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Tuesday, January 30, 2024

Oi, carnaval

Carnaval já é.

Ok, não parece? Tem certeza? O silêncio lá fora não rima com a festa da folia? 


Tudo bem que nessa tarde quente, estou escutando meu herói David Gilmour berrar “Shine on you crazy diamond”, o clássico de “Wish you were here”, desta vez numa pérola do CD “The Later Years”. O tempo não espera. Dia desses Gilmour disse que prefere “Wish you were here” a “Dark side of the moon”. Quem sou eu para contestá-lo? Gosto dos dois. Gilmour é de 1946, e está à beira dos 78 anos. Eu o conheci com 36. 


Pink Floyd de lado, mas já é carnaval? 


Espio pela janela da loja e quase não há carros. Os pedestres desapareceram de vez e o fim de janeiro é absolutamente silencioso no Centro do Rio, já tão sofrido pelos últimos anos. Agora, silencioso durante os chamados dias úteis, porque os finais de semana têm atraído multidões para a região, naturalmente por causa dos blocos comandados por aviões como Lexa e grande elenco. É gente pra todo lado. 


Já é carnaval. A rua tem uma certa cara de feriado emendado. Na praça Tiradentes, policiais e pessoas em situação de rua convivem pacificamente debaixo da mesma sombra de árvore, bem perto do primeiro ponto de ônibus. O calorão é de derreter. 


No fundo, no fundo, todos estão esperando chegar a grande festa de vez. E logo me lembro de Bola, o mitológico Rei Momo dos anos 1990, com toda a sua irreverência e carisma. Morreu jovem, uma pena. Certa vez o vi na Rua de Santana e gritei do outro lado da rua: “Bola, um deus”. Sorridente, ele começou a fazer evoluções e saudações. Um lorde como não se faz mais. 


Samba, alegria, beleza, sensualidade, diversão, sexo, a magia indescritível do desfile das escolas de samba, os bailes que ainda sobrevivem, os blocos que viraram uma febre de vez pelas ruas cariocas. O bicho pega, literalmente. Melhor dizendo, o bicho manda. 


Lá vêm turistas de toda parte, encantados, se divertindo a valer, preferencialmente sem nada de grave acontecer, como às vezes acontece nessa cidade turbulenta. 


O Carnaval tem uma força que nem o futebol consegue. Quando ele está a caminho, tudo fica aos pés, ao seu entorno, nada pode ultrapassá-lo. O futebol, não: tem uma grande decisão no domingo, segunda-feira a vida segue. No Carnaval, amigo, vinte dias antes da festa já tá todo mundo em ritmo de pressão e é natural que seja assim, especialmente para quem trabalha no desfile do Sambódromo. É o serviço e o esforço de um ano inteiro que está em jogo em 50 ou 60 minutos. 


Duas e meia da tarde. Timidamente houve algum movimento na rua. Um carro da polícia toca a sirene para nada, apenas passar o sinal. Não há sequer potenciais presos aqui na rua vazia. 


Off Carnaval, só mesmo David Gilmour cantando, desta vez com doçura, “Us and them”. É de longe, da turnê “Delicate sound of thunder”, 1989. Tempos de Luciene, Martha Rocha, Danielle e Alessandra. Comecinho de faculdade. Como meu diploma se encaminha para 30 anos, temos a certeza do tempo implacável. Tudo bem. Vivamos. O Carnaval está aí, com seu presente e passado. 

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