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Friday, May 05, 2017

Los justiceros virtuales

Eles estão por toda a internet.

São faiscantes.

Coquetéis molotóvi arremessados em moto contínuo. 

Defensores da ordem e da moral. Gente impoluta acima do bem e do mal, inquestionável, senhora da razão, latifundiária da verdade. 

Ai de quem discorde deles. A destruição é fascínio. Ameaças, intimidações e outras expressões típicas do totalitarismo travestido de "opinião". 

Infalíveis, precisos, mortíferos com suas frases de 140 caracteres ou textões que mais parecem tentativas de choques de ordem num grande deserto de ideias. Por ironia este é também um textão. 

A versão tupiniquim de "Social Justice Warriors", SJW, devidamente traduzida para Justiceiros Sociais - JS. Virtuais. Reais. Tanto faz. 

Por trás de algumas eventuais boas intenções, muitas vezes existe a confusão de virulência com convicção e de verborragia com sofisticação argumentativa, características marcantes de quem pretende na verdade oprimir os outros em vez de convidá-los ao papel de leitor, ouvinte, integrante da dialética. "Em defesa da liberdade, eu oprimo". Já dizia o grande artista Enrico Bianco: "A única coisa importante no homem é a sua contradição". Quem se lembra do ditador Figueiredo? "Anistia ampla, geral e irrestrita; quem for contra, eu prendo e arrebento"...

E odeiam, odeiam, odeiam qualquer pessoa que não os aprovem 100% em suas teses nem sempre construídas em momentos de lucidez física, ou nem sempre baseadas em nobres intenções.

Em suas manifestações, em geral o outro é apenas um acessório, um número na grande plateia virtual, cuja disposição deve ser a de ratificar e aplaudir. Um degrau. Caso contrário, morte na fogueira. Racista, fascista, bandido, corrupto et cetera. 

Estão na esquerda, na direita, no centro, no velho, no novo, nas religiões. E explicam muito do que o Brasil se tornou nestes dias de 2017.  Muito mesmo. 

Às vezes parecem militantes políticos, noutras vezes singelos estafetas, noutras apenas suicidas verbais. Mas não se pode negar a coragem - ou a audácia - de expor em público as verdadeiras barbaridades que publicam e/ou compartilham. Em alguns casos, o problema é que não há como não se perceber o tempero que acompanha o prato: a covardia oportunista. 

E quando odeiam a expressão de alguém, o comportamento é padronizado: copiar o dito e escrito para seus semelhantes de virulência, até que seja feita a grande redenção moral por meio de linchamento virtual - Tom Zé, inacreditável vítima deste processo, respondeu com a brilhante canção "Tribunal de Feicebuqui".  

Justiceiros virtuais, a versão cibernética do que já acontece há séculos no Brasil e no mundo, desde os tempos das espingardas até os fuzis de hoje em dia. Os teclados simulam a opressão vista em inúmeras comunidades do país. O que dizer das legítimas áreas indígenas e de tantas outras questões?

Xerifes da opinião. Patrulheiros da manifestação em defesa da pátria, contra a corrupção, contra ou a favor do golpe, contra a ditadura (dos outros). 

Pensando bem, por mais agressivo que seja este cenário de internet - e é -, especialmente nas redes antissociais, ele seria até genuíno se escondesse em alguns casos as verdadeiras intenções dos justiceiros sociais. Em várias ocasiões, elas são bem mais simplórias do que a aparência agressiva da verborragia caudalosa de murais, blogs e outros espaços virtuais. 

Por trás desta cortina de virulência, ódio e verborragia xiita que hoje se espalha pelo Brazil, também batem corações sedentos por láiques, retuites, divulgação da marca pessoal, alívio da carência sentimental, busca de espaço midiático, sensação de poder, inveja, oportunidades profissionais e de outras naturezas. A própria aceitação, ironicamente calcada na negação colérica do outro. Melhor dizendo, recalcada. O desamor em busca do amor.

No fim das contas, um monte de ódio na briga por ser visto/vista, lido/lida, admirado/admirada. Nada muito diferente dos Big Bros da vida. 

O já saudoso Belchior cantava lindamente que o novo sempre vem. Sôfrega e humildemente, aguardamos com alguma esperança. 

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