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Wednesday, August 30, 2023

Fragmentos sobre Copacabana II

[Perto da meia noite de sexta-feira, jovens do bairro deixam o Edifício Pampeiro na Rua Toneleiro rumo às Casas da Banha, esquina de Siqueira Campos com Barata Ribeiro. Interromperam um campeonato de botão para comprar lanche - os jogos vão até às três da manhã. No tradicional supermercado 24 horas, compram pão, frios e refrigerante. Depois voltam, fazem sanduíches e se divertem a valer enquanto os craques redondos dominam o campo de compensado. 

[Perto da meia noite de sexta-feira, o Bar Sniff's está prestes a cerrar suas portas. Alguns boêmios ainda bebem o último copo de cerveja, tanto próceres locais como Fred, Paulinho Cana e Márcio Pô quanto celebridades como o jornalista Arthur Laranjeira, nome fundamental na produção de shows da Tropicália no Teatro Teresa Raquel, o "Teresão". 

[Perto da meia noite de sexta-feira, os últimos craques da pelota deixam a praia e encerram a jornada de futebol do dia. Tudo recomeça no dia seguinte porque o futebol é sagrado e não tem fim. Descem a Figueiredo Magalhães de ponta a ponta. Alguns entram na Siqueira e sobem Tabajaras. O morro e o asfalto sempre fazem tabelinhas na dupla de praia e no futevôlei de Copacabana. 

[Uma jovem mulher no esplendor de sua forma está deitada na cama, com a luz acima, vestindo apenas uma calcinha preta, tudo perto do Bairro Peixoto. A beleza de seu corpo nem sempre pode ser vista seis ou sete andares acima, mas um grupo de adolescentes se espreme na janela da sala para admirá-la ou, de longe, sonhar com a admiração. Desejar a juventude de sua pele alva e fresca, sua beleza diante do charme do mundo, seu futuro que tanto promete. Perto da força de uma jovem mulher, os jovens homens não passam de súditos indefesos. 

[Num outro boteco do Shopping dos Antiquários, o compositor Billy Blanco bate papo com outros frequentadores, alguns do estilo low profile. 

[De longe, um forte cheiro de éter denuncia a chegada de um dos maiores enigmas de Copacabana: Mister Éter, morador em situação de rua na esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro. Dono de um corpanzil de quase dois metros com 150 quilos, Mister Éter anda pelo bairro sem pedir esmolas, apenas cachaça pelos botequins. Talvez o segredo de sua longevidade numa vida tão sofrida esteja nisso mesmo: os botecos não lhe dão cachaça, mas sim doses de água. O sabor não importa: ele sempre traga e faz um ahhhhh de satisfeito com a purinha, que só existe em seu pensamento. 

@pauloandel

Tuesday, August 29, 2023

Fragmentos sobre Copacabana

[Não, provavelmente eu não escrevo sobre Copacabana como a maioria a vê. Não. Na verdade eu mergulho Copacabana em Gotham City, chacoalho e tempero com a minha Copacabana que já não existe mais: a dos apartamentos. Basicamente dois: o do Fred e do Luizinho. Mais recentemente o da Katia. E a Copacabana dos apartamentos não é solar feito a praia, pelo contrário: pode ser dark e elegante, soturna mas charmosa. 

[A minha Copacabana também era triste e violenta, mas plural também. Tive uma vida de dias difíceis, mas nada comparado com 80 ou 90% das pessoas. Minha tristeza tinha a ver com a pobreza e a doença do meu pai, mas não foram grandes dramas embora incômodos. Isso não me impediu de lanchar bem, passear, praticar esportes, sair à noite (não era um esporte predileto), ver bons filmes, ter garotas bonitas por perto. Nunca tive ambições financeiras, então o essencial já me bastava. 

[Você mistura Copacabana com Gotham City quando tira o céu azul celeste e põe o gris. Mais sombra, mais nuvens, menos gente na rua, menos carros buzinando. A noite cai mais fria, as belas e deliciosas garotas das boates estão com os sorrisos cheios de cocaína para aguentar o tranco - as travestis também, na outra ponta do bairro. 

[Uma das cenas mais humilhantes que vi em Copacabana foi há quarenta anos. Eu era escoteiro e passávamos os sábados na sede do grupo, cedida pela Paróquia de Santa Cruz. As reuniões acabavam às cinco e meia da tarde. Depois disso, às vezes havia alguma quermesse por perto, alguma cabeleireira ou manicure prestava serviços a preços populares. Havia uma moça jovem negra que tinha uma limitação física nas pernas. Sem uma cadeira de rodas, ela andava pela região de quatro, com joelheiras servindo de sapatos e se apoiando com as mãos. Era uma cena terrível e ainda me pergunto como havia tanta gente na igreja e ninguém lhe conseguiu uma cadeira. Eu me sentia muito triste mas não tinha como ajudar. Passado tanto tempo, eu agora entendo como quase todos podem ver o sofrimento alheio com total indiferença: geralmente eles se escoram no nome de Deus. Involuntariamente ele se torna o escudo dos hipócritas. As senhoras ricas da igreja jamais olhavam para baixo: podiam correr o risco de enxergar a menina se arrastando pelo chão. Era a crueldade em carne viva. 

[Na casa de Fred ouvíamos discos, jogávamos cartas, conversávamos e deixávamos o tempo escorrer. Foram duas incríveis. As garotas eram lindas, havia um som da pesada e de doçura da adolescência e sua prorrogação. Tínhamos fé no futuro. Havia muito a ser feito. 

@pauloandel

Saturday, August 26, 2023

O silêncio do hall

Meu caminho é inesperado. Já disse outras vezes que me tornei Fluminense por causa do nome, da palavra,  ao contrário de muitos que se encantaram pelo escudo e pelas cores. Sempre preferi os dias nublados do mar de Copacabana - e muitas vezes ansiei pelo gris, a chuva, a silenciosa porta do Atlântico Sul repleta de silêncios e reflexões. Quando todo mundo foi estudar Direito, Engenharia, Economia ou Informática eu escolhi Estatística, que ninguém sabia o que era e até hoje a maioria não tem a menor ideia - gente diplomada mas severamente ignorante acredita ser chute, teu Deus!

Eu gostava de ficar no hall da faculdade. Muitas vezes e muitas vezes, desde o meu primeiro dia de matrícula, quando fiquei em silêncio aguardando minha vezÁ na primeira matrícula numa tarde nublada e de pouca luz. Foi um exercício que se repetiu muitas vezes. Sem falsa modéstia, meu carisma reuniu dezenas de pessoas naquele lugar muitas e muitas vezes, de onde saíram amizades, casamentos, separações, sociedades, traições, desentendimentos, lágrimas, abraços, beijos, gritos de gol e, porque não dizer, livros. Livros. Lembrei As garotas me adoravam também porque eu era muito divertido e criativo - as mulheres adoram isso - e, onde há garotas, há sujeitos pelos mais variados motivos. Meus amigos bichas também me adoravam - adoram até hoje e isso é recíproco - e posso chamá-los de bichas à vontade porque assim eles querem - não somente pelo meu carisma mas também porque sempre os tratei com respeito e dignidade num ambiente arriscado a machismo e homofobia. Enfim, fiz muitos colegas e a maioria se perdeu, mas ainda tenho alguns para recontar as histórias.

Era um outro tempo muito difícil de minha vida, então era bom ter os colegas em volta por algumas horas. Eu precisava de convívio humano ali e foi muito bom, mas em muitas ocasiões ficava sozinho com meu caderno e prancheta laranja de acrílico. Espiava o ir e vir das gentes, as garotas, os funcionários, os desconhecidos subindo e descendo as rampas, gente indo e vindo como se estivessem participando de um grande filme cheio de cenas, a começar pelo primeiro dia em que cheguei ali, sonhando em estudar, conseguir um emprego e sair da miséria, ter uma casinha. Às vezes ficava uma hora em silêncio até que surgisse alguém, às vezes mais. Um silêncio tão poderoso e pacífico quanto o que vivo neste momento, numa manhã de sábado chuvosa no coração do Rio de Janeiro, sem lenço e sem documento, enquanto alguém que me desconhece poderá entender exatamente o contrário do que eu quis escrever aqui.

Nem tudo é reflexão e seriedade. Há também o jocoso e o ridículo, também recíproco e capaz de também fazer pensar. Nós, calouros, respeitávamos os veteranos. Eles pareciam respeitáveis, mesmo vestidos com ternos duvidosos. Certa vez era bem cedo e um deles foi ao banheiro ao lado do hall silencioso. Não saiu. Algum tempo depois, precisei também por causa do pipi. Entrando, fui ao primeiro box. Do segundo, saíam urros e gemidos sugerindo um orgasmo. Tive vontade de rir, eu tinha vinte anos. O sexo abobalha. Contudo, o fedor do banheiro não sugeria tesão nem a presença de um casal ali. Saí, lavei minhas mãos e voltei para o hall deserto, em dia tão nublado como hoje. Meia hora depois, chegou o Bolinha. Subitamente o veterano saiu do banheiro de maneira impecável, sem acompanhante rumo à sala de aula. Contei o ocorrido e nós dois rimos a valer. Parecia orgasmo, mas era só dor de barriga.

Monday, August 21, 2023

Tchau, Raul

Naquele tempo eu tinha uns três períodos na faculdade, que escorreram como se fosse água na pia. Vivia encantado pelo prédio, pelas programações culturais - shows de rock e jazz, filmes de arte na concha acústica -, pelas garotas - todas lindas, cada uma de um jeito. Enfim, eu era o garoto pobre que conseguiu passar para a universidade pública em condições precaríssimas. Quando não estava na casa do Fred ou jogando botão no Luizinho, a UERJ era minha casa. 

Passei um dia inteiro por lá. Assisti aulas de manhã, levei Alessandra no ponto do ônibus, depois fui almoçar num restaurante natural que ficava lá na Souza Franco - a comida era deliciosa, barata e você podia repetir. Alguém da turma foi comigo, Gerson talvez, Alexandre, alguém mais. Voltei pra faculdade, eram quase três da tarde, melhor ficar e economizar a passagem de ônibus. 

Sentado no hall, fiquei lendo alguma coisa de Kerouac mas não mostrei pra ninguém. Eu era garoto, ali era um ambiente careta, a maioria não ia entender. Depois parei, a turma começou a falar de futebol e depois de música. Eram verdadeiras aulas, às vezes mais interessantes do que as da sala. 

Rapidinho bateu seis da noite. E choveu. Fez frio. Muita gente não apareceu, o corredor ficou vazio e triste, não havia risos nem musas. Assisti os dois primeiros tempos e depois avisaram que não ia ter a outra aula. Eu evitava de chegar em casa muito cedo, porque era uma época muito difícil de alcoolismo do meu pai, então tudo era briga, eu evitava ao máximo. 

Do nada, surgiu o Zé. Ele atrasadão, nem sabia que não teria outra aula, já se preparava para voltar pra casa. Eu não tinha mais nenhuma programação, resolvi descer. Voltar pra Copacabana, fazer hora no Sniff's e chegar em casa com os pais dormindo. Do nada, resolvemos parar no Bar do DCE, completamente vazio, e pedimos uma cerveja - lá vendia. Conversar um pouco e aliviar as dores da juventude sem emprego, sem dinheiro, chamado de vagabundo, sonhando em ter uma calculadora. 

Eu, Zé, o atendente do bar, o ventinho na varanda e tocando Rádio Fluminense - você tem ideia? Trocamos ideias, deu para gastar exatamente uma garrafa de cerveja. De repente, um rock depois do outro, entra uma faixa de Raul Seixas e o Zé vibra, porque era muito fã. O som baixa e a locução anuncia a morte de Raul Seixas. 

Em silêncio, pedimos a segunda cerveja. O Zé ficou transtornado. Eu, mesmo não sendo fã apaixonado mas ligado no trabalho do ômi, de repente senti um enorme, enorme vazio. Bebemos a cerveja em completo silêncio, com o Zé às vezes cortando a mudez: "Car@lh0, morreu Raul Seixas". A gente sabia que ele andava doente, mas ainda era muito novo. Muito.

Tudo era silêncio. Nossa descida para a portaria, o pedido de carona na entrada da UERJ - acredite: isso existia! -, nossa despedida. Meu amigo ficou triste paca. Eu consegui um bonde para Copacabana e, chegando ao meu bar oficial, lá estavam as pessoas chorando. Raul Seixas morreu. 

Engraçado que hoje achei a noite mais silenciosa e apavorante do que de costume. Há pouco, soube do aniversário da morte do Raul. Voltei exatamente naquele dia e senti exatamente a mesma tristeza, aquela não de um fã apaixonado mas modesto, certo de naquela noite fria do DCE, havia um gosto de derrota do Brasil numa Copa do Mundo, com a diferença que no futebol sempre é possível sair da adversidade para a glória. 

Uma tremenda saudade do Zé e da nossa juventude. Em 1989 eu ainda achava que o ser humano era viável. Toca Raul! 

@pauloandel

Saturday, August 19, 2023

Três botequins mortos

Entre dezembro de 1983 e agosto de 1990, se passaram mais de dois mil dias. Em 90% deles eu dediquei pelo menos uma hora diária ao Sniff's, o mitológico botequim que ficava aos pés da escada rolante que levava ao Teatro Teresa Raquel, o Teresão, um dos símbolos da cultura nacional, hoje Teatro Claro. Foi uma fase muito importante da minha vida, dos 15 aos 22 anos, onde pude aprender muita coisa com os veteranos da área, rir de montão, chorar um pouco e infelizmente até brigar. Faz parte da vida. O mais incrível é que fui um frequentador de botequim praticamente sem consumir álcool: ficava na Coca-Cola e no suco de morango ao leite. Anos depois, incentivado por minha amiga Ana Elisa, acabei escrevendo um pocket book sobre o Sniff's, um dos que mais gostei de fazer. O boteco resistiu a planos econômicos, golpes de estado, inflação galopante, desemprego e o escambau, mas perdeu a batalha para o COVID-19. Vida que segue. 

Eu vivia no Sniff's porque meus amigos escoteiros - sim! - lá estavam diariamente. Depois, os maravilhosos personagens do bar eram uma atração à parte. Por fim, apareciam as celebridades artísticas e culturais por conta do Teresa Raquel, então estava formado o grande caldo cultural para boas conversas, muitas hilariantes e outras que chegavam à beira da porrada. Era nosso bar oficial. Não tinha nenhum atrativo que cativasse o público além da birita e do bom papo. Comer por lá, nem pensar. 

No circuito do Shopping dos Antiquários, que não tinha esse nome nos anos 1980, o Sniff's teve dois concorrentes por longo tempo, melhor dizendo, um - o outro durou menos. Eram o Bole-Bole e o Abílio, que tinha outro nome mas só o chamávamos pelo nome do dono, gente boa. O Abílio durou anos e anos, o Bole-Bole acabou nos anos 1980 mesmo. Ambos eram nossos points ocasionais, às vezes para prestigiar os outros comerciante, noutras vezes em greve contra o Sniff's por algum motivo que nunca passava de dois dias. 

O Abílio ficava de um lado da grande e maravilhosa rampa circular do Shopping, bem em frente aos Supermercados Leão (onde tomávamos Ice Cream Soda nos sábados à tarde). Era um boteco simpático e nele os clientes comiam, ao contrário do Sniff's. Estava sempre cheio. Já o Bole-Bole ficava do outro lado, no outro corredor e estava sempre vazio. Era um refúgio de bebuns. Quem o comandava era Marieta, algo incomum para uma mulher naqueles tempos, onde volta e meia recebia alguma cantada dos fregueses. Quando o cidadão passava do ponto, ela dizia barbaridades sexuais que deixavam todo mundo sem graça e o assunto morria. 

O Bole-Bole era famoso por seus acepipes trash e uma pimenta que assustava todo mundo, mas devia ajudar a encarar os pratos. Em certa ocasião, nossos amigos João e Jésus fizeram uma aposta: o primeiro pagaria uma grana se o segundo encarasse uma almôndega do bar com uma pimenta quadrada aterrorizante. De olho na bufunfa, Jésus pegou o pratinho com duas almôndegas estilo semana passada. Abriu o garrafão, tacou a pimenta e mordeu. Ficou impassível, mas não conseguiu esconder as lágrimas quando mordeu a pimenta. João só ria. 

(continua)


Monday, August 14, 2023

Canção dos escroques, 2015 (remix)

No fim das contas, quem é o grande vitorioso? Você, que acumulou dinheiro e poder mentindo, trapaceando e humilhando os outros, hum? E você, cuja palavra e compromisso simplesmente não existem? 

Você, que vive de páginas bonitinhas e trechos bíblicos, mas faz as piores coisas com o próximo? E você, que deixa o mundo desabar porque não quer se envolver? Fala tanto em Deus e não desconfia de que ele está observando? 

Você, cuja ignorância suprema te faz acreditar ser melhor do que os outros, mesmo quando não existe uma vírgula disso? Gênio que, na verdade, não passa de besta metida a besta, com bacharelado em ciências curtas e apagadas, cuja capacidade não prevalece sequer numa linha de transmissão do WhatsApp? Comece tua semana debaixo de risos, patético. 

Você acha sinceramente que engana alguém? 

Você acha que ninguém fala sobre o teu mau caratismo comprovado? Que não sabem da tua falsidade? 

E você, cuja ingratidão se espalha numa calçada feito vômito? Acha que ninguém repara? Não se iluda, muita gente repara...

Sim, talvez você seja o grande vitorioso, mas numa única condição: a de ser o maior de todos os filh@sd@sput@s, ruim de verdade mesmo, disbólico no sentido ruim da expressão, o chorume da espécie. Porque, se não for, a tua consciência um dia irá te roer feito câncer, e esse não tem tratamento nem cura. 

Vai te doer dia após dia, te arder e te cortar dolorosamente. 

Quando menos esperar, você vai parar, pensar e chorar porque fazer o mal é espatifar cristal, e ele não se cola jamais.

A filh@d@put1ce é um ofício para muito poucos. Os canalhas de verdade, os que realmente desprezam a vida alheia, os que riem da desgraça dos outros. Se a tua  má fé não chega a esse ponto, tenta certeza: a tua ruindade vai te doer até os ossos, literalmente. 

Se você não tem especialização na escrotid@o, tenha muito cuidado: o ódio que você emitiu será o mesmo que vai te engolir...

Sunday, August 13, 2023

Madonna, 65 anos

(originalmente publicado em 16/08/2022)


Ela mexeu com o imaginário popular mundial, transitou entre gêneros musicais, desafiou definições e, aos recém-completados 65 anos de idade, ainda dá as cartas na cultura pop da Terra, com o handicap de ser a artista que mais vendeu álbuns em toda a história, indo muito além da lourinha sexy e provocante do começo dos anos 1980. Madonna Louise Ciccone é o nome. 

Há quarenta anos, a música pop estava no auge da massificação mundial. Ao mesmo tempo que produzia novos artistas, também os descartava. Alguns atravessavam temporadas, outros eram verão de uma só andorinha, muito poucos tinham a força descomunal de Michael Jackson, mas o fato é que Madonna chegou lá.

A estrela pop explodiu com seu álbum "Like a virgin", de capa deliciosamente sexy, e nunca mais parou. Poucos anos depois, arrumava enorme problema com a comunidade católica por retratar um Cristo negro em "Express Yourself", mas a grande polêmica mundial seria potencializada com seu mergulho artístico no sexo, especialmente a partir do videoclip de "Justify my love", proibido nos EUA e em outros países pela volúpia erótica. Suas turnês se tornaram gigantescas e, num mundo ainda corrompido por preconceito e ignorância, Madonna ganhou a benção e o prestígio mundial da comunidade LGBTQIA+, lotando seus shows em qualquer lugar.

Entre o começo da década de 1980 e meados de 1990, Madonna dominou rádios e TVs como nenhuma outra mulher na música. Durante um curto espaço de tempo, perto do fim do século XXI, mesmo consagrada, a estrela dava a falsa impressão de perda do estrelato. Ledo engano: bastaram "Ray of Light", "Music" e a espetacular "Beautiful Stranger" (integrante da trilha sonora do filme "Austin Powers") para que Madonna seguisse na crista da onda mundial. A seguir, ainda mais ligada em novas tendências, seu som passou a incorporar cada vez mais a tendência da música eletrônica, trazendo novos fãs e ampliando caminhos. Desde então, tem causado furor a cada nova turnê mundial. 

Todas as cantoras pop que surgiram a partir de Madonna prestam-lhe natural reverência, e nem há como ser diferente: ela é o ideal de sucesso e pluralidade, o mito, o sinônimo de consagração. É difícil imaginar que qualquer uma delas chegará também aos 64 anos com o mesmo tamanho da blondie girl, mas lutar é sempre preciso. E, por mais que todas tenham reconhecido sucesso mundial, nenhuma delas ameaçou o reinado de Madonna, que também alcançou as telas do cinema e as estantes das livrarias. 

Desafiadora, provocante, ousada, libertária, inovadora, Madonna chega onde nenhuma diva pop chegou. Tendo vendido mais de 300 milhões de discos em todo o mundo, ela é a artista feminina mais bem sucedida de todos os tempos segundo o Guiness Book. Com faturamento superior a 1,5 bilhão de dólares com ingressos para seus shows, ela continua sendo a artista solo de maior bilheteria em turnês de todos os tempos. Seus números astronômicos fazem jus ao seu tamanho artístico. E, ao que tudo indica, a multiartista ainda tem muita lenha para queimar. 


Monday, August 07, 2023

Copacabana 03:27 AM

Pessoas famintas e naturalmente chorosas, deitadas por esgotamento perto da igreja na Praça dos Paraíbas, bem perto do cadáver da Miami Peep Show.

Jovens sem futuro fumando crack na porta de agências bancárias nas imediações da Praça do Lido, sonhando com uma recuperação impossível. 

Dois amigos gays atravessam a imensa calçada do lado direito da Barata Ribeiro, que vai da Belford Roxo até o famoso Edifício Richard, ex-200, atual 194 - e Fausto Fawcett deve estar acordado escrevendo sua literatura high tech down by law. 

Na elegante rua Toneleiro, com suas múltiplas grafias, os prédios de garbo têm quase todas as suas janelas com luzes apagadas, enquanto uma moto passa no asfalto a 172 quilômetros por hora.

Alguém sente saudades da maravilhosa Sorveteria Bolonha, que viveu por cinquenta anos na esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro, mas não resistiu à pandemia. 

Bons espíritos podem se lembrar da Casa Gaio Marti, do Mercadinho Azul, do Metro Copacabana com seu ar condicionado potentíssimo e de tantos cinemas maravilhosos do bairro - somente o Joia resiste. Uma inimaginável Copacabana sem cinemas. 

De São Paulo, o espanhol Antonio Carlos Gonzalez ri das grandes noites do bairro nos anos 1980, repletas de garotas e loucuras.  

Bem mais de perto, há o cineasta e poeta Luiz Carlos Lacerda, que cortava o bairro com sua jovem e linda amiga Leila Diniz, culminando no Beco da Fome na madrugada. 

Algum saudosista esfomeado e com dinheiro deseja a volta do Gordon, a mitológica lanchonete que ficava aberta até às seis da manhã e tinha crepes, mate  e hambúrgueres maravilhosos. Alguém vai se lembrar do atendente Misaque? 

[meu coração é uma lágrima. paro um tempo, vou à geladeira, trago um copo com água gasosa. 

Temendo o despejo de sua quitinete, um garoto bonito e solitário chora num banco de concreto da praia de Copacabana, enquanto espia o mistério fúnebre do mar à madrugada - em 1993. 

Algumas garotas de programa ficam de sentinelas do sexo na avenida Atlântica perto do Posto Quatro. Mais adiante, fica o esplendor das travestis na Souza Lima, que Cler tanto admira. 

Numa conversa risonha do botequim na Aires Saldanha, alguém defende o fim da muralha da Praça Sarah Kubistchek. 

Os carros, esses invencíveis namorados do asfalto de Copacabana, vão e vem, cortando a velha Gotham City brasileira que já não tem vestígios do Sacha's, do Vogue e até da Fiorentina. 

Sempre tem alguém nos pontos de ônibus deixando o bairro que nunca dorme, a caminho da Central do Brasil, Nova Iguaçu ou Caxias. Quem sabe Vila da Penha? 

Nenhum vestígio de famosos moradores em situação de rua que marcaram época, tais como Baiano, Mister Éter e Ramiro, mas também não há de celebridades como Cat Stevens, Mick Jagger e Bob Dylan. Nem do grande aniversariante Caetano Veloso. 

Ivan Lessa, inesquecível cronista, sempre recordou o valão da praia em frente à Constante Ramos, com uma grande faixa de areia preta por causa do esgoto. 

Alguns poucos clientes nos quiosques da praia, compreensível por conta do medo da violência. 

Impávida, a estátua de Carlson Gracie senta praça bem perto do metrô da Siqueira Campos, leia-se acesso pela Figueiredo Magalhães, a metros do Shopping dos Antiquários e do Solar da Família Couceiro.

Quase nenhum jovem da região sabe dizer sobre o atentado no Edifício Albervania, melhor dizendo, o atentado contra Carlos Lacerda que levou ao suicídio de Getúlio Vargas em 1954. 

Daqui a pouco é um novo dia.

@pauloandel

A crônica não morrerá

Publicado por aí, um pretenso intelectual com infinitamente mais likes e dinheiro do que eu decretou: a crônica morrerá. E todo pretenso intelectual com muitos likes e dinheiro é louvado por sua corte a qualquer manifestação, mesmo que ela se pareça por exemplo com um flato. 

Para o dito cujo, não há mais tempo a se perder com o gênero essencialmente brasileiro. 

Há muito tempo, li e ouvi sobre o fim do rádio. Depois, o fim do jornal, das revistas, dos livros, agora da crônica e também da televisão. Ok, o mundo muda muito, mas não a ponto de desintegrar certas coisas. 

Comecei a escrever para mim mesmo, há 40 anos. Ninguém leu, eu tinha vergonha do que escrevia e joguei tudo fora. Assim fiquei até 1993, com 25 anos, quando passei a colaborar com o jornal da faculdade e recebi elogios de colegas que hoje nem sabem da minha existência - ou seja, as palavras foram sinceras. Poucos anos depois, um escritor premiado internacionalmente me convidou para colaborar em sua revista. Comemorei como se tivesse feito um gol no Maracanã e nunca enviei nada, por vergonha. Essa tolice me custou uma década até ser finalmente publicado em 2010 e, sete anos depois, também fora do futebol. 

Publiquei alguns livros lidos por milhares de pessoas e outros que ninguém leu. Continuei pobre. Tenho uma vida de sofrimentos. Contudo, escrever é meu oxigênio. Por isso, meu nome está na autoria e coautoria de mais de 40 livros. Gosto de todos, especialmente os menos lidos. Semanalmente escrevo em blogs, sites e num jornal de grande circulação no Rio. 

Por que eu deveria parar de escrever, fazendo o que sei? Por que eu mesmo deveria sabotar uma das únicas alegrias da minha vida?

Escrevo, não obrigo ninguém a ler. É uma experiência voluntária de quem se interessa pelo meu trabalho. Tirando alguns livros, as pessoas leem meus escritos gratuitamente. Hoje, mais do que meu prazer, é praticamente uma tentativa de sobrevivência nesse mundo injusto, cruel e opressor. 

A internet é um dos grandes inventos da história. Graças a ela, muitos escritores puderam ser descobertos e lidos, pessoas se aproximaram e interagiram, tanta coisa boa aconteceu, não há o menor sentido em se acreditar no fim da crônica. Ela viverá, porque conta as pequenas histórias de tudo que vivemos, mesmo quando já não estivermos mais aqui. 

Simples ou profunda, divertida ou pesada, apaixonada ou fria, esperançosa ou cética, a crônica veio para ficar. Pode não chegar mais a milhões ou centenas de milhares, mas terá o que dizer mesmo que para um só leitor. É o que basta.

@pauloandel

Sunday, August 06, 2023

A grande rampa

Para quem vai ao Maracanã há muito tempo, é certo que muita coisa mudou. O velho estádio setorizado virou uma arena, mas também segmentada e pior, gradeada. Não há vestígios da velha geral, nem do glorioso setor de cadeiras azuis, que já tiveram a cor laranja também.

Sábado passado, para aliviar um pouco das dores da vida, fui assistir Fluminense e Palmeiras. Comprei o ingresso em cima da hora no único local disponível, Leste Superior, que antigamente chamávamos de meio de campo e, mais tarde, de cadeiras brancas. Resolvi fazer um caminho diferente, de muitos anos atrás: saltei no metrô São Cristóvão, indo a pé pelo Cefet e rememorando caminhadas fascinantes com meu pai rumo ao palácio do futebol. Mais policiado do que eu esperava, com pequenos grupos de tricolores rumando para o Maraca, eu fui junto. 

Uma saudade: parar bem na esquina e lembrar da antiga bilheteria, onde comprávamos nossos ingressos em 1978 e 1979, também onde garotinhos pediam moedas. Várias vezes meu pai comprou três, quatro ou cinco ingressos e deu para eles, que saíam enlouquecidos para entrar no Maior do Mundo e viver duas horas de sonho. Saudade que ia se repetir mais duas vezes: primeiro, ao lembrar que na entrada da Leste vi Alberto Lazzaroni pela última vez, há uns dois meses, e ele queria doar um ingresso sobressalente. Nos anos 1970 mil garotinhos viriam correndo, mas não conseguimos ninguém. E Alberto foi embora muito antes do justo e razoável. Segundo, bem perto do encontro de Alberto, fica um degrau da escadinha onde eu sentava com meu pai, às vezes uma hora antes dos portões abrirem - ele adorava chegar cedo. Tempos em que o Maracanã era cercado por bancos de praça e vendedores de laranja, a fruta mesmo, mais cara quando descascada. 

Ir de Leste Superior, assim como na Oeste, dá direito a uma experiência maravilhosa: subir a rampa original do Maracanã, a imortal, que serve aos torcedores há 73 anos. Dela, eu já aproveitei quase 50. Subo lentamente com meu chinelinho velho e sinto vontade de chorar muitas vezes, porque todos aqueles anos incríveis vêm à tona: a emoção de rever a infância, a sensação de ter meu pai ao lado, espiar às torcidas organizadas vendendo seus produtos nas pilastras, aqueles garotinhos da bilheteria subindo e rindo tão felizes mesmo com roupas rasgadas ou descalços, os senhores carregando suas almofadinhas para aliviar o calor na arquibancada. Subidas com esperança em vitórias maravilhosas que nem sempre vieram, a seguir descidas de cabeça quente ou repletas de vitória. 

Dois minutos de subida que valem uma vida. Agora estou sozinho, ninguém me acompanha e o novo Maracanã tem uma pequena rampa anexa para continuar o percurso até a entrada do setor. Para quem viveu muito o Maracanã, um jogo não é só um jogo: há toda uma carga do passado maravilhoso. Então compro meu velho cachorro quente, um mate, vou para a arquibancada e repito um ritual de muitos e muitos anos: olhar para o novo e rever os anos inesquecíveis de minha vida. 

O jogo é duro, meu amigo Edgard não pôde vir, o Luciano chegou atrasado e vimos o Fluminense vencer bem. Teve gol de pênalti e gol bonito. Ver o Marcelo tocando a bola e driblando relembra momentos espetaculares do nosso futebol, que eram muito comuns. Tudo é diferente, sem dúvidas, mas tem sabor. Difícil foi ver o Alberto no obituário do telão, é estranho demais porque ele era cheio de vida e, num estalar de dedos, tudo mudou. 

Fim de jogo, a torcida do Fluzão sai feliz e confiante, então descemos a rampa e me sinto em berço esplêndido como em nenhum outro lugar. Há mais de 70 anos, quanta gente desceu ali? Quantas vezes houve alegria ou tristeza. Quantas vezes não saímos inebriados com um golaço ou uma jogada inesquecível? Fui feliz ali muitas vezes, mesmo nos piores momentos. 

Logo depois do portão, me despeço do Luciano e, à esquerda, está o nosso degrauzinho, meu e do meu pai. É a lembrança, é o que me resta. Tal como na ida, faço a volta diferente e vou a pé para o metrô de São Cristóvão, depois salto no Catete, peço um lanche no Big Néctar e lamento muito que meu amigo Eric não esteja lá para me acompanhar num sanduíche. Ainda vou pegar um táxi para casa. Na terça que vem eu vou de Norte, então não vai ter a emoção da grande rampa, mas espero que se repita em muito breve. 

@pauloandel 


O trovador anônimo

O Sr. Robert, 70, desceu à rua. Veio ao Rio de Janeiro por motivos profissionais, mas já conhecia a cidade de outros tempos.

Num domingo nem frio, nem quente, com nuvens em Copacabana, ele caminhou vestindo um casaco talvez jeans, uma touca e óculos escuros. Noutros lugares, talvez a indumentária chamasse a atenção, mas não no bairro da praia mais famosa do mundo, onde andar vestido com um uniforme de super-herói ou com uma fantasia de viking não causa qualquer espécie - desde os anos 1940, alguns moradores da região faziam coisas bem piores (ou melhores, dependendo do ponto de vista).

Passando pela Rua Ronald de Carvalho, avistando a Praça do Lido, depois engatando na Belford Roxo (onde já não se encontra a famosa discoteca Pussy Cat, com deliciosas garotas de lingerie, se muito) e espiando o mar na Avenida Atlântica, para depois voltar pela Prado Júnior (a menor avenida do mundo, berço dos prazeres mundanos do bairro) e encontrar a Barata Ribeiro (passando em frente ao Cervantes, o mitológico bar de sanduíches e chopes imortais, frequentado pelo poeta Fausto Fawcett, o Jack Kerouac de Copacabana - já o Jack Kerouac original é um dos ídolos do flâneur em questão), o Sr. Robert andou com as mãos no bolso, discretamente, e não trocou uma só palavra com qualquer pedestre, o que não lhe era estranho - ao trabalhar em outras cidades do exterior, muitas vezes foi às ruas para bater perna e espionar um pouco dos mundos humanos. 

Ninguém o estranhou, pediu-lhe alguma informação ou perguntou-lhe as horas. 

Caminhou por uma hora aproximadamente até voltar aos seus aposentos, de onde só sairia à noite para a lida profissional. Experimentou a música urbana das ruas de Copacabana. 

Durante o percurso, espiou revistas numa banca de jornal e achou graça numa manchete musical pendurada. Admirou duas lindas mulheres, uma delas muito parecida com sua musa Alicia Keys. Riu de um garotinho que corria atrás de um balão. E estranhou que os carros ultrapassassem o sinal vermelho numa boa. 

Conforme o esperado, à noite ele desceu novamente, agora para a labuta. Uma van o esperava à portaria. Foi para o seu ofício de muitos anos, onde foi efusivamente recebido pela sua clientela e retornou já de madrugada, apenas para dormir e preparar uma nova viagem a serviço, prática que já exerce há tempos e tempos. Sua caminhada pelas ruas de Copacabana teve um sabor especial: em muitas viagens, ele não tem a oportunidade de caminhar nas ruas, seja pelo tempo escasso ou por outras questões. 

Na manhã de segunda-feira, já estava sentando praça no Aeroporto Tom Jobim, pronto para mais uma jornada de trabalho em algum lugar dos mistérios do mundo.

Dias depois, foi revelado que um único cidadão teve a curiosidade de registrar a caminhada breve, anônima e solitária do Sr. Robert pelas ruas dark side de Copacabana. Ele o fotografou em close, mas ninguém tinha entendido nada nem prestou atenção - o bairro que nunca dorme tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. As fotos foram parar em jornais e revistas imediatamente. 

Nem todo mundo sabe que o Sr. Robert é na verdade o maior artista estadunidense vivo em qualquer área, atendendo em suas rodas de trabalho - há mais de meio século – pela alcunha de Bob Dylan, o bardo imortal. 

[os tempos mudaram, rapazes!]


(Publicado originalmente em "Os trechos dos livros que ainda não foram escritos", Vilarejo Metaeditora, 2018)

Friday, August 04, 2023

Do Aterro ao Caravelle

I


Pedi o carro e, minutos depois, estava no Aterro. Às vezes a gente se esquece de como aquele caminho é bonito. Você descer direto até o Túnel do Pasmado e depois o novo, seguir até a praia e espiar os mistérios do Atlântico Sul. 


Burle Marx queria o Aterro inteiro sem luz elétrica. Achava que o parque ficava mais romântico. Não dava, ainda mais hoje, mas as luzes em nada atrapalham a beleza do parque, colada à geografia descomunal do Pão de Açúcar. 


Como é bonito. 


É o Rio de Janeiro que todos os cariocas merecem. 


Dura uns sete minutos de carro até o túnel, mas que valem um mês. 


Já estou com saudades.


II


Se o Aterro é bonito, Copacabana instiga. Eu era criança e, quando passava do terreno onde seria o Rio Sul, brincava de pensar que o túnel do tempo me levaria para outra época, até desembocar na Princesa Isabel. Hoje em dia, velho de doer, ainda tenho a mesma sensação. Talvez porque no fundo, bem no fundo, em certas coisas a gente nunca deixa de ser criança. 


Eu deveria estar desesperado, lutando contra uma ânsia justificada pelo suicídio, mas basta olhar para a esquerda do carro e tudo passa por alguns instantes, de forma alucinógena. É o mar, é o Atlântico Sul espumando na boca de Copacabana. Entorpecido pela vista, aproveito os pouquíssimos minutos para namorar minha terra natal. As areias desertas são mistério, as traves já testemunharam craques e craques, assim como as redes de vôlei e futevôlei. Senhor! Onde foram parar minhas musas maravilhosas, as crushs de hoje em dia, as garotas lindas que nos faziam suspirar? 


Força e Saúde, Racing, Juventus, Bairro. Tudo é vivo demais depois de quarenta longos anos. 


O motorista é gente boa. Faço logo o pix da corrida para não atrasá-lo. Ok, eu sei que há muita tristeza e miséria nas ruas de Copacabana, talvez como nunca antes, mas hoje eu vou dar uma única chance à minha pequena alegria.


Então vejo direitinho os falecidos caminhando na calçada ou atravessando a Atlântica, ou ainda jogando altinho. Muitas gente boa se foi. Eu fiquei para chorar, mas é um consolo rever a praia onde nasci e vivi. 


III


Domingos Ferreira é a rua do Edifício Master, consagrado no documentário de Eduardo Coutinho. E também dos galetos, do Sesc, do falecido primeiro Bob's, do Istambul e, claro, do Caravelle (é a pizzaria mas nos acostumamos com o artigo definido masculino). 


Meus amigos estão lá. Talvez sejam os últimos, os únicos, não sei dizer. Só sei que vamos rir a valer com besteiras e incorreções políticas nas próximas três horas. Já estão Cler e Raul, Gomez vai atrasar como sempre, Luiz dará uma passada por conta de intempéries.


São coisas simples. Pizza napolitana incomparável, Malzbier, chope, depois uma lasanha dividida por quatro. Gomez chega atrasadíssimo (como nos últimos 40 anos), Luiz aparece, a gente fala, fala, fala e ri. Só besteiradas, que não repetimos com mais ninguém. O Xuru não veio porque foi embora há muito tempo, mas a gente se recusa a vê-lo como morto - é como se ele pudesse descer a qualquer maneira do prédio ao lado e viesse dar uma risadinha. Doce ilusão, doce. 


Rio tanto que esqueço dos pensamentos suicidas. A gente devia se ver mais vezes, porque tudo passa rápido e daqui a algum tempo - que espero estar longe - vai faltar mais alguém na mesa, porque assim é a vida. Temos liga de longa data, vem dos anos 1980. Rir é o melhor remédio, o melhor entorpecente. Fracassei em quase tudo, mas numa eu acertei em cheio: ajudei a juntar uns caras que parecem andar juntos para sempre, se sempre houver.

Monday, July 31, 2023

De julho para agosto

Cai a tarde e a cidade namora seu próprio silêncio. É o fim de julho e quase todos estão duros, exceto a minoria de sempre. Logo, há menos carros deslizando, menos gente caminhando e, se você tiver mínima atenção, basta olhar pra cima e há um monte de cartazes "vende-se" e "aluga-se", ao mesmo tempo que muita gente é humilhada com despejos, em grande maioria sem a menor má fé, apenas sofrendo a pobreza que aí está. 

"Vende-se. Aluga-se. F0da-se você que não tem condições. Você não faz parte dos planos. Você, falido, fudid0, desempregado ou de baixa renda, é um estorvo para o progresso da nação. Você não consome, não gera empregos, não engorda receitas de bancos, qual é a tua razão de ser?" Por incrível que pareça, há gente que diz pensar assim. 

O fim de julho tem um silêncio de cemitério e não é em vão: foram-se ídolos, craques, amigos, pessoas famosas, anônimas, tudo porque a vida é assim e, para quem está sempre correndo mas longe do atletismo, não há tempo para lamentar. Se alguém morrer e você quiser ficar bem na fita, é só escrever um post emocionado, todos curtem e você faz a sua parte. Nós somos uma sociedade de migalhas: gostamos de oferecer aos outros o que detestaríamos que nos oferecessem, somos humanos e, por isso mesmo, cínicos. Podemos alegar a complexidade do ser humano como excelente desculpa. Fica tudo bem. Onde há hipocrisia, as piores escr0tidões alimentam sorrisos. 

Agora vem agosto. Nada muda. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, na brilhante sacada de Belchior. Nossa solidariedade nos dói por cinco segundos, mas não temos tempo a perder e o coach deixa tudo claro: "Vamos ser feliz" (sic). Já, já, os noticiários vão mostrar as novas vítimas de balas perdidas, as novas chacinas, as novas crueldades que nutrem likes e nada vai mudar porque nós, humanos, estamos muito ocupados e não há tempo para investir no próximo, apenas no lucro. 

A cidade cheia de lojas fechadas e famílias agonizando nas calçadas. Vende-se, aluga-se, "vamos ser feliz", uhuuu!, é a galera, é o ritmo, é o resto kissfoudasse e mais uhuuuuuu! 

A dois quilômetros de onde você lê estas palavras planejadamente desconexas, existe tortura, estupro, humilhação e morte, todas praticadas por bandidos amparados pelo Estado ou mesmo pertencentes ao seu quadro funcional. Ao seu lado vai ter um idiota falando atrocidades aprendidas nas faculdades WhatsApp - quem precisa de livros? -, e invariavelmente ele defenderá golpistas, milicianos e assassinos, tudo em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que, exista ou não, nada tem a ver com essas barbaridades. 

O mais difícil do fim de julho nem é a péssima atualidade, mas sim saber que agosto vem aí. 

Mas você só fala de derrota, de tristeza e miséria? Não, não, eu estou falando da vida real, cheia de cicatrizes, varizes, rugas e nenhum Photoshop. O que eu estou falando é a língua da vida óbvia, não a da gentrificação, não a que trata o outro como caixas de papelão a serem movidas para não atrapalharem o caminho. Gente que gosta de juros altos para destruir o próximo.

Eu falo dos garotos e trabalhadores que, à essa hora, sonham com o fim do expediente para almoçarem biscoitos recheados baratos andando à rua, pois só tomaram café às cinco da manhã e andam feito zumbis da Lavradio até a Central, onde poderão ser amassados pela covardia da Supervia. E esses têm sorte porque ainda conseguem biscoitos. Depois, a matéria da TV fala que os brasileiros estão obesos, sugerindo de forma canalha que há um excesso de consumo de alimentos. O que há é fome, distribuída entre refeições desequilibradas e só.

É claro que precisamos buscar combustível em pequenas alegrias do dia a dia, senão ninguém aguenta. Muita gente já não está aguentando. Você nunca verá a notícia, mas muitas vezes quando um transporte de massa sob trilhos tem uma paralisação, é porque estão tirando o cadáver de alguém que não aguentou tanta humilhação - e isso acontece muitas vezes, muitas mesmo. 

Apesar de tudo, ainda temos muitos heróis. Eles estão carregando peso debaixo do sol, fugindo com suas mercadorias do choque de ordem, aguentando firme todas as privações que a vida livre liberal lhes oferece. Alguns, derrotados pela pobreza, tentam sobreviver mas desmaiam de cansaço e fome debaixo das marquises - não é incomum que, mesmo nas piores condições, cuidem de animais de estimação, enquanto volta e meia vemos vídeos com carros de luxo atirando animais de estimação à própria sorte em vias. Temos heróis e heroínas que recusam a vida criminosa que se impõe na porta de seus barracos - e às vezes pagam caro por isso. Temos outros, mas a maioria nem sabe. 

Julho acaba aqui, mas a vaidade, o egoísmo, a arrogância e a ruindade continuam firmes, opressores. O problema não está nos meses, mas nos homens. E, por mais que haja a lacração dos discursos nas redes sociais, a verdade é que muitas vezes as práticas são desprovidas de qualquer sentimento progressista. Não é uma novidade. Foi Napoleão Bonaparte que dizia "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço"?

Falta uma hora para os famintos lancharem seus biscoitos. É o fim de julho, mas poderia ser de um mês qualquer. O problema é que o Rio está matando muitos cariocas e, se antigamente era preciso dizer "O último a sair apague a luz do aeroporto", a nova ordem do genocídio da cidade afirma: "A janela é a porta principal".

Só me resta um pedaço de bolo de chocolate.

@pauloandel

33 anos

Há exatos 33 anos, à essa hora - três da madrugada - eu poderia cruzar Copacabana a pé, até chegar às Casas da Banha da Siqueira Campos e comprar iguarias pra lanchar. Pão, frios, coca. Voltar para casa com alguma tranquilidade e fazer a boquinha em paz. Com sorte, poderia ver até conversas divertidas dentro do mercado, como a travesti tricolor zoando um general rubro-negro vizinho pela derrota num Fla x Flu. 

E podia ir para uma festa maluca em Icaraí, onde não conhecia ninguém, só pra ficar com Ana e depois nos mandarmos às seis da manhã, já com luz no domingo, para dar uma volta na praia e tomar café numa bela padaria do bairro. 

Cinemas, havia para todo lado. É perda de tempo tentar explicar para quem não viveu aquilo: um filme só tem sua verdadeira existência quando é exibido na grande tela. O resto é jeitinho. Um monte de cinemas em Copacabana, Tijuca, Centro, todos de rua, todos do jeito que tinham de ser. 

Maracanã, minha, nossa casa, lugar de povo e fantasia. A única catedral carioca 100% voltada para a população. Pobres e ricos se acotovelavam e se trocavam o tempo inteiro. Ingressos antecipados? Nem pensar. 

Shows para todo lado, pagos e gratuitos. Na Apoteose, na praia, no parque. Quem viu Tears for Fears, Marillion, o apoteótico  Bob Dylan? David Bowie e Eric Clapton na Apoteose, Oingo Boingo no estádio da Gávea. A Legião Urbana parando o Rio de Janeiro com seu show no dia da morte de Cazuza. 

Tempos depois, os clássicos do grunge: Alice in Chains e, claro, o desgovernado Nirvana. Caetano lotou a praia de Botafogo em 1992, cantando com Djavan. Já o espetacular Tony Bennett teve a areia vazia em sua apresentação no mesmo lugar, que desperdício.

Na Rio 92, os Arcos da Lapa viveram uma tarde inesquecível com as performances de Barão Vermelho, Jello Biafra e Mano Negra. No ano anterior o Maracanã foi tomado de assalto pelo Rock in Rio, com grande e variada programação. Futuramente, o maior estádio do mundo receberia ninguém menos do que Madonna Louise Ciccone para 100 mil pessoas.

Ainda falando de shows, os estudantes da UERJ, UFRJ e PUC foram agraciados com grandes espetáculos gratuitos para o público. Numa parceria com a Brahma, o projeto "Som do meio dia" ajudou a consagrar a então desconhecida Cássia Eller nas universidades, além de divulgar trabalhos espetaculares como Ney Matogrosso ao lado do violonista Raphael Rabello. Tinha até Lobão cantando samba. 

O Canecão pulsava e, com ele, um show antológico do Jethro Tull, o início dos Raimundos e, claro, conturbadas turnês de Tim Maia. Do outro lado da cidade, o Imperator abrigava até Peter Gabriel.

O Rio era cheio de bares em muitos bairros e, neles, as pessoas queriam conversar e trocar ideias. Nada de ficar olhando o reality show na televisão. As pessoas iam e vinham, os ônibus e barcas rodavam a noite toda. Tráfico e milícia já estavam nas paradas de sucesso, mas ainda era possível vivenciar partes maravilhosas da cidade.

Sunday, July 30, 2023

O último domingo de julho

Cinco e meia da manhã. Tudo escuro, chuva nem tão fina, frio e um silêncio de mil cemitérios. Julho vai embora com suas derrotas, lembranças e vivências. Gente como eu perdeu um amigo, uma crush, um ídolo. Temos perdido coisas demais. 

O pequeno barulhinho da chuva pipoca na janela e nos aparelhos de ar condicionado. O sofrimento das ruas é mudo. Tradicionalmente, quase ninguém escuta. 

[Levanto para tomar remédios e tentar me entorpecer com sonhos bons, porque a realidade é tão barra pesada e sufoca feito fosse um poderoso socão no peito, daqueles que tiram o ar, deixam tudo roxo e desesperam.

O último domingo de julho, tão logo as pessoas acordem, terá polêmicas no futebol, velhas notícias de velhacos da política - especialmente os que andam de mãos dadas com a milícia - e algumas notícias até boas, porém insignificantes para muita gente que tem vivido em desespero e não pensa em desistir só do trabalho ou de casa, mas de tudo no sentido estrito da palavra. Principalmente aqui no Rio, há muita gente sofrendo e não seria surpresa a nova nomenclatura Cidade Horrorosa, não por causa de sua beleza física comprovada, mas pela sua opressão econômica e social que destrói famílias e ceifa vidas em pleno voo.

Nem tudo ė perda. Em alguns pontos da cidade, os boêmios começam a sartar de banda e voltar para casa. Depois vão dormir por horas a fio e acordar para ver o Botafogo jogar, pois os outros três já jogaram ontem - o Vasco segue seu calvário. Os casais se abraçam mais forte, os camaradas trocam sorrisos de saideira, o dia ainda escuro vai clarear aos pouquinhos. Se a chuva não atrapalhar, vai ter gente pelas feiras da cidade comendo pastel e bebendo caldo de cana - um luxo que eu curto.

[Aqui estou sem pai nem mãe, sem irmão e sem meu amor, pensando nas piores coisas e tentando espantá-las, mas tudo é muito difícil quando você está sozinho e cercado por metralhadoras da alma - todas apontadas para a sua testa e peito. 

Parece que ainda tem um pouquinho de luz na janela, vamos ver no que dá. Ainda não é agosto, melhor assim. Estão rolando os dados.

@pauloandel.

Friday, July 28, 2023

397

Uma das coisas mais humilhantes no Rio de Janeiro hoje é a questão do transporte público. Não existe dia em que os passageiros não sejam desrespeitados em algum dos serviços, quando não em todos. 

Quarta-feira, um caso chamou a atenção: em plena avenida Brasil, um motorista abandonou seu posto de trabalho da linha 397, embarcou em outro ônibus e deixou para trás não somente o veículo que conduzia, mas também dezenas de passageiros que se apertavam como sardinhas em lata. 

Informações dão conta que o motorista chegou ao limite do esgotamento, depois de ter sido xingado e ameaçado ostensivamente pelos passageiros do 397, porque vinha parando em todos os pontos com o veículo já lotado. 

É o retrato fiel do caos carioca. 

Desde o golpe de 2016, com a Lava Jato destruindo 2/3 dos empregos formais cariocas, o número de passageiros caiu drasticamente no principal transporte de massa, o trem. Some-se a isso o péssimo serviço da Supervia e as disputas políticas, então a capacidade de operação da companhia caiu em 50%, de 700 mil passageiros por dia para 350 mil aproximadamente.

O que faz a Supervia então? Reduz a circulação de trens, que ficam cada vez mais cheios. Algumas pessoas, cansadas da ruindade do serviço, voltaram para os ônibus. Mas como o desemprego era marcante, o que aconteceu? As empresas passaram a colocar menos ônibus em circulação nas linhas, especialmente aquelas que cruzam a cidade e têm como rivais as vans e motos da milícia...

Ou seja, o passageiro, trabalhador ou estudante, simplesmente não tinha para onde correr. 

Com a pandemia, o desastre foi completo. Até agora não houve recuperação e a explicação é óbvia: anos de desgoverno, sucateamento estadual e federal. O Rio se espatifou e, mesmo que agora tenha uma retomada do emprego, ainda está muito aquém dos níveis de dez ou oito anos atrás, em termos proporcionais. Consequentemente, continuamos a ter menos trens circulando do que precisamos e menos ônibus. Na hora do rush vira o caos. 

O motorista é obrigado a parar nos pontos, mesmo com o ônibus lotado. Se passar direto e for fiscalizado, rua. 

O passageiro que embarca do centro para a zona oeste é praticamente um animal de abate embarcado num caminhão.

Não é difícil imaginar as situações que a população passa diariamente no universo do transporte público. 

Por sua vez, a milícia segue cada vez mais ameaçadora, ocupando o território metropolitano do Rio e humilhando as pessoas. 

Perto do que se vê todo fim de tarde na hora do rush no Rio e seus arredores, a tensão num ônibus se limitar a palavrões e um motorista extenuado desistir do trabalho é quase um milagre. O sistema funciona para que as pessoas se agridam até a morte, numa selvageria absurda. É uma pena que centenas de milhares de pessoas, incluindo passageiros e motoristas, cumprem diariamente. 

Que crime cometeram? Terem nascido pobres. 

Wednesday, July 26, 2023

Sinéad O'Connor

Justamente ontem, Sinéad O'Connor partiu para sempre. Ainda me lembro quando a vi pela primeira vez, na capa de seu disco que alguém levou para a casa do Fred. A beleza de seu rosto me causou um impacto absurdo, pois era acompanhada do crânio raspado, uma ousadia que pouquíssimas mulheres praticavam no mundo todo. Eu mesmo era o único careca voluntário das minhas turmas. Tinha o Alexandre Gomes na faculdade, que era gente muito boa e sumiu. Só. Em Copacabana, só Monique Evans, linda de enlouquecer, tinha coragem de usar o cabelo muito curto.

No apartamento, enquanto discutíamos qualquer coisa, alguém lembrava como Sinéad era linda e logo alguma amiga ciumenta reclamava. Ríamos e contestávamos. 

A beleza do rosto de Sinéad me impactou por muito tempo, aumentando ainda mais quando explodiu o vídeo clip de "Nothing compares to you", que ganhou o mundo - uma canção de Prince que ela transformou em sua com maestria - há cantoras com esse poder, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Tina Turner, que cantam e interpretam de um jeito único, virando parceiras dos autores. 

Nenhuma mulher raspa o crânio sem atitude. Sinéad era uma força da natureza. Lançou alguns álbuns ótimos que a intelligentzia desprezou porque estava mais interessada em fofocas e polêmicas. Enfrentou poderosos cara a cara e não arredou pé, o que lhe custou severos boicotes. 

Foi linda até o fim. Aguentou tudo, menos o pior castigo que sofre uma mãe: perder um filho. Morreu jovem demais. Os mais novos precisam conhecê-la.

Volto a 1989 e revejo a casa de Fred. Alguns amigos estão longe, as garotas também, alguns se foram para sempre. Não parece longe, foi outro dia. Eu não me esqueço da contemplação daquela beleza, que ainda tem uma marca: a tristeza do olhar e semblante. Tive sorte com garotas bonitas, fui amigo de muitas, namorei algumas, flertei com outras e me casei com uma.

Independentemente disso, tive e tenho minhas admirações pela beleza em si, que basta. Ana Paula era linda, assim como Luciene e depois Juliana, depois Gabriella. Amigas, colegas e admirações cujos rostos me remetem à beleza e que me lembro agora. A diferença é que me lembro de todas belas, muito belas mas com algum sorriso, desfraldado ou contido, emoldurado pelos cabelos. Sinéad não: era a beleza monumental do rosto triste e careca. Nela, tudo era desafio, até mesmo a beleza. A beleza.

Julho

Por aqui, no coração da Guanabara, é um mês que sugere civilidade. Férias escolares, ruas (ainda) mais vazias, às vezes frio e chuva. Dias e tardes gris. Nenhum feriado.

Quando julho corre, fica a sensação real de que mais da metade do tempo do ano passou, isso para nós que medimos o tempo em meses. Já começa o caminho para o próximo ano, o próximo ano, a próxima temporada e tudo corre com enorme velocidade rumo ao futuro, o fim ou o nada, conforme o gosto do freguês. 

São seis e meia e o dia ainda está clareando. Julho vai chegando ao seu final. Embora não haja nada de novo debaixo do sol discreto, quem sabe a vida não oferece uma surpresa boa? Quem sabe?

Sunday, July 23, 2023

De Ed Motta a Geraldo Vandré

Ouço música diariamente, no trabalho e em casa. É assim há muitos anos. Geralmente faço minha programação particular onde o cast possui 360 graus de amplitude, indo de Cauby Peixoto a Sepultura, Tom Zé a Radiohead, Almir Guineto a United Future Organization, Fevers a Brand New Heavies. 

Passei a sexta no trabalho ouvindo Ed Motta, neste domingo também. Eu o vi começando a carreira já monstruoso e seu trabalho só melhorou com o tempo, notadamente influenciado pelo Steely Dan, que é uma das instituições estadunidenses da música - embora Donald Fagen, o próprio SD com a morte de seu parceiro Walter Becker - já tenha dito que detesta bossa nova. Eu adoro e ponto. Viva São João Gilberto e São João Donato, que acabou de partir mas deixou uma carreira fantástica, repleta de álbuns sensacionais. 

Volto ao Ed. Algumas falas deturpadas fizeram com que o cantor colecionasse haters nas redes sociais, fruto desse ódio delivery que vivemos. E, claro, a tradicional hipocrisia dos puristas que adoram apedrejar os outros. O mais importante de tudo deveria ser seu trabalho musical, que é riquíssimo com 35 anos de carreira e muita qualidade.

[pausa por motivo de força maior]

Domingo, perto da meia noite, o mundo em agonia plena porque lá vem a segunda-feira, passo pelo documentário sobre Sidney Magal na GloboNews. Algumas falas bem interessantes. Mas fico de olho porque vai começar o Canal Livre e eu sempre espio o entrevistado. 

Meia noite em ponto e acontece a cena mais inesperada da TV brasileira em anos: anunciam o nome do entrevistado. Geraldo Vandré. O quê? É isso mesmo? É! 

[volto em seguida depois desse natural Impacto]

Ed Motta me remete ao começo da faculdade em 1988. Vi um show dele por lá. Era também o tempo da estreia de Marisa Monte, os dois fizeram um belo dueto em "Ainda lembro", segundo álbum da cantora. Os Titãs voltavam à tona com o álbum "O blesq blom". Os Paralamas arrasavam com a sonoridade latina de "Bora Bora". A Legião Urbana lotava estádios. Ciente do fim, Cazuza acelerava novos trabalhos, que iam da bossa de "Faz parte do meu show" ao protesto vigoroso de "Burguesia". De 1987 a 1990, isso foi uma pequena amostra. 

E de fora? Vieram ao Brasil The Cure, Metallica, Supertramp, Pretenders, Simply Red, Simple Minds, UB40, Tears for Fears, Terence Trent D'arby, Eurythmics, Bob Dylan, David Bowie, Eric Clapton, Paul McCartney, Oingo Boingo, muita gente importante. Com um verdadeiro furacão em fins dos anos 1980, a década de 1990 prometia muito. Musicalmente falando, um grande tempo.

[para não dizer que não falei da incrível aparição de Geraldo Vandré na TV]

Apesar dos experientes entrevistadores do Canal Livre, o programa não deve ter sido dos mais fáceis. Ao mesmo tempo em que muitas pessoas admiram Vandré, suas respostas são lacônicas, evasivas e dão a impressão de que alguma coisa está fora da ordem, para não dizer de omissões. Mesmo assim, alguns momentos são engraçados até. Pela primeira vez, vi o grande artista falar após 45 anos de espera. A reprise da entrevista me será útil para tirar várias dúvidas. 


Monday, July 17, 2023

Fluminense 121

Ainda me lembro do exato momento em que me tornei Fluminense, há 50 anos: meu pai veio me mostrar um álbum de figurinhas da Copa de 1970 e abriu na página da Seleção Brasileira. Apontou e disse: "Esse é o Félix, ele é do Fluminense". Desde então, essas duas palavras nunca mais saíram da minha memória, Félix e Fluminense. Eu não me apaixonei pelo escudo, pelas cores ou pelas bandeiras, mas pela palavra - e se coincidência não existe, está explicado porque, muitos anos depois, escrevi vários livros sobre o clube. 

Cheguei em 1973 e o Flu já tinha uma história maravilhosa. Embora não seja o primeiro clube de futebol do Brasil, foi o pioneiro de tudo: inventou os campeonatos, o estádio, a torcida, o cuidado com a grama - pelo impecável burro Faísca -, o ídolo - e sex symbol - e, por fim, a Seleção Brasileira, para quem forneceu dezenas de jogadores nas Copas do Mundo. 

Provando sua vocação suprema para o futebol, o Fluminense logo tratou de ganhar muitos títulos na era do amadorismo. Depois deu um tempo e, quando veio o profissionalismo, montou aquele que provavelmente foi o maior time de sua história, dominando o Rio de Janeiro em fins dos anos 1930 - e se não fosse a Segunda Guerra Mundial, o Brasil era candidato certo a ganhar o Mundial de 1942 com um escrete tipicamente tricolor. E já que a guerra veio, o Fluminense colaborou com um avião de combate para o Brasil. No fim dos anos 1940, a Taça Olímpica deu ao Flu o título de perfeita organização desportiva. Quando o futebol brasileiro foi reduzido a pó na Copa de 1950, correndo grande risco até de desaparecimento, veio o Fluminense e ganhou o Mundial de Clubes, reacendendo o interesse popular pelo esporte. 

Desde então, o Fluminense viveu de tudo, tal como um verdadeiro ator de cinema: ganhou e perdeu grandes títulos, foi condenado à morte com rebaixamentos mas ressuscitou para sempre, teve dezenas de grandes craques, vários perebas, lutou muito e atravessou décadas. Foi às vias de fato, encarando a luta. Time de guerreiros. Tudo isso foi testemunhado pela maravilhosa massa tricolor, muitas vezes imersa na mais apaixonante nuvem de pó de arroz que já se tem notícia. O grande Flu dos clássicos imortais, de times inesquecíveis como a Máquina Tricolor de 1975/17, a mocidade independente de 1980 e o grande grupo tricampeão carioca e campeão. O time do gol de barriga, os campeões da Copa do Brasil em 2007, o vice-campeão da Libertadores em 2008, os dois títulos brasileiros em 2010 e 2012, mais o recente bicampeonato carioca em 2022/23.

O Fluminense é o time dos gols no último grão da ampulheta, das vitórias inacreditáveis, dos heróis improváveis. É o time da playboyzada que não se limita aos bairros nobres - é muito mais um estilo do que qualquer outra coisa. O time das garotas mais bonitas de todos os tempos, não importando se têm 18, 27, 42 ou 66 anos. O time que, por sua longa trajetória, já irritou e contrariou as redações e estúdios de boa parte da imprensa convencional. De Waterman a Welfare, depois passando por Batatais e Romeu, Rivellino e Edinho, Assis e Washington, Renato e Romário, até agora desembocar em Arias e Cano, o Tricolor é sonho, realidade, drama, conquista e emoção, tudo isso envolto em três cores que contam a história do futebol brasileiro há 121 anos. 

@pauloandel @p.r.andel

Sunday, July 16, 2023

Três atos em Copacabana

I


Cruzei a cidade na noite de sexta-feira e fui parar no único bairro do mundo onde me sinto em casa: Copacabana, é claro. Acontece que agora sou um haole, um estrangeiro, um turista, só que com o olhar mais atento de todos os habitantes locais. Bem antes de fechar a corrida, perguntei ao motorista se preferia receber em dinheiro ou pix. Deu pix na cabeça. Vale o escrito. 


Parei no Teatro Brigitte Blair. Fiquei contente. Um palco de resistência, com programação variada e grande ênfase musical. Aconchegante e vintage, a cara de Copacabana. Fui assistir o show da Conexão Planetária, para conferir a ótima impressão que tive do EP no Spotify. Nenhuma surpresa: ótimo no áudio, ótimo ao vivo e saboroso. A Conexão é um duo formado por Mariana Moulin (voz) e Marco Lima (guitarra), também compositores, acompanhado nas apresentações por Ivo Ricardo (baixo), Rabicó (bateria) e Rodolfo Bragantini (guitarra). Raras vezes vi um show tão bom e azeitado de uma banda que está começando um trabalho, mesmo que tenha músicos tarimbados. Há ecos de soul, rock, pop, MPB e peso agradável nas guitarras (sem barulheira) que fazem um contraponto excelente à doce voz de Mariana. Enfim, me diverti por uma hora e meia e espero revê-los em breve. 


II


Depois de um bom show, cabe uma boa janta ou lanche, uma boquinha talvez. Meu plano era visitar Katia, no outro lado de Copacabana, começo da Barata Ribeiro. Deixei o Brigitte Blair ainda cheio, parei numa esquina e mandei mensagem pelo WhatsApp. Katia não respondia, nem Rodrigo, meu amigo que mora nos arredores do teatro. Então andei uma quadra, duas, nenhuma resposta e parei na porta de um restaurante a quilo que ainda funcionaria por uns dez minutos. Uma boquinha leve, dois pedacinhos de frango, meia colher de arroz, um pedacinho de pernil e quarenta reais no peso. Socorro!


Sentando à mesa, Katia respondeu. Já tinha uma pizza em casa, mas não estava muito empolgada. Respondi e avisei que sairia em instantes do restaurante. Meu prato tinha tão pouca comida que terminei em dois minutos. Paguei a conta, a caixa foi simpática, logo peguei o Uber e tanto a pergunta quanto a resposta se repetiram: "Você prefere pagamento em dinheiro ou pix?", "Prefiro pix, senhor". Tempos modernos. 


III


O elevador do prédio de Kátia é um paradigma de Copacabana, com duas portas pantográficas - uma somente para o térreo. Leo, o cão oficial, pequenininho e super legal, me espera com latidos. 


Com o pratinho do restaurante caro, a fome ainda batia. Eu sou um comilão: tracei a pizza que a Kátia rejeitou, ela ligou pro Caravelle, pediu uma lasanha e uma outra pizza de chocolate. Então conversamos e rimos, passamos tempo, falamos de amigos queridos - alguns, infelizmente mortos - e comemoramos quando o pedido chegou. Num mundo onde tanta gente passa fome, poder comer é um privilégio. 


Como tudo que é bom dura pouco, chegou a hora de ir embora. O Leo correu de um lado para o outro, me despedi da amiga e fui para o terceiro Uber. Depois de cochilar no sofá, o Rodrigo respondeu mas já era tarde, fica para a próxima. 


"Tudo bem? Você prefere o pagamento em dinheiro ou pix?"


"Prefiro pix, senhor." 

Wednesday, July 05, 2023

frag mentos

[tudo no LinkedIn é falso

[é necessário respirar bem às três da manhã, enquanto tiros explodem em algum lugar de Santa Teresa e aqui na Cruz Vermelha o desespero é outro. cada um tem a desgraça que lhe cabe

[a cada dia que passa o tempo escorre cada vez mais rápido e, quando olhamos para trás, já se foram trinta ou quarenta anos. então tenho pressa porque sei que estou no terço final. ao mesmo tempo, minha cabeça ainda alimenta tantas ideias e esperanças, às vezes inúteis, às vezes combustível para fazer desta última parte a mais dessa travessia, se última for mesmo

[onde estão aqueles jogos que o tempo levou, junto com as músicas e as grandes garotas? 

[às três da manhã é necessário respirar e perceber o silêncio

[onde estou além do abismo?

Sunday, July 02, 2023

Mar

Podem falar o que quiserem de ruim, mas Copacabana não é para amadores. Você tem que vir das divisões de base já pronto para ser titular. E até hoje Copacabana tem seu playground para todos, que é a praia. Hoje em dia é preciso ter cuidado, especialmente à noite, mas a praia é o grande polo democrático que reúne tudo: gatinhas, marombeiros, coroas, crianças, gordos e magros, gays pra todo lado, sapatões deliciosas, saudáveis desocupados e o resto da fauna copacabanensis.

Geralmente eu estava ou jogando botão na casa do Luiz ou ouvindo discos na casa do Fred. Depois, quando passei a ter aula noturna na faculdade, o lazer diminuiu. E uma ou duas vezes por semana, eu ia para a praia à noite. Às vezes tinha uma garota, muitas vezes era sozinho. Eu e minha relação com o mar. Molhava o pé na beira, sentava no banco de areia, apreciava o horizonte infinito do Atlântico Sul. Tudo escuro e infinito, tudo cheio de silêncio e misterios. Tinha alguma coisa de charme, outra de medo, outra mórbida. Eu, que gosto tanto de lá, sempre pensava no que teria depois do infinito. Tanto silêncio e poucas respostas. 

Quando é cedo, em dia de tempo bom, o mar se destaca pela sua beleza e cores. Tarde, pelo mistério. Sempre foi assim. Para muita gente, fui um privilegiado por ter vivido 25 anos perto do mar e é verdade mesmo. Sempre me comovo com a emoção de pessoas do interior ao verem o mar pela primeira vez, dando-lhe o devido valor que eu nem sempre pude por tê-lo sempre ao lado. Hoje ele me faz muita falta. Há anos tenho vivido noites difíceis e, se o mar estivesse perto, era só descer, caminhar um pouco e me deparar com sua grandeza. Aliviaria alguma coisa com certeza. 

Até 1988 a praia não tinha luz noturna. Só o Juventus tinha luz própria para treinos e jogos. Aí veio a grande obra e a praia de Copacabana ficou toda iluminada. A imagem era bonita demais. Lembro que eu estava voltando de Arraial do Cabo, da casa do Henrique, com ele, a Ana e não sei se Xuru ou Pedro também. Viemos até Niterói, pegamos a barca e, a seguir, fomos da Praça XV para Copa. Era o começo da tarde e combinamos de nos encontrar para ver a nova praia cheia de luz. Foi uma noite muito bonita, depois lanchamos no Bob's. Pra mim, 1988 era um grande ano por vários motivos, até hoje me lembro. Bom, deixa pra lá. 

Infelizmente os perigos de hoje são muito maiores. Naquele tempo, o máximo que acontecia era sair na porrada com o ladrão - nós, garotos de 18 ou 20 anos, cheios de energia, não éramos fáceis. Agora é diferente: qualquer coisa tem facada no peito, degola e horror. Não era pra ser assim, bastava o ser humano ser humano de verdade, mas não aconteceu e só piorou. Mesmo assim, dia desses eu quero voltar à beira do mar de Copacabana. Rever aquela atmosfera de silêncio, mistérios e o verdadeiro ballet da morte. Procurar no horizonte pelo desconhecido, lembrar de tudo que passou, sonhar com dias de generosidade em vez de esmola e, definitivamente, tentar entender porque aquele ambiente da natureza litoral tem tanto a ver comigo, a ponto de mantê-lo intacto na memória pelos últimos 35 ou 40 anos.

Saturday, July 01, 2023

Serious

A faixa tocou pouco mas eu a memorizei de imediato. Para mim, é a melhor música do Duran Duran, mas é quase desconhecida. A sonoridade é atual mas ela é da transição 1989-1990, e eu me lembro de tudo como se fosse hoje. 

O Luizinho morava na Tonelero, no famoso Edifício Pampeiro. Ele e o Raul eram muito mais novos do que eu, Xuru e Gomão, mas nós adorávamos jogar botão e viramos amigos para sempre. Ele tinha uma mesa grande, montada na sala, onde jogávamos quase toda noite. Na hora da fome, buscávamos o lanche nas Casas da Banha da Siqueira Campos, aberta 24 horas - já fomos modernos. 

Quinhentos metros adiante, morava o Fred no Bloco F do Shopping dos Antiquários, que foi minha segunda casa por anos a fio. Também ia lá quase todo dia: era onde jogávamos cartas, ouvíamos música e alguns usavam drogas ilícitas. As garotas entravam e saíam. Uma delas, que não lembro mais o nome, vivia me dando foras até que um dia me beijou - confuso demais para entender. Estávamos todos no começo da faculdade, procurando o início do caminho adulto. Eram nossos últimos momentos adolescentes divertidos. 

Eu já estagiava, no Hospital Pinel. Não tinha um tostão mas sonhava com o futuro, ajudar meus pais. Estávamos muito pobres, não havia emprego, era o Rock Horror Show da Era Collor. 

A faculdade era maravilhosa. Minhas amigas eram lindas e nos adoravam. Éramos divertidos na turma: engraçados, excêntricos e alheios ao clima "sério" do Instituto de Matemática. Os caras preocupados com integrais e derivadas, a gente falando de Tim Maia, Prince e irmãos Coen: claro que as garotas iam nos preferir. Até as professoras: a Sônia, que era meio sem noção, dizia para Alessandra que eu era feio pra ela, mas falava em plena aula que seu marido era uma cópia minha. Vá entender. Íamos ao boliche, aos cinemas da Saens Pena, ao Palheta e sonhávamos em viajar para Arraial do Cabo. 

O Flu tinha um time modesto mas brigava. Eu estava no Maracanã o tempo todo, em Laranjeiras e tal. Era muito divertido. 

A derrota para a Argentina na Copa de 1990 nós vimos juntos na casa do Luizinho. O Xuru xingou muito na hora do gol argentino, a jogadaça do Maradona. Mais tarde, no mesmo dia, a maravilhosa Holanda também foi eliminada: deu Alemanha, futura campeã. 

Vimos grandes shows: Bob Dylan, Eurythmics, Oingo Boingo, A-Ha, Legião Urbana e o antológico Tim Maia no Arpoador. O Circo Voador bombava, o Canecão era super acessível. Jorge Benjor estava de volta com "E Brasil". Depois veio a maravilhosa MTV Brasil. Houve também uma derrota violenta, que foi a morte de Cazuza. A gente sabia, já era esperado mas doeu paca. Nenhum jovem deveria perder seu poeta também jovem, mas a vida é injusta por excelência. 

Naquele tempo eu era um sujeito bastante popular nos meus nichos, nem sei por que motivo. Agora, a verdade é que eu me sentia sozinho em todos os lugares, inclusive acompanhado. Às vezes eu fugia para a praia à noite e ia até a beira do mar só para contemplar a noite atlântica de Copacabana, sozinho, apreciando o litoral por minutos e minutos, misturando o silêncio com os sons do mar e a escuridão que, de certa maneira, remetia à morte - também não sei dizer como não mergulhei no mar para sempre, tantas foram as vezes e os pensamentos. 

Tudo está tão longe, mas pode ser imediatamente acionado com alguns poucos acordes. Ouvir "Serious" leva a um mundo cheio de cores e também algumas dores. Ou seja, o mundo como ele realmente é.

Tuesday, June 27, 2023

uma noite de 1979

Meu pai chegou bem em casa. Triste ele sempre estava, mas não tinha bebido e aquilo foi um alívio para mim. Naquele tempo eu rezava e agradecia, tinha acabado de fazer primeira comunhão. 

Apesar da nossa relação tensa, volta e meia ele trazia algum pequeno presente para mim. Um botão. Um gibi. Eu tinha dez anos e, naquele tempo, os garotos da minha idade só brincavam e sonhavam. Ganhar uma caixa de Playmobil. Autorama, já pensou? 

Naquela noite ele devia estar duro de grana, mas não falhou. Trouxe para mim um pneuzinho. Na verdade era um anel de borracha que lembrava um pneu mas era liso, sem vincos. Eu gostei. Tínhamos um sofá vermelho, kitsch, cuja cabeceira tinha uma ondulação, aclive e declive. E o que precisava além daquilo para ser feliz? Nada, a não ser um gole de Coca-Cola ou um hambúrguer que minha mãe fazia em casa para o lanche. 

Então me esbaldei. O pneuzinho ia e vinha na cabeceira do sofá. Ele deve ter ficado contente, porque brinquei bastante. Uma hora ou mais. Depois parei para escutar um jogo do Fluminense em nosso rádio, um Telefunken grandão com luz esverdeada. Toda vez que penso naquele aparelho, invariavelmente me vem à tona os nomes de ídolos da minha infância, não os jogadores, mas os radialistas: Jorge Curi, Waldyr Amaral, João Saldanha, Mário Vianna, Kleber Leite e Loureiro Neto. Era como se eu os escutasse todo dia e ficasse o tempo todo esperando: lá vem o Fluminense. Durante o jogo, minha mãe fez o delicioso hambúrguer. 

Curiosamente não lembro da partida, pois geralmente guardo tudo. Não eram tempos fáceis, longe disso, mas aquela noite do pneuzinho foi muito legal, como a de uma criança feliz. Não lembro do jogo, mas o Fluminense era inesquecível: Wendell, Renato, Miranda, Tadeu, Moisés, Edinho, Carlinhos, Rubens Galaxe, Pintinho, Cléber, Mário, Cristovão, Toinzinho, Carlos Roberto - que jogava demais -, acho que já tinha Fumanchu e Nunes também. Qualquer partida na rádio era um épico. 

Depois daquele dia, vieram mais de 14 ou 15 mil noites. Em muitas, a vida não teve nada de fácil, mas eu sinto falta daquilo. De ganhar um presentinho do meu pai. De poder brincar no sofá. De tudo aquilo que vivia um garoto pobre à beira-mar em fins dos anos 1970. De lá pra cá, a única coisa que não se alterou foi essa coisa do Fluminense, que veio sempre comigo e que aumentou quando passei a escrever livros sobre o clube. Não sou exatamente um saudosista, as coisas precisam passar, mas o que me traz aquele tempo com tanta força é o maior tesouro que uma criança pode ter: futuro. As crianças, nem todas - e isso é muito doloroso -, têm o futuro pela frente. Era o que eu tinha. 

Muitos anos depois, escrevi sobre Saldanha e Edson Mauro, fiquei amigo do Mazella, entrevistei o Garotinho e fiz alguns programas de TV com ele, que honra. Também fiquei amigo do Vinicio Gama, que é sensacional e cujo trabalho me lembra o de Jairo de Souza. 

São quatro da manhã. Eu queria aquele hambúrguer, queria meus pais, queria Copacabana e também aquele Fluminense que eu vivi. Tudo está longe, mas o Flu continua por aqui. Hoje tem Maracanã cheio, é decisão de vaga.

Um hambúrguer da mãe, a preocupação com a aula, o Telefunken. O Fluminense, rapaz. Renato, Miranda, Moisés, Edinho e Carlinhos. Um pneuzinho. Um garoto brincando e contando as horas no mundo.