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Sunday, July 28, 2024

Tchau, julho

A semana começa no domingo, mas a maioria só sente quando chega a noite, porque vem uma semana à frente e muitos querem que escorra de uma vez para que chegue a folga. 

Assim vão passando os dias, meses, anos, décadas. 

Será que isso tudo faz sentido? Não creio. O mundo deveria ser liderado pela arte e reflexão, temos terra e comida demais mas também miséria e fome demais. Salvo alguns alívios, essa sempre foi a regra da ascensão do capitalismo e jamais mudará, porque depende da conscientização dos homens, o que é utopia - até mesmo os que mais confiamos podem se revelar verdadeiros fracassos de fraternidade - o que alguns idiotas chamam de voluntarismo. 

Um exemplo típico: há pouco, vi na TV sobre um bacalhau delicioso feito em Paris. Cento e vinte euros. Grrrr! Tive pena do bacalhau como tenho de todos os bichos, mesmo não conseguindo ser vegetariano/vegano. Minha mãe chorava por isso. Então me lembrei que, em algumas situações, conheci pessoas que fazem um belo e justo trabalho/discurso sobre a causa animal, só que uma ou outra eu flagrei em situação de completa indiferença para com amigos(?) necessitados. Todos os bichos merecem apreço, mas o ser humano também. Enfim...

Julho foi rápido e está no fim. Vamos nos divertir um pouco com as Olimpíadas, para aliviar nossas almas. Eu continuo me sentindo o piloto de um avião rumo ao choque definitivo contra uma montanha. Enquanto isso vivo, trabalho, luto muito, sinto muitas dores sem remédio, observo egoísmo, ingratidão, falsidade e, quando isso se mistura às manchetes, eu sinto toda a desesperança. Bom, pelo menos ainda tenho alguns amigos para conversar. É um alívio diante do caos. 

Talvez não durma cedo. Há muito tempo não tenho sonhos bons. Fico torcendo para a sorte por absoluta falta de perspectivas. Então vou escrever, produzir, vender, escutar, navegar por um milhão de lembranças, vou torcer pela felicidade de pessoas que não conheço, vou torcer pelo sucesso de outras e eu mesmo não estou nem aí: tendo uma casa, cama, chuveiro, smartphone e sanduíche, está tudo bem. Era o que todo mundo merecia, e que aliviaria muitas dores do mundo, mas foi o que disse antes: raro é o homem que quer ver de verdade a igualdade entre os semelhantes.

Acabou o domingo. Que todos tenham uma semana de paz e momentos felizes. Uma esmolinha de paz para cada um.

Friday, July 26, 2024

Gente do Rio, gente do mundo

Mal a TV ligou, surgiram às imagens do adeus a Rosa Magalhães, figura íntima das casas cariocas e nacionais há décadas, e que se tornou a carnavalesca com mais títulos em nossa festa maior. 

Rosa é fruto da imensa árvore deixada por Fernando Pamplona, outro símbolo carnavalesco de glória. E num estalo, ouvindo as notícias, só de figuras do Carnaval a gente se lembra de nomes como Viriato Ferreira e Joãozinho Trinta - não precisa ser carioca para ser,  incorporado de vez pela história da cidade. É o caso do mineiro Telê Santana, que faria aniversário nesta sexta-feira, foi ídolo do Fluzão e foi um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro. No futebol a gente tem um monte deles, que vieram de inúmeros lugares e se consagraram aqui: os pernambucanos Ademir Menezes e Vavá, os paulista Romeu Pelicciari e Roberto Rivellino, o gaúcho Renato Portaluppi, dentre tantos outros. No entanto, nenhum deles superou Moisés, o mitológico zagueiro dos anos 1970, em símbolo de carioquice: bom humor, irreverência, malandragem e, claro, Carnaval: foi Moisés que criou o famoso Bloco das Piranhas, que desfilava em Madureira, era basicamente composto por jogadores de futebol vestidos de mulher, e que arrastava multidões pelo bairro com cara de samba. 

A história do Rio foi contada por muitos cronistas e, dentre eles, craques que também vieram de fora para ornamentar o texto carioca. Imediatamente lembramos do gênio capixaba Rubem Braga, logo associado a feras como os mineiros Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, o também capixaba Carlinhos Oliveira e o incrível Ivan Lessa, que era inacreditavelmente paulista, mas só de nascença. Mais recentemente, a literatura brasileira tem o nome do imortal Ruy Castro, perfeita tradução do carioca nascido em Minas Gerais - e a ABL também conta com a genialidade de São Gilberto Gil, cidadão baiano do mundo cravejado na praia de Copacabana. Por lá está a maravilhosa Fernanda Montenegro, mas essa é carioca de corpo, alma e certidão. 

Quanta gente boa brilhou e brilha no Rio? Falemos das letras, das artes em geral e dos esportes, da vida cotidiana. O cinema, o teatro, a música, as artes plásticas. 

É o Rio, a mistura de gentes do mundo que chega neste lugar e incorpora seu espírito. São muitos sotaques, temperos e personalidades que se misturam, resultando numa química única. Mesmo com a cidade tão sofrida e maltratada, ainda existe uma saída que só a arte proporciona. Muitas pessoas trabalharam muito no passado para que tivéssemos esse status. A maioria já não está por aqui fisicamente, mas suas assinaturas são eternas presenças. 

Novamente recorrendo a Ivan Lessa, herói da crônica brasileira, em uma de suas geniais sacadas: 

"Conseqüentemente: aí está, viva e atuante, a crônica do cronista brasileiro.

Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro.

Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador.

E daí que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley?

A crônica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo."

Sofremos um golpe duro bem em Copacabana. Morreu Rosa Magalhães. Milton Cunha, um dos maiores símbolos da nossa alegria, acaba de aparecer em lágrimas na TV e não poderia ser de outra forma. 

A última sexta-feira de julho não é quente nem fria, nem nublada ou ensolarada. Isso deve dizer muitas coisas. 

@pauloandel

Friday, July 19, 2024

Dia Nacional do Futebol

Ah, se não fosse o futebol… Como eu ia me entorpecer em sonhos diante do mundo injusto e cruel, cheio de mortes por covardia e gente dizendo adeus muito antes do razoável? 

Como eu ia ter alguma alegria durante a semana ou na noite de domingo? 

Escrevo sobre muitas coisas, mas futebol é essencial para mim. Ele é o álcool que pouco bebo, ele é o cigarro verde que não fumo, é o alívio para noites silenciosas e viradas por simples tensão. Há cinquenta anos o futebol me salva do suicídio, então não pode ser pouca coisa.

O jogo, o gol, o lance, a gente que faz da arquibancada aquarela, a gente que se abraça e ri ou chora, a gente que namora e deseja. Ah, o futebol, que já foi samba e rock e agora é cumbia, é ele que me tira da miséria e do desespero.

Quer uma noção da importância? Neste sábado mesmo no Nilton Santos. Em qualquer outro lugar, uma queda de luz diz pouca coisa. Agora, faltar luz durante um jogo de futebol é plantão jornalístico.

Meu futebol tem botão, dadinho, bolinha de isopor, areia da praia, figurinha, mesa de preguinho, boneco, camisa, flâmula e livros, muitos livros. Tem saudades da família, beijo da namorada, sacanagem nas cadeiras, abraço de irmãos, choro, riso, suspiro e tudo se resume num UUUUUUHHH quando a bola passa pertinho da trave ou o goleiro espalma para corner, no Maracanã abarrotado. 

Meu futebol tem gente banguela, camisa rasgada, chinelo de dedo e geral abarrotada, todo mundo se apertando na chuva e torcendo para a Suderj abrir o portão que dá acesso ao alto da arquibancada, onde tem uma enorme cobertura de concreto que faz o som ecoar pela terra.

Ah, o futebol. Noites em claro, viradas impossíveis, sonhos e drama. Futebol de lembranças, que faz voltar no tempo e ver na tela momentos arrebatadores.

Talvez o meu futebol nem exista mais, mas ele é tão bom que a sua simples lembrança já alimenta muitas fantasias maravilhosas. Todas elas me fazem sentir vivo, sereno, com o coração cheio de esperança mesmo que as probabilidades sejam minúsculas.

Claro que há defeitos mis no futebol, mas o saldo positivo justifica a batalha.

@p.r.andel

Thursday, July 18, 2024

1346

Eu frequentei a casa de Fred entre 1977 e 1991. Foi algo decisivo em minha vida, tão importante quanto a faculdade. Tirando as horas de sono, certamente passei mais tempo lá do que em qualquer outro lugar da juventude. Na casa do Fred aprendi a jogar, ouvir música, beber, namorar e conversar. Nada disso foi planejado, mas fruto do acaso e do destino: Dona Magda, a mãe do Fred, trabalhava em hotel, então o apartamento estava sempre livre para nós, do meio dia à meia noite. Foram dias fantásticos. Tínhamos um grupo e um enorme prazer em estarmos juntos a qualquer hora, para qualquer coisa: jogar cartas, ouvir LPs, ver TV, praticar conversa fiada ou mesmo nada. Fred foi uma grande referência para mim e um tremendo desfalque com sua morte precoce - acho inacreditável que ele, Xuru e Luiz Magno tenham morrido tão jovens, três caras que eram realmente meus amigos de verdade. É muita coisa.

Voltar no tempo só faria sentido para mim se pudesse ter meus pais e as pessoas queridas de volta, nem que fosse por um tempinho. Tudo está muito longe, mas sinto falta, não me acostumei com o óbvio: nunca mais estarei com meus amigos, a não ser em minhas lembranças. Tudo bem. Envelhecer tem seus bônus e ônus também. É do jogo da vida.

Wednesday, July 17, 2024

Trinta anos depois da Copa de 1994

Eis o tempo, que escorre e vai oferecendo reflexões e reflexões, ainda mais no futebol por ter uma espécie de tempo próprio. 

Imagine a ficção científica se você estivesse em 1994 e um cientista te oferecesse uma oportunidade como a do famoso filme "De volta para o futuro". "Você vai para 2024 e espia como está a Seleção Brasileira, depois volta". O susto seria grande. Estamos mal, bem mal e com evidente preocupação. 

Há trinta anos, o Brasil vivia uma loucura. Depois de 24 anos, voltamos a ganhar uma Copa do Mundo em decisão dramática contra a velha Itália, sempre ela. Pela primeira vez, a Copa foi decidida nos pênaltis - e talvez esse drama ajude a explicar porque nós, brasileiros, passamos anos e anos sacaneando os tetra campeões.

Ah, o Zinho é enceradeira. Ah, o Brasil não joga bonito. Ah, o Brasil não goleia. 

Não, a Seleção de 1994 não se compara às suas antecessoras vitoriosas em 1958, 1962 e principalmente 1970. Mas qual outra Seleção no mundo se compararia? Talvez justamente as que não venceram, talvez. Hungria 1954, Holanda 1974 e Brasil, ele mesmo, 1982.

A verdade é que, longe de paternalismos, não soubemos dar o devido valor aos tetra. Reconhecer que, desde a retumbante goleada sobre a Bolívia no Arruda, reagimos nas eliminatórias até a batalha final diante do Uruguai, quando Romário fez a maior exibição de sua carreira. 

O Brasil não era uma tampinha chutada no chão. Na boca da Copa, perdeu Mozer e Ricardo Gomes, depois Ricardo Rocha - que outra Seleção aguentaria esse tranco? E o azar em ter um craque como Raí na pior fase de sua carreira? Tivemos e superamos. 

Taffarel, goleiraço. Jorginho, monstruoso. Aldair e Márcio Santos, duas feras. Leonardo, ótimo. Quando Branco entrou, decidiu e mostrou a que veio. 

Dunga e Mauro Silva formavam uma tremenda dupla de volantes. Mazinho era um jogadoraço, capaz de fazer várias funções. E Zinho ia muito, mas muito além da enceradeira, como provou no decorrer de sua carreira. 

Bebeto e Romário. Desnecessário comentar. 

Membro da comissão técnica de 1970, Parreira já nasceu com o DNA da vitória. Um dos treinadores que mais classificou equipes para os mundiais, fez trabalhos espetaculares no Brasil, sendo o Fluminense de 1984 o melhor deles. Com Parreira, o Brasil foi frio, equilibrado, pragmático mas também talentoso. Ao lado de Parreira, o implacável e glorioso Zagallo. 

Não brilhamos intensamente em todos os jogos, mas o fato é que o Brasil se impôs a todos os rivais na Copa dos EUA. Sua única grande dificuldade além da final foi a semifinal diante da poderosa Holanda, num jogaço por sinal. Em todas as partidas o futebol brasileiro foi superior, traduzindo sua força em grandes jogadas. 

A beleza dos gols de Romário e Bebeto, a eficiência dos passes de Dunga, os bons cruzamentos de Jorginho, a  elegância do miolo com Aldair e Márcio Santos, tudo isso está registrado. 

Ok, não fomos brilhantes o tempo todo e nem precisávamos. Agimos quando foi preciso. Rever os jogos contra a Holanda e a Suécia a seguir, pela semifinal, ajudaria muitos a perceber que a nossa Seleção estava longe da mediocridade.

Há trinta anos o Brasil parou e enlouqueceu. As pessoas foram ao delírio. Nós não tínhamos mais Pelé e Garrincha, Didi ou Tostão, é fato, mas ainda tínhamos uma cortina do passado: Bebeto e Romário foram assombrosos, Taffarel e Jorginho foram devastadores, Branco foi demolidor, Dunga foi o símbolo da garra. O Brasil ganhou o tetra porque mereceu. 

Quem não queria ter a chance de rever Pelé no campo? Ou Rivellino? Ou Didi? Claro que sim, mas na inevitável ausência destes craques porque o tempo não para, não há como não reconhecer que o Brasil de 1994 teve o seu valor. Que o digam os tempos modernos em que estamos, ao menos por ora. 

@pauloandel

Sunday, July 14, 2024

Sérgio Cabral

Morreu num domingo frio de julho, aos 87 anos, um dos maiores brasileiros que já tivemos. 

É difícil definir a trajetória de Sérgio Cabral em poucas palavras. Impossível, aliás. Por mais de meio século ele foi um dos faróis do Rio, disseminando informação, arte e cultura. 

Jornalista por ofício, escritor, biógrafo, pesquisador, colecionador e muito mais, Sérgio foi um dos aríetes da Cultura popular carioca. Ao lado de outros grandes nomes, tais como Albino Pinheiro e Hermínio Bello de Carvalho, ele ajudou muito no conhecimento e popularização de expressões artísticas como o samba e, particularmente, as marchinhas de Carnaval. 

Como não existe cultura popular do Brasil que não esteja próxima do futebol, Sérgio Cabral marcou presença firme como jornalista, cronista e comentarista de futebol. Torcedor apaixonado do Vasco da Gama, era uma espécie de memorabilia ambulante do futebol carioca. 

Quando a barra pesou, Sérgio estava no Pasquim, tablóide de intenso combate à ditadura militar. Viveu o jornal do começo até seu final. O Pasquim não era só de acertos, diga-se de passagem, mas teve um papel importantíssimo na vida brasileira dos anos 1960 até parte dos 1980. 

Jornalismo, futebol, samba, marchinhas, carnaval. O Rio das ruas, das vielas e conversa fiada. O Rio dos acepipes e chopes dourados da felicidade. O Rio que passou em nossas vidas e teve momentos brilhantes. Tudo isso foi registrado pelo texto sagaz e pela fala apurada de Sérgio Cabral, a quem o Rio de Janeiro muito deve em termos de divulgação, valorização e protagonismo na vida nacional. O jornalista merece todas as loas por sua dedicação pelo Rio, a quem dedicou toda sua vida profissional até que as limitações de saúde se tornaram implacáveis. 

Deveria ser dia de homenagens a Sérgio Cabral no Teatro Municipal, no Teatro João Caetano e no Maracanã. Sergio merece: sua longa trajetória não foi em vão.

@pauloandel

Friday, July 12, 2024

Foi o tempo, só o tempo

Difícil as pessoas entenderem, tudo bem. Não é saudosismo, nem se negar a viver o presente. É apenas reconhecer as coisas que eram muito legais no passado, e que não voltam mais. Espiar os pais dormindo bem e depois ficar vendo TV na sala. Ter insônia no dia do acampamento dos escoteiros. Deitar e ficar na expectativa da pelada de areia no dia seguinte. E o frio na barriga de poder ir para o Maracanã, imagine? Aquele nervosismo por causa do vestibular, ou de passar de ano com boas notas. A expectativa de ver um filme esperado. Ih, e o encontro com a crush na praia? A turma de rua, gastando a noite com a boa e velha conversa fiada? Já pensou um showzão no Canecão? Não é saudosismo, mas apenas reconhecer que muitos momentos maravilhosos, mesmo simples, agora estão longe demais - e não há problema, porque a vida é assim mesmo.

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Era bem raro meus pais saírem à noite. Invariavelmente brigavam e não tinham grana. Mas aconteceu, sei lá como, num sábado à noite e, quando me dei conta, estava sozinho em casa. 

Fiquei esperando começar o Perdidos na Noite. Antes, preparei uma panela de ravioli só pra mim. Com pomarola à vontade. Foi uma noite especial.

Sunday, July 07, 2024

O morto-vivo de Copacabana

A mais estranha de todas as sensações é estar  num lugar que é tão familiar depois de tantos anos, mas ao mesmo tempo tem tantas diferenças num percurso que mal dá um quilômetro. 

Volte a Copacabana depois de quase trinta anos. A Babilônia Brasileira permanece intacta em sua riqueza multifacetada, cheia de cores, crenças, classes, comandos, turmas, gangues, mas é tudo diferente demais. Qualquer cinquentão pode ser um morto vivo refazendo o caminho das ruas, procurando endereços desaparecidos e revendo logradouros finados.

Passe pelo Shopping dos Antiquários, um ponto tradicional do bairro. Cadê o Supermercado Leão, a loteria do Seu Carlos - com mil escudos de times na parede - as papelarias com maravilhosos botões, o bar Bole-Bole - que tinha a pior almôndega de todos os tempos -, o Teatro Teresa Raquel? Cadê os transeuntes? Billy Blanco, Agildo Ribeiro, Jorge Cherques, Rodrigues Neto, Cauby Peixoto, Walmor Chagas, Regininha Poltergeist? As famosas lojas Lixo e Lixão, que ditaram moda nos tempos da repressão braba. Humm, e o fliperama na saída da Siqueira Campos? Nunca mais. E as Termas L'uomo? E o Magnetoscópio? E o grupo de escoteiros? O Copa D'or domina tudo! 

Descendo pela rua Tonelero, desapareceu a loja Cantinho Sonoro - das primeiras a vender CDs no país - e a papelaria Tia Dália - também um importante fornecedor de botões para jogar. Na esquina de Anita Garibaldi, faleceu a Casa Natale, com excelentes frios e importados. Bom, do outro lado da rua pelo menos o botequim e a padaria permanecem intactos. 

Vire à esquerda na Santa Clara e corte a Barata Ribeiro. Mais duas lembranças: a loja de brinquedos Dom Pixote e, bem em frente, a maravilhosa Massas Suprema - com pasteizinhos emocionantes. Se tivesse ficado na esquina anterior, além da casa de frutas veria as maravilhosas lojas de discos Billboard e Modern Sound, além do Cine Bruni Copacabana. 

O morto vivo para na esquina de Santa Clara com Avenida (Nossa Senhora de) Copacabana. Num breve giro de 360 graus, ele espia na memória a Casa Barbosa Freitas, a Cirandinha, o Cine Art Copacabana, o Metro Copacabana, a Casa Sloper, as Lojas Brasileiras - com a inesquecível pizza brotinho de muçarela - a Bonnie, a Casa Mattos, tudo pelos arredores. Ufa!  

Melhor voltar pela avenida no sentido dos carros e saber que a Charutaria Lolló se salvou - esteve para fechar, mas o novo dono foi heróico e ainda manteve os veteranos funcionários. Ou atravessar a rua, parar bem em frente à Galeria Menescal e olhar onde era o Gordon, lanchonete histórica dos anos 1960 a 1990 - tinha um canguru gigante na porta! - as crianças ficavam enlouquecidas ao vê-lo.

Figueiredo Magalhães. A outrora esquina mais barulhenta do planeta Terra (esférico). Na porta das Lojas Americanas tinha uma lanchonete que vendia cachorro quente e refresco de côco em copo de papel em cone, no tempo em que ali do lado o Cine Condor exibia "Sissi, a imperatriz" com a belíssima Romy Schneider. Voltando à avenida, a radical galeria Ritz com a Loja Promessa de vizinha. Depois Sapasso, Formosinho, Banespa e finalmente o Boni's, que mudou mas não muito. 

Do outro lado da rua, o Centro Comercial de Copacabana. A loja Disco do Dia abasteceu os corações de música pelos anos 1980. Mendel Chapiro tinha uma loja exclusiva de jeans no subsolo. No segundo andar havia uma lanchonete com excelente misto quente. No terceiro, a pioneira dos sex shops no Rio. E no prédio, as belas GPs atraíam os garotos para as festas do amor em quitinetes com divisórias, para a alegria do irreverente Ibrahim Sued, sempre fazendo graça com os jovens clientes saídos dos estabelecimentos sexuais. 

Ao morto vivo, um espírito que anda, resta sair do CCC, virar à direita em direção à praia, passar pela Churrascaria Carretão cheia de turistas e procurar pelo Rondinella na esquina com a Atlântica. Ali, o ator Percy Aires, ex-dono, deu muitos autógrafos para os clientes quando fazia sucesso na Globo, quando interpretava um general de pijama na novela das oito. 

Mais adiante, outras garotas inesquecíveis na Boite Bolero. Porém, somente em sonho. 

Três botequins mortos

Entre dezembro de 1983 e agosto de 1990, se passaram mais de dois mil dias. Em 90% deles eu dediquei pelo menos uma hora diária ao Sniff's, o mitológico botequim que ficava aos pés da escada rolante que levava ao Teatro Teresa Raquel, o Teresão, um dos símbolos da cultura nacional, hoje Teatro Claro. Foi uma fase muito importante da minha vida, dos 15 aos 22 anos, onde pude aprender muita coisa com os veteranos da área, rir de montão, chorar um pouco e infelizmente até brigar. Faz parte da vida. O mais incrível é que fui um frequentador de botequim praticamente sem consumir álcool: ficava na Coca-Cola e no suco de morango ao leite. Anos depois, incentivado por minha amiga Ana Elisa, acabei escrevendo um pocket book sobre o Sniff's, um dos que mais gostei de fazer. O boteco resistiu a planos econômicos, golpes de estado, inflação galopante, desemprego e o escambau, mas perdeu a batalha para o COVID-19. Vida que segue. 

Eu vivia no Sniff's porque meus amigos escoteiros - sim! - lá estavam diariamente. Depois, os maravilhosos personagens do bar eram uma atração à parte. Por fim, apareciam as celebridades artísticas e culturais por conta do Teresa Raquel, então estava formado o grande caldo cultural para boas conversas, muitas hilariantes e outras que chegavam à beira da porrada. Era nosso bar oficial. Não tinha nenhum atrativo que cativasse o público além da birita e do bom papo. Comer por lá, nem pensar. 

No circuito do Shopping dos Antiquários, que não tinha esse nome nos anos 1980, o Sniff's teve dois concorrentes por longo tempo, melhor dizendo, um - o outro durou menos. Eram o Bole-Bole e o Abílio, que tinha outro nome mas só o chamávamos pelo nome do dono, gente boa. O Abílio durou anos e anos, o Bole-Bole acabou nos anos 1980 mesmo. Ambos eram nossos points ocasionais, às vezes para prestigiar os outros comerciantes, noutras vezes em greve contra o Sniff's por algum motivo que nunca passava de dois dias. 

O Abílio ficava de um lado da grande e maravilhosa rampa circular do Shopping, bem em frente aos Supermercados Leão (onde tomávamos Ice Cream Soda nos sábados à tarde). Era um boteco simpático e nele os clientes comiam, ao contrário do Sniff's. Estava sempre cheio. Já o Bole-Bole ficava do outro lado, no outro corredor e estava sempre vazio. Era um refúgio de bebuns. Quem o comandava era Marieta, algo incomum para uma mulher naqueles tempos, onde volta e meia recebia alguma cantada dos fregueses. Quando o cidadão passava do ponto, ela dizia barbaridades sexuais que deixavam todo mundo sem graça e o assunto morria. 

O Bole-Bole era famoso por seus acepipes trash e uma pimenta que assustava todo mundo, mas devia ajudar a encarar os pratos. Em certa ocasião, nossos amigos João e Jésus fizeram uma aposta: o primeiro pagaria uma grana se o segundo encarasse uma almôndega do bar com uma pimenta quadrada aterrorizante. De olho na bufunfa, Jésus pegou o pratinho com duas almôndegas estilo semana passada. Abriu o garrafão, tacou a pimenta e mordeu. Ficou impassível, mas não conseguiu esconder as lágrimas quando mordeu a pimenta. 

João só ria. 

Friday, July 05, 2024

Bolinha, eu e MJ

Meu amigo Bolinha já esteve comigo em tantos lugares que, desta vez, nem parecia algo inédito. Foram bares, bares, bares, hall da faculdade, viagens, jogos, locais proibidos pela moral e pelos bons costumes, cemitérios, camelódromos, buracos variados. Agora, definitivamente o tempo passou: combinamos de ir juntos ao cardiologista. Cogitei até um adiamento; afinal tinha o sensacional jogo da seleção...quem? Uma gatinha do meu trabalho me disse que o médico era mais importante do que futebol. Não concordei, mas achei melhor ir. Estranhos os caminhos do ser humano.

Não gosto de médicos. Melhor dizendo, não gosto de certa frieza que contamina a classe médica no atendimento ao próximo. Talvez seja algum trauma de tanto ter acompanhado minha mãe a clínicas. Ou meu pai, que passou um ano internado. Ou o Xuru. Ou o Fred. Não gosto. Ironicamente, comecei minha vida profissional em um hospital: o garboso Philippe Pinel, em Botafogo. Já se foram quase vinte anos. O tempo passou.

Simpática a moça do eletrocardiograma. Tinha algo de kraftwerkiano naquilo. Não posso morrer agora: tenho que pagar dívidas, escrever livros, amar uma mulher linda e voltar a ver o Fluminense campeão do mundo. Hoje é dia vinte e cinco de junho, uma data sempre especial, inesquecível e, até bem pouco tempo, cercada somente de alegria: aniversário de uma das mulheres mais bonitas, charmosas e simpáticas que conheci na Terra, Luciene Magnani. E claro, o dia marcado pela maior conquista da história Tricolor no Maracanã, maior até do que o campeonato mundial de 1952 ou o bi de Assis: o título do Centenário, com o gol de Renato. Não morrerei. Estatística serve para isso: ler gráficos. Há estabilidade no eletro. Ufa.

Simpático o Doutor Mário. Parece com alguém que conheço, mas não lembro. Parece jovem para um médico que cuida da mãe do Bola. O primeiro cardiologista que faço rir. Achou engraçado que Bola tivesse marcado minha consulta. Expliquei: somos amigos há vinte anos; não gostamos de médico; não formamos um casal gay; gostamos de mulher, inclusive feia (Bola, muito mais do que eu); achamos bom que dois gordos fossem se consultar seguidamente – isso poderia aplacar a ira do doutor para com os de peso. Ele riu. Passou os exames chatos de sempre. Pulso normal, coração normal, um remedinho. Meu IMC nem está ruim como se poderia imaginar. Raras vezes me senti tão bem em um ambiente tão hostil. Bola também foi bem. O tempo passou.

Há muito não navegávamos pelos bares do Méier, onde não se bobéier. Tem algo ali de Alexandre Machado. Tem algo da Magnani. Algo de Sonia Chrystina. E, claro, do inusitado Alvaro Doria. Algo de Copacabana na Dias da Cruz, da avenida Copacabana entre Figueiredo de Magalhães e Siqueira Campos, para os que me entendem. Fomos felizes. É bom não estar à beira da morte numa consulta hospitalar.

Cabia uma comemoração.

Somos gordos sem-vergonha, irrereventes e suficientemente desajustados para entrar no rodízio de pizzas da Parmê, minutos após termos sido absolvidos pelo Doutor Mário. Poderíamos ter sido salvos se prevalecesse a pão-durice do Bola, reclamando do preço abusivo para se comer trinta fatias de pizza e beber hectolitros de refrigerante de cola. Rapidamente, o empurrei para dentro do restaurante.

Nossa vida tem sempre algo engraçado.

Antes das fatias, rápida passada pelos cedês das Americanas, no shopping. Não resisti a um Led Zeppelin, mesmo com “Stairway to heaven”. Dez pratas. Bola é meu amigo, mas é pão-duro; Seal estava de grátis, ele pegou... mas refutou. Tio Patinhas! A garota no caixa era uma morena bela; quando tentei pagar, ela falava ao telefone e parecia delicadamente sexy; enquanto isso, Bola se abaixava para pegar um DVD de Michael Jackson que estava no chão e que, involuntariamente, havia pisado em cima:

- Que é isso, mano, quer pisar no Michael?

- Pó, cara, ele tá caidinho.

Risos tolos, feito os dos tempos da faculdade. Nem sabíamos do que acontecia do outro lado da América.

Parmê. Uma morena jovem, linda, fofinha e grávida. Uma turma de adolescentes em festa. Gritos, risos, gente. E falamos da vida, do amor, do passado, de como foi bom rever Dino no Orkut. Nem tudo florido: também dizer sobre os que considerávamos amigos, que se afastaram.

Foi divertido. Bom viver os pequenos prazeres da vida. E descobri algo inédito: ir ao médico com um grande amigo pode ser menos incomodativo. Coisas boas acabam cedo. Hora de voltar para casa. Ouvir Jimmy Page. Pensar no dia seguinte.

Veio um 239, o motorista não parou. Eu estava no ponto errado, de forma que o considero absolvido. Mas esperei outro vir. Cinco minutos, chegou. Vazio. Antes disso, falei com um rapaz que estudou Direito comigo, Guilherme. Coisa rápida, um olá, um abraço. O fiscal libera, o coletivo parte rumo à Marechal Rondon, zona de tensão da vida carioca. E tocou o telefone. Eu queria que fosse a Tati, ou saber notícias do Leo, ou alguma palhaçada do Zé. Era o Bolinha, em tom assustado e impactado:

- Cara, Michael Jackson morreu!

Levei um soco.



Pequenas lembranças às quatro da manhã

 1) Em 1991 ou 1992 fomos eu e meu amigo Sérgio ver "O pescador de ilusões" no cinema do Rio Sul. Era um tempo em que eu não ficava 15 dias sem ir ao cinema, meu Deus. Robin Williams arrebentava num filme atrás do outro, sem parar. Enfim, ser jovem no comecinho dos anos 1990.

Fizemos faculdade juntos. Éramos muito diferentes mas vínhamos do mesmo berço: Copacabana. Nos juntamos de imediato e formamos uma turma maneira, que durou vários anos. Um dia brigamos feio por nada e nunca mais nos vimos. Uma bobagem que talvez não acontecesse na maturidade. Vivemos tantas histórias divertidas juntos que, até hoje, perguntam a um pelo outro. Ótimas histórias.

2) Engraçado que Vanessa me mandou mensagem há pouco, falando da Ana Paula, nossa querida, que apelidamos de Marisa Monte por seu então cabelão preto. Isso ainda tão vivo em nós, depois de tanto tempo - falo de 1990, 1991, trinta e poucos anos. Vanessa é admirável, sempre foi. 

Monday, July 01, 2024

Gerald Thomas, 70

Sou um completo leigo na arte teatral. Um intuitivo, que tenta mergulhar no universo da ribalta. Isso não me impede de celebrar um ídolo que acaba de completar 70 anos: Gerald Thomas.

Eu ainda era garoto quando as peças de Gerald causavam furor no Rio de Janeiro e em todos os lugares do mundo onde eram encenadas - mesmo. Eventos arrebatadores, espetáculos sold-out. Desde fins dos anos 1980, sabíamos de alguma forma que Gerald Thomas era a nossa potência vanguardista do teatro, ao lado de figuras também gigantescas como Zé Celso Martinez Corrêa. 

Qual seria o motivo de tal fascínio? Bom, como autor, diretor e artista gráfico, Gerald atira em todas as direções - inclusive como ator: basta ver as inúmeras vezes que confundiu jornalistas em entrevistas, falando coisas muito sérias que foram tidas como brincadeira, e outras que eram claras brincadeiras, mas tidas como coisa muito séria.

Desde criança, leu tudo, tudo o que podia. Ainda garoto, foi modelo e conheceu o wild side de Copacabana e Nova York.

Eis a ficha de Gerald no Museu da Pessoa: "Gerald Thomas Sievers nasceu em Nova York, em 1957. Filho de pai alemão e mãe galesa, Gerald morou até os 7 anos em sua cidade natal. Migrou com a família para o Rio de Janeiro, onde começou seus estudos de artes com Ivan Serpa e Hélio Oiticica. Aos 13 anos a família voltou a morar nos Estados Unidos, mas por falta de adaptação retorna no ano seguinte ao Rio de Janeiro. Aos 14 Gerald vai morar em Nova York com o artista plástico Hélio Oiticica. Aos 16 muda-se para Londres e casa-se com a bailarina Jill Francis Drower. Em Londres estuda na London Education Authority e começa a trabalhar com teatro. Volta então a morar em Nova York e constrói uma carreira meteórica como diretor teatral. Autor, produtor e diretor de várias peças teatrais, Gerald revolucionou o teatro brasileiro."

Saturday, June 29, 2024

Lições via Ifood

Às vezes peço comida pelo aplicativo. Um ou outro jantar, um ou outro almoço, o lanche. Em mais de mil pedidos, a rigor só tive dois problemas: um rapaz negacionista em plena pandemia que veio me entregar cinco pedidos sem máscara, e outro que abriu a minha comida para ver algo indevidamente, então cancelei o pedido. O negacionista fez cara feia porque lhe dei um esporro. Espero que tenha refletido. 

Dois por mil são 0,2%. O resto tem sido de uma tranquilidade enorme. É muita coisa positiva num país onde pessoas matam por causa de um simples esbarrão. 

Sempre que posso, dou gorjeta. Eu também sou pobre, mas meus trabalhos são infinitamente mais confortáveis do que o dos entregadores. 

Em geral eles estão sempre com o semblante de cansaço, que é inevitável. A maioria é magrinha. Fico pensando nos trabalhadores esfomeados carregando tudo que não podem comer. Isso me rói. E se eu não pedir, eles não recebem nada. O sistema é de uma crueldade afiada. 

Você já reparou os perfis das pessoas que entregam pelo iPhood? Volta e meia fico vendo. Tanta gente honesta, na batalha por uma migalha feito eu. 

Recomendo para todo mundo. Às vezes a gente acha - com razão - que a humanidade está perdida, que todos são ruins e cruéis, mas ainda tem gente com bondade no coração. Talvez seja pouco para mudar o mundo, mas nos ajuda a ter sentimentos melhores. 

"Meu sonho é ajudar minha família", "Um dia eu vou ter uma casinha pra mim", "Meu filho é meu mundo". São essas e muitas outras frases com o melhor da essência humana. 

Nos piores anos da minha vida - e talvez os últimos, nunca se sabe -, tenho vivido grandes experiências humanas, sendo as melhores uma espécie de resposta. 

Você vai contabilizando todas as perdas e danos, todas as decepções e traições, toda a ingratidão, toda a falsidade que pode existir por trás de palavras como "amor" e principalmente "amizade", até que encontra o amor e a fraternidade em frases simples, escritas até de maneira rudimentar mas nem por isso menos importantes e significativas. 

O amor, a fraternidade, o bem querer que não estão em cardápios sofisticados, nem bancos de carros luxuosos ou no mármore de riquíssimas coberturas, mas em simples perfis anônimos de gente que dá muito duro para sobreviver e fazer com que os seus sobrevivam.

Wednesday, June 26, 2024

Biscoito recheado

Todo dia tem alguém falando mal do biscoito recheado na TV. 

É um alimento maldito, que faz mal à saúde, que cria uma legião de obesos - o pessoal jura que se preocupa com a qualidade de vida da rapaziada, mas tem uma cara de gordofobia... -, um inferno. Ok, faz mal, é um alimento multiprocessado (como tantos outros) etc. 

Bom, acontece o seguinte: o Brasil é um país onde você tem como uma das únicas diversões a TV. A maior parte da população é muito pobre, e passa os dias vendo o massacre do biscoito recheado. Essa mesma população muitas vezes trabalha longe de casa, leva horas no trânsito, ganha mal, trabalha em condições precárias e, por fim, dificilmente tem um almoço que atenda suas necessidades. O que o pessoal acaba fazendo? Lanchando no fim do expediente, entre a saída do trampo e a chegada ao ponto de ônibus ou estação de trem. Lanchando biscoito recheado. 

Agro é pop. Agro é Globo. Agro é tudo. A mesma televisão que massacra, com relativa justiça, o biscoito recheado faz a digna ode a frutas e legumes, muito mais saudáveis (não pensemos nos agrotóxicos) e convidativas. Com as frutas, todos seremos esbeltos, acabará a maldita gordura per capita do brasileiro e a felicidade será abundante. 

O problema é que aquele mesmo trabalhador oprimido, que vê seu almoço ser esculachado na TV diariamente, e come biscoito recheado porque não tem alternativa, vê as lindas frutas mas constata que seu minúsculo salário não lhe permite comprá-las, porque qualquer lote ou meia dúzia de peças custa o dobro ou o triplo do biscoito recheado. 

Pobre do pobre trabalhador que não trair o biscoito recheado: será um relapso, um gordo sem força de vontade, jamais como uma vítima dessa porra de sistema que só serve para humilhar, massacrar e frustrar.

Sunday, June 23, 2024

É fácil prever o futuro breve

Duas da manhã. Daqui a pouco começa uma nova semana, daqui a pouquinho.

Lá longe, o pessoal já começa a se levantar. Ligam a TV e teremos pastores pedindo dinheiro em nome de Deus. Quem pode, faz uma marmita. Quem não pode, jantará biscoitos recheados populares. 

Teremos crimes, diversos. Algum inocente será morto num confronto policial. Teremos assaltos, tiros e ódio.

A SuperVia dará alguma pane. 

Vai faltar água em algum bairro carioca. 

As autoridades vão discutir o que nunca resolvem.

Veremos muito desprezo, indiferença e falta de empatia, principalmente daqueles que dizem ter tanta empatia...

É tudo previsível demais.

Wednesday, June 12, 2024

Ray

São três e meia da manhã, ou madrugada - ou qualquer coisa - enquanto meu peito explode e na TV há um furacão chamado Ray Charles. É um show, as pessoas aplaudem com entusiasmo, uma big band excelente acompanha o monstro da voz e ele não deixa pedra sobre pedra. Ray Charles está morto mas deixou lembranças vivas demais. Meus pais o adoravam e eu ouvi desde criança. Ah, meus pais inesquecíveis, completamente mortos e desconhecidos - mas me lembro deles sempre. Eu lembro da capa de um disco de Ray Charles quando nós morávamos na rua Santa Clara, há 50 anos, em 1974 - tudo agora faz 50 anos, tudo é breve. São três horas da manhã, três e meia, e preciso escrever algumas coisas para dormir. Há uma melancolia na madrugada quando vem chegando a quinta feira e a sexta a seguir - não era assim na minha juventude, claro, porque os jovens amam as sextas-feiras, virar a madrugada etc mas há tempos não sou disso - gosto de ver TV, falar com os colegas e namorar no WhatsApp. Eu gostava de acampar e ver o mar em dias nublados. Eu gostava de correr, voltar para casa, tomar uma ducha gelada e me sentir energizado - no começo da UERJ todo mundo estava cheio de sono e eu disparava a 100 quilômetros por hora. Faz muito tempo. De lá pra cá são trinta e tantos anos, muitos desapareceram, muita gente está morta. Eu deveria estar morrendo, mas vejo meus amigos de 70 e 80 anos cheios de saúde, fico pensando se terei sorte e permanecer por aqui - isso é sorte? Consegui um pouco. Ray Charles continua um trovão.

Saturday, May 25, 2024

Leme, 1:30 da manhã

O que será que está acontecendo no bairro que nunca dorme? 

[o que foi feito dos moradores do edifício Elmar, demolido nos anos 1980?

A pizzaria Sorrento está fechada para sempre. 

O silêncio do Leme é uma montanha sem sinais aparentes de rajadas de tiros. 

O quartel não mudou: é silencioso pela própria natureza. 

No caminho dos pescadores há uma placa em homenagem ao ator e ex-lutador Ted Boy Marino, que foi morador do bairro por muito tempo. Mais à frente o mar pode ser desafiador e mortífero, tal como numa noite de 1988, quando levou o bailarino Graham Bart para o nunca mais. É preciso ter cuidado com as ondas impetuosas. 

O escritor Valterson Botelho dorme tranquilo em seu apartamento cheio de homenagens ao Fluminense, perto do Sindicato do Chope, vizinho de Nelson Rodrigues Filho, outro baluarte. Telê Santana também morava pelos arredores. Um reduto de tricolores. 

No Sindicato, pouco antes de se tornar uma mega celebridade nacional, Zeca Pagodinho gostava de beber chope garotinho em pé. Numa mesa próxima, jovens ex-alunos da UERJ gostavam de fazer piada pedindo testículos de boi à milanesa, só para verem as reações das respeitáveis mesas vizinhas. 

[Como foi possível o edifício Elmar ter empenado? Agora o supermercado Zona Sul está lá. Que fim levaram os moradores? 

Grandes jogos de futebol de praia: Copaleme, Areia, Embalo, Colorado. Babilônia e Chapéu Mangueira formando craques para o mundo. 

Ali atrás, na Gustavo Sampaio, é fácil ver Jairzinho, seja trazendo o pão ou sorvendo um trago. Tricampeão mundial em 1970, é o único jogador que marcou gols em todas as partidas de uma Copa do Mundo. Nós temos os nossos maiores da Terra, e eles vão à padaria! 

Antes, muitos outros viveram o charme do irmão de Copacabana em seus apartamentos e/ou nas boates locais, nos anos 1950, 1960 e 70: os atores Jardel Filho e Anselmo Duarte, o menestrel Juca Chaves, a Miss Brasil Martha Rocha, as cantoras Marlene e Emilinha Borba, o pintor Candido Portinari, a escritora Clarice Lispector, o showman Chacrinha, o dramaturgo Nelson Rodrigues, o presidente Juscelino Kubitschek, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, a musa Marina Montini, o maestro Egberto Gismonti, o monumental Milton Nascimento, as atrizes Beth Goulart e Rogéria, a multi artista Zezé Motta, a dark singer Waleska. Até Robert de Moto deu as caras por lá, Omar Shariff também. E quem mais poderia definir melhor o cenário do que Elke Maravilha? 

“O Leme é uma cidade pequena dentro de uma cidade grande. Não é um bairro de passagem, tenho vizinhos. Cheguei, gostei e fiquei”.

[Marina Montini, a musa de Di Cavalcanti 

Noites inesquecíveis no Sacha's, Vogue, Fred's, Régine's e outros, muitas vezes registradas pelo colunismo social de Jacintho de Thormes ou Ibrahim Sued. La Fiorentina ainda está firme e forte. O Marius também. O Bar do David no Chapéu Mangueira. 

Quando se chega à esquina da praia com a avenida Princesa Isabel, fica o imponente Hotel Hilton, portal do Leme. Mas não adianta: a sede da mais famosa cascata de fogos do réveillon carioca vai se chamar Meridien para sempre. 

@pauloandel, 2020

Wednesday, May 22, 2024

Manga, para sempre

Quando me tornei um verdadeiro torcedor mirim, daqueles que liam jornal todo dia em busca de notícias de futebol, eu tinha uns onze anos de idade. Naquela época, Manga estava no final da carreira mas jogava em altíssimo nível no Grêmio. E foi pesquisando que eu descobri sua carreira grandiosa, protagonista de timaços como os do Internacional e do Botafogo. Meu pai falava com grande admiração dele.

Eram tempos em que o amor pelo futebol falava muito mais alto do que o ódio, e jogadores de times rivais eram admirados, respeitados e até idolatrados. Imagine nos anos 1960 e 1970, com os times repletos de grandes jogadores?

Dou um outro exemplo da minha geração: nós, garotos tricolores de 1979 e 1980, éramos todos admiradores de Roberto Dinamite, uma verdadeira máquina de marcar gols em cima do nosso time. A gente não tinha raiva do Roberto; na verdade nosso sonho era tê-lo como o camisa nove do Fluzão. Não deu. Ok, não se pode ganhar todas. 

De repente Manga sumiu. Foi para o Equador e nunca mais voltou. Virou uma verdadeira lenda. 

Quis o destino que, depois de tantos anos, meu breve encontro com Manga tenha sido justamente na noite de 21 de maio, um dia muito difícil por ser o aniversário da morte de meu pai. E novamente um dia histórico para o Fluminense: 16 anos da vitória espetacular sobre o São Paulo, com o golaço de cabeça de Washington. 

Quando cheguei ao Pizza Park, Manga já estava cercado por admiradores, autografando cards e réplicas de sua linda camisa de goleiro botafoguense. Eu logo lembrei do meu amigo Fernando Guilhon, super alvinegro que adoraria estar lá. E foi bonito ver vários tricolores com camisa do Flu por lá, num gesto de fraternidade e respeito. 

Ouvi Nei Conceição falar coisas muito bacanas a respeito de Manga. Carlos Roberto também. Cracaços. 

Em dado momento eu estava ao lado de Manga, quando lembrei daqueles quarenta e tantos anos atrás. Tudo passou tão rápido. Resolvi então tirar uma foto dele, de lado. Mas não o procurei na mesa, nem tirei uma outra fotografia nossa, nem pedi seu autógrafo. A verdade é que a figura de Manga é tão grande que paralisou a mim, reles mortal que sou. Eu lembrei de meu pai e me emocionei: quantas vezes ele não viu o velho Manga fechar o gol no Maracanã e aporrinhar a todos nós, tricolores?

Diante de um dos maiores goleiros de todos os tempos, me senti tão pequeno e mortal que preferi ficar apenas admirando-o em silêncio, como ídolo que é. Fiquei tão paralisado que nem peguei meu card. E se um tricolor feito eu estava assim, imagine o coração dos inúmeros botafoguenses presentes ao Pizza Park? 

Levei muitos anos para ver Manga de perto. Finalmente consegui. Espero revê-lo e aí sim conversar com ele. Ontem não deu. Eu queria muito, mas simplesmente não consegui. É que o mito, o arquétipo do goleiro supremo, a fera da Seleção Brasileira e tudo isso junto ali, representando a era de ouro do futebol brasileiro, me deixou paralisado pelo amor que tenho ao futebol. Algo que só tinha me acontecido desse jeito quando entrevistei Gilberto Gil, outro super ídolo. Quando fui embora, só pensava em quanto meu pai, um super tricolor, estaria contente em estar ali comigo. Desci a rua Marques e chorei sozinho antes de pegar o táxi. Foi melhor assim. 

Manga é para sempre. Retrato fiel de um dos nossos maiores goleiros, de um futebol brasileiro que encanta o mundo até hoje. De um Maracanã botando gente pelo nariz, cheio de povo, de massa humana rindo e chorando em jogos que são verdadeiro cinema a encantar nossos corações. O Maracanã, nossa igreja definitiva de amor ao futebol. 

@pauloandel 

Sunday, May 12, 2024

Jazz na beira da Baía

SAÍMOS do trabalho às cinco da tarde num outono calorento, deixamos a Praça Tiradentes e fomos até o Largo da Carioca, um percurso de 400 metros. Seguimos torcendo para que os bares cheios de cerveja e gentes ocupem a veterana rua cariocas hoje abarrotada de portas fechadas. No Largo fomos direto para a Banca do Vavá, o velho Olivar, livreiro politizado e consciente que há anos roda milhares de livros na porta da Estação Carioca. Livros, livros e CDs. Muitos clientes, claro, e também gente no vaivém que não está nem aí pra isso. 

Eu estava com fome. Eu sempre tenho fome. Gosto de comer. Sou gordo porque não posso mais praticar os esportes que gosto, mas também porque adoro comer. Muitas vezes fiquei sem saber se conseguiria almoçar ou jantar, por isso valorizo cada prato de comida. Então fomos ao Gaúcho, esquina de São José com Rodrigo Silva, desde 1935 na labuta. Tudo lá é gostoso demais. Pedi o pão com linguiça e molho, legítimo cachorro quente. Antes, eu e Jocemar pedimos dois bolinhos de carne. Bar cheio, todo mundo fica em pé, cotovelos se tocam, parece outro Brasil. Um barato é que hoje há grupos de mulheres em pé no botequim, e aí percebo como o machismo prevalecia nos bares da minha juventude: antigamente não havia nada disso. 

Fomos embora para o jazz, mas somente duas quadras depois Jocemar percebeu que havia esquecido o celular no balcão. Senhor! Saiu correndo, encontrou o aparelho, voltou feliz da vida e comemoramos, porque o telefone hoje é praticamente a nossa loja virtual - isso, claro, sem contar os dois barões de prejuízo caso não tivesse achado. Enquanto ele correu, eu fiquei parado olhando o passado, quando existia a Choperia do Papai que muito frequentei com colegas do passado. Logo ao lado tem o antigo Jirau que, ao que tudo indica, voltará atraindo as gatinhas da Cândido Mendes e Estácio. A velha UERJ que escorreu pelo tempo, mas que ainda alimenta lembranças belas - os tesouros da juventude. 

Um barato da Praça XV: skate. A rapaziada voando sobre as rodinhas. Sempre quis ter um quando era garoto, mas o preço era caro, então continuei pela praia jogando bola. Gosto das manobras, dos riscos, é um esporte com ousadia. E ainda tem um super skate instalado ali. Pena que o grande movimento de gente dos anos 1980 e 1990 não existe mais. A Praça ficou muito mais bonita, mas se esvaziou. Em trinta ou quarenta anos as coisas mudam muito. Nada das velhas roletas em cabines de madeira escura, nem do monte de trabalhadores vendendo amendoim nas filas - aquecido na latinha -, nem do cheiro de peixe, muito vendido ali por ora. Alguém se lembra disso? 

Aos pés da Baía de Guanabara, bem ao lado da loja de skatewear e da lanchonete - e também da Estação do VLT -, acontece o Jazz nas Quartas, dois sets a partir das sete da noite. O Guga Pelliciotti, excelente baterista com larga rodagem jazzy (Pedra do Sal, Cinelândia). Conheci o Vitor pequenininho e hoje ele é um senhor guitarrista. Por fim, o baixo elegante e preciso de Fábio Brasil. Jazz de respeito, alternando standarts com temas brasileiros da bossa e da MPB, de "Feira de Mangaio" a "A night in Tunisia". Ou seja, tudo que bons ouvidos musicais precisam, com entrada franca e lanches baratos - não deixem de ir. Eu precisava de uma Pepsi gelada e pedi; logo lembrei da minha amiga amada de anos, que conheci por uma foto, achei linda e o velho Xuru me deu um safanão - e depois fomos os três jogar sinuca aos pés do Siri da Ilha num domingo à noite no fim do século passado - tudo passa a 100 km/h. 

Quase oito da noite. Baixo, bateria e guitarra vão duelando maravilhosamente. O jazz é bom. O jazz liberta. Uma garota bonita escuta o show e escreve num caderno - ou seria uma agenda? Um casal namora harmoniosamente enquanto espia a apresentação. Alegre ao extremo, o Jocemar comemorava merecidamente a salvação do celular, que é praticamente a filial da nossa loja. Eu não tenho nada para comemorar, mas posso dizer que tive uma noite de quarta-feira de paz - me senti até gente, como não fazia há tempos. Venham à Praça XV ver e ouvir jazz nas quartas, a vida fica melhor. 

@p.r.andel

Saturday, May 11, 2024

Sabe?

Sabe aquela pessoa que te escolhe para falar de todos os problemas mas que, quando é a sua vez de falar, nunca tem tempo, está com pressa ou diz que você precisa apenas "levantar o ânimo" ou "ser positivo"? Não quero te decepcionar, mas ela não é tua amiga. Sua única intenção é se livrar de um problema, que no caso é você. Lembre-se disso. 


Um garoto, uma bola azul

Passei pela Pedro Lessa a caminho de um evento por volta das cinco e meia da tarde. Começo de mês, perto do Dia das Mães - cadê a minha? -, pelo menos a Banca do André estava cheia de gente na happy hour, uma das poucas saudades dos meus tempos de escritório. 

As pessoas bebendo em pé, em volta de mesinhas circulares cheias de long necks, rindo e conversando, salvando um pouco a imagem perturbadora que o Centro agora tem, de lugar abandonado e vazio. Do outro lado, o gourmetizado Amarelinho também tem sua turma. A partir daí, desolação. Não, na Santa Luzia tem um churrasquinho onde brota gente - e garotas bonitas paca. 

Ainda a Pedro Lessa. Quem diria que ali existiu um império de música por anos, com CDs espetaculares e muita movimentação? As bancas de metal continuam lá, completamente vazias. Há três anos, acho, ou menos, comprei um Morphine importado, a banda de rock jazz "sujo", underground, liderada pelo antológico Mark Sandman, que morreu em pleno palco se apresentando. Aquelas bancas metálicas vendiam sonhos: rock, jazz, bossa nova, sambas da antiga. Tudo passou. Ainda bem que tenho minha lojinha. 

Depois da turma bebericando, uns dez metros adiante, havia um garotinho, provavelmente filho de alguém ali. Dez anos de idade. Baixinho, magriço, vestindo uma camisa 9 amarela em algodão, bem longe das marcas oficiais. Será que era uma camisa da Seleção? Não sei. Um garotinho de menos de um metro e meio, de bermuda e chinelos, com sua bola de futebol azul escura. Ele e mais ninguém. Dava uns passinhos, chutava a bola num muro da rua, ele voltava e repetia, depois tabelava. Tudo sozinho, ele e mais ninguém. 

Eu me identifico porque apesar de já ter 56 anos de idade, nunca deixei de ser um garoto de dez no melhor que isso pode oferecer. Futebol, lanche, descanso e tudo, coisas que a gente vivencia quando criança da melhor maneira possível, e que carrega para sempre. Eu tinha dez anos em 1978 e o futebol me deixava louco: queria jogar na praia, na vila perto de casa, queria ouvir futebol na Rádio Globo, juntar figurinhas, jogar botão e esperava ansiosamente pela revista Placar toda semana - ela trazia escudinhos que você podia recortar para ornamentar seus botões.

O menino e sua bola azul. Ele toca para o fundo de um gol imaginário, faz da Pedro Lessa um Maracanã que ninguém vê. Comemora sozinho, não há torcida nem abraços, sou o único e silencioso espectador. Mesmo sozinho, ele se diverte. Um garoto com sua bola de futebol pode ser o mais feliz do mundo. É o que ele faz ali e me comove - é que eu também era daquele jeito dele quando eu tinha futuro. Lembro de tanta coisa em instantes: quem fui, o que sonhei e vivi. Chutei muita bola sozinho na vila, bem em frente ao colégio onde estudei, entre confusões, de 1977 a 1980.

[Pensei em oferecer meus serviços de ex-bom jogador ao garoto, mas desisti

Sigo a caminho do evento. Estou prestes a atravessar a rua México. Olho para trás novamente e, enquanto a Banca do André dita a festa do pedaço, o futebol continua vencendo. É o menino solitário em seu mundo particular, tabelando e jogando. Sozinho, ele tem o Maracanã e o Morumbi. Não importa quem não está, mas sim o que virá. Continuo voltando 45 anos no tempo, quando eu sonhava em ter uma bola adidas Tango, até hoje a mais linda de todos. E sonhava em ter alguém para jogar dupla de praia domingo. E ficava horas e horas na praia. É por isso que entendo a nobreza daquele jovem magriço, porque mesmo com 70 quilos a mais, o futebol tem sido meu remédio, oxigênio do dia a dia, alívio contra as piores causas. 

Sigo para o evento, o tempo não para. O garotinho, meu amigo desconhecido, insiste nas tabelas com o muro. Ele joga por ele e por mim, sem saber. O futebol insiste, e isso enche meu coração de esperança.

@pauloandel 

Sunday, May 05, 2024

And then there's just one

É só uma música. Bonita a música. Eu não a escutava há anos. Vi uma postagem e me lembrei. Ela me leva há 41 anos. Nós escutávamos direto na casa de Fred, o velho Fred que faz tanta falta. A nossa vida era futebol, botão, admirar garotas que só tinham olhos para caras cinco anos mais velhos do que nós. A nossa vida era a Lanchonete Gordon, o Cinema Condor, a trave do Juventus pra jogar dupla de praia. Era Kiss e João Gilberto, escotismo e traquinagem. Nada pode ser mais Copacabana. E quando escutei novamente a música, voltei os 41 anos no tempo e revi a sala de Fred, o toca-discos, a cama com gaveta cheia de revistas de mulher pelada, a TV grande e a bicicleta que ele quase nunca usou. Isso foi outro dia, eu lembro dos rostos e dos sorrisos, mas alguma lei do retorno fez com que exatamente agora eu seja o único sobrevivente daqueles dias, para não contar a história - apenas dividi-la de alguma forma. Nós escutávamos "Ballad of a big", fazíamos sanduíches baratos, quase não tínhamos dinheiro, mas achávamos até que podíamos ser adolescentes felizes. Fred se foi há 15 anos e isso é assustador.

Thursday, May 02, 2024

One more day

É o fim do dia. O fim do feriado. 

Dia do Trabalho. Do trabalhador? Não sei. São muitos trabalhadores humilhados diariamente num país de empresariado com tendência notoriamente escravagista. 

Eu trabalhei em casa. Por horas. Ganhei um sanduíche. Eu também sou um trabalhador humilhado, só que admito. A maioria esconde ou acha que é vontade de Deus. 

Ah, falando em trabalho, volto a 2017. Passou a maldição da reforma trabalhista, que destruiu sindicatos e condenou milhões de pessoas à morte profissional. Eu ainda era trabalhador CLT e convivi com alguns imbecis que defendiam aquela loucura. "Vai gerar muitos empregos". Estão esperando até hoje. Idiotas vassalos do patronato.

2

Meu time ganhou o jogo. Tá bom. 

Falei com a Marina. Tá bom. 

3

Ouvi TV por horas. Conversei com amigos pelo WhatsApp. Não estou bem, mas ontem foi pior: eu quase desmaiei e por um único segundo ou dois, achei que fosse morrer cedo demais. Por incrível que pareça, não me machuquei: os LPs me aguentaram. Estou bem agora, não como gostaria. 

4

Soube que houve um acidente horrível pertinho da minha UERJ. Um ônibus verde passou por cima de todo mundo. Que dor. 

Era feriado e foi mais do mesmo. Teve arrastão, assaltos e confusão. Teve gente inocente morta, assassinada por nada, uma criança inclusive. Nós somos cada vez mais uma sociedade doentia, onde a vida humana não tem valor algum. 

Vi também vídeos de bichos. É uma das minhas diversões. Elefante, coruja, cachorro, papagaio, jacaré, leão. Eles são maneiros. 

5

Eu pensei em mandar três ou quatro mensagens para pessoas desaparecidas, mas desisti porque não valeria a pena, por dois ou três motivos. 

Eu pensei em tanta coisa que se perdeu. Para sempre. E outras, tão distantes mas tão presentes agora. 

6

Acabou o dia, o feriado. Na cidade nada mudou para melhor. O desconforto é a regra. Menos mal que, no meio da semana, ele quebra o ritmo. 

7

Não desrespeito quem acredita no poder da palavra para superar as dificuldades, quem acha que é preciso "sempre pensar positivo", ok. Mas será que essa mudança de postura realmente mudaria a vida das pessoas? Será que todo mundo que sofre demais só pensa "negativo"? É um caso a pensar. 

8

Minha casa está feia, suja e bagunçada. Não importa. Eu só queria que ela fosse minha de verdade. É o único bem material que me interessa. 

9

E agora que o feriado já é passado e a madrugada está terminando, olho para a janela, encontro as primeiras luzes que ainda vão clarear o dia e me lembro de 1987, quando eu saía à essa hora para o Forte de Copacabana a pé. Tinha dezoito anos, era um garoto humilhado pelo sistema, atravessava o bairro para me apresentar à "pátria". Um dia me livrei daquilo tudo, mas não para sempre porque as lembranças de 37 anos continuam muito vivas. 

O serviço militar não me incomodava em nada. Ouvir berros, impropérios, conviver com bandidos, realizar tarefas estúpidas, sim. Pior ainda, atravessava o bairro a pé, já testemunhando toda a decadência que ainda iria abraçá-lo de maneira mortal.

Aquele sentimento de medo de sair continua. O bairro felizmente sobreviveu, apesar dos seus inúmeros problemas. 

10

"Moonlight/ Só o coração, batendo/

Calado, parando, mordendo/ 

Corpo fechado, destrincando/ 

A noite passa, e a minha é um tormento". 

"Moonlight Paranoia" é uma versão de Lobão para uma música antiga do Aerosmith, gravada para o disco "O rock errou". Acho a versão bem melhor do que a original. 

11

E daí que aquela turma de gente falsa se calou e sumiu? E daí? Foi muito melhor assim. Gente falsa, oportunista e interesseira só tem um único lugar bom para estar: longe. 

Como se fosse um aviso divino, na mesma hora da lembrança, ligam o sistema de luz do restaurante perto, faz um barulho às seis da manhã e some. 

Talvez ainda dê para um breve cochilo das seis e meia às oito. Vamos tentar.

12

O sol é para todos. 

Aos poucos, todos despertam. O rico, o pobre, o mendigo, a criança. 

As pessoas do Sul que passam tanta dificuldade.

O Brasil vai descendo a ladeira, a gente ainda não cai em si. 

Saturday, April 27, 2024

Andando na Lua

[parecia que a gente pisava na Lua, só que ela era feita de areia

A gente era de Copacabana. Pobre. No máximo o dinheiro do lanche e do ônibus. Então descobrimos o Leblon. Só para olhar as coisas, as gentes nos bares badalados, as garotas. Tinha um Gordon lá também, Cazuza vivia ali. Noutra vez ele estava em pé no balcão do boteco, acho que na Ataulfo de Paiva mesmo. Ele cantava alto, talvez um blues, todo mundo ria. Era o Rio. 

Muita gente ia pro Leblon. Outras galeras iam pro Baixo Gávea, que tinha uma grande concentração da turma ligada ao heavy metal e o rock também. No fim da noite, os ônibus circulares ficavam lotados. Claro, todo mundo descia em Copacabana, o astro-rei. Gente das coberturas, dos apês da Atlântica e dos quitinetes. Não havia distinção. 

Inventamos um jeito de prorrogar a noite. Simplesmente dava duas ou três da manhã, todo mundo tinha arrumado sua vida, a gente ia pra Delfim Moreira e voltava a pé até a Figueiredo Magalhães. Pela praia, na areia, na beira-mar.

Parecia que a gente pisava na Lua, macia, feira de areia fofa e clarinha. Vínhamos devagar, para saborear o passeio em pleno Atlântico Sul. De ônibus era mais rápido, só que a gente no fundo queria ficar mais tempo juntos, naquela beleza de visual.

Silêncio, silêncio, nossos risos. Às vezes éramos cinco, oito, doze, somente a gente e mais ninguém. O barulho misterioso do mar sereno do Leblon e Ipanema. Gente mesmo só tinha no Arpoador, mas não íamos até lá. Era virar geralmente na Francisco Otaviano e navegar Copacabana. 

Ninguém namorava entre nós. Garotos e garotas de quinze e dezesseis anos, na flor da juventude. Flertes havia, namoro não. Tinham inventado o negócio de ficar, que era um sucesso da época, então namorar estava careta por um tempo. Ninguém assumido também, só muito mais tarde. 

Engraçado que em Copacabana a gente não ia muito pela areia. É que o calçadão e a calçada eram verdadeiros acontecimentos, laboratórios humanos, gente doida de todas as regiões, idades e sexualidades. Não precisava de muita grana mesmo, tínhamos um programa de auditório a céu aberto, fervendo da Alaska até pelo menos a Santa Clara. Três da manhã, a turma do Juventus ainda fazia resenha na esquina da Domingos Ferreira. Deixávamos as garotas uma a uma em casa, nos despedíamos na porta do Shopping dos Antiquários. 

Geralmente era a pré-manhãzinha de domingo. Os Globinhos já estavam na luta, preparando a tonelada de jornais para serem entregues a domicílio. Meu amigo Silvio, gente boa, trabalhou lá até ingressar no TI. Ele era muito legal, nunca mais nos vimos. 

Sem tiro nem facada, a gente era pobre mas andava feliz pela areia da Lua de Ipanema. Foram dezenas e dezenas de vezes, até que, tal como diria o poeta Renato Russo, viramos pássaro novo longe do ninho - daí, voamos. 

@p.r.andel

Friday, April 26, 2024

Casilhas

Está lá há décadas, aos pés do Shopping dos Antiquários. Era o bar reserva da minha turma. Nosso aquário natal era o Sniff's, alguns metros depois, já dentro da galeria.

Uma vez ou outra o pessoal dos escoteiros passava lá. Eu, calouro de faculdade, voltava de Niterói e saltava na porta depois da baldeação, 996 até a Praia de Botafogo - Sears! - e 434 ou 435, o que viesse primeiro, até a Siqueira Campos.

Macedo, que foi nosso chefe no grupo e uma pessoa, digamos, excêntrica, gostava do boteco. Em certa ocasião, sabe-se lá por que, desandou a falar sobre a importância da higiene íntima masculina entre bebuns discutindo o jogo do Flamengo. Mais: declarou quantas vezes fazia a assepsia peniana diária e começou a questionar os interlocutores sobre suas estatísticas de combate ao esmegma. Entre risos, alguém foi curto e grosso: "Quer lavar pra mim?". Ele ficou put0 por alguns instantes, mas acabou rindo também.

Nosso grande ano pelo Casilhas foi em 1986 por dois motivos: a ascensão midiática do pagode com Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Jovelina Pérola Negra e grande elenco, mais a Copa do México. Dois motivos para a realização de inúmeros churrascos, quase todos resolvidos na hora. Vai ali nos Supermercados Leão, compra carvão e bebida, alguém busque a churrasqueira, a carne a gente vê depois. Linguiça, asinha de frango, uma carninha e risos, muitos risos. Charlie, o também excêntrico gringo que morava nos arredores - e que desconfiávamos ser um mercenário de tanto que ia ao Paraguai, sem trazer qualquer muamba - passava pela calçada com uma estonteante negra de um metro e oitenta, para disparar seu brado clássico "OH, SCOTEIRRRRSSSSS". 

Um churrasco acabou triste, também por dois motivos, um à vista e outro a prazo. Copa do Mundo, Brasil e França. Perdemos nos pênaltis. Na outra Copa, ainda criança, eu nem fiquei triste pois achei que o time de 1986 seria o mesmo, uma doce ilusão. Muita coisa havia mudado. Mas a gente tinha confiança e o Brasil fez um partidaço, perdeu vários gols - Zico de pênalti, Muller na trave no último minuto da prorrogação (foi isso?) e acabou castigado. Ficaram as boas lembranças dos golaços de Josimar e Careca, Júnior no meio e o jovem Branco voando. Terminado o jogo, não teve samba. Continuamos comendo, mas com o silêncio que só o nunca mais proporciona. Nunca mais fizemos churrascos lá, nem em outro lugar. Anos mais tarde, aquela turma ia se separar para sempre.

Pelo Casilhas, volta e meia passava Ramiro, famoso não pedinte em situação de rua que vivia pela Siqueira Campos. Era silencioso e muitas vezes era visto picando papel, como se aquilo fosse uma terapia. Certa vez, do nada, acertou um soco num cliente na porta do bar e foi embora, sem falar nada. À primeira vista era uma agressão, mas a vítima era fascista. Vá entender. Mr. Éter, outro ícone das ruas do bairro, também passava por lá e bebia a purinha - na verdade era engambelado com água da torneira, o que pode ajudar a explicar sua longevidade depois de anos mergulhado em éter. 

O bar continua. João não está mais no balcão. Aos sábados tem calçada cheia, mesas e cadeiras - uma evolução - mais churrasco. Os personagens passam, mas certas coisas nunca mudam. É Copacabana, meu nobre. 

@p.r.andel

Thursday, April 25, 2024

saco cheio pacaraio

Estou de saco cheio.

Estou de saco cheio. 

Definitivamente estou de saco cheio.

Não é que eu tenha muito a perder. Na verdade, eu já morri. O que falta é finalizar. Enterrar, terminar, tchau e depois de duas semanas ninguém se lembra de mim ou de você.

Mesmo morto, eu estou com saco bem cheio é porque acho que o Brasil podia dar certo e o Rio de Janeiro podia dar certo. 

Mas não dá.

Eu tô de saco cheio de ver tanta gente chorando de fome na rua ou então desmaiada, maltrapilha, porque não tem absolutamente nada. Não aguento mais. 

Eu estou de saco cheio de ver em mil janelas anúncios de "vende-se" e "aluga-se quando eu não tenho onde morar. 

E estou de saco cheio de ver mil portas de lojas fechadas, com anúncios cujas negociações nunca mais vão se concretizar. 

Acabou. O comércio de rua de vários bairros do Rio simplesmente morreu. 

Eu tô de saco cheio do ódio, da ganância, da indiferença e do desprezo. Do desdém.

Eu tô de saco cheio do mau caratismo, da inveja, da maldade e da violência. Eu tô de saco cheio de ver gente arrogante, que se julga certa ao humilhar e menosprezar os outros, mas mal serve para respirar. Devia pagar imposto sobre respiração. 

E também tô de saco cheio de tanta gente boa que não tem uma mísera oportunidade de fazer coisas boas legais, progredir, porque todo esse sistema é opressor, excludente e humilhante ao extremo. 

Eu tô de saco cheio de andar na rua e ver o asfalto vazio. Sem carros como se fosse um feriado, simplesmente porque as pessoas não têm dinheiro pra botar gasolina nos carros velhos. E depois fico com mais saco cheio, porque minha única diversão é a televisão e quando ligo, ouço sobre PIB, emprego desenvolvimento, investimentos, mas nada disso coloca um único ovo a mais na minha geladeira vazia. 

Eu tô de saco cheio de ver as pessoas colocando as contas dos problemas alheios na falta de fé. Fulano sofre porque não tem fé, o fulano sofre porque não tem Deus, faça-me o favor. Será que Deus não tá olhando as pessoas que são humilhadas todo dia na SuperVia, nem está olhando todas aquelas que descem a Rua do Lavradio na hora do final do expediente pegando biscoito para almoçar, por que não têm dinheiro para outra coisa? Aí na TV o sujeito diz que biscoito recheado faz um mal horrível, mas não estão nem aí com o poder de compra do trabalhador, que obriga o biscoito. 

Eu tô com um saco tão cheio que até o meu time de futebol, que é uma das minhas pouquíssimas alegrias, volta e meia me dá aborrecimento e me tira a vontade de ir ao estádio, não pelo time em si, mas pelo que acontece em torno dele. Gente ruim, escrota, vendida, negócios escusos.

Eu tô de saco cheio daquelas pessoas que desaparecem e te deixam a ver navios, para depois te procurar quando precisam de alguma coisa pontual. Inclusive tem a eleição chegando e você já sabe: sempre tem alguém querendo te falar de um grande candidato, de uma grande maravilha, de um grande projeto que vai do nada a porra nenhuma e só serve para colocar gente empregada em gabinete. 

De forma alguma negando a importância da política das instituições, pessoal. É só uma constatação. Metade da Alerj está alinhada à milícia. Eu não sei nem dizer o que que tem na Câmara dos Vereadores, mas deve ser bem pior, vide o que fizeram com Marielle e Anderson. 

Eu tô de saco cheio de passar na rua e ver pessoas que acabaram de ter problemas, procurando ou a polícia ou a Guarda Municipal ou algum representante de instituição, e serem tratados com desprezo como se não fossem nada, porque ali não está um rico ali, não está alguém com sobrenome famoso, não está alguém que mora na orla do Rio de Janeiro e é assim que a maior parte das pessoas trata as outras nessa porra dessa terra, se você não tem dinheiro. Se você não tem um grande sobrenome e se você não mora na orla do Rio de Janeiro, você é ninguém. É exatamente assim que é uma parte das pessoas te trata. 

Nem a internet escapa. E aquele fulaninho ou fulaninha que nunca dá apoio a nada do que você faça, nunca compartilha nada contigo, não pergunta nem como você está durante anos, não interagem, mas basta que você publique qualquer coisa que minimamente a contraria e ela vem cheia de pedras, né? Como a figura defensora da moral e da ética contra a maldade do mundo. É hipócrita que chama essa gente, né?  Ou é escrota? 

Eu tô com saco cheio de ser um excluído na minha própria cidade. E o pior é que diante de toda essa porcaria que a gente vive, de toda essa miséria e de todo esse descaso, eu ainda sou privilegiado mesmo passando por momentos desesperadores. Isso não quer dizer que eu estou bem; pelo contrário, eu estou muito mal, mal como nunca estive. Quer dizer que tudo é uma merda muito pior do que se pode imaginar. 

Você no meio da tragédia, no prédio em chamas e a pessoa vem falar para você "seja positivo", "pense coisas boas" , "fique bem". 

Dá vontade de mandar tomar né? 

Você ali na merda sofrendo, chorando, desesperado, sem uma única mão que possa te ajudar, a pessoa vem e fala "fique bem". Vá pra puta que pariu. É melhor não falar nada e ser escrota raiz mesmo. 

É isso. Essa é uma quinta-feira de abril de um ano ruim e que provavelmente vai piorar. Não é negativismo, nem palavras atraindo "coisa ruim",  mas apenas analisando friamente a realidade dos fatos que aí estão. Por educação ou por conveniência, muita gente prefere varrer para debaixo do tapete e fingir que não existe. 

Ou você não conhece ninguém que atravessa de um lado do para o outro da rua, só para não passar num grupo de pessoas em situação de rua? 

Você não conhece ninguém que já tenha dito que nunca viu uma pessoa comendo lixo na rua? 

Pois essa a mistura da alienação com a indiferença, com descaso, com dane-se o outro. 

A cidade é maravilhosa na geografia e em parte dela.

A outra parte é só humilhação para milhares de pessoas, debaixo das miras de fuzis, com riscos de estupro de morte, tortura etc.

Chamam isso de democracia, tá bom? 

Chega, pessoal. Pouco importa se eu já morri ou não, ninguém se importa com isso. O que importa é que eu continuo de saco cheio vivo ou morto, eu vou continuar de saco cheio vivo o morto, eu nunca vou aceitar essa situação que vive a minha cidade, o meu estado e até certo ponto o meu país.

Fomos trucidados por nós mesmos. 

Fuzilados por aqueles que acham que a solução é destruir o outro e manter tudo como está. Resultado: o que era péssimo, piorou. 

Daqui a pouco esses espíritos de porco vão ressuscitar algum mito para tentar dizer alguma coisa que nos leva do nada a lugar nenhum. 

Ou melhor, pode até levar, né? Das investigações policiais até a quadrilha.

Tuesday, April 23, 2024

Pequenininho

Minha mãe me chamou de pequenininho por sua vida inteira. Era assim que ela me via quando eu era bebê, e a imagem ficou para sempre, mesmo quando eu já era muito maior do que ela. Sei como é: tenho amigos que conheci ainda crianças quando eu era adolescente, e agora eles são quarentões mas ainda os vejo como garotos. 

Pequenininho. É o que sou. O que sempre fui. Minúsculo.

Saio à rua, olho para os prédios e vejo como sou uma formiguinha perto deles. Mesmo quando passa um ônibus ou um caminhão grandão. Na barca da Praça XV eu me sinto minúsculo. 

Eu sou pequenininho. Um número. Um CPF pobretão e triste nessa terra de tanta mágoa e indiferença.

Minúsculo. Vejo tanta gente sofrer pela rua e não tenho capacidade de ajudar a mudar suas vidas. Tanta fome, tanto choro e olhares tristes, vazios, a caminho da fila do ônibus ou do trem.

Pequenininho. Sem pai nem mãe, sem perspectivas, com a lâmina de uma adaga me lambendo o pescoço e, até esta linha, sem saber como escaparei de tragédias. 

Sozinho. Pequenininho. Sem ninguém pra me ouvir, me acudir, nada. Se morro agora, só vão descobrir quando feder. E o pior: literalmente não tenho onde cair morto. 

O que eu tenho é meu corpo e minha cabeça, que sonha o impossível e cria coisas, todas elas sem valor comercial mas artístico algumas vezes. Minha cabeça pequenininha, cabecinha de Santo Onofre como dizia minha mãe. Ela me amava. Meu pai também gostava de mim, do jeito dele. Meu irmão acho que não gosta de mim, senão não tinha sumido. Agora ninguém mais gosta. Ninguém. Nunca fui tão ninguém. Tão pequenininho. A formiguinha na beira da pia com louça suja, sonhando com uma migalha de alimento. 

Acho que sou pequenininho porque a gente se ilude a vida inteira achando que cresceu, que amadureceu e envelheceu, que passou a fazer só coisas de adultos, mas a verdade é que somos crianças para sempre. O corpo muda, o tempo passa, mas à medida que envelhecemos, mais o passado é importante. O começo, os sonhos, as pequenas coisas, a minúscula e efêmera felicidade. A saudade. 

A cada dia eu penso mais na criança e no jovem que fui. Não é que fosse tudo bom, porque estava longe de ser, mas quando você é jovem sempre tem a perspectiva do futuro - a chance to heaven! 

Eu tinha carrinho, eu brincava e jogava bola. Eu lanchava e via desenhos com minha mãe - ela ficava muito feliz comigo, me chamava de seu tesouro, de seu reizinho. Ela gostava de mim mesmo. Nós éramos bem pobres mas tínhamos algum conforto - e eu tinha a praia, o futebol, o sonho. Às vezes lanchávamos no Bob’s. Quando o caixa estava bom, comprávamos pizza da Bella Blú. Eu jogava botão e tinha dias bons nos acampamentos escoteiros. Meus pais tinham 40 anos - eles eram jovens demais. 

Eu só conheci a felicidade pequenininho. Eu só tenho a esmola de felicidade quando me sinto pequenininho, parte de um mundo de fantasia onde não havia ódio, maldade nem ganância. Onde todo mundo podia ter uma casinha, roupas, uma televisão e comida. Onde ninguém vivia dois anos chorando todo dia em desespero pela miséria. 

Saiu um gol bonito na televisão. Brusque x Mirassol. O futebol me faz ficar pequenininho, feliz num Maracanã que já não existe.  No estádio eu sempre fui pequenininho, sonhando que todo mundo do meu lado era meu amigo. A mão do meu pai me puxando provava que eu era pequenininho. E como já se passaram quase cinquenta anos, certo é que sou um grãozinho de areia diante do tempo. Pobre, triste e desesperado grão de areia, procurando por uma casa que não existe, pessoas queridas que estão mortas e um futuro que sequer repete o passado.  


O goleiro que lavava carros

São três horas da manhã do dia de São Jorge e me lembro de Ortiz. Talvez só eu lembre porque talvez eu seja o único sobrevivente daquele tempo. Não, eu sou o único mesmo. 

Em 1976 meu pai tinha uma loja no centro de São João de Meriti. Chamava-se Heduwi. Eu sabia que as três sílabas do nome eram referência a três sócios, mas não cheguei a conhecê-los. Na loja trabalhei pela primeira vez, empacotando compras e fazendo contas. Eu tinha oito anos de idade. 

Aquele ano seria um dos mais tristes da minha vida por causa do Natal, mas não quero falar disso agora. A própria loja faliu no fim de 1976. Um duro golpe para meu pai. Justamente nos tempos de grande badalação da Máquina Tricolor, ele nem tinha como saboreá-la por tantos problemas pessoais. 

Eu ia para a loja quase todos os dias. Ela era grande e tinha várias coisas, de roupas a produtos capilares. Perto de nós, morava o Seu Dalmo numa casa bem grande e numa rua sem asfalto, lembro bem. Uma vez fomos visitá-lo e ele fez um sanduíche de queijo para mim. Foi a primeira vez que me lembro de ter visto um cortador de queijo. Seu Dalmo era legal. 

O Ortiz. Ele não tinha esse nome, nunca teve, foi uma invenção minha. Ele era atarracado, louro e usava uma faixa na cabeça, era igualzinho ao Ortiz, goleiro do Atlético Mineiro. Lavava carros. Ele sempre carregava uma lata bem grande de óleo Castrol GTX para carregar água, e ela era tricolor. Tudo era Fluminense pra mim em meus sonhos de criança, vivendo dias difíceis com meu pai falindo. Alguém disse que o Ortiz tinha sido um homem de posses, mas perdera tudo por causa do alcoolismo - imagine o meu desespero ao ver meu pai bebendo tanto por desgosto. Enfim, o homem que lembrava o goleiro ia e vinha quase todo dia com sua grande lata, que era seu instrumento de trabalho. 

A véspera de Natal de 1976 foi a última vez que estive na loja. Ela fechou de vez dias depois. Nunca mais voltei ao Centro de São João de Meriti, nem vi Seu Dalmo, nem o Paulista, um vendedor corintiano que estava sempre por lá e, claro, tirando uma onda com seu time. Foi no chaveiro do Paulista que vi pela primeira vez o escudo do Corinthians e achei bonito. Semanas antes, falecera o Sr. Santana, que sempre levava pão de queijo para mim e minha mãe. Também me lembro que a primeira vez que bebi um refrigerante tirado de máquina foi perto da loja, na rua da Matriz. Foi um copo de Pepsi, achei delicioso. 

São várias lembranças de uma época difícil da minha vida, mas que estão muito presentes. Sou a única pessoa viva das citadas acima, eu era uma criança. Ali perto, ainda nasceria uma garota bonita chamada Patricia, que eu só iria conhecer trinta anos depois, na faculdade, não na UERJ.

Ortiz, nunca mais. O que terá sucedido? Não sei dizer. Só sei que lembro e lembro. Eu sou o único sobrevivente dessa miscelânea toda de quase 50 anos atrás. Até quando, não sei.

@p.r.andel

Monday, April 22, 2024

A minha MTV

Em 1990, eu era um garoto estudante de faculdade, sem parentes importantes, vindo da própria capital, duro, cheio de sonhos e tentando buscar um emprego. 

Tempos difíceis: a Era Collor não perdoava ninguém. O desemprego e a fome eram regra. 

Mas aí apareceu a MTV Brasil na televisão e as coisas mudaram para melhor. Pra mim, melhoraram paca. Imagine: eu não tinha grana pra comprar discos, mas podia ver e ouvir N artistas. 

A linguagem do videoclipe, que já existia há vários anos, ficou definitivamente popularizada no Brasil. Ela já vinha do Fantástico e de programas como o saudoso BB Video de Eládio Sandoval e Billy Bond, mas a MTV veio como um furacão varrendo tudo, trazendo acesso aos trabalhos musicais de números artísticos que não tocavam em rádio no país, sem contar a multidão de artistas nacionais que passaram a aparecer na TV justamente por conta de seus clipes. Aquele pessoal descolado interessante divertido, gatas extraordinárias apresentando as atrações sempre com uma perna mais inclinada do que a outra. 

A MTV colou bem no Rio de Janeiro. Chegou praticamente junto com o Rock in Rio 2 e nos tempos das melhores edições do Hollywood Rock. Teve de tudo: Nirvana (com Kurt Cobain ensandecido), Alice in Chains, Red Hot Chilli Peppers e outros shows antológicos, como o auge de Titãs e Paralamas tocando juntos. Foi na MTV a explosão do Manguebeat com Chico Science e Nação Zumbi mais Mundo Livre S.A., e Skank, Pato Fu, Planet Hemp, Cidade Negra, Raimundos e grande elenco. E o Capital Inicial? A partir do Projeto Acústico MTV, a banda deu uma guinada tão grande em sua carreira que se tornou muito mais popular do que em sua primeira fase. 

O Acústico gerou registros espetaculares de nomes como os próprios Titãs, Paralamas, Cássia Eller, Lobão, Marcelo D2 e outras feras. 

Apesar da sua audiência modesta, a MTV formava a opinião definitivamente e ditava as regras. Se nem todo mundo ouvia, todo mundo sabia do que se tratava. 

À medida que fez a travessia do século XX para o XXI, a MTV aos poucos foi diminuindo a sua cota musical e fazendo mais programas de auditório. De toda forma, eles eram sempre interessantes, fossem pelos debates, pela vanguarda e pela quebra de paradigmas, vide o beijo gay ao vivo no Beija Sapo, atração comandada por Daniela Cicarelli. 

Em sua última grande fase a MTV ainda revelou um monte de jovens humoristas para o país, numa safra de nomes como Marcelo Adnet, Dani Calabresa, Paulinho Serra e mais um monte de gente com programas interessantíssimos no canal que ainda tinha a música, mas não como o principal carro-chefe. Depois, atolado em dívidas, o grupo Abril liquidou o canal no Brasil por questões financeiras. 

Tempos depois, entrou uma nova MTV no ar, mas ela mas ela não tem nada a ver com o espírito da MTV Brasil original. Só tem o nome. Vida que segue. 

O que deixa saudade mesmo é aquele tempo de grandes bandas, de VJs fabulosos - Marina, Thunderbird, Gastão, Sabrina etc -, de programas divertidíssimos e de muita informação musical que hoje se perdeu no mundo da internet, né? Onde tudo é diluído e para você achar determinados conteúdos, tem que fazer um verdadeiro trabalho de arqueologia.  A MTV não, ela te dava tudo de bandeja. Vinte anos de música, sorrisos e vanguarda.