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Sunday, December 24, 2023

Noites no campo

Quando a noite cai na véspera de Natal, o silêncio das ruas ecoa. As pessoas ficam em casa ou na de terceiros, a turma sem casa é apagada do mapa e tudo fica diferente porque nós, cariocas, sabemos estar numa cidade pra lá de ruidosa. Agora, nas ruas, tudo é silêncio. 

Gosto. Gosto sim. Gosto do silêncio. Sempre gostei. Adoro música, sons, conversas, mas sou cada vez mais do silêncio. E uso o WhatsApp para conversar com poucos colegas. 

Meu referencial de silêncio sempre foi vinculado ao escotismo. Foi um tempo tão marcante para mim que me acompanha até hoje, embora seja muito difícil para um legítimo escoteiro viver nessa terra de ódios, egoísmos e muita ingratidão. Mas o que importa é falar do silêncio.

Mesmo quando acampávamos em propriedades fechadas, a ronda noturna era uma atividade obrigatória que os escoteiros se revezavam durante a madrugada. Em muitas ocasiões, facilitei a vida dos colegas e fiz a ronda além do meu horário, ou dobrada e até triplicada para mim. Eu me sentia bem ao ficar alerta contra qualquer problema, me sentia útil e, além do mais, ficava preocupado também por ser um dos mais velhos - dezesseis anos, ahaha. 

Em certo momento todos do acampamento dormiam, exceto o pessoal da ronda, e então o silêncio dominava todo o cenário do campo. É preciso estar atento até porque podem surgir pequenos animais no caminho. No silêncio você escuta as folhas das árvores balançando, o vento cortando a relva fina, passos ao longe. É um outro mundo sensorial. 

Numa vez foi engraçado: acampávamos em Vale do Sol, imediações de Papucaia, com bastante espaço mas vizinho de gado. Incrível que, num acampamento de três noites, em todas uma vaca teve insônia e se aproximou da ronda. Estávamos sentados, ouvindo música baixinha no rádio que eu sempre levava e bebendo vinho - ok, menores infratores. A vaca vinha, ficava na dela paradona, meio que nos observando, até que soltava um mu, dava mais um tempo e ia embora. Ela vinha devagar, parava, se manifestava e saía. Nós achávamos graça. Tudo era paz.

Numa das últimas noites que acampei por lá, eu estava sozinho e o parceiro da ronda ainda ia se levantar. Todos roncavam tranquilos depois de um dia intenso de atividades. Os chefes foram para um bar fora das chácaras. Eu olhava o silêncio, a imensa escuridão, ouvia todos os sons discretos. Desta vez, sem a querida vaca. Havia um pouco de vento frio. O rádio sempre baixinho, acho que tocando Stevie Wonder, tenho quase certeza. 

Subitamente, com seus passos delicados de bailarina, uma das nossas colegas se aproximou e perguntou se poderia ficar ali pois tinha perdido o sono. Claro que podia. Ela se sentou ao meu lado, sorriu e embarcou no silêncio. Falamos poucas coisas e continuamos a espiar a imensidão da natureza em frente ao acampamento, que é uma das lindas imagens que carrego comigo em fotografias da memória - o som e o rosto das noites no campo. Com mais frio do que eu, ela puxou a minha mão para esquentar a sua, realmente bem gelada. E ali ficamos por muitos minutos os dois, olhando para o infinito como se fosse o futuro a nos esperar ou o início de uma longa, longa trilha. Um garoto e uma garota no esplendor da juventude, mergulhando em sonhos indescritíveis enquanto se protegiam com as mãos dadas. 

Essa noite tem quase quarenta anos. Aquele mundo não existe mais, mas as conexões que existem por aí me permitiram voltar a um grande tempo de boas lembranças e pequenas cenas inesquecíveis para quem as viveu e sentiu. 

@p.r.andel

Saturday, December 23, 2023

"Feliz Natal"

São dez da noite de sábado, antevéspera do Natal e sinal de fim do ano, tal como medimos pelo calendário. 

Em nome da família e de Deus, fazem uma covardia sem dó no mundo, no país e no que sobrou dentre os escombros do Rio. 

Shopping centers lotados porque é preciso comprar produtos, presentes, roupas novas, iPhones, calçados e, do lado de fora, garotos - quase todos pretos - oferecem balas para terem o que comer. 

Numa cidade com milhares de unidades habitacionais fechadas, as pessoas sofrem com o despejo, a situação de rua e todas as suas decorrências. 

Depois do ódio de janeiro a dezembro praticado nas redes sociais, nos ambientes acadêmicos, corporativos e diversos, então falamos de paz, de um mundo melhor, mas a verdade é que pouquíssima gente está realmente imbuída desse desejo e disposta a agir - de palavras ao vento, bastam as minhas. 

Desde que eu era um garoto e ia ao açougue comprar carne moída para minha mãe fazer bolinhos com pão, salvo raros momentos, senti que houve alguma melhora. Falo de 1980, são mais de 40 anos. Coisas boas no governo do Brizola - que o povo ingrato fez questão de c$#g@r com o golpista Moreira Franco. E o segundo mandato do Lula, onde realmente os pobres, pobres mesmo, iam ao mercado comprar carne. E só. Aumentou o número de armas, de mortes violentas, do consumo de drogas pesadas (cocaína pra cima), tudo de ruim. 

Em boa parte da cidade, a lei é da milícia e pronto. Sucessora de velhas atrocidades como Homens de Ouro, Scuderie Le Coq etc. Matam, estupram, humilham, agridem e o Estado nada faz, porque a milícia Ė o Estado. De tempos em tempos, a violência das zonas norte e oeste bate na sul, mas logo vem uma limpeza tapa-buraco. 

Ok, depois das desgraças dos últimos anos, o emprego aumentou no Rio. Mas é precarizado? Os salários são achatados? Sem poder de compra o consumo é restrito e comprometedor do sistema. A maioria mal sobrevive, mas como parte da turma está no shopping numa boa, dane-se o resto. 

Não precisa falar de racismo, etarismo, homofobia e gordofobia, né? Estão por toda parte, né? E também tem a turma que, sob a alegação destes males, procura criar outros. Oportunismo e cinismo definem. 

Fique bem. Se cuida. É a maneira educada de dizer "te vira". Não é? 

Vamos comprar os tubos de comida, encher a cara até cair, ficar muito loucos e depois poderemos xingar o mendigo que faz xixi no muro porque é "porco", não é verdade? Temos milhares de banheiros públicos, não é verdade? 

A gente deixa a criança sofrer na rua, perder os pais, passar todas as humilhações e depois, quando ela vira adolescente e com violência, queremos que morra na cadeia. Não temos compromisso com justiça, apenas com vingança. Na véspera de Natal a gente dá uma boneca vagabunda, um bife com arroz e se orgulha do nosso grande feito social, esquecendo que as pessoas precisam comer diariamente. 

Paz? Como se pode ter ter paz? É sério? 

Lembram daquela conversa patife? "Depois da pandemia, voltaremos melhores, mais solidários". Permitam uma sonora gargalhada. 

Para quem puder ter um Feliz Natal, meus parabéns e considerações. Não estou aqui para atrapalhar a festa de ninguém, apenas tentando mostrar por que eu não fico feliz neste momento. Eu tenho minúsculos momentos felizes quase todo dia, mas o que prevalece é a minha tristeza, porque lutei tanto, fiz tanto e não consegui ajudar a mudar a vida de tantos e tantos sofredores, inclusive eu mesmo, mas fracassei. Cansei. 

Que as crianças bem criadas tenham um bom Natal e cresçam com valores de companheirismo e solidariedade, nem que parta das próprias. Infelizmente a maioria só apanha da vida. Sofre, sofre, sofre. 

Sem espírito de equipe e coletividade, o mundo nunca deixará a escrotidão.

@p.r.andel

pedra

já quis ser uma pedra bem grande. 

daquelas do Parque da Cidade, que eu escalava quando era criança.

uma pedra tranquila, à sombra, sem medo de virar brita.



não durmo direito

não durmo direito. eu não durmo direito há muito tempo. nem sei dizer quando foi a última vez. há muitos motivos para isso, mas não vou falar deles agora. a única coisa certa é que passo os dias com dor e cansado há anos. não tenho uma noite de sono tranquilo em paz e não há a menor expectativa de que isso se estabilize em breve. é uma derrota. 

ao contrário do que pensam, o Fluminense não me tira o sono. mal ele acabou de ganhar ou perder, eu não gasto tempo me vangloriando nem me martirizando. penso sempre no próximo jogo e, apesar de estar muito cansado, agora só tem futebol pra lá de janeiro, então os dias são mais difíceis.

acaba o ano, não tenho hoje a menor saída para uma série de problemas e talvez o pior de tudo: se alguma coisa ruim me acontecesse agora, quem me acudiria? provavelmente ninguém. passei a vida inteira ajudando as outras pessoas mas raramente fui ajudado, muito raramente. parece a sensação de estar numa estrada dirigindo com os quatro pneus gastos e sem estepe. bem difícil. 

não é pra me vangloriar, até porque isso é inútil, mas não são nem seis da manhã e estou pensando: ouvi muito mais do que fui ouvido, ajudei muito mais do que fui ajudado, passei a bola muito mais do que recebi. dá uma sensação de tempo perdido, ainda mais quando chega essa época de hipocrisia da paz, da família, do final de ano. todo mundo sabe que a solidão e o sofrimento estão por tira parte. falam de paz e bombardeiam crianças em hospitais, enquanto aqui perto milhões de crianças pedem esmolas e passam fome.

quem me acudiria? ninguém. mesmo quem pudesse. a verdade é que muitos seres humanos não estão nem aí para ninguém e, por isso, estamos desse jeito aí. 

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pra mim, Paola Oliveira sempre foi uma das mulheres mais bonitas do Brasil, além de ótima atriz.  

vê-la sendo xingada e atacada na internet é a demonstração da selvageria e da idade da pedra que hoje vivemos. 

idade média com smartphone e tribunais de justiceiros por toda parte. 

Tuesday, December 19, 2023

Sanduíche

Eu gosto muito de sanduíche. Qualquer sanduíche, dos mais abonados aos mais simples. Sou capaz de lembrar de grandes momentos enquanto comia um sanduíche. Certa vez passei o Ano Novo lanchando no Gordon, eu, Fredão e as garotas. Nunca me esqueço de um funcionário extremamente atencioso que se chamava Misaque, e o Flu tinha acabado de ser campeão. 

Engraçado que nos acampamentos escoteiros nunca tinha sanduíche, no máximo pão com manteiga de manhã, isso quando não o fazíamos. Acho que na volta sempre me dava vontade de comer um sanduíche. 

Basta um bom pão ou uma fatia de qualquer coisa e o sanduíche fica ótimo. Pode ser com pasta ou patê. Agora lembro de um que minha mãe fazia pra mim numa época em que estávamos muito pobres, muito pobres mesmo. Tadinha, ela comprava uma lata de sardinha, um tomate e uma cebola, picava tudo e fazia os recheios. Ela sofria muito, mas o sanduíche era tão gostoso que eu o como até hoje, mesmo lembrando daqueles tempos de enorme dificuldade.

Quando comecei a ir ao Maracanã, eu era pequenininho e não entendia o futebol, mas já era Fluminense e ficava muito contente quando meu pai comprava um cachorro quente pra mim. Minhas primeiras memórias tricolores são gente comemorando gol, a linda camisa tricolor e meu impecável cachorro quente Geneal. 

Quinze anos depois, eu contava as moedas para sobreviver na faculdade. Nem sempre dava pra almoçar, aliás quase nunca dava. A saída então era um lanche barato: íamos para o terceiro andar, na cantina da faculdade de Física. O prato principal era pão com ovo e salada mais limonada. Era baratinho e delicioso. Eu gostava tanto que pensava o seguinte: se um dia ficasse rico, ia contratar a lanchonete só pra mim, numa casa para que eu pudesse lanchar enquanto descansasse. 

Copacabana tinha a maravilhosa Sorveteria Bolonha, que tinha um cheeseburger sensacional e um mate delicioso, que rivalizava com o tanquinho da praia. Era uma lanchonete simples, barata e com ótimo atendimento. Aguentou ditadura, inflação, Nova República, novo golpe e o escambau, mas não resistiu à pandemia. Esquina de Constante Ramos com Barata Ribeiro. 

Anos atrás, faleceu um botequim na galeria do saudoso Cine Veneza. O bar vendia sanduíche de frango assado. Havia uma pequena frangueira, picavam o frango para o recheio e também serviam em porções. Era enlouquecedor. 

Em momentos de grandeza e miséria, na alegria e na depressão, em dias desesperadores e cheios de esperança, tanto faz, uma coisa é certa: um sanduíche sempre esteve perto de mim como se fosse o melhor amigo, matando minha fome, me dando satisfação. Hoje mesmo acho que vou fazer um. 

É bom demais.

Sunday, December 17, 2023

Tchau 2023 antecipado

Está acabando o ano. Descem os últimos grãos da ampulheta. 

Incensados pelo mundo que nos determina datas, términos e começos, recomeços também.

A gente olha pra trás e, se pensa minimamente no próximo, sente o peso da tragédia. Ódio por todo lado, miséria sem fim, violência, guerras urbanas e nacionais (com os ingênuos acreditando em Bombom x Maumau). Gente a sofrer e a se desencontrar por todo lado. Os desamores, a aspereza do cotidiano. 

Outra coisa chata: se decepcionar não com os comuns, mas em quem você acredita. Infelizmente a vaidade, a empáfia, o egoísmo e a hipocrisia são roupas que muita gente veste com facilidade, pouco importando se o discurso era outro. O ditado é popular mas sincero: falar, até papagaio fala. Agora, fazer... É como a distinção entre ser bom e realmente fazer o bem. Uma diferença significativa. Tem muita gente boa mas pouca gente fazendo o bem, o que é um problema. 

Pelo menos há pequenas compensações. A gente se revigora com filmes, discos, shows, jogos. Isso ajuda a aliviar a alma, tentar dormir e buscar a sobrevivência no dia seguinte. Os poucos amigos sinceros, as boas conversas, os breves amores e admirações. É isso que nos sustenta, ao menos enquanto respiramos nestes ares. Precisamos de educação e cultura, precisamos de arte mas também de entretenimento e lazer. Muito. Ah, menos mal que, com todos os problemas pela frente, o Brasil se livrou da ascensão n@z1. Contudo, há muito a ser feito. 

Football: ao contrário do que boa parte da mídia esportiva queria, amanhã o Flu se arrisca a chegar à final do Mundial. Vai rolar. Há muita coisa a ser dita por isso, mas agora não é momento. Fica para depois. Vai, Fluzão.

Tive um ano horrível, mas ainda assim consegui publicar três livros que estão agradando muita gente. Sem falsa modéstia, gostei do resultado dos três. Fiz dois sozinho e um com a colaboração de colegas, fizemos um lançamento bonito. Se tiverem sido os últimos, fiz bem pacas. Se não tiverem, melhor ainda. Roll the bones. 

De 2024, eu só queria sobreviver em paz, mas este é um dos bens mais preciosos e raros do mundo. Quem está em paz permanente? É muito difícil. Mesmo. Mas, ainda assim, se a cada dia o mundo for menos ruim para a maioria das pessoas, já está bom. É um consolo.

O resto? Menos é mais, como dizia Miles Davis. Mais ouvidos e menos fala, mais sinceridade e menos gente, antes só do que mal acompanhado. Quem não te abraçou nas piores horas não precisa de perdão, nem de proximidade. Quem te deixou na pista, que seja feliz mas longe. O que passou, passou. Na longa caminhada, o que importa é encontrar a nova fonte de água limpa e, de preferência, à sombrinha.

Por aqui, há centenas de pessoas boas, com as quais interagi e muitas vezes percebi seus problemas. De simples palavras de força até assuntos mais complexos no privado, tentei fazer o que pude e sei que é muito pouco, mas era o que eu tinha a oferecer. Desejo que todas tenham vidas e vivências melhores em 2024, de coração. 

Que a vida seja menos difícil para a parte sofrida da raça humana. Que os animais sejam mais respeitados. Fim.

@p.r.andel

Sunday, December 10, 2023

Lançamento do livro "Pasión Libertadores"










historietas de vida ou morte

1

Não tenha dúvidas: os mesmos filhosdasputas que te negam a mão, o abraço ou a ajuda, serão os mesmos que irão chorar em público caso você morra, especialmente se for de modo súbito, inesperado, ou por suicídio. Vão chorar, lamentar, dizer que você era muito bom, que será insubstituível, vão dizer que é muito injusto. Na verdade eles não vão chorar por você, mas sim por se lembrarem da própria escrotidão. Eles não estão nem aí que você morra ou não. Nem aí. 

2

É assustador quando você se dá conta de que, embora não seja tão velho mas já tenha uma certa estrada, praticamente todos os seus grandes amigos, verdadeiros amigos - não colegas, amigos mesmo com os quais pode contar em qualquer situação - estão mortos. Definitivamente mortos. Você se lembra das conversas, das brincadeiras, das barras pesadas, de tantas histórias e num segundo um dedão cutuca seu ombro ao mesmo tempo em que surge uma voz imaginária: "Ei, são só lembranças. Divirta-se, mas não se esqueça: eles estão mortos". E essa talvez seja a mais dolorosa e desesperadora das verdades do mundo. 

3 

Existe muita ignorância a respeito do suicídio e dos potenciais suicidas. Nos tempos modernos, o que importa é o lugar de fala, não é? Ok, eu o tenho. Em 1984, aos 15 anos, eu abri o gás do apartamento onde morava e, por algum impulso inexplicável, já um pouco tonto com o cheiro forte, desliguei. Desisti sem pensar. Eu tinha motivos para prosseguir e para parar, e não dá nem para dizer que foi o medo, no máximo o instinto. Meus pais morreram sem saber disso, meus amigos de verdade - aqueles mortos - também não souberam. Não ter morrido significou salvar minha família entre 1995 e 2008, época em que meus pais adoeceram progressivamente até a morte. Eu segurei a barra. Agora, ninguém vai fazer isso por mim e, vivendo agora os piores anos da minha vida - o que chega a ser incrível, pensando em tantas outras épocas ruins - tenho pensado em suicídio diariamente há mais um ano. Isso não me impediu de fazer coisas boas, trabalhar, produzir, ajudar muita gente (sem contrapartida), amar, rir, talvez ser amado. É um velho desafio que tem quase quarenta anos: eu e o suicídio, um de frente para o outro, um vai derrotar o outro, ninguém sabe ao certo o dia ou o resultado. 

4 

Quase todos os reacionários que conheci eram - e/ou são - incapazes em enxergar o mundo à sua volta. Geralmente partiam da premissa de suas experiências pessoais, sem perceber o quanto foram privilegiados num mundo onde mais de um bilhão de pessoas não tem sequer água. E justamente por causa das premissas pessoais, invariavelmente eles ofereciam uma, digamos,  supervalorização de seus feitos pessoais, mesmo que fossem coisas sem a menor importância. 

A maioria era de homens e mulheres bons, só que incapazes de perceber que a sociedade vai muito além da própria família, do condomínio e da rua, e que isso não se resolve só com o mercado e investimentos. Em condições normais, indignar-se com a fome, a miséria e a violência deveria ser uma obrigação coletiva, mas aí está o problema: pelo menos no Brasil, a coletividade é quase sempre desprezada.

Todas as vezes em que, com alguns deles, debati estas questões, a resposta foi o silêncio. Nenhum deles parou para pensar que o desprezo aos excluídos levava a muitas e muitas mortes, vide a questão da COVID 19 por exemplo. Continuo achando que não era má fé, mas simplesmente uma incapacidade de refletir a respeito.

5

Ao mesmo tempo em que acho que há muito a ser feito, também penso que o melhor já passou, que a situação é grave demais e, se nada mudar para melhor nos próximos dias, a única saída é ir embora.

6

Não existe democracia de verdade com crianças fuzilada na rua, calçadas cheias de gente morrendo a céu aberto e o ódio plantado em cada esquina. 

Não adianta que os mais abastados simplesmente fiquem em ilhas isoladas, desprezando o resto.

Um dia a conta chega. Aliás, já chegou. Não adianta fingir nem fazer cara de paisagem.


Figuras deploráveis

Ela é bonita? Ótimo. 

Não é muito? Ótimo também. 

É gorda? Gordinha? Baixinha? E daí? 

Ela, ele, tanto faz. Magrelo. Careca.

Cada um tem seu jeito, sua forma e seu estilo. Pronto. 

O preconceito estúpido é que destrói convívios, impede relações, trava amizades. Somos uma das sociedades mais hipócritas, mesquinhas e preconceituosas do mundo. 

Como bem versou Cazuza, temos uma horda de caboclos que querem - ou queriam - ser ingleses, zombando dos mais humildes, dos mais pobres. 

Na maior parte das vezes, esses inúteis sequer construíram alguma coisa para se gabar: vivem do dinheiro alheio, de heranças, de mesadas e se dependessem da meritocracia que tanto defendem, estariam na rua pedindo esmolas igualzinho aos mais pobres, que eles tanto detestam.

Odeiam o preto, o pobre, o gordo, o nordestino, o supostamente feio. 

Um idiota preconceituoso precisa atirar para todos os lados. Seu oxigênio é o fel que descarrega. 

Natal da hipocrisia

Como sempre, está chegando. Enquanto o Brasil é uma grande pátria desimportante cheia de crianças tomando tiros da polícia no peito, cheia de gente chorando de fome nas ruas, cheia de potenciais suicidas em desesperança, um bando de nazistas vem falar de Papai Noel, de amor e família, de Deus, de maneira totalmente alheia à desgraça do país. Pessoas sem uma gota de empatia, sem o menor sentimento bom em relação ao próximo. Têm nojo de pobres e, para se distinguir na ocasião, gostam de ostentar breguices que imaginam ser sofisticadas. Festinhas ocas para entorpecer corações medíocres. Medíocres pra caraio! 

Nunca se esqueça: todo mundo pode fazer o bem de verdade e transformar a vida de alguém ou de muita gente. Basta ter vontade e caráter. 


Saturday, December 09, 2023

Um pouquinho de arte

Em plena madrugada escuto músicas com as participações de Maurice White, Nicolette Larson e Scott Weiland. Cada um de um tempo, uma década.

Maurice White foi o rei negro do funk. Sua banda e criação, o EW&F, ainda toca pelo mundo afora. Seus arranjos de metais estão entre os mais intrincados de toda a black music.

Dependendo da foto, Nicolette Larson podia ser bonita ou linda demais. Sua voz está em tantos e tantos registros belos. Um deles é com Christopher Cross, em "Say you'll be mine".

Scott Weiland era A voz. Quando disparou seu raio de trovão em "Plush", o mundo inteiro parou para ouvir. Eu fiquei eletrizado. Ao mesmo tempo em que coisas ruins aconteciam comigo naquela época - e não foram poucas -, havia outras boas. A música era uma efervescência. Os Stone Temple Pilots fizeram dois excelentes álbuns e seguem tocando a vida, mas assim como a bela Nicolette, Scott se mandou cedo demais. Aprontou muito, um dia a conta veio. 

A arte registrada precisa ser séria, comprometida, vibrante. Livros, discos, telas, instalações. É o caso dos três acima: são artistas mortos mas suas artes permanecem com muita força. Maurice e Nicolette tiveram grande força nos anos 1970, Scott nos 1990, e todos podem ser bem ouvidos no YouTube e outras plataformas com enorme qualidade. 

Sinceramente, eu não sei quanto tempo vou aguentar dormindo duas horas por noite, mas pelo menos a música acalma, traz lembranças boas, ajuda a esquecer que a vida humana está marcada pela hipocrisia e o descaso. A arte eleva os corações, não resta dúvida. 

Cinco da manhã, já está clarinho, o ano está acabando e parece que o mundo também. Hoje é sábado, não tem jogo, fica um certo vazio e vou tentar cochilar um pouquinho daqui a pouco. 

II

Dez horas depois, resolvi fazer o que não fazia há anos: ouvir música no rádio. 

Melhor dizendo, na TV. Há vários canais, cada um com um estilo diferente. 

Comecei pelo jazz, mas achei que havia standarts e obviedades demais. Não que não fosse bom, mas é que já ouvi demais.  Escutei uns seis temas e resolvi mudar. 

Rock clássico. É, eu era tão garoto outro dia e agora ouço rock clássico, de 30, 40 ou 50 anos. Não me deixo abater por qualquer etarismo: foi e é bom demais. 

Em pouco tempo, batem à porta sonora "This is not America" com David Bowie, "Afterglow" do Genesis, "Passion" com Rod Stewart e "Fake plastic trees" do Radiohead. Fui e voltei nos tempos. O de escoteiro, o do começo da faculdade, a adolescência. O tempo dos LPs na casa do saudoso Fredão com o também inesquecível Luiz Magno. As garotas no sofá da sala escutando música encostadas nos nossos ombros. 

Então vem o Soul Asylum com "Runaway Train" e só de pensar nos anos 1990 me vem uma pequenina lágrima de alegria. Tudo aquilo está distante para sempre, mas basta tocar uma canção e logo você se lembra de toda uma época. 

@p.r.andel

Wednesday, December 06, 2023

A procissão da bola

Numa quarta-feira à tarde qualquer de 1980 ou 1981, 1982 também, a gente jogava bola na Lagoa. Éramos poucos, uns cinco, número insuficiente para o campão de terra, então improvisávamos na quadra de futebol de salão. Gol dentro da área e tal.

Vínhamos de Copacabana caminhando. Siqueira Campos, Tonelero, túnel, Pompeu Loureiro, Corte do Cantagalo. Não tínhamos exatamente a bola de futebol de salão, porque era mais cara e não podia ser usada em outras possibilidades, como a pelada na Vila - rua Tenreiro Aranha, hoje ocupada pelo metrô - e, claro, futebol de praia. Também tinha a saudosa quadra do Corpo de Bombeiros na rua Xavier da Silveira, que geralmente alugávamos para jogar no domingo de manhã com a turma dos escoteiros.

Às vezes o jogo era completado por algum garoto por perto. Não gostávamos dos mais velhos, quase sempre eram arrogantes e grosseiros, mas eram a única saída. Tudo pertinho do Parque da Catacumba. Tínhamos nossos ídolos e tentávamos imitá-los na quadra. Eu imitava o Edinho, aliás imito até hoje quando o assunto é seriedade e compromisso, itens nos quais ele era especialista em campo. Muitos queriam ser Zico ou Júnior, outros Roberto. Ou Mendonça, ou Leandro. 

Normalmente a pelada começava umas duas da tarde e ia até às cinco. Com o sol caindo, então iniciávamos nossa procissão da bola até a Siqueira Campos, em Copacabana. Tínhamos um ponto regular de parada, um posto de gasolina que ficava aos pés do Corte do Cantagalo, hoje ocupado por um grande prédio. Bem, comprávamos um litro de refrigerante, distribuíamos os copinhos de plástico e nos refrescávamos. Às vezes parávamos num botequim ou padaria mais à frente, já em Copacabana, mas a regra era o posto de gasolina. 

Jogamos muitas vezes na Lagoa e foi muito bom. Não me lembro da primeira, mas tenho certeza da última. Foi em 05 de julho de 1982, logo após a vitória da Itália sobre o Brasil na Copa do Mundo. Era feriado, tudo estava fechado, e nós fomos o que deveríamos ser ali: garotos bondosos, apaixonados por futebol, tentando esquecer a tristeza daquele jogo. Todo mundo chorando, as ruas desertas, juntamos meia dúzia e fomos para a Lagoa. Não havia carros, nem ônibus, nem pedestres. Você não via sequer os porteiros dos prédios. Era um ensurdecedor silêncio de morte. Chegamos à Lagoa deserta, começamos nossa pelada que durou uns vinte minutos, até que o Marco deu um chutão para longe e a bola se afogou n'água para sempre. Perdemos a pelota, droga. 

Voltamos a pé, não havia o que fazer. Quando fomos comprar o refrigerante no posto, o bar estava fechado. Subimos e descemos o Corte do Cantagalo, éramos nós e o silêncio da rua. A padaria da Bolívar também estava fechada, então entendemos que não era dia e voltamos pra casa com sede. Só depois fomos entender exatamente o que era aquele dia para o sentimento popular. 

Por alguns anos, o futebol na praia e no Corpo de Bombeiros comeu solto, mas na Lagoa nunca mais voltamos. Não foi planejado nem combinado, simplesmente deixamos de ir. Claro, ficou na nossa memória o trauma daquela derrota quase inimaginável, mas nunca falamos disso. Simplesmente aconteceu.

Entretanto, se a dor do Sarriá ficou para sempre, a alegria pelo futebol permanece: não há cartola, tramoia ou intriga que interrompa a velha e irresistível mania do maravilhoso jogo de bola.

Tuesday, December 05, 2023

Para Dona Célia

Essa é uma história de muito tempo atrás, quase meio século. 

Eu me mudei para o prédio e fiquei amigo do Adão. Mais tarde, estudaríamos juntos. O nosso convívio mesmo foi aquela coisa de 1978 até 1981 mais ou menos. 

E tinha a Dona Célia, Tia Célia, mãe do Adão. Ela adorava minha mãe. 

É um tempo ao mesmo tempo difícil mas de boas lembranças para mim. Ao mesmo tempo em que tínhamos enorme dificuldade financeira em casa e meu pai apresentava problemas de alcoolismo, eu tentava me divertir como qualquer garoto: ia à praia, jogava bola, botão, brincava no shopping center - isso mesmo, tempo também morava lá. E naquele momento, o Fluminense passava a ser uma obsessão para mim. Poder comprar um botão, um escudo bordado, ler as notícias nos jornais, ouvir as resenhas esportivas, ir ao Maracanã. Tudo junto. 

Várias vezes Dona Célia levava a gente para lanchar cachorro quente no Aterro do Flamengo. Ficávamos fascinados, era uma verdadeira viagem. Ela tinha um Fusca e dirigia, nós achávamos um barato. Era um passeio simples, mas o tempo me fez dar ainda mais valor em poder comer um cachorro quente em pleno Aterro às dez da noite de uma segunda feira. A cidade já não era um poço de tranquilidade, mas era algo que uma mulher podia fazer com seu filho pequeno e o amigo dele. 

Noutras vezes, a gente ia pra praia no Leme. A água era tranquilinha, gelada, a gente lanchava biscoito Globo e bebia mate gelado do tanquinho, misturado com limonada. Eu ainda me lembro de olhar a beleza da praia de Copacabana vista do Leme. O Fusca era nossa espaçonave. Falando de 1979, lá estava o Fluzão de Wendell e Renato, de Edinho e Miranda, de Rubens Galaxy, Carlos Roberto e Toinzinho. E de Nunes. 

Nesta terça é o aniversário de 79 anos de Renato. Falei bastante dele na live do PANORAMA. E também é o aniversário de 13 anos do título brasileiro de 2010. Por sinal, neste mesmo dia escrevi as últimas páginas de meu primeiro livro, escrito sobre o Fluminense.

No mesmo dia, Dona Célia saiu de cena. Teve uma vida longa e um ótimo filho a seu lado. Ao saber de sua passagem,  fiquei imediatamente triste. A seguir,  pensando nas coisas que aconteceram hoje, mais as lembranças, percebi que muito do que falei hoje tinha a ver justamente com aqueles tempos do maravilhoso cachorro quente no Aterro. 

Tempos de meu querido amigo Adão Lamenza Salama, da Dona Célia e do início daquela obsessão que até hoje tenho pelo Fluminense. Tempos de um Aterro quase tranquilo, onde minha preocupação maior era economizar a mesada para comprar um botão, um becão ou goleiro. Tudo isso ficou comigo para sempre. 

Eu nunca vou me esquecer do Fusca fazendo a curva na Enseada de Botafogo. 

Monday, December 04, 2023

Para Lou Reed

Oh, são quatro horas da manhã e quase ninguém se importa. Quem pode, dorme. Quem não pode, sofre ou reflete.

Daqui do alto são quilômetros e quilômetros de silêncio, longe de significarem paz - há muitos perigos de morte, mas mesmo assim parece que, de longe, tudo está sereno. 

Já é tarde e as travestis da Augusto Severo bateram em retirada, exceto uma ou outra conjugando a sede do sexo e a fome do estômago.

Metros dali, a cidade ainda tem seu rastilho de sangue e morte. Na Beira-Mar, bandidos espancaram um garoto que morreu ontem. Foi difícil ver o sofrimento de sua mãe e a jovem irmã na TV. Mataram o garoto por causa de um celular, geralmente revendido por cem reais. 

Em vários pontos no coração da cidade a miséria prevalece. São muitas e muitas marquises cheias de gente sofrendo. Tirando abnegados admiráveis, a maioria nem liga. Esta não é uma cidade de solidariedade, pois. 

Onde estará dormindo minha garota preferida? 

Que fim levaram meus ex-amigos, depois que descobri que não passavam de colegas? Existe confusão.

Calmo, eu nem pareço alguém que tem um míssil apontado para a própria cabeça, prestes à explosão. Sem nenhuma ambição além de sobreviver mais algum tempo, só queria uma casinha, uma TV, geladeira, ventilador e celular. Uma cama e um pouco de paz.

Um calor dos infernos. Senhor! 

Ventilador. daqui, maravilhoso, me alivia e lembra uma turbina de avião. Bons tempos. 

O efeito do calmante e do Renitec começa a dar onda. Vamos derrotar a insônia. Vamo lá. Vàmonos.

Rio Selvageria

O ódio está por toda parte no Rio de Janeiro. Toda parte. 

Há tempos o objetivo do crime deixou de ser "apenas" roubar, furtar, assaltar. É preciso agredir, humilhar e matar rindo. 

Dia desses é que me dei conta de quantos livros e crônicas já dediquei ao Rio. Talvez no futuro me chamem de cronista carioca por isso. Nada foi planejado, apenas amo a cidade e já a vivi intensamente. Mas o que sinto agora é uma tristeza lancinante. 

Hoje está cada vez mais difícil. Às sete da noite não tenho ânimo para ir à padaria. Em qualquer lugar podem acontecer as facadas, tiros e porradas covardes. 

Há muito tempo é muito difícil aguentar a violência nas comunidades do Rio. Em vez de resolver este problema, o Estado preferiu democratizar o ódio. Só nos últimos dias, aí estendendo à Região Metropolitana, uma garota fuzilada covardemente em Belford Roxo. No Centro do Rio, um rapaz apanha absurdamente, para no hospital e... morre. Em Copacabana, mortes a faca, idosos apanhando até cair. Não é mais violência, mas selvageria. 

Volta e meia alguma autoridade debochadamente diz que não é possível colocar um policial em cada esquina. Um deboche idiota. Qualquer motorista que cruze a cidade sabe que, a partir do começo da noite, você pode passar por bairros inteiros e não verá segurança alguma. 

O Rio foi o Estado mais desgraçado do país desde o golpe contra Dilma. Enquanto o país timidamente apresenta sinais de melhora no emprego, o Rio tem um mar de gente passando fome, um mar de gente louca por crack e k2, um mar de gente que vai para o crime por inúmeros motivos, mas o principal é claro sem precisar passar a mão na cabeça de criminosos: o descaso. Esta é a cidade do descaso, descaso das pessoas, das instituições, de tudo. 

Falo brevemente do Centro porque sou morador há 30 anos, embora meu coração seja Copacabana. Há 20 anos eu conseguia cruzar a avenida Chile com meu amigo Maurício. Há 15 anos, eu vinha de chopes no Paladino a pé para a Cruz Vermelha. Há dez anos, eu sempre estava nos bares da própria Cruz, vários bons. Hoje tenho medo de sair depois das sete da noite, mesmo sendo grande, gordo e já tendo me defendido por aí. 

Não é mais violência. É selvageria. Tudo que há muito já aterrorizava parte da população oprimida na cidade partida agora é plural: você pode ser esfaqueado e trucidado até morrer em qualquer lugar. 

Parte da polícia é boa, honesta mas é sabotada e não consegue dar segurança ao povo. A outra parte contabiliza os lucros. 

@p.r.andel

Saturday, December 02, 2023

Coitado

Outra daquelas que a gente lê por aqui mas não conhece nenhum dos atores. Li ontem, sem saber como fui parar nos perfis. 

Morreu alguém. Na verdade um rapaz. Talvez um senhor. Tinha mais idade do que eu, mas não muita. Pelo visto, infelizmente houve suicídio.

Em sua última postagem, cheia de vida, os comentários pululavam. Choro, lamento, saudade, tristeza, mais lamento. Marcações. Inconformismo.

Gente em lamúrias, frases bonitas, muitas outras. 

Alguém dizendo que se afastou do falecido à toa e se arrependia. Várias adesões. 

Afinal, com tanta gente ali, será que algo poderia ter sido diferente?

Quem sabe um pouco mais de proximidade sincera, longe da robotização das redes sociais? 

Ou será que era apenas eu caindo na velha esparrela do tribunal do Facebook, julgando situações e pessoas que desconheço? 

Será que a vítima teve apoio e simplesmente saiu de cena porque, em muitas situações, o desfecho pior é inevitável? 

Ou será que tudo foi um grande descaso, feito esses que a gente vê no Brasil inteiro, no Rio inteiro, em Maceió, em qualquer bairro? 

Eu não quero julgar ninguém. Não quero formar nenhuma opinião. Não quero ser seguido, pelo contrário: estou precisando fugir e me esconder. 

Só acho que essas histórias têm se repetido demais por toda parte. Muita gente ceifando a própria vida de tão sufocada, oprimida e humilhada. E parece, só parece, que ao se deparar com uma tragédia sobre alguém próximo, a ficha cai e algumas pessoas se tocam do descaso ocorrido, mas aí já é tarde, tarde demais. 

O que provoca os afastamentos? Medo de pedidos? Dinheiro inclusive, dinheiro principalmente, mas não somente. Às vezes a simples companhia, ou ouvidos atentos, ou palavras, outras palavras. Pouca coisa. 

Sei lá, ando meio desconfiado de que temos meios de comunicação demais, mas comunicação de menos. É só um palpite. Muito passatempo e pouco entrosamento. Até o dia em que vimos aquele nome amigo ser muito procurado, várias marcações e, de repente, uma tristeza gigantesca. 

Abraços e beijinhos e carinhos póstumos sem ter fim. Tudo em vão, porque a vida é agora e não espera feito a solidariedade verdadeira.

@p.r.andel

Friday, December 01, 2023

morno sol

enquanto isso
o tempo rói 
as certezas
perto da tarde
entre silêncios 
indevassáveis
debaixo do 
morno sol

Short Cuts 3011

Passei pela Gomes Freire e espiei um botequim quase em frente à delegacia. 

À mesinha do lado de fora, um único senhor  com sua pacífica e solitária garrafa de cerveja.

Um senhor, bem mais senhor do que eu. Estou chegando aos sessenta (a conferir), ele tem perto de setenta. Sempre será um senhor, feito todos aqueles que vi em minha vida nos bares, feito aqueles admiráveis personagens que conheci no Sniff's e que agora estão quase todos mortos. 

Ele tem um silêncio e uma serenidade com seu olhar perdido na rua. O quanto tem vivido e sofrido? Será feliz? Eu também queria estar num bar olhando para o horizonte com serenidade, e é uma pena que minha vida esteja tão longe disso.

Eu pensava que um dia seria igual àqueles senhores que vi e conheci nos botequins. Uma coisa de bom humor e serenidade. São bens tão raros que consegui-los é benção. Um salariozinho para sobreviver, ter algum conforto, não precisar ter medo de morar na rua, poder comer um sanduíche de pernil numa boa. 

Um senhor sereno. Eu queria que fosse meu pai. Ser órfão é phoda, não importa a idade. 

Do outro lado da rua, na delegacia de polícia, tem um cartaz na parede denunciando uma milícia da região. Ninguém liga. 

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Diariamente.

Pessoas jovens e adultas andando com suas caixas de Mentos tentando vender, sem qualquer sucessos.

Olhares cansados e tristes.

Rostos chorosos nas calçadas.

Placas de vende-se e aluga-se em todas as quadras.

Pessoas cabisbaixas.

Promessas que não serão cumpridas.

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Numa sexta-feira meio nublada mas quente, penso em meus grandes companheiros mortos. 

Por não ter conhecido meus avós e tios, salvo uma vizinha e o avô de um amigo, só tive gente morta por perto depois dos 25 anos. 

Primeiro foi meu grande amigo Luiz Magno, o Loulou Lion, super baixista e piloto de helicóptero. Sou capaz de lembrar com exatidão a última noite que nos vimos. Eu voltava da faculdade quando o encontrei perto do Sniff's. Ele estava desesperado com a passagem recente de seu pai. Fomos para o corredor do seu prédio para conversar - ele tinha uma relação muito difícil com a mãe. Falamos de várias coisas, muitas coisas, éramos jovens adultos ainda tentando entender a desilusão do mundo. Lulu morreu um ano e meio depois. Soube chegando em casa, já exilado no Centro: minha mãe tinha ido a Copacabana, soube, voltou e chorava sem parar na sala. 

Lulu a chamava de mãe, assim como meu grande amigo Xuru, também falecido há 18 anos inacreditavelmente, também fazia. Minha mãe também se foi.

Já perto dos 30 e poucos anos, uma avalanche de gente morreu. Perdi tudo. Nunca mais me recuperei das perdas, tantas que foram. Então deixei de ser um escritor invisível e passei a publicar livros, dezenas deles. Alguns foram lidos por milhares de pessoas, outros por meia dúzia - provavelmente os melhores. Entendi que escrever já não era mais um hobby nem uma profissão pessimamente remunerada, mas talvez a única missão que posso cumprir com dignidade, enquanto ainda estou por aqui, nessa terra estranha e cheia de ingratidão. Agora mesmo, completamente dominado pela depressão, estou finalizando dois livros. É praticamente uma garantia de antídoto contra a morte. 

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Sinto falta de caminhar em Copacabana e no Centro. 

Falta de andar pelas ruas.

As da Grande Tijuca, quando eu era estudante. 

Ruas do Méier, procurando minhas musas da faculdade.

Ruas da Urca, charmosa e discreta. 

Há trinta anos já havia bastante violência, mas não se tinha medo de tomar facadas pelas ruas, nem de motociclistas, nem de ficar parado num ponto de ônibus. 

Havia medo, mas não o horror de agora. 

Sinto falta de caminhar e de voltar para casa com tranquilidade.

Aliás, tranquilidade é o bem mais raro. Nunca tive.

Tuesday, November 28, 2023

Em vão

A gente vai e vem. A gente é muito pequeno, minúsculo mesmo, diante do mundo, esse mundo tão cheio de tristeza e desilusão.

A gente é a nossa rua, a nossa vizinhança. Pais sortudos, que têm uma boa vida e são minoria, podem curtir a melhor coisa do mundo: seus filhos crianças. A maioria não consegue, mas pelo menos há momentos de amor. 

Num súbito, as crianças crescem, logo viram adultas - achando que isso é o máximo -, o tempo corre com velocidade supersônica e, quando se percebe, aquele menino já é avô, sentindo na pele a barra do etarismo. Quem é avô já não é mais neto nem filho: todos dizem adeus. E aí, justamente quando você está mais experiente, equilibrado e capacitado, te chamam de ultrapassado e o que sobra é o terço final de vida, quando muito.

Às vezes dá a sensação de que tudo é efêmero, que tudo é inútil, que perdemos tempo em busca de fama e poder em vão. Tudo passa. Tudo. 




Monday, November 27, 2023

Ah, Gabriel...

Sou fã de Peter Gabriel desde garoto. Ao contrário de 99% dos fãs do Genesis, eu prefiro PG em sua carreira solo, que considero das maiores da história da música, explorando novas sonoridades e incorporando elementos étnicos do mundo inteiro, mas o Genesis é o Genesis, eu reconheço. 

Também tem o seguinte: quando comecei ouvir a banda, Peter já tinha saído para a carreira solo. Eu comecei pelo Genesis já com Phil Collins nos vocais. Anos mais tarde é que retroagi aos álbuns da Era Gabriel. 

Bom, o fato é que nos anos 1980, PG ganhou o mundo de lavada com seu álbum “So”: fez os melhores clipes da época, como o do superhit “Sledgehammer”, lotou a grade da MTV e  foi um sucesso nas rádios do mundo inteiro. 

Justamente naquela época, após o primeiro Rock in Rio, a cidade virou referência para bandas de todas as partes. Antes, em 1988, Peter Gabriel se apresentou em São Paulo para um show da Anistia Internacional, ao lado de craques como Sting, Bruce Springsteen e outras feras. O Rio de Janeiro era um futuro palco óbvio, levou um tempo mas acabou acontecendo. Outubro de 1993, no maravilhoso Imperator no Méier. 

Naquele tempo eu era estudante da UERJ e já comecei a fazer meus planos para ir para o show. Juntar meu dinheirinho de estagiário para comprar ingresso. Vivíamos um paradoxo: enquanto eu sonhava com um emprego para ajudar minha família, sofríamos em casa com uma ação de despejo. A música, assim como o futebol, eram verdadeira morfina para mim. 

Peter Gabriel ia tocar no Imperator numa segunda-feira à noite, acho, provavelmente por ser a única data disponível num buraco de agenda entre shows pela América do Sul. O que importa é que seria maravilhoso vê-lo ao vivo, só que me aconteceu um problema inesperado: duas semanas antes da apresentação minha professora de Cálculo das Diferenças Finitas, a querida Mariluci, marcou uma prova decisiva para meus objetivos acadêmicos. Gelei. Não dava pra ir ao show, voltar de madrugada e fazer a prova. Meu sonho tinha ido pro buraco. 

Comecei a me consolar: o Rio já era um porto seguro para os artistas, eu ia perder aquela mas ele voltaria. Claro que voltaria. 

[Esperando aquele show há pelo menos dez anos…

Enfim, passou o final de semana, chegou o dia, a grande noite de segunda-feira e eu não ia para o show. Fiquei me preparando para a prova. Fiquei pensando em casa, estudei bastante, estava confirmado de certa forma, mas claro que minha cabeça estava no Imperator. Falo de 1993, um tempo sem vídeos, internet, nada. 

Na terça pela manhã, peguei meu ônibus 434, vou tranquilo para a UERJ bem cedinho, às 6 horas da manhã, com tempo suficiente para chegar com calma e me posicionar para a prova. 

Ao chegar no hall do sexto andar, vejo algumas movimentações. De repente, surge Madalena, grande secretária da faculdade e diz que não teremos mais prova,  já que a professora Mariluci não poderia comparecer por motivo de saúde. 

Me bateu mistura de tristeza, de raiva, de tudo que você pode imaginar. Claro, ninguém tem culpa de ficar doente, caso da professora, mas achei uma tremenda injustiça comigo. A turma da faculdade não entendeu direito, poucos sabiam quem era Peter Gabriel - a maioria estava ligada em axé music, grande sensação midiática daquele momento. Fui para a varandinha sozinho e provavelmente chorei. 

Ficou uma lacuna para sempre. Peter Gabriel nunca mais se apresentou no Rio. Um mês depois, mudei de Copacabana contra a vontade. Que porradas! 

Trinta anos depois, não tenho nenhuma chance de morar no meu bairro eterno, mas pelo menos a internet ajuda: Peter Gabriel está lançando um novo álbum, “I/O”, e lançou as faixas no Instagram. Dá pra ver tudo. São outros tempos, há algum consolo. 


Sunday, November 26, 2023

Ingressos caríssimos

O assunto é antigo e tem muitas vertentes, mas uma coisa é certa: ir a shows internacionais ultimamente exige a venda de um rim para se pagar um ingresso no Rio. Tá caro. Tá caro demais. 

Dia desses falei aqui sobre o Kiss. Em pouco tempo na adolescência consegui ir a vários shows espetaculares, sendo um garoto pobre e não precisando juntar um ano de mesada. Alguns deles: James Taylor em 1986, The Cure em 1987; Paul McCartney, David Bowie e Eric Clapton em 1980. Ok, dei sorte em alguns: o Metallica em 1989 eu ganhei do meu amigo Zé Maconheiro - que jamais fumou maconha, apesar do apelido, porque a namorada dele não queria ir. Em 1990, ganhei o ingresso do Hollywood Rock na rádio, por sorteio: Margareth Menezes (crush!), Eurythmics e… ninguém menos do que Bob Dylan. Nota relevante: gostaria de ter ido ao Motorhead em 1989, mas certa prudência me salvou daquilo que provavelmente foi a maior porradaria da história do Rio de Janeiro - isso enquanto Lemmy sentava a mão, ou diria nosso eterno Monsieur Limá: “O couro come”.

Resumindo: com uns tostões, dava pra ir numa boa aos shows internacionais. Claro, economizando e sem pensar em bebida, comida etc. 

Acho que o primeiro show estrangeiro que considerei caro foi o dos Stones em 1995, mas aí foi um acontecimento mundial, primeira vez no Brasil, no Maracanã e tal. Acho que foi 50 reais se não me engano. O dólar estava em torno de 0,84 real, caso raríssimo. O desemprego comia solto, mas o país começava a colocar as coisas no lugar. Comprei uma arquibancada. Para minha sorte, outra namorada salvou minha vida: a do Luizinho, que não quis ir ao show(!) e então ganhei um lindo ingresso de pista para ver os Stones de pertinho, enquanto celebridades como Fausto Fawcett, Guilherme Fontes e Cláudia Abreu se esbaldavam no gramado imortal do Maracanã. Ah, antes dos Stones, também fui numa boa ao Jethro Tull no Canecão, totalmente acessível.

Antes da pandemia, foi bem razoável ver Steve Vai no Rio Jazz Montreux, no porto. Excelente mesmo. Acho que cento e pouco. Ok, qualquer trio Big Bob custa quarenta pratas, mas estamos falando de ingressos que, em dois ou três anos, aumentaram 300 ou 400%. Aqui está o Beck, fantástico, que vai se apresentar no Vivo Rio: pista VIP(?) a setecentos mangos e, para os menos nobres, pista “comum” a quinhentos. Outro dia o Glenn Hughes tocou no Centro do Rio com ingressos, digamos, promocionais: você botava um quilo de alimento não perecível, mais a incrível taxa de conveniência e pagava “apenas” trezentas pratas. Não dá pra botar a culpa na meia entrada somente. 

Menos mal que muitos artistas nacionais têm feito shows acessíveis mesmo, dez ou cinco mangos. No eterno Teatro João Caetano é assim: acabaram de tocar juntos Biafra, Dalto e Nico Rezende com inteira a dez reais. No Sesc há grandes ofertas. Tomara que acabem as obras intermináveis do Teatro Carlos Gomes e da Sala Sidney Miller, cujas histórias de grandes apresentações populares são riquíssimas. Tem o teatro do Sesi também. Vamos prestigiar os músicos brasileiros, porque o preço dos estrangeiros não permite sequer ficar espiando do lado de fora...

Friday, November 24, 2023

Sobre Minelli

E OUTROS GIGANTES À BEIRA DO GRAMADO 


Morreu Rubens Minelli. Teve uma vida longa e feliz. Viveu e construiu muito. 

Foi um dos maiores treinadores da história do futebol brasileiro. Conseguiu ser tricampeão nacional na acepção da palavra, assim como seu pupilo Muricy Ramalho também faria três décadas depois. 

Num país marcado pelo etarismo, salvo as manchetes esportivas, a repercussão da morte de Minelli foi a esperada, e bem menor do que seu tamanho colossal. Ele promoveu uma verdadeira revolução nos anos 1970 com o espetacular Internacional de Porto Alegre 1975/76, que aliava talento, força física e disciplina tática de maneira impecável. Muito provavelmente é o maior Inter da história e um dos maiores esquadrões de todos os tempos. 

A morte de Minelli ajuda a lembrar de outros grandes nomes à beira do gramado. De sua época e mais antigos. São muitos nomes, mas podemos falar de alguns numa lista que passa por Ênio Andrade, Carlos Froner, Evaristo de Macedo, Oswaldo Brandão, Lula, Oto Glória, Paulinho de Almeida, Orlando Fantoni e recua até Martim Francisco e Gentil Cardoso, Zezé e Aimoré Moreira. 

Carlos Alberto Silva, Carlos Alberto Parreira, Procópio Cardoso, Cláudio Coutinho, José Teixeira, Zé Duarte, Cilinho, Zagallo, tanta gente. Telê Santana, eterno! Mário Travaglini, Didi, Paulo Emílio.

Nos anos 1980, tivemos Nelsinho Rosa, Carlinhos, Carpeggiani, Abel, Joel Santana, Edu, Jair Pereira, Valdir Espinosa. Nos anos 1990, a nova onda de treinadores surgiu com os nomes de Vanderlei Luxemburgo, Luiz Felipe Scolari, Nelsinho Baptista, Jair Picerni, Celso Roth. Mais tarde, Oswaldo de Oliveira, Tite, Muricy, Mano Menezes, Leão, Cuca. 

Depois de certo tempo, com muitos maneirismos e vocabulário pernóstico, aos setores gomalinados da imprensa esportiva decretaram o fim da utilidade dos treinadores brasileiros. Todos passaram a ser incompetentes e, em especial, ultrapassados se tivessem mais de 65 anos de idade. O futuro tático estava na escola portuguesa mas, até aqui, poucos realmente vingaram. Basicamente o bom Abel Ferreira. Não era incomum ver grandes treinadores brasileiros sendo ridicularizados na TV, mesmo com currículos gigantescos. Aliás, infelizmente não é. 

Certamente o nosso futebol tem inúmeros problemas, mas será que o problema era só dos treinadores daqui? Tudo indica que não. O excelente Dorival Júnior, sobrinho do eterno Dudu, ganhou a Copa do Brasil neste 2023. Embora escorregue na Seleção, Fernando Diniz conquistou a Libertadores há 20 dias. 

Na despedida do gigantesco Rubens Minelli, depois de uma longa e maravilhosa trajetória, a maior lição deste 24 de novembro é pensar que sim, o nosso futebol foi construído às custas de grandes dribles, passes precisos e lances desconcertantes, mas também de muita gente boa que, à beira do campo, escreveu grandes roteiros. 

Especialmente com os veteranos, não se trata de louvá-los de graça nem achá-los santos, porque não são, mas respeitá-los já seria um bom começo. Por mais que tenham feito fama e fortuna, são seres humanos que merecem tratamento digno, o que nem sempre acontece em estúdios e redações. Contudo, é justo registrar quando o respeito acontece, e foi exatamente o caso desta tarde de sexta-feira no SporTV, com André Rizek e Paulo César Vasconcellos, falando com muita propriedade sobre a perversidade etarista contra treinadores de futebol. 

@pauloandel

Escolhas?

Dotados de certezas plenas, os idiotas despejam: você faz suas escolhas. Como se assim sempre fosse. 

Basta olhar o mundo, as coisas e as desilusões para saber que a maioria não escolhe absolutamente nada. 

Quando muito, consegue evitar o pior e fica com o ruim. 

Escolhas, escolhas, escolhas...

Quem escolhe dormir ao relento se esgueirando de ratos e merda, fugindo da morte? 

Quem escolhe a miséria como prazer? 

Escolhas, escolhas...

Quem escolhe a dor, a fome, a guerra para si mesmo, o ódio e a morte? 

Esta é uma cidade com milhões de luzinhas sobre os morros quando a noite vem, e cada pequena luz conta uma história de sofrimento.

Mas os idiotas são persistentes: você fez suas escolhas. 

São tão calhordas quanto os herdeiros que espumam baba pela meritocracia. 

Esta é uma cidade triste, cheia de ódio, crimes e violências diversas, cheia de fome e indiferença. O que lhe salva é seu lindo corpo, sua geografia.

O único consolo é que, entre hipócritas e indiferentes, entre falsos e arrogantes, entre escroques e egoístas, ninguém escapará da única sentença que lhes soa digna: a morte.

Implacável, assim como ela destrói sonhos, inocentes e esperanças, também o fará com os escroques. 

Afinal, tudo é efêmero.

@p.r.andel

Thursday, November 23, 2023

Gols 1979

Um calor aterrorizante à tarde, eu de repouso e remédio. Então resolvi me distrair um pouco e espiar futebol antigo no YouTube, uma das melhores coisas do mundo pra mim. 

Mal começo a procurar, surge um vídeo de nome sugestivo: “Gols 1979”. O que será? Vambora.

De cara, Léo Batista. Logo, o melhor da nossa memória televisiva de futebol. Telão verde do Globo Esporte e Luciano do Valle de camisa florida e lenço, estilo Dancing Days! 

Gols, gols, gols no Maracanã vazio e cheio, gols em Ítalo Del Cima e São Januário, gols em clássicos, gols em Marechal Hermes. É o futebol carioca no ano de 1979, o primeiro que acompanhei como um torcedor mirim mesmo, de ler notícias e escutar os jogos. 

Wendell numa partida, Renato em outra, os dois goleirões do Fluminense em crise, indo para três anos sem títulos. O garoto Edevaldo, o garoto fenomenal Edinho. Nunes fazendo muitos gols com Fumanchu do lado.

Mendonça com suas jogadas espetaculares, Búfalo Gil chutando e cabeceando, o espetacular Luisinho Lemos metendo gols vestido de branco e preto. 

Júnior, Toninho, Carpeggiani, Adílio, Zico, Tita e Uri Geller. Paulinho, Guina, Wilsinho, Roberto e Catinha. 

País, Uchoa, Alex, Geraldo e Álvaro. Já tinha o Nelson Borges e o Porto Real? Nedo, tinha. Carlos Silva também? Silvinho, lógico. O velho America. 

Nos clássicos, cento e trinta mil pessoas. Nas partidas corriqueiras, três mil. Não importa: o Maracanã tem sua realeza visível à tela. Na beira do campo? Claudio Coutinho, Joel Martins, Zé Duarte, Sebastião Araújo, Oto Glória, o sensacional Velha. 

[As vozes clássicas de Léo Batista e Luciano do Valle são a moldura permanente das imagens.

Maravilhosos vilões especialmente convidados e que quase sempre davam trabalho: o Campusca, o São Cri Cri, o Bonsuça, a Lusa, o Cano. O Goyta também. O Madura também. 

Há meio século navego pelo futebol. Ultimamente ando feliz a valer, meu Fluminense foi campeão da Libertadores. É maravilhoso. Agora, encontrar vídeos como “Gols 1979” é trazer a minha infância de volta, é refazer um possível futuro. Passo o link pra vários amigos, converso com o Sérgio Pugliese e lembramos momentos espetaculares de nossas vidas. 

Juntar moeda pra comprar botão de galalite e figurinha do Futebol Cards, sonhar em comprar um escudo bordado da Kayat Esportes, esperar a folga para jogar pelada na areia e tentar imitar todas aquelas feras que a gente via nos jogos. Daqui a pouco faz cinquenta anos, mas é algo tão vivo que parece da semana passada. 

Falei de Helinho, Lito, Dário, Zezé, Júnior Brasília e outros? Não, né? Nem dos goleiros Ernâni e Jurandir, dos atacantes Mário e César, do Borrachinha e do Silva. Tem muito mais.

Obrigado por tudo, YouTube.

@p.r.andel

Wednesday, November 22, 2023

Às vezes II

Obrigado. 

Bom dia. 

Como vai?

Você está bem? 

Precisa de alguma coisa? 

Às vezes é só uma palavra. Uma conversa. Mas boa parte das pessoas só pensa em dinheiro e, por isso, mesmo vendo que você está mal, evita fazer perguntas ou puxar algum assunto por puro medo de receber algum pedido.

Nós ouvimos o dia inteiro o nome de Deus, porque ele é a justificativa para todos os males segundo os escroques. Tem idiota que diz que a desigualdade no mundo é porque "Deus quer". 

Repare que nos seus piores momentos, ninguém ou quase ninguém te estenderá a mão. Alguns serão suficientemente escrotos para dizer que realmente não vão te ajudar, inclusive com desculpas estapafúrdias. A maioria, covarde, simplesmente ficará em silêncio. Os mais crápulas vão dizer que seus problemas são falta de Deus, tentando te rebocar para alguma religião como se fosse um crédito bancário - e às vezes é. 

Boa parte de toda a merda que vemos no mundo inteiro é consequência direta do egoísmo, da indiferença e da incapacidade de muitos em enxergar a opressão. Às vezes pode ser cinismo mesmo: enxergam e deixa rolar.

O mundo tem coisas maravilhosas, só que 99,9999999% das pessoas não podem aproveitá-las, porque são submetidas à escravidão travestida de liberdade. Quase ninguém tem dinheiro, quem tem algum não tem tempo. 

Ainda bem que existe o entretenimento. O futebol, a TV, o Carnaval, os livros e discos. Se não fosse isso, a vida seria ainda muito pior, embora outro grande contingente também não tenha direito a nada. 


Às vezes

Nem sempre é simples ter paciência com grosseria, estupidez, indiferença, dor, dívidas, atrasos, falta de iniciativa e congêneres.

Uma hora dá no saco. 

E dá vontade de mandar um foda-se bem grande intenso para quem merecer: tem fila. 

Uma hora o saco fica cheio demais e depois os outros acham que você é o grosso ou o impaciente. Falta de noção extrema. 

Às vezes dá vontade de jogar tudo fora, porque no fim tudo é inútil e a maioria trata os outros como um produto descartável, nada além disso. 

Um dia você se toca de que dá muito mais do que recebe e se toca de que quase ninguém merece isso, seja em que relação for.

E que vários dos seus amigos só são amigos quando precisam de alguma coisa. Ou seja, não são amigos porra nenhuma.

Se os teus amigos são assim, imagine os idiotas que viraram teus "amigos" nas redes sociais e só aparecem para escrever merda nas tuas postagens? 

Quase tudo é inútil: lutar para sobreviver, numa vida de merda, à base de migalhas, até perder todas as pessoas queridas, envelhecer e morrer. Aí pode ser que alguém te chame de boa pessoa no Facebook. Um ou outro lamentará e dois ou três dias depois ninguém mais liga, porque somos uma sociedade mundial de merda, escrota, egoísta, ignorante e chinfrim ao extremo. 

Os jovens morrem antes da hora, os pobres são humilhados, os ricos mandam um dedão, a maioria só trabalha e dorme, muita gente mal consegue comer em lindos países de geografia deslumbrante. 

Uma hora essa merda toda explode. 

Monday, November 20, 2023

O fim do Kiss


Tudo passa. Só o Fluminense jamais passará. Mas taí: o Kiss vai acabar. Não como indústria, claro, mas como a banda que dá as cartas nos palcos há meio século.

Foi minha estreia em grandes shows de rock. E que estreia: o Maracanã abarrotado de gente, velhinhas do lado de fora tentando impedir a nossa entrada - uma delas, tadinha, pegou no meu braço e não me largava, até que virei um cabo de guerra humano e meus amigos levaram a melhor. Do lado de fora espalhavam em cartazes que o Kiss na verdade era "Knights In Satan's Service", Cavaleiros a Serviço de Satã. Anos depois eu diria que no máximo chamariam a atenção de Madame Satã pelo glamour...

Máquina de fazer dinheiro, império do entretenimento, digam o que disserem: o sucesso cinquentenário do Kiss vem de seu talento, pouco importando os erros que a banda cometeu ao longo do tempo, como qualquer outra. Paul Stanley é um dos maiores cantores do rock em todos os tempos, embora não soe aos 72 anos do mesmo jeito que aos 21 ou 35, tal como qualquer ser humano - é sempre uma ladainha, "Ah, o Ian Gillan não canta como há 50 anos", dai-me paciência. Gene Simmons é um tremendo baixista e a banda sempre foi ousada. Acertou muito, também errou, mas sempre arriscou e, por isso, cumpriu sua missão artística.

Antes do Kiss, eu ouvia Genesis e Police. Um pouco do Van Halen. O show do Maracanã foi uma espécie de sinal de alerta para o que viria a seguir: Rock In Rio, Hollywood Rock, outros grandes shows no maior estádio do mundo. Em 1984 meu pai me deu de presente uma fita cassete do Jethro Tull, "Aqualung", e outra do Pink Floyd, "The Wall". Misturando isso tudo à bossa nova, que eu já adorava, à MPB que eu ouvia em rádio e o pop anglo-americano, formou-se o meu amálgama musical que continua crescendo até hoje. Ouço de tudo: de música popular paquistanesa às novas tendências rock de Vladivostok. 

Ainda o Kiss: em certa ocasião, quando eu tinha um sebo na Gomes Carneiro, apareceu o BNegão por lá. Coisa de 2003. Gente fina à beça, passou horas escolhendo LPs. Na hora de embrulhar, vi que tinha vários do Kiss e ri, por gostar também. BNegão, sem saber, disse: “Pô, eu vi que você riu dos discos do Kiss, mas eu me amarro na banda e tal”. Aí falei pra ele sobre o show do Maracanã e conversamos por mais de uma hora. 

Não fui ao primeiro Rock in Rio por falta de grana e pela distância, mas num período de cinco anos eu já tinha visto James Taylor (na Apoteose), The Cure (no Maracanãzinho), Eric Clapton, Paul McCartney, David Bowie e os nacionais Paralamas, Titãs (trocentas vezes), Barão Vermelho, a Legião Urbana, Ira! e grande elenco, sem contar as grandes apresentações gratuitas no Parque Garota do Arpoador: Raphael Rabello, Armandinho, Adriana Calcanhotto, Tim Maia, Francis Hime. Eu já gostava bastante de ouvir música, mas foi o Kiss que me jogou no voo livre dos grandes shows, no que sou muito grato. 

Paul Stanley foi um dos maiores cantores dos últimos 50 anos. Merece respeito para sempre. O Kiss pode acabar, mas eu não vou parar de escutar pelo resto da minha vida. 

@p.r.andel

Saturday, November 18, 2023

Orla

Antigamente eu gostava de ir à praia, bem cedinho feito agora. Dava para ouvir todos os sons do mar, se refrescar e experimentar a doce solidão diante da natureza. Ainda gosto da praia, meu problema é com o calor enlouquecedor, com queimar a pele e me sentir bem mal. Não consigo mais, mas adorava. 

O mar é apaixonante, a praia também, mas prefiro sem sol. Pra mim, claro: eu sei que quase todos querem se queimar e compreendo. Só não serve pra mim. Mas tenho saudade daquele silêncio matinal de Copacabana, com quase ninguém na areia, a água geladíssima que parecia energizada. Já gostava disso com 13 anos de idade, sempre fui meio off de algum jeito. 

Depois, a corrida. Demorei a gostar e praticar, mas quando gostei... Eu praticava vários esportes com bola e achava suficiente, mas as cobranças da adolescência vieram e eu precisava ser menos gordinho para atender às exigências de não sei quem. Rapidamente perdi 15 kg e comecei a treinar feito um louco. O futebol é uma parte muito importante da minha vida, maravilhosa, mas posso dizer que alguns dos meus melhores momentos no esporte foram correndo. E quando você treina vendo o Oceano Atlântico, tudo melhora. Naquele tempo eu tinha recomeçado a faculdade: corria, tomava banho, pegava o ônibus e chegava na aula a 300 km/h. O pessoal ficava atônito comigo. 

Foi uma pena que minha vida de atleta tenha se encerrado tão cedo por problemas de saúde. É uma das poucas coisas que realmente lamento, mas sinceramente eu não mexeria no roteiro original. Foi o que tinha que ser. All things must pass. A tristeza foi sendo trocada aos poucos pela observação e eu, que já gostava muito de música, mergulhei em outros interesses artísticos até que anos depois assumi a persona de escritor, poeta, cronista ou talvez isso tudo junto. A corrida e os livros cairiam muito bem juntos, mas de longe eu continuo a espiar os trajetos solitários de homens e mulheres com seus tênis e disposição. 

Nem são sete horas da manhã de sábado. Há quarenta anos, eu já teria passado pela padaria, traçado um pão de queijo e estaria a caminho do mar de Copacabana, preferencialmente na Figueiredo Magalhães ou no Posto Seis. Agora, não: é só um calor enorme, banho frio, Renitec, ventilador e a (ainda) estranha  sensação de ter acabado meus dois livros, prontos e a caminho da gráfica. Pensando bem, outras coisas também mudaram pra pior mas deixa pra lá: não se pode ganhar todas. 

Relembrando o futebol: partidaços na areia, campo do Juventus ou Bairro Peixoto. Disputas de dupla de praia à noite, golzinho, de fora. Cobranças de falta, de escanteio. A bola se espatifando no travessão. O voo solitário do goleiro. 

Que muitos tenham um bom sábado. A maioria não terá porque sofre naturalmente. Isso é a vida. Vida. 


Wednesday, November 15, 2023

Os garotinhos da Uruguaiana

Há muitos anos, quando eu nem sonhava em escrever publicamente, meu passatempo era andar pelas ruas do Centro do Rio sempre que tinha alguma folga do trabalho.

Na esquina de Carioca com Uruguaiana ficava uma loja tradicional do Ponto Frio Bonzão. Durante um certo tempo eu espiava as vitrines porque precisava de uma televisão e de um aparelho para tocar CDs. Finalmente consegui a grana e comprei uma TV bem bonita para minha mãe, ela ficou bem feliz e eu queria ver todos os jogos de futebol possíveis. 

Depois reparei a loja noutras vezes, muitas, e percebi quantos garotinhos ficavam ali olhando as telas das TVs ligadas. Eles tinham caixas de balas, caixas de engraxate e, às vezes, nada além da esperança. Ficavam hipnotizados com os desenhos animados que lhes serviam de única alegria do dia, talvez. Muitas e muitas vezes. O pessoal da loja era gentil e deixava as TVs nos desenhos, só para que os garotinhos pudessem se distrair. Bom, falo de 29, 28 ou 25 anos atrás. 

Terça passada, eu voltava com o Diniz da Leiteria Mineira. Passamos pelo Largo da Carioca, vazio e calorento. Num instante, olhei para a esquina e lá estava o que sobrou daquele tempo: a loja fechada, as vitrines debaixo das portas de ferro, sequer uma esperança de anúncio de aluguel. Acabou. Morreu. 

Daqueles garotinhos que tinham o mundo menos amargo por causa dos desenhos animados, quem chegou até aqui? Quem conseguiu superar a miséria? Quem realmente sobreviveu e está bem? São rostos que lembro sem detalhes, olhares afetuosos que o tempo levou, garotinhos magros e muitas vezes descalços ou com chinelos gastos. Sempre me senti triste por eles. Quando fiquei sem uma televisão, já podia trabalhar e comprar uma depois de alguns meses. Meus pais fizeram tudo que podiam por mim, então sobrevivi bem por conta deles, do esforço deles. Tive boa cama, comida, brinquedos, botões e o que faltou não fez falta. E queria que eles tivessem tudo também. Quantas vezes eu matei aula só para ver desenhos animados com minha mãe em casa? Muitas. 

De lá para cá, vivi muitas injustiças, traições e golpes, falsidades e injustiças. Perdi minha família e minha órbita, mas me recobrei a tempo e fiz o que fazia quando eu mesmo era um garotinho: juntar pessoas, ajudar o próximo e, sempre que possível, fazer o bem - não basta ser apenas bonzinho. Desde então, tenho vivido modestamente, mas com algumas realizações pessoais que simplesmente o dinheiro não compra. Já sofro os efeitos do etarismo e, se muitas pessoas estivessem no meu lugar durante essa travessia, provavelmente não teriam aguentado. Gente que se acha muito poderosa não aguentaria 5%.

Na esquina famosa, havia apenas um silêncio frio contrastando com a manhã calorenta. Um silêncio vazio, uma ausência e a certeza de que hoje é um novo tempo, bem mais cruel do que já foi antes. Difícil imaginar que, um dia, aquela loja fecharia para sempre. 

Estou aqui. Luto. Sofro. Choro. Às vezes rio. Construo algumas coisas belas mesmo com um revólver apontado contra mim 24 horas - e desde já ofereço meu profundo desprezo aos que me ofereceram cara de paisagem em meus piores dias. Mas estão rolando os dados e amanhã tudo pode mudar. Há muito a ser feito, resta saber se dará tempo. Enquanto isso, em minha bela TV, nesse exato momento bandidos estão se matando na novela por dinheiro. Quase uma metáfora da vida cotidiana. 

As poucas lojas de eletrodomésticos que sobreviveram na Uruguaiana não têm TVs ligadas em desenhos animados. 

As crianças continuam sofrendo no Centro. Pagam a pena pelo crime de existirem, com todo o absurdo que isso significa. 

Para quem é possível, boa noite.

Sunday, November 12, 2023

Sobre nossas cantoras

Nossas cantoras brasileiras tiram onda. 

É fato: o Brasil tem uma riqueza musical arrebatadora e reconhecida no mundo inteiro. Vale para cantores, instrumentistas e compositores. Agora, quando as cantoras brasileiras estão em campo, meu amigo, não tem para ninguém. 

Caso da semana que passou. Por sorte descobri que a espetacular Virgínia Rodrigues faria uma apresentação na Biblioteca Parque, bem no coração do centro do Rio, gratuitamente. De imediato avisei meu amigo Edgard e partimos para lá, ele com sua esposa e uma amiga. 

Muito menos conhecida do que deveria ser no Brasil, Virginia é uma espécie de deusa afro, uma verdadeira entidade que, quando adentra o palco, toma atenção de todas as pessoas, sem piedade. Sua negritude, sua postura de realeza afro e o principal, sua voz incomparável, arrebatam qualquer pessoa. Não é à toa que ela já fez várias turnês internacionais e é reconhecida em todo o planeta. 

Dentro das possibilidades, o teatro da Biblioteca Parque ficou lotado. Que show espetacular meus amigos! A percussão, o violoncelo, a voz de Virgínia numa fase esplendorosa, uma coisa maravilhosa e de graça para as pessoas, em horário acessível. Virgínia está lançando um trabalho novo nas plataformas digitais. Eu, que sou adepto do bom e velho CD, tenho todos os discos dessa maravilhosa cantora. 

No domingo à tarde, descansando depois da festa do Fluzão campeão, dando uma espiada no festival Rock da Montanha pela TV, me deparo com minha eterna crush e atual ministra Margareth Menezes. Outra deusa afro, né? Aquela mistura de Brasil e África para deixar Peter Gabriel louco, os sopros, a voz e a personalidade única de Margareth compõem um show para levantar as pessoas, tanto que a plateia não parou nem um pouquinho durante sua apresentação. 

Margareth é assim desde sempre. Eu me lembro de tê-la visto no Hollywood Rock 1993, abrindo uma noite que tinha os excelentes Eurythmics e ninguém menos do que Mr. Bob Dylan.  Desde então, é outra das nossas cantoras com muitas turnês internacionais. 

Então fui dar uma espiada no jogo do Botafogo para dar uma força, não adiantou muito mas eles conseguiram o empate, e então volto para o Multishow, onde encontro ninguém menos do que Maria Bethânia cantando para outra multidão no mesmo festival. 

É difícil falar de uma das maiores cantoras brasileiras de todos os tempos sem ser redundante, mas é que o fato é, perto dos 80 anos, Bethânia é arrebatadora. Seu show continua visceral, teatral, e a sua presença magnética de palco realmente deixa todo mundo enfeitiçado. É um orgulho tê-la como uma das nossas grandes representantes da arte brasileira por tanto tempo, e por fazer um trabalho tão rico. 

Nossas cantoras brasileiras muitas vezes foram formadas pelo canto popular, pelo cancioneiro do povo, e seguiram a trilha de outras grandes cantoras que já não estão mais aqui, mas que fizeram longo da história da trajetória brasileira, seja em priscas eras do rádio e mesmo na televisão. Nossas cantoras vêm de uma longa e maravilhosa história.