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Nunca mais retornou à terra natal.
Paulo-Roberto Andel, 14/12/2009
TÃO OUTRO
Não é de hoje que a burrice cerca o Brasil. Mais ainda, burrice misturada com sectarismo, intolerância e ganância pelo absolutismo: assim não fosse, Lula, com seus erros e acertos, não teria sido o presidente da república mais xingado que já vi – até porque, nos “maravilhosos” tempos das ditaduras militares, defendidas expressamente por delinquentes como Jair Bolsonaro (devidamente surrado em Copacabana) e seus asseclas, xingar o presidente equivalia à pena de morte.


Novo dia, as mesmas filas. De segunda a sexta-feira, as filas de rotina. No banco, para pagar o que é devido. Na padaria, para exigir pães quentinhos. No engarrafamento, em horários de pico. Na lotérica, para nunca ganhar na loteria. Fila quilométrica para virar gari. Nos postos da Previdência, para aposentados e pensionistas. Nos quartéis, para defender a pátria, fazer polichinelos e aprender disciplina. Filas em Brasília, para se maltratar a língua e interrogar asneiras aos depoentes de CPIs. Fila para fazer check-in, pedir autógrafos e comprar eletrodomésticos em promoção nas Casas Bahia. No fim de semana, as filas recreativas.
Para o filme que a crítica elogiou e para um café antes do filme. No teatro, incluindo a fila do camarim, para elogiar a direção e o elenco com frases feitas que contenham ''visceral'' e ''perturbadora'' no meio. Para uma mesa no fim de tarde no Baixo Gávea. Para entrar no estádio e apanhar da outra torcida. E fila na delegacia para reclamar os pertences perdidos, e nos hospitais públicos pra quem não tem alternativa. E no IML, pra reconhecer um defunto encontrado por mais uma bala perdida. E as filas duplas, com a promessa de se voltar rapidinho: da farmácia, da locadora, do caixa-eletrônico, da banca de jornal, do bingo. A fila que anda, que tem que andar, na gíria das meninas e dos meninos. A fila do beijo de língua no maior número possível de estranhos pelo justo prazer de trocar salivas; e os trenzinhos safados nos bailes funk, que acabam em aids ou filhos. Os viciados fazendo fila para as fileiras de cocaína.
Os indigentes enfileirados por um prato de comida. Os pretos e pardos acuados e perfilados contra o muro, com as pernas abertas e as mãos na cabeça durante a revista. Filas religiosas, pra receber o corpo de Cristo ou consertar paralíticos. Fila para subir o Corcovado, pra andar de bondinho. E as filas de supermercado, onde o primeiro é sempre um cretino que espera pacientemente chegar sua vez pra na hora não se decidir entre dinheiro, cartão ou tíquete.
Onde o próximo sempre é uma dona-de-casa em crise que esqueceu de pegar mortadela, cotonete, rabanete, iogurte, um quilo de pá, acém ou patinho, e que leva uma hora pra voltar, com a promessa de que só vai demorar um minutinho. E atrás dela uma senhora antipática ocupada em proteger a bolsa e julgá-lo pelos tênis velhos ou pelo cabelo esquisito; ou um sujeito com cara de homicida disposto a ficar duas horas em pé para pagar por um pé de alface, um punhado de acerolas e um pedaço de gengibre; ou uma gordinha impaciente a um passo de fazer todo mundo refém, motivada pela demora e pela crise de abstinência de bacon e batata-frita.
E aqueles que conversam, que puxam assunto, que começam com um inocente comentário meteorológico e, quando se vê, já estão tentando lhe vender uma propriedade em Mauá, um bagulho do bom ou um seguro de vida. Não deixa de ser irônico. Saímos das cavernas, atravessamos guerras, descobrimos curas, inventamos o avião, a privada, a descarga e o chuveirinho, pisamos na Lua e prorrogamos o tempo de vida pra isso: Pra mofarmos nas filas.

Cabe-me o pensar. As cousas, as gentes.
É uma noite fria, o inverno do Rio que já tinha se tornado incomum, mas que, pelas surpresas da natureza, reapareceu.
Antes, eu gostava mais da chuva, do frio; quando me dei conta de quanta gente sofria por conta disso, abdiquei. Calor arábico não é meu forte, mas me sinto mal em saber dos que padecem – e perecem – nas ruas por falta de roupa, comida e condições minimamente humanas. Certa vez, li em algum jornal vulgar que a preocupação com os outros poderia ser até motivo de cuidado psicológico. Não tenho dúvidas: foi uma das coisas mais idiotas que li em toda a minha vida, talvez só superada pelo bizarro pseudo-mundo literário de Diogo Mainardi, o ex-parajornalista agora alçado a profissional pelas mudanças da lei.
O frio da rua Senador Dantas, e não sei se volto para casa ou se parto para Botafogo. Um garoto descalço, de poucos anos, adolescente, surge à frente. Parece o irmão que não tenho. Não me pede dinheiro, mas que compre para ele uma comida no bar. Lá vamos nós. Merece também uma coca-cola. É o que tenho: dez reais. Ele parece estar diante de um ET; a segunda vez que isso me acontece neste ano. Natural: num planeta onde pessoas quase pisam em mendigos nas calçadas, quando um transeunte oferece dez mangos, pode ser a salvação do dia. Ali, me basto em minha quase incompetência; não posso salvar a vida do garoto, transformá-la para sempre. Não passo de um trabalhador mergulhado na falácia mentirosa do mundo livre, onde o capital promove justiça. Justiça? Garoto de olhos arregalados é para se ler como agradecimento. Sigo em frente. A vida eu não salvei, mas com dez pratas, um belo bife-com-arroz-feijão-e-batata frita mais a suculenta bebida de origem norte-americana, é um bom paliativo.
Lojas Americanas do Passeio Público. Uma cena linda. Uma vez a cada ano, a indústria do entretenimento deixa de lado sua convencional burrice e reedita clássicos, sejam devedês ou cedes. A arte é necessária à vida. Gene Kelly canta seu clássico eterno, “Singing in the rain”. Paro para ver o magistral telão em LCD. Para minha grata surpresa, várias outras pessoas também. O que é bom, prevalece – mesmo que à distância. As pessoas notam Kelly dançando e admiram. Dizer que só gostamos de fânqui e pagódi é mentira da grossa. Imposição.
Táxi a vagar pelo Aterro. Parece um excelente videoclip do Ed Motta. Tudo é tão moderno e, ao mesmo tempo, passado. Vejo o Aterro, a beleza dos prédios cinquentistas, a beleza do preto do céu invadindo o Pão de Açúcar. Nas grandes coberturas, requinte e sofisticação. No chão do jardim monumental, pobreza e dor. Estranha a vida do carioca atento; fitar por todo lado e esbarrar na elegância manchada pelo descaso. Os pobres do Flamengo, os pobres da Praia de Botafogo.
Bonita a Urca como sempre. Bonita e silenciosa. O charme do que parece desconhecido, biscoito fino para poucos. As pessoas estão recolhidas, é o frio. Na Praia Vermelha, basicamente alguns soldados a serviço, mais um ou outro casal corajoso. Continuo tão acompanhado quanto nos tempos em que solidão era necessidade. Mereço uma água de côco, mas não há banheiro por perto. Na cidade, as pessoas não têm direito ao alívio da bexiga sem que paguem por isso, excetuando-se raros casos. Já tomei o Angipress e o Enalapril. Fica para a próxima. Churros cairiam bem. Até hoje não descobri a origem exata: Argentina, Uruguai ou algum outro Mercosur. Seja de onde for, muito gostoso.
O telefone celular toca. Não conheço o número. Não atendo desconhecidos. Aliás, atendo cada vez menos gente. O natural cansaço por tanta ingratidão, desrespeito, falta de consideração. Grandes grupos são para poucos. A sociedade confundiu tudo: amigos não são apenas os que se sentam à mesa de bar ou dividem garotas de aluguel para uma suruba. Ou ainda os que mandam mensagens eletrônicas a cada seis ou doze meses. Amizade é muito mais do que isso. Nada mais mentiroso do que dizer do amigo que é amigo de verdade, que pode ficar longe sempre e continuará amigo. Falácia para justificar omissão e descaso, novamente. Chega de hipocrisia. Sou um velho.
Boteco da Praia, no Flamengo. O caldo verde é delicioso. A carne, também. Estranho que um bar tão qualificado quase sempre esteja com baixa lotação – o que considero ótimo, individualmente falando. Noutra mesa, uma ruiva de arrasar discute com o namorado pelo telefone móvel. Não deixo de notar, com respeito e certa admiração. É que meu amor não dorme, meu amor não sonha e não se fala mais de amor em Gotham City. Um jantar quase silencioso, podemos assim dizer.
Um novo táxi à frente. Não é Leo. Mais uma surpresa: uma motorista. Gosto disso. Abro a porta traseira e cumpro meu papel de cavalheiro com garbo. Voltar a Copacabana, descer a Atlântica em retorno, o Aterro outra vez, o Passeio, a Lapa.
Meu amor não sonha. As pessoas estão recolhidas. A dor do próximo é desimportante. Nossa pátria-mãe gentil é conduzida pela livre iniciativa.
O elevador vermelho, a porta que precisa de reforma.
Ligo a televisão.
Um efeminado âncora da televisão noturna vocifera contra Lula, a quem acusa de proteger José Sarney, o ex-número um, que tem mais de cinqüenta anos de vida pública.
Tornei-me um velho. Não tenho tempo para falácias.
Paulo-Roberto Andel, 31/07/2009