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Sunday, November 09, 2025

serei humilhado pelo sol na cabeça?

 o sol cruel cabeça 

(quatro e meia da matina)

meu amor não chora

tornados matam


será que somos respeitáveis? 

cavaleiros da própria dignidade

cheios de lugares de fala e cala

enquanto vemos o sofrimento ao longe, 

interstories,

e fazemos silêncio de paisagem

antes que alguém peça  o sol na cabeça 


(quatro e meia da matina) o sol na cabeça 

(quatro e meia da matina)

meu amor não chora

tornados matam

será que somos respeitáveis? 


cavaleiros da própria dignidade

cheios de lugares de fala e cala

enquanto vemos o sofrimento ao longe, 

interstories,

e fazemos silêncio de paisagem

antes que alguém peça 

algum dinheiro?

pode ser que no domingo 

pela manhãzinha a gente

tenha uma estimativa mais

razoável desse mundo cruel,

cheio de tornados, de fel em riste

e humilhações 


parece folga, mas é só o intervalo para respirar entre as dores.

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o sol na cabeça 

(está nublado)

meu amor não chama

sou humilhado


mesmo assim, sorrio porque/ achei que estaria morto quando novembro chegasse, mas estou é muito vivo e endividado - ótimo!

nunca mais vi as maravilhosas pessoas de 1991 ou 1994

conseguir desligar o ventilador sem pingar de suor é um luxo só

meu amor não chora

tornados matam




Sunday, October 26, 2025

CENA 1

uma voz roufenha pergunta "que disco é esse que está tocando aí?"

bananas assadas escurecidas pulam na capa do disco. 



Sunday, October 19, 2025

Versinho vulgar

Ah, o grande tribunal da insólita perfeição humana julgando a tudo e a todos em cada esquina. Sabem tudo, viveram tudo e apontam o dedo em riste para tudo que lhes desagrada, apenas por casuísmo. São infalíveis, infalíveis, exceto para ocultar a própria hipocrisia e as vacilações - imponentes e arrogantes, quantas vezes foram dependentes de tudo? É um grande tribunal de merda, que representa bem a grande farsa da vida cotidiana brasileira. Uma aberração. Não precisamos de mais tribunais de acusação, mas de gente na acepção da palavra.

Saturday, October 18, 2025

Raridade

Por aqui é a madrugada mais silenciosa do ano. Inigualável. 

Parece que todos dormem o sono dos justos e que há justiça. 

Incrível. 

Parece uma noite de paz! 

Como pode? 

Essa cidade não é para isso. 

Mas segue o som do silêncio no coração carioca. Uma rara oportunidade.

Thursday, October 16, 2025

Ace Frehley (1951-2025)

Morreu Ace.

Os sonhos passam rápido demais, os heróis da juventude não são eternos como gostaríamos. 

O craque, o ator, o guitarrista, todos fundamentais para darmos sentido à vida. Buscarmos conforto para dias vazios. 

Morreu Ace. Talvez fosse previsível, mas sempre antes da hora.

Ficam grandes imagens, grandes sons e um sopro de juventude que, se já não existe, foi divertido para valer. 

Quando a gente tem certa idade, deveria estar pronto para estas coisas, mas acontece que eu não estou. Não me importo em ser imaturo, onde está a emoção e a alegria daqueles maduríssimos em vão? 

Morreu Ace e quem é do rock sabe o tamanho dessa pancada. 

@p.r.andel

Wednesday, October 15, 2025

Um biscoito à noite

Peguei um biscoito para lanchar e do nada me lembrei dos meus velhos tempos no campo, já muito distantes. Nossas refeições eram baratas e pequenas, de modo que no campo ter um lanche é um verdadeiro luxo. 

Às vezes à noite nos juntávamos nos acampamentos para conversar, olhar o céu, falar das garotas que amávamos e também rir um pouco. Foram momentos especiais que se repetiram muitas vezes - até hoje não sei dizer como conseguíamos acampar tanto em tempos de inflação e pobreza agudas. O grupo se juntava, todos se cotizavam e todo mundo ia. Nunca vi uma criança deixar de ir aos acampamentos escoteiros por falta de dinheiro.

Com o tempo, as noites no campo me trouxeram para o aquário natal. A praia de Copacabana, onde sempre joguei bola na juventude, também virou um ponto de referência da noite. Ficar na areia vendo o ir e vir do Atlântico Sul. Hoje fica difícil fazer por causa da segurança, mas era maravilhoso. 

Acho que minha admiração pela atmosfera da noite veio dali. Apreciar o silêncio, o horizonte mudo e misterioso. Pensar. Refletir. É o que mais tenho feito desde que a idade me proibiu de ser criança. Campo, talvez nunca mais, mas o silêncio na janela de uma casa ou no centro de uma cidade do interior possam ser equivalentes. Há tempos não faço isso. É importante fazer.

Thursday, October 09, 2025

A vida não perdoa os escrotos

moro no brasil. tenho sorte de poder ir para o trabalho sem trânsito, sem horas sofridas e humilhantes em pé, sem ameaças de tiros e morte a granel. estou a caminho, contando que os clientes fortaleçam a causa. trabalho de bermudas e chinelão, ouço jazz e leio poemas malditos ou crônicas de futebol - e não deixa de ser engraçado que isso signifique fracasso para sujeitos que, aos 50 anos de vida, ainda são deslumbrados com ternos e, glup, "gente importante" (cafonice máxima)). Senhor! Meu luxo está em hambúrgueres, livros e discos. Nunca me preocupei com fortuna, poder e sucesso, nada disso. Onde estão as pessoas poderosas e bem sucedidas de 40 ou 50 anos atrás? Salvo uma ou outra, morreram anonimamente. Tudo é efêmero. O que importa é fazer o bem, ter poucos bons amigos e seguir pelo grande mistério de uma estrada que parece interminável mas que na verdade é finita. Considerar as pessoas, ser amigo de verdade, zelar pelo próximo, fazer algum esforço por um mundo melhor. O resto não conta muito. Explode uma veia, você está morto. Um passo em falso na esquina, bum! Morrem todas as mesquinharias e sedes de poder. Então o jeito é aproveitar fazendo coisas legais, sendo legal mesmo. Os traíras, por exemplo, parecem poderosos de dia, mas toda noite dão de cara com a própria degeneração e roem a própria dor. você pode enganar muito a todo mundo, mas não a si mesmo - e isso rasgará tua alma, acredite. Pule fora desse buraco a tempo, a vida não perdoa os escrotos.

angus

Sunday, October 05, 2025

Deus e o diabo

Deus está debaixo da mesa

O diabo está atrás do armário

Deus está atrás da porta

O diabo está no meio da sala

O que há de errado com meu coração?

O que há de errado?

Deus está lendo jornal

O diabo está dançando

O diabo está fazendo o jantar

Deus está escrevendo uma carta

O que há de errado com meu coração?

O que há de errado?

Deus está sonhando

O diabo está fazendo discurso

Deus está lavando os pratos

O diabo está tocando piano

Deus é o teto da casa

O diabo é a porta dos fundos

O diabo é o chão da cozinha

Deus é o vão da entrada

O que há de errado com meu coração?

O que há de errado?

Deus está debaixo da mesa

O diabo está atrás do armário

Deus está atrás da porta

O diabo está no meio da sala

O que há de errado com meu coração?

O que há de errado?

Deus está lendo jornal

O diabo está dançando

O diabo está fazendo o jantar

Deus está escrevendo uma carta

O que há de errado com meu coração?

O que há de errado?

O que há de errado com meu coração?

O que há de errado com meu coração?

O que há de errado?


Titãs, 1989

Saturday, September 27, 2025

noite casual

 COPACABANA SÁBADO, 18:30H

I

um jovem negro sobe a escada rolante do metrô Cantagalo com sua bicicleta espera e uma caixa bem grande do iFood.

antes dele, o escritor Osmar Lage tem pressa, pois precisa fazer uma ligação telefônica para sua esposa.

mais atrás, Paulo só pensa em comer pizza no eterno Caravelle, que agora se chama Pizzamar - senhor!

II

em segundos, os três chegam à esquina de Xavier da Silveira com Barata Ribeiro, e param por motivos diferentes. 

o rapaz da bicicleta encontra um amigo, também de bicicleta e caixa iFood similar, eles trocam alguma coisa nas mãos.

"mermão, só dois beques? preciso de nove pra entregar pros caras."

III

não se trata de zagueiros, é lógico.


cidade feliz

oh, linda e formosa cidade que me despreza, que vomita verdades em meu peito e mostra como sou desprezível e repugnante. está quase amanhecendo e a minoria viveu bem as últimas horas de boêmia. aos poucos, o céu troca seu negrume pelo azulado que vai clareando lentamente. no coração da cidade, os notívagos se divertem com seus últimos goles e tragos, enquanto os miseráveis catam latinhas para a sobrevivência pesada do dia a dia - e são quase todos pretos. nos arredores muitas pessoas infelizes agonizam nas calçadas, mas há quem acredite que isso seja democracia. a um quilômetro do epicentro das danças e cantos, a violência aterroriza homens, mulheres e crianças na favela, depois de espalhando para ruas próximas - esta é uma cidade com segue de sangue. a diversão popular não tem compromisso com a justiça social. daqui a pouco o sábado raia, setembro também raia e ninguém derramará uma única lágrima pelos meus amigos e amores mortos - e daí? ninguém precisa se importar. nunca o fizeram mesmo. tudo bem. com um pouco de sorte os mais abonados voltarão bem para suas confortáveis casas. desesperado, vivo minha serenidade particular. a cidade me detesta e despreza, não sou um CNPJ rentável nem dito normas econômicas. eu sou apenas minha voz, minhas palavras improvisadas, meu sentimento de luta e minha briga por um mundo menos cruel, mas é perda de tempo - as pessoas desprezam tudo que não é capital, poder ou voto. horas atrás, soube de um cachorrinho que estava jurado de morte por traficantes sanguinários. a barbárie superou todas as espectativas. o que resta é desmaiar até a morte. @p.r.andel

Saturday, September 20, 2025

uma noite de paz no rocha

tivemos uma noite de paz. uma única. comemos churrasco e falamos de futebol enquanto os jovens cantavam rock n'roll - eu pensei em "moonlight paranoia". as crianças correndo e rindo felizes, os adultos tão elegantes em sua simplicidade e simpatia. a poesia dos jovens me levou aos velhos tempos de faculdade, quando toda sexta feira era noite de drinques e risos. fomos ao bar do Canuto, no Rocha, que eu não visitava desde o tempo em que Ana Paula gostava de mim. nem tudo foi bom porque minha deusa negra chorava ao longe, logo ela, tão querida, mas compreendo - não se pode vencer todas. era o aniversário do Edgard, nosso querido amigo. foram o Fábio e o Robertinho. foram horas de paz, onde pudemos viver a deliciosa ilusão de um mundo simples e calmo. deixei de lado todos os dissabores, eles ficam para segunda-feira. meu coração está batendo melhor, acho. fomos tão felizes juntos que até rimos quando as contas do Fluminense, feitas com matemática lisérgica, chegaram no WhatsApp. o Rocha é perto da UERJ e isso traz coisas boas, bons presságios. fomos felizes com coisas simples, sem desprezar ninguém e isso é bom demais. tiramos fotos abraçados porque é importante - nunca sabemos quando será a última. a noite não acabou: comi bolo delicioso, pensei no amor, lembrei dos poucos mas valiosos amigos e não senti a menor falta de gente falsa, mesquinha. ainda são cinco da manhã e preciso dormir um pouco. ainda não sei o que será do sábado, mas depois de me sentir com 27 anos aos 57 de idade, estou pronto demais para este dia de folga.

@p.r.andel

Sunday, August 31, 2025

uma vírgula

1

no fim das contas, para a maioria a verdade é uma só: viver em condições precárias, em meio à opressão da elite, debaixo de escombros da memória.

2

gente humilhando gente. matando gente. estropiando gente. escrotizando gente. gente com nojo de gente.

3

quando tudo está perdido, uma única e magérrima luz se oferece como torre de vigia, iluminando o caminho. 

4

quem me dera ser gente.

5

eu não passo de massa de carne e água solenemente desprezada e humilhada no mundo, cumprindo uma pena que o capitalismo me impôs, até chegar a hora de me atirar rumo ao nada. 

6

agosto se foi e continuo muito infeliz.

7

lá fora chove e tudo e difícil. a cidade oprime.

8

quem me dera ser alguém.

9

vejo tristeza por toda parte, até mesmo onde tudo sugere indiferença. 

10

eu queria ser uma rua simples, com árvores e casas confortáveis, com cachorro e gato e vida. 

Saturday, August 23, 2025

15 ou 16

Acho que eu queria ter quinze ou dezesseis anos outra vez, que fosse por um ano ou menos. Queria, mas é naturalmente impossível. Quem me dera... Comer sanduíche no Sumol ou no Gordon de madrugada. Jogar bola na praia escura. Acampar com os escoteiros quase todo mês, torcendo pelos feriados! Jogar botão com o pessoal no Bloco F. Ir ao Maracanã duas vezes por semana, sonhando em passar um dia para a UERJ, tudo muito Fluzão. Andar pelo Centro do Rio apinhado de gente. Ir toda semana a um cinema de rua. Jogar bola também no Corpo de Bombeiros. Queria voltar a correr no Forte do Leme. Navegar as ruas de Copacabana em busca de cada farelo de vida nas calçadas e portarias. Pegar praia deserta às seis ou seis e meia da matina. Queria ver a Ana Paula desfilando linda pela Silva Castro, ou a Patrícia no antiquário dos pais. Queria ver a turma na casa do Fred, todos atentos aos papos sobre Genesis e Pink Floyd. Queria ver Monsieur Lima ao vivo na TV, ou o Flávio Cavalcanti espumando contra o rock. Eu queria ter quinze ou dezesseis anos para sentir o coração batendo mais forte pela beleza das garotas desfilando na Figueiredo Magalhães, e não porque o fim pode estar muito perto. Queria ouvir Mark Knopfler solando, os Paralamas batucando, o Jorge Pinto descendo a Ladeira dos Tabajaras. A Ladeira! Eu queria ver o Luís, o Marcelinho e o Augusto, o Ivan também. Eu nunca mais vou ter quinze ou dezesseis anos e por isso nunca mais terei esse maravilhoso naco de vida. Nem falei do Bairro Peixoto, de tantas garotas, de amigos queridos que o tempo levou para sempre. Isso foi outro dia, então é muito injusto que eu nunca mais possa. Faltou dizer da última espiadinha da noite, o pai e a mãe roncando de leve quando meu irmão nem existia, eu olhava para eles, via que dormiam bem e aquilo me dava uma sensação bela e rara, devia ser o que chamam de felicidade. Faz falta.

@p.r.andel

Saturday, August 16, 2025

Trechos

I

Faz tempo, tempo demais. Todos os que estavam perto de mim, morreram. Faz cinquenta anos. O meu pai me puxava pela mão, quando subiríamos a escada da estação de trem, acho que em São João de Meriti. Ele tinha uma loja lá. No meio da escada, nos deparamos com uma senhora pedindo esmolas ao lado de sua filha, que era do meu tamanho. Por instantes, cruzamos os olhares. Ela era linda e tinha olhos lindos de azul profundo. Pela primeira vez na vida me dei conta do que era uma garota linda. Mas sua beleza infantil era muito maltratada pela miséria, pela humilhação de estar naquela escada pedindo o que comer. Meu pai não era um senhor, mas um homem de 35 anos, jovem demais. A senhora também devia ter idade semelhante. Aquilo durou uns três ou quatro segundos. Sem saber explicar, eu entendi toda a beleza do olhar daquela menina, mas também senti toda a dor que a acompanhava. Meu pai já tinha sofrido tudo: ficou órfão, foi criado em colégio interno, a irmã foi dada para uma família, ele perdeu o irmão para a ditadura. Estava acostumado a dor. Seguiu subindo e me içou. Fomos para algum lugar que não lembro, eu tinha uns sete anos de idade. Nunca mais me esqueci da beleza sofrida daquela garota, algo tão perturbador que hoje, cinquenta anos depois, ainda é uma lembrança nítida.

II

Eu não lembro do seu nome, apenas do sorriso e isso chega a ser curioso, pois tenho uma memória relativamente privilegiada. E a gente deve ter se visto umas dez vezes, todas na casa do Fred - o mundo inteiro ia pra lá. Não sei porque, ela se irritou comigo por alguma coisa e sempre que me encontrava soltava alguma ironia. Eu devolvia. E a gente se dissipava na algazarra da turma, gente boa e jovem com o mundo pela frente. Um dia eu cheguei mais cedo e ela atendeu a porta. Fez cara de descaso, tudo bem. O Fred estava no banho. Entrei e sentei no sofá. Não sei como, de repente estávamos conversando como nunca fizemos antes, sem nenhuma rusga que nem sabíamos de onde tinha nascido. Eu lembro de seu rosto tão jovem, do sorriso muito jovem com os dentes levemente desalinhados mas harmoniosos, do seu olhar de garotinha à procura dos mistérios. Então eu toquei seu rosto, ela fechou os olhos, o Fred surgiu na sala e disse "Vocês dois, hein?". Não paramos de rir. Era 1988, ainda faltava muito para o século XXI. O Brasil prometia muita coisa, feito uma garota jovem e sorridente em busca do charme do mundo. 

@p.r.andel

Friday, August 08, 2025

Chove

Chove. É necessário. É parte da vida, mas da morte também. A chuva é bela, mas também humilha e mata, faz sofrer e desespera. O belo espetáculo da natureza é cheio de contradição. Quando era jovem eu gostava de desafiar a chuva correndo e jogando bola, ou ainda mergulhando irresponsavelmente no Atlântico Sul - depois que soube dos riscos, nunca mais repeti - os jovens têm medo de morrer, de desperdiçar toda uma vida. Então escapei vivo e continuo nesta república federativa cheia de árvores e enterros precoces, cheia de tanto desamor e falta de empatia enquanto fanáticos religiosos fingem o contrário. Choveu muito há pouco, eu estava protegido em minha casa postiça enquanto o mundo sofria na Cruz Vermelha, e então apareceu uma cena de enterro no novela - eu parei e chorei porque revivi as mortes de meus pais - isso sempre me acontece, volto àqueles dias terríveis. De lá para cá, produzi coisas que dizem ser belas, escrevi mais de dez mil páginas, sofri feito um porco, fiz um monte de gente feliz, juntei pessoas diversas e agora estou aqui encolhido, vivendo intensamente a arte de ser infeliz para todo sempre. Amém.

Tuesday, July 29, 2025

tô...

FACEBOOK NEM SEMPRE É AUTOBIOGRAFIA (OU A GENTE NEM SEMPRE ENTENDE AS COISAS) 

05:48 tou com fome tou cansado. tou com sono. tou com sede. tou triste. tou rindo. tou pensando. tou pensando. tou pensando. tou com dor. uma dor. várias. tou pensando, mesmo que não adiante. tou lamentando o sono perdido enquanto ouço notícias inúteis. 05:53 tou estatelado na cama. tá frio. tá escuro. tá um silêncio. tô a fim de ir embora. tô a fim de ficar até o fim. tou com saudades do que não aconteceu. tou sem força pra escrever. tou entediado. tou cansado de pessoas vazias e conversa fiada. tou com fome, tou com bastante fome, eu tou sempre com fome. tou com medo do fim do mundo, da dor, do resto. tô atento. tou ligado. tou vendo football feminino. tou com saco cheio do descaso e da demora porque a vida é agora e tenho pressa demais. 06:00 tou ouvindo péssimas notícias cariocas. tou sonhando com misto quente e café com leite. tou pensando em tudo que eu perdi. também pensando no pouco que ganhei. tou a fim de viajar e não voltar. tou a fim de esquecer de todas as coisas, mas minhas memórias não deixam. tou vendo meu amor no whatsapp. tou pensando nos livros que preciso publicar. tou sem tempo pra gente que me desconsidera. tou querendo paz, mais difícil que ouro e joias. tou ouvindo um ônibus rangendo. tou apertando meus dentes tortos. tou deitado poupando meu corpinho cansado. tou vendo o começo de volta ao começo. 06:08 tou com o dedão doendo pela maldita unha encravada. bom dia.

@p.r.andel

Monday, July 28, 2025

formiguinha

Ia fazer um lanche, passei mal estes dias. Fui à cozinha, peguei o prato e nele havia uma gotinha d'água. E uma formiguinha, tão pequenininha, tão minúscula que era quase imperceptível mas eu a vi. Nos encontramos por um segundo: a água escorreu e levou a coitadinha. Deve ter caído na pia ou no mármore. É difícil entender as coisas, mas existe algum sentido na existência de uma criatura tão frágil e indefesa, que some numa gota. Sem pai nem mãe, sem família, sem amor, nada. Oi e tchau. Bom, a gente também é meio formiguinha se olhar para  cima e espiar um grande prédio corporativo. Ou se olhar na mais fascinante solidão, que é a multidão no Maracanã. De um andar alto nos arredores da Central do Brasil, é fácil ver multidões de formiguinhas humanas às cinco da tarde, loucas para fugir da depressão do emprego precarizado e voltar para casa, tomar um banho, conseguir comer alguma coisa. As filas dos ônibus são formigueiros, a barca rumo a Niterói também. E nas calçadas do Rio há formiguinhas ainda mais humilhadas, desprezadas por serem muito pobres. É difícil ser formiga. Aí me lembro de um outro dia, quando esqueci uma caixa com um pedacinho de pizza na mesma pia. Ao abrir... uma turma de formiguinhas, umas cinquenta, passeando sobre o lanche farto. Elas comeram bem antes de morrer: a pizza era gostosa, levei a caixa para a lixeira. Aquelas vidinhas minúsculas mas com um senso coletivo de humilhar os humanos, tão cheios de arrogância sem perceber que, dois dias depois da morte, não passam de carne podre e fedida. Apesar de ser considerada uma pessoa grande por causa da minha altura e peso, eu sempre me considerei muito pequeno. É melhor assim. Muito melhor. Fugir das grandezas me coloca em sintonia com a realidade. Bem diferente das gotinhas em pratos que afogam formiguinhas, os cemitérios estão cheios de mausoléus, mármore, sobrenomes, pompa e muita, mas muita empáfia dentro das tumbas.


@p.r.andel

Sunday, July 27, 2025

amizade pra boi dormir

já estou velho para isso, mas ainda me impressiono: o que leva uma pessoa a dizer que é sua amiga se ela não dá a menor atenção ao que você está sentindo/passando/sofrendo? já aconteceu isso com você? 

difícil saber se é alienação, falta de empatia, de noção mesmo ou falsidade. 

tenho minhas opiniões e preferências. procuro tratar todo mundo bem, mas é óbvio que tenho poucos amigos. bem poucos. detesto relações baseadas em hipocrisia: se não sou amigo da pessoa, não tenho o menor motivo para mentir sobre uma amizade. e o tempo te dá experiência para sentir quando alguém se aproxima genuinamente ou só busca alguma vantagem pessoal. nos últimos anos, me afastei de muita gente por perceber isso: eu, homem do povo, com quase nada a oferecer, ainda assim tinha gente se fingindo de minha amiga por pura desimportância. não briguei, não discuti, nada, apenas senti a energia negativa e me afastei. pra sempre. também me distanciei de gente que, nas minhas horas mais difíceis e sofridas, fez cara de paisagem e me deixou na mão pedindo esmola. nenhuma mágoa nem ressentimento, mas jogar junto nunca mais. ninguém é obrigado a ajudar? ok, e você não é obrigado a manter...

as pessoas enchem a boca para falar de amigos, mas no pouco que me cabe vejo muito pouca amizade por aí. relações interesseiras e lucrativas, tem aos montes, pelos motivos mais rasos possíveis. agora, amizade é outra coisa, bem diferente. não é isso que hoje vemos como a palavra mais malversada da língua portuguesa. amigo é presença e força, não negligência.

@p.r.andel

As vísceras da cidade

I

A cidade não para. Ela nunca dorme, ela nunca termina. Ela é vendida para o mundo como o mais belo dos belos rostos, mas vista bem de perto tem sua pele bastante machucada pelo ser humano.

II

A cidade ganha novas tecnologias, os grandes prédios ficam mais modernos, os carros apressados são de última geração,  as pessoas das classes dominantes ostentam suas novidades digitais. Ao mesmo tempo, certas coisas nunca mudam - especialmente quando o tema é degradação. Sim, porque a cidade é linda nas fotografias turísticas, mas é esgarçada à medida em que se avança em direção aos bairros mais populares e populosos.

III

A cidade é humilhada. Ou melhor, ela humilha boa parte de seus habitantes. A violência humilha as pessoas, os transportes de massa, o emprego precarizado, a desigualdade social, a falta de oportunidades, tudo isso compõe uma carga imensa de humilhação às pessoas, e muitas acabam não resistindo: aderem às drogas lícitas e ilícitas, ao fanatismo religioso e a outros recursos para tentar aliviar suas realidades brutais. Vários não aguentam e dão cabo das próprias vidas, mas este é um assunto estupidamente proibido. 

IV

A cidade acaba sendo uma imensa frangueira elétrica num almoço de domingo, com milhões de pessoas fazendo o papel de cachorros, com os olhos bem arregalados, olhando e sonhando com pedaços de frango que nunca terão. 

V

A cidade tem lugares lindos, mas eles não são para todos, mesmo quando têm acesso ou entrada franca. 

VI

As coisas que nunca mudam. Os traficantes perigosos são levados para presídios federais, mas o tráfico continua estuprando, torturando e matando. A milícia também. Há lugares da cidade onde a polícia simplesmente não entra. Atravessar a cidade no fim da noite pode ser risco de morte, a depender do trajeto adotado.

VII

Acontece que essa também é a cidade das esmolas. Esmolinhas. Os políticos dão projetos de esmolinha para meia dúzia e acreditam ter mudado a cidade. O sonho do Carnaval é uma esmola para tanta gente tão sofrida. O sonho do futebol no Maracanã já foi uma grande esmola, mas o povo foi expulso de lá e agora se abriga em biroscas para poder vivenciar sua única alegria. Às vezes temos esmolas de grandes shows como os de Madonna e Lady Gaga, então o grande capital ganha, os trabalhadores minúsculos sobrevivem e ficamos esperando a próxima esmola. 

VIII

A maior prova do descalabro da cidade está nas madrugadas, quando milhares de famintos tentam se abrigar na porta de agências bancárias. Lembre-se: toda vez que você vir uma pessoa em situação de rua desabada numa calçada à tarde, pode ser consequência da pessoa virar a noite acordada, com medo de ser morta, incendiada ou estuprada.

IX

A cidade está crescendo. Temos cada vez mais prédios, voltados para quem já tem apartamentos - a minoria. Surgem novos bairros devidamente gentrificados, onde o povo só aparece como camelô ou prestando os serviços condominiais. "

”O povo? Que se aperte nas favelas."

Nos bairros antigos, há cada vez mais lojas fechadas que nunca mais vão abrir. 

Aliás, a própria rua que, no passado, era um palco de celebração da cidade, agora é cada vez mais mero percurso de passagem. As pessoas têm pressa. As pessoas têm medo. O celular virou o último refúgio das amizades numa cidade que já misturou muitos gênios em muitos bares, mas tirando os nichos da burguesia e alguns pontos esparsos, a vida na rua acabou. Ficaram apenas as pessoas oprimidas pela miséria.

X

"Miséria, miséria em qualquer canto, riquezas são diferentes."

"A morte não causa mais espanto."

A cidade ainda tem beleza sim. Ainda tem poesia. Contudo, as chances são cada vez mais escassas.

A cidade humilha as pessoas, não todas, mas a maioria. 

Muita gente deu seu sangue e sua vida para que a cidade fosse de todos, mas isso jamais aconteceu, e não há esperanças de que o cenário mude. 

Seria possível mudar a cidade para melhor, mas as pessoas que controlam o poder não têm o menor compromisso com o bem comum: parlamentares, empresários, personalidades, banqueiros etc. Nunca estiveram nem estão aí com nada. 

XI

Cidade maravilhosa. 

@p.r.andel

Monday, July 14, 2025

Dia útil

São 6:13 da manhã. A cidade maravilhosa é cheia de marmitas sacudidas nas bolsas e mochilas dentro dos trens e ônibus. Muita gente oprimida não tem sequer marmita, apenas um pacote de biscoitos recheados baratos. Enquanto isso, na TV pipocam matérias dizendo sobre todos os malefícios dos biscoitos recheados, sempre desprezando o fato de que, na maioria dos casos, o biscoito recheado é a única alternativa econômica para não se passar fome - é que nossos veículos de comunicação são um tanto desalinhados da realidade prática. Há muita gente sonhando com empregos dignos, mas isso é muito difícil. Você vê precarização por toda parte. As pessoas chorando, sonhando e lutando por algo que nunca vão ter direito. O céu ainda está escuro e todo mundo sonha com uma boa semana, mas será possível com tanta miséria? Será que alguém ainda acha justo ou normal o que todos vemos na rua se quisermos? A maioria finge que não vê nada disso, geralmente composta por pessoas que não precisam de marmitas e biscoitos. Reinam a hipocrisia e a indiferença. Terra adorada...

@p.r.andel