Meninas lindas das proximidades? Patrícia, Anas Paulas, Elianes, Regina, Cissa, Cristina, Renatinha. Mais.
A trilha sonora tinha tudo: Tim Maia, Eric Clapton, Zeca Pagodinho, Slayer, Peter Gabriel, Caetano Veloso e toda Bossa Nova.
Meu pai estava sempre nos botequins, afogando mágoas. Minha amada mãe, preparando meus lanches para a volta do futebol na praia, sem iluminação, e com risco de acertar boladas num casal mais afoito à beira-mar.
Puteiros, ginástica, boates, teatros, livros, discos, moda. Cinema? Metro, Rian, Bruni, Caruso, Condor.
Jogo de botão nas ruas, aprendizado de sexo nas escadas dos prédios.
Bom dia numa padaria era cumprimentar um velhinho, um travesti, uma modelo e, talvez, um astronauta.
Estou aqui num escritório gelado, frente ao eterno computador, calculando. Abri um sítio, tinha foto da praia. Copacabana Palace. Leme. Posto 4. Pensei na mãe que perdi, no ex-amigo cabeludo, nos puteiros, nos bares, Ana Paula. Tudo. Tempo perdido? Não. Ainda não.
Copacabana me enganou.
Garoto, pensei que felicidade fosse eterna.
Morri de novo. Ressurreição existe?
Paulo Roberto Andel, 31/01/2007
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Wednesday, January 31, 2007
Respirando Copacabana
Meus tempos de garoto foram em Copacabana. Tempos vividos. Outros garotos viveram outros tempos, claro, falarei dos meus.
Definir a pequena cidade é algo ingrato para qualquer livro, quanto mais um pequeno relato textual.
Copacabana é casa do Brasil, é a gênese, é onde tudo de certa forma começou.
Você conhecia todo mundo, pelas ruas, ao mesmo tempo ninguém. Podia ficar anos sem ver um vizinho de prédio e, subitamente, lá apareceria ele na casa de guaraná da rua Siqueira Campos. Certa vez, conheci um sujeito na faculdade que veio a ser meu amigo, grande amigo, até que me matou sem razão justa. Falávamos pelos cotovelos nos corredores da academia, coisa de um ano. Belo dia, viro direita da Barata Ribeiro, vem o cabeludo em trajes de praia, rumo ao Atlântico; cumprimentamo-nos e veio a brancaleônica pergunta: "Você mora aqui?". Éramos vizinhos.
Futebol era Juventus e Bairro Peixoto, às vezes o Dínamo. Escoteiros no terceiro andar de um shopping, inacabado, construído pelo pai do presidente Collor (...), reunidos defronte uma igreja em forma de cúpula, isenta de imagens santas.
Mendigos? O "Kung Fu" da Figueiredo Magalhães, Ramiro, Lina (que era poliglota) e o impagável "Mr. Éter", lenda do bairro.
Lanches eram ice cream soda nos supermercados Leão, mini pizza da Gênova, Sumol, Bolonha e Suprema. Também tinha a lanchonete de porta das Lojas Americanas, com refresco de côco em copo cônico de papel.
Vez em sempre, uma celebridade da época atravessava as ruas. Éramos todos respeitosos. Abordar? Nem pensar.
Beatriz
danadinha a menina
sedenta de conquistas
não pára, leva a sina
provocante, delicada
no desejo de paixão
vive todo momento
que pareça novidade
entrega-se faceira
nua em pêlo, morna
e vai aquecendo
até fervilhar, plena
danadinha a menina
sorridente, levada
embebida no cálice
saboroso de idílio
safadinho, saboroso
futuro, não aguarda
atira-se ao vento vão
caçando oportunidades
sua essência de mulher
Paulo Roberto Andel, 31/10/2007
sedenta de conquistas
não pára, leva a sina
provocante, delicada
no desejo de paixão
vive todo momento
que pareça novidade
entrega-se faceira
nua em pêlo, morna
e vai aquecendo
até fervilhar, plena
danadinha a menina
sorridente, levada
embebida no cálice
saboroso de idílio
safadinho, saboroso
futuro, não aguarda
atira-se ao vento vão
caçando oportunidades
sua essência de mulher
Paulo Roberto Andel, 31/10/2007
1995
hoje, tudo não passa de efêmeras vanguardas
mergulhadas pelas cadeiras, mesas, reuniões
amontoando laptops, pen drives, coffee break
foram-se os dedos e os anéis, caso encerrado
o tempo levou meu majestoso e melhor amor
por tudo isso, encanta-me doce nostalgia de ti
nada mais antigo e deliciosamente fascinante
feito dourado que confiastes às minhas mãos
um beijo carinhoso na pousada de um arraial
todo gosto, cheiro, pele, tudo que reze presença
do teu perfume leve e inacreditavelmente vivo
são tudo tons que não opacam minha companhia
e não afrontam quem deleita-se bem ao meu lado
pois brilham no céu vespertino do velho Arpoador
foram-se os tempos, minguantes, correram serenos
pela fonte d´água que mata sede de todos desejos
nós agora somos outras casas, bravias, distantes
confiamos nossos amores a quem os desmerecia
sonhamos, vivemos, sortimo-nos por cada lugar
mesmo que nossos corações tenham nova gente
mesmo que lembranças não recuperem o ardor
eu, somente eu, navego vista pelo meu horizonte
e te procuro, procuro, procuro em cada calçada
cada beira de mar em noite de calmaria, poetisa
e sonho-te, sonho meu secreto mundo do querer
enquanto eu não descansar em paz, há fato certo
meu pensamento mais lúcido carrega uma fantasia
e nela, o detalhe mais-que-perfeito é o teu sorriso
tua delicada voz que ecoa firme em minha cabeça
feito a canção dos melhores momentos de amor
o macio de tuas mãos percorrendo-me pausadas
e o calor do teu corpo cujo igual nunca mais vi
Paulo Roberto Andel, 31/01/2007
mergulhadas pelas cadeiras, mesas, reuniões
amontoando laptops, pen drives, coffee break
foram-se os dedos e os anéis, caso encerrado
o tempo levou meu majestoso e melhor amor
por tudo isso, encanta-me doce nostalgia de ti
nada mais antigo e deliciosamente fascinante
feito dourado que confiastes às minhas mãos
um beijo carinhoso na pousada de um arraial
todo gosto, cheiro, pele, tudo que reze presença
do teu perfume leve e inacreditavelmente vivo
são tudo tons que não opacam minha companhia
e não afrontam quem deleita-se bem ao meu lado
pois brilham no céu vespertino do velho Arpoador
foram-se os tempos, minguantes, correram serenos
pela fonte d´água que mata sede de todos desejos
nós agora somos outras casas, bravias, distantes
confiamos nossos amores a quem os desmerecia
sonhamos, vivemos, sortimo-nos por cada lugar
mesmo que nossos corações tenham nova gente
mesmo que lembranças não recuperem o ardor
eu, somente eu, navego vista pelo meu horizonte
e te procuro, procuro, procuro em cada calçada
cada beira de mar em noite de calmaria, poetisa
e sonho-te, sonho meu secreto mundo do querer
enquanto eu não descansar em paz, há fato certo
meu pensamento mais lúcido carrega uma fantasia
e nela, o detalhe mais-que-perfeito é o teu sorriso
tua delicada voz que ecoa firme em minha cabeça
feito a canção dos melhores momentos de amor
o macio de tuas mãos percorrendo-me pausadas
e o calor do teu corpo cujo igual nunca mais vi
Paulo Roberto Andel, 31/01/2007
Tuesday, January 30, 2007
A traição das palavras
palavras, que voam velozes, indecisas e malfadadas
expulsas ao vento por vozes firmes ou delicadas
palavras, perdidas na indulgência da não verdade
esgarçadas pelos tempos e ventos, vãs memórias
palavras, algozes ou santas, mordazes redentoras
ora desperdiçadas, ora definitivas, reticentes, nós
a casa da palavra deveria ser templário sagrado
que protegesse a todas do uso falhado, da má fé
palavras não são más, feito a poesia na canção
o mau homem é que delas abusa, traz-lhes dor
falar, escrever o que não sente ou desacredita
enganar, arruinar um coração ou pedaço de vida
perdoemos almas vazias que vagam pela terra
em corpos que não significam seres humanos
apenas zumbis, imersos no espaço de caráter
malversando o divino dom da palavra sagrada
deixemos que sigam em paz, talvez descansem
mergulhados num mar de dúvidas e mentiras
eu não traio minhas palavras, apenas despeço
quando isso acontece, trata de cálido amor.
Paulo Roberto Andel, 30/01/2007
expulsas ao vento por vozes firmes ou delicadas
palavras, perdidas na indulgência da não verdade
esgarçadas pelos tempos e ventos, vãs memórias
palavras, algozes ou santas, mordazes redentoras
ora desperdiçadas, ora definitivas, reticentes, nós
a casa da palavra deveria ser templário sagrado
que protegesse a todas do uso falhado, da má fé
palavras não são más, feito a poesia na canção
o mau homem é que delas abusa, traz-lhes dor
falar, escrever o que não sente ou desacredita
enganar, arruinar um coração ou pedaço de vida
perdoemos almas vazias que vagam pela terra
em corpos que não significam seres humanos
apenas zumbis, imersos no espaço de caráter
malversando o divino dom da palavra sagrada
deixemos que sigam em paz, talvez descansem
mergulhados num mar de dúvidas e mentiras
eu não traio minhas palavras, apenas despeço
quando isso acontece, trata de cálido amor.
Paulo Roberto Andel, 30/01/2007
Monday, January 29, 2007
Réstia
juventude é o espaço da maior esperança entre as dores
maturidade é o espaço delgado entre as dores e o fim
do recomeço, rapaz, não sei dizer. nem viver.
Paulo Roberto Andel, 27/01/2007
maturidade é o espaço delgado entre as dores e o fim
do recomeço, rapaz, não sei dizer. nem viver.
Paulo Roberto Andel, 27/01/2007
Thursday, January 25, 2007
A última canção de Copacabana
eu sou a última, derradeira canção de Copacabana
e quem me entoa o faz em timbre mais que áspero
para recordar a certa época de gente mais fraterna
quando o bonde era desbravador da grande avenida
o meu cantar faz sombra, feito coqueiro a proteger
indigentes meninos negros e pobres, negros em cola
enquanto o Atlântico Sul repousa e também se agita
eu sou a praça Edmundo Lins quase calada, plácida
carente de crianças, sem feira nem festa, nem violão
perto da rua de Santa Clara, casa de Isabela, céu
eu sou o mendigo famoso e adormecido pelo éter
entorpecido na curta escadaria da Farmácia Piauí
enquanto um jovem casal de vibrantes namorados
troca juras de amor com uma casquinha na Bolonha
trazem-me à missa numa igreja um tanto diferente
com formato lunar e sobre um centro de comércio
sopram-me na praia num vespertino de sábado
e lá está o velho Juventus, e lá vai bola para o ar
eu faço força para aquecer os solitários corações
feito um dedicado escoteiro ligeiro da Santa Cruz
cada casa deste meu velho bairro faz-se pantheon
com seus Jorges e Clarissas, Ricardinhos e Bujas
eu faço voz aos desesperados, encardidos tristes
famintos de corpo e alma pelos postos e travessas
toda Prado Júnior, toda Francisco Sá, Inhangá
naus desgovernadas, mas resistentes pelo Leme
eu som o bom dia caridoso de um velhinho forte
para delicado travesti na calçada do Cirandinha
eu vivo solto ao vento, feito velha bandeira branca
fincada no alto do morro de chapéu mangueira
eu sou a última leviana canção de Copacabana
e nem mesmo o maior poeta deu cabo de mim
quando eu passar, haverá outra, mais muitas
tenho o mar, areia, meu palácio é grande hotel
caso meu destino seja mesmo descansar em paz
resta-me uma tarde esperançosa no Marimbás
Em homenagem ao grande poeta e cronista brasileiro Rubem Braga, com "Ai de ti, Copacabana"
Paulo Roberto Andel, 25/01/2007
e quem me entoa o faz em timbre mais que áspero
para recordar a certa época de gente mais fraterna
quando o bonde era desbravador da grande avenida
o meu cantar faz sombra, feito coqueiro a proteger
indigentes meninos negros e pobres, negros em cola
enquanto o Atlântico Sul repousa e também se agita
eu sou a praça Edmundo Lins quase calada, plácida
carente de crianças, sem feira nem festa, nem violão
perto da rua de Santa Clara, casa de Isabela, céu
eu sou o mendigo famoso e adormecido pelo éter
entorpecido na curta escadaria da Farmácia Piauí
enquanto um jovem casal de vibrantes namorados
troca juras de amor com uma casquinha na Bolonha
trazem-me à missa numa igreja um tanto diferente
com formato lunar e sobre um centro de comércio
sopram-me na praia num vespertino de sábado
e lá está o velho Juventus, e lá vai bola para o ar
eu faço força para aquecer os solitários corações
feito um dedicado escoteiro ligeiro da Santa Cruz
cada casa deste meu velho bairro faz-se pantheon
com seus Jorges e Clarissas, Ricardinhos e Bujas
eu faço voz aos desesperados, encardidos tristes
famintos de corpo e alma pelos postos e travessas
toda Prado Júnior, toda Francisco Sá, Inhangá
naus desgovernadas, mas resistentes pelo Leme
eu som o bom dia caridoso de um velhinho forte
para delicado travesti na calçada do Cirandinha
eu vivo solto ao vento, feito velha bandeira branca
fincada no alto do morro de chapéu mangueira
eu sou a última leviana canção de Copacabana
e nem mesmo o maior poeta deu cabo de mim
quando eu passar, haverá outra, mais muitas
tenho o mar, areia, meu palácio é grande hotel
caso meu destino seja mesmo descansar em paz
resta-me uma tarde esperançosa no Marimbás
Em homenagem ao grande poeta e cronista brasileiro Rubem Braga, com "Ai de ti, Copacabana"
Paulo Roberto Andel, 25/01/2007
Wednesday, January 24, 2007
Sobre um tempo
Há momentos em que surpreendo-me com os homens de meu tempo
Aqueles que, por todos instantes, atravessam as grandes metrópoles
Usam passos apressados, ingenuamente tentando domar as horas
Acompanhados de relógios suíços, telemóveis e a mais alta precisão
Minha surpresa é vê-los submersos num mar de ilusão fugaz, doce
O tempo não pode ser controlado pelos ponteiros sutis ou digitais
O tempo não é subserviente aos fabulosos meios convencionais
O tempo, senhores, tem duas medidas: esperança e desespero.
Paulo Roberto Andel, 24/01/2007
Aqueles que, por todos instantes, atravessam as grandes metrópoles
Usam passos apressados, ingenuamente tentando domar as horas
Acompanhados de relógios suíços, telemóveis e a mais alta precisão
Minha surpresa é vê-los submersos num mar de ilusão fugaz, doce
O tempo não pode ser controlado pelos ponteiros sutis ou digitais
O tempo não é subserviente aos fabulosos meios convencionais
O tempo, senhores, tem duas medidas: esperança e desespero.
Paulo Roberto Andel, 24/01/2007
Tuesday, January 23, 2007
O licor da decadência
Ao longe, tinha inegável beleza em sua baixa estatura. Apenas.
Por vezes, chamou-me atenção em certos cantos d'alma.
Quando estava num grupo qualquer com outras mulheres, tinha adoração em exaltar suas façanhas questionáveis, em voz alta. Das presentes, a maioria ratificava a retórica, mesmo que cercada de ligeiro folclore barato. Tinha fascínio em parecer a mais instigante, bombshell, a mais sexy e sugestiva de seus pares - e, desconfio, nisso havia um tempero de equívoco. Houve quem acreditasse. Alguns, limitavam-se a fingir.
Vivia certa vocação para a embriaguez nos bares e convescotes, o que maculava os bons traços de seu rosto e apimentava-lhe com vulgaridade.
Gostava de parecer moderna, firme, decidida, arrojada, amante da inteligência madura. Tudo em vão.
Eu a acompanhava de longe, pelas tabelas, pelas conversas. Sempre soube mais dela do que o recíproco. Fui muito próximo, afastei-me de vez.
Houve uma festa de amigos comuns numa taberna. Ela veio. Adentrou o salão, sempre linda por fora, rasa.
Um meninote, que conhecia suas artes de alcova nem tão bem como eu, puxou conversa. Falava-me de como parecia infeliz em seu falso teatro. Calei.
Fitava suas sardas, sua bela boca de lábios banhados em escarlate, pouco aberta e pouco afeita a palavras sóbrias. O rapaz não parava, admirava-a e isso o impelia a mais comentários. Permaneci em silêncio, por vezes balançando a cabeça.
Era bonita, era fato.
O que a embebia no passado licor da decadência?
Alguma frustração doutros mares? Amargura? Insegurança? Narcisismo?
Lembrei do passado, das vozes populares, dos próprios depoimentos mentirosos que um dia me dera.
Os autos mostraram-me bem menos. Apenas leve decepção.
Quando foi tomada pela mão por um sujeito que sempre a malversou, finalmente entendi.
Era apenas uma idiota.
Simples. Objetiva.
Paulo Roberto Andel, 19/01/2007
Saudade
meu coração desliza feito barco a vela
na baía de um falso verão da Guanabara
numa quinta-feira de cortar-me ao meio
há um cinza no céu das dezessete horas
o Atlântico infinito tem muito vento e frio
eu não passo de vôo rasante, solitário
alheio a palavras ou abraços desconfortáveis
tenho ao longe uma gaviota vadia no mar
meu perto é nada além do réquiem, amor
Paulo Roberto Andel, 21/07/2007
na baía de um falso verão da Guanabara
numa quinta-feira de cortar-me ao meio
há um cinza no céu das dezessete horas
o Atlântico infinito tem muito vento e frio
eu não passo de vôo rasante, solitário
alheio a palavras ou abraços desconfortáveis
tenho ao longe uma gaviota vadia no mar
meu perto é nada além do réquiem, amor
Paulo Roberto Andel, 21/07/2007
Noturna inverdade
a lua minguante, dissonante
parece indecisa no canto de céu
a madrugada, precoce, mente
alheia aos meus sonhos em vão
não se trata de uma calada noite
e sim repleta de sons moderados
contudo, emoldurados por silêncios
feitos de espaços no bater das asas
ou num mergulho rasante n'água
ao longe, certa estrela brilha intensa
vejo meus pés no chão, tristeza, nu
mãos vazias, coração quente, vago
falta-me uma canção de acalanto
e breve amparo contra eterna dor
Paulo Roberto Andel, 21/01/2007
parece indecisa no canto de céu
a madrugada, precoce, mente
alheia aos meus sonhos em vão
não se trata de uma calada noite
e sim repleta de sons moderados
contudo, emoldurados por silêncios
feitos de espaços no bater das asas
ou num mergulho rasante n'água
ao longe, certa estrela brilha intensa
vejo meus pés no chão, tristeza, nu
mãos vazias, coração quente, vago
falta-me uma canção de acalanto
e breve amparo contra eterna dor
Paulo Roberto Andel, 21/01/2007
Tarde no parque
tenho em vista a alegria dum menino feliz a passar
pelas casinhas coloridas do Parque do Flamengo
num sábado quase nublado de meia estação leve
ele tem à mão direita um balão azul cheio de gás
noutra, cabe-lhe um simpático biscoito de polvilho
é um branquinho, e protege a cacholinha clara
com seu chapéu simpático, emblemado de peixe
ao longe, sua mãe o admira, é moça muito bonita
ela esconde-se em grandes óculos e um lenço verde
tem semblante moderno, tudo enquanto tanto sorri
faz gracejo da corrida estabanada do menino, solto
com seus pequenos passos da infinita infância
e eu, somente e miseravelmente eu
que vejo de nem tão longe, repenso, reflito
a cena simples mas eterna do amor de mãe e filho
é o que dizem do mais puro e brilhante diamente
amor
apenas amor
que por si somente é duradouro pelas eternidades
Paulo Roberto Andel, 19/01/2007
pelas casinhas coloridas do Parque do Flamengo
num sábado quase nublado de meia estação leve
ele tem à mão direita um balão azul cheio de gás
noutra, cabe-lhe um simpático biscoito de polvilho
é um branquinho, e protege a cacholinha clara
com seu chapéu simpático, emblemado de peixe
ao longe, sua mãe o admira, é moça muito bonita
ela esconde-se em grandes óculos e um lenço verde
tem semblante moderno, tudo enquanto tanto sorri
faz gracejo da corrida estabanada do menino, solto
com seus pequenos passos da infinita infância
e eu, somente e miseravelmente eu
que vejo de nem tão longe, repenso, reflito
a cena simples mas eterna do amor de mãe e filho
é o que dizem do mais puro e brilhante diamente
amor
apenas amor
que por si somente é duradouro pelas eternidades
Paulo Roberto Andel, 19/01/2007
Três futuros
quando éramos três
a nossa história era bem diferente
daquela imaginada por vocês
tínhamos fomes e dores
outros amores
e um futuro que poderia ser
o da nossa vez
assim não se fez
deixamos de ser três e suspiramos
por cada pequena chance de trazer
o sol para o nosso talvez
injustiça, essência da vida, perdida
nos sonhos de generosa moça
houve um silêncio profundo
retornamos à primeira vez
quando éramos três
não sei onde mora o viço do céu
nem desejo o meio dia de domingo
muito menos o programa de auditório
cabe-me silêncio, berço esplêndido
sonhos partidos, pútridos, sem vista da tez
Paulo Roberto Andel, 13/01/2007
a nossa história era bem diferente
daquela imaginada por vocês
tínhamos fomes e dores
outros amores
e um futuro que poderia ser
o da nossa vez
assim não se fez
deixamos de ser três e suspiramos
por cada pequena chance de trazer
o sol para o nosso talvez
injustiça, essência da vida, perdida
nos sonhos de generosa moça
houve um silêncio profundo
retornamos à primeira vez
quando éramos três
não sei onde mora o viço do céu
nem desejo o meio dia de domingo
muito menos o programa de auditório
cabe-me silêncio, berço esplêndido
sonhos partidos, pútridos, sem vista da tez
Paulo Roberto Andel, 13/01/2007
Mãe
Minha alegria morava no brilho dos teus olhos juvenis
Duas jaboticabas, pedaços de faceira bonequinha
Quando eles cerraram, foi minha vista que turvou
Perdido, tentei-me ancorar na ponta do teu delicado nariz
Mas ele não me respondia, desistira de todo aroma
E sequer incomodara-se com minha ponta de dedo frouxo
Mais perdido, baixei rumo aos teus lábios, harmoniosos
Que foram morada de tanto carinho e tantos sorrisos
Outros milênios de beijos que alojaram-se em minha face
E vi que não se mexiam, perdiam-se em meu desespero
Anunciando o breve retrato da mudez no fim, tempestade
Quando teu rosto adormeceu sereno, duas vezes morri
Uma, por ti
Outra, dentro de mim
Paulo Roberto Andel, 11/01/2007
Duas jaboticabas, pedaços de faceira bonequinha
Quando eles cerraram, foi minha vista que turvou
Perdido, tentei-me ancorar na ponta do teu delicado nariz
Mas ele não me respondia, desistira de todo aroma
E sequer incomodara-se com minha ponta de dedo frouxo
Mais perdido, baixei rumo aos teus lábios, harmoniosos
Que foram morada de tanto carinho e tantos sorrisos
Outros milênios de beijos que alojaram-se em minha face
E vi que não se mexiam, perdiam-se em meu desespero
Anunciando o breve retrato da mudez no fim, tempestade
Quando teu rosto adormeceu sereno, duas vezes morri
Uma, por ti
Outra, dentro de mim
Paulo Roberto Andel, 11/01/2007
Saturday, January 06, 2007
A última curva da ladeira
Estão vocês, donos da galeria, baluartes do salão, risonhos e vazios.
Com seus tragos de álcool, suas conversas opacas, tudo brilho insano de mente vulgar.
Vocês riem insolitamente, e nem percebem-me morto.
Muito ocupados com seus shopping centers, crises de autoridade e check-in de aeroporto.
Tensos com o carnaval, o trio elétrico e alheios aos famintos, aos desesperados nos hospitais, nas filas de desemprego.
Vocês usam Ray-Ban para esconder toda cegueira.
Não enxergam meio palmo diante do nariz, tampouco escutam muito bem.
Estão todos ocupados, há uma crise na bolsa de valores.
Lá fora, longe do salão e da insensatez que inebria a todos vocês, o mundo morre feito eu.
Eu estou morto, mas vocês não venceram nada.
Eu estou num solitário fundo de caixão no alto de uma colina.
Meu amor dorme.
Minha mãe dorme.
Gentes incendeiam vida à toa.
Queria ter meu sangue cuspido no rosto de todos vocês.
E terei.
(Homenagem à mais digna de todas as pessoas que conheci nessa terra, perto de algumas outras também, Maria de Lourdes Andel, amor e razão da minha vida que se encerrou.)
Paulo Roberto Andel, 06/01/2007
Com seus tragos de álcool, suas conversas opacas, tudo brilho insano de mente vulgar.
Vocês riem insolitamente, e nem percebem-me morto.
Muito ocupados com seus shopping centers, crises de autoridade e check-in de aeroporto.
Tensos com o carnaval, o trio elétrico e alheios aos famintos, aos desesperados nos hospitais, nas filas de desemprego.
Vocês usam Ray-Ban para esconder toda cegueira.
Não enxergam meio palmo diante do nariz, tampouco escutam muito bem.
Estão todos ocupados, há uma crise na bolsa de valores.
Lá fora, longe do salão e da insensatez que inebria a todos vocês, o mundo morre feito eu.
Eu estou morto, mas vocês não venceram nada.
Eu estou num solitário fundo de caixão no alto de uma colina.
Meu amor dorme.
Minha mãe dorme.
Gentes incendeiam vida à toa.
Queria ter meu sangue cuspido no rosto de todos vocês.
E terei.
(Homenagem à mais digna de todas as pessoas que conheci nessa terra, perto de algumas outras também, Maria de Lourdes Andel, amor e razão da minha vida que se encerrou.)
Paulo Roberto Andel, 06/01/2007
Friday, December 29, 2006
Um poeta recolhido
vejo um poeta na rua em silêncio
parece tão reflexivo, contido
sorve um chope com delicadeza
e senta o copo na mesa solitária
ouvi falar de seu talento, ocluso
hermético para grandes platéias
trata-se de um poeta cansado
pela denúncia das grandes olheiras
e também do cigarro mal tragado
parece fitar uma rua abandonada
tudo diferente da minha calçada
vejo o poeta, vejo-me calado afim
e o que sinto agora seria fadiga?
sede? sombra de dúvidas? distância?
descreio de tudo o que cogitei
agora entendi a distância do poeta
rascunhando num guardanapo
rabiscando um devaneio de amor
ainda não temos uma noite de carnaval
e raras são as festas da cidade
contudo, o poeta não pára
o que parece-me distância, na verdade
é sua quase única razão de viver
rabiscar, expulsar amor dum coração para um papel vulgar
Paulo Roberto Andel, 29/12/2006
parece tão reflexivo, contido
sorve um chope com delicadeza
e senta o copo na mesa solitária
ouvi falar de seu talento, ocluso
hermético para grandes platéias
trata-se de um poeta cansado
pela denúncia das grandes olheiras
e também do cigarro mal tragado
parece fitar uma rua abandonada
tudo diferente da minha calçada
vejo o poeta, vejo-me calado afim
e o que sinto agora seria fadiga?
sede? sombra de dúvidas? distância?
descreio de tudo o que cogitei
agora entendi a distância do poeta
rascunhando num guardanapo
rabiscando um devaneio de amor
ainda não temos uma noite de carnaval
e raras são as festas da cidade
contudo, o poeta não pára
o que parece-me distância, na verdade
é sua quase única razão de viver
rabiscar, expulsar amor dum coração para um papel vulgar
Paulo Roberto Andel, 29/12/2006
O aviário
Depois de tantos anos morando pelo centro da capital, ainda sinto-me um estrangeiro morador.
Estou mais do que acostumado ao frenesi das ruas na condição de trabalhador assalariado, muitos estão.
Habitar, contanto, é outra coisa. Sei das ruas e dos caminhos, mas não tenho os endereços em mente como os de minha tribo nativa, que sempre será Copacabana. Vez ou outra, palpito e dá certo. Um estabelecimento, contudo, sempre chama-me atenção: um aviário que fica na rua André Cavalcanti.
Nos meus tempos de criança, na velha Toneleros, havia uma casa de aves também. Impressionava-me: primeiro, não era tão comum para crianças da zona sul depararem-se com animais vivos que não cão, gato e pombo, variedade que só fui ter no zoológico e, tempos depois, quando tornei-me escoteiro. Contaram-me também que os pobres bichos ficavam ali à espera do sacrifício, entre as grades apertadas. Tive muito medo daquilo, e tal fato volta e meia traz-me a idéia de necessitar parar de comer cadáver.
Sei que são muito gostosos.
Gente muitíssimo mais importante do que eu, como Nelson Rodrigues, já sonhou com bifes em crônicas, de modo que em minha condição de reles mortal aceito-me. Às vezes. A pena, entretanto, existe em mim. Pobres bichos. Pobres.
O dono do aviário da André tem um perfil cansado, por vezes entediado. Sempre está sentado em uma cadeira, do lado de fora do balcão de atendimento, tragando um cigarro, à espera de ávidos consumidores que, em busca de carne fresca, disponham-se a mandar abater os coitados patos, galinhas, porcos e associados. Tem um ar triste nos bichos, assim como tinha na Toneleros. São irracionais, feito eu, consumidor; não sei como, sopra em suas estampas a síndrome da morte a seguir. Saddam deve estar sentindo isso, ou já sentiu, ninguém sabe ao certo.
Promessas de ano novo não são tão válidas, sabemos. Podem soar como início de regime alimentar às segundas-feiras. Eu queria diminuir a carne do cardápio, sei que é difícil. Adoraria extingui-la do meu cenário, sei que é impossível. Creio que me faria bem e sentimentos melhores viriam ao meu pensar, descontados todos arrependimentos que tenho pelos milhares de bois, frangos e peixes mortos em nome da minha fome e da minha saúde. Isento as estranhas criaturas que dizem ser a receita dos hamburgers Mac.
Estamos no fim de mais uma etapa, mais um ano, novas promessas à vistas, velhas perspectivas. O que virá mais à frente? A esquina, outra vez. O aviário. O dono.
Eu não tenho pai do céu para fazer promessas, promessas. Promessas. Resta-me apenas um incômodo neste momento de fim de tarde.
Parece que os bichos da minha infância no aviário da Toneleros reviveram nos da André. Trazem-me medo, apreensão.
Algo em meu subconsciente traz algum alerta para a demolição da Frei Caneca ontem. Grades, bichos enjaulados à espera da morte e algum sujeito sentado tragando um cigarro despreocupadamente. Alguma coisa tem a ver.
Pior ainda.
Pensar nas gentes enjauladas pelas janelas de vidro dum ônibus, ardendo vivas no inferno, morrendo para satisfazer a insanidade de bandidos cruéis, que trouxeram de volta os tempos da inquisição. E que uns insistem em defender que são meus semelhantes.
Eu sou um bicho menos insano. Arrependido, sirvo de amparo para que a carne não humana seja bom negócio no planeta. Longe de mim incendiar um galeto em vida.
Mais perto, do veículo, tem gente sentada tranquilamente e tragando demais, como se nada estivesse acontecendo.
Desisto do passeio e volto para casa. Amanhã, outro dia, é um novo ano. Novas grades.
Paulo Roberto Andel, 29/12/2006
Thursday, December 28, 2006
Onde mora liberdade?
Liberdade, santa insana liberdade
Utopia inalcançável, mais que desejada
Vejam o exemplo de nossa velha cidade
Cada um de nós busca o jeito de ser livre
Num dia de folga, tarde de mar ou no futebol
Desfraldando uma bandeira e gritando firme
Tudo feito de pequenas liberdades, efêmeras
Os humildes buscam liberdades nas palafitas
Nas casas de beira de estrada, alto da colina
Os trabalhadores caçam liberdades na mercearia
Com os minguados dinheiros, de farto suor
Os mendigos perseguem liberdade de sobreviver
Entre a mão estendida e a cachaça de anestesia
Mesmo o abonado, o bem-nascido, abastado
Não conhece bem a ciência de ser tão livre
Uns fogem de impostos, outros da miséria ao léu
Que lhes incomoda olfatos e visões
Outros, blindados, correm das balas perdidas
Das patrulhas noturnas, ensandecidas
E também do fogo infernal das ruas
Nem mesmo um falecido é totalmente livre
Com exceção do ateu que acerte a tese
Senão, é capaz de ainda precisar de senha
Para ser atendido nas portas dos céus
Paulo Roberto Andel, 28/12/2006
Utopia inalcançável, mais que desejada
Vejam o exemplo de nossa velha cidade
Cada um de nós busca o jeito de ser livre
Num dia de folga, tarde de mar ou no futebol
Desfraldando uma bandeira e gritando firme
Tudo feito de pequenas liberdades, efêmeras
Os humildes buscam liberdades nas palafitas
Nas casas de beira de estrada, alto da colina
Os trabalhadores caçam liberdades na mercearia
Com os minguados dinheiros, de farto suor
Os mendigos perseguem liberdade de sobreviver
Entre a mão estendida e a cachaça de anestesia
Mesmo o abonado, o bem-nascido, abastado
Não conhece bem a ciência de ser tão livre
Uns fogem de impostos, outros da miséria ao léu
Que lhes incomoda olfatos e visões
Outros, blindados, correm das balas perdidas
Das patrulhas noturnas, ensandecidas
E também do fogo infernal das ruas
Nem mesmo um falecido é totalmente livre
Com exceção do ateu que acerte a tese
Senão, é capaz de ainda precisar de senha
Para ser atendido nas portas dos céus
Paulo Roberto Andel, 28/12/2006
Sunday, December 24, 2006
Caso encerrado
Flanava na tarde vadia às vésperas do Natal.
Contrariando planos feitos instantes antes, desistiu de um rumo e seguiu para outro. Adentrou uma taberna. Lá entrando, deparou-se com um silêncio típico de contradição com o local. Permaneceu assim. Pouca gente, poucas canecas tilintando, certo ar de monotonia e leveza.
Pediu um trago.
Parou, pensou, refletiu sobre a vida. Tudo em dedicado silêncio, sem vizinhos, ocupantes de mesa ou outros interlocutores.
Houve um rompante, interrompeu-se aquele mesmo silêncio por causa de um tapa nas costas.
Era um conhecido, um ex-amigo, embora não qualquer.
No passado, eram muito ligados, pertenciam a uma mesma turma, cortaram dias e noites pela Guanabara, parecia até amizade de verdade que, no entanto, esvaiu-se à frente. A turma quase toda ainda se mantém, tirando o sujeito do tapa: afastou-se de todos, por umas razões um tanto quanto esquisitas, deixou murchar carinhos. Posta a estranheza de lado, após o cumprimento, falou feito cântaros de chuva. Nada que fosse empolgante como as histórias de alegria e humor do passado; os tempos às vezes tiram o sabor das coisas, ou azedam-nas.
Contou de seu sucesso profissional, de suas conquistas financeiras, de sua afirmação intelectual, de seus novos rumos, desinteressado que estava dos vínculos da antiga, considerando-os todos desimportantes. Mostrava uma incessante obsessão em parecer bem, em ter encontrado o sucesso, talvez comprado num desses livros de receitas que pairam pelas bancas de jornais. Gastou um tempo considerável falando sozinho, quase como se fosse um político em campanha; mais ainda, parecia até uma versão caricata dos estadistas, normalmente nesta posição por meios não democráticos, que ficam dispostos a cultivar a própria imagem. Tudo em vão, tudo frívolo e fugaz. Uma conversa desinteressante pelo passado de amigos, pelo presente de bons conhecidos. Era quase um Narciso envolto num espelho de trezentos e sessenta graus. Em troca, sutilmente, recebia o olhar que se fazia de atento mas que continha um dos piores sentimentos que um ser humano pode nutrir por outro. Nojo. Indignidade para com o passado fraterno.
Houve uma hora em que o discurso mostrou-se fatigado. Um pequeno momento de bom-senso do palestrante, aproveitou-se para despedir-se amigavelmente, mas sem grande calor: talvez tivesse percebido que sua prosa rançosa só não tinha sido rechaçada por boa educação da parte ouvinte. Não deixou telefone, contato, absolutamente nada, menos ainda recebeu solicitação para tal. E foi melhor assim.
Quem muito ouviu, deixou a taberna logo a seguir. Resolveu novamente mudar rumos. Buscou ar livre, ruas arborizadas, gentes caminhando por entre as réstias de sol a bater nas calçadas. Quando chegou perto do mar, reavivou o discurso pedante da taberna. Pareceu-lhe feito o desapontamento que, por vezes, cada um de nós tem quando reencontra a pessoa amada do passado, ouve-a e depois toma-se pela imaginação de como poderia, um dia ter desejado alguém daquele jeito. No caso real, tratava-se de bem maior, pior ainda: amizade é para superar todas as mazelas, todas as barreiras, é para ser indestrutível - ou, ao menos, deveria ser caso fosse embebida pela essência da sinceridade. Triste a sina de deparar-se com a piora de quem já recebeu de nossa parte os maiores votos de boa companhia.
Sobre o assunto, seu último pensar foi o de que quando certas coisas ficam distantes, em alguns casos, é melhor deixá-las intocáveis, para não saborear o amargo da decepção e nem malversar as lembranças de um passado, mesmo que não seja lá tão distante assim.
Mirou em frente, havia a enseada de Botafogo. Não sorriu. Admirou.
Seguiu em frente, como toda vida. Sem espaço para petulância.
Paulo Roberto Andel, 24/12/2006
Memória
Certa brisa tenra acaricia meu rosto nos arredores da pedra do Leme
Minha vista namora um horizonte, encontro de dois azuis cativantes
Ao fundo, eu procuro o que vem por depois, o paradigma, infinito
Não é fácil enxergá-lo, saber ao certo o que de lá se pode esperar
Enquanto o futuro não vem, um garotinho senta-se à minha vizinhança
Trazendo biscoito de polvilho numa das mãos, mate gelado noutra
Branquinho, de sorriso inconteste, tem no chapéu que usa um peixe
Não sei bem qual a razão, imagino-o que seja como fui por um dia
Um rompante, um triz, um pequeno caco do que parece ser vida
Talvez uma história sem fim de muito, mas muito tempo que se foi.
Paulo Roberto Andel, 24/12/2006
Minha vista namora um horizonte, encontro de dois azuis cativantes
Ao fundo, eu procuro o que vem por depois, o paradigma, infinito
Não é fácil enxergá-lo, saber ao certo o que de lá se pode esperar
Enquanto o futuro não vem, um garotinho senta-se à minha vizinhança
Trazendo biscoito de polvilho numa das mãos, mate gelado noutra
Branquinho, de sorriso inconteste, tem no chapéu que usa um peixe
Não sei bem qual a razão, imagino-o que seja como fui por um dia
Um rompante, um triz, um pequeno caco do que parece ser vida
Talvez uma história sem fim de muito, mas muito tempo que se foi.
Paulo Roberto Andel, 24/12/2006
Friday, December 22, 2006
Alessandra
Eu sou pobre, louco, para descrever o encanto
Que teu alvo sorriso fez viver meu coração
Ainda me lembro da tua voz em frases eternas
Incapazes de enjoar ou cansar, cativantes
Jamais igualadas por outras autoras, muitas
Eu não tenho vocabulário que possa descrever
A alegria que um dia brotastes em mim
Por isso, ofereço-te meu canto, minha fala
Meu pensamento solitário que te busca nas regiões
E faz de ti a minha melhor companhia escondida
Pois moras onde ninguém vê com clareza
E ninguém escuta as melhores palavras que te dou
Paulo Roberto Andel, 20/12/2006
Que teu alvo sorriso fez viver meu coração
Ainda me lembro da tua voz em frases eternas
Incapazes de enjoar ou cansar, cativantes
Jamais igualadas por outras autoras, muitas
Eu não tenho vocabulário que possa descrever
A alegria que um dia brotastes em mim
Por isso, ofereço-te meu canto, minha fala
Meu pensamento solitário que te busca nas regiões
E faz de ti a minha melhor companhia escondida
Pois moras onde ninguém vê com clareza
E ninguém escuta as melhores palavras que te dou
Paulo Roberto Andel, 20/12/2006
Retrato do artista quando morto-vivo
Olhei para um pequeno espelho de casa
Parecia-me um homem velho, fatigado à vista
Com vincos profundos de tempo no rosto
E mãos de veias sobressaltadas, púrpuras
Na esguelha, um terno pendurado na cadeira
Uma fagulha de janela, noite ilustrada
O homem fitava a si mesmo, lentamente
Como que sorvesse cada segundo da vida
E podia até parecer canção da despedida
Com a firmeza dos inabaláveis olhos pretos
Talvez tentasse atravessar o brilho do vidro
Para recuperar sua mocidade, sua infância
Dos tempos da praça do Lido, liberta
Ou, mais ainda, do jogo de bola na vila
Houve um rompante inimaginável, subitamente
E toda verdade de dor e morte teve fim
Olhei novamente e não havia um ancião
Nem mãos machucadas, nem rugas delatoras
Era uma singela alucinação da melancolia
Ao contrário da minha vã certeza
O espelho era todo reflexo de mentira
Doce mentira que livrou-me do mal
Ainda assim eu não digo amém
Pois morto, vivi dois mil anos a mais
Sem morte, sem dores ou maiores dramas
Sem buscar a tristeza da face num retrato qualquer
Paulo Roberto Andel, 22/12/2006
Parecia-me um homem velho, fatigado à vista
Com vincos profundos de tempo no rosto
E mãos de veias sobressaltadas, púrpuras
Na esguelha, um terno pendurado na cadeira
Uma fagulha de janela, noite ilustrada
O homem fitava a si mesmo, lentamente
Como que sorvesse cada segundo da vida
E podia até parecer canção da despedida
Com a firmeza dos inabaláveis olhos pretos
Talvez tentasse atravessar o brilho do vidro
Para recuperar sua mocidade, sua infância
Dos tempos da praça do Lido, liberta
Ou, mais ainda, do jogo de bola na vila
Houve um rompante inimaginável, subitamente
E toda verdade de dor e morte teve fim
Olhei novamente e não havia um ancião
Nem mãos machucadas, nem rugas delatoras
Era uma singela alucinação da melancolia
Ao contrário da minha vã certeza
O espelho era todo reflexo de mentira
Doce mentira que livrou-me do mal
Ainda assim eu não digo amém
Pois morto, vivi dois mil anos a mais
Sem morte, sem dores ou maiores dramas
Sem buscar a tristeza da face num retrato qualquer
Paulo Roberto Andel, 22/12/2006
Natale
Quando chega o fim dos dias de um ano, tudo pela contagem que um dia estabelecemos, nas grandes metrópoles tudo fica diferente.
As pessoas muito preocupadas com o Natal, a festa do Ano Novo, a roupa branca, os presentes da moda.
Tive um Natal muito triste em minha vida quando era criança. O seguinte foi bom, um dos únicos. Ganhei Polly, brinquedo de armar. Notícias davam conta da morte de Charles Chaplin. Todo mundo dizia que tratava-se de um gênio; eu não tinha dez anos e, graças ao bom tempo, consegui ratificar a voz popular. Chaplin morreu velhinho, viveu bem, fez muita coisa boa, muita gente sorrir, uns poucos ficaram vermelhos de raiva. Dia desses foi o Barbera. Eu não acredito em céu, mas em caso de meu erro, muito o merece: só pensar no Barney, Zé Colméia, Scoody e tantos outros para saber o quanto esse sujeito fez de criança feliz no mundo.
Natal, a princípio festa cristã, abraçada por todas as causas, mas parcialmente. Falam de solidariedade, de cumplicidade, de amor ao próximo, mas eu só vejo isso por uns cinco minutos. Passa o ano, os mendigos continuam dormindo entre os ratos, as crianças chorando pela miséria e a injustiça por todo canto. Há uns quinze anos atrás, fingiram acabar com o comunismo e estabeleceram uma nova ordem capitalista - vejam o que está pelas ruas do planeta.
Falta solidariedade. Amor ao próximo. Respeito. Isso independe de religião, menos ainda dos presentes comprados após estafantes filas nos centros comerciais. Não importa a roupa branca.
A vida é todo dia, até que se esgote, encerre.
Pessoas têm fome todos os dias. Precisam de casa, comida e saúde todos os dias, um teto também.
O que fazemos em relação a isso? Damos nosso real de esmola, que é importante mas pouco? Atravessamos a rua para não encarar o produto de nossa ganância consumista? Levantamos a cabeça para não enxergarmos as "criaturas repugnantes", quando repugnante mesmo é a nossa indiferença.
A cada dia que passa no mundo, um quarto de toda a comida produzida no planeta é inutilizada, não doada, jogada no lixo absoluto. Enquanto isso, África e América Latina carregam duros fardos da pobreza.
Consertar todo o mundo pode ser uma utopia flagrante, e é. Mas parte dele não é sonho, devaneio, trata-se de apenas resgatar os valores de todos os credos religiosos, mesmo da boa vontade de ateus e agnósticos. Repartir. Ajudar.
O patrão trata o empregado com salário mínimo e ameaça de emprego, pois "tem gente para aquele lugar".
O sujeito paga impostos e acha que o poder público é também seu empregado, basta pagar e exigir serviço, sem participar de nada.
O funcionário público quer trabalhar pouco.
O estudante acha que "colar" é melhor do que aprender e vai arrastando-se.
Esses, e todo mundo junto, vêem o pedinte esmolar na rua e balançam a cabeça, como que dizendo ser uma mazela impossível de se corrigir. Nada disso. Falta vontade. Vontade mesmo.
O mundo que defende Bush, o Clube de Paris e os juros brasileiros não pode mesmo ser digno de boas festas.
Em janeiro, começa tudo de novo. Porque, na verdade, nunca terminou.
Paulo Roberto Andel, 22/12/2006
A última canção
Não te espantes com o fim das luzes, dos dias
Somos todos repletos de silêncio nos espaços
Até o dia em que este mesmo calado é maior
E sobrepuja todo e qualquer milhar de palavras
Exatamente feito agora
É o silêncio que te serve de voz ao pé do ouvido
Adornado pelo brinco de argola olímpica, prata
É o silêncio que será teu mar de mim
Lembre-se por sempres daquela velha canção
Pois será minha última tua, nunca mais outra vez
Não atravessei doze mares dos Açores à toa
Menos ainda abandonei os poemas do Atlântico
Por conta de qualquer disparate barato
Fiz por convicção dedicada e duradoura, sofrida
Não chegastes aos pés de Copacabana ou Tatiana
Não fostes dourada feito os cachos de Luciene
Todas passaram, deixaram terra pelo mar bravio
Mas guardaram em mim sementes de doçura
Que trazem frutos e flores, de carinho e lembrança
Enquanto tu fizestes questão de rasgar teus versos
A ti, só cabe o silêncio dos memoriais e féretros
O silêncio de última estrofe da tua derradeira canção
Paulo Roberto Andel, 21 de dezembro de 2006
Somos todos repletos de silêncio nos espaços
Até o dia em que este mesmo calado é maior
E sobrepuja todo e qualquer milhar de palavras
Exatamente feito agora
É o silêncio que te serve de voz ao pé do ouvido
Adornado pelo brinco de argola olímpica, prata
É o silêncio que será teu mar de mim
Lembre-se por sempres daquela velha canção
Pois será minha última tua, nunca mais outra vez
Não atravessei doze mares dos Açores à toa
Menos ainda abandonei os poemas do Atlântico
Por conta de qualquer disparate barato
Fiz por convicção dedicada e duradoura, sofrida
Não chegastes aos pés de Copacabana ou Tatiana
Não fostes dourada feito os cachos de Luciene
Todas passaram, deixaram terra pelo mar bravio
Mas guardaram em mim sementes de doçura
Que trazem frutos e flores, de carinho e lembrança
Enquanto tu fizestes questão de rasgar teus versos
A ti, só cabe o silêncio dos memoriais e féretros
O silêncio de última estrofe da tua derradeira canção
Paulo Roberto Andel, 21 de dezembro de 2006
Wednesday, December 13, 2006
Coisas e pessoas
As coisas passam, quase tudo passa
Feito a folha que desaba no outono
E dissolve-se, falece, vira combustível doutras folhas
Muitas coisas passam
Como o nublado da tarde vadia na ponta do Leme
Vem chuva, vai-se, um novo sol toma assento na poltrona do céu
As coisas passam como as dores de amores, os choros
A derrota do amado time, a segunda época da turma
As coisas transigem por mais que nós, soberbos homens,
Insistamos na surda guerra da intransigência
As coisas passam em todos os lugares
Todos os casos e modas, todas as prosas
Exceto num único e modesto lugar, casa forte
Que trazemos todo instante a tiracolo, involuntário
Delicadamente batizado de lembrança
Nela, coisas passam; pessoas não.
Paulo Roberto Andel, 14/12/2006
Feito a folha que desaba no outono
E dissolve-se, falece, vira combustível doutras folhas
Muitas coisas passam
Como o nublado da tarde vadia na ponta do Leme
Vem chuva, vai-se, um novo sol toma assento na poltrona do céu
As coisas passam como as dores de amores, os choros
A derrota do amado time, a segunda época da turma
As coisas transigem por mais que nós, soberbos homens,
Insistamos na surda guerra da intransigência
As coisas passam em todos os lugares
Todos os casos e modas, todas as prosas
Exceto num único e modesto lugar, casa forte
Que trazemos todo instante a tiracolo, involuntário
Delicadamente batizado de lembrança
Nela, coisas passam; pessoas não.
Paulo Roberto Andel, 14/12/2006
Tuesday, December 05, 2006
Buena ación
Ontem, voltando na madrugada pelo Botafogo, recordei momentos de muito significado da minha juventude. Tem mais de vinte anos. Tempos de calouro.
Eu era estudante da faculdade de estatística de Niterói. Não eram tempos bons. Meu pai, num dos seus últimos suspiros profissionais, buscou emprego em São Paulo, de modo que vinha raramente ao Rio, e isso era bom mas também muito mau. Estava atormentado com o inferno que era saber ou não estar livre do quartel. Pouco dinheiro, muitos problemas, não me adaptava bem ao ensino superior: muita gente mais velha do que eu, sofria muitos preconceitos, sem contar que uma preferida dos marmanjões resolveu cobiçar-me. Rotina era diária: acordar, estudar, procurar um emprego que jamais viria enquanto não tivesse o maldito certificado de dispensa de incorporação, nome que, por si somente, já define a aporrinhola que o cerca. Tarde era preparar um lanche, guardá-lo na mochila e seguir para as barcas: um ônibus qualquer para a praça XV, depois atravessar a baía e saltar em frente à avenida Amaral Peixoto, para depois descê-la até o final. Era tudo muito escuro ao fim da trilha.
Uma lembrança foi do Andorinha. Era um prédio veterano da Almirante Barroso. Servia para o funcionalismo público; pegou fogo numa tarde. Um engarrafamento danado, saltei do coletivo na entrada da rua México, percebendo que havia uma grande confusão. Quando cheguei à esquina do prédio, mal deu tempo de evitar: alguém suicidou, pulando por uma das janelas. Aterrorizado, desisti da aula e voltei para Copacabana. Foi o noticiário do dia em todos telejornais. Focaram numa janela esfumaçada, era possível ver o braço de alguém, pedindo socorro com muita fraqueza, já debilitado; de reprente, o braço abaixou e desapareceu da vista. Era a morte. Para as pessoas que têm uma gota de amor no coração, é muito difícil de ver aquelas cenas sem alimentar tristeza e dor. Houve um herói: chava-se Eugênio, não esqueço. Tirou seis ou sete pessoas das chamas, voltou para buscar mais uma, não conseguiu e entregou a vida. Salvo familiares, ninguém lembra mais. Somos assim, lamentavelmente. O para sempre é por duas semanas, três talvez. Nem para todos, ainda bem.
Durante meses, tive a imagem da morte em meu caminho, até porque de segunda a sexta era preciso passar nas imediações dos escombros do prédio, donde vinham pensamentos ininterruptos sobre a tragédia. Meses. Piorava quando tinha de voltar de Niterói na barca: um silêncio, um negrume, uma solidão e saber que a antiga vista do Andorinha ficava na mira de chegada. Felizmente, não era comum - retorno padrão era tomar o 996, com modelo de Mercedes-Benz dos anos sessenta, primeiramente pintado todo de azul, depois branco com um friso vermelho e outro celeste. O letreiro era GÁVEA, assim mesmo, letras garrafais. Bonito e veloz descer a Ponte com firmeza, depois vinha um caminho que eu tinha pouca afeição, a deserta zona portuária, depois Santo Cristo, mas o ônibus raramente parava ali - geralmente, só descia público já em Laranjeiras. Eu tinha três caminhos: saltava frente as Sears, tomando alguma condução que fosse para Copacabana via rua da Passagem; ao perceber que, na cola do 996, vinha algum 434 ou 35, descia toda a São Clemente e tentava a baldeação imediata no primeiro ponto possível; por último, não havendo caixa disponível, descer Real Grandeza toda, passar pelo cemitério (grrrrr!), atravessar o túnel e encontrar Siqueira Campos, alguns amigos no bar Sniff que está por lá até hoje.
Houve uma noite. Uma senhora bem velhinha com uma trouxona de roupa pediu minha ajuda, no mesmo velho ponto da Sears. Não era mendiga, nem pedinte. Velhinha, velhinha, de pele maltratada, negra, balbuciava. Estava à procura de seu neto, que trabalhava em algum órgão público do bairro...mau sinal. Como ajudar naquela hora da noite? Deveria tudo estar fechado. Eu só tinha o dinheiro da passagem de ônibus, mais nada. Pedi-lhe pequeno tempo, bolei um plano do Cebolinha: chamar um motorista de táxi para colaborar. Fiz sinal, parou um rapaz, expliquei a situação de que uma carona era urgente, para local incerto. Não é que o moço topou?
Colocamos a grande trouxa de roupas no porta-malas, descemos São Clemente. Ela balbuciava com dificuldade, de modo que não conseguíamos ao certo entender o que dizia. Parecia vir de longe, e muito estranhei que estivesse sozinha. Longe e sem dinheiro. Desamparo.
Um estalo do motorista fez pensar que o local procurado fosse o arquivo que funcionava na praia de Botafogo, o que exigia retorno. Comentamos, ela sorriu, inconclusa. Fizemos a tentativa.
Na mosca.
Quando nos identificamos com o vigia de plantão, ela conseguiu falar "Naldo". O funcionário chamou o colega de turno, o próprio. Entregamos a ele a trouxa, ela entrou a passos curtos, curtíssimos, lentos, enquanto o moço vinha na contramão distante. Ainda consegui ver pela fresta da porta não fechada o abraço de avó e neto, muito bonito. Eu não tive avô nem avó para me abraçar, só a Tia Maria de São Paulo, umas duas vezes.
Não falei com Naldo, nem o motorista. Ele entrou no carro e ofereceu-me carona, mas fiquei encabulado por já ter abusado de sua ajuda e, inclusive, ter desviado seu serviço. Agradeci em muito, falei-lhe até de um Deus no qual eu, ingênuo, acreditava à época. Não lembro de seu nome. Foi embora, parecia com semblante de dever cumprido.
A velhinha entregue sã e salva, o motorista seguiu seu rumo. Restava eu, como sempre sozinho no fim da missão.
Pensei num lanche, mas só tinha o dinheiro da passagem. Tinha que optar. Passei na padaria, ainda aberta depois das onze da noite, comprei um picolé de limão. Naquele dia, decidi ir a pé até em casa, saboreando a compra gelada, o ocorrido e talvez o fato de que havia libertado-me, naquela noite, das imagens do prédio em chamas, ao menos fixamente falando. Ajudei alguém a ser feliz por um instante, e isso me fez apagar o incêndio da memória, baixou intensidade.
São Clemente, Real Grandeza e Siqueira Campos. Em tempos que nada dava certo para mim, aquela foi uma noite feliz, de alívio. Nem parei no bar: corri para casa contar à mãe, senti-me orgulhoso de ajudar alguém e de ter dado certo, mesmo que minha participação fosse mínima.
Muitos anos depois, muitas outras razões depois, vi-me tomado em caminhar atravessando Botafogo a pé de novo. As vacas estão magras, mas dinheiro para o táxi há. Tudo parecia ter voltado ontem: um momento em que nada dá certo, que tudo parece perdido mas que, por um instante, um ponto, as coisas parecem oferecer uma réstia de felicidade.
Desci Humaitá até a praia, até o velho depósito que lá está. No caminho, eu pensava nas coisas: não há mais velhinha, nem o motorista amigo, nem Naldo nem o trauma de pensar permanentemente nos mortos do Andorinha. Todos mortos, tudo muito morto. Menos dentro de mim, de minha memória juvenil.
Frente ao depósito, ri. Tal como ontem, efemeramente, lembrei de um instante em que me senti muito feliz, enquanto a lua trazia um sorriso indestrutível antigo, muito antigo. Sorri. Um pouco mais, até.
Atravessei pista, tomei táxi, voltei para casa.
Certas coisas nunca mudam.
Outras, para sempre. Sempre. Advérbio de tempo, sempre, feito ensinamento de Tia Acy.
Paulo Roberto Andel, 05/12/2006
Serenata de amor
noite de azul profundo, madrugada minha
flanando aos poucos numa alameda solitária
com garbo de valente voluntário da pátria
soldadinho de chumbo da minha infância
parei a passada, dediquei olhar ao vasto céu
e namorei a lua, tão solitária lua
formosa e cheia, voluptuosa
fazia da névoa seu baby doll rosado
era fugitiva, sem um motivo certo
solitária, sem estrelas a cortejá-la
trouxe-me um inexplicável sorriso
cativante, indestrutível
que há muito eu não via, desde o longe
mas que sempre morou dentro de mim
Paulo Roberto Andel, 05/12/2006
flanando aos poucos numa alameda solitária
com garbo de valente voluntário da pátria
soldadinho de chumbo da minha infância
parei a passada, dediquei olhar ao vasto céu
e namorei a lua, tão solitária lua
formosa e cheia, voluptuosa
fazia da névoa seu baby doll rosado
era fugitiva, sem um motivo certo
solitária, sem estrelas a cortejá-la
trouxe-me um inexplicável sorriso
cativante, indestrutível
que há muito eu não via, desde o longe
mas que sempre morou dentro de mim
Paulo Roberto Andel, 05/12/2006
Monday, December 04, 2006
Copacabana, rosa
Ponho meus pés na beira do mar de Copacabana
Bem em frente a uma certa rua onde muito morei
Faço-me me rosa dos ventos, lembrando infância
Dos tempos idos de corrida de chapinhas n'areia
Ao sul, duas avenidas monumentais, abarrotadas
Com seus carros e gentes, veias abertas e morte
Oeste, meu Leme de Vera, Simone, tarde lunar
Silêncio e solidão, picolé na mão, volta para casa
O leste traz-me beleza, Tatiana, jogo de peteca
Madrugadas negras no perdido sentido no Forte
E meu norte, onde mora meu norte, minha direção?
Mistura-se fundo a nordeste e noroeste, celeste
Minha vista juvenil enxerga n'orizonte o fim da linha
Ao longe, quando céu e mar passam a ser um só?
Onde é que a terra termina? A vida termina? Será?
Quem é que mora agora depois do pôr do sol?
Paulo Roberto Andel, 04/12/2006
Bem em frente a uma certa rua onde muito morei
Faço-me me rosa dos ventos, lembrando infância
Dos tempos idos de corrida de chapinhas n'areia
Ao sul, duas avenidas monumentais, abarrotadas
Com seus carros e gentes, veias abertas e morte
Oeste, meu Leme de Vera, Simone, tarde lunar
Silêncio e solidão, picolé na mão, volta para casa
O leste traz-me beleza, Tatiana, jogo de peteca
Madrugadas negras no perdido sentido no Forte
E meu norte, onde mora meu norte, minha direção?
Mistura-se fundo a nordeste e noroeste, celeste
Minha vista juvenil enxerga n'orizonte o fim da linha
Ao longe, quando céu e mar passam a ser um só?
Onde é que a terra termina? A vida termina? Será?
Quem é que mora agora depois do pôr do sol?
Paulo Roberto Andel, 04/12/2006
Sobre renúncias
raro é o que sugere-me mais beleza do que a renúncia
a capacidade de abrir mão, entender todas diferenças
reparar o mais belo pássaro mortalmente engaiolado
é saber que seu lugar está nos verdes, nos céus, longe
justo é deixá-lo partir, viver, cantar em dias incertos
beber água doce duma janelinha generosa qualquer
tenho vivido muitos anos praticando muita renúncia
abrindo portinholas aos pássaros que me cercavam
felicidade não é bem o termo adequado a tais casos
certo é chamá-los de alívios, calmas, ou quase paz.
Paulo Roberto Andel, 04/12/2006
a capacidade de abrir mão, entender todas diferenças
reparar o mais belo pássaro mortalmente engaiolado
é saber que seu lugar está nos verdes, nos céus, longe
justo é deixá-lo partir, viver, cantar em dias incertos
beber água doce duma janelinha generosa qualquer
tenho vivido muitos anos praticando muita renúncia
abrindo portinholas aos pássaros que me cercavam
felicidade não é bem o termo adequado a tais casos
certo é chamá-los de alívios, calmas, ou quase paz.
Paulo Roberto Andel, 04/12/2006
Friday, December 01, 2006
Auto-flagelo
eu, terrorista de mim mesmo, delinquente
sou refugiado em meu leito solitário, pacato
e tenho uma bomba-relógio ardente no peito
com data de validade para explodir ou falhar
minha cabeça de negro é bomba atômica
panamericana, arrasadora, amor devastação
nela, implodo os mais irremediáveis sonhos
embebidos em certos amores menos sinceros
dela, extraio combustível para ser bom enganador
dos todos que apostam fé na minha capacidade
louros da inteligência que nada muda no mundo
que não faz tostões, nem oferece preces, amém
tampouco é capaz de odiar alguém, no entanto
sou eu, meu próprio sequestrador, impune jovem
no cativeiro turvo que abençoa minh'alma nata
sem planos de resgate, abraços de finais felizes
tão pobre de mim, de ti, de quem à vera viver
Paulo Roberto Andel, 01/12/2006
sou refugiado em meu leito solitário, pacato
e tenho uma bomba-relógio ardente no peito
com data de validade para explodir ou falhar
minha cabeça de negro é bomba atômica
panamericana, arrasadora, amor devastação
nela, implodo os mais irremediáveis sonhos
embebidos em certos amores menos sinceros
dela, extraio combustível para ser bom enganador
dos todos que apostam fé na minha capacidade
louros da inteligência que nada muda no mundo
que não faz tostões, nem oferece preces, amém
tampouco é capaz de odiar alguém, no entanto
sou eu, meu próprio sequestrador, impune jovem
no cativeiro turvo que abençoa minh'alma nata
sem planos de resgate, abraços de finais felizes
tão pobre de mim, de ti, de quem à vera viver
Paulo Roberto Andel, 01/12/2006
Tuesday, November 28, 2006
Oferenda
Para ti, tão somente em ti
Que busca em minhas palavras
O significado do amor
Te ofereço mais do que um punhado
A paixão de um cinza Guanabara
Num retrato em branco e preto
Sem hora de término ou chegada
Luzente estrela da madrugada
Desimporta o valor que não te deram
Pois sei que não tens preço
Adiante, me despeço num quando
Breve pausa, então retorno pelo hoje
Por tua boca, teus cabelos, teus anseios
Teu corpo delgado que faz vista de cobiça
Dos que te apenas desejam na pele
Mas não passam de amadores do tom
Feito sambas malfeitos de mau compasso
E são incapazes de namorar teu coração
Feito eu, somente eu, teu, semente em mim
Paulo Roberto Andel, 28/11/2006
Que busca em minhas palavras
O significado do amor
Te ofereço mais do que um punhado
A paixão de um cinza Guanabara
Num retrato em branco e preto
Sem hora de término ou chegada
Luzente estrela da madrugada
Desimporta o valor que não te deram
Pois sei que não tens preço
Adiante, me despeço num quando
Breve pausa, então retorno pelo hoje
Por tua boca, teus cabelos, teus anseios
Teu corpo delgado que faz vista de cobiça
Dos que te apenas desejam na pele
Mas não passam de amadores do tom
Feito sambas malfeitos de mau compasso
E são incapazes de namorar teu coração
Feito eu, somente eu, teu, semente em mim
Paulo Roberto Andel, 28/11/2006
Monday, November 27, 2006
Fim de noite no arraial
Quando eu estiver adormecido lá no arraial
Não me chamem, tampouco provoquem
Sorverei a noite eterna em nascedouro firme
Descendo cursos longos do rio a desaguar
Descobrirei todas trilhas da praia pequena
Até encontrar a moça da voz suave, cristã
Em sonho, trazê-la de barco para os anjos
Dar-lhe mão direita, percorrer ruas de pedra
Encostar-lhe no muro de certa casa vazia
E beijar-lhe como nunca, até o nunca mais
Afagar os longos cabelos de ouro negro
Abraçar o corpo de lisa pele, provocante
Ouvir respiração, pulsação, batimentos
Integrar-me nela tão feito um ser somente
Onde mora minha noite de lua na tal praia?
Mulher amada, distante, realidade em sonho
Paulo Roberto Andel, 27/11/2006
Não me chamem, tampouco provoquem
Sorverei a noite eterna em nascedouro firme
Descendo cursos longos do rio a desaguar
Descobrirei todas trilhas da praia pequena
Até encontrar a moça da voz suave, cristã
Em sonho, trazê-la de barco para os anjos
Dar-lhe mão direita, percorrer ruas de pedra
Encostar-lhe no muro de certa casa vazia
E beijar-lhe como nunca, até o nunca mais
Afagar os longos cabelos de ouro negro
Abraçar o corpo de lisa pele, provocante
Ouvir respiração, pulsação, batimentos
Integrar-me nela tão feito um ser somente
Onde mora minha noite de lua na tal praia?
Mulher amada, distante, realidade em sonho
Paulo Roberto Andel, 27/11/2006
Friday, November 24, 2006
Um abraço de mulher
Ontem, houve uma mesa de bar.
Éramos eu e dois amigos, poetas. O estabelecimento era o do recente sempre, ou seja, que temos frequentado nas últimas noites desta primavera sem flores. Dentre algumas coincidências que temos em nossas trajetórias, uma delas foi a de, em épocas diferentes, termos sido escoteiros, o que acabou sendo tema dominante durante a estadia na taberna. Conversa boa, rigorosamente simples, sem iguarias sofisticadas que a casa não pode oferecer. Apenas a cerveja gelada e a prosa.
Entre as recordações do escotismo, perto de um ou outro comentário cotidiano, eis que um artista subitamente surgiu e ofereceu-nos uma caricatura do trio. Aceitamos, pagamos menos que o justo, mais do que poderíamos em tese. Bom sujeito, o artista; voz de locutor, pintor, desenhista, homem de pluralidade intelectual visível. Merece ser revisto. Tempos depois, foi para o balcão conversar com a proprietária da casa.
Quando falávamos, eu e os poetas recordávamos de acontecimentos da tenra adolescência: escoteiros basicamente acampam e é justamente este tipo de evento, o acampamento, que serve de roteiro para as melhores histórias, nem todas publicáveis. Ora, um sujeito que quase toma tiros sem querer; ora, o nem tão amistoso encontro com cobras venenosas na mata. Uma ou outra menina linda que tenha pertencido ao belo movimento que, se teve lá seus problemas devido à natureza em que foi concebido, para mim serviu como grande lição de vida, que comigo trago permanentemente. Lideranças curiosas, dificuldades, fome, muitos risos; diz o escotismo que os de sua estirpe sorriem nas dificuldades - lembro sempre disso como um dos maiores desafios da humanidade. Aprendi outras coisas também e tento vivenciá-las ao máximo: não apenas ser bom, mas também fazer o bem; não esperar gratidão; tomar iniciativas em determinados casos; praticar honestidade. Creio que, se tivesse violado com firmeza algum destes itens, talvez eu estivesse "melhor de vida", como se diz popularmente. Não lamento, melhor assim: recordo Darcy Ribeiro em um grande discurso, algo como "detestaria estar no lugar de quem me derrotou". Verdade.
Algumas garrafas foram esvaziadas. Acampamentos em voga ainda, voltei no tempo em exatos vinte e um anos.
Escoteiros organizam acampamentos com suas gentes de todo um Estado, ou mesmo Estados nacionais. No caso federativo nosso, brasileiro, a reunião nacional tem o nome de Ajuri, termo indígena que significa agrupamento, reunião. Fui num desses, era 1985, outro Rio de Janeiro, outro Brasil, outro São Paulo. Foram dez dias em Cotia, cidade anexa à capital paulista. Não sei explicar ao certo, mas o momento em que sinto-me quase paulistano é quando, na Dutra, avisto o velho estádio do Canindé à esquerda e, pelo noroeste, um sem-par de arranha-céus com a tradicional nuvem cinza fazendo vezes de cobertor da cidade. Tive essa imagem muitas e muitas vezes, mas a daquela vez, indo para Cotia, foi especial. Era a primeira vez em minha vida que eu saía do Rio de Janeiro.
O Ajuri era um mundão. Exércitos de gentes; poderiam parecer estranhos, mas não - quase todos cumprimentavam uns aos outros. As meninas, principalmente. Ganhavam sempre elogios bons dos maduros homens cuja faixa etária estava compreendida entre quatorze e dezessete anos. Os grupos misturavam-se; fiquei com os amigos do Monteiro Lobato, turma da Tijuca, amigo nosso de lá exagerou um pouco no cognac, foi temporariamente hospitalizado. Escoteiros também infringem regras. Dia seguinte? Mil maravilhas.
Banho era algo difícil por no Ajuri, embora absolutamente necessário como em qualquer outro logradouro. Água gélida com temperatura ambiente perto dos cinco graus. De toda forma, sempre valia a pena. Comida, era honesta, em qualquer horário. Justa.
Num dos dias, a escoteirada teve um dia de trabalho voluntário pela cidade. Dez mil rapazes e moças, ajudando a turma pelos arredores. Nunca mais vivi nada parecido, perto da unha só quando trabalhei como voluntário - e escoteiro ainda - no tempo das enchentes do Rio de Janeiro, creio que 1988. Falando de Cotia, fui escalado para trabalhar num orfanato, o primeiro em que entrei na vida também. Vida de escoteiro é cheia de primeiras vezes. Para mim, ainda é muito fácil relembrar aqueles momentos: a alegria que as crianças estamparam nos rostos quando chegamos, as brincadeiras, os jogos, os presentes que a eles demos mediante arrecadação prévia. Na hora do almoço, tenho certeza de que a comida não era das melhores; afinal, passei anos e anos cultivando o paladar com a ultra-baixíssima gastronomia. Olhei para os lados. Estavam todos felizes. Ignorei a qualidade do prato, voei baixo, senti-me felicíssimo também e foi muito bom. Houve um momento triste, sim: um rapaz, magriço e negro, por perto dos seus dezoito anos, soluçara para alguns de nós, contando que estava no fim da linha no abrigo; feito aniversário, teria que deixar o orfanato. Não tinha o rosto entristecido; entretanto, os olhos, sim, olhos que até hoje me fazem chorar. Alguém o abraçou. Éramos todos garotos, outra cidade, outro país. Ninguém pensou numa solução, mesmo que remediadora. Confortei-me quase ao fim do dia, quando passei pelo berçário antes de me despedir: três ou quatro bebês dormiam tranquilos, serenos, sem imaginarem o que seria vida pela frente. Deixei-me tomar pela paz.
A despedida do Ajuri foi num domingo ensolarado. Creio que por volta de duas horas da tarde. Foi muito bonito ver aquele batalhão de jovens como eu, correndo pelos campos, rindo, chorando, confraternizando.
A dez minutos da saída do ônibus que traria nossa turma de volta para a Guanabara, experimentei um dos momentos ímpares de minha vida. Dado fim da festa, milhares e escoteiros procuravam uns aos outros para trocares seus lenços de pescoço, gesto de fidalguia comum em efemérides como aquela. Eu caminhei metros e metros com o meu, amarelo, na mão; estranhamente, apesar do gesto, não se configurava minha intenção de procurar alguém para fazer a troca, talvez por que eu estivesse um pouco chateado com o fim do acampamento, um gosto de quero mais, saudade mesmo só tinha de minha mãe. Poucos passos antes de chegar ao ônibus, uma menina puxou meu braço e pediu para trocar os lenços. Parei. Vejo ainda seus cabelos negros, brilhantes a tocar os ombros, muito lisos; vejo os olhos verdes, mais brilhantes ainda, dois riachos d'água doce; vejo a pele, de uma brancura européia, sardenta, que só revivi posteriormente ao fitar minha amiga Luciene Magnani. Uma bonequinha. Era do Paraná.
Quase não usamos palavras: disse-lhe um sim, ela sorriu; entregamos lenços um ao outro, agradeceu-me. Quando veio o tradicional silêncio na conversa entre duas pessoas que não se conheciam, ela puxou-me para um abraço. Corei. Calei. Encostou a cabeça em meu peito e lá ficou. Um minuto, contei imaginariamente. Perto de nós, outros amigos meus viam e ficavam de boca aberta: era provável que fosse a menina mais bonita a cinco quilômetros de distância em qualquer raio. Éramos cercados de silêncio, de compaixão. Acho que muitos ficaram esperando um beijo que não aconteceu, que jamais aconteceu. Minuto finado, sorriu para mim, deu as costas, partiu para o infinito. Não eram tempos de hoje, tempos de e-mail e telemóvel, nada. Perdi seu nome. Seu contato. Ficou apenas a beleza do momento. Eterno.
Parei de sonhar, falei baixo, os poetas riram.
A última cena era da menina linda, sem dúvida. Ocorre, contudo, que não era a única, a beleza da mulher somente. Era a beleza do gesto, infalível. Era a beleza do amor. O amor que morava nos olhos de riacho, nos cabelos de grafite, mas também nos folguedos da petizada e no soluçar do amigo do orfanato. O amor nos abraços, nas trocas de lenços, na viagem, nas noites de campo.
Mais à frente, o artista que nos caricaturou despedia-se.
Os poetas se abraçaram, hora de ir embora. Conversa nostálgica, cogitou-se até um novo acampamento de brincadeira, reviver os grandes anos d'outrora. Despedimo-nos por ali.
Em instantes, adentrei casa. Vi a linda mãe, o irmão. Era tudo calmaria. Banho, comida, noticiário, deitei-me. Meu teto parecia solo lunar, mar da tranquilidade, onde eu bem gostaria de pisar sem voar. Um pontinho minúsculo dele trouxe-me outra vez o doce, o melhor prazer daquele abraço de mulher, de um minuto que, daquele jeito, nunca mais experimentei. Eu, que tantos abraços ganhei, que tantas vezes tentei, daquele nunca mais me esqueci. Um abraço que não tem nome, nem endereço.
Apenas monumento de amor que invade-me sempre.
Quase adormeci.
Paulo Roberto Andel, 24/11/2006
Thursday, November 23, 2006
Da brevidade
passo e reparo, paro e penso
vejo a avenida cheia de gentes, desencantos, desacatos
são dias de guerra sem paz, confronto, morte fugaz
quando vem a próxima esquina, o tempo assalta-me
somos batalhões de estranhos, agressivos, quase inúteis?
sim
por conta de uma vida breve, rasa, inútil paisagem da canção
Paulo Roberto Andel, 23/11/2006
vejo a avenida cheia de gentes, desencantos, desacatos
são dias de guerra sem paz, confronto, morte fugaz
quando vem a próxima esquina, o tempo assalta-me
somos batalhões de estranhos, agressivos, quase inúteis?
sim
por conta de uma vida breve, rasa, inútil paisagem da canção
Paulo Roberto Andel, 23/11/2006
Infeliz ano velho
Por agora, somos apenas nós dois
Eu e tu, nosso aguardado confronto
Tenho mais tempo, ao teu contrário
Não cabe a ti mais o velho poder
É tua vida que escorre feito areia
Duma ampulheta revirada na estante
Batalhas foram tuas, guerra é minha
Agistes como o pior dos carrascos
Dei-te esperança, dor foi meu troco
Pavor, morte, desilusão e lágrimas
Mas nada, nada rompe a eternidade
Lembre de minha mão a ti estendida
Agradecida com soco no estômago
Hoje, meu vômito é cada palavra
Enquanto respiras ofegante, difícil
Roubastes meu encanto d'alegria
Fostes silêncio em minha mansa voz
Porém, vida é sentença de mudança
Teus últimos momentos são duros
Enquanto deleito-me, redivivo em luz
A última porta aguarda-te com vigor
Quando saístes, bata com toda força
De modo que a maçaneta emperre só
Não me aniquilastes, foi tua derrota
O infinito te espera com sarcasmo são
E agora vejo o quanto eras fraqueza
Tua ilusão foi achar-me fraco, frágil
Dos escombros, renasço gigantesco
Teu lugar terá mais digna ocupação
Do novo ano, sou conselheiro e tutor
Humilhar-me e atingir-me cruelmente
Agora é muco em teu rosto no caixão
Paulo Roberto Andel, 23/11/2006
Eu e tu, nosso aguardado confronto
Tenho mais tempo, ao teu contrário
Não cabe a ti mais o velho poder
É tua vida que escorre feito areia
Duma ampulheta revirada na estante
Batalhas foram tuas, guerra é minha
Agistes como o pior dos carrascos
Dei-te esperança, dor foi meu troco
Pavor, morte, desilusão e lágrimas
Mas nada, nada rompe a eternidade
Lembre de minha mão a ti estendida
Agradecida com soco no estômago
Hoje, meu vômito é cada palavra
Enquanto respiras ofegante, difícil
Roubastes meu encanto d'alegria
Fostes silêncio em minha mansa voz
Porém, vida é sentença de mudança
Teus últimos momentos são duros
Enquanto deleito-me, redivivo em luz
A última porta aguarda-te com vigor
Quando saístes, bata com toda força
De modo que a maçaneta emperre só
Não me aniquilastes, foi tua derrota
O infinito te espera com sarcasmo são
E agora vejo o quanto eras fraqueza
Tua ilusão foi achar-me fraco, frágil
Dos escombros, renasço gigantesco
Teu lugar terá mais digna ocupação
Do novo ano, sou conselheiro e tutor
Humilhar-me e atingir-me cruelmente
Agora é muco em teu rosto no caixão
Paulo Roberto Andel, 23/11/2006
Tuesday, November 21, 2006
Nosotros
Somos nós, pela tarde ligeira, singelos nus
Um disco d'outrora toca uma bela canção
E tem vento firme prenunciando a chuva
Vejamos o teto, com rugas de piso lunar
O telefone? Ah, que rigue até madrugada
Deitados, somos nosso próprio feriado
Somos dia de rara paz no planeta dor
Por vezes, vejo-te calma, já repousada
E cogito afagar teu rosto com mão leve
Miro baixo, teu colo, teus seios, âmbar
Tudo faz silêncio, exceto a imaginação
Nela, eu cruzo quaisquer praias do forte
Desertas, observadas pela velha cúpula
Não há mais tiros, nem guerra ou paz
Teu sono manso sequer me desconfia
Dos oito mil dias que permaneces linda
Louca, linda, quente, marinha, tímida
Paulo Roberto Andel, 21/11/2006
Um disco d'outrora toca uma bela canção
E tem vento firme prenunciando a chuva
Vejamos o teto, com rugas de piso lunar
O telefone? Ah, que rigue até madrugada
Deitados, somos nosso próprio feriado
Somos dia de rara paz no planeta dor
Por vezes, vejo-te calma, já repousada
E cogito afagar teu rosto com mão leve
Miro baixo, teu colo, teus seios, âmbar
Tudo faz silêncio, exceto a imaginação
Nela, eu cruzo quaisquer praias do forte
Desertas, observadas pela velha cúpula
Não há mais tiros, nem guerra ou paz
Teu sono manso sequer me desconfia
Dos oito mil dias que permaneces linda
Louca, linda, quente, marinha, tímida
Paulo Roberto Andel, 21/11/2006
Thursday, November 16, 2006
E la nave va
Vazio d'alma, tão desamor
Que deságua em turvo mar
Deitado com manto do céu
Num preto que brilha a mil
É perder todos os sentidos
Desmaiar, desfalecer ao léu
Sem o êxtase voraz da morte
Menos ainda deleite de sexo
Vazio d'alma é vácuo da vida
Contida em reles conta-gotas,
Abarrotada de meticulosidades
Mas perdida feito um sozinho
Que investiga as multidões e ri
Aplaude, brada, escandaliza
Para depois cair em silêncio
O silêncio que não é de calma
Silêncio de perda, de ausência
Pouco importando a mulher
Que lhe escorteia solenemente
É tudo vazio, escasso, fugaz
Alma negra, esparsa, vadia
Vazia
Paulo Roberto Andel, 16/11/2006
Que deságua em turvo mar
Deitado com manto do céu
Num preto que brilha a mil
É perder todos os sentidos
Desmaiar, desfalecer ao léu
Sem o êxtase voraz da morte
Menos ainda deleite de sexo
Vazio d'alma é vácuo da vida
Contida em reles conta-gotas,
Abarrotada de meticulosidades
Mas perdida feito um sozinho
Que investiga as multidões e ri
Aplaude, brada, escandaliza
Para depois cair em silêncio
O silêncio que não é de calma
Silêncio de perda, de ausência
Pouco importando a mulher
Que lhe escorteia solenemente
É tudo vazio, escasso, fugaz
Alma negra, esparsa, vadia
Vazia
Paulo Roberto Andel, 16/11/2006
Monday, November 13, 2006
Bagdad Café
Eu e meu café discreto
Quase adoçado, firme
Quente feito um alívio
Na porta do Miramar
Somos companheiros
Reparando um dia
A tarde prata
Cinza de opaco
Que deixa recolhidos
Certos contribuintes
Justos beneficiários
De incentivos fiscais
São menos carros
Pouca gente n'orla
Um jeito de inverno
Cabe humanização?
Sem exageros, penso
Existem locais lotados
Mesmo sob a garoa
Marquises ou sinais
Esquinas, portas de banco
Praças sem grades
São cidades ao léu
Com famintos habitantes
A morar nas ruas sem nome
Nas casas sem paredes
Ou números
Era para ter sol de verão
Talvez nuvens de outono
Mas parece cor de inferno
Céu de Araras, Inferno Maré
Palafitas hoje são outras
Na imensidão, desproporção
Feito se coubesse num só lugar
Vitrines de Nova York
Miséria duma Etiópia
Violência de Bagdad
Por fim, nada me engana
É tudo muito Guanabara
Paulo Roberto Andel, 13/11/2006
Quase adoçado, firme
Quente feito um alívio
Na porta do Miramar
Somos companheiros
Reparando um dia
A tarde prata
Cinza de opaco
Que deixa recolhidos
Certos contribuintes
Justos beneficiários
De incentivos fiscais
São menos carros
Pouca gente n'orla
Um jeito de inverno
Cabe humanização?
Sem exageros, penso
Existem locais lotados
Mesmo sob a garoa
Marquises ou sinais
Esquinas, portas de banco
Praças sem grades
São cidades ao léu
Com famintos habitantes
A morar nas ruas sem nome
Nas casas sem paredes
Ou números
Era para ter sol de verão
Talvez nuvens de outono
Mas parece cor de inferno
Céu de Araras, Inferno Maré
Palafitas hoje são outras
Na imensidão, desproporção
Feito se coubesse num só lugar
Vitrines de Nova York
Miséria duma Etiópia
Violência de Bagdad
Por fim, nada me engana
É tudo muito Guanabara
Paulo Roberto Andel, 13/11/2006
Thursday, November 09, 2006
Fênix
Amor, gigante amor
Com vinte voltas em torno do sol
Dois mil companheiros
Vinte parceiros, cinco amigos
Mais três medalhas de bronze
Amor de idas e vindas, muitas
Silêncios e vozes bravias, limpas
Caos e calma num mesmo lugar
Amor que justifica o recolhimento
A própria morte tão inverídica
E transmuta-se, subverte a si somente
Busca outra moradia, outro pantheon
Um novo e discreto grande coração
Pula entre galhos e trilhas, desbrava
Amor que o mar leva, inunda forte
Até que evapora, voa, viaja em mansidão
Carregado pelas brisas indomáveis
Passa mundos e, inesperadamente
Revigora-se com o maior infinito
Bastando a a mais singela palavra
Um ato, um gesto quase impensado
Fala de seu próprio nome, de amor
E torna-se fênix de asas brancas, ligeiras
Paulo Roberto Andel, 09/11/2006
Com vinte voltas em torno do sol
Dois mil companheiros
Vinte parceiros, cinco amigos
Mais três medalhas de bronze
Amor de idas e vindas, muitas
Silêncios e vozes bravias, limpas
Caos e calma num mesmo lugar
Amor que justifica o recolhimento
A própria morte tão inverídica
E transmuta-se, subverte a si somente
Busca outra moradia, outro pantheon
Um novo e discreto grande coração
Pula entre galhos e trilhas, desbrava
Amor que o mar leva, inunda forte
Até que evapora, voa, viaja em mansidão
Carregado pelas brisas indomáveis
Passa mundos e, inesperadamente
Revigora-se com o maior infinito
Bastando a a mais singela palavra
Um ato, um gesto quase impensado
Fala de seu próprio nome, de amor
E torna-se fênix de asas brancas, ligeiras
Paulo Roberto Andel, 09/11/2006
Choro ambulante
Nestes dias de horário de verão, a cronologia artificial dá outros tons às coisas de rua, visões e panoramas diferentes. Seis da tarde não é bem seis, sim cinco. Mais ou menos por aí.
Era eu margeando uma lateral da Praça da República, que também é o Campo de Santa Ana, sem muita pressa de ir à academia de ciências. Sempre gostei de ver, desde criança, os bichos em saudável harmonia. Marreco, pato, cotia, gato, todo mundo junto como deveria ser sempre em nichos humanos - e que sabemos não ser. Parecem todos amigos em nossa visão que insiste em tornar tudo muito humano. Amizade e carinho não seriam bem os termos; agora, que há uma razoável respeitabilidade entre as turmas da natureza, facto é.
Da esquina de Vinte de Abril com Frei Caneca até a rua dos Inválidos, o que não falta é a bicharada satisfeita caminhando pelos verdes de Santana. Melhor quando chega o fim da reta: tem um colégio de infância dentro do parque. Criançada correndo para ver as mães na saída, mais bichos, brinquedos, tudo atenuante para um exaustivo dia de trabalho. Ver alegria de crianças acalma, alivia e alumia.
Exatamente o que eu queria. Mais do que isso, precisava. Calma e alegria, mesmo rasantes.
Pouco depois da metade da lateral percorrida e muitos bichos legais à vista, a mesma que dá frente ao histórico quartel dos bombeiros, tendo já passado o portão que fica sempre lacrado, cheguei a um ponto de ônibus, cheio de gentes, todos na ânsia das conduções, da volta para casa, outros lugares. Um batalhão de estranhos, ninguém conversava. Há quem pegue os mesmos coletivos todos os dias, nos mesmos horários, uns reconhecendo a fisionomia dos outros, mas nada de prosa. Brasileiros. Silêncio de vozes, barulho de motores em arranque, tudo misturado à poeira emergente do chão. Foi quando certa imagem deixou-me estático por segundos.
Um rapaz, apoiado na lata de lixo, chorava compulsivamente. Num dos braços, tinha um carregamento de balas, donde supus ser um ambulante; noutro, base de apoio na caçapa de plástico laranja.
Aproximei-me e perguntei se poderia ajudar em algo. Não perguntaria jamais o porque de estar chorando, coisa que abomino com todas as forças. Quem chora tem motivo na maior parte das vezes, excetuando-se corruptos, bandidos e outros desclassificados. O moço tinha, mas não me disse; falou apenas que era nada não, mas continuava a chorar. Insisti. não deu certo. Manteve-se impassível, não era nada que eu devesse me preocupar, reiterou. Agradeceu, em prantos.
Ao redor, populares fitavam-me quase assustados, mas absolutamente calados, com certa nuvem de repreensão. Manifestações, somente na expressão dos olhos. Senti certa curiosidade: eu não deveria ter abordado um desconhecido que chorava porque ele estava com vestes humildes e eu, nem tanto? Não caberia apartar um transeunte por não saber de quem se tratava?
Segui em frente. Dez passos depois, olhei para trás. O rapaz já se recompusera, nem encostado na lata estava. Continuaria seu martírio de honestidade e venda das balas, imagino. Tudo quase normal, feito o silêncio dos alheios parados no ponto.
Dois marrecos, duas cotias, três lágrimas e um gato depois, chegou a escolinha. Uma patrulhinha de crianças, todas de camiseta laranja, cor igualzinha à daquela lata de lixo, indo e vindo para os braços dos responsáveis. Era fim de expediente. Fim de tarde. Fim de jornada.
Dobrei a esquina. Deixei o Campo de Santa Ana para trás. Hora de ciências.
Dia desses, tem mais patos pelo caminho, mais crianças, mais noites com cara de dia. Mais gente nas ruas, gente de verdade, gente de querer bem.
Menos lágrimas, assim espero.
Paulo Roberto Andel, 09/11/2006
Wednesday, November 01, 2006
Isabel
Louvado seja
O amor sagrado
Que desnuda-se
Com tua aparição
És firme procissão
Ao passo que eu
Humilde servo
Peregrino
Encanto-me, tão menino
Com tua também juventude
Teu discurso que é canto
Para orixás na beira do mar
Teu quebranto enfeitiçante
Amedrontador
Doce, cativante
Perfume de rosa do bouquet
Escarlate
Vem a mim de face tranquila
Delicada feito a suave brisa
Pela tarde da João Caetano
Engana-se tolo que não vê
Quando passas, provocante
E o pensamento, reticente
Viaja por todos os poros de ti
Paulo Roberto Andel, 01/11/2006
O amor sagrado
Que desnuda-se
Com tua aparição
És firme procissão
Ao passo que eu
Humilde servo
Peregrino
Encanto-me, tão menino
Com tua também juventude
Teu discurso que é canto
Para orixás na beira do mar
Teu quebranto enfeitiçante
Amedrontador
Doce, cativante
Perfume de rosa do bouquet
Escarlate
Vem a mim de face tranquila
Delicada feito a suave brisa
Pela tarde da João Caetano
Engana-se tolo que não vê
Quando passas, provocante
E o pensamento, reticente
Viaja por todos os poros de ti
Paulo Roberto Andel, 01/11/2006
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