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Thursday, October 25, 2012

Corações da Lapa








mastiguei meu coração
ao molho tártaro sem
mágoas sem mágoas
uma bárbara iguaria
para povoar a fratria
dos pensamentos
brindei meu coração
sem pestanejo fácil
nenhuma frátria
nenhuma fraterna pátria
a fratria num desejo
slow-motion uptown:

cada um na sua tribo
todo mundo por si
cada um por seu cada
um noves fora nada –
e não vai nada, nada
não há fratria nem tribo –
apenas sorrisos vazios
esperando o próximo
chope gelado à mão - 
assim seja qualquer
futuro concreto vão
a mão do amor acalma
a palma da contradição

@pauloandel 25 10 2012

Wednesday, October 24, 2012

Experimentos

@pauloandel

Friday, October 12, 2012

Oras


agora
somos tão mesmos
quanto os mesmos
de outrora
nenhuma palavra
nos espanta
mas a morte
não é riste nem
nos confronta:
ela paira, surge
nos corrói, decola
e abraça o
horizonte.
agora somos
ontem e quase nada
além do que sempre
fomos: os mesmos
tão mesmos que
parecemos réplica
fiel enquanto o tempo
tira nossas fotografias.
agora somos
outros
sozinhos
perdidos no mundo
de deus sem deus
tentando compreender
as dimensões humanas
enquanto dispersamos
vida em admiráveis
botequins e praças
e qualquer lugar que
espante a nossa 
inestimável
solidão.

@pauloandel 12102012

Wednesday, October 10, 2012

Mais contas pelo caminho

Vários dos que vibram com a "vitória da justiça" ontem são os que... furam fila... sonegam imposto de renda... não dão lugar aos idosos... usam drogas ilegais e alimentam a violência... chamam torcedores de futebol de alienados mas não tiram os olhos do novelão... chamam quem não concorda com eles de burros, mas não alimentam seus discursos com nada que não seja achismo ou reprodução de mídias vendidas (não citam um autor digno sequer)... acreditam na Globo, na Veja, no Estadão mas nunca leram Faulkner, Kerouac ou Hemingway... e, no fim das contas, repetem um monte de merdas feito papagaios da anamariabraga simplesmente porque lhes é mais cômodo do que ter a humildade de ler, pesquisar, refletir e aprender. Ou pelo menos lembrar-se do que passou.

Como faz falta não ter por aqui um Bob Dylan, uma Joni Mitchell ou uma Patti Smith para sacanear tudo isso. Ou um Renato Russo, um Cazuza, um Noel.

Viva a condenação por indiciamentos!

Viva a nova jurisprudência que vai aniquilar famílias, pequenas empresas e congêneres!

Viva quem não sabe o que foram o Proer e o SIVAM!

Viva os presídios cheios de pretos pobres enquanto os brancos ricos bancam e manipulam a opinião pública nos meios de comunicação. E riem dos boçais que lhes defendem...

Viva o feriado. Viva a república.

Viva a hipocrisia.
@pauloandel

Tuesday, October 09, 2012

Arte na capa


Face Dances - The Who - 1981




Bring on the night - Sting - 1986




Tecnicolor - Mutantes - 1970/2000





Total - From Joy Division to New Order - 2011

Monday, October 08, 2012

Darcy, Brizola e Niemeyer




“Fracassei em tudo o que tentei na vida.

Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.


Tentei salvar os índios, não consegui.


Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.


Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.


Mas os fracassos são minhas vitórias.


Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu."








"Todas as crianças deveriam ter direito à escola, mas para aprender devem estar bem nutridas.

Sem a preparação do ser humano, não há desenvolvimento.

A violência é fruto da falta de educação."







 
"Toda escola superior deveria oferecer aulas de filosofia e história. 

Assim fugiríamos da figura do especialista e ganharíamos profissionais capacitados a conversar sobre a vida."


 @pauloandel






Saturday, October 06, 2012

Acerto de contas

De tudo o que li, vi e ouvi sobre política nacional este ano (e Direito, por que não?), o que achei mais importante foi isso, que acabei de receber via Twitter:

"O menino pobre da Veja mudou o Brasil: agora você pode ser condenado sem provas. Basta o depoimento de um inimigo teu."

Tive que lembrar de meus estudos sobre 63/64: o povo queria as reformas de base de qualquer jeito, a "Redentora" veio para ficar seis meses, durou vinte anos, ajudou a torturar, estuprar e matar pessoas - dentre as vítimas, meu tio Mendel. Todo sujeito que diz que não houve ditadura e tortura no Brasil não passa de um sonoro filhodaputa. Para meu pequeno consolo, uma das companheiras de tortura, prisão, porrada e estupro que vitimaram pessoas como o meu tio hoje é a presidente (ou presidenta) da República.

Depois lembrei da mocidade: a modernidade da era Collor, a edição do debate, o governo que começou de ponta-cabeça e conseguiu irritar toda a classe alta. Não ia durar muito. Fez-se um grande levante pela "ética" e contra a "corrupção", Brizola sugeriu cautela: já tinha sentido na pele o que é quando os grandes interesses são contrariados. Collor caiu. Não votaria nele nem para síndico do andar do prédio onde moro, mas desconfio de tudo aquilo até hoje.

Mais tarde, vamos vibrar... frango a um real, celulares modernos, oba, somos modernos. Quanto isso custou aos cofres públicos? Quanto custou a vida dos pobres que foram ceifados da saúde enquanto os hospitais eram dilapidados para que os planos fossem mais vendidos?

Pouca gente lembra de Ciro Gomes naqueles tempos. Poderia ter sido o rei. Largou o reino falando tudo claramente para quem quisesse ouvir. A turma fingiu que não ouviu. Boa parte daquilo depois virou livro, hoje um dos mais vendidos do país, mas jornais, revistas e televisões tratam a todos como idiotas, como se isso não estivesse acontecendo.

Oito anos de gatunagem foi o suficiente. O Brasil dos últimos meses de 2002 parecia estar em pau-a-pique. Ia ruir. As casas iam ser tomadas. O calote seria generalizado. O mundo ia levar um pé na bunda.

Desta vez, a patifaria não deu certo. E não deu certo novamente em 2006. E não deu certo em 2010. Enquanto os arautos da moralidade mesquinha chegam aos oitenta anos e veem que o sonho de ter o reinado está desfeito.

Quem disse que o Brasil de hoje é maravilhoso, sensacional, Estado na acepção da palavra? Não, ainda falta muita coisa. Não se conserta quase 40 anos de desastres em 10 ou 12. Falta muito, muito mesmo. E o ser humano é mesquinho, infame, vende-se por moedas desde os primórdios.

Mas melhorou um pouco. Muita coisa talvez.

Os mercados são cheios de pretos e brancos empurrando carrinhos com comida. No meu tempo de criança, preto no mercado só empurrava carrinho cheio se fosse para madame.

Eu sou preto. O rapaz do IBGE se assustou com minha declaração.

Os shoppings são cheios de pretos e brancos e paraíbas nas filas, comprando, lanchando, rindo. Antigamente, era assim que se designava o povo: preto, branco, paraíba. Em São Paulo, os baianos.

Tem miséria, tem crack, tem o tráfico escroto que sobrevive pelos mesmo interesses da "ética" e da "moralidade".

Tem corrupção e injustica. Tem racismo, preconceito, xenofobia. Muitas coisas.

Mas também tem muitos trabalhadores, gente de bem, que encara os piores transportes coletivos para batalhar e sobreviver dignamente.

Tem democracia, relativa mas tem. Não fosse assim, "Veja", "O Globo" e o restante da quadrilha já teria sido dizimada.

Mas ainda falta muito.

Precisamos de decência e ética no dia a dia e em todas as questões, não somente em termos pontuais. Lei para todos. Justiça para todos.

A começar pelo STF.

A começar pelas eleições de amanhã.

A começar por uma parte considerável da população brasileira que não lê, não reflete e só repete as mesmas verborragias copiadas de algumas das piores publicações deste país, nenhuma delas a serviço do povo, todas elas a serviço de pequenos feudos.

Quem se lembra das capitanias hereditárias?
 
Dedicado a Paulo Vanzolini

Paulo-Roberto Andel
@pauloandel

Thursday, October 04, 2012

Centro do Rio? (fragmento)






... enquanto os respeitáveis cavalheiros brindam com o chope dourado da felicidade no Paladino, o armazém centenário que fica na esquina de Uruguaiana com Marechal Floriano. Sanduíches apetitosos, finas iguarias, nenhuma modalidade de pagamento que não seja dinheiro cash. Certa vez estive lá com Sheila, ela em grande forma, maravilhosa, deliciosa, os sujeitos faltavam lamber as mesas para secar a baba enquanto fui seu escorte triunfante. Apesar do cash, pode ser considerado um restaurante favorito - ainda que feche cedo - mas o fato é que somos quase todos quarentões e não temos mais paciência para noites alcoólicas intermináveis – ora, vamos beber o que basta. 

Nos arredores, o esplendor continental da avenida Presidente Vargas desemboca na beleza da igreja da Candelária, marcada pela triste lembrança da chacina dos adolescentes moradores de rua há vinte anos ou menos. A igreja ainda é linda, mas não há como não se pensar na dor e morte que aqueles jovens sem futuro experimentaram apenas porque eram pobres e negros, num pais que ainda trata seu racismo de forma despudoradamente hipócrita.  Somos tão respeitáveis e andamos com nossas mochilas e malas cheias de pequenos objetos importantes, tudo enquanto nas principais ruas do coração da cidade a diferença entre a vida e a morte de mendigos pode ser resumida em um pedaço de pão. Muitos não dão dinheiro: - Eu não sustento vagabundo. – Eles vão cheirar e beber tudo! – Não fui eu quem fez o mundo assim. Pessoas são assustadoras quando defendem suas posses.

Mais adiante, monumentos de cultura. CCBB, Casa França-Brasil, Centro Cultural dos Correios, Justiça Eleitoral idem, palácios de cultura e beleza nem sempre dotados do público que merecem. São gratuitos, mas a sofisticação que oferecem naturalmente espanta e constrange os mais populares, faz certo sentido. Eis um grande problema na disseminação das artes plásticas: elas deveriam ganhar as ruas, os pobres, os bons e não estarem limitadas aos pequenos guetos. Alguém dirá que os menos abonados não têm condições de apreciar arte como devido e darei uma sincera gargalhada: trata-se de xenofobia ignorante e mal-ajambrada. Nos centros culturais pode-se ver artes plásticas, teatro, música, encontros, debates, ver jovens garotas com roupas moderninhas e óculos retrô, as roupas disfarçando muito bem as formas saborosas e a pele geralmente alva, geralmente acompanhadas de rapazes com visual quase existencialista – e felizmente ninguém de cachecol ou pulôver nesta primavera equatorial do Rio de Janeiro. Todos falam baixo e parecem tão educados ou respeitáveis, mas penso que a qualquer momento possam ser integrantes de surubas praticadas em casas especializadas, aquelas das casas de swing que transbordam no bairro. Por cinco segundos cravados, torno-me um tarado perverso dentro de meus pensamentos; depois, sou um cidadão pacato e insignificante neste mundaréu de prédios e cores e gentes.

Na rua do Rosário, a livraria-restaurante Al-Farabi é um baluarte da região. Seu gerente é meu amigo Maurício Nascentes, velho amigo dos tempos da livraria Berinjela, subsolo do edifício Marquês do Herval, tempos em que conversámos com o jornalista Álvaro Costa e Silva – o Marechal, o poeta Carlito Azevedo, o advogado Daniel Veiga entre outros intelectuais, misturando prosas com altos teores de reflexão e outras que poderiam tentar traduzir a importância dos programas trash na televisão aberta do Brasil. Maurício tenta treinar boxe nas horas de folga, demonstra certa irritação com a hipocrisia cultural e jornalística que hoje paira pelos caminhos, nada vai ter jeito, a vida é uma merda, mas ainda há tempo para pequenos goles e algumas gargalhadas. Ficamos amigos num campeonato de botão que ele promovia, coisa de 1996, depois jogamos vários e eu não suportava o fato de alguns competidores chegarem às mesas de jogo sem cumprimentar as pessoas – deve ser minha eterna ojeriza ao pensamento republicano norte-americano, onde a figura do winner é essencial. 

Nos tempos de Berinjela, Marechal costumava fazer a dança do Siri-Patola, um tanto complicada e talvez impossível de ser descrita em palavras, cabendo apenas a memória de muitos risos quando de sua execução. Depois, o velho lobo jornalístico ia para o Tangará, boteco encravado no peito da Cinelândia, esquina de Álvaro Alvim e Francisco Serrador, academia da cachaça que perdurou por mais de sessenta anos até abaixar as portas. Carlito Azevedo olhava e ria, enquanto pensava sempre em seu roteiro tradicional pelas ruas da cidade: a Leiteria Mineira, o CCBB, as papelarias onde se pudesse comprar um caderno caprichado e nele desenhar poemas inimagináveis. Velhas rotinas dinâmicas, ora. Geralmente ao lado, a jornalista Kamille Viola sabia dizer tudo sobre o que havia de mais moderno nas noites modernas onde os jovens dançam, bebem e amam a valer, muito mais do que isso na verdade.

Mauricio fica num balcão baixo, quase sem ser visto por transeuntes da rua do Rosário, enquanto o computador reproduz música cubana ou jazz do Village Vanguard nos anos 60. Temos nos visto bem menos do que antes, geralmente quando faço-lhe uma visita. Paramos de jogar botão, está casado, eu quase, os tempos ficam escassos. – Sabe quem esteve aqui? Raul Sussekind, num vistoso terno, almoçando com um amigo. – E como ele está?  - Parece bem, falou do Fluminense, mora na Barra, reclama do trânsito. A cidade sofre com cada vez mais carros pelas ruas e parece claro que a solução está na melhoria do metrô e dos trens, mas quem realmente se importa com isso? Somos uma sociedade tão respeitável!

Atravessando a rua Primeiro de Março, logo você vê um terreno vazio, proveniente de um hotel que desabou anos trás, matando um casal de adúlteros e oferecendo notícias rodrigueanas aos jornais. Logo a seguir, a loja Escuta Som, uma das heroicas sobreviventes no mercado de CDs e LPs. O balcão central tem discos a dez reais, às vezes cinco, sempre algumas boas oportunidades. Quem gosta realmente de música precisa do CD e do LP como objetos físicos que são de um ritual: você deita na cama ou no sofá, ou ainda numa confortável poltrona, talvez sua cadeira predileta, mexe no encarte, lê as informações, letras, vê fotos e demais ilustrações, não é simplesmente um arquivo do tipo 2xde43g5 guardado em algum lugar do cérebro eletrônico.”


(segue)

paulorobertoandel04102012

Wednesday, October 03, 2012

O gênio está de volta!


Friday, September 28, 2012

Posto Seis, Prado Júnior e arredores



I

Haja o que houver, Copacabana é eterna. Quatro da tarde, as calçadas da avenida-mãe apinhadas, ir e vir de gentes de todos os planetas. Dois garotos completamente entorpecidos pelo crack passam apressados e são estandartes de um Brasil assustador, real e tristemente crescido. Dois nordestinos falam tão alto que até abafam o ruído dos cem mil veículos deslizando no asfalto. É Posto Seis.

Paro e penso num lanche. Kicê, onde certa vez Mick Hucknall, o cantor do Simply Red, deu uma banana para a imprensa: saiu pelos fundos do Othon, parou na esquina e pediu um caldo verde. Todo mundo achou normal, menos os repórteres, sempre a imaginarem ser acima do que realmente são. Djalma Ulrich, Miguel Lemos, Xavier da Silveira, tudo é um mundo.

Um misto-quente inigualável. Pão tostado, queimadinho, queijo e presunto de primeira, mais uma laranja batida. E o atendente não tira os olhos da moça ao lado, nem tão grande coisa assim mas absolutamente pegável (entendo que as mulheres não aceitem bem esta sentença). Um é pouco, acaba logo, peço outro. Dois é razoável. O preço é caro, quinze reais, agora sou turista e pago satisfeito. Lá está a moça a sorver seu último gole de suco-de-qualquer-coisa, o atendente louco para dançar um forró com ela a dois, nus, felizes. E eu ainda perco meu tempo com paixões inúteis...


II

Almirante Gonçalves. Outro dia mesmo parei por ali. Dez anos, talvez. Meio praça, meio rua, meio caos. Delicadezas poético-autofágicas de Copacabana.

A cidade-bairro parece um tanto esvaziada, talvez pelo frio, talvez pela sexta-feira ou a falta do pagamento nas contas bancárias. No fundo, frio mesmo. Mas é sempre bom revê-la. Depois de tantos anos, entendi que mudar ou não de Copacabana não faz diferença – o ideário local jamais sai de dentro de seus habitantes ou moradores ou vampiros urbanos.

Musicale da avenida Copacabana. Discos diversos. Alguns preços muito bons, outros muito ruins. Youssou N'Dour a três reais, captei no ato. Outro foi caro, mas eu já cobiçava há tempos: a versão dos Flaming Lips para “The dark side of the moon”. Férias. Meia-hora, uma hora inteira. Ainda gosto de música.

Ainda tentei pegar os últimos vestígios da Satisfaction, mas já tinha fechado às cinco da tarde.


III

Uma garota muito - mas muito! - gostosa e com uma cara de puta, melhor dizendo, garota de programa, desculpem a grosseria para espelhar realidade, está parada na entrada do condomínio Alaska. Não tenho como deixar de olhá-la e incrivelmente ela me sorri, devido aos meus trajes de índio urbano. Ela pode ter pensado que eu poderia ser um cliente em potencial. Dane-se, gostei assim mesmo. Mas era tudo fantasia: segundos depois, um Corsa (para alegria dos meus amigos dos tempos de faculdade) para em frente, buzina e ela corre para ver o namorado. Ou marido. Ou cafetão.

Alguém me disse que os gordinhos estão na moda. Poderia ser assim. Quem sabe?

Não sei explicar ao certo porque faço mais sucesso com as mulheres hoje, com 122 quilos, do que nos tempos em que era um exímio jogador de futebol de praia e corredor, 76 quilos. Não falam tanto de fitness e corpos sarados e sei-lá-o-quê?


IV

Paro numa lan house, os garotos não param de falar em suas máquinas e isso chama atenção. Vão aos locais do ramo como se estes fossem os shopping centers do século XXI. E os pais não querem turba de crianças em casa – eles têm mais o que não fazer, como por exemplo assistindo programas insípidos na tevê fechada, discutindo a relação, reclamando das contas a pagar ou traindo o companheiro-companheira-qualquer coisa com torpedos via celular.

Não gostei dos e-mails que li. Nem respondi.

Não gostei do que não vi. Faz falta.

Hora de jantar. Adeus, computador.


V

O outro tesouro bom de Copacabana: restaurantes a quilo abertos de noite. Ideal para rapazes que têm namorada há anos mas são profundamente solitários no começo da noite de sexta-feira - igual a tantos e tantos outros casais que, na verdade, são apenas duetos de solidão. Ou os que esperam amores impossíveis nesta primavera fria que não tem muito sentido, tipo o de um e-mail inútil. Mas é melhor do que ficar eternamente feito um panacão babando ao lado de quem dorme em muitas outras camas.

Outra garota morena alucinante de calça colante, do tipo que Caldeira faria piada. Coxas extraordinárias, super-bunda. Namorado fortão à mesa, de camiseta nestes tempos gelados, mostrando todo o bom resultado dos anabolizantes. Ou marido. Ou cafetão. Copacabana é sempre um um mural de grandes incógnitas.

Não coloco muita comida no prato. Por que será que estamos sempre comendo? Deve ser para aliviar a alma. Ou para pegar o primeiro táxi que venha pelo caminho, preferencialmente pagando o dobro do cobrado no taxímetro.


VI

Rua Ministro Viveiros de Castro, quase esquina com Prado Júnior. Posto Um.

“Art-Noveau da natureza, jazz!”.

Copacabana não me engana. Nem falha.

"A luz do grande prazer é irremediável neon".

O futuro é uma quase-noite de sexta-feira.

Dane-se a paixão. Fausto Fawcett sabe tudo. Djavan também.



Paulo-Roberto Andel

@pauloandel

Wednesday, September 26, 2012

Mais do fog

 I

nenhuma pétala
desfolhada
nenhuma lágrima
derramada
nenhuma página
ragada, nada
nenhuma canção
rabiscada
nenhuma fala
arrependida
nenhuma palavra
suprimida
nenhuma prática
proibida
nenhuma mágoa
encardida
nenhuma emoção
esquecida
e tão-somente
o fim da linha
à beira da calcada
no último brinde
ou no beijo
derradeiro


II

diga-me
um te quero! agora
e nenhum livro
será suficiente
para esculpir o meu
te amo! em tua 
pele de cátedra


III

vamos fazer 
uma canção?
eu, você
nossa nudez
e qualquer relva
a servir de altar
qualquer céu
a interpretar
uma janela indiscreta
qualquer tarde
a nos fazer de amor
da mocidade.


paulorobertoandel26092012 @pauloandel

Retratos do fog

I

agora somos
caixa de música mas
ela não toca a nossa
canção
a nossa canção
e o céu de pauliceia
que nos envolve não
clama pelo verão
o nosso verão
alguma coisa
desacontece num
coração solitário perto
da nossa avenida
exceto
o engarrafamento pela
contramão
pela contramão
e agora nossa
caixa de música anuncia
a última canção a última
canção
e parece certo que ela não
sabe desenhar o dia em que
fomos só
paixão
desuso em paixão.


II

alguma coisa
faça alguma coisa
que me faça crer
nas coisas em paz.


III

somos um rio
somos um rio
somos um rio que corta
a metrópole e carrega
dejetos ácidos, lixo, dor
rancor, solidão, fé e tudo
mais debaixo das masmorras
de asfalto
somos um rio
eu sou meu rio
e sorrio somente para 
debochar da tristeza
que vai e volta feito
incurável mazela
somos um rio de pavor e morte
mas quem se importa?
não passamos de ordem
e progresso enquanto
o sucesso é vulgar
e todos estão satisfeitos
com as vitrines do shopping
e todos estão satisfeitos
com seus carros automáticos
e todos estão satisfeitos
com delivery for sale!
Let's face the trust!
 

Paulo-Roberto Andel 26092012

Tuesday, September 25, 2012

Inveja, câncer do pensamento


Mesmo depois dos quarenta anos de idade, a inveja ainda me impressiona.

Tenho dificuldades em compreender o que se passa na cabeça de quem insiste em denegrir os outros porque gostaria de estar no lugar deles. Ou porque é insatisfeito com sua própria mediocridade.

Por que uma parte considerável das pessoas passou a ser mais invejosa e agressiva com terceiros gratuita ou fortuitamente?

Há quem diga que isso é coisa da competitividade. Dos tempos modernos.

Eu discordo.

É coisa da mediocridade mesmo.

De não se aceitar como se é e, por isso, não aceitar que os outros tenham qualidades admiráveis. Ver-se pequeno.

Como Bob Dylan foi preciso em ridicularizar os invejosos em seu disco “Modern Times”!

Dizem que a inveja é uma merda. Discordo também.

A merda é muito melhor do que a inveja.

A merda serve como adubo. A inveja é apenas o câncer do pensamento.

Curioso também eu pensar que, até poucos anos atrás, nem me dava conta disso. Em certa tarde, conversando com meu amigo Zé Catalano é que percebi: - Você já reparou como algumas pessoas têm inveja? - Não, nunca tinha realmente pensado a respeito. - Repare só e você vai se assustar. Dito e feito, Catalano tinha razão.

Quem tem dificuldade em elogiar algo positivo de terceiros tem algum problema.

Quem tem inveja é um problema em si mesmo.

As artes, os esportes, os sentimentos, as letras, os vídeos, o cinema, a natureza, tudo está por ai pronto para ser completamente elogiado, não invejado.

Não me lembro de ter sentido nenhuma inveja relevante, de quem quer que seja, dessas que mencionei aqui. Tive sim foram muitas admirações, isso sempre. E me sinto bem por isso.

Ninguém pode ser feliz tentando destruir o trabalho, a imagem, a capacidade dos outros.

E nem infeliz.

No máximo oco.

E sozinho.


Paulo-Roberto Andel

@pauloandel

Monday, September 17, 2012

Algum coração da cidade

Somos batalhões de estranhos, uns alheios aos outros, vários alheios a tudo em pleno coração da cidade carioca. Era assim numa canção de Marcelo Nova.

As ruas estão abarrotadas, gente num ir e vir como se o mundo desse sua última volta do ponteiro. E tome filas, compras, vitrines, promoções ilusórias, fome, comida, malabaristas, animadores de rua, engraxates, mendigos, mendigos, mendigos, sucessos populares. E tome conversas importantes, pecaminosas, rústicas, papo furado. E tome rancor, discórdia, certa alegria, piadas, risos de uma vida da qual nada se leva.

Eu visto meu bermudão azul, chinelões de dedo feito aqueles que eu tinha medo quando criança, a camisa amarela que me faz lembrar de Ary Barroso e uso meu passaporte de transeunte. Um zé-ninguém, sem rumo nem plano, um ermitão em férias longe do melhor amor e cercado de pequenos amores empolgantes. E desço a avenida Chile, a Almirante Barroso e posso parecer um pobretão que incomoda as vistas dos bem-engravatados executivos, muitas vezes vistos nos restaurantes caros e cafés sofisticados - mas também em puteiros muito conhecidos da região.

Falta pouco para o inverno dar adeus. Já começam os dias quentes da primavera, mesmo que hoje em dia as estações do ano pareçam um pouco confusas por conta da destruição da natureza. Os casacos dormem nos armários, as camisetas estão de volta. Menos mal para os sofredores das ruas, tendo mais lugares para dormir e vivenciar a estranha miséria humana de um mundo cheio de dinheiro, poderes e pouquíssima solidariedade.

Turistas solitários, garotas apaixonantes, cocaína à vista, crack nas esquinas barra-pesada. Shopping centers cheios de gente fazendo papel de cachorros diante da frangueira de uma padaria. Love is not for sale! As bibliotecas vazias, não se diz o mesmo das charmosas recepções das livrarias de grande porte, normalmente cheias de candidatos à intelectualidade folheando livros que talvez nunca leiam – ou comprem. Nas bancas de jornais, nenhuma manchete empolgante. Ainda vivemos a dor de mais uma chacina imbecil, onde os jovens negros e pobres matam outros jovens negros e pobres sem qualquer outro sentido que não seja o de fortalecer bandidos poderosos – estes, muito longe do front de batalha.

Os travestis estão recolhidos e só ganharão as ruas à noite. As garotas de programa fazem a festa com os clientes na hora do almoço. Os moteis têm burburinho nas garagens. Cheios ou vazios, os bancos lucram. Perto da calorenta e amada Central do Brasil, o hospital Souza Aguiar continua não atendendo bem seus pacientes, como nos últimos trinta anos. Na Barão de São Félix, alguém fica louco com um cachimbo de crack, mas nem tudo está perdido porque o Sentaí tem uma lagosta admirável. Um corre-corre é comum na rua do Riachuelo. Alguém terá um infarto fulminante em minutos.

Tenho fome. Penso no almoço. Tenho sede. Ficará para depois. Leo manda uma mensagem no celular e reclama da fila de banco. Mais tarde, tomarei um café com Jorand. Tenho também sede de amor, mas isso é efêmero e desimportante. Logo virá uma tarde de inverno com a cara da primavera. Ir e vir, rir e sonhar, transitar do nada para lugar nenhum. Espiar as coxas das belas mulheres na avenida Rio Branco. Escutar a última história surreal de Alvaro Doria. Esperar os companheiros para a gravação do programa de futebol. Especular um novo livro. Não, Ursula não telefonará. Nem Juliana. Nem Taty. Antes de trabalhar, ouvir jazz. Quantos dias ainda restam para o último? Tomara que uma tonelada.

Tudo isso e muito mais ecoa no coração da cidade. A minha cidade.

É a primavera à espreita.


Paulo-Roberto Andel
@pauloandel

Monday, September 10, 2012

Roberto Silva: o general da banda


O príncipe do samba.

O maior cantor do Brasil, segundo ninguém menos do que João Gilberto.

Roberto Silva deu as cartas nos anos 50 e 60. Depois, como sempre faz, a indústria da música exerceu sua sagrada burrice e o ignorou.



Os shows diminuíram. A mídia sumiu.

Mas o que tem a ver a qualidade de um artista com mídia? Nada.

Roberto Silva foi um dos gigantes da música brasileira.

Quando ninguém mais esperava, lá estava ele em grandes apresentações, com sua voz fantástica, aos 70, 80 e 91 anos, vide abaixo, 2011.

Hoje, Roberto virou obituário. Meia-página em jornal de grande circulação.

Merecia um Segundo Caderno inteiro.

Faleceu com a simplicidade e a discrição de sempre.

Um príncipe, um nobre do samba, daqueles que quando pensamos imediatamente nos vem à tona a imagem de um Paulinho da Viola.

Mas quem disse que um homem morre só porque é enterrado?

A vida de Roberto Silva não se resume ao descanso definitivo no cemitério de Inhaúma.

Ecos do príncipe do samba hão de repercutir para sempre em nossa musicalidade maior.

Numa sala do Leblon, João Gilberto chora.

Mas ninguém vai saber.



Paulo-Roberto Andel, 10/09/2012

@pauloandel

Thursday, September 06, 2012

Love/ Sex/ Love



e se eu disser
que sonhei teu
corpo há pouco
feito tantas vezes
periga você
debochar de
mim?

dissesse de
qualquer 
saudade e
dois corpos
a bailar
na relva das peles:
saudade em gosto

e cores
e líquidos
enquanto tua carne
tremula frente ao
nosso carinho
e ninguém nos derrota!

então ficamos
distância
então ficamos
frieza
e tudo é terra
estrangeira
diante do que
foi um dia
navergar teu
dorso nu -
por que deixar
morrer o que
mal nasceu?
por que não
permitir o que 
é certo e traz
calor aos nossos
solitários
corações?

e, se eu disser
que quero 
teu corpo
como nunca,
periga você
desprezar
meus fins?

e se disser
que meu anseio
é fazer do teu 
corpo uma boca
sedenta, 
tesuda, 
ávida por
mil beijos 
e delícias
até que toda
saliva nos
alague?

agora somos
sexo, melhor
do que sermos
nada, distante
de que soubemos
ser dia, delícia
que nos afaga.

paulo-roberto andel 06 09 2012

Tuesday, September 04, 2012

Televisions!