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Wednesday, November 09, 2022

Gal Costa

Quando um país perde um de seus patrimônios culturais, o impacto sempre será devastador, mas o tempo fará com que a arte se sobreponha à tristeza. É e será o caso de Gal Costa. 

Uma das maiores cantoras do mundo, louvada e celebrada por gênios como Tom Jobim e Caetano Veloso, Gal atravessou mais de meio século no topo da arte brasileira como uma de suas principais vozes. 

Nada lhe faltou. Foi roqueira, musa, transgressora, romântica, festeira, desafiadora, regional, jazzy, tudo. Começou gigantesca e se manteve em pleno voo. Popular e sofisticada, elegante e certeira. Pergunte a qualquer ouvinte na faixa dos setenta anos sobre o que significavam as Dunas da Gal. 

Depois de uma carreira já enorme, caudalosa, na última década Gal Costa fez o que se espera de um grande artista: o desafio. Gravou um álbum com novas sonoridades feito todo por Caetano, mais outros com novos compositores da cena brasileira. Inovou, surpreendeu, arriscou. Atravessou o século XX e teve sede para as inovações do novo milênio.

Voz única, de extraordinária afinação em todos os tons, adequada tanto para o American Songbook como para hits alucinantes como "Festa do interior", Gal Costa foi cantora e intérprete ímpar. Sua combinação de beleza, elegância e energia são referência na música do Brasil. Uma força da natureza insuperável, que sempre irá servir de farol para todas as cantoras que ainda teremos.

Gal é Tom Jobim, é Chico Buarque, é Caetano e Gil, é Tom Zé, é Dorival Caymmi, é Waly Salomão, é Gerald Thomas e também todos os compositores que recentemente registrou, tendo como exemplos Rodrigo Amarante, Zeca Veloso, Seu Jorge, Zé Ibarra, Rubel, Jorge Drexler, Criolo, Tim Bernardes, António Zambujo e Silva, mais tantos outros. Ela, que foi abraçada ainda jovem por tesouros como Tom e Caymmi, abriu seus braços para o novo e abriu caminhos para muita gente. 

A morte é inevitável, mas há muito tempo Gal Costa já tinha fincado seu lugar na imortalidade artística. Fica uma longa e definitiva estrada. 

Já a dor é indescritível. Há pouco, Zélia Duncan disse "perdemos uma Beatle". Para nós, brasileiros, o tamanho é exatamente esse. 

@pauloandel

Wednesday, October 26, 2022

um leitor

Por ocasião do lançamento de seu livro, Susana Naspolini foi certeira ao dizer no lançamento que, se a obra tocar uma única pessoa, já cumpriu sua missão. E é isso mesmo. Basta uma.

Já me aconteceu várias vezes. Muitas. Milhares. Gente que chorou (muito), que sorriu, que se identificou. Gente que viu ficção na realidade e o contrário também, às vezes ao mesmo tempo. 

De certa forma é o que trago de melhor comigo sobre isso. Amigos, colegas, conhecidos, gente que nunca vi antes e que me mandou uma mensagem de agradecimento. Já recebi muitas e muitas. Claro, alguns xingamentos também, mas esses são mero fruto de inveja e recalque. 

Já dizia Ivan Lessa: "O cronista fala sozinho diante de todo mundo". O cronista, o poeta, o escritor. 

O cineasta, o teatrólogo, o escultor. O artista em qualquer lugar. 

Você sonha, pensa, produz, coloca o conteúdo numa garrafa e a atira ao mar, esperando que um dia alguém a ache e abra. 

Da pequena parte que me cabe nisso, escrever, penso que precisa ser feita com alma, com garra. O melhor texto não precisa ser perfeito em termos ortográficos - algo muito discutível por sinal -, mas precisa passar sentimento, fazer com que o leitor tenha mergulhos profundos e voos rasantes. A força da mensagem vale mais do que o tecnicismo. Os grandes livros muitas vezes são os mais simples. 

Escrever publicamente já me levou a muitos lugares e pessoas, já me deu muitas alegrias e reflexões. No começo do século XXI, eu sonhava em ser um autor publicado e pensava em como isso seria sensacional. É mesmo, muito. É uma emoção que se repete, tanto faz se com 100, 200 ou 4.000 exemplares - o sentimento é exatamente o mesmo. Abrir a caixa e ver o novo livro é rever o grande amor. Eu recomendo. 

Que Susana esteja bem, onde quer que esteja. Que sua jovem filha tenha todas as forças para seguir em frente. A cidade está triste, não sem motivo. Por ora, joguemos nossas mensagens no mar, esperando retorno algum dia. 


@pauloandel

Saturday, October 22, 2022

noites no campo 1

NOITES NO CAMPO - 1 

DAS DORES

A gente conversou poucas vezes, devido à natural separação entre os escoteiros e os seniores, ao menos naquela época. Mas ele era um bom sujeito, divertido, na dele. Quando sorria, lembrava o Brasil verdadeiro: o menino negro, morador de favela, lutando contra dificuldades mas com uma sinceridade imensa em sua boca cheia de dentes. 

Tinha o apelido de Das Dores, referência a um personagem do programa de humor de Chico Anysio. Lá vem Das Dores, lá vai Das Dores. Ele ria e seguimos em frente. Se não estou enganado, ele tinha uma irmã bonitona que chegou a ser escoteira, mas posso estar me confundindo porque o tempo passou. 

Estávamos acampados no Forte Imbuhy, uma das maravilhas do estado, cravado em Niterói. Pode ter sido a Semana Santa de 1984, um ano em que, para mim, parecia que tudo ia dar certo: beijos numa garota linda, todas as notas acima de 8, o Fluminense atropelando todo mundo. E uma temporada com uns dez acampamentos. Imbuhy é o máximo: silêncio, uma linda praia particular e os mistérios do Atlântico Sul. Lá longe eu via Copacabana e pensava: se tivesse uma lancha, dava para chegar muito mais rápido em casa. 

Talvez na quinta, quase certamente. Os escoteiros iam fazer feijoada e, consequentemente, precisavam de panelas grandes para o arroz. Eu estava de bob na beira d'água com o Fred, curtindo a folga, quando o Das Dores passa pela gente, começa a acontecer um zum-zum-zum, um fuzuê e, a seguir, o caos. 

Areia é um bom componente para tirar gordura de objetos. A gente já sabia, mas a garotada descobriu lá. Virou moda arear as panelas com areia e depois lavá-las lá na bica perto dos banheiros, a uns 500 metros de distância.

O problema é que o Das Dores teve uma ideia falha de economia de escala: em vez de arear a panela com calma, aos poucos, ele a encheu de areia, limpou e... a jogou na água, achando que a natureza faria o resto do serviço. O problema é que, com o peso da areia, a panela imediatamente afundou e, trinta segundos depois, foi tragada pelas águas do Atlântico. Eu mesmo, que era bom nadador, tentei resgatá-la sem sucesso. 

Num acampamento, perder uma panela grande é um desastre. Resultado: a feijoada saiu, mas os seniores só almoçaram no fim da tarde, pois tiveram que emprestar as suas panelas para que os juniores fizessem o almoço primeiro. Cheios de fome, queríamos matar o Das Dores, mas só por dez segundos: ele era gente boa. 

Um raio cai duas vezes no mesmo lugar? Cai. No dia seguinte, sexta, era dia de peixe com arroz e salada. É claro que ninguém esperava que o Das Dores não tivesse entendido a zebra da véspera, mas deveríamos. Impávido, ele foi para a praia lavar a panela, repetiu a mesma besteira e é claro que o recipiente foi morar em Atlântida, o reino perdido do mar. Ao mesmo tempo que os escoteiros ficaram enfurecidos, Das Dores tomou uma suspensão de um dia mas ninguém queria o mal dele, não era a nossa. 

No sábado, o pessoal foi liberado para ir para a praia. Só o Das Dores estava punido, coitado. Eu e Fredão estávamos lavando alguns pratos na bica perto dos banheiros, bem cuidados pelo cabo "Queijo Minas" (depois eu conto essa história), que por sinal era um sujeito engraçadíssimo. Dia ensolarado. 

Lá vem o Das Dores, chega perto, abre o sorriso largo e diz "Pode deixar que não vou perder mais panela não". Rimos, claro. Aí ele pediu um pouco de detergente, passei pra ele. Em cinco segundos que nos distraímos, ao olharmos para o lado Das Dores tinha feito xampu com o ODD azul, e a cabeça celeste espumante.

"Tem problema, pessoal?"

Foi o tempo de Fred se abaixar, encaixar a mangueira na bica e acertar um jatão d'água na cabeça do Das Dores. Ele ria, pedia desculpa. A gente ria e não se tocava que ele não entendia certas coisas porque não era orientado. Éramos garotos. 

Pouco tempo depois, infelizmente ele se afastou. Deu um tempo, ia voltar, esperávamos que ele viesse para os seniores, não veio. Dizem que se meteu com o tráfico e dançou. Fomos derrotados. Ficou a lembrança daquele sorriso imenso debaixo da espuma azul do ODD.

@pauloandel

Saturday, October 15, 2022

ser alguém na vida

Há pouco, falava um garotinho na TV, entrevistado numa sala de aula, algo como "Estou estudando para ser alguém na vida". 

O tempo passa e repetimos isso. Ser alguém na vida. Todos somos alguém, independentemente de bens, títulos e poder. 

Claro que estudar é importante demais, para tentar entender as coisas, o mundo, progredir, pensar, evoluir intelectualmente. Claro que é importante. Mas todo mundo é alguém, rico ou pobre, talentoso ou medíocre.

A gente cresce com medo de não ser ninguém, mas isso é mentira: somos corpos com sonhos, vontades, sentimentos.

Eu sou alguém na vida? Sei lá. Eu sou o Paulo. Acho que sou alguém legal. Eu sou um homem pobre, um camelô que junta pessoas de todas as idades e posses nas situações mais loucas. Sempre foi assim. 

Por ter crescido no bairro mais plural do mundo, nunca fiz contatos e amizades por causa de interesse. Sempre foram situações naturais. Filhos de porteiros, moradores de favelas, de quitinetes, de apartamentos gigantescos e coberturas, às vezes todos no mesmo jogo de bola ou no botequim. Ou na praia. Na praça

Não ser ninguém na vida? Todo mundo é alguém desde que nasceu até o caminho inevitável da morte. Todo mundo. 

Há os que escolhem caminhos tortuosos, arrogantes, tudo porque não sabem lidar com o próprio anonimato e a desimportância, mas até eles são alguém. 

De resto, a morte vencerá a todos. A arrogância chega a ser ridícula. 

@pauloandel

Thursday, October 06, 2022

Ota, sem noção

Há uns doze anos, conheci um cara que achava maneiro, por causa de futebol. Não sei se por causa de algum livro meu. Acho que foi. Vou chamá-lo de Ota. Depois vocês vão entender. 

Enfim, o fato é que eu tenho um site sobre futebol que funciona com trabalho voluntário. Não dá um tostão, mas certamente prestígio por vários motivos. E tem uma equipe grande, divertida. Já fizemos muita coisa juntos e, cá entre nós, eu tenho uma carreira longa em crônicas e livros de futebol. 

Um belo dia, chamei Ota para participar comigo de vídeos que gravávamos regularmente para o site. O resultado foi divertido, ele era engraçado, falava alto e, apesar de certa empáfia que costuma reinar quando o debate é sobre futebol, comentava coisas interessantes. Tudo bem. Logo depois, veio a pandemia e passamos à era do Streamyard.

Meu primeiro erro foi, baseado no bom texto falado, convidar Ota para colaborar como cronista sem ter lido seus escritos. Não foi a primeira vez que cometi esse erro, mas certamente foi a última. Ao receber o primeiro original, caí para trás: o texto era tão ruim, com tantos erros de Português e coesão que a única saída era reescrevê-lo por completo, basicamente usando só o argumento original. Paciência, eu preciso de opiniões diferentes, isso me fazia gastar meia hora a mais a cada coluna publicada, tudo bem. Acrescentava ao site e à equipe. Nada que não aconteça em todos os veículos sérios que possuem revisão de artigos. Errei, acontece. 

Enquanto isso, num trabalho voluntário, nada poderia ser pior do que ter alguém na equipe que frequentemente se indispunha com os companheiros, tratando as opiniões de todos como coisa menor e chegando a ridicularizar os colegas em nosso grupo de Whatsapp. Foi o que começou a acontecer, para minha desagradável surpresa - minha impressão antiga de Ota era muito diferente da que via na labuta diária. As pessoas reclamando em off comigo, eu tentando contemporizar, Ota não ajudava em nada com seu excesso de arrogância que, muitas vezes, parecia uma espécie de defesa contra a própria mediocridade - atenção para o uso respeitoso dessa palavra. Ou contra bullying, que provavelmente sofreu demais na juventude devido a seu estilo aparentemente engraçado. Enfim, o tipo de coisa que pode destruir um trabalho inteiro. E gente no meu ouvido: "eu vou mandar esse cara TNC"...

Depois da vigésima vez, chamei Ota em particular e o alertei dos problemas novamente. Seu pedido foi "Pelo amor de Deus, só não me tira do grupo porque eu gosto muito de estar lá". Bobo, me comovi por isso e deixei passar. 

Ocorrência 21, 22, 23...32... Mais de um ano. Como nada é para sempre, na ocorrência 44 aí eu falei em público que iria puni-lo. Sua resposta foi "Me tira logo dessa merda que eu não aguento mais". 

Depois de tanto falar em vão com alguém que parecia desprezar a tudo e a todos, acabei achando a ideia boa. Tirei. 

Na hora me senti mal, porque é muito chato quando isso acontece e, apesar de tudo, o colaborador deixou um trabalho legal, mesmo que fosse 99% finalizado por mim. De alguma maneira, fizemos juntos. Mesmo longe de ser brilhante, teve sim sua importância. Valem a essência, o argumento, só que não valia o desgaste. Em particular, umas dez pessoas vieram agradecer o desligamento de Ota, num carnaval desagradável que só se repetiu meses depois. 

Meia hora se passou, mensagem no WhatsApp: "Fica aí com seu amiguinho puxa-saco de merda". Eu sou legal, mas também posso não ser e respondi à altura. Acabou, tchau, bloqueei. Vida que segue. Isso foi em 2021. Depois de se indispor com dez pessoas diariamente por quase dois anos, Ota ainda achava que tinha sido injustiçado e preterido por outro colega de equipe. É admirável a vontade que todo sujeito arrogante tem de acreditar nas próprias teses.

Há uns quinze dias, encontrei Ota em Copacabana, no lugar em que morei por quase 20 anos e onde estou frequentemente. Passou com sua empáfia, fingiu que não me viu e, cá entre nós, achei ótimo: qualquer pessoa honesta se sente mal quando pune alguém injustamente. Agora, quando você pune alguém por atitudes Otas e ela comprova que realmente é muito Ota, a justiça se faz presente e você sente alívio.

Ontem tava em casa de madrugada pensando na vida e na morte, na tristeza de tudo que está acontecendo com tanta gente, aí me chega a seguinte mensagem: "Cara, acredita que o Ota tava falando mal de você num grupo e foi esculachado pelas pessoas? Chegaram até a perguntar se ele não entendeu o texto, ahahaha. E o cara ainda disse que você o expulsou do teu grupo. Comédia". 

O meu site possui a maior quantidade de material voluntário com redação própria sobre um clube de futebol no Brasil, com mais de 20 mil páginas. Por ele, já passaram ou estão presentes mais de 90 colaboradores em mais de dez anos. Os integrantes da equipe, ativos e não ativos, reúnem somados quase 60 livros, sendo 40 sobre o nosso time e 21 de minha autoria. Produzimos conteúdo diário publicado e audiovisual nas redes sociais/plataformas. Ah, também temos a maior série de e-books grátis sobre um clube de futebol no país.

Tudo isso faz parte de um tesouro que talvez interesse a pouca gente, mas que já chegou a centenas de milhares de pessoas. Ah, sim, nem tudo são flores: tivemos três integrantes expulsos desde 2012, num universo de quase 100. O primeiro vive elogiando o site e os integrantes publicamente, mostrando que os desentendimentos há muito foram superados. Os números falam por si, neste parágrafo e no anterior.  

Todo dia eu recebo algum print falando mal de mim, me xingando, me elogiando, me agradecendo. É normal. Além do mais, para o desespero de meus poucos detratores, sou invejado. Estou nessa há muito tempo, me exponho publicamente e não escrevo para agradar ninguém além de mim mesmo. É o critério para publicar: eu tenho que gostar. Já joguei milhares de crônicas, artigos e resenhas fora, algumas com 90% prontas. Colaboro noutro site com mais de 250 mil seguidores, já fui correspondente estrangeiro, milhares de coisas que escrevi já foram publicadas em O Globo, O Dia, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Folha de São Paulo, Estado de Minas, PINN, Brasil 247, Museu da Pelada e Correio da Manhã. 

O que não é comum é ser mal falado por alguém que, em mais de uma vez, eu estendi a mão, inclusive integrando com outras pessoas e ambientes legais, interagindo com pessoas que jamais o fariam se não tivesse sido por meu intermédio. Se Ota contasse a história inteira de forma honesta, talvez fosse rejeitado por muitos interlocutores. 

Mas, enfim, esse era apenas um simples post de blog, que só ficou com tamanho grandão para mostrar a distância entre alguém que trabalha em grupo e tem currículo, comparada a um candinho de WhatsApp. Isso não se mede por bens, cargos e ostentação, mas por realizações e currículos. Quem tem currículo e realizações, mostra e produz mais; quem não tem, fala mal dos outros pelos próprios vícios que carrega em si. É uma opção de vida. 

Nenhuma mágoa de Ota, mesmo. É que já encheu o saco. O que tenho é somente pena. 

Há pessoas tão pobres que só possuem dinheiro. 

@pauloandel 



Monday, October 03, 2022

900 metros livres

Desço do trabalho às cinco da tarde. O faturamento de hoje foi bom. Se fosse todo dia, eu não precisava brigar com o suicídio. Vendo coisas muito boas e difíceis, mas todo mundo está pobre. 

Falo com meus amigos porteiros e aviso que Jocemar ainda está na loja. 

Na calçada, pulo duas tampas de esgoto vazando. 

Metros depois, bem em frente ao Teatro Carlos Gomes, fechado, seis pessoas em situação de rua se encolhem de frio. Uma delas brinca com um cãozinho minúsculo. 

Boa parte da quadra seguinte tem as lojas fechadas. Cumprimento o dono da Loteria Regufe, sou cliente há 30 anos. 

Chego à esquina da Lavradio. O bar está fechado e, na porta, está praticamente desmaiada outra pessoa em situação de rua. 

[o primeiro dia útil do mês é gelado, cinza e deserto no fim do expediente. 

[dizem que a economia está melhorando, mas só se vê vazio, silêncio e olhares tristes. paro e penso no que será feito para mudar essa tragédia. 

Todos os bares estão de folga. As calçadas abraçam o silêncio. 

Passam dois garotos humildes, com seus bonés e mochilas, passos apressados a caminho da Central e um pacote de biscoitos rachado. Provavelmente estão almoçando ou jantando. As pessoas fingem não ver, mas no Centro do Rio o prato de comida mais popular é o pacote de biscoitos. Sempre há jovens e adultos indo e vindo com biscoitos para disfarçar a fome. Sempre há pessoas fingindo que não veem nada. 

A rua do Senado, outrora via de tráfego intenso, está completamente vazia. Na esquina com a Gomes Freire não há um único carro no sinal. O Armazém tem seus clientes de sempre. Hoje, poucos. Está frio. 

Quatrocentos e cinquenta metros. 

Na delegacia, o inspetor com a barba bem grande conversa com um colega de trabalho. Alguma coisa sobre games. 

Olho para o prédio da Isys e fico pensando em que apartamento ela mora. Acabou que somos amigos há anos, vizinhos há meses e não sei. Tudo bem, não faz diferença, era só curiosidade. 

Dois garotinhos chutam bola na porta do prédio ocupado. Ah, a bola, o futebol, esse amor torto que salva e destrói vidas. Tudo que eu queria era voltar a ser um garoto e chutar uma bola, nem que fosse as de isopor em Copacabana.

Setecentos metros.

[ontem eu conversava com Abílio bem na porta do prédio do Fred, em Copacabana. Tinha um causo da bola que fica para depois. 

Na Nova Petrobras, descem batalhões de estranhos com suas roupas corporativas de cores neutras, suas mochilas com notebooks e fones de ouvido que ajudam a apagar o cotidiano triste. Todo mundo é muito parecido. Os mais ricos correm para os táxis, os assalariados seguem em comboio na direção do Metrô Carioca.  Salários à parte, todo mundo é muito parecido. Mais à frente, uma turminha sempre se encontra com seus cachorros, é uma alegria. Eles brincam. Eu penso no cãozinho do moço sofrido na porta do Carlos Gomes, fico triste e ninguém se importa com isso - as pessoas têm mais o que fazer. 

Passo na quitandinha recém-aberta, compro pão para depois fazer um queijo quente. Um guaraná também. Gosto da lojinha pequena, acolhedora, com jeito de antigamente. As pessoas são muito educadas lá. Os produtos são um pouco mais caros, mas eu sempre compro pouca coisa, então não tem tanto impacto assim.

Oitocentos e cinquenta metros. 

Está frio. Não há carros na rua. Nem parece o primeiro dia útil do mês. Quais são os dias inúteis? 

Atravesso para chegar à portaria do prédio. Falo com o Maurício, ele é bem legal. Sinto alívio: não é hoje que eu vou ser preso nem despejado ou deportado. Mas penso em todos os meus grandes amigos e quase todos estão definitivamente mortos, portanto sou o solitário repórter de meu tempo.

Novecentos metros livres. 

Sou um artista anônimo, um camelô falido, um estatístico constrangido, um escritor deprimido, um cidadão humilhado num país de merda. 

Pego o elevador e torço para que ele fure o teto e decole em velocidade estelar para o infinito. Dada a impossibilidade, salto no oitavo andar, me tranco na casa que não é minha, penso, choro, me vejo sem saída e então tomo um banho gelado, verdadeiro suicídio nestes tempos. Me deito e ligo a TV para me fazer companhia, pouco importando o que é dito ou exibido. 

Preciso revisar um livro e não consigo me concentrar. Não tenho condições. Meus joelhos doem. Minha coluna dói. Deitado, tento procurar um bem precioso que nunca tive em mais de cinquenta anos: a paz. Isso não me impediu de dizer coisas alegres, escrever poemas, namorar belas mulheres, olhar o horizonte para tentar desvendar os mistérios do mar, nem de me divertir com meus velhos amigos - hoje quase todos mortos -, mas o fato é que eu não sei o que é paz. Chutar bola de garoto é coisa que passa rápido demais. 

@pauloandel

aeroporto

Eu já tive pavor de viajar de avião. Pavor no sentido estrito da palavra, a ponto de fazer todas as viagens profissionais pelo Sudeste de ônibus ou carro. Porém, em certo momento fui obrigado a ir com frequência para Brasília, o que mudou o cenário para sempre.

Quase sempre, por conta do ódio que uma funcionária da empresa tinha por mim, minhas passagens eram invariavelmente marcadas para os horários mais cedo, aumentando a tensão, o medo de perder a hora, a preocupação com o táxi etc. Como se fosse agora: são 4:37h. Para chegar hipoteticamente ao Santos Dumont às 5:30h, teria tempo mais do que de sobra. Só que não era tão fácil arrumar táxi na madrugada, nem existia VLT. 

Por dezenas de vezes ao longo dos anos, acordar antes da hora inutilmente foi uma rotina para mim. Isso sem contar as viagens bate-e-volta, duas num único dia, verdadeira tortura para minha pobre coluna. E tome remédio, cânfora, alongamento, convivência com a dor. Havia quem achasse frescura, por simplesmente ignorar o problema. A velha ignorância que explica muito do que estamos vivendo. 

Era tudo tão pesado que, todas as vezes que a insônia se repete mesmo que por outras razões, a cena me remete àqueles dias. Caso de hoje e das próximas semanas, onde a sobrevivência de milhões de pessoas - inclusive a minha - está em jogo. Mas sempre lembro de um momento de alívio ao fim do dia: quando os pneus do avião tocavam a pista do SDU. Dava uma leveza enorme, e dali até o desembarque a sensação era ótima: o sentimento de missão cumprida, ainda que as dores na coluna fossem prorrogadas por dias. Depois era só pegar o táxi e, na fase final, o VLT, para rapidamente chegar em casa, tomar um banho e descansar. 

Atualmente eu vou para o trabalho a pé em 90% das vezes. As dores na coluna têm outros motivos. A insônia piorou um pouco, mas não é só por mim: há outros componentes. Pensar no próximo custa caro. 

Cinco da manhã. Insônia. Vai começar mais uma semana. Os próximos dias vão ser decisivos para milhões de pessoas no Brasil - e muitos nem se atentaram para isso. A vida cansa. 

Ao longe tem alguém chorando na rua. Certas coisas nunca mudam. 

arp

Thursday, September 29, 2022

três historietas

ABÍLIO: FÉ NA LOTO 

Onde foi parar o meu amigo Abílio? Ele era um dos caras mais legais e educados que conheci na vida. Estudamos juntos no Pedro Álvares Cabral em Copacabana, 1983 e 1984, turno da noite. Se eu não estiver enganado, ele trabalhava como almoxarife na Construção Civil. Era irmão da Soninha, que era linda demais. 

O que mais lembro dele é que me remete a um modelo de cidadão carioca que parece ter chegado à extinção: o sujeito que pode até não saber teu nome, mas te cumprimenta com simpatia mesmo que você passe do outro lado da rua. O homem gentil, que por isso mesmo colhe gentileza e bons sentimentos. 

Naquele tempo nem existia a Mega Sena. Era só a Loto, que hoje é chamada de quina. Volta e meia o Abílio tinha uns volantes à mão, ora anotando, ora dando um pulo na loteria antes da aula. Várias vezes eu o cumprimentava com os jogos e ele dizia "É, Paulinho, fé na loto!". Certamente apostei mais por causa dele. 

Nem sempre consegui, mas fiz tudo para imitar o Abílio no trato com as pessoas. Sua educação e gentileza eram supremas. Não nos vemos há quase 40 anos, mas nunca me esqueci dele. Continuo jogando, apostando, tentando. Já ganhei vários prêmios pequenos. Agora mesmo a Mega Sena acumulou em 300 milhões e estou organizando um bolão com amigos, aí me vem à mente aquela sentença inesquecível: fé na loto. 

Na turma da noite, eu era dos mais novos, entrei com 14 anos, era uma criança. Alguns alunos mais velhos ou desprezavam ou caçoavam dos mais jovens - e não é à toa que eu tenho tantos colegas mais jovens. O Abílio não: ele tratava todo mundo bem. Emanava simplicidade. Quarenta anos depois, ele ainda é uma referência para mim. Fé na loto, é o que resta.

[Com 300 milhões eu mudo a vida de muita gente, muita 


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PAMPEIRO, RUA TONELERO, 1990

(repost 2019)

Em algum momento perto de onze da noite, a fome apertava depois que terminávamos o campeonato de botão. Então fazíamos a vaquinha - não era crowdfunding - e dois de nós geralmente eram os responsáveis por descer a Siqueira Campos até a Barata Ribeiro para fazer a compra do lanche nas Casas da Banha. Geralmente pão e frios. Depois da volta, montávamos os sanduíches, mais coca-cola e a festa estava pronta. Quase todo dia, toda noite sempre. 

Num dos quartos, uma poderosa guitarra não parava de tocar riffs. O outro, só usávamos para ver TV à noite ou eventualmente algum jogo. A mesa de botão ficava armada na sala. 

Ríamos, ríamos muito. Muitas vezes o Xuru chegava de ressaca e deitava no sofá, sem condições de jogar. Ao ser perturbado com cosquinhas e cutucões, imediatamente ria e disparava vários palavrões. 

Eram tempos do Hollywood Rock, de Terence Trent D'arby, de Bob Dylan finalmente no Brasil, de Marina encantando os corações cariocas, da apoteose dos Paralamas e da Legião Urbana. No carnaval, espiávamos os bailes até a madrugada. Tinha também Documento Especial. Não, o país não era bom, mas no fim dos anos 1980 a gente era muito jovem, tinha esperança, sonhava com o futuro, a faculdade, o emprego. A Holanda de Gullit e Van Basten, o Brasil incrivelmente derrotado pela Argentina na jogadaça de Maradona que Caniggia finalizou - o Xuru falou muitos palavrões. 

Quando havia mais tempo e gente, jogávamos War. Tinha sobremesa de bolo de chocolate com sorvete de creme. Às vezes o Dória vinha de pijamas do quinto andar.

Somando tudo, não convivemos lá por mais de quatro anos, mas pareceu uma vida inteira. Na verdade, foi. Trinta anos depois, aquele tempo parece mais saboroso: era uma escola de convivência de grandes jovens camaradas, que nunca mais se repetiu.


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COOLIO

Em fins dos anos 1990, a minha curiosidade musical aumentava cada vez mais. Você ouvia muitas coisas legais na MTV. Eu virei habituê da Livraria Berinjela, onde rolavam sons espetaculares: música de Cuba, progressivos italianos, o underground carioca etc. E os novos nomes da cena black norte americana. Um dos primeiros foi Coolio. Ele era divertido, tinha estilo. Atitude. 

Coolio foi trilha sonora de várias viagens que fiz naquele tempo, muitas com Bola a Itatiaia. Levávamos quilos de CDs e ficávamos ouvindo o dia inteiro - era divertido. Sem maconha, sem álcool, só o som. Ríamos. Eram viagens quase que exclusivamente musicais. 

O tempo passou, as coisas ficaram para trás e, nos sons, foi o caso de Coolio. Tudo guardado em local de carinho. Até que chegou esta noite e a notícia de sua morte. Tinha 59 anos, era novo demais. Muito antes da hora.




Sunday, September 25, 2022

um poema sujo...

UM POEMA SUJO A UMA SEMANA DO FIM DO FIM DO MUNDO

Falta uma semana para acabar o fim do mundo e isso me traz algum alívio, pequeno diante de tantas dores e tanta gente falsa, hipócrita, covarde e desumana. Por isso sinto dores e não durmo, e quando desmaio de sono posso ter sonhos loucos como o de ontem, quando tentava tirar minha mãe das montanhas da URSS em plena tempestade, trocando de aeroportos como se fossem baldeações  - é tudo verdade. Minha pobre e amada mãe, morta há quinze anos, parece viva demais em meu sonho confuso. Falta uma semana para acabar o fim do mundo, mas a minha cidade está destroçada, humilhada, caída no meio-fio e será preciso um trabalho descomunal para ressuscitá-la: todo santo dia ela é cheia de pessoas famintas chorando nas ruas, sem casa, nem comida nem futuro. Será preciso reconstruir tudo, excerto para a confortável e acomodada burguesia que, de seus apartamentos esnobes, ou finge solidariedade ou estampa a bandeira da escrotidão repugnante. Minha cidade respira por aparelhos, e é cheia de lojas fechadas, apartamentos e salas vazias, tão apavorantes que nem o fantasma de meu querido pai, um fanático pelo Centro onde cresceu e viveu, dará as caras - e continuarei sozinho porque esse é o destino de todos nós, mesmo que finjamos o contrário - a profunda solidão do ser humano, que nasce e morre sozinho, que chora sozinho nos muitos dias tristes e procura um improvável espírito da paz. 

Falta uma semana para acabar o fim do mundo e na TV Bob Dylan está cantando alto para espantar os escroques e traidores das pátrias, o que ele tem feito ao longo de décadas - ao mesmo passo que FDPS daqui desprezam heróis da cultura como Gil e Chico. Bob Dylan é também um trovador solitário - desde o dia em que leu Jack Kerouac, saiu de casa e nunca mais voltou - vejam, ele ganhou o mundo, ficou milionário, tem fama mundial e prêmios inquestionáveis mas nem isso o libertou da solidão. 

Uma única semana para que voltemos aos leves tempos do golpe parlamentar, com as cidades recheadas de quadrilhas violentas e sedentas de crânios esfacelados, e por incrível que pareça este cenário de horror é bem menos pior do que tudo que temos vivido - nós, os mortais, que ganham moedas e sofrem risco de demissão, despejo e miséria, tudo certamente desprezado por nossos falsos amigos que fazem cara de paisagem, porque o ser humano é realmente assim: oportunista, egoísta e pilantra, salvo honrosas exceções. 

O céu pode esperar, já o inferno é aqui, doloroso, desumano, mas ainda assim temos o que comemorar: falta uma semana para nos livrarmos do fim do mundo, do cheiro do ralo, do esgoto podre que advém do ideário de gente má, perversa e que comemora a dor alheia. Por isso, nosso inferno será menos infernal do que antes. Ainda há muito o que sofrer, mas existe uma luz no fim do túnel e devemos persegui-la. O ódio é a estupidez, ele não é parte natural do nosso corpo - devemos eliminá-lo. Se conseguirmos olhar para o lado e ajudar minimamente o próximo em lágrimas, seremos menos inúteis do que lacradores ou estúpidos fiscais de redes sociais, ansiosos não pelo progresso mas pela opressão covarde, pela humilhação barata do outro - os mesmos que discursam pelo moralismo são os mais escroques, e não estão nem aí para os milhares e milhares de cariocas desesperados, carregando balas de açúcar para vender enquanto não encontram a dor das balas perdidas. 

O certo é que falta uma semana para se festejar o fim do fim do mundo. Ainda virá uma longa e tortuosa estrada pela frente, mas a sensação de se eliminar a máquina de ódio que sequestrou o Brasil é um alento. Não será fácil remover a falsidade e a hipocrisia, porque elas estão consagradas, mas se for possível ter dias menos coléricos, será um alívio imediato. É o que precisamos, na verdade vocês, porque eu já estou morto há muito tempo e, por aqui, apenas cumpro a insuportável pena de lidar diariamente com a indiferença humana. Mas pouco me importa: eu não preciso ser feliz para ser um bom fantasma em carne e osso. O que me move é a minúscula probabilidade de luz no fim do túnel. O que me basta é que, daqui a uma semana, mesmo ferido de tanta morte, eu possa dizer: "Como eu festejei o fim do fim do mundo".

#otraspalabras

#andelbooks

Wednesday, September 21, 2022

palavras outras palavras

Palavras exigem prudência. Prudência.

Favor não confundir com medo. 

Prudência é sempre uma qualidade. O medo, nem sempre. 

Palavras exigem cuidado. Apreço. 

Quem as profere embebidas em fel e cólera tende a depois passar vergonha pelo que disse ou escreveu, claro, se vergonha tiver ou, no mínimo, apreço pela própria imagem.

Palavras são coisa séria quando há gente decente em campo. Merecem ser respeitadas. As pessoas também, em sua maioria. 

Pobre daquele que pensa dominar as palavras apenas com estudo formal. A linguagem popular, além de muito rica, costuma carregar sinceridade e precisão. Duas ou três palavras mal colocadas e o arrogante erudito vira um pateta, um bocó desprezado por todos aqueles que considera inferiores no jogo da palavra. A erudição vira verborragia oca. 

Quantas vezes um pretenso polemista não passa de um anônimo em busca da fama, sem horizontes mais profundos? Não lhe importa a estrada pelas melhores palavras e ideias, o caminho da fraternidade, mas apenas os holofotes de brilho efêmero na plumagem de um pavão. 

As palavras merecem andar de mãos dadas com o carinho e o apreço. Quando saem disso, se o motivo não for deveras justo, podem acabar levando o orador ao seu pior habitat: o da mediocridade.


Sunday, September 11, 2022

Xuru, Russunes, Russ

Parece incrível, mas meu amigo Xuru (Russ, Russunes, Russinho da Atlântica e outros codinomes) completa 17 anos de sua morte hoje. Às vezes, nossa turma de Copacabana fala no WhatsApp como se ele estivesse apenas dando um tempo e vá reaparecer. Não há semana em que não falamos das situações engraçadíssimas que sempre o cercaram. 

Éramos seus colegas, três mais velhos e três mais novos, juntados pelo jogo de botão. Gomão era o "pai" do Raul, Xuru o da Cler e eu do Luiz. Hoje essa configuração está diferente, mas seguimos rindo no WhatsApp, é o que resta. 

Nem sempre é justo falar quem é o melhor amigo, até porque isso muda e nem sempre pra melhor, mas o que eu posso dizer é que o Xuru foi a única pessoa que jamais deixou de me estender a mão na hora da barra pesada e, se ele estiver em algum lugar, deve pensar que a recíproca foi verdadeira. Foi mesmo. Um tirou o outro de cada roubada... Jamais nos omitimos. Sabe aquela coisa de "depois eu te ligo" e a ligação nunca viria? Com a gente isso não existia. 

Ele chamava minha mãe de mãe e só eu vi o que ela sentiu quando soube de sua morte. Eles brincavam no telefone de um passar trote para o outro, telefone fixo, imagina? Ela fingia que era uma ficante grávida e ligava pra ele exigindo o reconhecimento. Resposta: "Rãrãrãrã, você é a décima. Mãe, seu trote não engana ninguém". E riam, riam. 

Fomos em um monte de acampamentos, jogamos muito futebol, muito botão e fomos muitas vezes ao Maracanã, desde os tempos em que chegávamos mais cedo porque tinha um tal de Romário que jogava muito. Engraçado que saímos pouco à noite: ele era da pá virada, eu não. Contudo, isso não nos impediu de beber chopes gloriosos e viver situações engraçadíssimas. 

Fiz um livro sobre ele. Não gostei do resultado final. Parecia triste, nada a ver com um sujeito que vivia rindo. Tive bom senso e joguei fora, depois farei outro bem melhor. 

Quando passamos no vestibular, ele caiu comigo na UERJ, mas com chances de reclassificação na UFRJ. Ficou torcendo para ir: achava que, se ficássemos na mesma universidade, os dois se ferrariam. Ok, tinha razão, mas ele foi pro Fundão e ficou na sacanagem do mesmo jeito. Menos mal que trouxe Pepsi pra gente. 

São muitas e muitas lembranças, mas uma definitiva se deu quando fomos barrados no prédio do apartamento de seus padrinhos, que ele frequentava desde criança. O casal havia morrido há pouco tempo e ele fez um réveillon de arromba por lá. Parentes (que nunca tinham dado sinal de vida) mandaram trocar a fechadura da porta. Olhando pro prédio serenamente, ele disse:

"Quer saber? PhodaC esse apartamento. A única importância disso aí era ter meus padrinhos, e eles não estão mais aí. RAT! Vamos tomar um chope!"

Demos meia volta, fomos para o galeto da Domingos Ferreira e deixamos uns quatro milhões de reais para trás. 

[RAT é uma corruptela que inventamos para o desabafo "ratomanoku". Deve ser pronunciada bem alta, com forte sotaque nordestino. 

Então, falar do meu amigo Xuru é falar do Maracanã, de São Januário que ele tanto amava, de botões Brianezi, da UFRJ, do seu famoso carro apelidado de "travecomóvel", do CAP, do Bernardão, do cheiro da pizza do Caravelle, de Vale do Sol, Serra dos Órgãos, dos escoteiros, do antológico Bar Sniff's (ele é personagem do livro), de Arraial do Cabo, do M Ninn, do Pedro, do ex-Coruja, de uma fila de mulheres, de golaços na quadra do Corpo de Bombeiros na Xavier da Silveira (hoje um estacionamento), de gatas alucinantes da UERJ num torneio de pingue-pongue, do professor Serra Costa, da Sorveteria Bolonha, do Bonino's, da Pepsi, do Sasso, do jogo de War com cartas marcadas, do PCB, da casa do Henrique no Flamengo, do show do A-ha, do James Taylor, da Cássia Eller e de noites quase desertas na Praia de Copacabana, onde bastava uma bola razoavelmente cheia e uma trave livre para nos sentirmos imortais.

Nossa última conversa foi três dias antes de sua morte. Eu ia pra uma rápida viagem maluca, ele não queria que eu fosse, eu prometi que voltaria para vermos o jogo de domingo juntos, ele sorriu. Sabia que não daria, mas não me disse nada. Ingenuamente, eu não percebi que era a despedida - pra mim, aquilo ia durar uns dois ou três anos, não três dias. Quando voltei, ele já estava morto. Percebi na estrada, quando comecei a telefonar para os amigos e ninguém atendia: não queriam me dizer. 

Não podia esquecer: nos dois anos finais do Russo, Zé Capixaba foi muito sinistro no apoio. Respeito eterno. 

Depois do enterro, numa segunda-feira à tarde, fomos almoçar no Cosmopolita. Foi a última vez que estive no tradicional restaurante, hoje desaparecido.

Dezessete anos depois, não há como negar: meu amigo deixou uma lacuna irrecuperável. Irrecuperável. 

@pauloandel 

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#comentecomeducação

Tuesday, September 06, 2022

monstro urbano

Eu sou o monstro urbano, e por isso sou fagocitado por mim mesmo noite e dia, misturando a canção imortalizada por Frank Sinatra ao cheiro de ruas tristes que exala das grandes metrópoles. 

Ninguém abre os braços para me oferecer afago, a revolução continuará não sendo televisionada porque o grande capital não tem interesse em exibir a voz das ruas. 

Eu sou o monstro urbano e minha carne adveio da indiferença alheia. O meu sangue tem os coliformes fecais dos valões das favelas; a minha pele é tatuada pelos estilhaços das balas cruéis; os meus olhos são tristes e tortos de tanto ver a miséria subindo morros, balançando em trens e se arrastando no chão das marquises. 

Eu sou o monstro urbano inerte diante de Soraia, uma jovem e linda menina fuzilada com um tiro na cabeça por causa de um iPhone. Eu sou o monstro urbano nocauteado quando debocham de Marielle, Anderson, Amarildo, dos cinco meninos do Chapadão, do sargento Robert, do soldado e dos batalhões de anônimos tendo suas vidas ceifadas por bosta. 

Eu sou o monstro urbano que se atira dentro de latões de lixo para ter o que comer; sou o monstro urbano tão ameaçador para os ETs quando penduro minhas balas de açúcar no retrovisor do motorista. Monstro, monstro, monstro urbano com minha pele negra, meu cabelo duro, minha cara de paraíba e o nojo que os xenófobos sentem de mim. 

Eu moro numa cidade sem Comissário Gordon, sem Homem-Morcego, sem Menino Prodígio e sem a Mulher-Gato; por isso, Jards Macalé não há de me redimir. 

Eu sou o monstro urbano doidaço de crack debaixo de um plástico da Avenida Brasil. Eu sou o monstro urbano abominável que desce a Automóvel Clube em direção ao Morro do Juramento. Eu sou a selva de pedra e, disfarçado, ando pela Avenida Rio Branco, perto da Livraria Berinjela e do prédio que o BTG tarrou da Caixa, até chegar à Leiteria Mineira, pedir um misto quente com chocolate gelado, observando a rapidez dos garçons e um grupo de advogados reacionários gritando por uma intervenção militar, enquanto espero por Carlito Azevedo e Rubens Figueiredo. 

Sim, eu sou o monstro urbano parido na Baía, indigno das pedras pisadas no cais da Praça XV, mas também poderia ser o horror nas famílias sofridas e abandonadas no Largo do Paissandu quando aconteceu aquele incêndio devastador, calcinando vidas humílimas.

"Os trechos dos livros que ainda não foram escritos", Paulo-Roberto Andel, Vilarejo Metaeditora, 2018, página 35

Saturday, August 06, 2022

agosto copacabana - short cuts

A esquina da Siqueira com Tonelero é sempre tumultuada. Com o metrô, ficou mais acentuada. Tudo bem. Na estação, tem uma loja que só vende ovos de galinha. Nada pode ser mais Copacabana.

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Cinco e quinze da tarde, chego à porta do shopping, vejo o fliperama que já não existe, nem o Bradesco. Por um instante, me vem à tona uma cena muito triste em 1993: uma família em situação de rua à calçada, o pai tinha uma perna amputada, ficava numa cadeira de rodas e usava uma sonda. O homem não tem direito de esquecer das cenas de guerra. 

Dez passos adiante, o antiquário continua no mesmo lugar, mas não há o menor vestígio de Patrícia porque agora ela é uma empresária de sucesso no Leblon, acho. 

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L.O. Matta. Compro bons discos para revenda. Posso ficar até 18:20 e depois pegar um táxi para o Caravelle, mas tudo é rápido demais e, por isso, antes das seis tudo já acabou. 

Os blocos continuam iguaizinhos. É insuportável ver o Sniff's fechado. 

Meia hora antes, melhor uma caminhada pelas únicas ruas do mundo onde verdadeiramente me sinto em casa. 

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Na esquina da Figueiredo com Tonelero fica o Solar. Jogamos muitos campeonatos de botão ali, rimos, fomos efemeramente felizes e tudo acabou. Ou não. Ficam as memórias. Elas sempre vão nos perseguir. 

Botão acalma a alma. Já comemorei gols no botão que jamais se igualaram aos do Maracanã. Só entende quem vive isso. 

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Parece incrível não ter a Academia Gracie, nem a Kayat Esportes nem o Sumol na esquina. Certos estabelecimentos deveriam ser eternos, mas aí está o capitalismo para arrasar tudo. 

Já na Barata Ribeiro, eu ia comprar um chaveiro do Fluminense na loja, mas estava muito cheia. Tudo bem. 

E o CIB? Está tão diferente com a fachada azul. O vizinho, Costinha, nunca mais. A Modern Sound virou o Supermarketing. A Billboard está fechada para sempre. 

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A Santa Clara tem movimento. Onde foi parar a loja de esportes? Lá atrás tinha a Suprema, com pasteizinhos alucinantes. Senhor! 

Ok, os tempos mudam, mas será que o destino do Cirandinha era virar um hortifruti? Nem estou falando dos rococós da Casa Barbosa Freitas ou da Sloper. 

[O Metro Copacabana tinha um ar condicionado de arrepiar, literalmente 

Quando você entra na Domingos Ferreira, logo vem a arrumada e ordeira portaria do Edifício Master. Tudo está bem, o documentário foi maravilhoso, mas quem veio dos anos 1980 lembra do balacobaco. A gente tinha medo da gangue, agora tem medo das grades e do silêncio.

Antes, esqueci o nome da loja de esportes que durou muito tempo na esquina de DF com Santa Clara. O letreiro era vermelho, com fonte vintage. Por ali rolava a Tele Rio Times Square, ou era perto da Figueiredo? Ninguém liga. 

Prédio do Sesc Copa, sem movimento. 

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Durante muito tempo, o prédio da esquina com a Constante ficou abandonado. No térreo, a lanchonete Top Top (será que o nome veio da canção?). Agora é uma espécie de apart hotel para a terceira idade. Eu tinha medo do prédio abandonado, com o portão acorrentado e um vigia. A Top Top tinha um excelente misto quente. 

[Meu joelho dói. Sofro calado. Muitas vezes calado. 

De cada lado da rua, a Domingos Ferreira é bem servida por dois excelentes galetos com balcão francês, conforme mandava o figurino. Também tem a filial do Caravelle, que tinha outro nome, mas a gente só se liga no original. 

Há tempos não paro ali. Preciso voltar. 

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Passo pela Barão de Ipanema e finalmente chego à quadra tão familiar, que frequentei de 1984 a 2005. 

Por um instante, eu queria ter dez anos de idade em 1979, para que minha mãe me puxasse pela mão e fôssemos lanchar no Bob's. Nós éramos felizes, mesmo com todas as dificuldades, e ainda ficaríamos em Copacabana até 1993. Uma senhora experiência. Sempre demos muito valor aos lanches, era um luxo para nós. 

Por um instante eu queria passar do Caravelle, interfonar para o Xuru descer e ele reclamar, porque não aguenta mais o cheiro da melhor pizza do mundo invadindo sua casa. 

Mãe, nunca mais. Xuru, também não. Mais do que mãe e amigo, taí duas pessoas que nunca me deixaram na mão. 

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Entro no Caravelle e me sinto em 1985, mesmo que as dores, a tristeza, as dívidas e as pressões digam o contrário. Peço uma Coca-Cola gelada, garrafa de vidro 290 ml, e espero por meus amigos. Nós nos conhecemos na casa de um deles, ainda criança, e nossa amizade se firmou em campeonatos de botão quase diários. De lá para cá, todos crescemos, vivemos, morremos um pouco e agora usamos o WhatsApp para nos sentirmos pós-adolescentes, com velhas brincadeiras ridículas que ajudam a disfarçar a realidade da vida e a marcha atlética do tempo, que sempre vence. 

Em cinco minutos, Raul chega e, por qualquer motivo, começamos a rir. Melhor assim: risos são a melhor morfina. 

Mais dez minutos e cinco jovens senhores respeitáveis pedem pizza, chopes e, pelas próximas horas, vão celebrar muitos dos melhores momentos de suas vidas. 

Não há mais nenhum dos grandes garçons do passado no Caravelle. 

O Bob's faleceu. 

A vida escorre. 

@pauloandel

Sunday, July 24, 2022

Janjão

Há muitos anos, mais de vinte, eu saía do trabalho a pé para casa e Seu Janjão me cumprimentava com um oi, um aceno de mão ou algo simples. Ele morava com a família num sobrado a metros do meu prédio, e lá ficava com sua cadeira na porta. Praticamente de segunda a sexta, todas as semanas, todos os meses em fins dos anos 1990. Nunca falamos nada além dos cumprimentos, mas eu achava legal que um vizinho me reconhecesse e se preocupasse em dar um oi. Parecia coisa boa das cidades do interior. Ele me lembrava o Seu Madruga, ahaha.

Era uma época difícil: meu pai parou de andar, o mundo desabou mais uma vez e lá estava eu sob os escombros. Amigos deram as costas, a injustiça era a sina. Ia e voltava do trabalho para casa. Tudo era racionado para que pudéssemos sobreviver (nada diferente de agora, exceto por não ter mais família). A internet estava começando e ainda viria muito ódio pelo caminho. 

Muitas e muitas vezes eu vinha pelo caminho amargurado, triste, mas perto da portaria o Seu Janjão acenava e eu me sentia melhor. Eram dias em que as pessoas basicamente só falavam comigo por motivo de trabalho. Pelo menos eu tinha a MTV para me distrair. Dureza. 

Em algum feriado em casa ou folga repentina, alguém bateu à porta numa tarde de sol. Não esperava ninguém, achei estranho, fui espiar. Era um garoto, pedindo colaborações para o velório do Seu Janjão, que morrera de manhã. Fiquei paralisado. Peguei a carteira, dei o que tinha, o rapaz agradeceu e foi batendo em outros apartamentos. Passei o resto da tarde pensando naquele senhor educado, que nunca soube meu nome mas fazia questão de me cumprimentar. Aquilo me entristeceu profundamente.  

Dias depois, voltei à rotina de trabalho. Vinha da Rua do Senado, pegava o último trecho da Mem de Sá e logo o começo da Rua de Santana. Perto de casa, nenhum aceno ou oi. Não havia um cumprimento. Perdi para sempre o amigo que se preocupava comigo, mesmo que sequer tenhamos sido amigos de ofício, claro. O que importava era a generosidade, o apreço, o velho sentimento de fraternidade. 

@p.r.andel

Saturday, June 18, 2022

Paul McCartney 80

Há pouco mais de 30 anos, 32 precisamente, Paul McCartney parou o Rio de Janeiro com dois grandes shows no Maracanã. Os Beatles já tinham encerrado seus trabalhos há duas décadas, mas Paul se mantinha como a grande representação ativa do grupo - o que se mantém. E o então maior estádio do mundo ficou abarrotado, alternando momentos de coro e festa com outros que pareciam de uma procissão silenciosa: dezenas de milhares de pessoas hipnotizadas com "Something" e "The fool on the hill". 

Desde então, a caravana não para. Paul McCartney completa 80 anos neste sábado. Continuou fazendo muitas turnês de sucesso mundial e, semana passada, realizou shows com sets que chegaram a três horas de duração. Ele é, de maneira individual, um vetor de eterna juventude tal qual seus contemporâneos dos Rolling Stones - a banda, mesmo tendo perdido o baterista Charlie Watts, segue firme em seu propósito de tocar bem até o fim, e Paul não fica atrás. 

Meio século depois do fim dos Beatles, não há como Paul McCartney deixar de executar os clássicos da maior banda de rock de todos os tempos, mas nunca é demais lembrar: sua carreira de frontman é muito, mas muito maior do que a de um eventual cover de si mesmo. Paul lançou dezenas de hits solo que, uma vez reunidos, dão tranquilamente um show inteiro sem as composições dos Beatles, mesmo que isso seja impensável, isso quando não faz álbuns inteiros de grande impacto, caso de "McCartney III", lançado em 2020 e testemunho pleno da vitalidade do artista. Para quem tiver dúvidas disso, é só procurar no YouTube o batidão funk no meio de "Coming up", a força juvenil de "Jet" e os coros de "My brave face". Não importa que não sejam pérolas como as do quarteto de Liverpool: elas têm seus próprios poderes. 

É sempre difícil prever o futuro, ainda mais quando a vida está mais perto do fim do que do começo, mas uma coisa é certa: a julgar pelo momento atual, meio século depois dos Beatles, Paul McCartney ainda tem muito a fazer, dizer e tocar. Sua aposentadoria hoje é simplesmente impensável e não há como duvidar de que se mantenha em plena atividade por vários anos, esbanjando energia e até constrangendo talentos com metade de sua idade ou menos, tamanha a sua disposição física. A longa e larga estrada parece interminável, o que nos oferece a doce ilusão da imortalidade. Vivamos, pois, para saboreá-la. 

Viva Paul McCartney! Viva os Beatles! A caravana não para. 

@pauloandel

Monday, May 30, 2022

Eles não sabem nada de Copacabana

Domingo à noite, perto das nove, nove e pouca, deixo a casa de Katia na Barata Ribeiro e peço um Uber na portaria do prédio. Enquanto o carro não vem, espio a calçada onde tricolores e flamenguistas vêm e vão, voltando do Maracanã ou dos bares. É o futebol, nosso ópio admirável que faz apaixonar. 

A um minuto do embarque, o motorista cancela a corrida. Já na rua, com mais gente do que eu esperava, resolvi não pedir outro carro imediatamente e, mais do que isso, andar sobre os paralelepípedos da minha infância por alguns instantes. 

Metros adiante, o Edifício Richard, número 194, um respeitável condomínio que ganhou muitas manchetes no passado, quando era simplesmente o 200. Era um microcosmo do bairro, ou melhor, ainda é. Detestado pela burguesia barroca, admirado pelo underground, teatro do submundo, hoje casa de grandes intelectuais, escritores, professores e também de algum pecadinho, porque ninguém é perfeito. 

Desde o golpe de 2016, Copacabana ganhou uma estranha pecha, a de capital do nazifascismo tupiniquim, tudo porque os amantes da terra plana e do milicianismo político resolveram fazer suas passeatas na Avenida Atlântica, aos domingos. É certo que muitos simpatizantes da arminha ainda moram por ali, e não se pode descontar apartes históricos de um bairro cheio de elevadores de serviço por toda parte, mas na essência Copacabana nunca foi uma aldeia reacionária. Eles, os que insistem em depreciar a Princesinha do Mar, não sabem absolutamente nada de Copacabana, talvez um dos únicos lugares do mundo onde ricos e pobres ainda compartilham os mesmos espaços públicos. 

Tudo começa pela praia, que possui sua geografia política própria mas incorpora todas as tribos: gatinhas, marombeiros, craques da pelota, bonecas e muita gente que vem da cidade inteira, mas que ao chegar à terra copacabanense age como se fosse local - quantas musas do bairro não iam embora da praia via 434, 474, 415 e outras linhas de ônibus?

Se a população envelheceu e a boemia encolheu, paciência, mas não há como apagar a história de bares e boates memoráveis, dos inferninhos aos templos da bossa nova, chegando até aos botecos sobreviventes - os catedráticos de Copacabana sabem muito bem que o Pavão Azul, antes de se tornar uma potência, era um botequim humílimo mas sempre de iguarias inesquecíveis. Recém-chegado, o Parada de Copa já é um digno herdeiro da tradição do Cervantes. O Sniff's não resistiu depois da pandemia, mas acumulou histórias em meio século no Shopping dos Antiquários - deu até livro. 

Copacabana não é para amadores e calhordas, nem para ressentidos com o bairro mais famoso do Brasil, tão plural que abrigava golpistas e ditadores junto a revolucionários, democratas, estudantes, camelôs, artistas, desocupados e quem mais viesse. Palco plenamente possível da festa de "A rainha diaba", filme protagonizado pelo brilhante Milton Gonçalves, que acaba de nos deixar. 

Os detratores de Copacabana nunca viram o goleiro Renato voando em defesas para o time de praia do Lá Vai Bola, nem Tião Macalé reclamando da arbitragem numa outra partida de areia. Nunca viram o esplendor de Rogéria sendo saudada por populares à rua como verdadeira personalidade do bairro. Nunca souberam de Lina, a moradora de rua que lia o New York Times na calçada com excelente pronúncia. Nunca lancharam hambúrguer com mate na Sorveteria Bolonha, nem pizza no Sumol às duas da manhã, esquina de Barata com Figueiredo. 

Nunca viram os garotos jogando botão debaixo da escada rolante fajuta do shopping, nem Clóvis Bornay cumprimentando a todos gentilmente na porta do Coruja Bar. Não sabem sequer que o Parque Peter Pan tinha uma linda e maravilhosa baleia na entrada, por onde as crianças entravam e se encantavam. E nunca poderiam uma imaginar uma bicha maravilhosa discutindo um Fla x Flu de antigamente com um general aposentado no elevador - isso, até chegar à portaria, onde o funcionário do prédio, vascaíno, se mete no debate esportivo. 

Depois de um pequeno lapso de razão, lembro que preciso ir embora, que amanhã é um novo dia e a segunda-feira não perdoa. Aperto os botões e um carro me levará dentro de três minutos. Eu não moro mais em Copacabana, mas ela não sai de mim. 

@pauloandel

Saturday, May 14, 2022

Cenas do Centro do Rio 2022

Depois de comermos pastéis com laranjada na Chic's da rua dos Andradas - estamos sempre comendo -, resolvemos caminhar até o Largo da Carioca, eu, Vitor S Barros e Jocemar Barros . Não levou mais do que dez minutos. Nos despedimos, eles foram a caminho da Praça XV e eu pensei em fazer minha velha visita ao Santos Dumont para tomar um sundae de morango em meio ao silêncio da praça de alimentação do aeroporto - quem chega ao Rio quer se mandar para casa ou hotel. Então peguei meu VLT favorito e fui. 

Uns vinte metros depois da entrada e você fica inebriado com o som de jazz e bossa nova do conjunto que se apresenta no SDU às sextas, das seis da tarde às oito da noite. Logo você está perto do palco e já conheço quase todos os músicos de vista, com exceção de um que conheço desde sempre: Sérgio Barrozo, contrabaixista com quase 60 anos de carreira, já tocou com os gigantes da música brasileira. Sérgio é nosso Ron Carter, nosso Charles Mingus e deveria ter uma estátua sua em praça pública. Seis ou sete pessoas aplaudem o conjunto. Outras acabam celebrando a apresentação de passagem. 

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Subo uma pequena escada rolante e desisto do sundae. A loja de mate promete sanduíches  da pesada num cartaz promocional. Ao mesmo tempo, dali dá para ouvir o belo som do conjunto lá fora. E por falar em música, carrego quatro CDs comigo: um, raro, de Paulo Lepetit ao lado do saudoso Gigante Brazil, um de Herbie Hancock - The Joni Letters, um tributo a Joni Mitchell, afora outros dois que ainda vou me lembrar. No mais, sigo com meus confortáveis chinelos, meu bermudão azul e reparando no clima tenso que alguns passageiros exibem em seus semblantes de desembarque, loucos para se mandar porque querem ou aproveitar o que o Rio tem de bom, ou escapar da ruindade. 

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Dois sujeitos estão com seus notebooks em ação nas mesas da lanchonete. Aguardo pacientemente pelo atendimento. Quando a moça vem, penso que já são quase sete da noite e ela já deve estar morta de cansada pelo trabalho extenuante. 

Peço o lanche, vou para a mesa de fundo e, quase ao mesmo tempo, os dois clientes se mandam. Meus sais: acabei de lanchar com Jocemar, sou um esfomeado irresponsável. Não, não, longe disso: engordei por excessos mas me cabe o perdão de já ter passado fome algumas vezes na vida, inclusive quando supostos amigos faziam vista grossa para o acontecimento. Vida que segue. Já falei algumas vezes que, no passado e com saúde, fui atleta em treinamento para a São Silvestre - sonhava romper o ano correndo na madrugada urbana de São Paulo. 

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Há anos que ouço falar desse disco de Paulo Lepetit com Gigante Brazil. Finalmente está em minhas mãos. Sou fã de Paulo como músico e facebooker. A Isca de Polícia é um negócio sério demais. Saudade de vê-los em ação. A última vez foi no CCBB. Já Gigante é saudade. 

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O sanduíche é bom, tecnicamente bom, o pão é gostoso mas o recheio deixa a desejar. Sou cliente do Paladino e do Parada de Copa, acostumado a recheios generosos, de matar a fome. 

O mate estava uma porcaria. 

Pelo menos carreguei um pouco o celular. 

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Ao descer, passo novamente pelo palco dos shows de sexta, agora com música ambiente porque é intervalo. 

Numa mesa na lanchonete ou restaurante à esquerda do palco, Sérgio Barrozo traça um sanduíche e parece feliz da vida. Não nos esqueçamos: ele é nosso Mingus, nosso Ron Carter, e merece todas as reverências. 

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A sexta-feira à noite do Aeroporto Santos Dumont é fria e vazia. Sexta-feira, 13 de maio, dia de superstições. E reflexões. 

Uma breve espiada e logo se percebe o quanto precisamos evoluir em termos de inclusão negra por ali. 

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Deveria ter pego um Uber, mas simplesmente esqueci, então logo chego ao VLT e fico apreciando a beleza noturna da região, as árvores, os prédios da Beira-Mar. Troco mensagens com Marina, o Fabiano Soares - que é um tremendo escritor - diz que virá ao sebo na terça.

As curvas do percurso me lembram o Tivoli Park por algum motivo. O trecho do Aeroporto à Cinelândia é imperdível pela bela arquitetura ali reunida. 

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Bem ao lado do acesso do metrô na Santa Luzia tem uma turma comendo churrasquinhos e bebendo cerveja. Jovens mulheres bonitas e seus pares. Por um instante, parece até que a pandemia não nos abateu. 

O Rio é a cidade de cidades misturadas, versou o poeta Fausto Fawcett. Nada parece ser tão preciso para descrever a Cinelândia atual. Do Starbucks na esquina até o Amarelinho, o MC Donald's se salva aberto e cheio. Nas marquises e bancos, muita gente em situação de rua e, na amostra local, a população negra é de 100%. As reflexões sobre 13 de maio são inevitáveis e dolorosas. Somos uma sociedade muito atrasada e desigual. 

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No tempo que me resta, olho para cima e o relógio do Edifício Mesbla me oferece um tom de Gotham City, não apenas a cidade dark de Batman mas também a letra profunda de Macalé e Capinam. 

Perto de mim, pessoas descem delicada mas  apressadamente pelas escadas do metrô. Taxistas caçam passageiros. Os últimos clientes das Lojas Americanas deliciam-se com suas sacolas cheias de promoções. Garotos e jovens perdidos carregam suas caixas de Mentos para vender aos transeuntes, muitos deles sem um níquel sequer. Há um burburinho na entrada do Teatro Riachuelo e, bem em frente, na fila do ônibus 247. A miséria, a indiferença e o consumo dividem o mesmo espaço à rua, como se tudo parecesse normal. 

O leão e o tigre andando lado a lado na mesma calçada, assim disse Jack Kerouac em "Crônicas de Nova York" em alusão a Tom Wolfe. 

@p.r.andel

(continua algum dia)

Thursday, May 12, 2022

o final de um livro breve

 "...e chegava a ser incrível que o senhor J. J. Johnson continuasse tão calmo diante de seu cenário de penúria, pensando que tudo iria dar certo de repente, talvez misturando realidade e delírio, talvez tão chocado que sequer percebesse a gravidade do momento, ou talvez porque não tivesse a menor preocupação com o que pode significar sucesso ou fracasso, ambos menores do que a vida, a sucessão dos dias, o ir e vir de dias e noites que muitas vezes nenhum de nós percebe porque estamos ocupados demais, focados em nossa individualidade e pouco afeitos ao próximo, ao verdadeiro amor, à delicadeza e o entendimento necessário de que a passagem por esta terra não pode nem deve ser um processo egoísta, mesquinho, laureado pela escrotidão. 

Calmo, lúcido, atravessando os dias mesmo com uma bala de revólver apontada para a própria cabeça, o senhor J. J. Johnson é um nobre cidadão e pouco importam suas roupas poídas, sua falência, sua incapacidade de se adaptar ao mundo dos vencedores com ternos de cor neutra, sua aversão ao estilo de vila do mundo corporativo, geralmente desprezível e alheio aos mendigos que sofrem debaixo da fachada de uma grande corporação capitalista. A nobreza não vem das grandes posses e sim da gentileza, da amabilidade e da ética, esse verdadeiro elixir da vida que se esconde em pequenos abrigos e nos livros, nos versos e até nas cenas de um filme qualquer na TV à madrugada, quando a muito jovem Scarlett Johansson contracena com o veterano John Travolta em um ambiente de pobreza, solidão e poesia. 

Em certo momento, o que parece fragilidade em J. J. é, na verdade, um pouco de todos nós. Onde está o que é realmente sucesso ou fracasso? Quem sabe definir exatamente esses conceitos? São números ou vivências? 

Os grandes salões do high society estão cheios de fracassos, as longas noites estão cheias de lágrimas silenciosas e, sem qualquer exagero ou arroubo, são muitas as lápides luxuosas que hospedam o silêncio permanente da empáfia e da arrogância."

Sunday, May 01, 2022

trabalho

o trabalho. eu trabalho há muitos anos. fiz coisas fáceis e difíceis. vi muito desrespeito, assédio moral, humilhação, maldade. muito. algumas das piores pessoas que conheci na vida foi em ditos ambientes de trabalho, ou de projetos, tanto faz. 

em trabalhos voluntários e remunerados, testemunhei uma reação bizarra diversas vezes: num grupo onde alguém se destaca a ponto de melhorar a coletividade, integrantes passam a boicotá-lo justamente para que não ganhe mais espaço. o coletivo sabota em nome do particular. 

a imagem que carrego do trabalho é o moço lavando o chão da pastelaria ao término do expediente, a senhora carregando as bolsas de roupa no trem, o rapaz esmagado no ônibus tentando ouvir música no fone. o moço que traz a comida, o moço que cuida da portaria, a moça que registra a compra, a moça que vem ao balcão. vi tudo isso muitas vezes, em paralelo ao chamado mundo corporativo, onde é comum pessoas grosseiras fingirem educação ou extremamente ignorantes fingirem erudição. 

o mundo só poderia ter dignidade se todos tivessem um trabalho e dele pudessem sobreviver. todo mundo precisa de um trabalho, ter uma casa, uma cama, comida, fogão, rádio, tv. só que isso não existe. no exato momento em que escrevo aqui, cerca de 70 milhões de pessoas são humilhadas no brasil: não têm emprego ou têm ocupações tão precarizadas que arriscam a própria sobrevivência diariamente. 

há 40 anos eu sonhava em ter um trabalho para ajudar meus pais em casa. recebi nãos e humilhações. depois estudei, cresci, trabalhei, trabalhei, fiz coisas demais. escrevi milhares e milhares de páginas, fiz milhares e milhares de contas, viajei milhares de quilômetros de ônibus e avião, participei de centenas de reuniões. mesmo depois de tudo isso, ainda me falta encontrar a dignidade.

Thursday, April 21, 2022

Na Carioca

DEPOIS de bater um misto quente com suco de laranja na Senador Dantas, desci pela escada da Estação Carioca e, num súbito, espiei o quiosque de empadinhas e pão de queijo.

Foi quando lembrei de uma história de anos. Exatamente ali funcionava um outro quiosque, de chope. Eu bebericava e espiava um livro de Kerouac. Foi em plena Copa do Mundo, talvez depois de um jogo do Brasil. A Estação estava cheia de ir e vir, mas no quiosque eu era o único cliente. 

Em certo momento chegou um casal. Quero dizer, um homem e uma mulher que pareciam ter marcado um encontro ali. Num olho eu espiava as loucuras de Kerouac; noutro, o casal ou a dupla. 

A mulher era jovem e muito bonita. Parecia ter olhos claros, cabelos também. O homem parecia mais velho, embora nem tanto. Não era bonito, mas devia ter charme - a jovem não parava de olhá-lo enquanto conversavam. 

Houve uma hora em que ele pegou na mão da moça, mas a mesa fazia a distância regulamentar da idade. E eu feito um boboca, espiando a vida dos outros enquanto Kerouac falava da bondade na Terra e das alucinantes festas beat. Será que eram amantes? Sou um boboca. 

De repente, a conversa ficou escassa. Parecia haver um mal entendido. A mulher ficou séria, calada. O homem falava, falava e também sorvia um chope. Eu, que não sou fofoqueiro mas curioso, pedi mais uma tulipa. 

Ele pediu a conta, pagou e os dois se levantaram. Mais à frente, pararam na mureta da Estação. Ela falou algo, ele a puxou, ficaram abraçados e plaft, pensei: o cara se deu bem, porque a garota era um espetáculo. Beijo, beijo? Não, não teve. Ela foi em direção à catraca eletrônica, ele voltou lentamente a caminho da escada, a mesma que desci só lembrar de tudo isso. Seu charme tinha virado uma impressão triste. 

Até aqui eu poderia parecer apenas um bisbilhoteiro, mas não era o caso e sim apenas um simpatizante daquele casal que não aconteceu. Fui um torcedor do amor, aquele que nasce e morre nas conversas, nos quiosques, nas festas e shows, na velha conversa de portão, em qualquer lugar. Torcer para que terceiros sejam felizes. Nunca mais os verei, mas acho que mereciam trocar um beijo que talvez só tenha existido na minha cabeça.

No palco do amor fracassado, restam empadinhas saborosas. Ninguém desconfia de nada. Só eu sei e isso é engraçado, mas tem tristeza também. 

@pauloandel

Sunday, April 17, 2022

em nome do pai

Hoje meu pai faria 81 anos. Por si só, já seria uma data difícil mas, nos últimos tempos, todos os dias têm sido muito difíceis. Ninguém tem ideia. 

Vivemos quase 40 anos juntos. Houve muita dificuldade mas alegria também. Por diversas razões, dialogamos muito menos do que o devido, mas o saldo foi positivo. 

Minutos antes de morrer, ele me chamou para me devolver uma grana que eu havia emprestado. Era pouca coisa, mas seu último gesto descreve exatamente quem ele foi. Um cara que teve muitas dificuldades, que sofreu paca e, involuntariamente, fez outras pessoas sofrerem, mas que sempre foi de uma dignidade enorme. 

Desde então, tenho tentado fazer coisas boas, praticado o bem (discurso sem ação não passa de falácia) e sobreviver. Espalhei o Andel por vários lugares, na internet, na TV, no rádio, em livrarias e bibliotecas. Certamente li e ouvi mais Andel nos últimos 12 anos do que nos 42 anteriores. Enquanto isso, vi o amor e o ódio, as raras amizades e muita falsidade, a escassa generosidade e os múltiplos jogos de interesses. A praxe do ser humano, enfim. 

Apesar de ser naturalmente o meu sobrenome, quando falam Andel eu penso no meu pai. Quando leio as capas dos livros eu penso no meu pai. Quando falam o sobrenome, a ele ergo o pensamento. Enquanto ainda estiver por aqui, sigo buscando a valorização do Andel, não a mim, mas a meu pai, meu avô que não conheci, a uma longa história que fala de dor, de amor e de coisas simples, mas sinceras demais. 

@pauloandel

Wednesday, April 13, 2022

Altinho, altinha, celebração do futebol

Antigamente era altinho. O pessoal brincava antes de qualquer pelada, em qualquer lugar. O único objetivo era manter a bola no ar, numa espécie de frescobol coletivo – outro esporte solidário, sem vencedor ou vencido.

Na praia, o altinho se consagrou. Às vezes durava mais do que a própria pelada em si. Nos velhos tempos do futebol de praia em Copacabana, enquanto os dois times disputavam a peleja, atrás do gol ficava a turma na disputa de equilibro: a bola era a peteca e não podia cair. Ainda que seja uma prática muito ligada à praia, não é exagero dizer que o altinho fez parte da imensa faculdade de formação de boleiros Brasil afora, aprimorando o domínio de bola dos craques, outrora players.

O tempo passou, as garotas aderiram à prática trazendo ainda mais graça e beleza ao jogo, o altinho virou altinha – que valham as duas formas! – e se tornou patrimônio imaterial do Rio. A disputa oficial agora tem regras e pontuações, mas nada a afasta de seu curso natural, que é a beleza da solidariedade, um jogando pelo outro, cada um tentando um toque mais bonito e a bola no ar, voando alta ou um pouco mais baixa, prendendo todos os olhares ao redor. Talvez a busca por outra beleza, a do futebol que um dia tivemos no Brasil e deixava todo mundo louco de paixão. Talvez seja jazz tocado com os pés na esfera. Se os campinhos foram sendo apagados no Rio, pelo menos ninguém mexe ainda na orla e, com isso, não há dia em que, num passeio pela calçada, não se possa ver um grupo de artistas fazendo arte da própria brincadeira antes do jogo.

Neste 2022 a altinha ganhou até uma bela trilha sonora. “Espelho Solar” traz a parceria entre Rodrigo Lima, Ithamara Koorax e João Cavalcanti, com produção de Arnaldo DeSouteiro. Na letra, há uma linda passagem que captou o espírito da altinha em cheio: “Nosso espelho solar/ Onde põe-se a voar/ Nossa infância outra vez”. Nada pode ser melhor do que a junção entre os tempos de criança e uma bola para, mesmo que por alguns instantes, deixar a opressão do mundo lá fora e revolver a infância. O mundo precisa disso.

Os veteranos dos anos 1950 e 1960 agradecem.


OUÇA "ESPELHO SOLAR", COM RODRIGO LIMA E ITHAMARA KOORAX

Wednesday, March 02, 2022

Rio 457 Rio

A cidade fez aniversário. Na verdade, ela é um país, um pequeno país cheio de contradições, problemas seríssimos, confusões, mas também de uma beleza que remete à expressão cunhada por um dos seus famosos habitantes do passado, Ibrahim Sued: "linda de morrer". Nem mesmo seus inúmeros detratores contestam a beleza, exceto quando não querem ser levados a sério. 

Embora o Rio seja mundialmente conhecido pela sua geografia à beira-mar, a cidade está longe de se resumir a isso. Pense num lugar como a Portuguesa de Olaria - se você não conhece é melhor ir logo - e caminhando por lá você se depara com lindas casas e gentes, sem contar os grandes músicos de chorinho ao vivo no domingo à tarde. Festa boa é festa de subúrbio, com comida, bebida e terraço a valer. A trilha pode ser samba, pode ser funk e pode ser rock, você vai se surpreender. E tome Olaria, Ramos, Madureira, Honório, muita coisa boa mas escondida. E o trinômio Méier + Todos os Santos + Cachambi que se estica até Del Castilho e põe todo mundo para se refrescar no grande shopping? 

O mesmo trem da Central que une a cidade partida e desenha as desigualdades é também uma verdadeira aula de marketing, com os camelôs a plenos pulmões vendendo tudo o que podem - tudo é tudo mesmo. Tem conversa, turma, purrinha e adjacências. A concessionária precisa tratar melhor seus clientes, mas ali você compreende melhor a cidade múltipla. 

Pode ser na Praça da Harmonia também, já perto do Centro, onde o clássico e o novo se encontram da janela do VLT.

Ou numa birosca perto da Praça da Apoteose, do velho Estácio dos bambas, construindo uma história secular desde os tempos de Tia Ciata. 

Pode ser no ir e vir da turba na Carvalho de Souza em Madureira, perto do Viaduto Negrão de Lima - calma, é só o sobrenome! - e, se você der um pulo até Edgard Romero, pode se esbaldar a valer no Mercadão, patrimônio da terra. O Miguelão não existe mais, não se pode vencer todas. 

Outro polinômio faiscante é Maracanã + Vila Isabel + Tijuca + Andaraí + Grajaú. Em certos pedaços, ninguém sabe ao certo que bairro é, mas está garantido um universo de gênios da raça: artistas, intelectuais, personagens botequinescos e próceres locais, num caldo cultural que vai de Noel Rosa a Aldir Blanc e deságua na mais carioca das universidades, a UERJ - que, claro, é do Estado, com suas bibliotecas de frente para o Morro de Mangueira. 

Há muitos Rios num só, e desde sempre a dor e a alegria andaram juntas. Tivemos e temos muitos erros, mas a quantidade de gente boa sempre será maior do que a ruim, o que garante a sobrevivência até em destruições econômicas - como a que vivemos desde 2016 - e a maldita pandemia, que botou nosso sorriso no armário por um bom tempo. Ah, e temos nossos próprios condados, verdadeiros bairros-cidade a gosto do freguês, vide Campo Grande, Bangu, Jacarepaguá e Ilha do Governador. 

"Do Leme ao Pontal não há nada igual", assim cantou um dos nossos maiores símbolos, Tim Maia, com seu vocal inesquecível. "Sem contar Calabouço, Flamengo, Botafogo, Urca, Praia Vermelha". Quer fazer um passeio inesquecível? Pegue um frescão no Santos Dumont em direção à Barra: antes de chegar à lindeza do Atlântico Sul carioca, você vai cortar e olhar uma das maiores criações do homem: o Aterro, com jardins de Burle Marx - calma, é só o sobrenome! A visão da estrada com as árvores, o gramado, e o Pão de Açúcar - este, por conta de Deus - deixa uma visão única na mente de qualquer turista. Em mais de quarenta anos, não conheço um que não tenha dito "Lindo!". 

Quer comer uma sardinha inesquecível? Beco da Sardinha, lá na ponta do Centro. Um sanduíche antológico? Paladino, inaugurado em 1907 e fincado na Marechal Floriano com o pedacinho da Uruguaiana. Batata frita, 1, 2, 3? Marechal Hermes! 

Que cidade do mundo tem o Aterro, o Campo de Santana, a Quinta da Boa Vista e o Parque de Madureira? Já ouviu falar do Parque Guinle? E da Travessa dos Poetas de Calçada? Pegue o trem, cruze a cidade e rememore Candeia, Alvaiade, Paulo, Mano Décio. Turiaçu, você lembra? Sampaio? Bonsucesso com certeza. E Anchieta? 

Permita-me o desafogo. Tirar o nó da garganta. Essa cidade tem coisas demais. Se "só" tivesse Machado de Assis e João do Rio, valeria por um milênio, mas a quantidade de poetas, escritores, artistas plásticos, atores, cineastas e profissionais da arte em geral é tão grande, mas tão grande, que fica impossível listar. Todo o Brasil e boa parte do mundo já passou por aqui ou ficou de vez, juntando-se aos craques locais. O baiano Glauber Rocha é Rio, o baiano Caetano Veloso também. Dorival Caymmi e Gilberto Gil. João Gilberto. O mineiro Ary Barroso. O mineiro Darcy Ribeiro. Percebem como a lista é interminável? 

As garotas do Rio, lindas de morrer como dizia Ibrahim, que esticam suas cangas na areia e alimentam poemas imediatos - elas vêm de todos os bairros. A garota de Ipanema muitas vezes mora na Cruz Vermelha, em Vigário Geral, Guadalupe, Paciência ou Boiúna. São esquadrões e esquadrões. Tem Tatiana, Alessandra, Ana Cláudia, Vanessa, Gabriella, Marina, Juliana, Renata e o resto fica por conta do cartório. 

Esse não é um discurso ufanista, é apenas uma humilde tentativa de falar da vida como ela é. O Rio é cheio de problemas, miséria, violência, fanatismos, mas ele não se resume a isso. A cidade é partida e precisa derrubar o muro, mas há tanta vida lá fora, mesmo que precisemos de máscaras e vacina quádrupla - questão de ciência -, e, por isso, sonhar é preciso. 

Temos coisas demais, todas muito importantes. 

Não deu tempo para falar dos grandes cinemas e teatros que perdemos, dos bares inesquecíveis e das coisas que acabam porque, no fim, tudo passa e precisa mudar. 

A luta é árdua e a cidade precisa se unificar, dando uma banana para os limitadores xiitas, sejam eles quais forem. Realidade possível ou utopia, o Rio de Janeiro merece um lugar no topo do mundo. Cá entre nós, muito cá entre nós: quem fala muito mal ou não conhece a cidade ou carrega aquele apêndice desagradável que, muitas vezes, resumimos: inveja de não poder estar aqui. 

Agora me dá licença que eu vou pegar meu VLT, espiar a Cinelândia, a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes e, se bobear, vou até o Edifício A Noite, primeiro arranha-céu da América Latina. No percurso, dá para lembrar das decorações de carnavais inesquecíveis. 

Copacabana? Ah, meu amigo, eu já escrevi um livro. Esse ano eu lanço.

Um viva à Casa de Portugal: foi de lá, no Rio Comprido, que eu caminhei até aqui. Faz muito tempo. 

@pauloandel