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Saturday, March 28, 2015

rua

a minha rua cheia de bares, alguns sorrisos, boas conversas
e gente dizendo adeus
na fila dos mendigos na cruz vermelha
à espera de pão
especialmente o barbudo em pé 24 horas em frente à banca de jornais.
a rua e suas angústias:
a gente indiferente, egoísta
bons samaritanos
carpideiras
e crianças de olhar triste com catéteres
a praça com sua miséria tatuada e fanáticos em busca de Deus que não têm culpa de nada.
a rua, a procissão dos que não têm casa
ou a passagem dos bem sucedidos
a cúpula da cátedra para um destino
tão menino
ainda menino a granel
a culpa é do governo, pois somos puros, inocentes e vítimas
a culpa é do sistema
alguém poderia devolver o troco a mais?

@pauloandel

Saturday, March 21, 2015

idiota (um copo de cólera)

estranhar os donatários da hipocrisia falida, incapazes de ver o mundo além de seus próprios desejos e raciocínios
são tão imponentes, sempre com espaçosos sorrisos debochados
o outro é um idiota
idiota
autossuficiência derramada na indiferença sobre a cor das ruas
quem deixa suas mãos estendidas ou recolhidas
se dorme ao relento, deve ser um idiota
paladinos da ética seletiva, da memória conveniente, a desfraldar grandes ensinamentos das orelhas de livros
quem não leu é um idiota
o sono tranquilo na cama confortável que o pai comprou, a mãe sustentou e o avô ajudou -
quem não tem é um idiota
proprietários de todas as respostas, cavaleiros das grandes soluções, gênios da raça escondidos atrás das páginas abertas
de um jornal de merda, merda
páginas abertas e letras difusas
quem não abriu é um idiota
a pior mendicância está na alma:
a vida é muito além do pensamento individual
quem não vê o outro como peça integrante do mundo enxerga de mal a pior
bate panelas sem fome
vê democracia no fim das regras
e rumina um país melhor sem combater a própria mediocridade
a mediocridade
qualquer fascista clean faz-se um intelectual importante
repetir as velhas falácias para justificar ódio, rancor, divisionismo -
a memória é uma ilha de edição!*
pensar nos outros por quê? é problema de Deus
rezar pela morte das capitanias hereditárias
a morte do quinto e a abolição da escravatura
quem reflete é um idiota!
mil vezes idiota
eu mesmo sou chamado de imbecil e rio: a estupidez de quem me ofende cabe num copo de cólera
enquanto sou o ballet
da imensidão do meu amor
que dança, disfarça e chora**

@pauloandel

*waly salomão
**cartola

Thursday, March 12, 2015

Filmes para pensar

"5 x Favela" (agora por nós mesmos)



"Notícias de uma guerra particular"



"Fala tu"



"Sonhos roubados"

Tuesday, March 10, 2015

poema torto

(copacabana over the rainbow)

e agora que o agora foi embora, onde foram parar os seus amigos para sempre?
pense naqueles bares inesquecíveis, as garotas tão românticas, os camaradas a bater canecas feito socos de gol
onde foi parar aquele país de sonhos lindos, segurança, felicidade, o da justiça para todos?
o chope acabou?
sevé não traz mais nenhuma bandeja e nem karla muga sorri discreta no fry chicken da siqueira campos
adeus, ditadura!
adeus, ditadura!
onde ficou a maravilhosa copacabana com suas putas, generais fascistas, sonegadores escusos, malandros de praia, maconheiros, marombeiros, gatinhas do grajaú - os mendigos famosos! - atores loucos na descida da escada do shopping:
katia flávia! louraça belzebu!
demônios do crepúsculo de cubatão - o dono era um maravilhoso ladrão
onde foi parar o la monet que não nos espera mais? garotas do méier.
aquele futebol que não existe mais, cheio de torcedores banguelas, de camisas rasgadas, perucas de enfeite, laranjas de almoço - a força do flu com assento - forever young!
meus companheiros de cartas são decadentes ricos - e cospem Miami, cospem Miami mas nunca vão entender de João Candido nem Domenico De Masi
um idiota me olha torto porque ando com meu velho par de chinelos mais uma bermuda antiga, tão vesgo e cafona, cafona!
os pivetes agora matam
a sociedade é mais estúpida e vale o que não está escrito
num respeitável hospital de porte há um traficante de colarinho branco em recuperação de saúde
- é MUITO respeitável
pessoas comem lixo nas calçadas ou lambem o resto das manchetes vomitadas
penduradas
na banca de jornais - veja mas não leia
surdos mentais, surdos mentais
repetindo mantras estúpidos dos grandes valores nacionais, pois o grande irmão estende a mão - e se for preciso, ela também pode matar, torturar, corromper
quantos corações doentes vão sobreviver sem qualquer intervenção?
vamos remover o ódio
expurgar nossas faixas de gaza
que fim levou a velha mesa dos meus amigos?
meus pais dormem tranquilos em algum lugar? será que sonham?
mesmo que tudo pareça tão medíocre e perdido, há de haver uma pequena salvação
no amor que não se consagra
na tristeza que não passa
e a estranha certeza de que recomeçar é o caminho
o brasil é outro, minha copacabana também
desaparecida feito a mendiga Lina que lia francês e new york times
o méier, a tijuca, arcozelo, imbuí
lembranças são o grande réquiem e viva a escassez do armistício:
ao chegar até aqui e me vir como um louco, um idiota da ilusão, parabéns! você não está mais sozinho
no cu do mundo
a dorsal atlântica é a serpentina de um carnaval
entre o caos e o vagabundo
parabéns!

@pauloandel

otraspalabras - paulorobertoandel.blogspot.com
não recomendado para imbecis maiores de 18 anos.

Wednesday, February 25, 2015

Bob Dylan - Shadows in the night - 2015

Numa tarde do inverno de 1977, puxado pela mão de meu pai, num momento muito difícil da vida da minha família, eu carregava um pacote de figurinhas de um álbum chamado "Multicolor", de temática diversa: música, cinema, novelas.
Cheguei em casa, triste casa, abri o pacotinho para colar a figurinha. A imagem de um rapaz magro, com o arquétipo judeu do meu próprio pai, Seu Helio, cabelos grandes encaracolados.
Ali conheci Bob Dylan. Eu tinha nove anos de idade e nunca mais me esqueci. Alguns anos depois, aí sim eu entendi exatamente quem era e o que significava.
Assim como o Fluminense, meus pais, meus amigos e outros valores pessoais, Bob Dylan tem sido presença constante na minha vida e até mesmo na minha lida como escritor. Quem teve a oportunidade de ler meu primeiro livro, "Do inferno ao céu", depara-se em suas últimas páginas com uma crônica intitulada "A linha do céu de Barueri", uma singela homenagem referencial a "Nashville Skyline", um dos grandes álbuns do gênio, dentre inúmeras outras.
Acaba de sair no Brasil "Shadows in the Night", seu mais novo CD. Um desafio daqueles: trata-se de um álbum com algumas das mais emblemáticas canções outrora gravadas por ninguém menos do que Frank Sinatra. Leve-se em conta que qualquer coisa gravada por Bob Dylan vira sua composição no ato, num estilo único. Ele toma as canções e imprime sua marca incomparável.
"Shadows" emociona e faz chorar. É leve e triste. O trabalho de quem já viveu muito, talvez pense numa despedida e volte aos tempos da juventude atras de suas referências, suas admirações. Porém, em se tratando de um artista que encanta o mundo há mais de meio século e não para de tocar com sua Neverending Tour, é difícil acreditar que Dylan pense no fim mesmo.
Para quem mandou uma banana aos puristas, trocando o violão pela guitarra elétrica em meio aos efervescentes anos 60, desafiar definições e paradigmas trata-se apenas do óbvio.
O CD termina com "That lucky old sun". Faz todo sentido.
Em tempo: Bob Dylan é, sem dúvidas, o maior artista estadunidense vivo.
Imperdível.

@pauloandel

Tuesday, February 24, 2015

Yo La Tengo - Ohm

Tuesday, February 17, 2015

o ritual do habitual

DEITADO em berço esplêndido da casa, olhando o céu que deve estar por cima do teto se não deu nada errado, o Carnaval chegou ao fim. As transas acabaram, os amores de ocasião. No fim da tarde de quarta-feira encerra a apuração da Apoteose - salvo a festa na quadra da escola campeã, todo o resto da cidade parece a noite de um domingo. Depois tudo volta ao normal. A hipocrisia retoma seu lugar nas ruas e na internet. Derrubar o governo é legítimo quando não se votou nele. Os jornais editam a informação. Acabou a grande festa, o grande feriado. Trabalhar na quinta-feira opaca e lúgubre é, acima de tudo, atender aos caprichos dos patrões - quem vai lucrar se todos gastaram o dinheiro na folia? Ninguém vai dizer das gangues de pivetes assaltando na Central, Copacabana e Botafogo. Nenhuma justiça para a pobre menina currada em Osasco. Em nome de Deus, decapitam e atiram bombas. O homem morreu com seu carro afundado num buraco da prefeitura em Santa Cruz. O bicheiro redivivo passou feliz na avenida ao lado de seus capangas, a emissora registrou. Oh, Carnaval, com suas fantasias maravilhosas e o cinismo a céu aberto. Vamos voltar à labuta. O mundo corporativo não espera. Retomemos as canções de ódio, exclusão e preconceito que só o Facebook sabe proporcionar. O ritual do habitual.

@pauloandel

Saturday, February 07, 2015

a puta em versos pueris

doce, linda e trêmula
inebriada em versos pueris
e dorso nu
a delicada puta
é nada além de uma digna
valorosa mulher
perdida em sonhos e promessas
delicada e saborosa
puta
copacabana é um ventre
o novo brooklin é um fígado
a savassi entre as pernas abertas
e um país em flor
tesão de mil homens e amor
amor de ninguém
a puta linda, provocante quente
jorra o leite viril da campanha
até que os miolos moles
apareçam estouradas num cenário
numa cena de cinema
delicada e linda mulher nua
sangue novo na multidão
enquanto as mensagens
continuam mudas demais
cada novo passo é um abraço
de amém
versos delicados namorando
a carne crua
a singela beleza da mulher
a puta é súdita de uma realeza vazia enquanto
sua desejada carne alimenta as veias que deságuam
nos oceanos da paixão em vão

@pauloandel

Thursday, February 05, 2015

oração das almas perdidas

OBSERVANDO a pastosa programação da TV. Pensando nas impressionantes manchetes que a imprensa produz com ética, descompromissada com particulares. Deus há de banir o comunismo dessa terra, em nome da liberdade, da fé e do livre latifúndio ocioso. Extinguir essa sem-vergonhice dos vagabundos se sustentarem com R$ 100,00 ao mês, R$ 3,33 ao dia, R$ 1,11 em cada uma das três refeições diárias. O maldito partido dos trabalhadores, que só enche o país de vergonha e inaugurou essa maldita corrupção no Brasil. Por que insistem nessa conversa de povo se ninguém é igual a ninguém? O que eu tenho a ver com os mendigos que pedem esmola do outro lado da rua? Por que pagar impostos? Não fui eu que inventei o mundo e seus defeitos. Quero meu Brasil de volta. Poder passear no shopping tranquilamente. Gastar meu dinheiro obtido com suor e méritos - tive que dar duro na faculdade, mesmo com meus pais me sustentando. OBSERVANDO a pastosa programação da TV. Pensando nas impressionantes manchetes que a imprensa produz com ética, descompromissada com particulares. A miséria não existe, o que se tem é gente vagabunda que não progride.

Thursday, January 22, 2015

rapé - joelho de porco - 1977

agora eu vou cheirar rapé
que esta poeira não está dando pé
vou fazer reclamação,
jornal da tarde faz publicação!

agora eu vou cheirar rapé
que esta poeira não está dando pé
do asfalto pro metrô,
essa poeira louco me deixou...
louco, louco...

(louco, louco, linda...)

respirando poeira
atravesso fronteiras
a poluição... me deixou assim

(aaaaaahhhhhhhhh)

atchim! atchim! atchim!


Monday, January 19, 2015

tarde de verão

CAMINHANDO em pleno janeiro no calor do centro do Rio 2015, relativamente esvaziado na segunda-feira imprensada pelo domingo solar e o feriado de São Sebastião, padroeiro da linda e sofrida cidade.

Na agência da Caixa na esquina de Henrique Valadares com Ubaldino do Amaral os vigilantes com olhos esbugalhados enxergam até o som. A velhinha deixa o terminal eletrônico ao lado de sua neta lindíssima, capitalizando olhares.

O prédio novo da Petrobras, gigante e moderno, mil pessoas trabalhando e me recordo de meus amigos reacionários o dia inteiro nas redes sociais apedrejando o Governo, depois saem para passear na Barra ou no Leblon, preocupadíssimos com o Brazyl.

Debaixo de um calor enorme, o morador de rua procura qualquer coisa de valor dentro da caçamba de lixo atrás do Íbis na Praça Tiradentes. Ninguém liga. Quando um transeunte oferece ajuda, o pobre moço já saiu desesperado à busca de seu inferno particular.

Teatros João Caetano e Carlos Gomes, berços da ribalta nacional.

Fundação Pasqualini, Brizola vive mas a loja está fechada.

Perto dos salões de venda de cabelos na Sete de Setembro, as mulheres tatuadas gritam com seus amigos homossexuais, todos com cabeleiras modernas, para uma simples conversa. Passando uma potencial cliente, lançam o slogan:

- Quer cabelo, colega?

Desça a Sete até a esquina de Gonçalves Dias e vire à esquerda. Antes disso, vinte turistas branquelos riem a valer, mesmo esbaforidos pelo calor, ávidos pela próxima atenção - acabaram de sair da Colombo - duas louras fenomenais. A rua vazia, quase ninguém no Starbuck's.

Direita, a galeria da Ouvidor cheia de stands de moda feminina - as mulheres ficam loucas com todas as peças - a linda bailarina de Realengo gastaria horas experimentando tudo que a deixasse mais bela. Subindo a escada e passando pela sex shop, você encontra o ponto de cds da Raquel com seus pais, coisas que não vai achar nas lojas e nem nas promoções - os colecionadores espiam cada peça. Mexi em discos de jazz enquanto Raquel falava das agruras de se alugar um imóvel quando o proprietário responde pelo trio de algarismos: 171. Comprei Bowie e outros, Dado Villa-Lobos, uma coletânea de filme underground.

A longa travessia da volta, vários momentos de sol a granel, Tiradentes, Visconde, Gomes Freire, as ruas deprimidas - o calor desumaniza os sentimentos sem o Atlântico Sul por perto -, pessoas respeitáveis, o par de chinelos passa pela padaria ao lado da nova Petrobras, com pão fresquinho acabando de sair e mortadela em dia, debaixo do prédio sessentista onde certa vez Henrique fez a produção de um filme enigmático.

Perto do banco, outra velhinha sentada na porta e conversando com o vigia. Alguém ouve "Miss me blind" alto num rádio, que não é o do vendedor de churrasquinhos porque sequer montou a churrasqueira.

O mendigo pacífico e solitário da rua pede esmolas em vão. As pessoas querem o fim da corrupção, não o da miséria, enquanto pensam num futuro melhor comprando porcarias inúteis em Miami.

João, o porteiro de aviso prévio, delicadamente abre a porta do elevador para a subida. Felizmente, tudo vazio.

DEPOIS de um banho relaxante, o escritor paulo deita-se como se tivesse disputado uma maratona de corrida, abre "O capital no século XXI", deixa a televisão ligada feito rádio, conta o dinheiro na carteira, bebe um imenso copo gelado de água, esquece dos remédios, espia os arredores pela janela enquanto seus amigos tricolores reclamam do mundo inteiro e recorda os belos inícios de livros que seus colegas lhe mandaram ultimamente.

Os defensores da pena de morte não falam de seu candidato à presidência. A hipocrisia é fundamental.

No rádio, uma grande canção: "É verão, bom sinal, já é tempo de abrir o coração e sonhar".

@pauloandel

Saturday, January 17, 2015

os sentidos (comer você)

1

see me in sex
and muscles
be my biggest
turns around
let me call a fuck
on your fantasies
let me in you sex
like your love sign

2

beijar você e aproveitar
cada naco de pele santa
o gosto, o pêlo, o beijo
morder você no mar do cais
amassar, corromper, rir
comer você feito quindim
um mar de açúcar e caldo
mil delícias no entorno
beber você, pedir por sede
só para repetir a dose farta
que as tulipas não comportam
transar você em pleno sonho
voo transatlântico da emoção
e a noite rosa transborda
o beijo quente te entorpece,
o corpo rijo te roça, provoca
enquanto somos dúvida nua
mas respiramos toda prática:
fazer do sexo a tua base lunar

@ pauloandel

Thursday, January 15, 2015

carne trêmula

pensei
em ter pecados com você
percorrer tua dorsal
atlântica
o que nunca vivemos além
dos desejos
escondidos
em frias palavras tímidas
incapazes
de explicar o que nos leva
aos céus
e voltar
o tesão em nave espacial
enquanto vemos estrelas
de perto
e teu corpo faz-se líquido
em trêmulo prazer
pensei
em ter você de volta
mas nunca tive! que retorno?
deitado em berço límpido
e teu corpo em pêlo, à pele
um escândalo em letras quentes
cada verso, tua nuca
declamar teu sexo
fazer da tua carne a cobiçada
poesia: lamber-te o ventre
feito fosse um recital -
somos apenas normais

@pauloandel

Saturday, January 10, 2015

chambre avec vue

a tarde, com suas portas abertas
manchada com o sangue inocente
enquanto os homens morrem, morrem
depois de matar e torturar, fuzilar -
não há espaço para Henri Salvador - chambre avec vue
os fascistas querem mais sangue!
vamos fazer moral e cívica!
os jornais querem mais sangue para mancharem as primeiras páginas
enquanto os corações perfeitos falham
sofrem, doem o pior do mundo

os miseráveis do bolso são muito mais dignos do que os mendigos d'alma
enquanto alguém dirá que tudo foi feito em nome de Deus
a tarde ensanguentada
uma linda mulher sem palavras fascinantes nem empolgação

uma linda mulher sem qualquer sentido
a inutilidade dos grandes avanços diante da dor
e o vazio, o vazio
por um jovem estudante assassinado no chão, exangue:
feliz ano novo com racismo, violência
e a generosa estupidez:
juntos, somos o esplendor da miséria humana

juntos, somos o esplendor da miséria humana
enquanto os bancos publicam tranquilamente seus balanços
as grandes corporações preparam suas listas de dispensa
para que a farsa se chame competição:
mãos à cabeça, covardia, assassinato - "a vida é dos mais fortes"

@pauloandel

Wednesday, January 07, 2015

massive attack





Sunday, January 04, 2015

torquato!

"Quando eu recito ou quando eu escrevo uma palavra, um mundo poluído explode comigo e logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte e fogo e morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim. [...] uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Agora não se fala nada e tudo é transparente em cada forma; qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. [...] Escrevo, leio, rasgo, toco fogo e vou ao cinema."

In Os últimos dias de paupéria

Saturday, January 03, 2015

junkie

"Numa tarde de agosto de 1988, cumpri meu ritual dos últimos meses: aulas na UERJ, voltar em casa para o almoço (geralmente bife de fígado com arroz e purê de batatas, feito por minha querida mãe sempre que possível; noutras, pão com manteiga mesmo), banho, descanso e saída para a tradicional reunião das tardes na casa de Fred, que podia ir até quase meia-noite em algumas ocasiões, onde valia desde carteado a audições de discos ou discussões sobre nada importante. 

Do meu prédio até a casa do amigo, um percurso que não chegava a cem metros: Bloco É, saída à esquerda na direção Figueiredo Magalhães, Supermercados Leão, a rampa circular e estilosa do shopping, a loteria do Seu Carlos cheia de escudos de times de futebol, a loja de artigos chineses, o armarinho dos pais do Luiz Octávio, a loja de flores que tinha sido dos pais do Peter, dar a volta em frente à pastelaria que tinha sido dos pais do Marcelinho. Três metros, o eterno porteiro Aílton na porta, grande, calvo, com bigodão. Já tinha parado de nos perseguir quando crescemos.

Botão 13. Saia do elevador, vire à esquerda duas vezes. Não olhe para trás, de modo a não ver o infinito corredor que bem poderia ter servido para as gravações do seriado de TV "Agente 86". Campainha do 1346, logo alguém abria a porta, geralmente sem ser o próprio Fred, dono da casa. Era o quartel general da nossa turma.

À mesa, todos reunidos: Ricardinho, Luiz Octávio, Jorge Pinto, Marco Antônio, Gustavo de Caux e o próprio Fred. Abraços fraternos em todos, chego na segunda rodada de mau mau. Coca-cola na mesa, sorrisos, os amigos da juventude. Sete, compre duas cartas. Nove, inverta a ordem e um jogador compra. Pontos e pontos.

Em certo momento, prato, gilete e um sacolé de cocaína. Minha apreensão era sempre visível. Luiz Octávio já quebrava o gelo dizendo que ninguém deveria me passar o pó, porque eu acabava com tudo - na verdade, o jeito dele me proteger. Na verdade, somente ele e Fred no serviço. O resto não era daquilo, na verdade nem eles mesmos, por mais que os olhos esbugalhados e as narinas avermelhadas quisessem falar de uma satisfação momentânea.

Foram muitos bifes de fígado, tardes de risos, discos, pequenas tristezas e sacolés de cocaína. Mas esse detalhe junkie é pequeno diante de uma história que começara dez anos antes daquele 1988, continuaria com idas e vindas pelos vinte anos seguintes, não cerraria as portas nem com a morte de alguns de seus protagonistas e vive até hoje de algum jeito peculiar.

A casa de Fred era nossa universidade de vida, fraternidade, distúrbios e convivência."

Thursday, January 01, 2015

deuses

onde estão os benditos deuses?
que não salvam miseráveis
e não vencem a violência
parecem tão alheios, frios
sob distância regulamentar
a indiferença ruge, pálida
a hipocrisia reina, patética
o mundo e suas voltas de ilusão
onde estão os deuses afora
os caminhos sinuosos e vis
nas crenças do meu coração?

@pauloandel

a janela

do outro lado da janela tem
a luz
a paisagem
o bairro livre
e gente pensando em gente
a janela e sua voz, o sonho
e tempo que não se perde
o adormecido feriado
a humilde carrocinha de sorvete
enquanto vamos sofrendo debaixo
do sol
e pensamos em nossos poetas mortos
as canções que moram longe
do outro lado da janela existe
a simplicidade do fim
mas também há sonhos, cores
e a promessa de qualquer carnaval.

@pauloandel

Monday, December 22, 2014

terra

terra
de homens bons e maus
ganância, egoísmo, fracasso
e melancolia
o mundo por uma ilha
e as marquises dos grandes edifícios
as cirurgias das grandes emergências
terra
sem paz, no caos, em guerra
o inimigo não se compreende direito
mas somos tão vivos
e vivemos nossos dias em contas:
o carnaval, a copa do mundo, as eleições
e agora os tempos de festas
o natal para aquecer os corações ou amaciá-los
o ano novo para se esquecer dos anos que já se escorreram pelo ralo
e dormiremos tranquilos
alguém morre de fome, sede, acidente, câncer, bala perdida
e vamos dizendo amém
dizendo amém
sonhando com acordos impossíveis e a paz dionisíaca
alguém morre de sede enquanto alguém manda um whatsapp
terra
terra
uma economia de bosta, uma feira livre do grande capital
o haiti é perto demais, cuba também
terra
terra

@pauloandel

Tuesday, December 16, 2014

o nosso funk de cada dia

Tuesday, December 09, 2014

call me

If you're feelin' sad and lonely
There's a service I can render
Tell the one who loves you only
I can be so warm and tender

Call me, don't be afraid, you can call me
Maybe it's late but just call me
Tell me and I'll be around

Saturday, November 22, 2014

nevermind

de volta ao nunca mais
nunca mais
viva o futuro que não tem
o que eu queria
viva este grande dia da liberdade!
feliz com as minhas inutilidades
os inúteis sonhos infantis
e o que importa na imperfeição?
existe a vida, grande vida
esta que jamais compreendemos
procurando em vão por justiça
alimentando desesperanças
e perdendo tempo em buscar sentido
nas coisas dos homens:
podíamos estar na sala de jantar
deitados em silêncio pleno
mas preferimos o desafio:
amor, tesão, companhia, colo
silêncios da madrugada
e o réquiem para a felicidade -
as vitrines estão cheias de olhares
enquanto arrotamos futuro:
o escuro do quarto é uma lâmina
para não dizer adaga ou lágrima
viva o grande dia da liberdade!

@pauloandel

Wednesday, November 19, 2014

louder than words - pink floyd



@pauloandel

Tuesday, November 11, 2014

quando for futuro

haverá um dia em que os gestos
falarão mais alto do que nossas palavras
a ponto de vencerem a hipocrisia
não se aceitará mais o descaso
o desrespeito será decadente
e se entenderá que só é possível
valorizar a si mesmo
quando se reconhece o valor do outro
então seremos
os superoutros da canção
agora num outro mundo, novo mundo
longe deste que entendemos ser
a catedral do egoísmo e da indiferença
nunca mais será normal
vermos os outros feito mortos vivos

@pauloandel

Friday, November 07, 2014

duzentos metros

Depois de horas numa confortável sala branca quase fechada, refrigerada ao extremo e sem luz natural, então vejo que chegou a hora do almoço.

À RUA, um calor enorme neste verão enrustido de novembro e uma sensação de liberdade: uma hora para fazer o que se quiser, embora nem haja grande variedade de opções assim; caminhar, almoçar e voltar para a sala.

Na esquina da rua do Senado com a Vinte de Abril, um jovem morador de rua em frente à lanchonete coreana, carregando uma bola que deve resumir seus pertences, uma muleta, um pé calçado com bota humilde e o outro, com um chinelo.

O grande muro vermelho do Quartel Central do Corpo de Bombeiros faz pequena sombra. As pessoas caminham pela rua interditada. Poucas.

Dois garotos pequenos, pretinhos, apertam-se no estreito corredor para pedestres em frente à Igreja de Santo Antônio: uma obra nova de tubulação, feita para reparar um problema de meio século, estourou; interditaram a rua e não há indícios de que a recuperação será fácil. Eis o motivo da interdição.

Uma garota bonita com seu crachá da Petrobras passa com quase sorriso no canto da boca, talvez desejando ser desejada, talvez querendo afirmar a obviedade de sua beleza e tudo tem pouco sentido, uma vez que estamos na cidade com as garotas mais bonitas do mundo, também desimportante se isso é apenas um ufanismo carioca.

Cem metros.

O restaurante chinês quase vazio, algumas pessoas fazendo seus pratos na fila, fico agradecido por ter mais um dia de comida, mas, ao mesmo tempo, observo atentamente todas as coisas gostosas que não posso comer porque não tenho mais a saúde de um dia distante. Pego o que dá.

Duas mulheres na faixa de seus quarenta anos, riem, cochicham e especulam um programa noturno com amigos, uma com possível aliança de casamento e a outra não.

A garçonete do restaurante, cujas amigas chamam de “girafa”, geralmente demorada para atender, finalmente escuta minhas preces e peço um Guaravita. Estou sentado sozinho, como quase sempre faço, com enorme velocidade para comer e sei que isso é péssimo, apenas não consigo mudar. Crachás por todos os lados. A televisão dando notícias de futebol, melhores para alguns e reduzidas para outros.

Cumprimento educadamente as moças da caixa, nem tão simpáticas, pago, recebo meu troco, o canhoto deve ser entregue à moça simpática que fica na porta. Ela agradece e me deseja bom final de semana.

O corredor na verdade é um curralzinho que faz vaivém na rua dos Inválidos, volta na Igreja de Santo Antônio – agora cheia por causa de uma missa – e retorna à rua do Senado, onde carros e motos fazem a festa do estacionamento.

Um trabalhador do povo, carregando duas caixas de refrigerante nos ombros, saúda e graceja a passagem de uma mulher pelo caminho, mais por conta de seu short do que pelas formas delicadas. Isso também pouco importa; na verdade, democratiza a cantada e não a torna objeto apenas das ditas mais belas – e o que importa se é beleza o que sentimos com os olhos, às vezes sem a visão, sempre sujeita a modificações com o passar do tempo?

Uma menininha passa com sua mãe a caminho da escola. Logo depois, um menininho é puxado pela mão: sua mãe também o conduz. Por um instante, tenho uma saudade infinita da minha mãe e de quando eu era um garoto em Copacabana caminhando com um biscoito de polvilho na mão, agora, entristecido demais porque tudo isso não vai mais voltar, o futuro inevitável (que espero distante) é a morte, nunca mais minha mãe me abraçará, não terei como satisfação fundamental da vida ver um desenho animado ou ganhar um pequeno carrinho. A isso tudo chamam evolução, crescimento, envelhecimento e o sentido da vida parece algo incompreensível.

Na esquina com a Vinte de Abril, a porta do velho puteiro está lacrada. Um casal homoafetivo apressadamente se direciona para a porta do motel. O restaurante falido agora tem uma placa de “Aluga-se”. O calor continua intenso e há um certo clima de feriado que, todos sabemos, não existe.

Duzentos metros.

Entro na empresa, um ar gelado fulminante no rosto, recomeça um expediente de mais quatro horas numa bela e confortável sala branca, sem luz natural, sem conversas, sem contraditório, números a tratar, contas a pagar.

Logo mais, tenho a missa de sétimo dia da Dona Christina, um personagem fundamental da minha vida. Em sua casa, ao lado de seu filho, meu amigo Luizinho, vivi boa parte da minha vida entre jogos de botão, pizzas, piadas e um sentimento de que a vida seria infinita, talvez a melhor das ilusões.  

Eu e o velho amigo conversaremos à noite, riremos, falaremos de nossas dores e frustrações, tentaremos procurar mais uma vez o que perdemos diariamente em algum momento - ou vários - ou todos.

O sentido da vida.

O sentido.


@pauloandel

Monday, November 03, 2014

a capital dorme

na primeira noite depois do dia dos mortos a capital dorme. as luzes piscam nos morros e parecem estrelas cadentes para abonados usuários de avião, prestes a aterrissar no aeroporto à beira d'água. debaixo de marquises caras, transeuntes sem rumo dormem. usam drogas mortais. fazem sexo. sofrem. e dormem. na avenida litorânea as lindas putas buscam o dinheiro do aluguel - elas ainda não dormem. num leito de morte do hospital público central, o paciente terminal dorme, ao contrário do berçário onde minúsculos bebês choram e nem imaginam a rudeza do caminho que virá. a capital já não tem o asfalto entupido por pneus e ruidosos automóveis. o metrô nem parece uma caixa de carne humana moída, amassada no ir e vir do fim do expediente. na praça sete, o mendigo dorme. no estácio de sá, os meninos malandros magrinhos espiam as jovens de seios fartos, bumbuns e coxas carnavalescas: ninguém dorme. na prado júnior, o caminhante é impisa, o lobo que nunca dorme. nas gares, nos terminais, na central do brasil os trens preparam-se para breve sonho. o vizinho pensa na jovem vizinha nua, ou na mulher eternamente distante. crianças adormecem pensando na manhã de escola. nem é meia noite e a capital, acolhedora e hostil, dá indícios de sono. o amor também adormece. resta a crueza chamada solidão, livre.

@pauloandel

Friday, October 31, 2014

a legião urbana

a nossa pátria sem destino
com seus foguetes racistas, excludentes
meninos brancos que não sabem
a dor dos pobres e doentes
no cu do mundo
franco e depravado cu do mundo
onde os traficantes sorriem, mandam, matam e nenhum verso romântico
há de prosperar
a revolução não vai ser televisionada:
ela viverá quando a legião urbana
tomar as ruas das cidades
quase sem querer
e seremos libertos a ponto de vivermos nossos amores
muito além do livro dos nossos dias
a legião urbana vai carregar as multidões para muito além do futebol e do carnaval
e os jovens serão tudo: canto, beleza e futuro

@pauloandel

o milk shake, o menininho e a sociedade

Tomávamos milk shake de Ovomaltine por volta das seis e meia da tarde no Bob’s da praça Saens Peña, sentados no banco com estofado vermelho e confortável, quando surgiu um menininho de seus dez anos ou menos.

Baixinho, magro, cabelos pretos, olhar meio triste de quem deveria estar brincando ou descansando em casa àquela hora, num lugar confortável que toda criança merece.

Vendia drops Hall’s.

Perguntei o preço. Dois reais cada. Falei que estava caro.

Comprei cinco.

“Caramba, moço, você me ajudou muito.”

“Valeu, garoto. Um abraço.”

Ele sorriu. Estava feliz. Os dez reais que conseguiu podem ter significado a janta. A diferença entre a fome e a saciedade.

O menino nem tinha ideia dos problemas que passo, das minhas dívidas, de tudo. E foi muito melhor assim. 

Ele pode ter se iludido com a impressão de que eu fosse um rico de pequena generosidade e isso basta. 

Melhor do que ler barbaridades defendidas por alguns ricos, como aquela de pena de morte para o garoto amarrado no poste – ontem, os justiceiros foram presos no Flamengo: eram traficantes armados de classe média alta.

Terminamos o milk shake no caminho, apressados para o compromisso pessoal.

Um menino brasileiro, sofrido, trabalhador, vibrando porque conseguiu vender dez reais em balas.

Um retrato espalhado pelo Brasil inteiro, esse mesmo que ainda tem mazelas demais e as lutas para distribuir renda. Dizem ser o Bolsa Família um programa de vagabundos, mas cerca de 70% de seus beneficiados trabalham – apenas não conseguem ter a renda mínima para sobrevivência.

Enquanto isso, o Brasil restitui aos contribuintes cerca de R$ 14 bilhões neste 2014. Não tive notícias de que qualquer restituído tivesse sido acusado de vagabundagem.

Eu continuo pensando na pequena grande alegria que dei ao menino ajudando-o.

Queria ter mil ou dois mil reais sobrando para lhe dar.

Não tenho. Sou pobre.

Eu já fui um menino que contava moedas, mas para comprar botões para brincar.

Sempre serei grato a meus pais que, mesmo sob dificuldades, fizeram tudo para que eu chegasse até aqui.

Choro.

@pauloandel

Saturday, October 25, 2014

enquanto

desperdiçar a cor, o dia
a tarde calma
mentir, agredir, vociferar
a ignorância vã
e tudo perde o sentido
quando é preciso dizer adeus
a morte sorri
e as lágrimas são preces
enquanto brigam, humilham
assediam
a dor do amor numa lápide
faz escorrer qualquer lógica
enquanto as pessoas permanecem
ocupadas em grandes projetos
negócios importantes, fama
imponência
o mundo implode frente a um menininho
mendigo
a dor, a fome, a incompreensão
e a sofisticação cai de joelhos
diante do nunca mais
rancorosos, estúpidos
deslumbrados
até o dia em que nos vemos de verdade:
o nada sobre o nada
mas nem isso faz desaparecer
a soberba que virá
nas novas poses e posses
na ostentação cafona:
qual o sentido do mundo
diante de alguém que segura a mão
de seu amor
depois da morte?

@pauloandel

Friday, October 24, 2014

O golpismo de Veja e Globo x Brizola

Hoje, parte do Brasil acordou com a sensação imaginária do cheiro do sangue podre de cadáveres mutilados, decompostos, abandonados.

O sangue podre que se tornou o último resquício de vidas ceifadas criminosa e brutalmente pelos que entendiam ser os donos do Estado brasileiro.

A carne podre de corpos amontoados e destroçados, muitos deles no sanatório de Barbacena, espécie de Auschwitz mineira. Para lá, milhares e milhares de brasileiros foram enviados rumo à morte pelos motivos mais bárbaros e irracionais, especialmente a partir de 1964.

O sangue podre do golpismo ditatorial, intolerante com qualquer insucesso seu nas urnas. Sem vitória pela democracia, que o golpe prevaleça. Os fins justificam os meios torpes. 

Numa atitude já esperada – mas não menos abominável por isso -, as corporações Globo e Veja tentam sustentar não apenas uma denúncia de corrupção, mas uma sórdida interferência no processo eleitoral brasileiro, tentando confundir os eleitores para que os dados das atuais pesquisas de opinião não se confirmem na votação do próximo domingo. 

Pior: a criminosa defesa do impeachment da presidenta Dilma com base em acusações não comprovadas e que, também de forma criminosa, tem sido vazadas de forma leviana e irresponsável.

Engana-se quem pensa que as próximas horas serão apenas um debate entre esquerda e direita, com toda a elasticidade desses conceitos.

Trata-se de uma luta da legalidade contra o golpismo.

E dos interesses do país contra vantagens pessoais de saudosistas das capitanias hereditárias, ressaltando-se que este mesmo país tem mais de 200 milhões de habitantes, não se limitando a regiões locais como o Itaim Bibi, a Savassi ou o Baixo Leblon, menos ainda o famigerado Village Mall.

Ou de dilapidar os bilhões contidos no desenvolvimento da Petrobras, nos financiamentos habitacionais e estudantis da Caixa e do Banco do Brasil, nos mesmos moldes já denunciados amplamente por Amaury Ribeiro Jr., detentor de quatro prêmios Esso de jornalismo, em seu definitivo livro “A Privataria Tucana”.

Outra mentira contumaz é vender falsamente um novo cenário econômico num país que tem crescido, passado ao lardo de uma grande crise mundial, tendo gerado milhões de empregos na última década. A grande diferença de condução política entre PT e PSDB está em dois pilares essenciais: a prioridade do capital trabalhista sobre o especulativo e as politicas de emprego mais inclusão social, que definiram a mudança do perfil do Brasil em boa parte deste século XXI.

O que o consórcio Veja/Globo tentou impor hoje a milhões de brasileiros foi a sugestão da necessidade de um golpe, única forma de reconquistarem o poder e os financiamentos de outrora, quando foram lenientes com atrocidades praticadas pelo Estado brasileiro durante a ditadura cívico-militar 1964-1985.

Ou ainda na ascensão e queda de Fernando Collor, um período ainda sob sombras na história do Brasil. 

Ou a anuência com a inacreditável aprovação da reeleição com o próprio presidente à época se beneficiando diretamente da mesma, sem precendentes no mundo democrático.

Hoje à noite, a Rede Globo tentará fazer a sua parte, a de sempre. 

Um gênero, um time, uma elite. 

Não é mais uma disputa para os próximos quatro anos. Não há mais como editar debates.

Na verdade, trata-se de uma luta para impedir que 2015 retorne a 1964.

A luta para que o cheiro imaginário de sangue podre não se torne uma verdade ditatorial.

Desde sempre, Veja e Globo são inimigos do país, da democracia e da justiça social.


@pauloandel


Em memória de Leonel Brizola


Tuesday, October 21, 2014

as duas maiores bobagens das eleições 2014

Os dois momentos mais ridículos de todo o processo eleitoral 2014 aconteceram nas últimas 72 horas.

Primeiro, Energúmeno Constantino e sua obsessão mussolínica que beira à paixão mal resolvida, defendendo boicote a artistas que votam no PT. Típico de um sujeito sem noção de tempo e espaço, imaginando que sua borra jornalística possa ser capaz de encobrir o trabalho de pessoas como Chico Buarque, Zeca Baleiro, Dona Ivone Lara, José de Abreu e outros.

Seria algo tão idiota quanto boicotar o trabalho de Fagner por votar no PSDB.

Um pretensionismo infantilizado e desprovido de racionalidade, que só poderia ser publicado na ex-revista que lhe acolhe.

A imposição cultural é típica de regimes ditatoriais; portanto, não cabe no Brasil de hoje.

Segundo, o chilique que eleitores de Aécio estão dando com os resultados das pesquisas divulgadas ontem.

"O PT comprou o Datafolha"...

Quando os resultados lhes eram favoráveis, riam e comemoravam. Agora, dão ataques de histeria.

Antes, a pesquisa era comprada?

Por motivos óbvios, o grupo Folha tem simpatia declarada pela eleição do 45; há um claro conflito de interesses no mercado de pesquisas de opinião no Brasil (e, infelizmente, muito mais). "O PT comprou o Datafolha"... Marina Silva tinha comprado também no primeiro turno? Diria meu grande amigo: "É muita vontade de acreditar..."

Poderia falar aqui muitas coisas sobre um assunto que estudo há 26 anos, mas prefiro ser breve: pesquisa de intenção de voto não é ciência exata. Ponto.

Sunday, October 19, 2014

aleluia

aleluia
uma criança dorme em seu berço esplêndido
depois de farta refeição
sem culpa pelas outras crianças
que sofrem, sofrem
debaixo das marquises
numa noite de chuva
aleluia, aleluia
irmãos distantes finalmente se abraçam
amores impossíveis contam esparsas possibilidades
de serem verdade
a doce e improvável verdade
as câmeras gravam tudo:
banalidades, acontecimentos
escândalos, excentricidades
aleluia
os jovens solitários choram seus mortos num dia de finados
e lápides floridas
as canções tristes são licores
pessoas querem ter posses
e o centro da cidade vive seus míseros arrastões
gente assustada nos restaurantes
nas agências bancárias
e homens importantes quase pisam nas pernas em carne viva
de um mendigo ferido
na antiga avenida central
aleluia
aleluia
agora chora-se o passado
os amigos desaparecidos
as bandeiras e bumbos recolhidos
os bálsamos de samba e bossa - para que chorar? o futuro é o fim
nossas pequenas chamas queimando sem sentido
até a hora em que o vento ligeiro
as cala
queimando, queimando
enquanto a noite nublada de copacabana abraça seus carros de sexo
os miseráveis e as drogas destruidoras
- o futuro é o fim! nossa arrogância é ridícula!
- ansiamos pela nossa importância ridícula!
aleluia, aleluia
as procissões de estranhos ao fim da tarde com seus trens lotados
trabalhadores sofridos
gente por demais cansada
o subúrbio é uma namorada
linda, distante, à ribalta
e os corações perdidos nunca vão se encontrar
mas ainda temos lágrimas de esperança - por elas, navegamos o romance de uma pátria rediviva
com justiça, amizade e solidariedade
lágrimas nas janelas fechadas
nas ruas de cheiro triste
desprezadas diante das calçadas de praia que oferecem
o mar de azul, o infinito, a melancolia
e tudo se resume num mundo
que jamais compreenderemos
oh, aleluia
aleluia
aleluia

@pauloandel

Friday, October 17, 2014

veias de asfalto

o cheiro das canções da rua triste
numa cidade maravilhosa
nem as mais belas águas aliviam
a dor cravejada entre as pedras portuguesas da calçada
oh, somos importantes demais!
formiguinhas diante das grandes corporações de aço, pedra,
frieza e o grande capital
as pessoas sofrendo nas macas
ou sob marquises, tanto faz
os senhores da verdade não se importam
com seus narizes empinados
o tom professoral e um indisfarçável
pedantismo oco, sujo, fétido
ao menos há humildes transeuntes
carregando amendoins, churrasquinhos, cachorro quente
numa estação central
ou rindo e conversando futebol
uma cerveja refrescante
ainda que quase ninguém ligue quando um mendigo
dança o ballet da morte
as crianças entorpecidas
sorvendo a droga da morte
em frente a um prédio milionário
ah, dor, tristeza!
o desamor é o sangue a correr nas veias de asfalto e terra
enquanto esperamos o jogo, o domingo
a próxima novela
a grande manchete manipulada
- a biblioteca está cheia de silêncio!
- por que perder tempo com bobagens?
a cidade e suas canções tristes, sexo barato e paixões condenadas à prisão perpétua:
somos imortais de merda!
não temos coragem de encarar o ridículo que nos traz existência
enquanto um idiota vai se vangloriar de posses porque nada tem a dizer.
a cidade e seu vazio:
partida, incompreensiva
e sedenta por migalhinhas
a cidade de finos traços e o cheiro descomunal das reticências

@pauloandel

Saturday, October 11, 2014

copacabana city blues

esta cidade cheia de esquinas
e meninas cheias de sonhos
em vão
tal como a vida que todos rejeitamos
os libertários e os reacionários dividem céu e areia, mar também
nas manhãs de domingo
e os meninos perdidos sem rumo em trilhas de crack
as senhorinhas infalíveis na igreja
enquanto outras sob o crivo do pastor
e lindas putas tristes veem novela numa barraquinha da praça do lido
a juventude não vai mais voltar
o que perdemos não retornará
mas ainda há vida, seja em risos ou o pranto da sensatez
nossas pequenas sacolas de compras faz-se admirável decadência
orgias no inferninho, na barra pesada, em prédios respeitados
e endereços conhecidos -
as irmãs nordestinas da l'uomo foram embora
os queridos bebuns do bar sniff deram o fora
a mendiga lina não lê mais o new york times em voz alta na tenreiro aranha
onde mora renatinha?
e a casa de buja, onde fica?
a turma da ladeira agora vê pay per view
os meninos do copaville moram longe, longe
sem qualquer estação
senhoras de classe e seus waffles no cirandinha
quem descobriu o segredo sagrado de mister éter?
nenhuma aída curi?
uma jovem empregada doméstica deixou seu filho, desesperada
sob os cuidados da rica médica no igrejinha
e somos tão moralistas
moralistas demais: votamos nas marchas de deus, nos choques de ordem e tudo voa solto
feito a fumaça libertadora de maconha
perto da trave do juventus na madrugada
os travestis fazem a vida, vivem, morrem, trazem risos e fazem gozar
enquanto generais de pijama ainda resistem e sobrevivem
os bares morrem no começo da noite e o baile funk faz a trilha da menina lourinha
que beija o peito de um traficante
a billboard morreu
a modern sound morreu
a suprema desapareceu
ninguém namora mais no rian ou no cinema 2
e tudo isso é lenda diante de cinco minutos de ar puro num banco do bairro peixoto:
o sol, as crianças, a primavera
copacabana e um solo de blues
há solidão, fracasso, morte mas punhados inesquecíveis de la dolce vita com alguns trocados
e o charme de um mundo secreto
que outra terra não tem:
a nossa deliciosa desordem tropical

@pauloandel

Friday, October 10, 2014

Eleições 2014: números mágicos

73

Números mágicos – 10/10/2014

Terminado o primeiro turno das eleições presidenciais, com 100% das urnas apuradas, Dilma Rousseff teve 41,59% dos votos válidos, exatos 43.267.668 e Aécio Neves teve 33,55% dos votos válidos, com também exatos 34.897.211. A terceira posição coube a Marina Silva, com 21,32% dos votos válidos e número absoluto de 22.176.619.

Somados os três, 96,46% dos votos e 100.341.498 em números absolutos.

Os demais candidatos na disputa somaram os 3,54% complementares, num total de 3.682.304.

Natural a migração de votos no segundo turno, onde há polaridade.

Natural também que o candidato Aécio herde parte considerável dos votos de Marina Silva.

O mesmo não se esperaria no resíduo de 3,54%, onde estão alguns candidatos de extrema esquerda, cujos eleitores tem um perfil de voto mais rígido e, talvez, até intransferível.

É surpreendente o salto de Aécio em menos de 72 horas após o primeiro pleito, a julgar serem corretos os levantamentos dos institutos Ibope e Datafolha, que vem tropeçando em excesso ultimamente.

Com mais de 13 pontos percentuais, a virada em cima da candidata Dilma faz de Aécio um fenômeno eleitoral como raras vezes visto na história da República, ainda mais em se tratando da era com dois turnos.

Uma verdadeira máquina de transferência de votos, mais de dez milhões deles num estalar de dedos, sem nenhuma calculadora, tudo muito simples.

A propaganda eleitoral volta à TV.

Em breve, os debates. Aí sim será possível ter ideia do real encaminhamento do jogo eleitoral.

Por enquanto, a magia dos números sugere o cenário do melhor realismo fantástico.  

 @pauloandel


Thursday, October 09, 2014

Monday, October 06, 2014

um bocado de amor e outras guerras

Livro da excelente poetisa Andressa Furtado.

Informações pelo e-mail andressa.furtado@gmail.com ou ainda em http://umaestranhanolivro.blogspot.com.br/




Friday, October 03, 2014

macalé & andel - só morto - burning night

jards

Nessa manhã de louco
O olho do morto
Reflete o fogo
Nessa manhã de louco
Todo mistério é pouco
Pedras rolam pro mar
Nessa manhã de louco
Todo mistério é pouco
Nessa manhã de louco
Todo mistério é pouco
Espuma de sangue a brilhar
Nessa manhã de louco
Todo mistério é pouco
Esse sol tão forte
É um sol de morte
Esse sol tão forte
De mil mortes
Esse sol
Há quanto tempo
Eu não via
Um dia...
Um dia...
Tão bonito, tão...
Tão maldito, tão...
Um dia... Um dia...
Oh, see the city lights
I never seen you so brigh
Let this burning
Let this burning
Burning night

xxxx

paulo

a noite e o negrume, o silêncio e a sexta
poemas de sangue ao lua
uma beleza morta, a última dança morta
um beijo via smartphone
e os pensamentos se estupram
com inimaginável doçura
onde moram meus amores mortos?
virá um sábado, um novo dia
as crianças vão brincar sozinhas
e nem a noite triste há de voltar nvamente
e nem a vida triste vai negar um novamente
poemas exangues vão germinar
todos falando num mesmo desejo
que range, dança, brilha
mora ao longe e cativa
já que a distância não faz o lugar
acordamos e subitamente choramos:
distância é drama, dor e ausência

http://youtu.be/vrLiI9wv5oE

@pauloandel

Tuesday, September 30, 2014

corporativo s.a.

em qualquer horário de almoço num restaurante perto de uma grande corporação econômica, numa grande cidade, uma metrópole, você pode enxergar o mesmo do mesmo. as pessoas com trajes sempre parecidos, falando dos mesmos assuntos, os pratos cuidadosos para não se engordar ou desenvolver câncer ou alguma doença letal. todos com os olhos cravados diante das telas, seja a da televisão com os gols e façanha do maior time da ficção esportiva, sejam as dos smartphones cheios de ois, olás, teadoros e táfazendoquês. os crachás são todos iguais. olhares tensos, de cobiça, desejos. ou conversas masculinas ansiosas pela próxima micareta, pequenas orgias que serão grandes troféus dos campeonatos de nada. uma jovem loura, bonita e delicada destoa de quase tudo, exceto o maldito crachá que não dá carta de alforria. eu, estrangeiro de mim mesmo, olho tudo em volta, sinto-me perdido demais nessa cidade linda e neurótica. alguém deveria ter me mandando uma linda mensagem eletrônica mas prefiro não olhar à mesa porque gostaria de ler outras coisas, ter outras palavras, viver outros pequenos momentos interessantes. o prato chega ao fim. a fila é cheia de pessoas parecidas pelas roupas, tons, perfis. eu queria falar de criatividade, mas tudo é uma inutilidade que beira o enorme. a moça da caixa agradece a preferência. lentamente, os adultos contemporâneos iniciam o caminho que os levará às baias, ao networking e o admirável mundo eletrônico - frio e rude, demais. 

@pauloandel