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Friday, April 27, 2007

Cotidianos

Vivo alternando os rasos e profundos
Malversando princípios e fins
Enquanto os meios são avenida principal
Sigo reto, torto
Perdido em minha ávida lucidez
Que namora afirmativas incertezas
Ofereço um bouquet delicado
Com doze rosas de vermelho intenso
Noutras vezes, sou gás mostarda
Napalm na mão, qualquer sinal
Quando vem uma nublada vespertina
Suntuosa entre os deuses da chuva
Saio cantando pelas ruas de Copacabana
Ensopado pelas águas celestes
Há dias em que faço imaginárias serenatas
Nas janelas das Alessandras, Tatianas
Uma Isaura somente, respeitosamente
Ao longe, vejo as caravelas de sonho
Que afastam-se do Leme rumo ao infinito
Vivo rente, em riste, rispidamente
E sigo o conselho de um grande escritor
Só me interessam as causas perdidas
Delas, não me arrependo; aquecem-me
Importante competir, ideal é vencer
Perder é recomeçar, reconstruir
Dedilhar o castelo de areia desfeito
Vivo muitas vezes, morro noutras, todos dias
Adormeço, invado pesadelos até renascer
Vivo de quandos, por enquanto
Sinto falta-me um portanto, conclusão
Estou longe demais da última estação
Do fim da linha, da viagem derradeira
E, por incrível que pareça a quem me guia
Quando tudo parece assustadoramente perdido
Sou feijão no meio do algodão, juvenil
Basta um copo de plástico barato de abrigo
Meio dedo d’água e vagarosamente floresço

19/04/2007

Thursday, April 05, 2007

Para o barco que não atraca

para esperar
um dia que nunca mais deve chegar
é preciso calar
costurar os limites das idéias
desimpedir quaisquer tristezas
é preciso falhar
para sorver a essência da vida
real

necessita-se de erros e zelos
apóstrofos e reticências sãs

para esperar
um velho samba novo de contagiar
é preciso acalmar
toda sede ansiosa de beber
água ardente que enxerga o prazer

precisa-se dançar
viver in natura a permanência do caos

algum dia a sorte pode chegar

enquanto isso, vamos vivendo,
tentando, respirando gerúndios
embevecidos de paciência
condescendência de saber esperar

esperar, desesperar, exasperar

esperar

Paulo Roberto Andel, 22/03/1998

Inevitável

desagrada-me ver em ti
melancolia pelo que restou
eu tenho um plano pra te fazer feliz
eu olho para o lado e só me falta abô
eu desconheco o além e não espero ninguém
para me dizer
o que eu não pretendo fazer
a minha velha forma de ser
cuidados que vou ter para viver

parar, jamais
eu sigo em frente
eu vou com o deus que me pede a mãe
de noves fora nada, de nove copas fora
somos eternos assim

eu te espero por aqui
de braços abertos pra te namorar
eu quero um beijo como minha retribuicão
por tudo aquilo que não te ensinei
e deixei de recordar
eu não preparo ninguém para contar

eu sigo em frente, sem você me carregando pela mão
das nove luas, nada
das nove noites, sonho

somos sementes de mim

Paulo Roberto Andel, 16/10/1998

Astronauta Carnaval

é assim que represento
acredito no impossivel
aceito o contrasenso

penso, vejo
acho que respondo ao teu anseio mais diverso
que troquei por outro amor

paro, caio noutra armadilha que insisto em perseguir
depois do sol me anunciar num feriado de segunda
quero deixar a tempestade à vontade, despudorada

é assim que me apavoro
a cada morte lenta, santa
anunciada na esquina da TV

caio, fujo, quase desconcentro
desaponto a velha classe ao pedir minha alforria
alegrar a noite fria, refazer um sonho bom

desencontro o lado mais claro da tua face imprecisa


Paulo Roberto Andel, 15/11/2000

Imbuí

é fotografia dos dias dispersivos
feito tempos do forte apache
imbui

aqui estou numa cúpula silenciosa
de uma fábula fabulosamente
infeliz

o velho general da banda não vive mais
carecem promessas para o novo futuro
o céu não tem fronteiras, nem histórias sem estrelas

o céu, desnudo léu

o céu, gigante destelhado

o céu so tem espaços, que preencho com lembranças
e nuvens que encobrem dissonantes pensamentos

onde me perco


Paulo Roberto Andel, 17/04/2000

Friday, March 30, 2007

Caminho de vida

vida que te quero vivida
nos frutos das árvores iluminadas
pelo vespertino sol da primavera

vida acesa, quente, alvissareira
cheia de exclamações, reticências
choros e risos, imprecisos

vida em que a derrota
não passa de fraco opaco
e a vitória tem brilho intenso
na claridade da cidade alta
na poesia da beleza em riste
no ledo engano do novo encanto

ah, vida

certas vezes, tu me parecestes
tão sofrida, ferida em pesar
que quase te abandonei
por teimosia, perseverei
agora, estou diante de ti
sou ferido pássaro na solidão
perdido, avoando todo mar
enquanto o ninho não chega
o repouso dos justos
breve alvorada da travessia mor
inevitável



Paulo Roberto Andel, 30/03/2007

Ossos do ofício poético

quando quiseres ser poeta
deves atirar uma, vinte, mil pedras de liberdade
numa multidão assustada
tendo em mãos as dálias
que melhor sejam desfolhadas
e ofereça cada pétala
ao sabor do carinho

quando quiseres ser poeta
precisas desfraldar teu peito nu
e abalroar o sentimento de frente
amores, ódios, compaixões
repulsas, alívios, serenidades
para que a palavra escorra em teu corpo
advinda de tuas lágrimas e suores

quando quiseres ser poeta
basta embebedar-se de vida
quente, morna, viva, rígida
e não é o caso de sorver goles
mas sim embriagar-se nas canecas, pelas tabernas
e brindar o entorpecer do amor


Paulo Roberto Andel, 30/03/2007

Saturday, March 17, 2007

Nau capitânia

faço as vezes de um rio caudaloso
e nele desço correnteza abaixo
não tenho onde me apoiar, equilibrar
e nem imagino onde vai ser a parada
são as águas que me levam, vigorosas
pelos quebrantos do desconhecido
cabe-me o medo natural de marujo novo
entretanto, vivo mesmo é conforto
que venham mais águas, puras
que tudo deságue no mar, eterno


Paulo Roberto Andel, 17/03/2007

Friday, March 09, 2007

Dois amores do Atlântico Sul

I)

Houve um dia
Em que fizestes chuva de prata
No espelho d'água que beijou Copacabana, cândida
Enquanto o sol era nosso ardor
Nossa bênção, lúcida
Eu repousei
Para fazer do meu coração o teu
Teu berço esplêndido
Canto das sereias, lembranças
Cicatriz e dor de amor
Há de haver um dia
Que farei da tua prata
Meu ouro branco de pote
Abrilhantando o luar
Deleitando-me no gosto leve
Açucarado, preciso
De te reencontrar, tão minha
E beijar-te, beijar
Até que o mesmo dia
Seja sintoma de eterno
Vire século, milênio
Todos os tempos, aconchegantes
Para ficar mais junto de ti
Minha chuva de prata
Meu pote d'ouro
Quero tudo que sirva
Para ver-te novamente em mim
Serena e permanentemente
Filha

II)

Dá-me tua mão, teu calor
Dá-me teu beijo
Que traz afago em minha face
Teu abraço que não cessa
Teu carinho infalível
Redivivo, definitivo incenso
Dá-me tua companhia querida
Longe da colina imprecisa
Que nunca servirá de amparo
Nem quando o sol incendeia
A tarde duma quinta de verão
Minha, mãe tão minha
Dá-me tua cor, tua voz
Teu colo de alicerce
Dá-me teu sorriso sem par
Perfeito ser
Dá-me tua presença
Teu caráter, vigor
Rigor de humor cativante
Dá-me tua mensagem
Um sinal, uma passagem
Para que eu possa buscar-te
Dá-me tua mão, teu calor
Na porta do palácio branco
Oxalá
Meu amor

(Dedicado a Maria Isaura, sua mãe e a minha)


Paulo Roberto Andel, 05/03/2007

Sunday, March 04, 2007

Entes

objetiva
a mente da gente que mente
e finge que não sente
o desencanto, de repente
da massa audiente
feito um sol de poente ausente
desnaturadamente
um falso encanto da serpente
truque reticente, inconsistente

objetiva a gente que mente
despudoradamente
desnecessariamente
escorada num dormente decadente
anestesiada, doente
ávida por tratar a gente
como se não fosse a gente
impróprio agente

obsessivamente, gente
objetivamente, gente
obsessiva mente que mente
demente gente
de mente, gente que desmente gente


Paulo Roberto Andel, 04/03/2007

Wednesday, February 28, 2007

Hino nacional

miséria ignorância desprezo descaso opressão censura ditadura cobiça avareza fanatismo violência indulgência demagogia malversação descalabro carnaval futebol sambalando tropicália renascença reforma inquisição tortura refavela tráfego tráfico imposição fé crime castigo casta verdade brasil grande pátria desimportante brasil amém brasil noves fora nada brasil brasileiro
Paulo Roberto Andel, 28/02/2007

Fading light

a fading light shines ahead like a little lovely star

it lives nearly a top of a uncertain green hill

the lovely ones carries love and peace to us

i´m the only sightseeing man looking around

my heart brings a throughout mood, so close

everything is broken, absolutely broken out

but i'm still alive, living a neverending story

coming and going with mom in my mind


Paulo Roberto Andel, 28/02/2007

Brumas de Copacabana

faça de minhas mãos as tuas
e deixe-as correrem teu rosto ainda tão juvenil
plácido, límpido
perto do teu olhar delicado, brilhante, sutil
banhado no mar
faça-me teu enredo, encanto
voz que se anuncia pelas Guanabaras, Paulicéias desvairadas
ou ainda pelas Diamantinas, todas as Gerais
faça-me de toque das tuas melenas
acesas, cativantes, convite a delícias e calores
faça-me de amparo dos teus anseios
e mergulhe-me em ti
ponha-se nua de corpo e alma
vestida apenas com o sal do Atlântico, no palácio d'água
toda Copacabana há de aplaudir
a trégua de teu mar, que fascina, conquista
e faz do teu rosto amor sem par, nem fim


Paulo Roberto Andel, 28/02/2007

Moto contínuo

transformo-me entre quandos e ondes
contatos costurados pelos porquês
o talvez servido de fio da esperança
apoiado em vigas de efêmera certeza

mastigo-me, rumino, pleno autofágico
na permanente mutação de meu viver
com inatingíveis desejos na realidade
entorpecentes baratos durante ir e vir

meus gritos causam delírio, dor, alegria
o silêncio que ostento arquiva mistério
todo amor que causei fez-se martírio
meu lamento é não saber dizer adeus


Paulo Roberto Andel, 27/02/2007

Sunday, February 25, 2007

Saudade

amor
que navega sete mares de memória
para atracar
no cais seguro do bom coração


Paulo Roberto Andel, 25/02/2007

Thursday, February 22, 2007

Idas e vindas

Eu, que sempre acreditei nas coisas que perdiam-se para todo sempre, tenho enganado-me

Uma foto, um objeto, a lembrança de uma velha frase ou do mais empolgante dos beijos

Quando menos se espera, as coisas e pessoas voltam-me do quase nada, implacavelmente

E, quando chegam, encantam-me feito jamais estivessem ausentes de minha companhia

Certa vez, um inimigo contemporâneo alertou-me de que o mundo dá muitas e muitas voltas

Raras vezes na vida, alguém pareceu-me tão sóbrio, sagaz e pertinente em seus dizeres

Eu, que tolo fui, acreditava nas coisas perdidas para a eternidade, vagas nos limbos, perdidas

E agora, percebo que nem a morte é capaz de abalar a posteridade do amor, do carinho, da paz

Perdi meus mais queridos, que fazem morada agora no amargurado peito que carrego só

Em agradecimento, eles enviaram outros de algum jeito, perdidos que reencontrei na trilha

Eu, que tenho vivido com tanto amargor em minha sutileza, perdido na tristeza, recolhido

Estou desconfiado de que existe algo escondido na misteriosa essência da vida humana, terra

Longe de mim ousar descrever, acreditar, rezar, chorar para tentar decifrar tal segredo

Resta-me viver, bem fazer, sonhar e esperar por novos dias, reencontros, aqui ou ao longe



Paulo Roberto Andel, 22/02/2007

Wednesday, February 14, 2007

Mal liberto

males são versos
derramados pelas frases
inconclusas
indecisas entre o cândido e o errante
besuntadas por discórdia e carinho
cativantes
fingem rezar pálidas preces
aos curtos poetas de cátedra
nada os detém ou repara
vivem soltos nos ares, libertos
em espreita do bem querer, querer
distante do poder, amontoado
nos gigantes corações de fé
imersos no amor a granel


Paulo Roberto Andel, 14/02/2007

Tuesday, February 06, 2007

Lágrima

nenhuma lágrima é vã quando um olho a derruba com sinceridade
e um rosto a ampara com a fidalguia maior, retidão, consciência
desimportam os motivos de tristeza ou alegria que a fecundaram
não são relevantes os meios e os fins que a cercam no momento
poucas coisas são mais cristalinas do que a verdadeira lágrima,
a diga lágrima, ausente das vistas vilãnicas, traiçoeiras, bandidas
eu falo das lágrimas das pessoas de coração voltadas ao bem
são trabalhadores, estudantes, remediados e miseráveis, solos
doentes, esfomeados, gente traída pelo amor, dinheiro e pela fé
empilhados nos hospitais, tribunais, vielas das favelas, avenidas
estes, sim, são capazes e frequentemente baixam suas lágrimas
quando deparam-se com alguma violência, apenas brasileiros

Paulo Roberto Andel, 05/02/2007

Wednesday, January 31, 2007

Respirando Copacabana

Meus tempos de garoto foram em Copacabana. Tempos vividos. Outros garotos viveram outros tempos, claro, falarei dos meus.
Definir a pequena cidade é algo ingrato para qualquer livro, quanto mais um pequeno relato textual.
Copacabana é casa do Brasil, é a gênese, é onde tudo de certa forma começou.
Você conhecia todo mundo, pelas ruas, ao mesmo tempo ninguém. Podia ficar anos sem ver um vizinho de prédio e, subitamente, lá apareceria ele na casa de guaraná da rua Siqueira Campos. Certa vez, conheci um sujeito na faculdade que veio a ser meu amigo, grande amigo, até que me matou sem razão justa. Falávamos pelos cotovelos nos corredores da academia, coisa de um ano. Belo dia, viro direita da Barata Ribeiro, vem o cabeludo em trajes de praia, rumo ao Atlântico; cumprimentamo-nos e veio a brancaleônica pergunta: "Você mora aqui?". Éramos vizinhos.
Futebol era Juventus e Bairro Peixoto, às vezes o Dínamo. Escoteiros no terceiro andar de um shopping, inacabado, construído pelo pai do presidente Collor (...), reunidos defronte uma igreja em forma de cúpula, isenta de imagens santas.
Mendigos? O "Kung Fu" da Figueiredo Magalhães, Ramiro, Lina (que era poliglota) e o impagável "Mr. Éter", lenda do bairro.
Lanches eram ice cream soda nos supermercados Leão, mini pizza da Gênova, Sumol, Bolonha e Suprema. Também tinha a lanchonete de porta das Lojas Americanas, com refresco de côco em copo cônico de papel.
Vez em sempre, uma celebridade da época atravessava as ruas. Éramos todos respeitosos. Abordar? Nem pensar.

Meninas lindas das proximidades? Patrícia, Anas Paulas, Elianes, Regina, Cissa, Cristina, Renatinha. Mais.

A trilha sonora tinha tudo: Tim Maia, Eric Clapton, Zeca Pagodinho, Slayer, Peter Gabriel, Caetano Veloso e toda Bossa Nova.

Meu pai estava sempre nos botequins, afogando mágoas. Minha amada mãe, preparando meus lanches para a volta do futebol na praia, sem iluminação, e com risco de acertar boladas num casal mais afoito à beira-mar.

Puteiros, ginástica, boates, teatros, livros, discos, moda. Cinema? Metro, Rian, Bruni, Caruso, Condor.

Jogo de botão nas ruas, aprendizado de sexo nas escadas dos prédios.

Bom dia numa padaria era cumprimentar um velhinho, um travesti, uma modelo e, talvez, um astronauta.

Estou aqui num escritório gelado, frente ao eterno computador, calculando. Abri um sítio, tinha foto da praia. Copacabana Palace. Leme. Posto 4. Pensei na mãe que perdi, no ex-amigo cabeludo, nos puteiros, nos bares, Ana Paula. Tudo. Tempo perdido? Não. Ainda não.

Copacabana me enganou.

Garoto, pensei que felicidade fosse eterna.

Morri de novo. Ressurreição existe?



Paulo Roberto Andel, 31/01/2007

Beatriz

danadinha a menina
sedenta de conquistas
não pára, leva a sina
provocante, delicada
no desejo de paixão
vive todo momento
que pareça novidade
entrega-se faceira
nua em pêlo, morna
e vai aquecendo
até fervilhar, plena
danadinha a menina
sorridente, levada
embebida no cálice
saboroso de idílio
safadinho, saboroso
futuro, não aguarda
atira-se ao vento vão
caçando oportunidades
sua essência de mulher

Paulo Roberto Andel, 31/10/2007

1995

hoje, tudo não passa de efêmeras vanguardas
mergulhadas pelas cadeiras, mesas, reuniões
amontoando laptops, pen drives, coffee break
foram-se os dedos e os anéis, caso encerrado
o tempo levou meu majestoso e melhor amor
por tudo isso, encanta-me doce nostalgia de ti
nada mais antigo e deliciosamente fascinante
feito dourado que confiastes às minhas mãos
um beijo carinhoso na pousada de um arraial
todo gosto, cheiro, pele, tudo que reze presença
do teu perfume leve e inacreditavelmente vivo
são tudo tons que não opacam minha companhia
e não afrontam quem deleita-se bem ao meu lado
pois brilham no céu vespertino do velho Arpoador
foram-se os tempos, minguantes, correram serenos
pela fonte d´água que mata sede de todos desejos
nós agora somos outras casas, bravias, distantes
confiamos nossos amores a quem os desmerecia
sonhamos, vivemos, sortimo-nos por cada lugar
mesmo que nossos corações tenham nova gente
mesmo que lembranças não recuperem o ardor
eu, somente eu, navego vista pelo meu horizonte
e te procuro, procuro, procuro em cada calçada
cada beira de mar em noite de calmaria, poetisa
e sonho-te, sonho meu secreto mundo do querer
enquanto eu não descansar em paz, há fato certo
meu pensamento mais lúcido carrega uma fantasia
e nela, o detalhe mais-que-perfeito é o teu sorriso
tua delicada voz que ecoa firme em minha cabeça
feito a canção dos melhores momentos de amor
o macio de tuas mãos percorrendo-me pausadas
e o calor do teu corpo cujo igual nunca mais vi

Paulo Roberto Andel, 31/01/2007

Tuesday, January 30, 2007

A traição das palavras

palavras, que voam velozes, indecisas e malfadadas
expulsas ao vento por vozes firmes ou delicadas
palavras, perdidas na indulgência da não verdade
esgarçadas pelos tempos e ventos, vãs memórias
palavras, algozes ou santas, mordazes redentoras
ora desperdiçadas, ora definitivas, reticentes, nós
a casa da palavra deveria ser templário sagrado
que protegesse a todas do uso falhado, da má fé
palavras não são más, feito a poesia na canção
o mau homem é que delas abusa, traz-lhes dor
falar, escrever o que não sente ou desacredita
enganar, arruinar um coração ou pedaço de vida
perdoemos almas vazias que vagam pela terra
em corpos que não significam seres humanos
apenas zumbis, imersos no espaço de caráter
malversando o divino dom da palavra sagrada
deixemos que sigam em paz, talvez descansem
mergulhados num mar de dúvidas e mentiras
eu não traio minhas palavras, apenas despeço
quando isso acontece, trata de cálido amor.


Paulo Roberto Andel, 30/01/2007

Monday, January 29, 2007

Réstia

juventude é o espaço da maior esperança entre as dores

maturidade é o espaço delgado entre as dores e o fim

do recomeço, rapaz, não sei dizer. nem viver.


Paulo Roberto Andel, 27/01/2007

Thursday, January 25, 2007

A última canção de Copacabana

eu sou a última, derradeira canção de Copacabana
e quem me entoa o faz em timbre mais que áspero
para recordar a certa época de gente mais fraterna
quando o bonde era desbravador da grande avenida
o meu cantar faz sombra, feito coqueiro a proteger
indigentes meninos negros e pobres, negros em cola
enquanto o Atlântico Sul repousa e também se agita
eu sou a praça Edmundo Lins quase calada, plácida
carente de crianças, sem feira nem festa, nem violão
perto da rua de Santa Clara, casa de Isabela, céu
eu sou o mendigo famoso e adormecido pelo éter
entorpecido na curta escadaria da Farmácia Piauí
enquanto um jovem casal de vibrantes namorados
troca juras de amor com uma casquinha na Bolonha
trazem-me à missa numa igreja um tanto diferente
com formato lunar e sobre um centro de comércio
sopram-me na praia num vespertino de sábado
e lá está o velho Juventus, e lá vai bola para o ar
eu faço força para aquecer os solitários corações
feito um dedicado escoteiro ligeiro da Santa Cruz
cada casa deste meu velho bairro faz-se pantheon
com seus Jorges e Clarissas, Ricardinhos e Bujas
eu faço voz aos desesperados, encardidos tristes
famintos de corpo e alma pelos postos e travessas
toda Prado Júnior, toda Francisco Sá, Inhangá
naus desgovernadas, mas resistentes pelo Leme
eu som o bom dia caridoso de um velhinho forte
para delicado travesti na calçada do Cirandinha
eu vivo solto ao vento, feito velha bandeira branca
fincada no alto do morro de chapéu mangueira
eu sou a última leviana canção de Copacabana
e nem mesmo o maior poeta deu cabo de mim
quando eu passar, haverá outra, mais muitas
tenho o mar, areia, meu palácio é grande hotel
caso meu destino seja mesmo descansar em paz
resta-me uma tarde esperançosa no Marimbás


Em homenagem ao grande poeta e cronista brasileiro Rubem Braga, com "Ai de ti, Copacabana"


Paulo Roberto Andel, 25/01/2007

Wednesday, January 24, 2007

Sobre um tempo

Há momentos em que surpreendo-me com os homens de meu tempo

Aqueles que, por todos instantes, atravessam as grandes metrópoles

Usam passos apressados, ingenuamente tentando domar as horas

Acompanhados de relógios suíços, telemóveis e a mais alta precisão

Minha surpresa é vê-los submersos num mar de ilusão fugaz, doce

O tempo não pode ser controlado pelos ponteiros sutis ou digitais

O tempo não é subserviente aos fabulosos meios convencionais

O tempo, senhores, tem duas medidas: esperança e desespero.


Paulo Roberto Andel, 24/01/2007

Tuesday, January 23, 2007

O licor da decadência

Ao longe, tinha inegável beleza em sua baixa estatura. Apenas.
Por vezes, chamou-me atenção em certos cantos d'alma.
Quando estava num grupo qualquer com outras mulheres, tinha adoração em exaltar suas façanhas questionáveis, em voz alta. Das presentes, a maioria ratificava a retórica, mesmo que cercada de ligeiro folclore barato. Tinha fascínio em parecer a mais instigante, bombshell, a mais sexy e sugestiva de seus pares - e, desconfio, nisso havia um tempero de equívoco. Houve quem acreditasse. Alguns, limitavam-se a fingir.
Vivia certa vocação para a embriaguez nos bares e convescotes, o que maculava os bons traços de seu rosto e apimentava-lhe com vulgaridade.
Gostava de parecer moderna, firme, decidida, arrojada, amante da inteligência madura. Tudo em vão.
Eu a acompanhava de longe, pelas tabelas, pelas conversas. Sempre soube mais dela do que o recíproco. Fui muito próximo, afastei-me de vez.
Houve uma festa de amigos comuns numa taberna. Ela veio. Adentrou o salão, sempre linda por fora, rasa.
Um meninote, que conhecia suas artes de alcova nem tão bem como eu, puxou conversa. Falava-me de como parecia infeliz em seu falso teatro. Calei.
Fitava suas sardas, sua bela boca de lábios banhados em escarlate, pouco aberta e pouco afeita a palavras sóbrias. O rapaz não parava, admirava-a e isso o impelia a mais comentários. Permaneci em silêncio, por vezes balançando a cabeça.
Era bonita, era fato.
O que a embebia no passado licor da decadência?
Alguma frustração doutros mares? Amargura? Insegurança? Narcisismo?
Lembrei do passado, das vozes populares, dos próprios depoimentos mentirosos que um dia me dera.
Os autos mostraram-me bem menos. Apenas leve decepção.
Quando foi tomada pela mão por um sujeito que sempre a malversou, finalmente entendi.
Era apenas uma idiota.
Simples. Objetiva.
Paulo Roberto Andel, 19/01/2007

Saudade

meu coração desliza feito barco a vela
na baía de um falso verão da Guanabara
numa quinta-feira de cortar-me ao meio
há um cinza no céu das dezessete horas
o Atlântico infinito tem muito vento e frio
eu não passo de vôo rasante, solitário
alheio a palavras ou abraços desconfortáveis
tenho ao longe uma gaviota vadia no mar
meu perto é nada além do réquiem, amor


Paulo Roberto Andel, 21/07/2007

Noturna inverdade

a lua minguante, dissonante
parece indecisa no canto de céu
a madrugada, precoce, mente
alheia aos meus sonhos em vão
não se trata de uma calada noite
e sim repleta de sons moderados
contudo, emoldurados por silêncios
feitos de espaços no bater das asas
ou num mergulho rasante n'água
ao longe, certa estrela brilha intensa
vejo meus pés no chão, tristeza, nu
mãos vazias, coração quente, vago
falta-me uma canção de acalanto
e breve amparo contra eterna dor



Paulo Roberto Andel, 21/01/2007

Tarde no parque

tenho em vista a alegria dum menino feliz a passar
pelas casinhas coloridas do Parque do Flamengo
num sábado quase nublado de meia estação leve
ele tem à mão direita um balão azul cheio de gás
noutra, cabe-lhe um simpático biscoito de polvilho
é um branquinho, e protege a cacholinha clara
com seu chapéu simpático, emblemado de peixe
ao longe, sua mãe o admira, é moça muito bonita
ela esconde-se em grandes óculos e um lenço verde
tem semblante moderno, tudo enquanto tanto sorri
faz gracejo da corrida estabanada do menino, solto
com seus pequenos passos da infinita infância
e eu, somente e miseravelmente eu
que vejo de nem tão longe, repenso, reflito
a cena simples mas eterna do amor de mãe e filho
é o que dizem do mais puro e brilhante diamente
amor
apenas amor
que por si somente é duradouro pelas eternidades


Paulo Roberto Andel, 19/01/2007

Três futuros

quando éramos três
a nossa história era bem diferente
daquela imaginada por vocês

tínhamos fomes e dores
outros amores
e um futuro que poderia ser
o da nossa vez

assim não se fez

deixamos de ser três e suspiramos
por cada pequena chance de trazer
o sol para o nosso talvez

injustiça, essência da vida, perdida
nos sonhos de generosa moça

houve um silêncio profundo
retornamos à primeira vez
quando éramos três

não sei onde mora o viço do céu
nem desejo o meio dia de domingo
muito menos o programa de auditório

cabe-me silêncio, berço esplêndido
sonhos partidos, pútridos, sem vista da tez


Paulo Roberto Andel, 13/01/2007

Mãe

Minha alegria morava no brilho dos teus olhos juvenis
Duas jaboticabas, pedaços de faceira bonequinha
Quando eles cerraram, foi minha vista que turvou
Perdido, tentei-me ancorar na ponta do teu delicado nariz
Mas ele não me respondia, desistira de todo aroma
E sequer incomodara-se com minha ponta de dedo frouxo
Mais perdido, baixei rumo aos teus lábios, harmoniosos
Que foram morada de tanto carinho e tantos sorrisos
Outros milênios de beijos que alojaram-se em minha face
E vi que não se mexiam, perdiam-se em meu desespero
Anunciando o breve retrato da mudez no fim, tempestade
Quando teu rosto adormeceu sereno, duas vezes morri
Uma, por ti
Outra, dentro de mim


Paulo Roberto Andel, 11/01/2007

Saturday, January 06, 2007

A última curva da ladeira

Estão vocês, donos da galeria, baluartes do salão, risonhos e vazios.

Com seus tragos de álcool, suas conversas opacas, tudo brilho insano de mente vulgar.

Vocês riem insolitamente, e nem percebem-me morto.

Muito ocupados com seus shopping centers, crises de autoridade e check-in de aeroporto.

Tensos com o carnaval, o trio elétrico e alheios aos famintos, aos desesperados nos hospitais, nas filas de desemprego.

Vocês usam Ray-Ban para esconder toda cegueira.

Não enxergam meio palmo diante do nariz, tampouco escutam muito bem.

Estão todos ocupados, há uma crise na bolsa de valores.

Lá fora, longe do salão e da insensatez que inebria a todos vocês, o mundo morre feito eu.

Eu estou morto, mas vocês não venceram nada.

Eu estou num solitário fundo de caixão no alto de uma colina.

Meu amor dorme.

Minha mãe dorme.

Gentes incendeiam vida à toa.

Queria ter meu sangue cuspido no rosto de todos vocês.

E terei.

(Homenagem à mais digna de todas as pessoas que conheci nessa terra, perto de algumas outras também, Maria de Lourdes Andel, amor e razão da minha vida que se encerrou.)

Paulo Roberto Andel, 06/01/2007

Friday, December 29, 2006

Um poeta recolhido

vejo um poeta na rua em silêncio
parece tão reflexivo, contido
sorve um chope com delicadeza
e senta o copo na mesa solitária
ouvi falar de seu talento, ocluso
hermético para grandes platéias
trata-se de um poeta cansado
pela denúncia das grandes olheiras
e também do cigarro mal tragado
parece fitar uma rua abandonada
tudo diferente da minha calçada
vejo o poeta, vejo-me calado afim
e o que sinto agora seria fadiga?
sede? sombra de dúvidas? distância?
descreio de tudo o que cogitei
agora entendi a distância do poeta
rascunhando num guardanapo
rabiscando um devaneio de amor
ainda não temos uma noite de carnaval
e raras são as festas da cidade
contudo, o poeta não pára
o que parece-me distância, na verdade
é sua quase única razão de viver
rabiscar, expulsar amor dum coração para um papel vulgar


Paulo Roberto Andel, 29/12/2006

O aviário

Depois de tantos anos morando pelo centro da capital, ainda sinto-me um estrangeiro morador.
Estou mais do que acostumado ao frenesi das ruas na condição de trabalhador assalariado, muitos estão.
Habitar, contanto, é outra coisa. Sei das ruas e dos caminhos, mas não tenho os endereços em mente como os de minha tribo nativa, que sempre será Copacabana. Vez ou outra, palpito e dá certo. Um estabelecimento, contudo, sempre chama-me atenção: um aviário que fica na rua André Cavalcanti.
Nos meus tempos de criança, na velha Toneleros, havia uma casa de aves também. Impressionava-me: primeiro, não era tão comum para crianças da zona sul depararem-se com animais vivos que não cão, gato e pombo, variedade que só fui ter no zoológico e, tempos depois, quando tornei-me escoteiro. Contaram-me também que os pobres bichos ficavam ali à espera do sacrifício, entre as grades apertadas. Tive muito medo daquilo, e tal fato volta e meia traz-me a idéia de necessitar parar de comer cadáver.
Sei que são muito gostosos.
Gente muitíssimo mais importante do que eu, como Nelson Rodrigues, já sonhou com bifes em crônicas, de modo que em minha condição de reles mortal aceito-me. Às vezes. A pena, entretanto, existe em mim. Pobres bichos. Pobres.
O dono do aviário da André tem um perfil cansado, por vezes entediado. Sempre está sentado em uma cadeira, do lado de fora do balcão de atendimento, tragando um cigarro, à espera de ávidos consumidores que, em busca de carne fresca, disponham-se a mandar abater os coitados patos, galinhas, porcos e associados. Tem um ar triste nos bichos, assim como tinha na Toneleros. São irracionais, feito eu, consumidor; não sei como, sopra em suas estampas a síndrome da morte a seguir. Saddam deve estar sentindo isso, ou já sentiu, ninguém sabe ao certo.
Promessas de ano novo não são tão válidas, sabemos. Podem soar como início de regime alimentar às segundas-feiras. Eu queria diminuir a carne do cardápio, sei que é difícil. Adoraria extingui-la do meu cenário, sei que é impossível. Creio que me faria bem e sentimentos melhores viriam ao meu pensar, descontados todos arrependimentos que tenho pelos milhares de bois, frangos e peixes mortos em nome da minha fome e da minha saúde. Isento as estranhas criaturas que dizem ser a receita dos hamburgers Mac.
Estamos no fim de mais uma etapa, mais um ano, novas promessas à vistas, velhas perspectivas. O que virá mais à frente? A esquina, outra vez. O aviário. O dono.
Eu não tenho pai do céu para fazer promessas, promessas. Promessas. Resta-me apenas um incômodo neste momento de fim de tarde.
Parece que os bichos da minha infância no aviário da Toneleros reviveram nos da André. Trazem-me medo, apreensão.
Algo em meu subconsciente traz algum alerta para a demolição da Frei Caneca ontem. Grades, bichos enjaulados à espera da morte e algum sujeito sentado tragando um cigarro despreocupadamente. Alguma coisa tem a ver.
Pior ainda.
Pensar nas gentes enjauladas pelas janelas de vidro dum ônibus, ardendo vivas no inferno, morrendo para satisfazer a insanidade de bandidos cruéis, que trouxeram de volta os tempos da inquisição. E que uns insistem em defender que são meus semelhantes.
Eu sou um bicho menos insano. Arrependido, sirvo de amparo para que a carne não humana seja bom negócio no planeta. Longe de mim incendiar um galeto em vida.
Mais perto, do veículo, tem gente sentada tranquilamente e tragando demais, como se nada estivesse acontecendo.
Desisto do passeio e volto para casa. Amanhã, outro dia, é um novo ano. Novas grades.
Paulo Roberto Andel, 29/12/2006

Thursday, December 28, 2006

Onde mora liberdade?

Liberdade, santa insana liberdade
Utopia inalcançável, mais que desejada
Vejam o exemplo de nossa velha cidade
Cada um de nós busca o jeito de ser livre
Num dia de folga, tarde de mar ou no futebol
Desfraldando uma bandeira e gritando firme
Tudo feito de pequenas liberdades, efêmeras
Os humildes buscam liberdades nas palafitas
Nas casas de beira de estrada, alto da colina
Os trabalhadores caçam liberdades na mercearia
Com os minguados dinheiros, de farto suor
Os mendigos perseguem liberdade de sobreviver
Entre a mão estendida e a cachaça de anestesia
Mesmo o abonado, o bem-nascido, abastado
Não conhece bem a ciência de ser tão livre
Uns fogem de impostos, outros da miséria ao léu
Que lhes incomoda olfatos e visões
Outros, blindados, correm das balas perdidas
Das patrulhas noturnas, ensandecidas
E também do fogo infernal das ruas
Nem mesmo um falecido é totalmente livre
Com exceção do ateu que acerte a tese
Senão, é capaz de ainda precisar de senha
Para ser atendido nas portas dos céus



Paulo Roberto Andel, 28/12/2006

Sunday, December 24, 2006

Caso encerrado

Flanava na tarde vadia às vésperas do Natal.
Contrariando planos feitos instantes antes, desistiu de um rumo e seguiu para outro. Adentrou uma taberna. Lá entrando, deparou-se com um silêncio típico de contradição com o local. Permaneceu assim. Pouca gente, poucas canecas tilintando, certo ar de monotonia e leveza.
Pediu um trago.
Parou, pensou, refletiu sobre a vida. Tudo em dedicado silêncio, sem vizinhos, ocupantes de mesa ou outros interlocutores.
Houve um rompante, interrompeu-se aquele mesmo silêncio por causa de um tapa nas costas.
Era um conhecido, um ex-amigo, embora não qualquer.
No passado, eram muito ligados, pertenciam a uma mesma turma, cortaram dias e noites pela Guanabara, parecia até amizade de verdade que, no entanto, esvaiu-se à frente. A turma quase toda ainda se mantém, tirando o sujeito do tapa: afastou-se de todos, por umas razões um tanto quanto esquisitas, deixou murchar carinhos. Posta a estranheza de lado, após o cumprimento, falou feito cântaros de chuva. Nada que fosse empolgante como as histórias de alegria e humor do passado; os tempos às vezes tiram o sabor das coisas, ou azedam-nas.
Contou de seu sucesso profissional, de suas conquistas financeiras, de sua afirmação intelectual, de seus novos rumos, desinteressado que estava dos vínculos da antiga, considerando-os todos desimportantes. Mostrava uma incessante obsessão em parecer bem, em ter encontrado o sucesso, talvez comprado num desses livros de receitas que pairam pelas bancas de jornais. Gastou um tempo considerável falando sozinho, quase como se fosse um político em campanha; mais ainda, parecia até uma versão caricata dos estadistas, normalmente nesta posição por meios não democráticos, que ficam dispostos a cultivar a própria imagem. Tudo em vão, tudo frívolo e fugaz. Uma conversa desinteressante pelo passado de amigos, pelo presente de bons conhecidos. Era quase um Narciso envolto num espelho de trezentos e sessenta graus. Em troca, sutilmente, recebia o olhar que se fazia de atento mas que continha um dos piores sentimentos que um ser humano pode nutrir por outro. Nojo. Indignidade para com o passado fraterno.
Houve uma hora em que o discurso mostrou-se fatigado. Um pequeno momento de bom-senso do palestrante, aproveitou-se para despedir-se amigavelmente, mas sem grande calor: talvez tivesse percebido que sua prosa rançosa só não tinha sido rechaçada por boa educação da parte ouvinte. Não deixou telefone, contato, absolutamente nada, menos ainda recebeu solicitação para tal. E foi melhor assim.
Quem muito ouviu, deixou a taberna logo a seguir. Resolveu novamente mudar rumos. Buscou ar livre, ruas arborizadas, gentes caminhando por entre as réstias de sol a bater nas calçadas. Quando chegou perto do mar, reavivou o discurso pedante da taberna. Pareceu-lhe feito o desapontamento que, por vezes, cada um de nós tem quando reencontra a pessoa amada do passado, ouve-a e depois toma-se pela imaginação de como poderia, um dia ter desejado alguém daquele jeito. No caso real, tratava-se de bem maior, pior ainda: amizade é para superar todas as mazelas, todas as barreiras, é para ser indestrutível - ou, ao menos, deveria ser caso fosse embebida pela essência da sinceridade. Triste a sina de deparar-se com a piora de quem já recebeu de nossa parte os maiores votos de boa companhia.
Sobre o assunto, seu último pensar foi o de que quando certas coisas ficam distantes, em alguns casos, é melhor deixá-las intocáveis, para não saborear o amargo da decepção e nem malversar as lembranças de um passado, mesmo que não seja lá tão distante assim.
Mirou em frente, havia a enseada de Botafogo. Não sorriu. Admirou.
Seguiu em frente, como toda vida. Sem espaço para petulância.
Paulo Roberto Andel, 24/12/2006

Memória

Certa brisa tenra acaricia meu rosto nos arredores da pedra do Leme
Minha vista namora um horizonte, encontro de dois azuis cativantes
Ao fundo, eu procuro o que vem por depois, o paradigma, infinito
Não é fácil enxergá-lo, saber ao certo o que de lá se pode esperar
Enquanto o futuro não vem, um garotinho senta-se à minha vizinhança
Trazendo biscoito de polvilho numa das mãos, mate gelado noutra
Branquinho, de sorriso inconteste, tem no chapéu que usa um peixe
Não sei bem qual a razão, imagino-o que seja como fui por um dia
Um rompante, um triz, um pequeno caco do que parece ser vida
Talvez uma história sem fim de muito, mas muito tempo que se foi.


Paulo Roberto Andel, 24/12/2006

Friday, December 22, 2006

Alessandra

Eu sou pobre, louco, para descrever o encanto
Que teu alvo sorriso fez viver meu coração
Ainda me lembro da tua voz em frases eternas
Incapazes de enjoar ou cansar, cativantes
Jamais igualadas por outras autoras, muitas
Eu não tenho vocabulário que possa descrever
A alegria que um dia brotastes em mim
Por isso, ofereço-te meu canto, minha fala
Meu pensamento solitário que te busca nas regiões
E faz de ti a minha melhor companhia escondida
Pois moras onde ninguém vê com clareza
E ninguém escuta as melhores palavras que te dou


Paulo Roberto Andel, 20/12/2006

Retrato do artista quando morto-vivo

Olhei para um pequeno espelho de casa
Parecia-me um homem velho, fatigado à vista
Com vincos profundos de tempo no rosto
E mãos de veias sobressaltadas, púrpuras
Na esguelha, um terno pendurado na cadeira
Uma fagulha de janela, noite ilustrada
O homem fitava a si mesmo, lentamente
Como que sorvesse cada segundo da vida
E podia até parecer canção da despedida
Com a firmeza dos inabaláveis olhos pretos
Talvez tentasse atravessar o brilho do vidro
Para recuperar sua mocidade, sua infância
Dos tempos da praça do Lido, liberta
Ou, mais ainda, do jogo de bola na vila
Houve um rompante inimaginável, subitamente
E toda verdade de dor e morte teve fim
Olhei novamente e não havia um ancião
Nem mãos machucadas, nem rugas delatoras
Era uma singela alucinação da melancolia
Ao contrário da minha vã certeza
O espelho era todo reflexo de mentira
Doce mentira que livrou-me do mal
Ainda assim eu não digo amém
Pois morto, vivi dois mil anos a mais
Sem morte, sem dores ou maiores dramas
Sem buscar a tristeza da face num retrato qualquer


Paulo Roberto Andel, 22/12/2006

Natale

Quando chega o fim dos dias de um ano, tudo pela contagem que um dia estabelecemos, nas grandes metrópoles tudo fica diferente.
As pessoas muito preocupadas com o Natal, a festa do Ano Novo, a roupa branca, os presentes da moda.
Tive um Natal muito triste em minha vida quando era criança. O seguinte foi bom, um dos únicos. Ganhei Polly, brinquedo de armar. Notícias davam conta da morte de Charles Chaplin. Todo mundo dizia que tratava-se de um gênio; eu não tinha dez anos e, graças ao bom tempo, consegui ratificar a voz popular. Chaplin morreu velhinho, viveu bem, fez muita coisa boa, muita gente sorrir, uns poucos ficaram vermelhos de raiva. Dia desses foi o Barbera. Eu não acredito em céu, mas em caso de meu erro, muito o merece: só pensar no Barney, Zé Colméia, Scoody e tantos outros para saber o quanto esse sujeito fez de criança feliz no mundo.
Natal, a princípio festa cristã, abraçada por todas as causas, mas parcialmente. Falam de solidariedade, de cumplicidade, de amor ao próximo, mas eu só vejo isso por uns cinco minutos. Passa o ano, os mendigos continuam dormindo entre os ratos, as crianças chorando pela miséria e a injustiça por todo canto. Há uns quinze anos atrás, fingiram acabar com o comunismo e estabeleceram uma nova ordem capitalista - vejam o que está pelas ruas do planeta.
Falta solidariedade. Amor ao próximo. Respeito. Isso independe de religião, menos ainda dos presentes comprados após estafantes filas nos centros comerciais. Não importa a roupa branca.
A vida é todo dia, até que se esgote, encerre.
Pessoas têm fome todos os dias. Precisam de casa, comida e saúde todos os dias, um teto também.
O que fazemos em relação a isso? Damos nosso real de esmola, que é importante mas pouco? Atravessamos a rua para não encarar o produto de nossa ganância consumista? Levantamos a cabeça para não enxergarmos as "criaturas repugnantes", quando repugnante mesmo é a nossa indiferença.
A cada dia que passa no mundo, um quarto de toda a comida produzida no planeta é inutilizada, não doada, jogada no lixo absoluto. Enquanto isso, África e América Latina carregam duros fardos da pobreza.
Consertar todo o mundo pode ser uma utopia flagrante, e é. Mas parte dele não é sonho, devaneio, trata-se de apenas resgatar os valores de todos os credos religiosos, mesmo da boa vontade de ateus e agnósticos. Repartir. Ajudar.
O patrão trata o empregado com salário mínimo e ameaça de emprego, pois "tem gente para aquele lugar".
O sujeito paga impostos e acha que o poder público é também seu empregado, basta pagar e exigir serviço, sem participar de nada.
O funcionário público quer trabalhar pouco.
O estudante acha que "colar" é melhor do que aprender e vai arrastando-se.
Esses, e todo mundo junto, vêem o pedinte esmolar na rua e balançam a cabeça, como que dizendo ser uma mazela impossível de se corrigir. Nada disso. Falta vontade. Vontade mesmo.
O mundo que defende Bush, o Clube de Paris e os juros brasileiros não pode mesmo ser digno de boas festas.
Em janeiro, começa tudo de novo. Porque, na verdade, nunca terminou.
Paulo Roberto Andel, 22/12/2006