Depois de horas numa confortável
sala branca quase fechada, refrigerada ao extremo e sem luz natural, então vejo
que chegou a hora do almoço.
À RUA, um calor enorme neste
verão enrustido de novembro e uma sensação de liberdade: uma hora para fazer o
que se quiser, embora nem haja grande variedade de opções assim; caminhar,
almoçar e voltar para a sala.
Na esquina da rua do Senado com a
Vinte de Abril, um jovem morador de rua em frente à lanchonete coreana,
carregando uma bola que deve resumir seus pertences, uma muleta, um pé calçado
com bota humilde e o outro, com um chinelo.
O grande muro vermelho do Quartel
Central do Corpo de Bombeiros faz pequena sombra. As pessoas caminham pela rua
interditada. Poucas.
Dois garotos pequenos, pretinhos,
apertam-se no estreito corredor para pedestres em frente à Igreja de Santo
Antônio: uma obra nova de tubulação, feita para reparar um problema de meio
século, estourou; interditaram a rua e não há indícios de que a recuperação será
fácil. Eis o motivo da interdição.
Uma garota bonita com seu crachá
da Petrobras passa com quase sorriso no canto da boca, talvez desejando ser
desejada, talvez querendo afirmar a obviedade de sua beleza e tudo tem pouco
sentido, uma vez que estamos na cidade com as garotas mais bonitas do mundo,
também desimportante se isso é apenas um ufanismo carioca.
Cem metros.
O restaurante chinês quase vazio,
algumas pessoas fazendo seus pratos na fila, fico agradecido por ter mais um
dia de comida, mas, ao mesmo tempo, observo atentamente todas as coisas
gostosas que não posso comer porque não tenho mais a saúde de um dia distante. Pego
o que dá.
Duas mulheres na faixa de seus
quarenta anos, riem, cochicham e especulam um programa noturno com amigos, uma
com possível aliança de casamento e a outra não.
A garçonete do restaurante, cujas
amigas chamam de “girafa”, geralmente demorada para atender, finalmente escuta
minhas preces e peço um Guaravita. Estou sentado sozinho, como quase sempre
faço, com enorme velocidade para comer e sei que isso é péssimo, apenas não
consigo mudar. Crachás por todos os lados. A televisão dando notícias de
futebol, melhores para alguns e reduzidas para outros.
Cumprimento educadamente as moças
da caixa, nem tão simpáticas, pago, recebo meu troco, o canhoto deve ser
entregue à moça simpática que fica na porta. Ela agradece e me deseja bom final
de semana.
O corredor na verdade é um
curralzinho que faz vaivém na rua dos Inválidos, volta na Igreja de Santo
Antônio – agora cheia por causa de uma missa – e retorna à rua do Senado, onde
carros e motos fazem a festa do estacionamento.
Um trabalhador do povo,
carregando duas caixas de refrigerante nos ombros, saúda e graceja a passagem
de uma mulher pelo caminho, mais por conta de seu short do que pelas formas
delicadas. Isso também pouco importa; na verdade, democratiza a cantada e não a
torna objeto apenas das ditas mais belas – e o que importa se é beleza o que
sentimos com os olhos, às vezes sem a visão, sempre sujeita a modificações com
o passar do tempo?
Uma menininha passa com sua mãe a
caminho da escola. Logo depois, um menininho é puxado pela mão: sua mãe também
o conduz. Por um instante, tenho uma saudade infinita da minha mãe e de quando
eu era um garoto em Copacabana caminhando com um biscoito de polvilho na mão,
agora, entristecido demais porque tudo isso não vai mais voltar, o futuro
inevitável (que espero distante) é a morte, nunca mais minha mãe me abraçará,
não terei como satisfação fundamental da vida ver um desenho animado ou ganhar
um pequeno carrinho. A isso tudo chamam evolução, crescimento, envelhecimento e
o sentido da vida parece algo incompreensível.
Na esquina com a Vinte de Abril,
a porta do velho puteiro está lacrada. Um casal homoafetivo apressadamente se
direciona para a porta do motel. O restaurante falido agora tem uma placa de “Aluga-se”.
O calor continua intenso e há um certo clima de feriado que, todos sabemos, não
existe.
Duzentos metros.
Entro na empresa, um ar gelado
fulminante no rosto, recomeça um expediente de mais quatro horas numa bela e
confortável sala branca, sem luz natural, sem conversas, sem contraditório,
números a tratar, contas a pagar.
Logo mais, tenho a missa de
sétimo dia da Dona Christina, um personagem fundamental da minha vida. Em sua
casa, ao lado de seu filho, meu amigo Luizinho, vivi boa parte da minha vida
entre jogos de botão, pizzas, piadas e um sentimento de que a vida seria
infinita, talvez a melhor das ilusões.
Eu e o velho amigo conversaremos à noite, riremos, falaremos de nossas dores e frustrações,
tentaremos procurar mais uma vez o que perdemos diariamente em algum momento - ou vários - ou todos.
O sentido da vida.
O sentido.
@pauloandel
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