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Monday, December 14, 2009

JINGOMBÉU


I

Então, o Natal se aproxima. Aquele sujeito que falou mal de você o ano inteiro no emprego quer se mostrar um pouco mais afável. A vizinha de andar, fofoqueira de sempre, dá “bom-dia” com maior intensidade. Um real para o Natal. Vamos dar comida às criancinhas (ao menos) na Noite Feliz. Prosperidade (?), saúde (?), amor (!!!!?). Algum desavisado lembra que precisamos ter mais (?) consciência social. Mais?

Era 1973, corria o fim dos dias e eu andava de mãos dadas com minha mãe na rua Figueiredo de Magalhães, lugar onde vivi boa parte da minha história. Antes, um refresco de côco (com o devido acento) na lanchonete das Lojas Americanas, que ficava na porta de entrada. Algum filme no Condor, o Metro era ali perto, com seu hiper-ar-refrigerado (ou seria condicionado?). O tempo que se foi e não volta mais. Eu vi um mendigo dormindo perto da sensacional Lanchonete Akay, onde hoje reside um Bob´s. Tive medo. Nunca entendi por que pessoas tinham que dormir na rua, no relento, sujas e com fome. Antes que os tresloucados de plantão empunhem armas, atesto que isso foi muito antes de me tornar comunista. Para os mesmos, não custa lembrar que o mesmo comunismo tem mais pontos em comum com a doutrina católica do que se gostaria – aí está Dom Helder Câmara, centenário, para confirmar os alfarrábios.

Tempos depois, muito tempo depois, me apaixonei por uma menina linda chamada Patrícia. Amor de garoto, de menino que sonha com coisas que, quando a gente cresce, não vê jamais, de acordo com o canto maravilhoso de Roberto Ribeiro. No primeiro dia que a levei em casa, olhei para o outro lado da rua. A Akay em grande forma, com seu misto-quente de arrastar multidões; no entanto, a imagem que me atormentava era do mendigo de uma década antes.

As ruas vêm e vão, lá estão os mendigos, os párias que criamos na hipocrisia da sociedade em que vivemos. Achamos Cuba uma ditadura (eu, não!); achamos que Honduras segue um caminho de legalidade (eu, também não!) – e não somos capazes de enxergar a perversidade que se desfolha em nossas calçadas e marquises. Dia desses, assassinos derrubaram um helicóptero policial, em verdadeira ação terrorista, tudo culpa da guerra em que vivemos por conta de porcarias que só servem para destruir famílias, amizades e laços. A polícia, bem sabemos, tem gente de bem mas infiltrados idem. Matamos e morremos mais do que no Iraque, mais do que no Vietnam. É isso que chamamos de democracia?

Ninguém melhor do que um gênio comunista feito Oscar Niemeyer para definir solução de favelas, sempre embonecadas com “humanização” por governos. Perguntado sobre o tema, disse o mestre: “Nenhuma. O importante teria sido não invadir os espaços vazios, respeitar a natureza e conter o poder imobiliário”.

Tapar o sol com a peneira, fingir que não se vê o mendigo de mão estendida, fingir que não se vê o favelado morando na palafita entre ratos, tiros e tristeza. “Eu pago meus impostos e pronto (leia-se “O Estado é meu serviçal”)”. Fingir a velha e mofada falácia de que "é tudo vagabundo que não quer nada". Mas no Natal tudo vai ser diferente.

Quanto a mim, jamais tolerarei um sistema de livre iniciativa que mantém pessoas em favelas e no abandono das ruas. Estou há trinta e cinco anos com esse pensamento e, conseqüentemente, velho demais para mudá-lo. Acredito, piamente, que todos os que se posicionam de forma cruel contra essas pessoas, seja através do desprezo e descaso, seja através de raciocínios ainda mais espúrios como a remoção delas para lugares onde não sejam vistas, são cúmplices do Estado quanto à esta verdadeira atrocidade.

É muito cômodo falar de livre iniciativa com a bunda na poltrona, a tv a cabo ligada e o jantar multivariado assegurado. A realidade da esmagadora maioria não é essa.


II

Houve um tempo em que César Maia, esse mesmo que pode ter forte ligação com os panetones milionários do Governo Arruda, era sucesso no Rio de Janeiro. Gostavam de sua admiração por ordem e autoridade, sem perceber que o ex-prefeito recheava seus discursos com teses e frases claramente emprestadas da doutrina de Mussolini. O pessoal da orla gostava, sim, e muito. E a turma do outro lado do túnel a ver navios – na fotografia. Sujeito que é metido a mandatário sempre faz sucesso. Lembram do Collor? E de Sandra Cavalcanti, braço-direito de Carlos Lacerda nas remoções criminosas de moradores de favelas na Guanabara, tempo em que não faltavam “incêndios acidentais” nas comunidades carentes? Virou braço-direito de Maia.

Há vinte e cinco anos, a cidade era o caos. Vinte também. Dez, hoje. Havia sempre um discurso pronto: “A culpa é do Brizola”. Raras vezes a seguir, o imaginário popular foi tão bem-dotado de completa idiotice. Atualmente, há outra: “A culpa é do Lula”.

Poucos anos depois da confusão que insiste em permanecer nublada, dado o interesse de muitos, o desconforto em ver Delúbio, Silvinho e a cara amarrada do Deputado Genoíno ainda é muito grande. Mas existe uma diferença enorme do jingombéu de Brasília: faltam imagens claras, gravadas, de um governador agradecendo a caridade dada (em notas). E a crise da Arena 2009 não foi denunciada por Roberto Jefferson, ex-advogado do povo (na tv), ex-companheiro de auditório de Serginho Mallandro e que, ao ser questionado sobre as provas que teria a respeito das denúncias do “mensalão” (péssimo neologismo popularizado pelo obeso ex-parlamentar), afirmou com singeleza: “São histórias que vi e vivi”.


III

Os traficantes sanguinários que hoje trazem dor e desespero à cidade maravilhosa do Rio de Janeiro pertencem justamente à geração herdeira dos milhões de desempregados no governo Collor, em paralelo sem precedentes que foi o desgoverno de Marcello Alencar. Seria alguma coincidência? Ou a “culpa” vai cair sobre Saturnino Braga?


IV

Gente é gente todo dia. Gente precisa de atenção e amparo todo dia.

O individualismo das ruas extirpe essa idéia.

Ou se muda a sociedade ou ela desabará por seus próprios meios. E não vai adiantar correr para o São Conrado Fashion Mall em busca de abrigo – a Rocinha é bem ali.


V

Pouca gente é capaz de conviver com seus super-heróis. Eu consegui.

Minha mãe não tem paralelo na minha vida por ter sido minha mãe, somente. É porque foi a melhor pessoa que conheci na vida.

Em 1978, vivíamos muita dificuldade em casa por conta da derrocada financeira de meu pai. Eram tempos de coisas contadas, mesmo, bem diferente da pujança de pouco tempo antes. Certo dia, caminhávamos pelo Bairro Peixoto quando a vi assustada: ela tinha acabado de avistar um rapaz com quem trabalhara em alguma loja. Ele, de mãos estendidas, se chamava Matias. Tinha virado mendigo.

Toda a praça parou para nos ver, claro. Se hoje, 2009, não é comum uma pessoa “bem-vestida” conversar com um mendigo na rua, imaginem trinta anos antes. Além do mais, minha mãe estava arrumada e ainda era muito bonita, o que aumentava o choque de preconceito. Não lembro bem o que conversaram, mas sei que minha mãe me trouxe com ele, comprou algumas roupas no shopping center de Copacabana (hoje, o “Shopping dos antiquários”) e subiu conosco para nossa minúscula casa. Desnecessário dizer da reação das pessoas na rua, mas minha mãe nem estava aí para nada quando o assunto era fazer o bem. O Matias subiu, tomou banho, trocou de roupa. Descemos novamente, fomos ao barbeiro também no shopping. Virou outra pessoa, mesmo.

Como nossa casa tinha se tornado muito pequena, não havia como hospedá-lo. Minha mãe tinha pouco dinheiro, mas comprou um jornal, parou num orelhão daqueles que usavam fichas da Cetel e telefonou: conseguiu uma vaga para o Matias num anúncio de jornal. E pagou dois meses. Lembro que, depois da ligação, ele não parava de chorar e eu não entendia, claro: na verdade, estava agradecido.

O tempo passou, um, dois anos talvez. Por razões que a memória esqueceu, lá estava eu na rua com a minha mãe de novo em algum lugar do bairro. Num súbito, deu um grito de alegria: era o Matias. Estava com avental, na hora de folga, flanando: era cozinheiro de algum restaurante de Copacabana. Quando nos despedimos, eu lembro bem da alegria que tomou conta da minha mãe; criança ainda, eu não tinha a real noção de grandeza daquela situação. Literalmente, com alguns trocados, uma ficha de orelhão e muita atitude, minha mãe mudou a vida de uma pessoa sofrida para sempre.

Felizmente, as histórias que vi e vivi são bem diferentes das contadas pelo Sr. Roberto Jefferson. E das registradas em vídeo com a participação especial do Governador Arruda.

Meu Natal é minha mãe.


VI

Vale a pena reproduzir aqui o excelente artigo escrito por Frei Betto a respeito do novo fenômeno da internet, a blogueira cubana Yoani Sánchez, cantada e decantada como uma versão latino-americana de Mahatma Gandhi a lutar contra as injustiças de Cuba. Não se trata de uma verdade absoluta; tão-somente, um instrumento de reflexão. O artigo de Frei Betto foi publicado em inúmeros jornais e veículos recentemente. Veja:

“O mundo soube que, a 7 de novembro último, a blogueira cubana Yoani Sánchez teria sido golpeada nas ruas de Havana. Segundo relato dela, “jogaram-me dentro de um carro... arranquei um papel que um deles levava e o levei à boca. Fui golpeada para devolver o documento. Dentro do carro estava Orlando (marido dela), imobilizado por uma chave de karatê... Golpearam-me nos rins e na cabeça para que eu devolvesse o papel... Nos largaram na rua... Uma mulher se aproximou: “O que aconteceu?” “Um sequestro”, respondi. (www.desdecuba.com/generaciony )

Três dias depois do ocorrido nas ruas da Havana, Yoani Sánchez recebeu em sua casa a imprensa estrangeira. Fernando Ravsberg, da BBC, notou que, apesar de todas as torturas descritas por ela, “não havia hematomas, marcas ou cicatrizes” (BBC Mundo, 9/11/2009). O que foi confirmado pelas imagens da CNN. A France Press divulgou que ela “não foi ferida.”

Na entrevista à BBC, Yoani Sánchez declarou que as marcas e hematomas haviam desaparecido (em apenas 48 horas), exceto as das nádegas, “que lamentavelmente não posso mostrar”. Ora, por que, no mesmo dia do suposto sequestro, não mostrou por seu blog, repleto de fotos, as que afirmou ter em outras partes do corpo?

Havia divulgado que a agressão ocorreu à luz do dia, diante de um ponto de ônibus “cheio de gente.” Os correspondentes estrangeiros em Cuba não encontraram até hoje uma única testemunha. E o marido dela se recusou a falar à imprensa.

O suposto ataque à blogueira cubana mereceu mais destaque na mídia que uma centena de assassinatos, desaparecimentos e atos de violência da ditadura hondurenha de Roberto Micheletti, desde 27 de junho.

Yoani Sánchez nasceu em 1975, formou-se em filologia em 2000 e, dois anos depois, “diante do desencanto e a asfixia econômica em Cuba”, como registra no blog, mudou-se para a Suíça em companhia do filho Téo. Ali trabalhou em editoras e deu aulas de espanhol.

Em 2004, abandonou o paraíso suíço para retornar a Cuba, que qualifica de “imensa prisão com muros ideológicos”. Afirma que o fez por motivos familiares. Quem lê o blog fica estarrecido com o inferno cubano descrito por ela. Apesar disso, voltou.

Não poderia ter assegurado um futuro melhor ao filho na Suíça? Por que regressou contra a vontade da mãe? “Minha mãe se recusou a admitir que sua filha já não vivia na Suíça de leite e chocolate” (blog dela, 14/08/2007).

Na verdade, o caso de Yoani Sánchez não é isolado. Inúmeros cubanos exilados retornam ao país após se defrontarem com as dificuldades de adaptação ao estrangeiro, os preconceitos contra mulatos e negros, a barreira do idioma, a falta de empregos. Sabem que, apesar das dificuldades pelas quais o país atravessa, em Cuba haverão de ter casa, comida, educação e atenção médica gratuitas, e segurança, pois os índices de criminalidade ali são ínfimos comparados ao resto da América Latina.

O que Yoani Sánchez não revela em seu blog é que, na Suíça, implorou aos diplomatas cubanos o direito de retornar, pois não encontrara trabalho estável. E sabe que em Cuba ela pode dedicar tempo integral ao blog, pois é dos raros países do mundo em que desempregado não passa fome nem mora ao relento...

O curioso é que ela jamais exibiu em seu blog as crianças de rua que perambulam por Havana, os mendigos jogados nas calçadas, as famílias miseráveis debaixo dos viadutos... Nem ela nem os correspondentes estrangeiros, e nem mesmo os turistas que visitam a Ilha. Porque lá não existem.

Se há tanta falta de liberdade em Cuba, como Yoani Sánchez consegue, lá de dentro, emitir tamanhas críticas? Não se diz que em Cuba tudo é controlado, inclusive o acesso à internet? Detalhe: o nicho Generación Y de Sánchez é altamente sofisticado, com entradas para Facebook e Twitter. Recebe 14 milhões de visitas por mês e está disponível em 18 idiomas! Nem o Departamento de Estado do EUA dispõe de tanta variedade linguística. Quem paga os tradutores no exterior? Quem financia o alto custo do fluxo de 14 milhões de acessos?

Yoani Sánchez tem todo o direito de criticar Cuba e o governo do seu país. Mas só os ingênuos acreditam que se trata de uma simples blogueira. Nem sequer é vítima da segurança ou da Justiça cubanas. Por isso, inventou a história das agressões. Insiste para que suas mentiras se tornem realidades.

A resistência de Cuba ao bloqueio usamericano, à queda da União Soviética, ao boicote de parte da mídia ocidental, incomoda, e muito. Sobretudo quando se sabe que voluntários cubanos estão em mais de 70 países atuando, sobretudo, como médicos e professores.

O capitalismo, que exclui 4 bilhões de seres humanos de seus benefícios básicos, não é mesmo capaz de suportar o fato de 11 milhões de habitantes de um país pobre viverem com dignidade e se sentirem espelhados no saudável e alegre Buena Vista Social Club”.

Moral da história? “Assim não é, se lhe parece”.


VII

Foi-se o tempo em que eu acreditava na bondade dos homens no Natal. No Papai Noel, também.

Era 1974. Eu e meu amigo Júnior estávamos em minha casa, na rua de Santa Clara, 345, num prédio que não mais existe – agora é um moderno fléti. Era véspera de Natal, dia 24.

Bateram à porta. Ficamos assustados e nervosos. Minha amada mãe disse que poderia ser o Papai Noel. Corremos, abrimos a porta e lá estava um sacão de brinquedos de enlouquecer qualquer criança. Imediatamente, corri para a banheira a testar um pequeno submarino que flutuava n’água. O Júnior ficou muito contente também com muitos presentes. A ingenuidade de crianças não nos permitiu perceber que o Papai Noel era meu pai, que levou o sacão e voltou ao apartamento pela porta dos fundos. Foi uma grande noite. Eram tempos de fartura econômica para meu pai, infelizmente despedaçados para sempre a seguir. Tudo bem antes da história do Matias.

Fui uma das poucas crianças deste país a ganhar um presente desses numa noite de Natal, embora o gesto de carinho seja infinitamente maior do que os objetos presenteados. Sou e serei eternamente grato a meus pais por tudo o que me ofereceram; até mesmo nas inúmeras dificuldades, aprendi bastante. Se é que os perdi para sempre, o passado está intacto.

Dedico aquela grande noite à minha querida família, que sempre estará por aqui de alguma forma.

E também ao mendigo sofrido da lanchonete Akay.


Paulo-Roberto Andel, 14/12/2009

3 comments:

Antonio Campos said...

Mestre fazia hs que não comparecia. Mas valeu a pena ler-te como sempre com muita atenção. Aprender a comentar teus textos seria meu pedido de natal ao bom velhinho. Pois que perfeitos merecem apenas admiração. Eu o mendigo das letras mestre fico feliz em aprender contigo. Um grande abraço desse velho gaúcho.

Elika Takimoto said...

Me emocionei aqui hoje. Aquele história da sua mãe me derrubou.

:_)

Bjs

Lau Milesi said...

Paulinho,sua mãezinha deve estar batendo palmas para o filho talentoso .
Brilhante, meu querido amigo.

Um beijo