceu. Antes disso, ainda a vi ao vivo um showzaço que ela fez, para variar, na Concha Acústica da UERJ. Ela era demais. Meu amigo Rubens também morreu tempos depois. O Bolinha está bem vivo, falamos pelo whatsapp. 

Não vou mais a bares como gostaria. Talvez não vá mais. Talvez vá às vezes com Henrique, com Isys, com o Leo agora é tudo light. Ele está certo. 

Só dez por cento é mentira. O resto é a maravilhosa Copacabana dos anos 1990, puríssima, da boa. 

@pauloandel

Thursday, December 31, 2020

pilar

há um um lindo sol

de tarde - o sol da 

última tarde -

e a gente amanhecendo

sem filas de trem

ônibus ou barcas

- a cidade é um feriado


[são vários sóis


vão-se as horas

por entre ruas desertas

e sombras de árvores

incansáveis - 

às vezes pequenas 

frutas se espatifam 

nas calçadas


a gata do vizinho está

derramada à cama e 

nua de doer - ela sabe

quem vê ao longe e ri

e debocha da própria

beleza em pêlo e riste


[ao longe, gentes reviram lixo

para ter o que viver


[ao longe gritam num pagode

bastante empolgante 


eis um carnaval sem 

desfile nem torcida

sem apoteose e fantasia

- a última tarde 

- o sol da última tarde


[casais que não trocam 

bom dia


[mensagens secas que 

não chegam 


[peitos estufados com vã

valentia e rostos nus


é melhor deixar a 

cortina fechada

o som bem mais baixo

a campainha desligada

pequenas esmolas de

paz em tarde ensolarada

- o sol da tarde

- o sol da última tarde 

do ano que desaconteceu


[talvez o som de ornette coleman

seja uma pequena liberdade


[ou a fúria juvenil de albert ayler

em sopros tortuosos


do outro lado da cidade

a pequenina figura de 

um menino caminhando

pela calçada perto da baía

de guanabara sem camisa

nem horário e nem família

de chegada


[tão pequeno e novo 


as pessoas amanhecem 

numa linda tarde de sol

- o último sol da tarde

- a tarde do último dia


alguém assobia uma canção 

popular nos arredores da 

central do brasil, perto de 

onde joão goulart fez seu

último discurso antes de 

sequestrarem o país


[são sóis demais 


@pauloandel

Thursday, December 17, 2020

Jason et Louise

ELA estava nua, de costas, e com a mesma beleza de tantos outros anos e oportunidades. Sua nudez esplêndida parece inesquecível mas era apenas uma imagem de três segundos, antes do sono virar despertar para mais um dia de trabalho na terra do cumprimento de penas, a poucos dias do Natal mais triste do Rio e de um Ano Novo sem festa.  

Ela é a mulher que lhe despertou o maior número de sonhos eróticos na vida. Foram muitos e nenhum deles chegou à unha de se tornar realidade. Parece estranho para quem só vê a sexualidade e o desejo em fatos concretos realizados, desprezando a fantasia. O desejo continua de alguma forma, mas sua realização é impossível: não tiveram os momentos de intimidade que mereciam ter tido, não souberam viver o que talvez lhes coubesse e nunca mais se viram. Têm vidas diferentes, moram em locais diferentes, não possuem mais nada em comum. O que faz então com que um senhor de meia idade, que já deveria ter tomado tenência na vida, volta e meia acorde quase liquefeito pelo tesão que a balzaquiana distante lhe desperta? É difícil entender pelos meios convencionais, mas parece óbvio que o erotismo não possui limites e convenções, nem lógica ou histórico. 

Louise está nua, perto de uma parede, de costas. Seu lindo e desejado corpo está em perfeito alinhamento com o romance carnal, a volúpia, a troca de toques inesquecíveis, mas tudo não passa de uma emoção adolescente nos últimos segundos de um sonho, prestes a terminar em plena alvorada de dezembro, quente e também provocante. Jason desperta em clara excitação, algo que já lhe aconteceu dezenas de vezes, mas não com suas namoradas e esposas, nem com suas admirações românticas, nem as belas garotas de ocasião. Das entranhas do pensamento, a apaixonante diva ressurge como princípio do prazer, possível apenas na imaginação. 

Ele acorda meio tonto, olha para o teto, para o lado. Procura Britney e ela não está. Pode ser que tenha saído mais cedo ou sequer vindo. Jason pensa no delicioso corpo nu de Louise, enquanto ri ao celebrar o beijo que nunca aconteceu, o namoro que foi nada, o relacionamento que só possui lembranças do que não aconteceu. 

Louise permanece perto da parede, esplêndida e completamente nua. Sua pele alva não tem as marcas de sol das roupas íntimas. Seus longos cabelos chegam ao meio das costas e provocam pelo pouco que escondem. Ela é um sonho, somente um sonho, uma fantasia impossível. E é a impossibilidade que faz Jason abraçá-la pelas costas, então se roçam ao mesmo tempo que trocam um beijo de tirar o fôlego, como se aquela preliminar de relação sexual fosse o sentido do mundo. 

É um sonho jamais realizado e, por isso mesmo, é tudo verdade. Louise tem as mais belas costas femininas do mundo, é impossível não desejá-la. Jason sabe o que perdeu. Sabe. 

@pauloandel

Sunday, December 13, 2020

Download gratuito do livro "Nada vira do avesso sozinho 2"

Download gratuito do livro de poesia no link abaixo: 

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Wednesday, November 25, 2020

panqueca

Acabei de comer uma quentinha. Chamam de prato executivo. Frango, arroz, batata frita, feijão, tomate, alface e, sei lá por que, molho à campanha. Comi sozinho enquanto vi o jogo do Botafogo. Lembrei de quase 40 anos atrás.

Minha mãe teve que fazer uma cirurgia. Estávamos muito pobres mas, não sei como, meu pai conseguiu interná-la num hospital particular que ficava na Alameda São Boaventura. Era para ser uma coisa rápida mas acabou levando dois ou três meses porque contraiu infecção hospitalar. 

Eu só podia ir visitá-la aos domingos. Durante a semana, ficava sozinho. Meu pai só chegava à noite. Eles brigavam, ele bebia muito, mas naquele momento ele ficou bem preocupado. 

Eu já sabia fazer alguma comida, mas meu pai preferiu deixar dinheiro comigo em dias alternados, para que eu comprasse uma refeição pronta. De noite lanchava. Já estava de férias, tinha passado em tudo, o que me restava era esperar o Fred chegar da recuperação e ir pra casa dele até meu pai chegar. Às vezes ficava em casa lendo e pensando no Fluminense: Afonsinho, Deley e Mário. 

Tinha um restaurante perto da minha casa, dentro do shopping dos antiquários, chamado Afonjá. Seu dono se chamava João Pedro, era um cabeleireiro respeitado em Copacabana pelo estilo afro, também tocava o restaurante. Na primeira vez em que fui lá, tinha um prato chamado panqueca e gostei do nome, então pedi para viagem. Três panquecas de carne, arroz, feijão, batata frita e tomate. Quando cheguei em casa e comi, gostei para sempre. Panqueca é muito gostoso. Voltei no restaurante várias vezes e pedi panqueca. 

Nos domingos em Niterói, antes de entrar na visita, eu tomava um Mineirinho no bar com meu pai. Era perto do hospital. A Alameda estava cheia de cartazes do cantor Marcelo, lançando sua música "Abre coração". Minha mãe demorou um tempo mas ficou boa. Ela nunca recuperou integralmente a saúde mas ainda viveu 25 anos. Sofremos muito mas também nos amamos e rimos bastante. 

Hoje não tinha panqueca, mas a quentinha me lembrou aquele tempo. Eu sonhava em ser jogador de futebol, ou trabalhar na lanchonete vendendo misto quente. Eu queria ter uma casa pra morar com minha família. Queria ficar adulto logo pra ajudar em casa. Eu jogava botão, estudava polinômios, desenhava escudinhos de time, ia à praia, jogava bola. A gente ouvia discos na casa do Fred. 

Maradona já era um cracaço em 1981. Agora na TV Fernando Vanucci narra uma crônica de Armando Nogueira sobre Maradona. Muito tempo depois, um psicopata de redes sociais ia dizer que eu fazia imitação barata do Armando Nogueira, mas era tão estúpido que não percebeu minha imitação do Ivan Lessa. 

Joguei a quentinha vazia fora. Vai dar meia noite. Como acontece todo dia há muitos anos, tenho saudade dos meus pais. Tenho saudades do Mineirinho gelado na Alameda São Boaventura. O Marcelo eu vi há dez anos, no show do Youssou N'Dour. Tenho saudades de ser um garoto, ou de ter tempo, talvez eu seja garoto até com rugas e cansaço. 

Agora Maradona dá um passe espetacular na TV para Caniggia liquidar o Brasil. Estávamos na casa do Luizinho. Xuru falou muitos palavrões. Eu já tinha mais de 20 anos mas continuava um garoto. 

Tenho saudades da panqueca. 

Quase todos os personagens desta pequena história desimportante estão mortos. 

@pauloandel

Friday, November 06, 2020

CENAS DO CENTRO DO RIO

Quando saí do trabalho, pensei em passar na Livraria Letra Viva e espiar algumas promoções. Fomos eu e Pietro. 

Algumas coisas interessantes, perto do fim do expediente, vinte para as seis. A Letra Viva tem bons livros e excelentes CDs, muitas vezes em promoção. São duas lojas, ambas na lateral do prédio do IFCS, onde estudei por dois anos há muito tempo - tinha uma garota lourinha, gordinha, era uma graça, acho que amiga do Marco, que se formou por lá. Vou sempre na loja menor, onde os atendentes são sempre atenciosos. Na maior, havia certa empáfia que me fez desistir. 

Comprados os discos, demos tchau e fomos para a Pastelaria Chic's, que é uma lanchonete preferida do Centro do Rio há meio século. Fica na Rua dos Andradas, bem perto do Camelódromo, e tem uma dupla verdadeiramente alucinante: pastel de queijo na hora e uma laranjada inesquecível. A loja é do tempo em que se comprava fichas de plástico para os pedidos no balcão - elas ainda estão lá. Algumas pessoas na fila, muita gente sofrida pedindo dinheiro. Gente indo e vindo para os transportes de massa, muitas vezes para o subúrbio e a zona oeste. 

Comendo pastéis fumegantes e saborosos, a laranjada refrescando. Sempre acaba rápido, droga. 

Pensando em pedir outro quando Jocemar e Vitor chegarem. Eles ficaram no Sebo X atendendo um cliente, perto dali, na Praça Tiradentes, bem em frente ao maravilhoso Teatro João Caetano, cuja entrada atualmente virou moradia de dezenas de pessoas que sofrem nessa Terra de miséria. 

Rapidamente chegam. E estão cada vez mais parecidos, exceto pelo cabelão de Vitor, que é excelente guitarrista de jazz e já foi personagem de um livro meu, numa incrível história envolvendo futebol de botão e a eterna  Livraria Berinjela. Ele era pequenininho. Enfim, eles vieram mas só para papear: não queriam comer pastel. Pensei em comer pelos dois mas deixei a gula de lado. Como Pietro não ia para o bis, conversamos rapidamente e ele foi para o metrô Uruguaiana. Nos despedimos, Jocemar e Vitor foram para a Carioca, eu saí da Andradas e virei à direita na Buenos Aires, bem onde tem a loja clássica das Drogarias Pacheco, com decoração vintage.

O céu com a linda troca dos tons de azul, do mais claro para o mais escuro e muitas nuvens pacíficas no céu. 

Lotes de lixo em pontos específicos, à espera dos catadores.

Muitas lojas já com expediente encerrado e outras fechadas de vez, antes e depois do cruzamento com a Avenida Passos, bem perto do antigo campo de futebol que agora é um estacionamento - há muitos carros.

Um hotel decadente de encontros súbitos de amor está com o anúncio de aluguel do prédio. Gozos e gozos que agora só existem na memória, mas com um final menos trágico do que o velho hotel na esquina de Rosário com Primeiro de Março, que desabou matando um casal de amantes. 

Mais adiante, uma Kombi vende caldo de cana e salgados em rodízio: você paga um preço fixo e tem direito a N copos de bebida saborosa. Há dois clientes, a atendente é loura, gordinha, bonita e olha para o outro lado da rua, como se admirasse um senhor gordo também passando por ali. Ela fixa o olhar. Será? 

Chego na esquina com a República do Líbano, viro à esquerda, me sinto bem e caminho calmamente, sozinho, quando me deparo com o prédio onde ficava a assessoria de imprensa do jogo do bicho carioca - não riam, eu já estive lá e também contei isso num livro. Troquei muitos cheques para meu pai naquele escritório. Eu tinha catorze anos. A rua está bem vazia e só existe algum movimento por causa dos dois botequins, ambos com gente cantando e tentando aliviar a tristeza que cerca essa cidade. Me deu vontade de parar, conversar com alguém, talvez até rir, mas é melhor ir para casa, onde posso escrever e chorar em paz. Mais atrás ficava um restaurante onde lembro de ter visto Patrícia saindo, ela tão linda, isso tem quinze anos e tudo passa rápido demais - só nos tocamos ao ver o desequilíbrio da areia na ampulheta. 

Atravessando a Visconde do Rio Branco e na esquina com a Rua dos Inválidos um terceiro boteco com gente conversando e rindo. A cidade há de se reerguer, eu sonho. Tudo fechado, exceto um grande movimento de gente na porta da Igreja de Santo Antônio: as pessoas estão esfomeadas, esperando a doação de comida. Umas quarenta, talvez. A vida é triste. 

Cruzando a Rua do Senado, você vê o velho e o novo: o novíssimo prédio espelhado da Petrobrás e, bem ao lado, a famigerada sede do Dops. Meu pai e meu tio foram presos ali, além de outras pessoas em tempos sombrios que os terraplanistas fingem não ter existido. Há um mistério de morte ali. No entanto, os poucos transeuntes ainda salvam um pouco da vida carioca, que não é o Dops. Gente passeando com cachorro. Gente conversando no churrasquinho da esquina, agora com uma dona. 

São seis e meia da tarde. Quase não há carros beijando o asfalto. Há certo silêncio que reina no coração da cidade maravilhosa, por ora sofrida, e agora começa um descanso de final de semana. Vejo a grade verde à frente e logo David a abre, solícito. Acabou a semana dos dias úteis - mas o sábado não é útil, como assim? 

Em instantes chega o recesso. Tudo está vazio mas não custa sonhar. Pretendo escrever enquanto deixo a TV falando como companhia. Está um pouco frio. 

@pauloandel

Monday, October 19, 2020

Solo


sozinho, sozinha

um só

que não se basta

e sonha com

a felicidade dos

bichos e a 

gentileza

das coisas


enquanto as ruas

de olhares tristonhos

e portas cerradas

não são pai nem mãe


[ainda que haja tanto mar


sozinho e rindo

da própria tragédia

enquanto os maus

triunfam e celebram

frases primitivas


[para que tanta dor?


sozinho caminhando

sem nada tão novo 

debaixo do velho sol

com calores e aflição

ou cansaço e angústia:

quem vai estender a mão?


um passo de cada vez

longo ou curto, suficiente

pelo caminho necessário

e que talvez seja infinito


não há ninguém ao lado

nem esperando na sala

ou no quarto de casa: 

aí está o novo anormal


[sozinho


[sozinha


ainda são onze e meia


@pauloandel

Saturday, September 26, 2020

REFLEXÃO

Nós somos blocos de água, carne e fezes indo e vindo em busca da felicidade ilusória em conta-gotas num país do futuro, procurando frestas de razão, às vezes desprezando a crueldade que poderíamos evitar bem ao nosso lado ou aos nossos pés. Alimentamos a estupidez da soberba, a vaidade flácida, a prepotência ignorante e seguimos feito impávidos colossos até que, num súbito ou numa longa agonia, chegue a hora de mergulhar no nada, e aí talvez tenhamos a chance de olhar para trás e catar as esmolas do que realmente valeu a pena. Antes disso, andamos por ruas que já foram pisadas por batalhões de gentes que desconhecemos, enquanto normalizamos todas as humilhações que nossos semelhantes sofrem, até que essa mesma humilhação nos atinja diretamente. Afinal, este é um dos países mais injustos do mundo, comandado por fascistas psicopatas loucos para que cinquenta milhões de brasileiros morram sem reposição, por infelizes que odeiam a arte, a conversa, o aprendizado e a liberdade.  A maior parte das pessoas é muito humilde, pobre e sem instrução, mas é digna e boa; por isso, é escravizada sem perceber pelos grupos de forte poder econômico. A outra parte não tem o menor compromisso sequer com a própria vida, imagine a do próximo. 

Saturday, August 22, 2020

chuva, fome e sofrimento

Sábado, oito da manhã, um frio demasiado para o Rio de Janeiro, que frequentemente vê seus habitantes com casacos a quaisquer vinte graus que surjam pelo caminho. 

Depois de um dia inteiro de chuva.

Para as finalidades artísticas, o Rio em gris é bonito, diferente. Historicamente a cidade é vendida mundo afora em azul turquesa, sol de rachar e biquínis minúsculos, mas muitos sabem que não se resume - e nem pode se resumir - a isso. 

Já gostei mais do gris, quando eu era suficientemente imaturo para entender a dor do mundo, embora já sofresse com a dor alheia. Acampei muitas vezes perto de zero graus, corri loucamente por Copacabana em manhãs e tardes de chuva. Ainda menino estúpido, cansei de entrar no mar com chuva e raios - não era a minha hora de morrer. 

Para uma parte das pessoas, o frio tem a ver com chocolate quente, fondue, vinho, drinks, ainda que a cidade vazia e triste persista. Ok, é direito de cada um. 

Mas quem já parou para pensar que, numa tarde-noite como a de ontem, mais a madrugada e esta manhãzinha, teve muita gente que sofreu pra cacete no Rio? 

Quem parou? 

Um frio de cortar a alma, calçadas molhadas, ratos fugindo dos bueiros, ruas desertas, quem poderia ter paz diante disso? E mesmo quem não vive a desgraça das calçadas pode viver sua tragédia em barracos de papelão e madeirite, também com chuva e ratos para todo lado. Nem falei dos terríveis e ameaçadores deslizamentos numa cidade recheada de morros. 

Eu não tenho paz. É minha maior indignação. E por isso dormi mal. E por isso acordei mal. 

É inaceitável que, com tantos recursos, haja cada vez mais gente morando nas ruas, sofrendo, entrando em estágio de decomposição social a céu aberto. 

Tudo culpa de uma brutal desigualdade e distribuição distorcida de renda, que é problema não apenas dos desgovernos federal e estadual, mas municipal também. 

O descaso, a indiferença, o desprezo.

Há quem acredite que tamanha desgraça é produto de questões divinais, ou da vagabundagem que gosta de ficar na rua à espera da morte (um raciocínio que chega a ser engraçado de tão tosco). "Eles gostam de ficar ali, não querem trabalhar". Tosco. Sofrer ao relento exige uma resistência psíquica e física superior à necessária em boa parte dos empregos. 

Dia desses, a crise, falsos amigos e um ladrão quase me levaram a não ter uma casa. Confesso que tive vontade de socar algumas das pessoas que emitiram opiniões a respeito, mas não guardo mágoas. Apenas não esqueço; afinal, não tenho culpa de ainda ter uma ótima memória. Mas eu tive sorte, porque muitas portas foram batidas na minha cara, mas outras se abriram inesperadamente, de modo que se a situação está longe de ser resolvida, já começou a ser contornada.

Depois de uma faculdade concluída, três pela metade, dois mestrados abandonados, trinta livros escritos e quase vinte e cinco anos de carteira assinada, eu quase fui parar na rua. Mas dei sorte. Apesar das decepções, tive alguns amigos de verdade. Se com tal arcabouço eu passei por este risco, imagine quem não o teve? 

No passado, apesar de muito esforço, seria um completo ridículo eu dizer que consegui pequenas vitórias apenas por meus esforços. Ninguém consegue isso, por melhor que seja. Não existe uma pessoa vitoriosa no mundo sem o suporte de terceiros. Uma única que seja. Se escrevi livros, é porque lá atrás meus pais me sustentaram bem, com enorme sacrifício pessoal. Se me formei, idem. Onde eu morava antes de pagar aluguel? Na casa paga por eles, ora. Se consegui montar um microcomércio de novo foi porque tive receitas de um trabalho que, lá atrás, foi subsidiado por eles, financiando casa, comida e estudo. E sinceramente, não conheço uma única pessoa que tenha obtido pequenos e grandes sucessos sem o apoio familiar, ao menos pessoalmente, seja de famílias naturais ou postiças. 

O mundo não é feito só de dualidades. Sem sombra de dúvidas, há casos em que a situação de rua poderia ter sido evitada pela própria vítima, mas são tão poucos em função da realidade da opressão econômica e social que podem ser considerados irrelevantes. A realidade é opressão, humilhação, exclusão e descaso. 

São vinte para as nove. As pessoas sofrem demais nas ruas do Rio de Janeiro. São milhares e milhares e milhares. Só no centro da cidade são centenas e centenas, na Cruz Vermelha, na Lapa, nas imediações do Forum, na Candelária - tão conhecida como palco de tragédia que não se encerra -, na Almirante Barroso, no Largo da Carioca.

Lembro do frio da juventude e a fresta da janela do quarto me dá o gris de hoje. Lembro de quando eu era um corredor, um jogador da praia, um dos garotos que via a praia mais bonita do mundo pintada de prata. Há uma beleza efêmera que sempre guardarei comigo, mas o fato é que nós, cariocas, brasileiros, deveríamos parar de fingir que este problema gravíssimo não está por toda parte e, dentro do possível, agir. 

Moradia digna é direito universal e não um favor. É inaceitável termos milhares de cariocas à espera da morte nas ruas ou parecendo em moradias degradantes. Ter isso em mente não é princípio de assistencialismo ou caridade, mas algo que anda cada vez mais escasso nas cabecinhas do Brasil: senso de justiça. 

Longe de querer estragar o fondue, o vinho e o queijo dos amigos que possam ler estas linhas, trata-se apenas de um convite à reflexão e, se possível, à ação. Mesmo combalido financeiramente, comecei a ajudar um amigo ontem para impedir que se tornasse mais um 'número' em situação de rua. Não somos números. Somos pessoas, temos sentimentos e sofremos. E muitas vezes nossas fortunas, confortos e excelentes salários vieram muito mais de outros fatores do que até da nossa própria competência. 

Há muita gente sofrendo. Não se iluda com falácias meritocráticas. Essa tragédia pode chegar a qualquer família, ainda que haja um desenho óbvio e predominante pelos componentes da desigualdade social, do racismo, da falta de empatia, do desprezo ao próximo, de características que nada têm a ver com a formação natural do povo do Rio de Janeiro. 

Quase nove horas da manhã. Um silêncio enorme nas ruas sem veículos e transeuntes. Calçadas molhadas e mãos estendidas à própria sorte. Ou corpos desmaiados de tanto cansaço e sofrimento. Não basta uma moedinha para aliviar a consciência e tentar uma moral com Deus. É preciso mais, muito mais. 

@pauloandel

Monday, July 13, 2020

Rock, rock, rock!

Em algum lugar de 1977 eu caminhava com meu pai pelas imediações do Cine Vaz Lobo, quando compramos figurinhas para um álbum chamado Multicolor, que ele fazia ou eu, não sei. Estávamos juntos. Ao chegarmos em casa,  fomos abrir os pacotinhos e vi um nome do qual nunca mais me esqueci: Bob Dylan, hoje certamente o maior artista estadunidense vivo.  E muitos anos depois foi Bob Dylan que me deu o caminho para Jack Kerouac, uma longa estrada à qual eu voltaria muitos anos depois até me tornar um escritor publicado. 

No célebre apartamento 1346 de certo prédio na rua Figueiredo Magalhães, ventrículo de Copacabana, Fred me esperava com o álbum "A trick of the tail", do Genesis. Eu tinha medo da capa, acho. Mas gostei do som. 

Entre os dois acontecimentos, lembranças da propaganda na TV do programa Rock Concert.

E não parei nunca mais. Anos depois eu estava com a multidão pra ver o Kiss no Maracanã lotado. Música na rádio todo dia. Namorar os discos na porta da Billboard da Barata Ribeiro. Acompanhar o Fred ao Disco do Dia, que ficava no Centro Comercial de Copacabana, quase esquina de Siqueira Campos com a avenida. Tinha fila para comprar LPs. The Cure e Metallica no Maracanãzinho, Jethro Tull no Canecão; Titãs, Paralamas e Barão por todo lado; Joe Cocker no Maracanã, Prince, Paul McCartney. Oingo Boingo na Gávea. Bob Dylan na Apoteose, Clapton e Bowie também. Mano Negra e Jello Biafra na Lapa. 

Desde o fim dos anos 1980 mergulhei em muitos sons e gêneros. Hoje mesmo comprei um CD de percussão árabe. Fui ao samba, à bossa, ao jazz, cubanos, europeus, África, Ásia, minha coleção tem de tudo. E sou feliz por isso. Ouço música diariamente com a mesma empolgação daquele garoto sonhando na porta da loja com "1984" do Van Halen ou "Brothers in arms" do Dire Straits. Voei meu mundo ouvindo música, mas quem me deu as asas foi o rock. 

Pra contestar, pra protestar, pra namorar, pra se entristecer, para pensar. Pra estudar. Álbuns como os do Clash, do Pink Floyd, do Rage Against The Machine, de Peter Gabriel, todos fazem pensar e buscar outras fontes: livros, filmes, quadros, peças. 

O rock mudou muita coisa no mundo, ainda que nem todos entendam e achem que faz sentido ser roqueiro e reacionário. Não é nada disso: o rock é revolucionário, é desafiador de definições, é demolidor de barreiras. Foi ele quem deu chance às expressões de combate ao racismo e à homofobia: basta pensar no recém-falecido Little Richard, para quem os jovens Rolling Stones abriram shows. E o rebolado incomparável de Elvis Presley? E as loucuras de Jerry Lee Lewis? 

Neste momento a TV mostra um prisma grandioso no palco do show de Roger Waters. É um símbolo que atravessa o mundo há 47 anos: até mesmo quem nunca ouviu o Pink Floyd já viu aquela capa preta extraordinária, uma obra de arte do século XX. 

Rock é postura, atitude, celebração, catarse coletiva. Os grandes barões do gênero são sexagenários, septuagenários e outros já deram adeus. Mas todos, de uma forma ou de outra, ainda encantam e influenciam milhões de pessoas mundo afora. O rock não vai morrer, o rock não vai acabar. Em tempos de ódio e indiferença, no meio de uma pandemia, diariamente alguém passa pela minha lojinha e saca um AC/DC, Deep Purple ou Joelho de Porco. Ou Ira! ou Tortoise. Tanto faz se é Premê ou Replicantes, Fellini ou Autoramas. O rock é pra abalar o óbvio e sacudir comodismos. 

O rock é puro êxtase, se me faço entender. Viva 13 de julho! Viva o rock n' roll!