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Friday, September 04, 2009

FLASHBACKS





















O CONCRETO DA FESTA

todos reunidos
todos reunidos
festa da ilusão

solidão

todos estão rindo
debochando e rindo
tudo soa em vão

depreciação

música gritada
corpos seduzidos
inaptidão

desvinculação

copos, tragos, fumos, balas
degeneração

p*tas, trouxas, broncos, vis
representação

festa da ilusão

decadência em vão

alma em contramão


O DEPOIS

depois do turno, o descanso;
depois da sova, o descenso;
depois da lua minguante,
depois do quarto crescente

depois do parto, criança;
depois da morte, esperança;
depois do beijo, a carícia;
depois do afago, a delícia;
depois do júri, a sentença;
depois da pena, o castigo;
depois do amigo, a presença;
depois da crença, o perdido

depois do ardor, brisa fina;
depois da sina, tenência;
depois do gozo, o conforto;
depois do fardo, a leveza.


RAP RETO

tudo no manto reto, completo,
exceto o incerto,
para intervir discreto,
repleto no ato secreto,
retrato do fato incorreto e concreto;
portanto, noves fora nada,
tudo perto e deserto.


DEFERENTE

acende feito água,
refresca feito fogo;
alumia toda noite,
adormece vespertina;
brada em trinta silêncios,
sussurra em cem decibéis.
é mansa de loucura,
vulcânica em poemas;
recusa meus amparos
pelo aparato da carência.
no fim das contas,
no raiar do farto dia,
não foge da minha mente,
tanto em foz quanto nascente:
ela é deferente!
ela é deferente!


COISA

coisa empilhada/ organizada/ restrita?/ há coisa prática, vã temática enrustida/ desenrolada, complicada, arredia/ a coisa mole que escorre pelo ralo da pia/ há piedade numa coisa feita com galhardia/ fidelidade hoje mora numa casa vazia/ enquanto o homem corre e cria muitas coisas por dia/ há coisa plácida, errática, translúcida, vadia/ o tempo é coisa contra a qual lutar é causa perdida/ a vida fútil é uma cousa inútil por analogia/ casa caiada por matizes que não brilham sozinhas/ o caos das ruas é aspecto de coisa encardida/ pelo desdém/ pelo descaso/ rimados com apatia/ a coisa tem mão estendida por miséria de esmola/ a coisa tão dissimulada passa e nunca dá bola.


TRANSAMOR

amar –
verbo intransitivo em transe,
tão indefinido em foco;
ânsia e fôlego por romance,
efeméride a cada facto.


DELÍCIAS DO MUNDO

a fruta nua, sem pêlo;
a casca crua, empilhada;
o prato róseo, um espelho;
a faca rija, afiada.

a boca, o gosto, o anseio;
rodeio lancinante de tes*ão.

a mordida quente, provocante –

maçã despida, empinada;
saborosa musa deflorada.


CALMA!

era um basta! assanhado,
até que um calma! ousado
o assediou

doravante, entenderam-se
sobre inefável caminho
onde havia, claramente,
mortos e feridos –
os pensamentos bruscos.


NUVEM DE NEGRUME

oh, nuvem negra,
és tu a emanar desamparo
aos que vão perder?

há tempestade no teu ventre
e tu flanas tão vadia,
para a dor dos miseráveis,
enquanto os insensíveis
te desprezam em sossego –
e fazem das grandes cortinas
a porta em tua face crua.

és tu, nuvem negra,
a promessa ingênua,
a receita vulgar do novo dia?


AUTO-FLAGELAÇÃO

é certo que não tenho sido um homem bom

minha oferenda aos hipócritas veio servida
numa bandeja de prata e desprezo frio

os egoístas sorvem meu cálice,
mas suas papilas só esbarram em fel;
os que entregam descaso em minhas mãos
têm como réplica minhas frases menores -
todas feitas de cuspe acre, asqueroso

não tenho sido um homem bom

falta-me compaixão para com a vastidão
das imundícies humanas –
e, por conta disso, uma bússola em meu peito
segue astuto norte por discreta coerência


paulorobertoandel

6 comments:

Carlos Peroni said...

Gostei muito do primeiro e do último.

Como diria Carlos Alberto para Golias "MESTRE!!!!"

Mariana said...

Paulo Roberto passei aqui para desejar-te um ótimo fim de semana.
bjs

Mariano P. Sousa said...

Cumpade Paulo!
Sempre bom passar aqui e viajar em ricos versos, em brilhantes poemas!
Grande abraço Mestre!

Antonio Paulo said...

Boa noite meu mestre sensacional o amigo esta mais para mineiro rsrsrrs vem devagar mas quando vem diz o porque. Um abraço te cuida estas na corda bamba rsrrsrs. Bom final de semana.

Pedro Du Bois said...

Caríssimo Andel,
belos poemas, um especial, para mim:

"oh, nuvem negra,
és tu a emanar desamparo
aos que vão perder?

há tempestade no teu ventre
e tu flanas tão vadia,
para a dor dos miseráveis,
enquanto os insensíveis
te desprezam em sossego –
e fazem das grandes cortinas
a porta em tua face crua."

abraços e bom feriadão,
Pedro

Lau Milesi said...

Awesome, como sempre.

"Biscoito Fino", "Sinistro", "Pinguin".rs

Beijocasss