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Tuesday, February 09, 2010

PROSA DO CANSAÇO (OU OTTO MAXIMILIANO)



Estou cansado. Otto me oferece uma trilha sonora para esta terça de verão arábico. Lá fora, um mundo cheio de fantasias e desgraças, entre céu lindo e esgotos nas veias de concreto abertas. O corre-corre e o clingue-clangue das ruas cansam. O egoísmo e a indiferença dos outros uns para com os outros me cansam. A verborragia oca dos que proclamam o fim do Brasil, em prol de ressuscitar um cadáver como o de Fernando Henrique Cardoso me cansa, absolutamente. É a cegueira, a miopia, a falta de acuidade desfraldando a apoteose da ignorância, e isso me cansa. A mofada notícia sobre os perigos da dengue; a insistência em se impor a Zona Sul como a única face do Rio; o tráfico que estupra e corrompe no Turano; a falta de profundidade em se discutir as questões; a previsibilidade da opinião dos capangas do grande capital; tudo celebra meu cansaço. Janelas, não há. Temperatura ambiente, travestida com um velho circulador e um ar-refrigerado longe de seu auge. Juliana não me sorri. As canções de Otto são doces e pesadas, capazes de atenuar parte da fadiga. Um Carnaval à vista com seus baticuns, um Ano-Novo que começa a seguir. Querem um mesmo velho campeão novamente, para que o dinheiro impere com amor. Ao menos, em algum lugar desta cidade, que é recheada de mulheres bonitas, alguém se refestela com o brilho de estrelas entrangeiras: Beyoncè, Madonna, Alicia. Porém, o resto me cansa. Noutros tempos, éramos mais profundos e dedicados e solidários, sem acharmos que toda a nossa compaixão e fidalguia pudessem ser limitadas ao MSN, ao celular e outras eletromídias; hoje, o que nos resta é a inevitável solidão humana de joelhos diante da fraternidade tecnológica. Nem os loucos não-tratados escapam: usam falsas identidades para mostrarem as piores faces do quase-ser humano. Que dizer dos bobos que se dizem liberais? Basta pensar no Haiti; aliás, país já varrido dos interesses noticiários: deu o que tinha que dar; lucraram e, agora, que os miseráveis se virem. O que dizer dos que leitores que não sabem explicar o que leram, ou os que leram numa linguagem particular hermética, incompatível com o que tinha sido escrito? Estou cansado. Otto canta que, para morrer, é preciso existir. Estamos diante de um invencível verão em seu apogeu, se é o que sei dizer. Talvez cem mil pessoas se divirtam na beira-mar, enquanto alguns milhões trabalham e trabalham e trabalham até que o sol seja pouco. Soube que três trabalhadores foram assassinados por bandidos durante o expediente; a empresa empregadora limitou-se aos pêsames, e isso quer dizer bem o que somos hoje: um batalhão de estranhos, num salve-se-quem-puder e o-que-importa-sou-eu-mesmo. Estou cansado. O Banco Itaú lucrou com o nunca no último quadrimestre. Parece ordem e progresso, para poucos. O telefone toca, não posso atender. Mensagens inúteis estampadas no computador – não vou responder. É preciso ter amigos, mas poucos – quem diz ter muitos, na hora da verdade não tem nenhum. Recordo dos tempos de bar, quando tudo se aprendia com os mais velhos, sábios de rua, que faziam questão de compartilharem suas experiências. Recordo Copacabana numa terça à tarde, quando eu corria dedicadamente e me sentia tão bem. O Lido, o Leme, o Bairro, tudo tão perto, vivo, mas ao mesmo tempo tão distante. Certa manhã, acordei de sonhos intranqüilos – era Kafka. Hoje, numa tarde que não sabe dizer o futuro, Otto alivia meu viver. Nem é tão relevante o fato de que ainda estou cansado. Não é relevante lembrar da estupidez humana que se manifesta a cada expiração. Quero apenas lembrar desta tarde de cansaço como algo que me fez pensar nos meus, nos outros e no todo, coisa que cada vez vejo mais rara fora de mim mesmo, e isso não é bom. Talvez seja de meu eterno inconformismo com o dar-de-ombros daquele todo contra os que precisam esmolar. Talvez seja humanidade, nem no melhor e nem no pior sentido da palavra. Talvez seja somente uma tarde de céu romanticamente lindo para meia-dúzia e sacrifício para a enorme plebe. Isso me torna cansado. O que me resta é a diferença. O outro lado da tarde ensolarada. Uma canção de Otto.

Paulo-Roberto Andel, 09/02/2009

7 comments:

Elika Takimoto said...

Acho que esse calor dos infernos está te deixando muito deprimido. Mude o foco. Tome um banho gelado (se conseguir), entre num ar condicionado (que funcione bem) e leia Milan Kundera.

Ah!Fique longe das filas!

Em relação ao texto, apesar da nostalgia, vc está muito elegante hoje escrevendo num parágrafo só.Amo a sua elegância.

Beijos

Paulo-Roberto Andel said...

Toda razão, querida. Um calor dos infernos. A temperatura é essa mesmo: 40 celsius. Beijo.

Paulo-Roberto Andel said...
This comment has been removed by the author.
Antonio Campos said...

Lembras quando eu diza que tu é o cara. E ai pensastes sera que esse velho é sincero?
Pois reitero aqui dentro desse meu pouco entendimento a tudo que escreves. " Sensacional" digamos cá entre nós entendi a minha humilde maneira. Mas destaco essas linhas dentro de um contexto irreprensível.


"Nem os loucos não-tratados escapam: usam falsas identidades para mostrarem as piores faces do quase-ser humano."

"É preciso ter amigos, mas poucos – quem diz ter muitos, na hora da verdade não tem nenhum."

Antonio Campos said...

" ET." deixei gravado onde escrevo aquelas duas últimas frases que estão aqui impressas. E... começaram os ataques os sem rostos voltaram...

Lau Milesi said...

Olá poeta, tens razão. Também estou cansada dessa prosa. Não da sua,vale lembrar.[rs]
Estiloso texto.

"Nem os loucos não-tratados escapam: usam falsas identidades para mostrarem as piores faces do quase-ser humano". (Paulo Andel)

Um beijo

Anonymous said...

Amigo Querido,

Saudades de visitar teu blog!! Mainairdi é um idiota, sem dúvidas, e que tem espaço (cada vez menor, note-se!) nessa revistinha opinativa que é a Veja!! Mas eventualmente também se dá mal. Veja o link abaixo. Embora ache que o valor da condenação seja ínfimo, pelo menos reconheuceu-se tratar-se de mais uma de suas mainardiotices: http://www.comunique-se.com.br/index.asp?p=Conteudo/NewsShow.asp&p2=idnot%3D55070%26Editoria%3D8%26Op2%3D1%26Op3%3D0%26pid%3D120535341124%26fnt%3Dfntnl

Abs,

(Daniele Barizon)