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Wednesday, September 23, 2009

A SOCIEDADE DOS BURROS VIVOS

Não é de hoje que a burrice cerca o Brasil. Mais ainda, burrice misturada com sectarismo, intolerância e ganância pelo absolutismo: assim não fosse, Lula, com seus erros e acertos, não teria sido o presidente da república mais xingado que já vi – até porque, nos “maravilhosos” tempos das ditaduras militares, defendidas expressamente por delinquentes como Jair Bolsonaro (devidamente surrado em Copacabana) e seus asseclas, xingar o presidente equivalia à pena de morte.

Antigamente, nem tão antigamente, a imprensa política do país ainda tinha um resquício de hipocrisia. Defendia seus candidatos oficiais, lançava “escândalos” contra os opositores mas, apertar o cerco mesmo, só em caso extremo (vide a farsa da edição do debate Lula x Collor). Agora não. Oficializou-se a prostituição. Quando não servem de porta-vozes dos patrões, alguns âncoras da televisão brasileira vomitam exatamente o que carregam em suas mentes perversas. Ou pervertidas.

Domingo à noite, me deparei com o “Canal Livre”, decano televisivo da inteligência brasileira. A mesa do programa sempre manteve a tradição de excelência dos membros; às vezes, vaza água. Joelmir Betting não estava, o comando ficou com a exótica presença de Boris Casoy. E porque exótica? Basta assistir sua atuação no “Jornal da Noite” para constatar: brados, gestos, uma tentativa quase esdrúxula de parecer contido e educado, ressaltada pelo batom róseo que lhe cabe em tela. Praticamente um palanque. É, entendo: menos patético do que o discurso ararazul de William Waack. Menos?

Volto ao “Canal”: à mesa, Ciro Gomes, um dos políticos mais bem-preparados intelectualmente da república. Perda de tempo tentar encurralá-lo com jogos de retórica fútil. A todo instante, entre quase desmunhecadas, Boris tentava “enquadrar” Ciro – e este, com sorriso alvar, falava o que queria. Faz pensar: até hoje, tento entender a fundo o que lhe fez deixar o PSDB (onde era o ponta-de-lança num futuro presidencial) para a labuta pública em partidos menores, onde é difícil se eleger. Tinha a faca e o queijo na mão, mas dispensou; se o fez por absoluta correção moral, é dos mais brilhantes e raros casos na república. Depois de vários rounds, Ciro venceu; um boxeur da argumentação como Boris, afetado e destrambelhado, não poderia ir à frente mesmo. De toda forma, a luta continua: Boris tem um excelente argumento para gastar nesta semana – a “intromissão” do governo brasileiro no golpe de estado praticado em Honduras, cujo presidente legítimo e agora abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa, Zelaya, conta com a simpatia de Hugo Chávez e Lula. Prato cheio!

Golpe é golpe. Lugar de golpista é na cadeia. Os chiliques de Boris poderão ser vistos na televisão, democraticamente, por conta de sua velha subserviência à ditadura militar. Quarenta e cinco anos depois, políticos e cidadãos brasileiros desconhecem por completo os princípios básicos do Estado democrático de direito.

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Causa-me espécie a verdadeira chiliqueira que tomou a televisão e boa parte da imprensa escrita desde ontem, quando Zelaya se abrigou na embaixada brasileira. Gritos e berros, clamando pelo aceite de um presidente legalmente eleito (com apoio da direita hondurenha) em ser um asilado e, portanto, impedido de participar do processo político do país. CHEGA DE IMBECILIDADE! HÁ UM GOLPE DE ESTADO EM HONDURAS. Qualquer cidadão de bem, com um mínimo de informação política, deve saber que não é rasgando a decisão popular que se ajusta qualquer situação política. E, seja onde for, a direita não hesita: se apóia um candidato que se elege e não reza por sua cartilha, o golpe é a solução. Relembrem os últimos cinqüenta anos da América Latina.

Claro que a “grande” imprensa, cooptada pelos grandes interesses econômicos de sempre, só poderia seguir por este caminho: o do apoio velado ao golpe. Em paralelo, os mesmos nomes bizarros do Senado brasileiro, já “livres” dos escândalos recentes, aproveitaram a pauta para as vociferações ridículas de sempre. Arthur Virgílio, aquele que queria surrar Lula, mas se “esqueceu” do “funcionário” de gabinete que manteve por anos no exterior, com dinheiro público. Agripino Maia, velho coronel e lacaio do regime militar. O Demósthenes, que é engraçado até. Todos urrando pelo papel supostamente terrível do governo brasileiro em coadunar com a situação de Zelaya. Ora, papel vergonhoso seria o de apoiar um golpe de estado, jogando o processo eleitoral no lixo! Quem apóia golpe é golpista. E lugar de golpista é na cadeia – aliás, lugar onde Arthur e Agripino já deveriam estar há tempos. O mais incrível nisso tudo é que, por conta das falácias, conseguiram ficar num plano inferior a Zé Sarney: o imperador do Nordeste, afundado até a lama em escândalos, teve lucidez suficiente para ir a público defender a participação brasileira na questão.

Políticos sujos e prostituição da imprensa são temas recorrentes em qualquer república que viva dentro da liberdade dos mercados alimentada pelo desequilibro na concentração de renda. Em qualquer país do mundo. Portanto, não é coisa que me assombre.

Duro mesmo é dar uma espiada nos jornais para ler os comentários dos “leitores” sobre o tema. Não parecem brasileiros, mas sim extraterrestres. Uma enxurrada de gente criticando o Brasil porque há uma clara insatisfação internacional contra o golpe de estado praticado em Honduras. Sim, claro, deveríamos nos “abster” hipocritamente, tal como faz o burguês ao ver o mendigo na calçada e, “distraidamente” atravessa a rua (qualquer semelhança é mera verdade). A mentalidade do “não-tenho-nada-a-ver-com-isso-e-eu-pago-meus-impostos” é uma das coisas mais pavorosas que já se instalou na sociedade brasileira. Cidadania vai além disso. O Estado não é um mero serviçal: todos fazemos parte dele. Sem contar a cegueira da questão esquerda x direita, quando o foco dos acontecimentos está em um GOLPE DE ESTADO REPUDIADO INTERNACIONALMENTE.

Não votaria em Fernando Henrique nem para ser figurante da minha rua, mas, uma vez eleito, que exercesse seu mandato até o fim (como o fez, com Sivam e Daniel Dantas no encalço). Não votarei em Serra nem morto, mas jamais defenderia sua derrubada do eventual poder. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade serviu para assassinar milhares de civis por ano no Brasil. Já era hora dos homens públicos terem um mínimo de decência ao se posicionarem sobre golpes de estado, seja onde forem. De toda forma, defendendo estas sandices, eles não estão no poder por decreto.

A culpa é dos leitores burros, que nunca leram nada além do jornal, aqueles lá de cima noutro parágrafo. A sociedade dos burros vivos.

Se o papel do Brasil na questão hondurenha está equivocado no formato, é uma coisa. No conteúdo, jamais. Não podemos coadunar com golpistas, quanto mais com a insensatez da mídia, de Arthur, de Agripino e outros dignos representantes da elite ignara. A primavera merecia coisa melhor.


Paulo-Roberto Andel, 23/09/2009

2 comments:

Pedro Du Bois said...

nem tão burros assim, caro Andel, são cientes das suas "espertezas", e da impunidade. Criam a (ir)realidade e nela se (des)habitam: para gáudio da platéia que, ao não entender nada, prefere acreditar (e crer) nas baboseiras que lhes vendem. Cada vez mais lembro da minha infância: quando no colégio - e em casa - nos diziam que os comunistas comiam as criancinhas. Abraços e parabéns pelo texto.
Pedro

Nara Janusz said...

Que bom que ainda podemos contar com pessoas como você que não tem receio de expor livremente o que pensa, e para mim, "pensa certo". Estou enojada com a imprensa brasileira, pelas distroções óbvias que vem fazendo de tudo o que acontece no cenário político nacional. Parece uma inversão clara dos valores que este mesmos (são sempre os mesmos) andam fazendo. É um festival de baboseiras. Como você afirmou, eu também digo: eu não votaria em FHC nem para síndico do prédio onde moro, também não disperdiçaria meu voto no Serra e vejo a mídia forçando a barra em direção a essas figuras. Parabéns pelo texto e claro, pelas idéias