Translate

Friday, December 18, 2009

PROCISSÃO MENDIGA















choram
porque a fome lhes esmaga o ventre,
porque a chuva é cruel
e faz dilúvio nas camas de pedra,
despidas de lençóis e fronhas
ou qualquer conforto
que não seja
o entorpecente capaz de inebriar
aquela mesma fome de esmagar,
o frio, a dor
e tantas mazelas que ninguém
há de descrever ao certo

choram porque sofrem
e são esquecidos,
sem direito a vitrines “sold out”,
marcas importadas,
lanches coloridos
ou alguma futilidade qualquer:
choram sem janelas ou paredes,
choram sem anistia,
choram enquanto as estrelas,
brilhantes e já tão mortas,
fazem vezes de telhado
numa terra de covardia

cá fora, o mundo tão bonito
com suas ruas apinhadas
e o corre-corre das compras,
o clingue-clangue do metrô
e outros veículos modernos;
o fascinante mundo a crédito,
a fatura, a prestações,
a cheque sem limite –
do outro lado da calçada,
do lado de fora das grades,
aqueles choram;
vivem um sofrer
que nunca dorme,
um pesadelo que não fenece:
a humilhação de milhões
e milhões
para tudo se tornar um corpo inerte,
abandonado e decomposto à maca
de uma casa médico-legal:
a casa que sempre lhes faltou
agora é um berço de carne pútrida -
horror de morte na celebração
insensata da indiferença


antes disso, choram e choram
por que o mundo lhes despreza,
dá de ombros e desconversa:
o mal que lhes atinge
é problema de deus!
é problema do outro,
sempre o outro –
somos inquestionáveis,
infalíveis e dotados da mais
pura isenção:
quando viemos para cá,
já era assim;
o que nos traz culpa então?
eles choram e choram
porque falamos de deus,
de amor ao próximo,
de boas festas e prosperidade,
mas achamos que eles
não são de deus,
não são da terra,
não são gente feito nós –
e é assim que floresce
todo crepúsculo
da indignidade da gente
que se diz humana:
como se fosse possível
sermos mais gente
do que a gente.
eles choram
por água e pão, somente:
isso me lembra
a beleza de um livro
que não conseguiu nos mudar,
nem transformar
o mundo abominável
que nos cerca,
o qual disfarçamos
com as mesmas vitrines,
as mesmas cores e sacolas
para tentarmos mascarar
nossos piores sentimentos.


Em homenagem ao bilhão de miseráveis na Terra, desprezados pelos governos, pela “livre-iniciativa” e que não terão Natal, Ano Novo, Carnaval, aniversário...

Paulo-Roberto Andel, 18/12/2009

2 comments:

Aparecida said...

E nós continuamos a gastar, não por vontade, mas pela mídia, que ter para ser é o mais importante....E continuamos a andar pelas calçadas e tropeçar nos seres que se tranformam em corpos desnutridos e que nada podemos fazer a não ser olhar a mesa farta com tantos quitutes que não damos conta em comer....
Cida Prazeres

Lau Milesi said...

Verdade, Paulinho,eles existem, embora muuuuitos pensem que não. Para esta "procissão" são poucos que param para "observá-la".
Me emocionei com o poema e com o seu talento.

Um beijo, poeta maior.